Crônicas Cariocas

  • O entregador

    O café esfriava enquanto eu assistia à saga do entregador, em frente à portaria, tentando descarregar do furgãozinho um pacote grande e pesado. A situação era cômica: ele andava de um lado para o outro, movia a encomenda pra lá e pra cá, e terminava sempre com a mão no queixo, pensativo. Por certo, não tinha carrinho de transporte nem experiência.

    O porteiro não deixou a guarita e certamente nem pensou em ajudar. Aliás, complicaria um pouco a vida do coitado, pedindo todas as referências possíveis para atrasar ainda mais o recebimento da encomenda, com cara de quem comeu e não gostou. Ele é bastante conhecido no condomínio, faz o tipo que reclama de tudo. Arrisco a dizer que se ganhasse na Mega-Sena, reclamaria três dias seguidos por ser obrigado a se apresentar no Banco para receber o dinheiro. Depois, reclamaria dos familiares e amigos, eternos pedintes. Depois, é óbvio, arrumaria outra e mais outra e mais outra coisa para reclamar. Um reclamante assíduo, crônico. Confesso, às vezes me pareço com ele.

    O velho do 101 apareceu, retornava do passeio matinal com o seu companheiro canino. Pois bem, vendo a situação do entregador, se ofereceu para ajudar, mas o cachorro pulou para dentro do furgão e causou um baita alvoroço. Imagino que quase nada lá dentro se manteve no lugar, o próprio furgão chegou a balançar com o cão pulando entre as encomendas. Os dois demoraram um bocado para capturá-lo e, logo depois, o entregador agradeceu e dispensou a ajuda com um sorriso amarelo. É claro, não consegui ouvir palavra alguma, mas me era tudo tão nítido que eu poderia narrar a situação como se estivesse sentado o tempo todo no banco do carona.

    Quando lembrei do café já era tarde. Pois é, talvez eu tenha perdido a hora bisbilhotando a vida alheia. Nem sequer olhei para o relógio, peguei rápido a mochila e fui para o trabalho. Como de praxe, o porteiro não respondeu ao meu bom-dia. Quando passei pelo furgão, ainda estacionado na frente do prédio, percebi o entregador empilhando caixas lá ao fundo e, estampado com letras garrafais, na incômoda e pesada encomenda, o meu nome.

  • Serena

    Serena entrou no meu mundo por acaso – se é que posso acreditar em acaso; não estou tão seguro assim. Eu não pretendia adotar, essa era uma máxima que construía na minha cabeça pelo fato de ter um primo adotado que sofreu com vários transtornos por não o aceitar. Wilson, o nome dele, tentou se matar umas duas vezes, mesmo recebendo o apoio dos meus tios para tudo. Ele era depressivo em grau máximo e bipolar. Mas isso agora não vem ao caso… Voltemos: desde muito cedo, queria ter a minha família, com filhos biológicos. Mas Nazaré apareceu. Ela veio trabalhar em casa, recém-chegada do interior, e nós não sabíamos que ela estava grávida. Ela escondeu até onde pôde, mas logo começaram os enjoos, e Nazaré, revoltada com o pai da criança que esperava, dizia que iria abortar. Flávia e eu não deixamos. Foi um deus nos acuda, porque Nazaré falava que não queria ser mãe aos dezessete anos; que sabia da vida difícil que levara, com oito irmãos, no interior; que mulher parida é desprestigiada pela sociedade, como sendo mulher da vida ou algo do tipo. Ficávamos no seu pé todos os dias, convencendo-a de que uma criança é uma dádiva, uma bênção, com todos os argumentos que tínhamos. Foi difícil, quase impossível de segurar a revolta da mãe. Então, me prontifiquei a ficar com Serena – o nome que escolhemos; já um prognóstico para serenar as nossas vidas, tão agitadas –, disse a ela que a menina seria muito bem-criada, teria, certamente, uma vida bem diferente da que Nazaré teve. Nazaré aceitou a proposta, sempre reclamando por estar grávida, pelo peso e tudo o mais para fazer as tarefas de casa, das quais a dispensamos. Veio a sua irmã Lucila para ajudar nos afazeres domésticos. Serena nasceu, e, como esperado, foi enjeitada pela mãe; sequer recebeu a primeira amamentação. Logo, Flávia e eu a pegamos para criar, nos idos de 80, e registramos como nossa filha, com o inteiro consentimento da mãe – o que se chama de adoção à brasileira. Não havia essa burocracia que há hoje. Serena caiu perfeitamente em nossos braços, arrebatados que estávamos por sermos pais. Depois de Serena, felizmente Flávia engravidou duas vezes, e tivemos Serginho e Paulo Filho. A família estava completa. Nazaré continuou conosco e passou a ter uma relação melhor com a filha biológica, ainda que não quisesse ter as responsabilidades de mãe. Nazaré marcava uma diferença grande na relação com a pequena, que a amava. Serena hoje só nos dá orgulho: é formada em engenharia pelo ITA e trabalha num centro de tecnologia em Orlando. De seis em seis meses, ou ela vem nos visitar, ou vamos vê-la. O amor é infinito; não cabe no peito e no pensamento. Ela é minha princesa e meu encantamento. Nasceu justamente para ser a nossa filha amada.

  • Adalberto, O Invejoso

    Dizem por aí que o Sr. Adalberto de Castro venceu na vida. Conforme seu obituário, esse dedicado empresário do setor têxtil aprendeu, desde cedo, o valor do trabalho. Ainda menino, começou a trabalhar como engraxate. Sem muito tempo para frivolidades, abandonou os estudos e foi tentar a sorte na cidade grande. Apesar dos inúmeros percalços, tornou-se um reverenciado empresário, dono de várias indústrias espalhadas pelo País. Para a opinião pública civilizada, um visionário empreendedor. Para seus bárbaros detratores, um capitalista sem escrúpulos.

    Não se sabe, exatamente, o que levou Adalberto a tal precoce desfecho. Dizem que trabalhava muito. Era deveras devotado à administração de suas empresas. Sentia prazer em dar ordens a seus subordinados. Mas, nos últimos anos, os negócios já não iam mais de vento em popa. Por certo, tudo piorou desde que o atual governo tomou posse! Afinal, suas qualidades como gestor e administrador eram irrefutáveis. Com o tempo, as duplicatas acumulavam-se, os fornecedores exigiam a quitação de suas dívidas, os gerentes de banco, antigamente tão solícitos e atenciosos, já não o tratavam com a mesma deferência. Ainda assim, continuava a ser um distinto cidadão, pois aos aduladores de sempre interessavam menos os balanços patrimoniais de suas empresas do que o status de sua persona.

    O que poucos sabiam, no entanto, é que Adalberto era um homem invejoso. Não tinha inveja de seus concorrentes, visto que nenhum deles dispunha do mesmo tino comercial que a sua intuição foi capaz de agraciar-lhe. Para surpresa até mesmo dos mais íntimos, o que seus penetrantes olhos escuros não revelavam era o ciúme que nutria das pequenas conquistas de seu primo Felisberto Leão. Homem simples, de temperamento tranquilo, com aquele olhar irritante de um bovino em engorda, Felisberto representava tudo o que era, simplesmente, inatingível para Adalberto. Tinham quase a mesma idade, costumavam brincar juntos quando crianças. Felisberto era daqueles medíocres que tão comumente conhecemos aqui e alhures. Não era bom nos esportes, não tocava nenhum instrumento musical, não sabia dançar. Mas teimava em ser feliz! E o pior: gostava de viver naquele fim de mundo! Não tinha grandes pretensões, não pensava no amanhã, não planejava seu futuro.

    Esse comodismo indolente de Felisberto irritava, profundamente, Adalberto – pessoa inquieta, insatisfeita e gananciosa. Após a mudança deste para a capital, os dois parentes afrouxaram o laço de sua antiga amizade. Raramente se viam, mas o bem-sucedido empresário recebia, com certa frequência, notícias de seu primo por meio de sua irmã mais velha. Nada o deixava mais amuado do que um compromisso indelegável em sua cidade natal. Mas as suas origens teimavam em se revelar na curiosidade com que perguntava de seus antigos conhecidos. Como quem tentasse manter velhos sentimentos enterrados sob a fleuma de um rico homem de negócios, Adalberto lutava para manter uma certa distância de seu passado pobre e interiorano.

    Tudo isso fora, enfim, desfeito quando a notícia da morte de Adalberto de Castro difundiu-se por aquelas duas cidades. Passado e presente convergiram para as exéquias daquele nobre senhor. Entre lamentos e lamúrias, suas qualidades eram ressaltadas e seus defeitos, ignorados. Todos queriam valorizar o tipo de relação que haviam tido com o falecido – não sendo Felisberto Leão uma exceção entre eles. Para o saudoso primo, Adalbertinho sempre havia sido seu melhor amigo. Esteio moral e financeiro da família Castro, a irmã e seu marido esforçavam-se, também, para mostrar aos alcoviteiros de plantão o quão irreparável seria aquela prematura partida. Mas, como tudo na vida, aquele espetáculo fúnebre chegava ao seu fim. As máscaras eram retiradas, o figurino era guardado, o cenário era desfeito – e o morto era enterrado.

    De volta a sua pequena cidade, Felisberto se dirigiu, como de costume, ao boteco do Seu Manuel. Não querendo mais rememorar lembranças do querido amigo, já que as almas também devem descansar, resolveu abrir o jornal local para inteirar-se a respeito das novidades municipais. Para seu desgosto, o diário havia feito um grande especial sobre aquele filho ilustre. Que piegas, meu Deus! Sua impressão era de que o mundo havia parado para lamentar a morte de Adalberto! Mas já não era mais possível suportar tamanho luto! Basta! A vida exigia resignação e perseverança dos que ficavam! Sendo assim, após revisitar os tantos feitos empresariais do finado, atirou o jornaleco sobre uma das mesas e, entre dois goles de uma caninha, exclamou resoluto:

    — E, além de tudo, aquele filho da puta era feliz! Também pudera! Com todo aquele dinheiro! – Era o desabafo de quem havia vivido sempre à sombra do primo famoso. A partir de então, liberto dos grilhões que o finado havia lhe imposto, nunca mais falou de Adalberto. Leve como uma pluma, sua mente e seu coração foram purgados da inveja que sempre sentiu do endinheirado parente.

  • Desertos

    Os dois esqueletos de um condomínio em construção, voltados para o oeste, acolhem o vento de inverno que rasga as redes de proteção, agora de um laranja desbotado que denuncia o esgotamento de todos os prazos. Assovia por suas entranhas de tijolos cinzentos, cor de sem vida, e ecoa pelos corredores e escadarias e as futuras dependências de 5000 m2 e 800 quartos, o básico de que precisam para viver os que chegarão flutuando sobre tudo e todos, qualquer dia destes. Com suas ideias equivocadas sobre humanidade, graus e degraus.

    De alto a baixo, outra rede de malha fina, como um véu esbranquiçado e vazado de poeira, protege os passantes dos estilhaços de argamassa e blocos, enquanto balança como se fosse um fotograma daquele velho filme sobre prédios que navegam o mundo da contabilidade, do Monty Phyton. A manta que torna invisíveis os corpos que despencam dos andaimes e desaparecem no disco colorido das estatísticas.

