Crônicas Cariocas

  • Por via das dúvidas

    Cândida precisava cortar o cabelo.
    O problema era: quando?
    Lua Crescente, para o cabelo crescer mais rápido.
    Lua Cheia, para ganhar volume.
    Lua Minguante, para cuidar da saúde dos fios.

    Entrou em crise.
    Não podia simplesmente cortar o cabelo. Era preciso escolher a lua certa.

    Foi então que se lembrou de mais uma coisa.
    A tinta.
    Queria mudar a cor.
    Lua Nova.

    Pronto. Agora só faltava descobrir em qual fase da Lua deveria viver.
    Finalmente escolheu o dia e saiu para o salão.

    Abriu a porta de casa e deu de cara com uma escada encostada no poste. Lá em cima, um
    homem mexia na fiação.
    Cândida pulou para o meio-fio.
    Ser atropelada seria menos grave que passar debaixo de uma escada.

    Na pracinha, uma joaninha pousou em sua mão.
    Sorte!

    Continuou seu caminho, feliz da vida, até que uma rajada de vento veio de repente.
    Fez uma careta.
    Ou quase.
    Segurou a expressão no meio.
    Melhor não arriscar ficar daquele jeito para sempre.

    Na esquina, sentiu a orelha esquentar.
    Alguém estava falando dela.
    Só podia ser uma das amigas para quem contara que mudaria o visual.
    Inveja.

    Procurou um banco de madeira debaixo da marquise do ponto de ônibus e bateu três
    vezes.
    Pronto.
    O azar estava avisado.

    Chegou ao salão.
    A porta estava destrancada.

    Entrou?

    Não.
    Tocou a campainha.
    Era importante que a dona do salão abrisse a porta. Só assim garantiria que seria bem-
    vinda na próxima vez.

    Sentou-se na cadeira.

    Antes de começar, fez um pedido à estrela cadente que fotografara na noite anterior.
    Cruzou os dedos das mãos.
    Depois, os dos pés.

    Respirou fundo.
    E entregou suas madeixas aos astros.

    O resultado?
    Está na ilustração.

  • Frango à milanesa

    Assim resumo meu começo torto, na última sexta-feira como cidadã “cachambianse” — e que se retire solenemente quem, dada a época do ano e o gentílico recém-proclamado, aguardar daqui em diante jogos de palavras tendenciosos à política do botão verde de CONFIRMA. Não me demoro nessa competição de temporada que, de tanto disputar digitais alheias, fere o sentido amplo de seu propósito; aqui, a politicagem é outra… distribui santinhos da experiência de pertencer, não papéis que emporcalham a cidade e mal chegam à reciclagem. Aqui, hei de fazer campanha pelas conexões de um povo que, mesmo estando eu de passagem, em apenas 04 meses aprendi a chamar de meu.

    Onde eu estava…? Ah, sim. Eu tinha acordado.

    Às 14h34, no susto. O alarme não tocou. Trôpega, peguei o celular e digitei sem muito cuidado com a caligrafia digital desatenta ao corretor ortográfico — que muito modifica sentidos quando nos pega desprevenidos — mil perdões esbaforidos para dona Rosa, da barraquinha de marmitas em frente ao meu condomínio.

    É a primeira sexta-feira de outubro, chuvosa como foram tantas sextas do mês e setembro. Dona Rosa me aguardava para entregar a marmita — a minha última; ela não sabe. Visto uma blusa e outra coisa que não se encaixa bem nas pernas. Troco, escovo os dentes, prendo os cabelos de um jeito sem estilo. Havaianas nos pés, venço o corredor do meu bloco, atravesso a área comum que me recepciona com gotículas finas e persistentes, libero meu acesso pela facial e ganho a calçada. Dois sorrisos (um sem graça, outro cansado), um abraço, mil outros perdões, vale-alimentação já na maquininha. Ela abre o isopor vermelho e lá está: o pote de isopor com “frango a amilanesa – Bia”. Eu quase choro.

    “Se cuida, menina! Descansa e se alimenta!” Pisquei os olhos.

    Passei boa parte da vida acreditando na precisão das palavras. Ainda acredito — e defendo, com postura de quase candidata a um cargo nas eleições deste domingo, 04 de outubro: corrijo acentos, vírgulas, concordâncias. Aprendi a amar as regras gramaticais quase como quem afia ferramentas: pelo som, pelo peso, pela precisão do corte. Mas quatro meses me ensinaram uma língua sobre a qual nenhuma gramática normativa poderia reivindicar propriedade.

    Quem diria que, ao acrescentarem mais um “a” ao prato do dia, numa alusão já bastante tropical a um suposto preparo italiano, logo eu — devota da palavra correta, amante e fluente na língua e cultura italianas — deveria ter sucumbido ali mesmo à indignação. Morri, sim, ali, na calçada. Mas de ternura; o tiro saíra pela culatra.

    Escrito à caneta na tampa de uma marmita descartável, o duplo “a” equivocado acertou em cheio: disse o que precisava ser dito; com o coração, não com o esnobismo. Era um “a” dobrado de afeto, expresso, tal qual um café, com aroma extra de amor. Na língua do cotidiano, fala-se que o segredo está no tempero. E todo mundo sabe que o caminho mais curto até o coração de um
    homem passa pelo estômago; antes dele, há o prato.

    Uma voz culta, musical e precisa surgira nos meus dias, preenchendo-os de possibilidade. Conhecia, pela tela, minha casa, meus cantos, o lugar onde eu escrevia e lia; falava de energia, de escolhas, interpretava minha exaustão como consequência de eu me dar demais ao que não merecia tanto de mim. Mas não me preparou prato algum e deixou pela metade até a única fatia de pizza que teve diante de si. Tanto discurso, tão pouco apetite pela experiência inteira. Pouco depois, retirou-se numa ausência orquestrada.

    (Curioso: eu, que comecei este texto expulsando a politicagem pela porta da frente me vejo, algumas linhas depois, de cara com a política acomodada à mesa. Não a convidei. Certas presenças têm o hábito inconveniente de sobreviver à própria ausência)

    Mas esta não foi a única voz a opinar sobre meus gastos. Outras, igualmente instruídas, também disseram que eu me despendia demais — e mal. Nenhuma delas soube ler o que tanta gente, sem qualquer pretensão de erudição, leu de primeira: minha energia não estava sendo desperdiçada. Escorria de mim como uma torrente, é verdade, mas encontrava mãos que trabalhavam comigo, cafés passados na hora, hambúrgueres que salvavam madrugadas, abraços, risadas e gente que simplesmente abria espaço para que eu coubesse inteira, só por ser eu. Há muito eu não me via tão feliz sem as malditas expectativas. Continuei me gastando inteira, como sempre. A diferença é que, desta vez, o desgaste me devolvia vida.

    “A a”bracei novamente.
    Ela, dona Rosa, ainda não sabia.

    ***

    Corda ao contrário no relógio.
    São 17h35 de quinta-feira; eu, na fila do Mega Matte.

    No caixa, a proprietária, que me viu algumas vezes. O atendente de sempre não estava por ali.

    “Um açaí fit de…”
    “…500 ml com proteinato!”

    A voz vem do movimento corporal de um atendente que eu nem havia percebido direito nos últimos quatro meses. Ele sorri para mim; sabe meu pedido. Sabe a mesa na qual me sento.

    E isso dói de um jeito bonito.

    Espero baterem meu shake, que substitui o almoço de quem acordou às 16h depois de trabalhar das 21h30 às 10h. Respondo alguns colaboradores, fornecedores, agendo as atividades da noite, peço apoio para compras de última hora.

    Confirmo o Pilates pelo aplicativo de check-in; ainda preciso passar na padaria para comprar salgadinhos e Coca-Cola — sugestão de uma das alunas. Convém apresentá-la antes que chegue atrasada algumas linhas adiante: na semana anterior, ao descobrir que minha condição de nômade incluía também uma despedida iminente, apareceu com um bolo de pamonha tão bonito quanto delicioso. Não sei se existe protocolo para acolher mulheres de passagem; se existe, desconfio que Deus envie anjos a nos entregar milho, açúcar e muita generosidade embrulhada para presente.

    Meu último dia no Pilates. Esta quinta.
    (Eu sei… a crônica está muito culinária e nada fit — nem ao corpo, nem a qualquer figurino político. Tampouco pretende entrar em forma partidária; apolítica, a esta altura, já vimos que também não é.)

    “Exercício e açaí fitness não casam exatamente bem com refrigerante e gordura”, penso diante dos quitutes. Por coerência, pego também uma caixinha de palmiers.

    Subo a Torre Norte até o nono andar, no terceiro elevador.
    Sorrisos.

    Alguns exercícios.

    A aluna do bolo de pamonha — eis que retorna a personagem, desta vez atrasada — chega e me abraça.
    Queridíssima.
    Ninguém está exatamente no clima de alongamentos ou superações musculares.

    Pausamos. Paramos em pé, ao lado externo da porta de entrada.

    “Sábado vamos dar uma volta e tomar um café antes de você ir.”

    Eu sorrio.
    Piscar de olhos.
    E já se foi o sábado. Eu não consegui encontrá-las.

    Tive de trocar o café prometido e a continuação das nossas histórias de vida pela arrumação da casa, 02 malas G de rodinhas, 02 mochilas, umas 07 sacolas retornáveis, alguns mantimentos e Magda Ficus Elastica Tineke Mies.

    Lembram-se dela? A roommate e única sobrevivente de “Esta história não é sobre plantas”, primeira crônica desta temporada inteiramente carioca. Minha bagagem concentradamente nômade revelou-se humanamente apegada: ocupou todo o maleiro de uma van executiva.

    Troquei também o café com minhas novas amigas por refeição alguma. Sobrevivi a uma sobra de queijo, restos de gelatina sabor banana Fini, água e água tônica do mercadinho-contêiner. (Vejam uma crônica tão culinária terminar o sábado em jejum. A coerência também se perdeu numa logística que se recusava a terminar.)

    Enfiei nos últimos microespaços, entre tecidos e objetos, o que não coube em mala alguma: sentimentos, memórias, aprendizados, alguma dor e muita felicidade. Até poucas horas antes, eu ainda imaginava continuar habitando aquela casa…O café ficou para trás; a Bialetti, foi envolta em plástico bolha. Abracei os funcionários do condomínio, tirei algumas fotos, troquei olhares de gratidão e, pela primeira vez, não levantei a planta do apartamento.

