Poesias de 1 a 99

Poema #04: Flor no Asfalto

Chamam de resiliência
essa palavra polida,
de palco e de LinkedIn,
que ensina a atravessar ruínas
com a coluna ereta.

Resiliência:
dizem ser força,
dizem ser método,
dizem ser quase virtude corporativa.

Mas outro dia
ela me apareceu diferente —
não em gráficos,
nem em discursos bem ensaiados,

mas numa fresta de asfalto:

uma flor.

Pequena, improvável,
sem plateia, sem legenda,
rompendo o cinza
com a delicadeza de quem não pede licença.

Ali estava tudo.

Porque a terra sabe:
depois da seca,
depois do frio,
depois daquilo que parece fim,

há sempre um retorno
silencioso.

Um recomeço que não se anuncia,
apenas acontece.

E então pensei
nos nossos desertos particulares —
esses dias antes do aniversário,
quando o mundo pesa mais do que devia,
quando o acaso tropeça na gente
vez após vez,

e por dentro
a paisagem racha.

Mesmo ali,
no chão duro do cansaço,
algo insiste.

Uma espera sem nome,
quase teimosa,
como quem já sabe
que a chuva vem.

Lembro, então, de Sérgio Britto,
na voz dos Titãs,
em Enquanto Houver Sol —

quando tudo parece gasto,
quando até a ilusão se recolhe,

ainda assim,
em algum lugar mínimo,
sobrevive

uma infância.

Talvez seja isso.

Resiliência não é pedra.
Não é rigidez.

É chama.
É o quase nada que permanece
aceso o suficiente
para, um dia,

florir —

mesmo
sobre o asfalto.

Ana Helena Reis

Ana Helena Reis é paulistana, pesquisadora e empresária, com extensa produção de textos acadêmicos. Em 2019 começou a se dedicar à escrita literária e à ilustração de seus textos em prosa: contos, crônicas e resenhas, relacionados a fatos e situações do cotidiano. Publica em seu blog, Pincel de Crônicas, em coletâneas, e revistas eletrônicas. Em 2024 lançou seu primeiro livro solo, Conto ou não conto, pela editora Paraquedas/Claraboia, e, em Espanhol, Inquietudes Crónicas, pela editora Caravana/Caburé.

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