    Cá embaixo, neste universo ordinário em que as vidas comuns se colidem, o funcionário baixinho com a aba do seu boné voltada para trás orienta a entrada e saída dos carros no estacionamento junto do metrô. Nos intervalos, dá uma leve polida na sua Mercedes, um Monza Hatch azulado em tons diversos por retoques de spray, e ajusta com chaves de fenda duas caixas de som enormes no espaço do bagageiro. Fala ao celular com sua mulher sobre a feijoada que ela irá deixar no forno, antes de sair para o turno de sábado num hospital na Freguesia, do outro lado da cidade. Coça o rosto cavoucado da idade, passa a flanela para tirar um cisco do teto amassado do carro. Olha para chão junto ao muro e sorri satisfeito. Um sabiá come a quirera espalhada sob uma minúscula edícula que ele tinha arranjado com pedaços de tijolos e uma cobertura de plástico. Um trem emerge por sobre o pontilhão e para na estação do outro lado da avenida. O sabiá estaca por um segundo, um grão suspenso no bico. Não porque o estrondo metálico das rodas sobre os trilhos o incomodasse, mas porque ele percebeu que aquele trem hoje chegara com um minuto de atraso. Em seguida continuou com suas coisas de sabiá.

    O mato cresce sob alguns automóveis abandonados nos fundos do estacionamento, esse deserto, como são desertos as rodoviárias, como é deserto a paisagem daquele velho que fuma, debruçado meio corpo na janela do sobrado espremido entre dois edifícios, do outro lado da rua. Uma senhora desce vagarosamente a rampa do mercado, a bengala na mão esquerda, enquanto com a direita tenta conter o carrinho abarrotado de compras. Elegante, usa sapatinhos cor de rosa e um conjunto de calça e blusa na cor azul turquesa. Colar e brincos de pérolas e anéis prateados nas duas mãos. Uma mulher de cabelos encaracolados vem em seu socorro até que ela consiga sentar-se em um dos bancos perfilados junto a porta de saída. Recupera o fôlego, ergue a cabeça e me olha desolada, como se ponderasse sobre a minha inutilidade de observador. Eu penso em lhe dizer que naquele momento eu rascunhava uma história que iria abalar os alicerces da literatura universal, mas reconsidero. Não é aconselhável dividir segredos com estranhos.

  • Poema #74: ( )

    Suspenso na tarde
    como uma lâmpada queimada
    num porão deserto,
    figura o lado esquerdo
    de um parêntesis aberto.

    Seu estado resulta
    do itinerário de sombras
    em que um homem se perde
    na solidão de seus próprios passos,
    esquecidos sequer sem deixar uma marca.

    Sua abertura demonstra
    a imperiosidade do erro
    que determina sempre
    que as flores se abram para cumprir
    seu papel de beleza e de decomposição.

    O parêntesis aberto no escuro
    não é senão a necessidade
    de se sair do estágio de clausura,
    quando se esgota (ou assim se imagina)
    a fonte de oxigênio íntimo do ser.

    Mesmo quando já se sabe
    que na asfixia de ele estar fechado
    sobrevive pelo menos a sua integridade,
    e abri-lo significa a dispersão da energia
    que ele guarda de si para si como um transistor.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #03: Magia

    O outono deixa cair seu manto branco sobre as montanhas
    Nada mais é nítido, nada mais é real.
    Tudo vira sonho .
    Há magia sob o tecido d’água que misteriosamente pede aconchego.
    Todos são um. Confundidos, ofuscados.

    O outono salpica a noite com estrelas tantas
    O olhar se perde, tudo parece sonho.
    Há magia sob o céu bordado, que misteriosamente provoca suspiros.
    Todos são encantados. Confundidos, ofuscados

    O outono desenha montanhas azul-marinho guardando a cidade
    Nada mais é nítido, nada mais é real.
    O olhar é impedido, tudo parece sonho.
    Há magia nos limites, que misteriosamente convidam à introspecção.
    Todos são iludidos. Confundidos, ofuscados.

    O outono exibe luares que emudecem
    Tudo é nítido, tudo parece sonho.
    Há magia sob a luz delicada, que misteriosamente desperta amantes.
    Todos são tocados. Confundidos, ofuscados.

    O outono azula o dia, clareia até a cegueira
    Tudo é perturbadoramente nítido, tudo é real.
    O olhar é indiscreto, nada é segredo.
    Há magia sob a luz, que misteriosamente revela.
    Todos são desprotegidos, todos são desvendados.

  • Atonais

    Um frango feliz, estampado numa caixa de nuggets.

    Era o que Zími pensava sobre quase todas as pessoas que conhecia.

    E essa imagem bizarra virou uma camiseta usada por sua parceira musical Mila Cox.

    A sensação de certa segurança e conforto que vivia nesse ano ainda não era familiar o suficiente, A sua paranóia consistia no medo que tinha de voltar às condições precárias em que vivia até o ano anterior.

    Zími beirava os cinquenta anos, e entendia que atualmente sua faixa etária poderia significar o fim da linha, ou alguém que resistia a um declínio mais triste.

    A qualidade de vida dependia mais do que nunca de uma segurança financeira insustentável para a maioria.

    Essa maioria se recusava a pensar.

    Eram os frangos felizes na caixa de nuggets.

    Então ele entrou no apartamento que eles dividiam na Rua da Glória, e a viu com a camiseta.

    Estava sentada no sofá assistindo youtube na TV.

    Mila Cox tem vinte e três anos.

    A vizinhança especula muito, mas ninguém sabia nada sobre eles.

    Zími achou a camiseta dela legal, mas nem sabia que Cox havia se inspirado em algo que ele havia comentado usando o frango para ilustrar a cena descrita.

    Zími sempre voltava da rua com o saco cheio. Vestia uma camiseta gasta do Husker Dü, e falou: “O inferno é acordar e perceber que o mundo ainda é o mesmo.”

    Ela respondeu: “Mas pelo menos algumas coisas loucas aconteceram num período curto de tempo. Temos uma banda chamada Crop Circles, e quando escolhemos esse nome, era impensável que Donald postasse aquela foto dele com o ET.”

    Zími entrou no banheiro, e olhou no espelho enquanto mijava.

    Ele sabe que a grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.

    Sabia também que uma tumba mais fria e úmida que os quartos de pensão em que viveu até o ano anterior era o destino inevitável de todos.

    Mila Cox agora fazia café e Zími captou o aroma enquanto lavava  as mãos.

    Ambos desconfiavam que os dois são autistas, mas nunca falam do assunto.

    Preferem saborear silenciosamente a delícia de não serem o frango na caixa de nuggets.

  • A Copa das geladeiras

    Existem fenômenos que a ciência ainda não conseguiu explicar.

    As pirâmides do Egito.

    A matéria escura.

    O motivo pelo qual abrimos a geladeira durante os jogos da Copa do Mundo.

    O melhor é que todo mundo faz isso. Se você está assistindo a Copa do Mundo com um grupo em sua casa, veja bem se não é assim mesmo.

    O jogo está empatado, faltam três minutos para acabar, o atacante avança pela direita, o estádio inteiro prende a respiração… e quem está no meio do sofá empurra os outros e se levanta para verificar se, por acaso, surgiu um pedaço novo de queijo desde a última inspeção realizada há exatos quatro minutos.

    Outro, torcedor fanático, rói as unhas.

    A amiga, que não entende nada de futebol, caminha pela sala torcendo as mãos.

    Independentemente do método escolhido para lidar com a tensão, mais cedo ou mais tarde todos acabam diante da geladeira.

    Lógico que são pessoas íntimas, mas, em circunstâncias normais, nenhum deles mantém uma relação tão próxima com a minha Samsung Duplex.

    Quanto mais decisivo o jogo, mais frequentes as visitas.

    E tem inserções específicas por perfil:

    – O fiscal de refrigerante, que conta quantas latinhas ainda sobraram;

    – o explorador de potes, que abre recipientes à procura de algo que não sabe nem dizer o que;

    – o supersticioso, que procura por um raminho de quatro folhas na gaveta de hortaliças;

    – e o peregrino da luz branca, que apenas contempla o interior da geladeira em silêncio, como quem procura respostas existenciais entre a margarina e o pote de azeitonas.

    Na final da Copa, a porta da geladeira passa mais tempo aberta do que fechada.

    Talvez a Copa não revele apenas como torcemos.

    Revele como esperamos.

    Porque diante da ansiedade, da incerteza e dos noventa minutos que parecem eternos, fazemos o que os seres humanos sempre fizeram: procuramos conforto.

    Alguns encontram na fé. Outros na estatística.

    Nós, brasileiros, procuramos na geladeira.

    E, quase sempre, encontramos apenas a mesma garrafa de água que já estava lá no primeiro tempo.

    Mas voltamos.

    Porque a esperança, assim como a Copa, é uma coisa que se alimenta sozinha.

  • Voos mais altos que nós mesmos

    O piso são nuvens; entre o céu e a terra, tal qual um dito rodapé, eis o cinturão cintilante que traz a cor das bagagens, no compartimento acima da cabeça e no nível do pé: laranja e amarela. Sigo fotografando estrelas sobre o oceano, a 12km de altitude, alaranjando a escuridão que me faz perceber Avior brilhando perto da ponta da asa metálica que me atravessa a madrugada e tantos tempos.

    Após turbulências tantas em terra, céu de brigadeiro, enfim.

    Enquanto isso, sem porto, me aproximo do lugar que meu pai me guarda. Trago a alma leve; no clarear do dia, Romeu e Julieta, versão Los Hermanos, chega-me ao coração pelos ouvidos.

    Tudo se ajeita depois das tempestades. A vida é a urgência das coisas extraordinariamente simples do dia-a-dia.

  • Comédia romântica

    Quando dois olhos se olham de uma maneira inesperada e se encontram e se sabem tão íntimos e tão inteiros, sente-se o fogo que arde sem se ver. Quando dois seres se veem próximos o bastante para dizer e celebrar o momento, vive-se o não contentar-se de contente. Quando duas bocas esperam, ansiosas, o suave toque ou o roçar de leve, percebe-se a dor que desatina sem doer.

    Quando duas almas dançam a canção imaginária dos amantes e ninguém os vê, e ninguém os interrompe porque há um tempo só deles, entende-se o solitário andar por entre as gentes.

    Quando duas histórias se entrelaçam e se fazem uma. Risos, brincadeiras, beijos e abraços, contemplação. O céu não é céu. As estrelas não são estrelas. Tudo é invenção. E inventam-se horas e coisas. Inventa-se a sensação. Quando duas mãos se aproximam e se querem. Quando dois sonhos se cruzam. Não importa o real.

    Importa a imaginação.

    Quando tudo isso acontece, a gente chama ou acha ou pensa ou diz que é amor. E vemos e vivemos intensamente o mundo inteiro. Os filmes, as músicas, os poemas, os comerciais, os bilhetes e o cartaz. As flores e a cena congelada do beijo entre a mocinha e o rapaz, Tudo é nada e nada é tudo ou tanto faz. Há muitos riscos, há muitos medos, mas queremos mais.