    Para uma arquiteta que costuma medir os lugares que habita, foi, no meu doce ver, a maneira menos técnica de manter a porta aberta.

    Deixei tudo sem escala.

    Inclusive a possibilidade de voltar. De acordar outra vez com os ruídos abafados pelo drywall; finalmente cumprir a terceira ida à piscina, desta vez com sol, diante do salva-vidas que muito mais me viu passar prometendo “qualquer dia eu venho” — gerúndios infinitos — do que em trajes de banho. Quem sabe madrugar, enfim, na academia do condomínio ou levar uma outra almofada para um banco lá fora e partilhar da minha solitude com as estrelas, uma vez mais.

    E tomar, como de praxe, meu café no sofá das leituras domingueiras.

    ***

    Os seguranças do shopping sabem meu nome.

    Os responsáveis pela manutenção, idem.

    As docas do Norte Shopping me receberam de braços abertos — em alguns dias, em mais de um idioma.

    Os corredores dos acessos restritos são labirintos familiares.

    O time da loja me cumprimenta e ainda me manda mensagens perguntando onde estou (“tem um vazamento”, “uma tomada pifou!”, “como é que faz isso mesmo?!”, “está a caminho?”). Os seguranças extras que acompanham a continuação dos serviços sorriem.

    O celular toca.

    É a Katia.
    “Chegou encomenda, bebê.”

    Cruzo as partes cobertas e abertas do pátio do centro comercial. Quando noite, chuvosa, percebo o reflexo dos painéis de led nas poças sob os meus pés. Sempre achei incríveis essas escadas rolantes que se deleitam com as chuvas. Atravesso as faixas carroçáveis e recolho mais uma entrega para a obra.

    Meu rosto é reconhecido.

    Abaixo dele, ora aparecem bloco e apartamento; ora, seis números me transformam em Ordem de Serviço.

    “Bom dia”.
    “Boa tarde”.
    “Boa noite”.

    Essa experiência nômade me deu o que anos de retornos e permanências imprevistas à minha cidade natal não conseguiram: conexões profundas.

    E pensar que cheguei aqui com bagagem demais e uma carta escrita vinte anos antes, destinada a ser aberta — embora o remetente esperasse que nunca fosse — num momento de tristeza pontuda; fora escrita exatamente no mesmo dia em que, vinte anos depois, cheguei a este lugar.

    Ah, minhas adoráveis dobras do tempo..!

    Foram tais palavras antigas e tão frescas que me tomaram no colo e atravessaram comigo a porta do apartamento. De algum modo, também moraram aqui.

    Outras presenças chegaram sem atravessar o portão preto.

    Promessas de vinda permaneceram suspensas, alimentadas por chamadas, vídeos, noites e possibilidades. Houve quem conhecesse pela tela minha casa, a disposição dos móveis, meu espaço de escrever e de ler, meus silêncios, meus fins de noite.

    Conheceram, no raso, um lugar em que nunca estiveram.

    Restaram sombras e ausências muito latentes.

    Os olhos marejam.
    Pego novamente a carta.
    Releio.
    A mão esquerda sabe.
    Respiro.

    ***

    Minha mãe e Zeca vieram passar uns dias.

    Choveu e fez frio.

    Eu tive febre. Por 12 dias consecutivos. Não pude utilizar-me de atestados.

    Trabalhei horas e horas e horas.

    Um dos meus melhores amigos fez ponte aérea para passar um dia participando da minha rotina.

    Um colega de ofício, presente da escrita criativa que a vida transformou em amigo veio, de moto Uber, tomar café só para bater papo. Depois me chamou para filar uns comes e bebes na inauguração do novo Manolo do Rio de Janeiro.

    Magda cresceu comigo, perdeu folhas e ganhou novas.

    Eu também.

    Fui duas vezes à piscina.

    Duas.

    Em quatro meses.

    Na última, atravessei os azulejos a nado, ida e volta; me sentei numa espreguiçadeira dentro da prainha, boiando.

    Achei que, finalmente, faria absolutamente nada.

    O celular corporativo tocou.

    Depois tocou de novo.

    E de novo.

    E de novo.

    Foram mais de dez ligações.

    Eu trabalhava de dentro da piscina.

    Ri.

    Parece literatura, e é; a certa altura, até a falta de pausa virou uma das pausas que eu registraria por aqui…

    ***

    Jamais esquecerei a barraquinha de hambúrgueres, que salvou noites intermináveis de trabalho e rapidamente nos promoveu a clientes VIPs: eu, meu par à frente da engenharia da obra, a técnica de segurança e o bombeiro.

    Hambúrgueres em horários em que pessoas normais dormiam. Cafés levados em garrafas térmicas que não chegavam a meia-noite de um turno comum. Depois, os cafés moídos na hora na copa da retaguarda. Muitos. Pizzas. Frutas. Conversas em pé. Conversas sentadas no chão. Retoques. Mais retoques; um checklist que parecia reproduzir seus próprios itens quando ninguém estava olhando.

    A construtora e a gigante multinacional do varejo me deram trabalho. Muito. De noite, de dia, à tarde; jornadas que algumas vezes pareciam não compreender muito bem a existência dos relógios e, ainda assim, se mostraram mestras em me proporcionar VIDA.

    Há uma ironia maravilhosa nisso: em 04 meses de obra, trabalhando em todos os turnos possíveis, o que mais se escreveu na minha vida foram as pausas.

    As pequenas.
    As roubadas.
    As inventadas.

    As que cabiam entre uma ligação e outra, entre uma madrugada e o amanhecer, entre um problema e outro, entre duas pessoas, entre uma equipe que, aos poucos e rapidamente, adquiriu contornos de família.

    Entre a vida que eu trouxe para cá e a que começou a nascer aqui.

    O final não poderia ter sido mais leve: 10 a 14 horas de trabalho noturno, de segunda ao amanhecer de sábado.

    Na terça, entretanto, fomos surpreendidos pela Light, que desligou, para manutenção, a energia de todo o shopping e nos obrigou a correr e interromper a programação. Foi providencial para que meu amigo viesse.

    Nos outros dias, empresas antigas e uma nova bateram ponto com pessoas queridas das equipes dos nossos colaboradores. Gente que já não era apenas profissional trabalhando de madrugada. Gente cujo nome passou a morar comigo, no rol dos rostos cachambianses.

    Na última madrugada, entre um retoque e outro e a espera pelo profissional seguinte, joguei forca, jogo da velha e fiz uma mímica inesquecível de filme com uma segurança que, desde o início, tinha uns ares estranhamente familiares.

    Rimos no meio de uma loja vazia depois de horas e horas acordadas. Tomamos café e água. E ouvi dela que nunca havia sido tão leve virar tantas noites. Que eu ficaria na saudade.

    Ela também. Ela e sua promessa de um calendário personalizado. “Um de 2027, claro”.

    Clareia o dia lá fora, mas aqui o ar condicionado ainda é gélido. Café passado. Mais um ajuste. Mais um item riscado.

    Uma fruta.
    Uma pizza dividida.
    Lactose sem proteção e sem riscos.
    Uma ferramenta que some.
    Uma risada.
    Um “Bia!”.
    Um “bebê”.
    Um “bom dia” dito às cinco da tarde.
    Um “boa noite” às oito da manhã.
    Fecho os olhos.

    ***

    Em quatro meses fui mais arquiteta, escritora, amiga e ser humano do que havia me percebido nos últimos dez anos:

    Aprendi a respirar. Aprendi sobre a minha energia. Me apaixonei.

    Por momentos.
    Por pessoas.
    Por lugares.
    Por plantas.
    Por cervejinhas compradas no mercadinho 24 horas do condomínio e tomadas no amanhecer de um dia comum.
    Por uma promessa.
    Por presenças.
    Por ausências.
    Por uma carta de vinte anos que chegou comigo.
    Por pessoas que sabiam meu pedido antes que eu terminasse a frase.
    Por quem aprendeu meu nome.
    Por quem me chamou de bebê.

    Por quem me abraçou na despedida sem ainda entender direito que era despedida.

    Eternizei meu primeiro eclipse visto a olho nu, deitada no banco deste lugar que se tornou tão profundamente lar.

    Fui feliz. Sou feliz.

    Há dor dentro disso. Muita.

    Há também uma mulher nova refletida no espelho. Uma que pela primeira vez nesta década olha para a própria imagem e reconhece estar viva. Muito viva.

    Hoje reorganizarei a vida dentro de malas de rodinhas 360°. Dona Rosa ainda não sabe que aquele frango à milanesa foi o último. O atendente do Mega Matte talvez ainda espere que eu apareça na segunda-feira pedindo meu açaí de 500ml.

    Meu rosto ainda abre a porta do condomínio. Meu nome ainda está ali. Por mais algumas horas.

    E eu descubro, quase na saída, que uma experiência nômade não me ensinou a não criar raízes, mas que elas podem brotar e frutificar muito depressa.

    Nos outros.
    Nos lugares.
    Em nós.

    E que, quando chega a hora de partir, não há nada a arrancar.

    Pisco.
    Fotografo com o celular, a instax e a retina.

    Pego as bolsas pelas alças, a Magda pelo pratinho e levo tudo junto. 125 dias aqui, entre idas a São Paulo, Jundiaí, Nova Friburgo e Porto Alegre.

    Pisco.
    Persisto.
    Me visto.

    É chegada a hora.

    E, de repente, já é domingo.

    Termino este texto já com o café da manhã esfriando. Preciso do meu título de eleitora. Da minha colinha.

    Após tanta política, tanta comida e tanto afeto, chego à conclusão mais urgente desta crônica:

    quero almoçar um belo frango à (a)milanesa.

  • Uma vida normal

    Valéria gosta de Cat Stevens e Johnny Rivers, de ir ao cinema e de bife mal passado pingando sangue. Escondida de todos, costuma colocar açúcar no chão e vai esmagando as formigas que apareciam, uma a uma. Também se diverte arrancando folhas das árvores, plantas dos vasos, cortando com tesoura rabo de lagartixas e atirando pedra nos pombos. Valéria parece ter um comportamento estranho.

    Uma de suas maiores alegrias é a infelicidade alheia. Gosta de apontar os defeitos físicos dos outros: Fulana tem o nariz enorme, aquela ali tem dentes tortos e a vizinha, o cabelo pixaim. Miseravelmente, Valéria é bonita.

    A irmã mais nova foi quem mais sofreu. Quando criança, Valéria cansou de passar o sabonete nos olhos dela quando tomavam banho juntas, fechar a água do chuveiro quando estava toda ensaboada e molhar a toalha da menina na privada. A caçula adorava Valéria e aguentava tudo calada. Já adulta, dizia ter aprendido a lidar com as agruras da vida graças à irmã. Valéria nunca compreendeu.

    Os namorados também padeciam. No primeiro beijo de língua, arrancou um pedaço da boca do rapaz. Adorava o gosto de sangue, de preferência, o alheio. Seu maior prazer era seduzi-los, permitir pequenas intimidades, deixá-los excitados e depois sair fora.

    Valéria tem aversão a pedintes na rua, que enfeiam e emporcalham a cidade. Já havia pegado esmolas de um mendigo e roubado a bengala de um cego no sinal. Por puro divertimento.

    No computador, cultua discussões virtuais. Especialista em discórdia nos grupos, quando surge uma polarização, critica os dois lados. Ninguém presta.

    Jamais colocou uma gota de álcool na boca nem experimentou drogas, é drasticamente contra. Adora ser contra. Ainda mais, de forma drástica.

    Quando casou, esforçou-se para transformar a vida do marido num inferno. Não foi difícil. Achava sempre um jeito de diminui-lo, ora dizendo que era acomodado no emprego, ora péssimo amante. Escolhia os amigos dele para arrastar as asas e insinuava que eram eles que davam em cima dela.

    O marido morreu cedo. Caiu de um precipício durante uma caminhada com ela numa trilha alternativa no pico da Tijuca. Uma fatalidade. Valéria chorou muito no enterro. Meses depois, comprou um pastor alemão – o Pancho – que dorme no quarto com ela, como dois namorados.

    Viúva, passou a frequentar bailes e clubes de salão. Adorava dançar, pagando pelos dançarinos de aluguel. No final, reclamava que fora pisada no pé algumas vezes e do perfume que usavam. Só para poder esculhambar com eles, torpes exploradores da carência feminina.

    Hoje mora sozinha, não tem amigos, ainda escuta Cat Stevens e Johnny Rivers e prefere Netflix a cinema. Ganha dinheiro vendendo vídeos de sadismo com animais, torturando coelhos, afogando pintinhos no balde, esmagando baratas com as mãos e pisoteando camundongos. Valéria permanece com um comportamento bem estranho, mas algumas pessoas acham normal.

  • Uma amiga

    Esta semana perdi uma amiga, uma daquelas que não passam despercebidas na multidão e por isso nos mostram aspectos da vida que não enxergamos sozinhos. Escrevo sobre ela para aliviar o luto porque, mesmo sabendo que ao longo da vida todos sofremos perdas, nunca estamos preparados para elas, ainda que anunciadas. Às vezes acho que a vida não passa de um jogo de soma zero: quem nos traz mais alegria é também quem nos traz mais tristeza ao partir.

    Multifacetada, ela influenciou muita gente, cada um de maneira diferente. Impressionante a diversidade das pessoas que se manifestaram. Em comum a sensação de que, embora o mundo parecesse agora mais triste, o que o seu convívio ensinou permaneceria intacto. Deixou um legado profissional importante, foi pioneira em algumas áreas – essa parte eu delego aos biógrafos que saberão contar melhor.

    Minha amiga era tudo menos invisível. Exuberante, generosa, comunicativa, espalhava alegria e, ao mesmo tempo era muito fechada e discreta, sabia falar (em sete idiomas) e calar (em sete idiomas). Nela conviviam todas as contradições. Não cabia em nenhuma categoria. Só nela mesma.

    Amava a família acima de tudo. Um tipo inesquecível, como disse o marido. Já se conheciam vagamente quando se encontraram de verdade. Foi uma paixão fulminante como poucas. Paixão e amor desde os primeiros tempos, quando timidamente foram assumindo a relação, até o final quando, ela já doente, ficavam de mão dadas e ela sorria. Tão marcante na vida quanto na morte.

    Pensarei nela toda vez que ouvir uma piada que lhe agradaria. Algum dia vou tirar os brincos dizendo ‘Vocês já viram como meus brincos são bonitos? Então não preciso mais deles’. Quem sabe até coloque gelo na cerveja, algo que a vi fazer mais de uma vez. Pode ser que fique horrível, não importa. Obrigada, amiga.

  • Língua

    Língua breve, toda clara, toda escura,
    Aos poucos caminha, para, continua
    e entre o areal, a bruma, a leve chuva
    a face se mostra, inquieta e muda.

    Língua instante – objeto nada – rara, pouca
    Para, continua, para… tonta e louca
    Ensaia um grito, uma palavra, outra,
    A voz se insinua, miúda e rouca.

    No entanto, nas contradições do descaminho,
    Faz-se a língua na própria língua
    Faz-se o verso em todo o canto.

    O poeta, imagem irreal, o instinto,
    Busca a palavra, suga-lhe o sentido
    Regurgita o poema sob aplausos e espanto.

  • Clara

    Aos 10 anos, Clara produziu o primeiro poema. A garota nunca se comportou como as outras de sua idade. Desde muito cedo, admirava as flores do jardim e os pequenos insetos que lá viviam. Contemplava os pássaros do bosque e conversava com eles, banhava-se de sol e de lua e regalava-se com o brilho das estrelas. Colecionava conchas e passava horas observando os movimentos delicados dos peixes no aquário. E os textos iam se avolumando numa pasta de cartolina marrom escondida embaixo do colchão. Deixa eu ver o que você guarda ai, menina, pedia a mãe. Em vão. Por que esse mistério todo, perguntava o pai. Clara se esquivava. Ela se interessava mesmo era por criar. Ansiava por despejar emoções no papel, preenchendo o branco do nada representado pela folha desprovida até de linhas e margens. Não fazia questão que lhe conhecessem a obra. Trazer a público seus escritos era como despir-se diante de estranhos. Tinha 15 anos quando resolveu se arriscar na prosa. Aquele enredo, aquelas personagens a perseguiam havia muito tempo. Era chegada a hora de mostrar ao mundo sua arte. Lembrou-se então de um tio-avô, jornalista aposentado, autor de artigos, crônicas e contos publicados por aí, textos bem recebidos pelos leitores e, o mais importante, valorizados pela crítica. Me diz o que você acha, tio Hélio. Seja sincero, eu não quero que você fale coisas só pra me agradar, que fique me iludindo. Ao final da leitura, uma sensação de desconforto era visível no rosto do homem. Hélio refletiu por alguns instantes. O tio finalmente falou isso não está bom, você precisa lapidar mais o seu conto. Não deve usar tantos adjetivos nem metáforas tão desgastadas. Por que tantos advérbios? As imagens são pouco impactantes, e os personagens, rasos. Seu texto não emociona, é asséptico, frio mesmo, eu diria. Depois desse dia, Clara nunca mais escreveu uma linha sequer.

  • O banquete do fim do mundo

    Um encontro histórico em Washington colocou frente a frente os mandatários das duas maiores potências mundiais, EUA e China. Toda a pompa em torno dessa reunião de titãs sugeria que o evento seria um divisor de águas para a humanidade, abrindo caminho para a esperança de um futuro de entendimento e harmonia.

    A refinada decoração do ambiente que abrigava os dois homens mais poderosos do planeta combinava louças de prata com arranjos florais predominantemente vermelhos, tom que identifica tanto a tradição cultural milenar da China e seu Partido Comunista, como a identidade do Partido Republicano americano.

    Lado a lado, os líderes aguardavam ansiosos os quitutes escolhidos a dedo para satisfazer o apetite do seleto grupo que incluía alguns dos maiores nomes da tecnologia e da inteligência artificial como Elon Musk (Tesla/SpaceX), Tim Cook (Apple), Jensen Huang (Nvidia) e Lisa Su (AMD).

    Percebe-se pela composição da equipe que o assunto a ser tratado entre a ingestão de uma porção de velouté de abóbora com cogumelos e uma garfada de robalo grelhado com gergelim não era tratar de questões mundanas como a paz mundial ou a melhora de condições sociais dos excluídos. O encontro gastronômico na East Room da Casa Branca com os oligarcas do Vale do Silício e de Shenzhen não iria perder tempo tratando de mudanças climáticas, ameaças pandêmicas ou crises migratórias que afligem os oito bilhões de terráqueos não convidados para a festa. Essas questões não foram ventiladas sequer durante a sobremesa, um crémeux de baunilha com cereja ou o derradeiro café cultivado nas encostas vulcânicas do Havaí (no caso do líder chinês, um chá verde, originário da região de Longjing).

    Discutiram-se assuntos de suma importância para a realidade dos africanos subnutridos tais como comércio de chips, segurança na cadeia de suprimentos, minerais críticos e a expansão da tecnologia, aquela que, nos prometeram, seria usada para nos libertar do trabalho degradante e democratizar o conhecimento e que agora nos torna um bando de escravos digitais alienados. A mesma que concentra um poder cada vez maior nas mãos de cada vez menos indivíduos, beneficiários dos lucros trilionários enquanto as massas definham.

    A agenda do retumbante encontro, despida de qualquer pudor ou maquiagem filantrópica, operou sob o pragmatismo mais gélido. Para que perder tempo salvando o planeta quando estão em jogo questões cruciais como a soberania sobre a indústria de semicondutores de Taiwan e a ameaça à liberdade das Big Techs de instrumentalizar os usuários e difundir ideias extremistas?

    O encontro entre os líderes e os ricaços da tecnologia não é um debate sobre o futuro; é o inventário de um planeta onde o ser humano perdeu o valor e a barbárie foi digitalizada.

    Enquanto o restrito grupo esbaldava-se no faustoso jantar regado a Schramsberg Blanc de Noirs, não muito distante dali, em Nova York, reuniam-se a pão e água numa assembleia piegas, os participantes da desprestigiada ONU. Lá estavam os porta-vozes do mundo que sobrou, ou seja, das outras 191 nações – número que não inclui o Estado da Palestina, eternamente barrado pelo veto americano, a mando de Israel.