    E quando, enfim, acaba o quase infinito sentimento, o coração está ao chão, despedaçado. Mas não há motivos para o eterno sofrimento. Novos capítulos são escritos e novos personagens se inserem à trama. Suor, olhos arregalados e calafrio. Calor, contentamento e desafio. O amor?

    Mais uma crônica, mais um poema e mais uma canção…

  • VÂNIA está nua

    Vânia sempre sonhou morar em Santa Teresa. Tinha um monte de amigos por lá. Frequentava os bares da moda, andava de bonde e se admirava com a quantidade de centros culturais e casarões históricos, subindo e descendo pelas ladeiras de paralelepípedos e trilhos.

    Todos tinham cara de artistas ou se vestiam como artistas. O bairro respirava boemia e contracultura e isso a fascinava. Pontos de artesanato e ateliês em cada esquina.

    Conseguiu alugar um apartamento no Largo dos Guimarães, lugar icônico do bairro. Vânia teve sorte. Uma amiga voltou para sua cidade natal e passou o aluguel para ela. Não era amplo, mas charmoso e bem decorado. Na cozinha, mal cabia a geladeira. Secar a roupa era uma complicação, o sol da tarde não ajudava. O cafofo era descolado, embora úmido no inverno. O maior atrativo era a vista. Da sua janela via um casarão antigo e, mais ao lado, o ponto de parada do bondinho. Bem perto, lojas de artesanato e um mercadinho de secos e molhados.

    Vânia se sentia no paraíso.

    Na janela do casarão que dava para seu quarto, Vânia começou a notar a presença de um rapaz de cabelos longos, barba e óculos escuros, que ficava olhando fixamente para dentro do apartamento dela. A antiga moradora não havia colocado cortinas, para a claridade entrar e ela acordar cedo. Dizia ser saudável despertar com a luz do sol. Vânia reparou que o tal rapaz não era feio. Quando ela o encarava, ele olhava para o céu. E assim ficava por um bom tempo. Esquisito.

    Ela se sentia invadida, vigiada. Total desconforto com aquele homem da janela do casarão. Não podia nem andar de calcinha e sutiã. Quando saía do banho, tinha que passar enrolada com a tolha no corpo. Todo o tempo, ele lá, firme, como uma sentinela em seu posto de observação.

    Resolveu enfrentá-lo, foi até a janela e mostrou o dedo do meio. Ele pareceu não se intimidar. Permaneceu olhando o céu, com o semblante mais deslavado do mundo. Até aparentava sorrir. Além de voyeur, um debochado.

    De um amigo a quem contou o que acontecia, ouviu a dica direta: “Fica logo pelada, amiga, que ele vai terminar cansando. Tipos assim gostam do suspense, da surpresa, têm o prazer de observar as pessoas na intimidade, mas não curtem a nudez escancarada”.

    Vânia simpatizou com a ideia, ainda mais que, sem querer admitir abertamente, estava começando a se interessar pelo vizinho estranho. Quem sabe, ele se animava e fazia contato, em vez de ficar só espiando com cara de pateta.

    No início, ela ficou inibida de passar nua pela janela. Como tivesse um corpo bonito e desejo de ser notada por isso, não demorou a, não só se despir, como também ensaiar poses eróticas. Passava a mão pelos seios, virava de costas e se abaixava, jogava os cabelos para trás e repetia caras e bocas. Colocou até música e experimentou um strip-tease amador.

    E o bonitão de óculos escuros lá, impassível. Olhando tudo para depois esquecer do mundo, enebriado com o céu. Coisa mais sem sentido. O que será que esse idiota vê lá em cima? Eu aqui, nuazinha em pelo e ele com essa pose de filósofo grego. Que se foda…

    Vânia resolveu esquecer o voyeur da janela e tratou de seguir a vida. Já se acostumara com a presença dele por ali, uma costumeira
    rotina.

    Em uma festa com amigos, ela soube que aquele seu vizinho era deficiente visual. Bastante conhecido no lugar, figura querida, sempre de bom humor e falante com as pessoas. Tinha a mania de repetir que era cego, mas conseguia ver as estrelas.

  • Na fila

    – (Leitor 1) Tá grande essa fila, hein.

    – (Leitor 2) Mas vale o sacrifício. Esse tipo de fila eu enfrento com prazer. Não seria muito pior se fosse uma fila de hospital? Ou pra comprar comida racionada? Minha mãe sempre falava que no tempo da guerra…

    – (Leitor 3, para leitor 2) Você é fã dele há muito tempo?

    – (Leitor 2) Muito… Eu sempre gostei do pai dele. Quando ele começou a escrever também, resolvi conferir. Foi paixão à primeira vista. E digo mais: ele é bem melhor do que o pai.

    – (Leitora loura) Há tempos ele não fazia uma noite de autógrafos…

    – (Leitor 2) Treze anos. A última vez foi daquele livro, aquele que ganhou um prêmio… Periquitos na janela, lembrei.

    – (Leitor 1) Ele é tão bom como dizem? Eu não ligo muito pra esses troços de leitura. Tô levando o livro pra minha mulher, ela que gosta. Vou fazer uma surpresa.

    – (Leitora loura) Ele é muito bom mesmo. Os fãs dele são de todas as idades. Ele consegue renovar o seu público. Olha aí na fila, tem desde o adolescente de quatorze anos até senhores de mais de oitenta.

    – (Leitor 2, para Leitor 1) Presta atenção nesse trecho aqui, abre aí na página 25. Eu adorei essa parte: “E então ela olhou para o homem com aquela cara-de-quem-tinha-muito-amor-pra-dar…”

    – (Leitor 1, interrompendo a leitura) Mas pode isso?

    – (Leitor 2) Isso o quê?

    – (Leitor 1) Escrever essas palavras todas juntas, com esses tracinhos separando. Não é esquisito?

    – (Leitor 3) Esquisito nada, isso é moderno. É coisa de quem sabe escrever.

    – (Leitora loura, mudando o rumo da conversa) Vocês estão vendo aquela senhora gordinha de pé ao lado dele?

    – (Leitor 3) Aquela de óculos?

    – (Leitor 1) Quem é?

    – (Leitor 2) Isso, a de óculos. É a mulher dele. Tá sempre junto. Não desgruda nunca. Casamento de uma vida inteira. Tem gente até que apelidou ela de papagaio de pirata.

    – (Leitor 3) Olha ali, pegando o autógrafo agora, não é aquela atriz da novela das nove, aquela que vive aprontando barraco, como é mesmo o nome dela?

    – (Leitor 1) E a abusada ainda furou a fila.

    – (Leitora loura) É a Marivalda Silva. Ela é VIP, meu filho. Por isso, pode furar fila. Você acha que artista de televisão enfrenta fila?

    – (Leitor 1) E a gente aqui em pé há mais de uma hora…

    – (Leitora loura) Então, tenho ouvido dizer que ultimamente ele anda muito preguiçoso. Não escreve uma dedicatória caprichada, pessoal, vai botando “um abraço do…” em tudo. Isso é charme dele. Artista de verdade tem dessas coisas. Eu acho que ele guarda toda a energia criativa pra usar nas obras.

    – (Leitor 1) Olha lá, a caneta tá falhando. Por isso é que demora tanto.

    – (Leitor 2) Eu tenho dezoito livros dele autografados. Ele sempre escreveu dedicatórias muito originais. A que eu mais gostei foi “Quem escreve um poema, um conto ou um romance salva um moribundo. Que você nunca se esqueça dessas palavras e”…

    – (Leitora loura, interrompendo Leitor 2) Pior que salva mesmo, mas só se for bom. Essa questão de dedicatória é uma grande bobagem. Só estar aqui, poder vê-lo de perto, falar com ele, mesmo que rapidinho, isso pra mim já vale. Ele me passa uma energia ótima. Tem um astral maravilhoso, apesar de ser um pouco tímido.

    – (Leitor 1) Finalmente trouxeram outra caneta.

    – (Leitor 2, para leitora loura) Você sabia que agora ele anda pintando também? Acho até que deve fazer uma exposição no início do ano que vem.

    – (Leitora loura) Claro que sabia, eu sei tudo da vida dele. Já tô até juntando dinheiro. Quero um quadro dele pra decorar a minha sala. E além disso ainda toca saxofone o danado. Esse é um artista completo mesmo.

    – (Leitor 3) Gente, aquele cara de terno que tá pegando o autógrafo agora não é o… Aquele político, como é mesmo o nome dele?

    – (Leitora loura) É o ex-prefeito.

    – (Leitor 1) E furou fila também.

    – (Leitor 3) Que nada, esse pelo menos deixou o assessor guardando lugar pra ele.

    – (Leitor 2) Estranho ele ter vindo. Todo mundo sabe que o livro anterior dele, Falcatruas de um prefeito corrupto, foi baseado na vida desse político. Esse prefeito aí botou processo em cima dele e tudo.

    – (Leitora loura) Mas agora é época de eleição. Aparecer aqui no lançamento dá o maior ibope. Vocês não estão vendo a quantidade de repórteres que vieram cobrir o evento?

    – (Leitor 1) É mesmo. Será que a gente vai aparecer na televisão? Tomara que o meu cunhado Geraldo me veja. Ele vive me chamando de toupeira, dizendo que não me atualizo, que não consumo cultura. (Erguendo o livro acima da cabeça, como se fosse um troféu) Olha aqui, Geraldo, tô comprando o livro do escritor famoso.

    – (Leitor 2) Já tá quase chegando a nossa vez.

    – (Leitora loura) Que emoção! Meu coração tá até acelerado.

    – (Leitor 2) O que ele escreveu pra vocês? Pra mim foi “um abraço do…”

    – (Leitor 3) O mesmo pra mim. Nem colocou meu nome. E olha que eu pedi.

    – (Leitora loura) A letra dele tá meio ilegível, mas acho que tá igual ao de vocês.

    – (Leitor 1) Pelo menos no meu ele pôs o nome da minha mulher. “À querida Tereza, um abraço do…”. Xiiii, escreveu Teresa com “z”. Minha mulher detesta quando escrevem o nome dela errado.

  • Amor

    Movimento I – Primeiros passos.

    Uma noite, à beira mar em um bar numa cidade no vasto litoral brasileiro…

    Ele disse: um centavo por seus pensamentos.

    Ela disse: valem menos do que isso.

    Ele disse: um verso por seus pensamentos.

    Ela disse: de quem?

    Ele disse: meu.

    Ela disse rindo: passo.

    Ele disse sorrindo: de um poeta maior.

    Ela disse: mais alto que você?

    Ele disse: em estatura poética, um gigante.

    Ela disse: e quem é esse que você vai em busca?

    Ele disse: um que nunca me faltou.

    Ela disse: nunca te faltou nas suas cantadas por ai?

    Ele disse: nunca me faltou quando a poesia se faz necessária.

    Ela disse: agora por exemplo?

    Ele disse: precisamente.