    Pobre ONU, projeto nascido ironicamente por iniciativa dos próprios EUA para se buscar um consenso internacional e reduzir as tensões, mas que agora a considera uma organização inútil que não atende as necessidades do ‘America First’. Criada em 1945, à sombra do fim da II Guerra Mundial, o louvável projeto americano parecia ter como objetivo elaborar o desenho de uma nova era de cooperação global. Essa herança foi jogada às traças. Ao adotar desprezo pelas instituições internacionais, os EUA renunciaram à responsabilidade global. O isolacionismo de Trump é uma postura de abandono do resto do mundo à própria sorte, enquanto sabota ativamente a cooperação internacional para garantir que as corporações americanas mantenham sua hegemonia colonialista sobre os mercados estrangeiros.

    O país que outrora se autoproclamava “farol da liberdade” despiu-se de qualquer verniz de liderança ética. A terra de Jefferson e Lincoln foi sequestrada pela aliança espúria entre o chauvinismo econômico e o cartel dos magnatas do Vale do Silício. A busca pelo bem-estar e pelos direitos inalienáveis dos cidadãos de todo o mundo deu lugar à desregulamentação predatória, à exploração irrestrita de dados e à invasão da privacidade. O ser humano passou a ser apenas um perfil anônimo a ser monetizado por monopólios tecnológicos que operam acima de qualquer norma regulatória. Na planilha de custos deles, a humanidade tornou-se um ativo obsoleto.

    Eu me pergunto onde foi parar aquela sociedade ideal fundada no humanismo e na solidariedade. Morreu nos sonhos hippies da década de 1960. Ironicamente, desfez-se nas mesmas cabeças de cabeludos convertidos em profetas da internet, rede de computadores concebida originalmente como ferramenta de democratização do conhecimento e de formação de um mundo melhor. Agora os ideais juvenis desaguaram na ganância e no alinhamento a um autocrata cruel que massacra imigrantes e financia genocídios.

    Enquanto os EUA expõem sua arrogância imperial, prometendo aniquilar a civilização milenar persa que não conseguiram dobrar, a China contemporânea robotiza sua sociedade em nome da estabilidade estatal, assistindo seu líder absoluto receber do anfitrião Trump, pretenso arqui-inimigo, a bajulação de estender-lhe um tapete vermelho.

    O dragão tecnológico chinês personifica a maior traição cultural e filosófica da história do Oriente, tendo devorado seus próprios alicerces para assumir a vanguarda da Inteligência Artificial. Pequim amputou a própria alma, sepultando milênios de sabedoria sob o asfalto de suas megacidades e a infraestrutura de seus data centers. O país que outrora valorizou o despojamento material, o respeito à natureza e a retidão social, preconizados por Confúcio e Lao Tsé, transformou-se em um colosso plastificado e artificial, onde o ser humano foi reduzido a um pixel no painel de controle do Estado. O ritmo orgânico da existência foi substituído pelo compasso implacável dos algoritmos de reconhecimento facial, pela vigilância ubíqua e pela modificação artificial do comportamento humano, cenário em que a virtude deixou de ser uma escolha moral do indivíduo, para se tornar uma pontuação automatizada por uma IA que manipula cidadãos como ratos de laboratório.

    O ideal socialista foi oficialmente rifado em favor de um capitalismo de Estado hipertecnológico. Marx foi armazenado no mesmo arquivo morto dos pensadores dinásticos. A utopia de uma sociedade igualitária deu lugar a uma distopia de bilionários da tecnologia alinhados ao todo poderoso Partido, que fizeram fortuna à custa de jornadas de trabalho acachapantes. O país tornou-se o desdobramento dos modelos corrompidos do Ocidente que ele tanto finge combater: uma engrenagem fria, artificial e desprovida de humanismo.

    Unificados pela mesma ganância, o capitalismo predatório americano e a tecnocracia artificial chinesa esvaziaram os valores milenares da humanidade em prol de uma corrida cega pela primazia da Inteligência Artificial.

    Curiosamente, na mesa que reúne a maior autoridade do Ocidente com o líder da potência máxima do Oriente deixou de haver oposição entre dois mundos diferentes que propalavam sua superioridade: um fundamentado em um sistema econômico aglutinador de massas a defender a democracia e a liberdade; o outro fundamentado na sabedoria milenar que priorizava a prevalência de valores espirituais. Ambos se renderam à mesma premissa utilitarista barata. Em vez de princípios éticos, passaram a ser guiados por valores algorítmicos. O materialismo substituiu os deuses da religião por um deus ‘ex machina’ computacional sob a falsa promessa de resgatar a humanidade da miséria e da desigualdade.

    Encerrada a comilança, entre o inebriante aroma do café havaiano e o último gole morno de chá verde special reserve, os senhores do mundo levantam-se saciados. O banquete termina, a conta é repassada para os oito bilhões de ausentes, domesticados por telas e algoritmos, que seguem marchando em direção ao abismo.

  • O expresso Oriente

    Dizem que japonês bebe muito, mas eu não imaginava que fosse tanto. Dizem que bebe, fuma e se suicida muito.

    O fumo não é problema; fuma quem quer, e japonês fuma uns cigarros pequenininhos, intragáveis, uns estoura-peitos de matar, que eu já provei, no tempo em que chafurdava nesse vício.

    O suicídio é um grande problema, mas podemos suavizar, dourar a pílula, dizendo que quem se suicida enjoou de viver, e, portanto, um enjoado a menos.

    Agora, a bebida é um problema enorme, que só vem crescendo com o passar do tempo e dos trens. Exatamente isso, é um problema tão grande porque pode até descarrilhar trens.

    Por isso não é de se lamentar o feito de Shoichi Kanai, que, se exagerou na bebida, se bebeu além de qualquer limite, pelo menos não descarrilhou nenhum trem.

    A bebida desestrutura a família, provoca acidentes de trânsito, é grande colaboradora do desemprego, da violência, prejudica a saúde física e mental, etc., mas o máximo é descarrilhar um trem, e foi o que Shoichi Kanai não fez.

    Tem 73 anos de idade; não é nenhuma criança, portanto; sabia o que fazia, ou tinha tudo para saber, menos a consciência, que a bebida levou.

    Dizem que tomou uma tremenda bebedeira; ele, porém, já não diz que bebeu tanto; aproxima o indicador do polegar, como que indicando que foi só um traguinho, talvez mais um pouco, mas não além de uma dose.

    Diz que teve sono, muito sono, muitíssimo sono; e deitou-se entre os trilhos do trem; e dormiu. Não dormiu um sono normal, como o do comum dos mortais. Dormiu um sono pesado, muitíssimo pesado. Daqueles de que não se acorda nem que um trem passe por cima.

    E foi o que aconteceu: um trem passou por cima. O condutor ainda acionou o freio de emergência, mas não adiantou: o trem passou por cima de Shoichi Kanai.

    São 27 centímetros da linha até o trem; ainda bem que Shoichi Kanai era muito magrinho; ainda bem que não era nenhum bebedor de cerveja, não tinha nenhuma barriguinha.

    O trem passou voando por cima, e Shoichi Kanai nem acordou.

    Foi em Tobata, no sul do Japão, e as cerejeiras estavam floridas. Se não estavam, deveriam estar, em homenagem a Shoichi Kanai, que bem merecia.

    Devemos praticar os nossos vícios com parcimônia, para não prejudicar ninguém, nem descarrilhar nenhum trem.

    O expresso de Tobata, no Sul do Japão, passou voando por cima de Shoichi Kanai, que nem acordou.

    Sofreu apenas pequenos cortes na mão e na coxa, mas ninguém pode assegurar que foram causados pelo trem. E algum dano que o trem possa ter sofrido, ninguém poderá assegurar que foi causado por Shoichi Kanai.

  • Ah, o charme

    Acho que não me expliquei direito. Não é que eu seja contra a beleza ou a considere efêmera. Mas só acho que ela não é fundamental. Tudo bem, eu sei que esse meu comentário faria o Vinicius de Moraes sair da tumba para puxar meu pé. Mas a vida tem dessas coisas e não expresso minha opinião levianamente.

    Sim, você não disse que eu faço isso, eu sei. Claro, vou esclarecer meu ponto de vista e se bobear você vai concordar comigo. Vamos lá.

    Considere assim, a pessoa é linda. Mas é bom lembrar que ninguém é lindo para sempre, como se sabe. Porque beleza é um aspecto estético relativamente estático. A movimentação da beleza nas pessoas é pequena. Normalmente ela evolui e se adapta com o passar do tempo, mas muito raramente para melhor. Tem uma cena de Henrique V, de Shakespeare, que o rei inglês diz à princesa Catherine de Valois que ela tem sorte de casar com um homem feio como ele. Porque o tempo, que sempre retira a beleza das pessoas, pouco estrago fará em seu aspecto. É engraçado, se pensar bem.

    Mas enfim, deixa voltar ao raciocínio se não eu me perco. A beleza sofre mutações que são reflexo de aspectos ligados a vivência. Coisas como a quantidade de sol que recebemos ou os aborrecimentos em geral e, em especial as frustrações amorosas, só para citar três exemplos que tendem a alterar a beleza. Tem muito mais e você mesma pode enumerar um quilômetro delas. E é bom lembrar que trata-se de uma tendência não uma garantia porque não estou falando de ciência exata.

    Mas o fato é que esses acontecimentos, que podemos chamar assim, deixam suas marcas em nós, refletindo em nosso aspecto externo, seja em nosso comportamento seja em nossa aparência. Em outras palavras, a beleza que recebemos da mãe-natureza, em coordenação com nossa herança genética, passará por alterações lentas ao longo dos anos. É meio óbvia essa idéia, concorda? Afinal ninguém passa incólume pela vida.

    Mais vinho? É francês, gostou?

    Bom, agora vamos examinar o charme.

    Esse aspecto não vem conosco de berço, como a beleza. Não se herda charme. Trata-se de  algo que você desenvolve, cria, adapta a você e ao meio em que está. É fruto de muita dedicação sua a arte de conhecer as pessoas, percebe-las realmente e entende-las. De buscar na observação e no convívio o que você pode fazer para atrair a atenção delas. Positivamente, lógico. Em essência, o charme é capaz de tornar você mais atraente, mais belo até. E ao contrário da beleza, o tempo só faz melhorar o charme. Sim porque charme é movimento, requer prática diária e se beneficia do conhecimento acumulado. Charme é essencialmente dinâmico.