    Ela disse: e por que a poesia se faz necessária?

    Ele disse: para traduzir o sentimento.

    Ela sorriu e disse: e quem é o seu salvador?

    Ele disse: Tom Jobim.

    Ela disse: ah sim…

    Ele disse: me permite?

    Ela ameaçou rindo: se vier com Desafinado eu desapareço.

    Ele disse: fujo do óbvio.

    Ela disse: será que o óbvio foge de você?

    Ele disse: ele não sabe onde eu ando.

    Ela disse: mas o óbvio é ardiloso, engana os jovens aspirantes a poetas.

    Ele disse: mas não sou aspirante a poeta.

    Ela disse: além dos declamadores profissionais.

    Ele disse: declamo porque gosto não para viver.

    Ela disse: ao menos é habilidoso na retórica.

    Ele disse: ao contrário do óbvio, ela é minha amiga faz tempo.

    Ela disse: convencido.

    Ele disse: sincero.

    Ela disse: me diga então o que tem em sua manga poética?

    Ele disse: ah, minha bela…

    Ela disse: estou escutando meu belo…

    Ele disse cantarolando: eu você, nós dois, aqui nesse terraço à beira mar.

    Ela disse admirada: mas não é que o moço não é óbvio.

    Ele sorriu vitorioso e disse: sozinhos neste bar à meia-luz.

    E uma grande lua saiu do mar.

    Ela ronronou sorrindo: huuumm.

    Ele continuou contente: Parece que este bar, Já vai fechar, E há sempre uma canção para contar.

    Ela olhou em volta sorrindo e voltou a mira-lo em silêncio.

    Ele prosseguiu confiante: Aquela velha história de um desejo, Que todas as canções têm pra contar.

    Ela olhou firme nos olhos dele.

    Ele se aproximou e completou sussurrando: E veio aquele beijo.

    E se beijaram muitas vezes naquela noite.

    Movimento II – Descompasso virtual.

    Há quilômetros e meses de distância…

    Ele escreveu: tudo bem?

    Ela escreveu: sim mas quem é você?

    Ele escreveu: esqueceu de mim?

    Ela escreveu: seu número não está salvo no meu telefone.

    Ele escreveu: então não é sua memória?

    Ela escreveu: não é a do aparelho.

    Ele escreveu: vou dar uma dica.

    Ela escreveu: por favor.

    Ele escreveu: Tom Jobim.

    Ela escreveu: o que tem ele?

    Ele escreveu: ué, em nosso encontro citei Tom Jobim.

    Ela escreveu: sem ofensa mas sabe quantas vezes eu ouço alguém soprar no meu ouvido letra do Tom achando que é original?

    Ele escreveu: são tantos assim?

    Ela escreveu: mais do que minha paciência suporta.

    Ele escreveu: não sabia que era assim tão requisitada.

    Ela escreveu: pois é né?

    Ele escreveu: ah tá, então pelo visto não causei impressão alguma.

    Ela escreveu: seu bobo, sempre causa.

    Ele escreveu: todos causam.

    Ela escreveu: todos não, só os mais sutis.

    Ele escreveu: mas se tem tanta gente citando Tom Jobim para você, seus ouvidos nem dão mais atenção.

    Ela escreveu: ah mas aí é que você se engana sobre um aspecto.

    Ele escreveu: e posso saber qual?

    Ela escreveu: nem só com ouvidos se escuta Tom Jobim.

    Ele escreveu: e com o que mais se escuta?

    Ela escreveu: ah..deixa ver..com o coração.

    Ele escreveu: ah..sim com o coração..entendo.

    Ela escreveu: então se meu coração tiver percebido você, mesmo que tenha soprado algum Tom Jobim bem manjado, você acaba se sobressaindo.

    Ele escreveu: mas o que seria um Tom bem manjado?

    Ela escreveu:  algo fora do compasso.

    Ele escreveu: ou desafinado você quer dizer?

    Ela escreveu: por aí mesmo.

    Ele escreveu: ah então ponto para mim.

    Ela escreveu: posso saber por que, mocinho?

    Ele escreveu: porque não cometi o pecado da obviedade e não citei Desafinado.

    Ela escreveu: salvou-se uma alma no purgatório.

    Ele escreveu: também não é para tanto.

    Ela escreveu: mas quase.

    Ele escreveu: então pelo visto o que te disse deve ter sido escutado pelo seu coração.

    Ela escreveu: pode ser que sim.

    Ele escreveu: claro, naturalmente, entre tantos.

    Ela escreveu: entretanto só poucos fizeram meu coração palpitar.

    Ele escreveu: e o seu palpitou?

    Ela escreveu: não.

    Ele escreveu: descompassou?

    Ela escreveu: é, dá para dizer que o ritmo ficou comprometido.

    Ele escreveu: bom saber.

    Ela escreveu: por que?

    Ele escreveu: e diria que ele, o seu coração, nesse movimento sutil de alteração de ritmo poderia ter entrado em outra sintonia?

    Ela escreveu: possivelmente.

    Ele escreveu: e poderia ter sintonizado no meu?

    Ela escreveu: dependendo do que ele tiver escutado, quem sabe.

    Ele escreveu: mas quanta incerteza.

    Ela escreveu: mas meu lindo, o amor é incerto.

    Ele escreveu: é estou vendo mesmo.

    Ela escreveu: vendo o que?

    Ele escreveu: como o amor é incerto.

    Ela escreveu: não exagere.

    Ele escreveu: sem exagero, é só simples constatação.

    Ela escreveu: mas o que mais..me diga…

    Ele escreveu: mais nada porque ao que parece minhas intenções românticas se perderam entre outras de outros.

    Ela escreveu: não diga isso.

    Ele escreveu: é a pura verdade.

    Ela escreveu: não peraí, calma.

    Ele escreveu: fique bem.

    Ela escreveu: não faz assim, fala comigo.

    Ele – :

    Ela escreveu: eu estava brincando.

    Ele -:

    Ela escreveu: puxa…

    Movimento III – Dança romanceada.

    Um tempo incerto depois…

    Ela disse: onde estava esse tempo todo?

    Ele disse: longe de você.

    Ela disse: por vontade própria?

    Ele disse: por escolha infeliz.

    Ela disse: sua ou minha?

    Ele disse: de ambos.

    Ela disse: sentiu minha falta?

    Ele disse: o tempo todo.

    Ela disse: por que não me procurou?

    Ele disse: porque te perdi profundamente.

    Ela disse: como decidiu me achar?

    Ele disse: no dia em que respirei fundo e subi à superfície.

    Ela disse: e foi difícil saber para onde ir?

    Ele disse: encontrei seu rastro em toda parte.

    Ela disse: era forte assim?

    Ele disse: ao contrário, muito sutil.

    Ela disse: então foi difícil me distinguir entre outras?

    Ele disse: não foi difícil, mas exigiu atenção e dedicação.

    Ela disse: e onde me encontrou?

    Ele disse: curiosamente não tão distante quanto eu achava.

    Ela disse: lembro de ver você ao longe.

    Ele disse: te contemplava.

    Ela disse: teve medo de se aproximar?

    Ele disse: medo de me atrapalhar.

    Ela disse: bastava vir em linha reta.

    Ele disse:  prefiro fazer curvas.

    Ela disse: a menor distância entre dois pontos é uma reta, não sabia?

    Ele disse: pode ser a menor mas não é a melhor.

    Ela disse: demorou por que escolheu o melhor caminho ao invés do menor?

    Ele disse: demorei porque meu caminho não foi reto mas sinuoso.

    Ela disse: sinuoso como o quê?

    Ele disse: como suas curvas.

    Ela disse: minhas curvas tiram você do rumo?

    Ele disse: suas curvas me põem na direção certa.

    Ela disse: e se estiver escuro?

    Ele disse: na noite mais escura, seu olhar ilumina meu caminho até você.

    E nunca mais se desencontraram.

  • A volta

    Estavam bem velhinhos, ela já doente, ele lhe fazendo companhia. Tudo que tinham eram as lembranças dos velhos tempos, que pareciam cada vez mais indistintas. Como não tinham tido filhos, encheram a vida com passeios, viagens e uma rotina silenciosa. Pareciam se entender sobre quase tudo e sentiam pouca necessidade de falar um com o outro.

    Entre as lembranças, tocava-os especialmente a do primeiro encontro. Foi num parque de diversões. Ele a convidara para um cachorro-quente com refrigerantes; ela aceitou meio envergonhada, com medo de parecer “fácil”. Enquanto esperavam a comida, ouviam na “radiola” do quiosque a música de um filme americano. Ele comentou que a melodia era muito bonita, ela concordou e até encheu os olhos d’água. Era a música de uma fita romântica, dessas em que o amor triunfa depois de muito sofrimento. Por coincidência, os dois haviam assistido.

    Nenhum deles iria esquecer aquele momento. A música parecia ter sido feita para a ocasião. Sempre que a ouviam, lembravam-se do primeiro encontro. Ou era o contrário: a lembrança do primeiro encontro evocava a melodia, que se integrara à história dos dois.

    Com voz cansada, ela lhe disse que daria tudo para viver de novo aquele instante. Então se deu o inimaginável: apareceu no quarto uma mulher grisalha, com jeito de fada e um sorriso enternecedor. Não disse quem era, apenas comentou que ouvira o pedido da mulher e viera satisfazê-lo. Eles mereciam, pelo tanto que se amaram. Iriam voltar no tempo e reviver aquele momento no quiosque do parque. Tudo tal como acontecera: as mesmas roupas, os mesmos rostos, a mesma música. A diferença é que conheceriam o futuro.

    E de repente se viram 50 anos mais novos. O parque era aquele mesmo, com seus brinquedos, guloseimas e barracas de tiro ao alvo. Os dois caminham entre as pessoas e olham furtivamente um para o outro. Depois do longo flerte, ele se aproxima e lhe faz o convite para o cachorro-quente com refrigerante. Ela aceita, mas não pode deixar de sorrir da ironia: ele detestava cachorro-quente e não suportava refrigerantes. Dizia que eram muito calóricos. Mas isso ela só saberia depois.

    Sentam-se na mesa do quiosque e, enquanto esperam, ouvem a música. Ele comenta que a melodia o comove pelo romantismo. “Você? Romântico?” “Sou…” Ela, interiormente, acha graça de novo; ninguém menos romântico do que ele! O hábito de falar pouco, que ela foi absorvendo, era apenas um dos meios com que abafava as emoções. Mas isso, claro, ela só saberia depois.

    Enquanto comem, cada qual fala um pouco de si. Ela diz que foge de agitação; ele, pelo contrário, confessa gostar da rua e das pessoas. Fica entediado em casa. “Sou um tipo social… De que você está rindo?” “Nada, nada.” O riso o deixa sem graça, o que não tinha acontecido da primeira vez.

    Pouco a pouco, retornam ao presente. A mulher ainda se encontra no quarto e pergunta se ficaram satisfeitos. Sem esperar resposta, vai embora. O dois se dão as mãos e sorriem um para o outro. Ela pede: “Fique junto de mim. Vamos aproveitar este momento.” E completa, depois de um suspiro: “Nada volta, e bom mesmo é não saber o que virá depois.”

  • O rouxinol

    O tio Argemiro gostava tanto de lendas, que tudo era pretexto para tirar uma do fundo do baú da memória, nem que fosse inventada – que a memória é assim, uma boceta de Pandora que tudo guarda, tudo inventa, tudo cria.

    Eis que numa tarde linda um beija-flor azul, tchibum!, mergulha de repente nas águas limpas de seus olhos.

    Não, não era um beija-flor, e não era azul; no remoinho da memória do tio Argemiro, o beija-flor tinha se transformado num rouxinol, com um canto doce como um sonho. Tinha uma cor que era a suma de todas as cores para o tio, um preto retinto, tão preto que brilhava no espelho d’água do pequeno lago do jardim.

    – Filomena! – disse o tio Argemiro, encantado.

    E não adianta insistir que Filomela era a princesa grega transformada num rouxinol para não ser sacrificada; ele teima, no seu encantamento, repetindo:

    – Filomena!

    E é como se a sua Filomena ressurgisse das cinzas do tempo nas asas de um pequeno beija-flor, que se transformava num rouxinol, fugindo num voo mágico das entranhas da terra onde estava sepultada há séculos.

    A escrava Filomena, que fora uma princesa na sua terra, sacrificada para que não se alastrasse a peste negra da varíola que os brancos trouxeram da Europa, voa nas asas do rouxinol, que os gregos chamaram de Filomela.

    – Filomena, o amor alado! – traduz a seu modo o tio Argemiro.

  • Dores inevitáveis

    A casa do senhor Elias cheira a livros velhos, café passado e madeira encerada. Nas paredes, não há quadros retos. Uma estante inclina-se para a esquerda, resultado de uma tentativa fracassada de montagem há quarenta anos. Ele a chama de “minha Torre de Pisa particular”. No centro da sala, sobre uma mesinha manchada de círculos de copo, há um vaso colado com esmero, as rachaduras desenhando mapas dourados pela superfície. Há quem visite Elias e veja apenas desleixo: o tapete desfiado onde tropeçou e quase quebrou o tornozelo numa noite de chuva, a janela que nunca fecha direito porque ele a pintou num dia de calor excessivo, emperrando a madeira. Pedem-lhe: “Por que não conserta? Por que não troca?”. Ele balança a cabeça, serve mais café e conta histórias.

    O vaso rachado foi um presente de uma amada, num tempo em que o amor era mais urgente do que cuidadoso. Ele o derrubou numa discussão fútil, e ela partiu antes que a cola secasse. Olhar para aquelas rachaduras não lhe traz arrependimento pelo amor, nem pela raiva. Traz a textura nítida daquela tarde, o cheiro do jasmim do jardim, o gosto amargo das palavras não ditas e, depois, o cuidado paciente de unir os cacos. O vaso guarda a história inteira, não apenas a parte bonita.

    A estante torta foi montada na véspera do nascimento do primeiro filho, entre ansiedades e sonhos. As peças foram mal encaixadas, mas o tempo era curto e o coração estava cheio de um futuro que batia no peito da esposa. Ela riu quando viu o resultado. “Parece que vai dançar”, dissera. E a estante dançou, suportando enciclopédias, romances, fotos de formatura, até ficar cansada e inclinar-se para um lado. Consertá-la seria apagar a pressa sagrada daquela véspera.

    Elias abriu uma pequena oficina de restauro, que o sustentou com mais alegria do que aquele cargo público jamais o faria.

    Senhor Elias sabe que os arrependimentos são os pesos mais pesados que carregamos para a velhice. São fantasmas de caminhos não andados, de palavras engolidas, de medos que nos paralisaram. Seu avô, no leito de morte, não chorou pelos tropeções ou pelas xícaras quebradas. Chorou pelos beijos não dados, pelas viagens adiadas, pelas cartas que nunca enviou. Chorou pelo vazio, não pela bagunça. Cada lasca, cada trinca, cada coisa fora do prumo é um marco em sua geografia pessoal. A casa não é um museu de perfeições, é um diário em três dimensões. Ao anoitecer ele não sente o frio do arrependimento, mas o calor de uma vida habitada. Os erros foram portas, alguns que levaram a salas escuras, outros a jardins inesperados. O corpo já traz suas dores inevitáveis, por que carregar também o fardo pesado e inútil do “e se”? É melhor conviver com uma estante torta, que sustentar livros bem amados com a perfeição imaculada de uma prateleira vazia. Nessa falta de arrependimento, encontra uma estranha e tranquila sabedoria: a de que uma vida inteira pode caber nas rachaduras de um vaso.

  • INSTANTÂNEO

    A velha de lenço preto na cabeça não se incomoda de ficar horas dando voltas na casa feita destroços. Era a sua casa. Tenta reconhecer, sem conseguir, a parede do quarto, onde era o banheiro, a sala em que fazia crochê, a cozinha que, nos fins de tarde, parecia um paraíso com cheiro de comida. Traz num dos braços um cobertor sujo de poeira e nas mãos duas colheres de pau — o que sobrou depois do bombardeio, depois da casa no chão. Ela fala sozinha enquanto rodeia os escombros, provavelmente dialogando com seus fantasmas. Ali ao lado dois cachorros mortos aguardam sepultamento e do ventre de cada um sai um fio de sangue que chega até perto da casa. Mas o que é isso? Não basta não existir mais casa, agora também o chão será encharcado de sangue?, pragueja ela.

    O fotógrafo pediu permissão para tirar um instantâneo, mas ela não deu atenção. Estava ausente. Só buscava alguma coisa, talvez buscasse nada. De vez em quando se abaixava para recolher algo do chão e em seguida continuava a rodear a casa e a dialogar com o silêncio.

    Ela e sua família já estavam com as malas prontas, mas não era para sair de férias. Iam para outro lugar, fugindo da guerra interminável. Partiriam como refugiados, gente de nenhuma parte, sem raiz, sem chão próprio, sem nação. Gente de segunda classe, ralé, estorvo para os países ricos. Na noite anterior, os aviões que voavam baixo sinalizavam o terror, e ela tinha ido até outro bairro buscar comida para a viagem. Na volta, encontrou os escombros. Estes, que agora ela e seus fantasmas circundam. Não sobrou nada, nem casa, nem família, nem malas, nem viagem. Só ela.

    Plasmar a alma daquela anciã com sua máquina de eternizar momentos: era isso que o fotógrafo pretendia, mas a incredulidade diante do inexplicável lhe fechava a garganta e o impedia de pensar. Estava mergulhado numa guerra que não era sua, mas era como se fosse, porque era contra toda a humanidade. Posicionou o equipamento diante do rosto da velha e captou um instante daquela miséria, apesar dos próprios olhos marejados.

  • Malhação 2003

    Leandro gostava de Kátia. Desde a quarta série. Já estava no fim do sexto ano. Leandro nunca teve coragem de cumprimentar Kátia.

    Kátia achava Leandro bonito. Achava Leandro e mais uns cinco ou seis da sexta série B bonitos. Sem contar as dezenas de garotos que deixavam Kátia com as maçãs do rosto bem firmes, quando passavam por ela sorrindo. Kátia era uma das muitas garotas cobiçadas do colégio.

    Leandro nunca soube que Kátia o achava bonito. Nem nunca imaginou essa possibilidade. Mesmo desejando tanto que isso fosse possível. Costumava acreditar em novelinhas da Malhação ou das 9 em que, no fim, o mocinho e a mocinha ficam juntos para sempre.

    O sinal toca. Último dia de aula. Kátia se despede de Larissa, Roseane, Aline, Mariane, Lucas, Daniel e Felipe. A uns três metros de distância, seus olhos castanhos e doces abraçam Leandro pela primeira e última vez.

    Naquele mesmo instante, Leandro aguardava ansiosamente o último capítulo da temporada de Malhação 2003.

  • Sunshine

    Fui surpreendido com a doença do Sunshine. Ele sempre foi tão esperto; um gato para além dos limites. Agitado, inquieto. Veja, já passou três dias fora de casa e apareceu como se não tivesse acontecido nada, magro, arranhado de briga etc. Fez aventuras de todos os tipos, como subir na minha antiga casa e pular de telhado em telhado até desaparecer no horizonte. Sunshine nunca foi um gato “normal”. Desde o primeiro dia que o vi, no grupo da cria da casa da minha cunhada, percebi que era diferente. Ele veio direto ao meu encontro, para brincar de subir pela minha camisa com suas pequenas unhas afiadas, até se aconchegar quietinho na minha cabeça. Depois, quando o levei para casa, para ser um guia a cuidar da minha depressão, ele me fazia esquecer a doença; pulava de armário em armário; subia ágil o projeto de guarda-roupa; tomava água corrente, apenas na pia. Vários costumes permaneceram. A excentricidade, por muito tempo, foi sua característica. Isso não quer dizer que não era carinhoso. Apesar de ser intrinsecamente individualista, gostava de deitar-se na cama e passar horas esparramado esperando carinho na barriga. Mas, infelizmente, ele ficou doente. Muito acabrunhado, ficava pelos cantos, diferente dos nossos outros gatos. Tenho um sentimento de culpa muito grande, porque não percebi que o problema poderia se agravar. Poucos dias se passaram, e Sunshine não conseguia urinar. Fazia mil posições, tentava urinar em locais mais confortáveis, mas o líquido não vinha. Levamos imediatamente a uma clínica veterinária. Na primeira consulta, a médica-veterinária parece ter passado um remédio paliativo, para dor, principalmente. Ele melhorou a disposição, já pulava pelos cantos. Mas um mês depois veio a queda de novo. Dessa vez, mais grave, expelindo sangue. Levamos imediatamente a outra clínica, da qual temos confiança, e a médica-veterinária foi mais prudente e o internou. Foram dias de aflição. Ele estava com cristais na bexiga (sabe-se lá o que é isso), um problema ligado à alimentação e à falta de consumo de água. Foram feitas lavagens com soro para tirar os tais cristais obstrutores. Até que, no terceiro dia de internação, segundo a médica-veterinária, ele teve uma parada cardiorrespiratória e não suportou os agravamentos. É importante falar do componente da idade, ele já tinha dez anos. É uma tortura a culpa, não queira saber. Poderia ter feito mais – e urgentemente. Poderia ter amado a ponto de não aceitar o seu abatimento. Sunshine, sim, foi um anjo, me curou milhares de vezes. Eu o amo como nunca. Ele era o meu melhor parceiro de escritas (sou escritor, e ele ficava ao meu lado velando o meu labor). A médica-veterinária disse que foi uma fatalidade inimaginada. Geralmente corre tudo bem. Ele não suportou uma sepse. Na verdade, não era deste mundo cão. Mas teve uma existência digna – e nisso que me fio para não cair em desgraça.