    Qual conhecimento? Ora, minha querida, o que vem das relações humanas, do querer conhecer melhor outras pessoas em geral e aquelas que são nosso objeto do mais puro e legítimo desejo.

    Sim, isso mesmo, charme é a arma de sedução por excelência. Se bem que chamar de arma é uma palavra absurdamente imprópria. Melhor que arma seria ferramenta? Não, muito pesado. Talvez, deixa ver, habilidade social ou artística ou quem sabe sócio-artística, que tal?

    Gostou né, pois é, charme é habilidade sócio-artistica. Sócio porque está ligado ao convívio social, sem ele não há razão para ser charmoso. E artístico porque é a mais bem-acabada dança de acasalamento que alguém pode fazer.

    Mas claro que derramar charme é exibir-se. Por que não? Isso faz parte do pacote básico que a mãe-natureza nos dotou. Garante desde a perpetuação da espécie até momentos agradáveis e deliciosos. Por vezes, sem exagero, inesquecíveis e que uma vez rememorados sempre nos trazem aquele sorriso saudoso. Ser charmoso ajuda quando a causa é nobre.

    Perceber que há charme no ar é fácil mas precisa estar atento. Porque tem dias que a gente está tão distraído – ou compenetrado ou tão para baixo – que se um elefante fizer um grand jeté na nossa frente é capaz de passar despercebido. Juro, sei como é por experiência própria.

    Mas se você está de olhos bem abertos aí é tranquilo. Se precisasse resumir eu diria que no caso masculino, o charme é a exibição de testosterona do bem, feita na quantidade certa, sem quebrar a cristaleira mas deixando claro que o sujeito está ali pronto e tem muitas coisas interessantes a dizer. Elas normalmente percebem os passos dessa dança com os olhos e com os ouvidos. Bem escolhidas as palavras e o timbre de voz, não há como não prender a atenção dela.

    No caso feminino, o charme é o encantamento diáfano que é atirado ao ar por ela, misturando suas essências e hormônios em um vapor translúcido irresistível. Esse bruxedo é percebido pelo olfato e o olhar. Porque é em silêncio que a mulher é mais charmosa.

    E você me percebeu como?

    Ah minha querida, de todas as maneiras e mais algumas…

  • Diminutivos

    Poucas coisas são tão engenhosas na língua quanto o diminutivo. Ele não é apenas uma medida de tamanho ou de valor; é sobretudo uma forma de nos colocarmos no mundo. Uma estratégia de convivência, um meio de nos relacionarmos com as pessoas. Sem o diminutivo teríamos que enfrentar tudo em grau normal, quer dizer, na crua dimensão da realidade.

    O diminutivo é tão importante que merecia uma ode (está bem… uma “odezinha”). Ele é por excelência um recurso de abrandamento que nos torna mais simpáticos. O burocrata não pode ou não quer atender alguém e diz, para encorajá-lo a se manter sentado: “Um momentinho.” Esse momentinho, claro, pode se desdobrar em minutos e até horas. Mas o diminutivo ecoa no tempo de espera como um pedido de desculpas. Não dá para ter raiva de quem é delicado conosco.

    Comumente o diminutivo traduz afetividade. Dele abusam os namorados quando se dirigem aos seus “queridinhos” e “queridinhas”. E as crianças se derretem diante dos “bichinhos” de estimação. Vinicius, que o Brasil ama, ficou conhecido como “o Poetinha” (por sinal, ele deve agora estar tomando um “uisquinho” em companhia de algum anjo).

    Outro efeito do diminutivo, e que está registrado nas gramáticas e manuais de estilo, é o de depreciação. Se um filme não presta, diz-se que é um “filminho” mesmo que ele se arraste além do tempo normal. Ou justamente por isso, pois nesse caso a longa metragem o faria ainda mais insuportável.

    Em grande parte das vezes, o diminutivo é apenas o invólucro de um conteúdo ameaçador. Se a sua mulher diz que está louca por um “vestidinho” que viu em tal vitrine, prepare-se para a má notícia: ele não custa menos de R$ 1.000,00! E quando o dentista diz que não vai doer, é só uma “picadinha”? Por acreditar nisso quando era pequeno, acabei traumatizado. Hoje não suporto dentistas, sobretudo os que nos enganam com diminutivos. São uns… “dentistinhas”.

    O diminutivo pode ser ainda um recurso de falsa modéstia. O escritor fala do seu “livrinho” diante dos colegas, mas no fundo o considera uma obra-prima. Talvez, quem sabe, lhe renda um “premiozinho” (e por que não o Nobel?). O ricaço compra um modelo sofisticado de automóvel e, para nos humilhar, chama-o de “carrinho”.

    Também se usa o diminutivo como um recurso de intensificação ou, dizendo melhor, de esmiuçamento. O filho aprontou alguma na escola e quando chega em casa ouve da mãe, que está uma fera: “Agora me conte o que houve. Tudinho”. “Tudinho” é tudo mesmo, sem lacunas nem disfarces. E o guri, se for inteligente, detalhará o que aconteceu para evitar umas “palmadinhas” (ou mesmo umas palmadas, pois ainda há pais e mães que não têm medo de ser denunciados).

    O diminutivo se popularizou numa época em que é cada vez mais difícil ter um vidão – ou mesmo uma vida. São tantas as restrições e os perigos, que à maioria de nós cabe mesmo uma “vidinha”. E para não sucumbirmos, a saída é dar um “jeitinho” em tudo. O “jeitinho”, que hoje é uma marca do nosso caráter, indica o reconhecimento de que nada se resolve de fato mas nem por isto se deve perder a esperança. Há sempre uma “luzinha” no fim do túnel. Se não quer brilhar para nós, sempre é possível dar uma piscadinha para ela.  

    Mas vejo que está na hora de terminar esta “croniquinha”, para não receber do leitor um… palavrão!

  • Sorôco, sua Mãe, sua Filha

    Nossa responsabilidade social e familiar, se mostra exigente sempre que respiramos, porque muitos aguardam a presença amorosa e atenciosa, junto a seus lamentos e fraquezas mundanas. Esse pensamento tão próprio de um significado profundo de amor a vida, é também voltado àquele que amamos, e que está bem ao nosso lado, e se enche de força e afeto quando o abraço afaga sua alma carente.

    Foi esse o espírito que motivou o comandante Górgidas, em 379 a.C., ao selecionar 150 casais homossexuais masculinos, para criar o batalhão sagrado de elite do exército de tebas. Essa ideia de unir forças, surgiu da percepção do quanto os homens poderiam lutar bem mais, estando ao lado de quem amam, o qual protegerá com todas suas forças, superando qualquer inimigo, que conta somente com uma espada pra andar de mãos dadas. Segundo o filósofo grego Plutarco, no livro A Vida de Pelópidas, “um grupo cimentado pela amizade baseada no amor, é inquebrável e invencível, já que os amantes, envergonhados de serem fracos à vista de seus amados, e os amados diante de seus amantes, de bom grado se arriscam para o alívio um do outro”. É o exercício do amor. A homenagem eterna a esses guerreiros está no antigo Tumulus junto ao monumento do Leão de Queroneia, onde os ossos de todos eles, mortos em batalha, estão enterrados lado a lado.

    Guimarães Rosa abordou no conto “Sorôco, sua Mãe, sua Filha”, a questão existencial e social da compaixão, e do papel central de cuidador de seus dependentes doentes mentais. Como não possuímos a eternidade em vida, o exercício do amor e da empatia é o que melhor deixaremos como brilho de nossa existência. Conforme o curso da doença os pacientes não voltarão ao seio familiar, nunca mais, e nesse triste caminho, resta a lembrança do que pode ser realizado até o abandono do abraço.

    Nosso avatar ou clone não estão disponíveis ainda, ao menos nesse plano espiritual que navegamos, mas se você tiver a chance de ultrapassar para outras possibilidades de vidas, não pense que o amor será carta fora daquele novo baralho, provavelmente você terá que desenvolver sua emoção virtual ou plástica, mas não fugirá de praticar o exercício do toque e do abraço humano.

    A fuga das relações entre os indivíduos, leva você a um mal estar em relação a vida. Sua ausência de objetivos e motivações, o tornam irracional, e você passa ser conturbado por diferentes forças que invadem sua face, e se vê imerso em uma triste guerra interna. Não se deixe levar pela falta de sentido nas trocas interpessoais, ou correrá o risco de sentir uma “Náusea” ao caminhar, como escreveu Jean Paul Sartre no romance que leva esse nome. Em forma de um diário do personagem Antoine Roquetin, relatou uma vida com total falta de sentido. Muitas artes sempre seguem a um fim, a medicina tem como finalidade a saúde, o direito objetiva a justiça, e o livro existe pra ensinar. E Você, já encontrou a sua finalidade nesse universo de pequenos atos de empatia?

  • Poema #09: para dias cinzentos

    para dias cinzentos
    é preciso abrir a janela de casa
    pular
    e sair descalço
    pelas calçadas

    encontrar
    algum mato-vivo
    do teu passado
    nas arestas do pasto

    e as terras vermelhas
    que agora bordam teus pés
    (um tanto cansados)
    um dia também pintou tua face

    com as mãos
    semear
    tuas raízes ao vento

    e quando partir o sol
    junto com o sino dos pássaros
    é hora da retomada
    feito menino
    sujo
    deixando rastros
    de aquarela
    por onde passa

  • Bodas de prata

    Meus pais fizeram bodas de prata e eu dei de presente um jogo de malas de couro acastanhado. Uma bem grande, para viagens prolongadas, uma média, para pequenas ausências, e uma menorzinha, para passeios de bate e volta. “Aposentar e viajar, esses dois verbos se completam”, costumava dizer o meu agora aposentado pai. Assim que viu o regalo, os olhos do velho marejaram. Andou em volta da maior, avaliou seu tamanho e capacidade. Sem que eu conseguisse evitar, abriu, entrou e se fechou nela por dentro. Minha mãe, depois de agradecer pelo presente, ligou a televisão para ver a novela. Passei o resto da noite tentando abrir a mala e tirar meu pai de lá, sem sucesso. De vez em quando ele dava pequenos golpes por dentro da tampa para dizer que estava bem e que eu ficasse tranquilo. Num acesso de nervos, empunhei um facão disposto a rasgar o couro novinho da mala e forçá-lo a sair, mas não consegui. Meu pai se mexia o tempo todo e fiquei com medo de feri-lo. Minha mãe continuava vendo televisão. “Não perca tempo com seu pai, ele sempre gostou de fazer fricote. Logo se cansa. Conheço essa história há vinte e cinco anos e sei como termina. Vai lá na cozinha, filho, tem bolo.”