  • INSTANTÂNEOS

    No meio da rua um veio d’água, a luz amarela da madrugada, um homem capengando junto ao muro longo, o som da camisa fina raspando no chapisco de quando em quando. Incertos dias, estes. Em que não somos nem sombra do que pensávamos ser. O sorriso lacônico e de entrega, como se sorri diante da derrota concreta. Um ônibus para o sul, o último da noite. Depois dele, os espaços de silêncio se alongam, ouve-se coisas mínimas, ouve-se dentro, agora que o homem se vê parte do todo, todo o tempo ali, abafado por horas a fio pela insanidade do dia. E dói saber. Ver-se liso de disfarces, o espanto da nudez, os penduricalhos desta vida dita dinâmica arrastados para o sul e para o silêncio pelo último da noite. Ouve-se o coração bater. O som do vento, bravo e tortuoso por entre os labirintos de uma seringueira densa e antiga.

    No meio da rua, um risco brilhante de luz esticando para o sul. A boca entreaberta da não compreensão, ou da verdade que chegou de repente, ela que rondava por ali dentro há tempos, caindo agora, na hora do grande momento. Um garoto, descansando sobre a moto encostada, acendeu o cigarro e puxou um trago longo que se ouviu do outro lado da rua. E olhou a fumaça fundindo-se com a noite. O outro homem agachou-se e suas costas rasparam pelo chapisco até o chão. O garoto atravessou a rua e lhe entregou o resto do cigarro aceso. Nenhum julgamento, nem perguntas. Um instante, dos muitos por aí, depois que o último da noite some para o sul.

  • Egocentrismo

    O alarido invade meus ouvidos ofendidos. Quero silêncio. Não tenho.

    Ainda é manhã e vespertino. Talvez até anoiteça, madrugue. Não sei.

    O barulho continua. Eu continuo. Queria poder parar os dois. Dormir? Acho que não. A vida me chama. Só a queria um pouco mais silenciosa. Estou sensível! A poeira me incomoda o nariz, a claridade, os olhos, o barulho… Maldito!

    Quero o silêncio de música escolhida. Quero o silêncio do livro preferido, quero o silêncio de amigos queridos por perto, quero o silêncio de estar em casa, em família. Quero o silêncio da agenda fechada. O silêncio de sonhar de olhos abertos, de escolher o que contemplar. Quero o silêncio do sol de outono sobre a pele…

    Quero discrição, segredo, intimidade.

    Quero esquecimento.

    Quero lembrança.

    Quero de novo o mesmo.

    Quero! E-go-ís-ti-ca-men-te!

    Um outro lugar que não seja aqui.

  • Poema #73: Valpurgis

    A inquietação daquela noite
    levou-me ao extremo de deixar a cama
    em pleno delírio da febre sem causa
    que me acometia desde há muito.

    Nunca em meus transportes noturnos,
    que eram então muito frequentes,
    eu havia experimentado essa ânsia de fuga
    que só se compara à de uma suicida na ponte.

    Corri como que alucinado fantasma
    até o porão da casa onde a umidade
    havia impregnado as paredes de morte,
    e peguei no baú o espelho quebrado.

    A chuva era intensa e os relâmpagos
    cortavam a estrada barrenta ao norte,
    para a qual fui levado rumo ao destino
    que o maldito espelho me reservara.

    O cemitério estava deserto e escuro
    mas havia um rumor quase que imperceptível
    entre as catacumbas, abertas na véspera
    para o desfecho insólito da profecia.

    Então eu pude sentir os murmúrios
    daqueles espectros putrefeitos pelo tempo,
    cujos aspectos de decomposição física
    acentuaram em mim a antiga náusea do futuro.

    Ali, em meio à tempestade de abril,
    o espelho quebrado que eu encontrara
    junto aos aposentos da velha inquilina,
    emitiu em reverberações estranhas e malignas
    um brilho intenso que me cegou os olhos.

    Agora sinto que a velha desfigurada se aproxima
    e toca meu rosto com suas mãos de morte vazia.
    Como num passe de hipnotismo ou subtração de raciocínio
    sou conduzido para o rito anual de bruxaria.

    O Acaso das Manhãs

  • Satanásio

    O aluguel do mês estava pago, e quando isso é alcançado, Mila Cox e Zími têm piadas sobre o sonho da casa própria.

    Faziam piadas sobre como conseguiam pagar contas sendo copywriters, mesmo com a inteligência artificial devastando as oportunidades da área.

    Eles não tinham esse sonho.

    As incertezas que eles tinham eram as mesmas do resto da humanidade, nesse momento macabro da história.

    Zími olhava da janela para ver Satanásio, um vizinho desempregado vadiando na rua, gastando o dinheiro da feira com bebida, enquanto a esposa dele está na seis por um, como caixa no mercado, e com a gravidez avançada.

    Havia outro vizinho no prédio deles que era pastor. 

    Antes de saber disso, Mila Cox disse a ele: “A religião serve para  impedir o conhecimento, e promover o medo e a dependência. É uma forma grotesca de adestramento.”

    Eles estavam no elevador, e o sujeito a indagou sobre crença em deus, por conta da camiseta do Venom que ela vestia.

    Cox falou para Zími: “Agora só desço de escada, pra não encontrar aquele cara. Prédio é melhor pra mim do que uma casa, mas eu ainda não acostumei com esse tipo de chateação.”

    Zími falou: “Essa gente é polarizada nas bolhas tóxicas da direita e da esquerda, brigam por isso, mas ambos os grupos gostam de ser governados. Não há muito diálogo possível.”

    Cox falou: “É um tempo em que essa bizarrice pode ser varrida a qualquer momento, com destruição em massa. Donald está muito empenhado nisso.”

    Zími: “Vai ter show do Redd Kross aqui perto, em breve.”

    Cox: “Sim, no Cine Jóia. Nosso bairro é bom.”

    Ficaram atualizando notícias de geopolítica, torcendo para dar merda logo.

    Sabiam que independente de qualquer coisa, não haverá recompensa celestial depois da extinção.

  • Fragilidades Humanas

    Todos nós temos um talento especial para dar nomes elegantes aos nossos defeitos.

    A preguiça vira “cansaço acumulado”. A teimosia atende por “firmeza de convicções”. O excesso de compras costuma ser tratado como “aproveitar uma oportunidade imperdível”. E ninguém jamais admitiu ter sido fofoqueiro; no máximo, estava “bem-informado”.

    Talvez essa seja uma das fragilidades humanas mais universais: a habilidade de encontrar explicações generosas para comportamentos que, vistos de fora, pareceriam apenas escorregões bem comuns.

    Foi pensando nisso que me deparei com um documento capaz de elevar essa arte a outro patamar. Em um site especializado encontrei o testamento de um Monsenhor, datado de 1863. Depois das fórmulas de praxe — estar em perfeito juízo, temer a morte em hora incerta, professar a fé católica e desejar nela viver e morrer — surge a seguinte declaração:

    “Declaro que, por fragilidade humana, tenho sete filhos (7) já reconhecidos e legitimados por carta imperial.”

    Sete.

    Não um deslize momentâneo. Não um episódio isolado. Sete filhos devidamente reconhecidos, legitimados e registrados para a posteridade.

    O mais curioso não é sequer a existência da numerosa descendência, mas a explicação escolhida. Enquanto alguns de nós classificamos como fragilidade humana devorar a última coxinha da festa ou comprar um sapato desnecessário em liquidação, o Monsenhor trabalhou em outra escala.

    E o melhor vem depois: ele passa a relacionar os herdeiros um por um, como quem apresenta com legítimo orgulho os resultados de sua fragilidade.

    Confesso que achei difícil não admirar a sinceridade do homem. Afinal, se era para assumir a fraqueza, assumiu com método, persistência e excelente produtividade.

    Talvez por isso eu tenha lembrado de um trecho bíblico que parece combinar perfeitamente com a situação: “Se devo orgulhar-me, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza.”

    Nesse quesito, convenhamos, o Monsenhor tinha material de sobra.

  • Poema #03: Isso basta

    A cama desarrumada.
    O livro (quase) aberto.
    Páginas escurecidas.

    A caneta largada no meio.

    No relógio um horário impróprio; “já é dia?”
    Sob os travesseiros, um único pijama

    não se sabe porquê; não se sabe para quem.
    Clareou.
    As plantas espreguiçam-se:
    um girassol retorce lentamente
    pétalas, amarelas, miolo, marrom
    em direção à promessa
    De sol
    De luz
    De felicidade com prazo de validade
    Vencida

    De repente
    Dois passos contrabalanceiam o peso de um único corpo
    Um, dois, três, um dois, três… gira!
    Girassol rodopia, entre as mãos agitadas
    Madrugada infinita
    Há barulho – feliz idades
    Há sussurros – ocas gargalhadas expressivas

    A cama desarrumada.
    O livro (quase) aberto.
    Páginas manuscritas.

    Um mercado; um abridor de latas. Um saca-rolhas.
    Nômade, sem ser, sendo.
    Desiste-se; retorna.
    Pacote 2×1.
    Repensa.

    Compras todas amarelas:
    Banana.
    Limão siciliano.
    Milho.
    Angu.
    Girassol e gelosia…

    Alba dal balcone
    Água de coco, rega da vida
    Eis o vento acalmando as turbinas
    Eu te amo
    Eu também.

    O lado esquerdo da cama.
    Criado mudo.
    Coração.
    Uma pera.
    Mordida pera.
    Religiosa pera.
    Compartilhada à distância.

    A cama desarrumada.
    O livro desaberto.
    Páginas escritas.

  • Tenho medo dos idiotas

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque os idiotas são todos extremistas!

    A resposta está sempre certa! Não importa argumento, não importa exemplo, não importa explicação!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles têm a voz e a vez!

    E não têm vergonha da medíocre pequenez!

    Eles se multiplicam aos milhões! E por mais que causem estragos, não há condenações!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles podem ser presidentes, dizer bobagens e matar muitas gentes!

    Podem apertar botões e iniciar a terceira guerra mundial! Tudo é banal!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque posam de autênticos quando, na verdade, abrem a boca para destilar preconceitos e muita aberração! Sem nenhuma
    preocupação!

    Os idiotas, sempre eles, idolatram a fúria, o fuzil, dizem até que a ditadura nunca existiu!

    Os idiotas também se candidatam pra tudo quanto é função: vereador, deputado, senador, presidente… Não importa se o que
    falam é indecente!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles mandam e desmandam em tudo!

    Gostam de jogar bombas e de erguer muro!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles não entendem poesia!

    Não têm sensibilidade nem melodia!

    Tenho medo dos idiotas porque eles são muitos!

    Os idiotas performam o tempo todo nas redes sociais! Dizem as maiores bobagens e se transformam em símbolos nacionais!

    Os idiotas não têm pudor ou culpa da própria idiotice, ao contrário, se vangloriam da triste fanfarronice! É o culto à ignorância! Sem cerimônia e com muita militância!

    Uma pena que cada vez mais idiotas se sentem no direito de tudo mandar!

    Os idiotas não gostam da natureza, não gostam de verde e não gostam de amar!

    Tenho medo dos idiotas!

  • O amor de Cristo

    São Paulo, cidade agraciada com o nome do mais célebre apóstolo do cristianismo, serviu de palco neste mês de junho a dois eventos de naturezas aparentemente irreconciliáveis que, no entanto, guardavam algo em comum: a capacidade de aglutinar multidões. De um lado, a Marcha para Jesus e, de outro, a Parada LGBT+.