  • Embriagada

    Em uma segunda-feira caótica, me deparei com um cenário incomum: estava eu, no balcão de um bar, pedindo uma taça de vinho. Reparei que, ao meu lado, estava um homem. Aparentava ter a minha idade, tinha o rosto ingênuo e bebia um drink.

    O início da conversa foi inevitável. Meu dia tinha sido tão difícil que conversar sobre qualquer banalidade era melhor do que nada. Depois de algumas taças, a conversa não queria ser terminada, e aquele homem, que agora já tomava forma, era estranhamente familiar.

    Eu deveria enxergá-lo como ele era: um homem que não queria ficar. Mas eu só conseguia enxergar a troca de confidências, o estranho conforto em ser entendida e examinada com o zelo de alguém que vê algo pela primeira vez. Trocamos telefones e eu fui embora.

    Os dias passavam, e nossas conversas não acabavam… não havia qualquer barreira, já éramos íntimos. Ele me chamou pra sair, e aquele (re)encontro foi a confirmação de que éramos duas diferenças que agora pareciam uma só coisa. Várias taças de vinho foram tomadas enquanto eu apreciava tudo o que sentia.

    Estava claro que havia algo ali, junto com todo o meu saber do que ele era — e do que se permitia ser. O caminho da saída era o mais conhecido e prudente, mas esperei. Pedi outra taça. E outra. E mais uma.

    Meu medo crescia, mas tudo o que eu queria fazer era pedir outra taça. Eu olhava para ele e queria continuar olhando. Eu sentia aquilo tudo que antecede o maior sentimento do mundo.

    Por isso, mergulhei no mundo dele enquanto ele mergulhava no meu, sem saber ao certo o que aquilo seria, mas era inegável que já era algo grandioso só por existir.

    Ele era a definição da embriaguez.

  • Seu Gentil e sua necessária esperança

    Seu Gentil é um sujeito deveras singular. Desses que a gente admira e, ao mesmo tempo, desaprova. Persistente para alguns; teimoso para outros. Positivo para uns; lunático para tantos. Mas, para todos aqueles que o conhecem razoavelmente bem, uma figura que não passa despercebidamente.

    Dentre as suas características mais peculiares, o seu redentor otimismo é a que mais incomoda. Chamo sua positividade de “redentora”, pois ela transmite algo verdadeiramente libertador. Não é aquele simples otimismo do torcedor de futebol que acredita na reação de seu time até o apito final. Não é a paixão totalmente desprovida da razão. É algo muito mais profundo e que retrata sua essência como ser humano. E essa característica é, de fato, incômoda porque nem todo mundo parece estar em condições de tê-la. Não raro, semeamos inveja e desprezo somente por nossas incapacidades pessoais.

    O otimismo de seu Gentil tampouco tem a ver com aquela famigerada Síndrome de Poliana. Você se lembra dela? Aquela menina da literatura infantojuvenil que queria ganhar uma boneca, mas recebeu apenas um par de muletas. Em vez de ficar chateada com o presente recebido, sentiu-se feliz justamente por não precisar dele. Pois é… Eu não vejo em nosso simpático amigo essa desoladora e irritante ingenuidade. O que mais me chama a atenção nele é, sobretudo, sua genuína esperança na humanidade.

    A gente abre os jornais e só lê notícias desanimadoras. Aliás, hoje em dia, não se abre mais nenhum jornal. Salvo alguns dinossauros analógicos, abrimos, no máximo, o site de algum portal de notícias. Mas as informações são quase sempre aterradoras: guerra não sei onde, roubo de não sei o quê, tragédia com não sei quem. É inundação; é queimada; é avalanche; é acidente aéreo, mas também rodoviário; é trapaça aqui e acolá. Eu me pergunto: de que material nosso otimismo deve ser feito para aguentar tantas pancadas?

    — O senhor ainda acredita que um dia teremos um mundo mais justo para todos? — pergunto, despretensiosamente, àquele que viu e viveu de tudo um pouco.

    — Mas é claro que sim, meu filho! É preciso acreditar e seguir lutando pelos nossos ideais! — responde-me quem costuma dar lições de vida gratuitas, mesmo não tendo a pretensão de ensinar ninguém.

    Como um grafeno, seu Gentil resiste a toda a sorte de golpes. Dos mais baixos aos mais debilitantes, dos mais inofensivos aos mais violentos. Se a estrutura atômica do grafeno lembra um favo de mel, a personalidade de seu Gentil lembra tanto a doçura de uma criança como o equilíbrio de um mestre ancião. Porém, diferentemente do mais duro dos materiais, sua natureza não conduz eletricidade, mas sim esperança. Uma saudável e necessária esperança.

    Em tempos de tantos dissabores, quando até o mais utópico dos idealistas pode hesitar em suas mais profundas convicções, pessoas como seu Gentil costumam destacar-se pelo seu inquebrantável estado de espírito. Como uma espécie de farol, elas nos orientam em nossas distintas trajetórias e sinalizam os perigos vindouros. De alguma forma, aprendi que um dos piores riscos com os quais podemos nos deparar é a falta de esperança. Uma cilada como essa pode muito bem nos enredar mortalmente e borrar nossa aptidão para um bom discernimento.

    Se existe um antídoto contra essa armadilha, seu Gentil nunca me falou. Mas o que sua vida demonstra é quão libertadora pode ser a resistência. Cada um a sua maneira, na alucinante engrenagem da vida, lutando por algo maior e acreditando em dias melhores. Aparentemente tão simples quanto realmente complexo. Pois talvez seja esse o ingrediente que confere um verdadeiro e nobilitante sentido as nossas vidas.

  • Uma canção no fim da tarde

    Sou dos que ouvem mil vezes a mesma música. E quando engato uma reflexão, impressão ou divagação boba, ouço-a ainda mais para seguir conduzido pela melodia, pelo ritmo, pela letra ou por qualquer outra coisa que mantenha essa sintonia aberta, como se a própria logicidade dos meus pensamentos dependesse única e exclusivamente dela. Fruição estética, transe ou loucura, o nome não importa. A música, sim.

    Há nem trinta anos, eu sabia de cor a programação completa da Rádio Atlântida. De domingo a domingo, todos os horários, programas, apresentadores, intervalos e até os jingles das propagandas. Estou certo de que centenas, talvez milhares, de outros adolescentes também sabiam. Naquela época, além de acompanhar a rádio, a gente comprava CDs, copiava CDs, emprestava CDs e decorava as músicas tão fortemente que eu poderia recitar muitas delas com detalhes agora, lembrando inclusive das versões cortadas para o rádio, das versões ampliadas para os shows e das acústicas.

    Sendo sincero, a gente não tinha muito como firmar nem garantir aquela experiência. Hoje, falar em experiência ao ouvir uma música parece nostalgia besta. Mas é o que tínhamos. Se gostássemos de alguma canção, ou comprávamos o CD, ou conseguíamos uma cópia e a regravávamos, ou ouvíamos no rádio, vez ou outra, contando com a sorte de encontrá-la na programação.

    De fato, era um negócio intenso. A música pulsava, arrepiava e surpreendia. Lembro exatamente da primeira vez que ouvi Bitter Sweet Symphony, do The Verve. Foi na formatura do meu primo, num agosto gelado do fim do século. Eu estava a poucos metros das caixas de som quando aquela música apareceu, inundou o salão e fisgou sem dó os meus sentidos todos por quatro ou cinco minutos. Por acaso ou não, é a minha única lembrança da festa. Só descobri o nome da música e da própria banda meses depois, quando já havia desistido de procurá-la.

    Tenho a impressão de que não conseguir as coisas tão facilmente era algo extraordinário. Impressão tardia, claro, é sempre assim. Acho que fomos enganados com aquele papo de que a tecnologia facilitaria a vida, de que a internet, por meio das infinitas conexões e blábláblá, nos daria mais tempo para ficar com a família e fazer o que gostamos. Na real, o que ocorre é o contrário. Somos escravos dos celulares até nos momentos mais pujantes. Veja: há inúmeros shows das nossas bandas preferidas no YouTube, com captação perfeita de som e vídeo, num trabalho profissional para ninguém botar defeito. Mas quando vamos a qualquer show, grande parte das pessoas filma tudo, no meio do público, mesmo suadas, espremidas e de braços erguidos. Com o desodorante em dia, espero. No geral, elas sabem que estão perdendo tempo ao registrar uma quase experiência. Sabem também que o vídeo ficará trêmulo, com o som estourado, e que o arquivo mofará em alguma pasta esquecida nos seus computadores. Mesmo assim, não deixam de gravar. Numa situação dessas, só consigo pensar que a pessoa estava, mas não estava lá. Aliás, ao gravar produziu provas de que estava; mas, de fato, não estava, entende? Confuso esse negócio de estar e não estar, né?

    Ou não. Na verdade, todo mundo sabe o que é estar e não estar em algum lugar. Lembra daquelas aulas de química que você ficava contando os minutos para acabar? Pois é. Eu mesmo era mestre nisso. Meio avoado, meio perdido, reprovei com méritos duas vezes no segundo ano do Ensino Médio. Veja só. Mas a questão não é exatamente sobre a minha gloriosa trajetória acadêmica. O problema é que a nossa vida virou um completo estar e não estar. E isso não se relaciona com a disposição para uma reflexão ou outra.

    Acho que parte das pessoas perdeu a capacidade de viver a vida, de ter experiências das mais diversas, de se distrair, de curtir uma música, de se encantar com uma paisagem, com uma pintura ou com uma fotografia. Até num ambiente preparado para uma experiência imersiva, como o cinema, há quem fique no celular. No fim das contas, a gente parece sempre atento a outra coisa, como se nossa vida dependesse de uma resposta rápida, mesmo sabendo que nada daquilo é urgente e que, do outro lado, há alguém que pouco se importa com as nossas questões. Pois é, a tecnologia acelerou as coisas, conectou as pessoas, mas também pasteurizou a realidade. Talvez o ponto seja justamente a realidade.