    Ao presenciar essas duas manifestações aparentemente tão díspares, uma dúvida me veio à mente: em qual delas Jesus caminharia?

    A pergunta pode soar provocativa, até insolente. Afinal, de um lado, temos uma manifestação de caráter declaradamente religioso dedicada à enfatizar a fé em Jesus. De outro, um evento aparentemente pagão e depravado, com pessoas em trajes provocativos que representam o oposto do que a tradicional religiosidade cristã professa. Corpos seminus entregues ao hedonismo, música alta e danças sensuais que ferem o sagrado decoro litúrgico.

    Mas se perscrutarmos além das aparências e de pré-julgamentos, a resposta não seria assim tão óbvia.

    A Marcha para Jesus, embalada com música gospel e refrões de louvor ao Senhor, reuniu legiões de fiéis disciplinados, com vestes discretas e cabelos alinhados. O que me leva a imaginar que Jesus com suas sandálias de tiras, suas vestes rústicas, barbudo e cabeludo (mais próximas à estética hippie) causaria certo desconforto.

    Em contraste, na Parada LGBT+, ao som de batidas eletrizantes, cada um se apresenta como melhor lhe convém. Paetês, plumas, glitter, leques e vestimentas cintilantes esparramam-se espalhafatosamente pela avenida numa explosão de cores. Reivindicam, a seu modo, reconhecimento e respeito, glorificando a diversidade e celebrando a Vida. Partindo da ideia de que Deus é Vida, não deixa de ser instigante pensar que essa manifestação pode ser lida como uma espécie de experiência espiritual psicodélica.

    Apesar de Marcha para Jesus, em tese, aceitar qualquer indivíduo que queira participar, na prática, os discursos prevalecentes são as conhecidas ladainhas pentecostais. Nesse meio, não são recebidos com entusiasmo aqueles que professam outros credos, como os que idolatram imagens (católicos) ou os que acreditam em reencarnação (espíritas). São especialmente mal vistos (talvez com uma dose disfarçada de racismo) os que praticam religiões de origem africana (umbanda, candomblé) cujos deuses e mentores espirituais (orixás etc.) são comparados a demônios.

    Também são segregados os que têm condutas sexuais condenáveis, como gays e travestis que, reprimidos e enquadrados, deveriam se submeter a ‘curas gay’ para se comportar como um ‘temente a Deus’.

    Verdade seja dita, esse comportamento não é generalizado, havendo comunidades evangélicas ‘progressistas’ que acolhem pessoas necessitadas independentemente de sua conduta pretérita e sua orientação sexual. Mas o pensamento mainstream estimula uma atitude persecutória contra homossexuais, feministas e aquelas que praticaram aborto, ainda que sejam meninas vítimas de estupro, todos sujeitos a arder eternamente no fogo do inferno.

    Já a Parada Gay aceita de bom grado todos os que queiram participar, sem exigir profissão de fé ou filiação religiosa. Nela convivem católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, budistas, judeus, muçulmanos e ateus. São também bem recebidas pessoas de diversas orientações sexuais: homossexuais, heterossexuais, bissexuais e transexuais. Onde alguns enxergam promiscuidade, a primeira palavra que me ocorre é inclusão.

    Lendo os Evangelhos, encontramos um Jesus que se aproxima justamente daqueles que a sociedade preferia manter à margem. Devemos nos reportar às ações do Mestre que acolhia indistintamente prostitutas, leprosos, deficientes, mulheres (vistas à época como categorias inferiores), gentios que professavam outras religiões e samaritanos vindos de outras paragens. O amor divino não se destina apenas aos integrantes de um círculo fechado, reservado aos moralmente impecáveis. Como um coração de mãe, no colo de Deus Pai havia lugar a todos os que praticassem o bem.

    Na marcha que se diz cristã, outra coisa que me chamou a atenção, a profusão de bandeiras de Israel. Nada de errado em celebrar os vínculos entre duas tradições com raízes históricas próximas. O que me intriga é a idealização quase religiosa de um Estado que, como qualquer outro, está sujeito a críticas. Pergunto-me por que uma manifestação dedicada a um líder espiritual que pregava a paz precisa demonstrar identificação com um país envolvido em constantes conflitos territoriais com vizinhos.

     Enquanto a guerra produz milhares de vítimas civis inocentes em Gaza e gera denúncias de graves violações de direitos humanos, muitos líderes religiosos parecem demonstrar solidariedade incondicional a um dos lados do conflito, sem a mesma empatia pelas sofridas populações palestinas atingidas. Tenho dificuldade em conceber Jesus alinhado à lógica de um apoio seletivo. Consigo imaginá-lo, isso sim, ao lado das vítimas, dos refugiados, dos que perderam familiares e seus lares e não têm para onde fugir.

    Fixados numa visão literal do Antigo Testamento, essa vertente evangélica encara que os hebreus têm direito bíblico à Terra de Abraão, ainda que isso implique em impor sofrimento aos ‘infiéis’ que ali residiam.

    Discriminam eles os filhos de Alá, assim como os de Exu, os de Tupã. Trata-se de uma lógica perversa que hierarquiza crenças e elimina a complexidade de diferentes expressões espirituais, que a seu modo, buscam o bem, a ética e o desenvolvimento pessoal.

    Também não consigo evitar uma certa estranheza diante da prosperidade dos pastores midiáticos. Jesus perambulava pelas estradas da Galileia sem patrimônio e sem qualquer sinal de ostentação além da força da sua palavra. Passados dois mil anos, vemos impérios milionários de comunicação, jatinhos particulares, e pregadores que parecem mais próximos de grandes empresários do que de humildes pescadores. Isso sem falar da insistente associação entre fé e prosperidade financeira e da recomendação para recolhimento do dízimo, transformado em requisito para contrapartida da graça divina. O que diria Jesus ao encontrar a fé transformada em produto, o púlpito convertido em plataforma de influência e a contribuição dos fiéis apresentada como caminho para bênçãos divinas?

    Os ensinamentos de Jesus ressaltavam claramente a preferência pelos pobres e necessitados em versículos como “é mais difícil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus, 19:24). Essa profissão de amor pelos despossuídos não parece se sintonizar com os mandamentos dos pastores que ostentam vidas de luxo. Tampouco a centralidade conferida à contribuição financeira induzida dos fiéis que parece mais se afinar com o comportamento mercantilista dos vendilhões que assaltavam os templos e provocando a ira de Jesus.

    Retomando a palavra do apóstolo que emprestou seu nome à metrópole que abriga tribos tão diferentes, e dizia “aceitem-se uns aos outros da mesma forma que Cristo os aceitou, a fim de que vocês glorifiquem a Deus” (Romanos 15:7), volto a indagar: qual seria a escolha de Cristo?

    *Opiniões dos colunistas não representam necessariamente a visão do Crônicas Cariocas.

  • Reabastecer o Amor

    Há pessoas que nos ensinam sem perceber.

    Ao longo da vida vamos colecionando ideias, frases, hábitos e pequenos exemplos que, por alguma razão, nos chamam a atenção. Nem sempre compreendemos imediatamente por que ficaram guardados. Mas ficam. Adormecidos em algum canto da memória, esperando o momento de reaparecer.

    Lembrei-me disso recentemente ao recordar uma funcionária que trabalhou comigo há muitos anos.

    Era uma mulher linda.

    Casada com um homem igualmente bonito. Tinham dois filhos que poderiam ser modelos, atores e estampar páginas de revistas. Formavam aquela família que costumamos olhar e pensar: “Parece um comercial de margarina.”

    Mas não foi a beleza deles que ficou registrada em minha memória.

    Certa vez, numa conversa sem importância aparente, ela me contou algo que nunca esqueci.

    Disse que, de vez em quando, surgiam aqueles momentos de desânimo que atacavam sem avisar. Independente de riqueza, de beleza ou dos acontecimentos. Dias em que a rotina pesava mais do que deveria. Ou as dúvidas incomodavam e apareciam sem motivos. Ou a vida parecia descolorida e sem graça. 

    Quando isso acontecia, ela tinha um ritual.

    Pegava seu álbum de casamento.

    Sentava-se sozinha e folheava as páginas lentamente.

    Observava os rostos, os sorrisos, os abraços. Revivia a alegria daquele dia. Reencontrava nos olhos dos noivos a esperança, os planos, a emoção e a certeza que haviam sentido ao iniciar uma vida em comum.

    Segundo ela, aquelas fotografias tinham o poder de reabastecê-la.

    Não porque a vida tivesse permanecido igual àquele dia. Pelo contrário. Havia contas para pagar, filhos para criar, preocupações e cansaços. Como em qualquer casamento.

    Mas as imagens a ajudavam a lembrar por que tudo havia começado.

    Ela dizia que, ao fechar o álbum, sentia-se mais forte. Como se tivesse voltado a beber água numa fonte antiga que existia dentro dela mesma.

    Na época achei curioso.

    Hoje acho sábio.

    Talvez todos nós devêssemos possuir um álbum assim.

    Não necessariamente de casamento.

    Pode ser uma caixa de fotografias, uma carta guardada, um bilhete antigo, uma lembrança de família ou qualquer coisa que nos reconecte ao melhor de nós mesmos.

    Porque a vida, às vezes, nos afasta dos sentimentos que um dia nos construíram.

    E talvez a arte de seguir em frente esteja justamente nisso: voltar de vez em quando ao lugar onde o amor começou, apenas para lembrar que ele ainda mora ali.

  • Queda livre

    Resolveu descer do elevador no vigésimo nono. A conversa mole do Severino, o ascensorista, o incomodava. Não estava com paciência para ouvir suas reclamações sobre a incompetência do governo e o mau desempenho do time do coração na partida da véspera. Preferiu seguir a pé até o último andar do prédio onde trabalhava. Era, além do mais, uma chance de fazer um pouco de exercício. Não que isso pudesse fazer alguma diferença naquele momento. Meio-dia em ponto, horário de almoço. Inverno, temperatura mais baixa do que o habitual, ventinho cortante, chegou ao terraço praticamente sem transpirar, apesar da jaqueta de lã batida que vestia. Fosse verão, a situação teria sido diferente. Este representava para ele um período de incômodo e desconforto. Suava demais no verão… A mãe e o terapeuta diziam que não era só em função do calor. Era principalmente por causa da ansiedade. Naquele instante, contudo, estava contente, orgulhoso de si mesmo e calmo, surpreendentemente calmo. Finalmente iria colocar em prática o plano há muito concebido. Sabia que agora não haveria recuo, que não faria o movimento contrário de descer as escadas. Era uma pessoa assim, relutante até tomar uma decisão. Depois que isso acontecia, porém, não voltava atrás. Com passos firmes, foi se encaminhando ao parapeito. Um pássaro de penas cinzentas voou para longe emitindo um som estridente ao sentir sua aproximação. Ele esticou o pescoço e olhou para baixo. Os carros minúsculos o fizeram lembrar a coleção de carrinhos de ferro da infância. Por falar nisso, onde estaria ela? Com um discreto movimento de cabeça, afastou essa lembrança inútil e subiu no parapeito. Abriu os braços à la Leonardo di Caprio em Titanic. Senhor do mundo também, por que não? Do seu mundo, pelo menos. Do seu mundinho, seria melhor dizer. Pequeno, insignificante, solitário, dispensável; enfim, o que lhe fora possível construir. Se as coisas não tivessem acontecido dessa forma, não estaria ali, vislumbrando o panorama do alto, prestes a realizar o que… Bem, prestes a realizar um ato tão definitivo. A vida, com frequência, não é justa, muito menos simples. Nem tudo depende de esforço individual. Foi esse o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça assim que se lançou lá de cima. Numa sucessão rápida, outros pensamentos foram aflorando. Indivíduo reflexivo, seguiria dessa maneira até o fim. Apesar de já estar próximo dos quarenta, não havia conseguido conquistar nada de importante: não tinha casa (vivia de aluguel num quarto e sala de um bairro decadente), carro (dependia de ônibus e metrô; táxi, nunca), relacionamentos sólidos (nunca os teve), prestígio (mais de uma vez, no ambiente de trabalho, roubaram-lhe boas ideias). O emprego atual, assim como todos os anteriores, era medíocre, bem abaixo de suas qualificações, o que o obrigava a ainda contar com a ajuda dos pais para as despesas básicas. Na altura do trigésimo segundo andar, não conseguiu evitar um leve sorriso (tudo nele era meio contido) ao pensar que se livraria definitivamente da convivência com a chefe gorda, incompetente, de voz anasalada e monótona, mulher desagradável que tinha prazer em diminuí-lo, desqualificá-lo ou apenas ignorá-lo. Como ela havia conseguido aquele posto é algo que nunca pôde entender. Vigésimo nono andar, pensou nos pais. Certamente seria uma surpresa para eles. Uma tristeza também. Mas, afinal de contas, a vida de todos é feita de surpresas e tristezas, não é mesmo? Com o tempo, tudo voltaria ao normal. O tempo cura tudo, vivem repetindo por aí. A mãe, mulher forte, esclarecida e religiosa, acabaria por compreender as razões do filho único. Será que se sentiria culpada? Talvez, não sabia dizer com segurança. Não tinha resposta para muitas perguntas, estava consciente de suas limitações. Vigésimo terceiro andar: e a pilha de livros à espera de leitura na estante do quarto? Alguns pareciam tão interessantes. Queria tanto ter tido a chance de folhear suas páginas, de fazer anotações nas margens e de sublinhar com o lápis as passagens mais significativas. Poderia ter aprendido coisas. Poderia ter se transformado num ser humano mais forte, mais preparada para as adversidades da vida. A literatura também serve para isso, ora bolas! Vigésimo andar: não teria sido melhor um método mais fácil (comprimidos, por exemplo; o terapeuta poderia tê-lo auxiliado, sem saber de nada, é claro). Décimo sexto andar: não tinha deixado bilhete dirigido aos parentes (muito clichê, a originalidade era para ele uma meta). Décimo primeiro andar: nunca chegaria a conhecer Mariana ao vivo. Já se falavam pela internet havia quase um ano. Como o tempo passa rápido! Ela parecia compreendê-lo tão bem. Existia empatia entre eles, sem dúvida. Pena que o relacionamento houvesse ficado confinado ao âmbito virtual. Será que ela tomaria conhecimento do fato? Será que leria a respeito em algum jornal? Talvez assistisse à reportagem de algum programa sensacionalista da TV, desses que se alimentam da dor e do sangue alheios a pretexto de mostrar a “realidade da vida”, “o mundo como ele é, sem retoques ou maquiagens”. Exploração da miséria humana, isso sim. Sétimo andar: tratamento dentário inacabado, quem se importa? Para sempre livre daquele motor irritante, daquele barulho desagradável, anestesias, brocas, para sempre livre do desprazer de ser torturado e ainda pagar por isso. Terceiro andar: jamais visitaria Florença, a cidade às margens do Arno, cenário de um filme visto na TV. O curso de italiano que vinha frequentando nos últimos anos não serviria para nada. Havia feito tantos progressos… Era, sem dúvida, o melhor aluno da turma. Recebia vários elogios da professora. Pelo menos ali ele se destacava. Ma la vita non è sempre bella. Segundo andar: não teria a oportunidade de pedir perdão a Viviane, sua meia-irmã, filha de seu pai, concebida num momento de crise no casamento oficial. Tomou as dores da mãe e disse palavras terríveis à menina. Na ocasião, até ele se surpreendeu com a própria capacidade de ferir e de magoar. Hoje pensava diferente, que culpa tinha ela? Deveriam ter convivido mais, poderiam ter sido mais próximos. Poderiam… Solo: poça de sangue, dor intensa no corpo todo, justiça, esforço individual, chefe gorda e intolerante, gritos dos passantes, bilhete de despedida, parapeito, carrinhos de ferro, desespero dos transeuntes, voz anasalada e monótona, ler, livros, leitura, pessoa melhor, Mariana, Viviane, Leonardo di Caprio, Titanic, Florença, dolore, surpresas e tristezas, suor, ansiedade, inverno, inferno, internet, terapia, terapeuta, comprimidos, dentista, aluno, professora, paura, sorpresa, surpre e triste, surp e trist, sur e tri, su e tr, s e t…

  • A segunda morte de Lázaro

    Quando estava para morrer a sua segunda e definitiva morte, Lázaro teve uma visão. Uma mulher morena apareceu na porta de sua casa. Mal a viu, ela desapareceu.

    Lázaro sentou-se na cama, sentiu nos pés o eco dos mortos, como um tambor muito longe. Depois que voltou do Xeol, costuma ouvir os mortos. Trouxe-os na cabeça, no peito, na alma. Encosta a mão na parede, apoiando-se, e sente a presença dos mortos. Anda cambaleando, e pensa se já não é um morto. Aliás, esse pensamento nunca o abandonou. Quando você desce ao reino dos mortos, é para sempre. Como Lázaro voltou, trouxe os mortos com ele. E seguramente ele já é um morto.

    “Avô!” Uma jovem lhe estende um prato de frutas. Ampara-o com a outra mão e o conduz a uma cadeira. “Sara”, diz o avô e lhe passa a mão pelos cabelos, olhando-a com os olhos baços. “Sara, você viu a mulher que estava aqui?” A menina não tinha visto ninguém. Estranhou a pergunta. Viviam poucas pessoas na pequena cidade, todos se conheciam, nenhum desconhecido costumava aparecer por ali. Era um lugar entre o deserto e o mar. Havia ainda a montanha. Era um lugar de grande beleza, se você olhasse bem. Mas você não olhava bem: tinha o peito opresso pela solidão.

    Lázaro amava a solidão. Montara ali a sua tenda para usufruir da solidão. Depois construíra uma casa, e uma família para habitar aquela casa. Mas todos já tinham morrido. Restara ele com a sua solidão. Sim, havia os netos. Várias vezes por dia vinha um neto trazer-lhe comida, ver se ele estava vivo. Lázaro era um monumento. Todos queriam que ele contasse o que tinha visto no reino dos mortos. Como se calasse, dizendo que estava dormindo e não vira nada, cansaram-se de perguntar. Mas contemplavam-no como a um monumento. Era o marco de um outro mundo.

    Quanto mais o tempo passava, mais Lázaro se distanciava das pessoas. Na realidade, todos que o conheceram quando jovem, antes de sua partida para o Xeol, tinham morrido. Lázaro sobrevivia a si mesmo. Tocava-se: seria ele mesmo? A sua pele era cinza e quebradiça, como se fosse desfazer-se. Não estaria morto? Não, ele não alcançara a graça de morrer. Passou por essa experiência uma vez, para voltar como um estranho entre os homens. Atormentado por essas ideias, adormeceu. Sara cobriu-o e retirou-se. O avô parecia um morto.

    Quando acordou, a mulher morena estava na porta outra vez. Tinha o mesmo ar estrangeiro de antes, mas sorria. Tinha a areia do deserto na pele dura, mas sorria com doçura. Lázaro levantou-se e caminhou em direção à mulher, dando-lhe as boas-vindas. Mas ela novamente desapareceu. Era como se sumisse no ar. Como uma bolha de ar que se apagasse. Lázaro admirava-se: a mulher era tão real, era mais real do que ele. Como poderia ter se evaporado assim?

    Caminhou até a porta, sentindo nos pés os mortos que não o abandonavam jamais. Era como um eco, prolongando-se em espirais infindáveis, cada vez mais distantes e cada vez mais próximas. “Avô!” Agora era Judith que o amparava. “Os mortos já morreram, avô.” Ele admirava-se da sabedoria da menina, mas continuava sentindo a presença dos mortos. Os mortos nunca morrem de todo, ele pensa. Judith caminha alguns passos com o avô. Mostra-lhe o mar, as ondas calmas e misteriosas, os pescadores preparando-se para partir. Ele também precisa partir, Lázaro pensa.

    Senta-se num banco de pedra e fica olhando a água azul, algumas nuvens, algumas aves. Aos poucos uma sensação de nostalgia apodera-se dele. Aliás, dia e noite ele sente nostalgia. Do passado, simplesmente? Do outro mundo? Lázaro nem sabe de quê. O dia passa como uma modorra sem fim. Lázaro distinguiu o significado da vida quando distinguiu o significado da morte. Só não sabe as palavras para dizer. Tudo que conhece é a música que vem do fundo da terra.

    Dias depois acordou de um torpor. Era como se flutuasse no espaço. Lázaro tornara-se uma luz, um corpo de ar flutuando na luz. Fez força para abrir os olhos. Precisava ver a realidade, tocar as coisas com as mãos e com os pés. Precisava ter certeza de que existia. Lázaro fez força para levantar-se. Queria ver a mulher morena na porta de sua casa, precisava sentir a sensualidade da pele morena da mulher no seu corpo.

    Quando percebeu a mulher estava ao seu lado, um corpo contra o outro, acariciando-se, excitando-se. A mulher beijou-o na face, nos lábios, na língua. Lázaro sentiu-se rejuvenescer. Estava na sua força de homem, um frêmito corria-lhe pelo corpo, sob a pele, no sangue, nos músculos. Os dedos da mulher lhe acariciavam o peito, a barriga, o membro. Quando percebeu, a mulher estava sobre o seu corpo, o seu membro intumescido dentro do corpo da mulher, ela o possuía, ele a possuía. Estava cada vez mais dentro dela, os seus corpos se completavam, num êxtase.

    Lázaro quis gritar, mas estava sem voz. Quis tocar o corpo da mulher, mas ela já não estava ali. Quis dizer-lhe o nome, mas não sabia e nem tinha mais voz para falar. Lázaro nem percebeu que já não existia.

    Jesus e Ana encontraram-no com os olhos abertos e um sorriso nos lábios. Estava feliz como nunca em sua vida.

    Ana disse: “Adeus, avô.” E Jesus fechou os olhos do avô, enfim liberto.

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