    Talvez a gente sinta falta de conexão real, de vida real, de coisas analógicas e palpáveis. Talvez essa nostalgia morna só ateste que estamos demorando a perceber que tudo o que temos está aqui e agora. E que quando a noite finalmente cair, quando soarem os últimos acordes, já não haverá mais tempo. E aí? Bebéu, já era, tchau, acabou…

  • Deus me livre de uma morte cruel

    Quantos dias me separam do meu fim? É somente uma curiosidade. Não tem nada de trágico no meu pensamento. Quero saber para gozar da vida. Já pensou se eu soubesse? Marta, minha amiga da repartição, recebeu o diagnóstico de seis meses de vida, por causa de um câncer de mama que se alastrou. Foi embora rápido, antes do tempo previsto, depois de fazer uma última viagem a passeio, para Portugal, local que queria muito conhecer, terra de seus antepassados. Robério, outro amigo querido, morreu em razão de um mal súbito. A esposa o encontrou duro na cama, após ter voltado da academia. Um trauma sem tamanho. Até hoje ela não fala sobre o fato. Dois dramas seguidos, que me fizeram pensar. Já estou com cinquenta e oito anos. Pretendo, se Deus permitir, preparar uma festança para os meus sessenta, com um trio elétrico tocando axé das antigas – sou alucinado por isso. Marlene, minha esposa, diz que falo muita besteira. Meus filhos têm raiva quando menciono a morte. Penso que não vou viver muito, por isso aproveito a vida, saio em dias de semana para cuidar de um bar que abri, na esquina da Nelson Mandela com a Juarez Távora. É bem frequentado. Toca-se de tudo, de rock a chorinho. Ainda continuo na repartição, não sou aposentado. Meus filhos pedem, insistentemente, que eu pare com esse negócio de bar (O formigueiro), mas eu gosto de gente, e essa é a melhor maneira de me inteirar da vida dos meus clientes-amigos. A morte me espreita, é bem verdade. Ano passado sofri um acidente de carro, no qual não tive culpa alguma; um carro atravessou a preferencial e bateu na minha lateral, com força. Com o impacto, fiquei com algumas (grandes) escoriações, tive de parar no hospital. Os médicos disseram que por pouco não fiquei preso às ferragens; que dali, provavelmente, não sairia com vida. Marlene me cobra juízo, parcimônia e um pouco de amor próprio. Ora, tenho todas essas qualidades, só ela que não percebe; sou um homem que zela pela vida, só que em abundância. Meu filme está queimado em casa, por isso passo boa parte dos dias fora. Nos sábados é sagrado tomar a minha cervejinha, e o bar fica por conta do Genésio, meu ajudante. Não sou de ferro, tenho de desopilar. Enquanto não sei nada sobre a minha morte, que para mim sempre está logo ali, vou aproveitando ao máximo as oportunidades que a vida me concede. Se é de morrer um dia, que seja na mais absoluta farra, com a presença dos que amo. Deus me livre de uma morte cruel; eu não mereço. Vida que segue… Estou agora no trabalho, sem nada para fazer, por isso escrevo estas palavras, para o meu diário. Quero preparar um livro de memórias. Ou seja, serei imortal para os que me lerem. Vamos em frente, com fé e um pouco de bandalheira, porque a vida não é para os fracos de coração.

  • Nossa Senhora!

    Take second best / Put me to the test / Things on your chest / You need to confess / I will deliver / You know. I’m a forgiver – “Personal Jesus”, Depeche Mode (versão de Johnny Cash)

    Releio crônicas do autor Ivan Ângelo. Percebo o cronista da primeira metade do século, cuja prosa parece sair de uma conversa natural e observativa sobre os hábitos peculiares do brasileiro. O primeiro texto da coletânea da Global Editora é sobre a controvérsia dentre os moradores de um prédio acerca da vizinha nova, que teria sido capa de uma revista voltada ao público adulto. Apesar de ser uma mulher discreta e gentil, as pessoas entram em frenesi em nome da moral e dos costumes. Não é uma característica estritamente brasileira, mas a cruzada conservadora resiste firme nessas terras no século XXI. Outra reflexão minha é que os autores de sua época precisavam ver o mundo lá fora para buscar seus temas. Isso mudou bastante. Agora, basta um pequeno gesto de dedo na tela de um aparelho para encontrar o assunto que está na boca do povo. Daí, apareceu para mim outra mulher que, ao contrário da suspeita desinibida, é uma santa. Literalmente. A mulher que todos comentam e que exigem uma atitude a respeito da vez é Nossa Senhora Aparecida.

    Escolhida como padroeira do Brasil, ela pode ter repensado se isso foi uma boa ideia. Nos últimos dias, as redes sociais se dividiram entre sua defesa como um símbolo de esperança e sua condenação como uma emissária das trevas. A fábrica da internet, como num sonho febril fordista, produziu conteúdo com velocidade quase impossível de acompanhar. Ainda assim, alguém deve ter consumido o suficiente a ponto de protocolar perante um tribunal (real, não virtual) sua proibição e conseguir. Como o show não pode acabar, pouco antes de me sentar para escrever esse texto, num domingo, essa decisão havia sido revertida por outro juiz. Sabe o vídeo do Porchat (não o de denúncias, o outro em que ele interpreta um jornalista exausto de tantas novidades)? Até esse texto ir ao ar, que é numa terça-feira, estou tão convicto de que haverá mais desenvolvimentos que dispensei o powerpoint (piada antiga, mas ainda válida). Diante de tanto estímulo de informações, resta-me uma interjeição de espanto ou admiração popular entre os brasileiros: “Nossa Senhora!…”

    Se dizem que Deus é brasileiro, concordo que uma atribuição similar pode ser posta para Nossa Senhora da Imaculada Conceição, ou “Aparecida” para os íntimos. Sua associação com o povo brasileiro remete ao começo do século XVIII e mantém-se em voga desde então. Da fé e dos milagres aos chutes e xingamentos, a santa, fazendo jus ao nome, aparece com frequência quando pensamos em uma figura sacra, seguida por outros favoritos, como São Jorge ou Santo Expedito. Além do catolicismo, sua imagem representa um orixá, Oxum, que, como em sua forma original, define fertilidade e acolhimento. Também há uma canção muito conhecida dedicada a ela, e se você cresceu nos anos 90, como eu, com certeza já a ouviu num especial de natal televisivo. E atua com um nome diferente, porém similar, Compadecida, numa peça adaptada inúmeras vezes para palco, televisão e cinema, todas com sucesso. Aparecida é a padroeira do Brasil, e os brasileiros fazem questão de lembrar disso, seja numa maneira boa ou ruim. Se o papa é pop, assim é a Virgem Maria. Ela está entranhada na cerne da identidade brasileira. Logo, qualquer proposta de extirpá-la ou diminuí-la causaria um ruído alto e inevitável.

    ]O barulho foi tamanho que trouxe do oceano da memória uma entidade adormecida. No caso, a aliança entre membros da sociedade civil e religiosa num campo progressista. Chega a ser engraçado ter ateus e católicos num diálogo em comum para o respeito das diferenças e crenças, enquanto outro lado determina a imposição de sua perspectiva. Setores de um lado com histórico conservador defendendo liberdade democrática e soberania do país. Acho que isso não ocorria com tamanho peso político desde os anos 70. O outro agindo com a disposição retrógrada que foi o fator original que provocou a ruptura dentro do cristianismo, como a intolerância ao convívio entre linhas de pensamento diferentes à defesa aos jogos de azar (afinal, a venda de indulgências na Idade Média não seria uma espécie de aposta?). Seria o mistério da fé? O Brasil não é para amadores, mas especialistas em Teoria do Caos. Os criadores de memes não podem reclamar. Por isso, Nossa Senhora Aparecida assumiu a função de Padroeira da nação. Na maioria das vezes, é preciso uma mãe para pôr ordem na casa.

    NOTA: Circula nas redes sociais a informação de que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação é falsa. A confusão pode estar relacionada a um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, que propunha alterar a denominação de Nossa Senhora Aparecida. O projeto foi arquivado em 2008. A campanha de Flávio atribui a disseminação do boato a adversários políticos, mas essa afirmação deve ser tratada como alegação da própria campanha, não como fato comprovado. Até o momento, não há evidência de que essa mudança faça parte do programa de governo do candidato.

  • O cupins

    Não existe cupim no singular, ou não deveria existir. Como o lápis, o vírus, o correto seria o cupins. Quem discorda deve provar que já viu algum dia um cupim sozinho. Não existe cupim sozinho, ao contrário, eles vivem às dezenas, centenas, milhares. Formam um exército – ou por outra, o cupim é esse exército – monolítico, uno, poderosíssimo e destrutivo como o de Átila, o rei dos também hunos, que por onde passava não deixava cupim, ou melhor, não deixava capim. Cupim não sei se ele deixava.

    Num episódio, a Pantera Cor-de-Rosa luta com um cupim. Um só. Primeiro ele rói os pés de uma cadeira,de uma mesa, um abajur, o teto, o piso. Por fim, ele destrói a casa toda. Um só! Isso no desenho, na realidade, pra roer uma casa inteira eles precisam desse exército, tipo um por todos, todos somos um. E conseguem, mesmo não sendo desenho, mas sendo esse inseto desgraçado, morfético e virulento.

    Em francês chama-se termite; em inglês, termita. Alnaml, em árabe, uipoka, em bengalês, bályi, em chinês; shiroar, em japonês. Quer dizer, tem, como se era de desesperar, cupim no mundo inteiro. E encontramos, pois pesquisamos, akhala, em aramaico! O que nos permite supor que tem cupim até no Paraíso Celeste, onde mora Deus, uma vez que aramaico é a sua, de Deus, língua.

    Tem mais cupim no mundo que gente na China e na Índia juntos – e que estrelas no céu, e que gelo no polo norte, e que puxa-saco em Brasília. Puxa-sacos, não cupins – tantos são os caras-de-pau na cidade que é improvável que cupim lá se crie. Ah, cupincha sim, esse é um outro gentílico.

    E não engordam – os cupins, não os cupinchas. Ao mesmo tempo que roem, desroem. O que você pensa que é pó de madeira, não é, é cocô, cocô de cupim. Um cientista esperto estudaria essa peculiaridade pra tirar dela a fórmula definitiva pra emagrecer pessoas, sem precisar de ozempic.

    Decididamente os cupins, como as baratas, herdarão a Terra. Os métodos de dedetização são falíveis e caros: cobram-se $2 mil paus pra descupinizar um cômodo de 3 m²! Então a gente aprende que são vários os tipos de cupim: o de madeira, o de solo e o de bolso.

    Uma coisa aliada à outra – a voracidade, o pantagruelismo dessa praga e o preço escorchante da dedetização -, os cupins liquidarão o planeta antes mesmo que o homem. Ou seja, o cupim é um tipo de capitalista selvagem, assim como vice-versa.

     São silenciosos, são traiçoeiros – os cupins e os capitalistas – como nicotina no pulmão, álcool no fígado, conspiradores no Planalto. Agem pelas costas – quando se menos espera, o exército, o de cupins, nhóc!, já comeu sua casa.

    E sua casa é seu lar, seu patrimônio, e não um desenho animado. Portanto, cuidado com o cupins, cuidado com o termita, cuidado com o uipoka, etc.

    Cuidado especialmente com o akhala – esse, nem Deus ele respeita.

  • Cinderela

    — O que você achou?

    — Lindo! Nunca tinha visto igual.

    — Sério?

    — Sério!

    — Por quê?

    — Não sei… A transparência, talvez.

    — Você nunca teve um assim?!

    — Claro que não! Eles são raros.

    — Raros…

    — Raros!

    — Sei que existem diferentes, mas não pensei que fossem raros.

    — Pois são.

    — Você só gostou da transparência?

    — Não. Tem esse brilho intenso, ofuscante… Raro.

    — Ah! O brilho também é raro?

    — É. Muito!

    — Começo a achar que são os seus olhos…

    — É maravilhoso!

    — De verdade?

    — De verdade.

    — É seu. É para você.

    — Nossa!

    — Ficou emocionada?

    — Surpresa.

    — Não entendi por quê.

    — É muito… Muito…

    — Não! É perfeito. Sob medida.

    — Você acha?

    — Só existe por você… É seu.

    — Mas… é tão lindo!

    — Tanto quanto você.

    — Eu não mereço.

    — E precisa?

    — Não?!

    — Ele só existe, só é valioso, só é transparente, porque é seu.

    — Aiiii…

    — Porque você é o encaixe perfeito.

    — Meu coração…

    — Posso colocar?

    — Pode.

    — Vamos?

    — Aonde?

    — Ao baile.

    — Que baile? Tá maluco?

    — Você não está ouvindo?

    — Ouvindo o quê?

    — A carruagem! Olha!

    — Você é maluco!

    — Seja também!

    — Onde vai ser o baile?

    — Onde quisermos. Onde estivermos.

    — O que vestirei?

    — Vestiremos o amor e estaremos livres.

    — Livres.

    — Sim. Vestidos do amor mais perfeito e valioso, que só nós podemos ver.

    — Livres e descalços.

    — Sob chuva ou sol.

    — Sem proteção.

    — Meu amor te protege e o seu me orienta.

    — Feito por você. Feito para você.

    — Feito por você. Feito para você.

    — Sem sapatinhos de cristal.

  • Poema #88: Adiamento

    Trago comigo meus poemas
    que ainda não foram escritos,
    simplesmente porque não se fizeram
    e nem se recolheram à sua impossibilidade.
    E vou deixando-os, portanto, para o dia
    seguinte, para a manhã seguinte, para
    a vida seguinte que não haverá.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • A meia do Juju

    As pintinhas vermelhas pelo chão eram de sangue. Rex havia quebrado uma unha e deixado um rastro pelo terraço. Se doeu, não reclamou. Ele quase nunca late.

    Apenas continuou andando em círculos pelo terraço, deixando o piso cada vez mais marcado. Por causa da demência, ele não sabe parar. Talvez nem tenha percebido o machucado. Nem a dor.

    Deu pena vê-lo assim.

    Paty tentou fazer um curativo, mas as ataduras não paravam no lugar. Foi quando me lembrei de uma meia que havia sido do Júnior, nosso outro cocker.

    Juju usava aquelas meias quando ficou velhinho e começou a ter dificuldade para descer as escadas. Eram antiderrapantes. Na época, pareciam apenas mais um daqueles pequenos gestos que fazemos por quem amamos quando a velhice chega.

    Depois que Júnior morreu, uma das meias ficou guardada.

    Às vezes fazemos isso. Guardamos pequenos objetos de quem se foi: uma fotografia, uma coleira, um brinquedo, uma roupa, uma meia. Coisas que perderam a utilidade, mas que, por alguma razão, não conseguimos jogar fora.

    O tempo passa. Elas permanecem quietas dentro de uma gaveta, até que, um dia, voltam para nossas mãos. E então deixam de ser simples objetos. Transformam-se em lembranças, em boas histórias. Em breves sentimentos entre aquilo que passou e aquilo que ainda está aqui.

    Hoje, anos depois, a meia do Juju saiu novamente da gaveta. Dessa vez, para proteger a pata machucada do Rex.

    A mesma meia que um dia ajudou Juju, velhinho, a não escorregar pela casa, agora protegia outro cão que também envelheceu e precisava de cuidado.

    Fiquei pensando em como a vida é curiosa.

    Uma coisa deixa de ser necessária, é guardada e parece ter chegado ao fim de sua utilidade. Até que, um dia, alguém precisa dela outra vez.

    Juju morreu em 2018. Mas hoje, de algum modo, uma parte dele voltou a caminhar pela casa.

    Não para que pudéssemos vê-lo. Mas para nos lembrar, mais uma vez, da sorte que é ter um cão.

  • Quando o algoritmo falha

    Dizem que, com duas ou três perguntas certas, dá para entender quase qualquer pessoa.  

    E se bastasse uma?

    Numa conversa dessas que começam em qualquer assunto e terminam em nenhum, alguém lançou a pergunta:

    — Você é mais gato ou cachorro?

    A mesa se dividiu rápido. Teve quem respondeu sem pensar, quase ofendido com a dúvida. Teve quem hesitou, como se estivesse prestes a revelar um traço de caráter.

    Achei curioso.

    Porque, no fundo, ninguém ali falou de bicho nenhum.

    Os “cachorros” eram fáceis de reconhecer. Chegam perto. Encostam. Confiam antes mesmo de saber. São de riso aberto, de presença inteira, de lealdade quase automática — dessas que às vezes atropelam o próprio bom senso.

    Os “gatos” não. Esses medem a distância. Observam antes de se oferecer. Têm um certo gosto pelo silêncio, pela independência, pelo território próprio. Aproximam-se quando querem — e isso, curiosamente, faz com que a aproximação valha mais.

    Não precisou de teste, nem de algoritmo, nem de análise profunda. Bastava a pergunta.

    Simples assim.

    Ou quase.

    Porque, no meio da mesa, alguém — talvez mais honesto que o resto — disse:

    — Eu acho que sou os dois.

    E aí complicou.

    Fiquei lembrando de CatDog, aquele desenho antigo: um corpo só, duas naturezas incompatíveis tentando coexistir. Um puxando pra um lado, o outro pro oposto. Um querendo festa, o outro querendo silêncio.

    Talvez seja isso.

    No fim das contas, a gente não escolhe entre gato e cachorro.

    A gente negocia.

    Todos os dias.

    Entre o impulso de chegar abanando a vida e a vontade de desaparecer sem darexplicação.

  • Crônica de fim de tarde de uma Segunda, Terça ou Quarta-feira

    A esperança é uma droga alucinógena. Tal frase causou impacto repentino, travando o movimento corriqueiro do dedo sobre a tela brilhante. “Era isso, muito provavelmente”. Não tinha experiência anterior com drogas, não sabia que a esperança poderia ser vista assim: alucinógena. E era. Era o que ela pressupunha a partir do que sentia: esperava ventos na direção oposta, um misto de fé na natureza e também nas cartas do tarô da esposa do seu Ercílio — “com E mesmo”.

    Segunda, terça e quarta, por serem os dias menos movimentados do restaurante, Ananina fechava as portas do térreo e subia a escada caracol dos fundos, religiosamente, às 17h45 da tarde. Às 17h50 já tinha percorrido o corredor de longos metros lineares, sem elevador e cuja escada de emergência situava-se na outra extremidade, subido três lances para então aguardar, com mais três pessoas, a abertura da porta do 408.

    Hoje, terça-feira dentro do corrido e chuvoso mês de setembro, Ananina esperava a sua leitura do tarô. Hora marcada, mas entrada por ordem de chegada. Era a primeira da fila. Seu Ercílio apareceu no corredor. “Olá, Ana-Aninha; Olá, Olaviano. Olá para você também, mocinha, bem-vinda. Sou o Ercílio. Entrem”. “Ercílio se escreve com H ou E, senhor?”, perguntou a novata na arte de aguardar as leituras de início da semana.

    Seu Ercílio, “com E mesmo, moça”, trazia sua bandeja de prata costumeira, com chá de hibisco, café, três copos descartáveis de baixa estatura e uma cestinha com pães de nata. “Nata, porque um T é melhor do que um D e as leituras anunciam tudo, basta que nos concentremos no aqui e no agora. Coma um pãozinho, se assente aqui.”

    Os três entraram na saleta improvisada, que funcionava como um terminal rodoviário em escala mínima. Pelas duas seteiras, estreitas como estrias verticais arreganhadas na parede, via-se o amontoado de pombos no meio da praça, em frente à igrejinha. Havia cheiro de cigarro no ar – ou cachimbo. Um ruído constante saía do radinho à pilha: pareciam os alardes de um alto-falante anunciando as próximas saídas de veículos-viajeiros, com a mesma solenidadede quem canta os números de um bingo. Ananina foi chamada com o olhar de seu Ercílio. Levantou-se da cadeira estofada com palha e deu cerca de dez passos à frente. Afastou a cortina vermelha de veludo, logo à direita. A luz era arroxeada.

    De costas, a mulher de seu Ercílio parecia um duende de Papai Noel que ficara roxo de raiva. “Pode sentar.” Ananina obedeceu e sentou-se. A mulher não; continuou de costas por alguns segundos, remexendo qualquer coisa numa prateleira. Ananina aproveitou para olhar a sala. Havia uma imagem de Nossa Senhora, um elefante de louça com a tromba para cima, uma samambaia que já aceitara a morte sem comunicá-la oficialmente à família. Abaixo deste ente moribundo, sete cristais de procedência duvidosa.

    Sobre a mesa, um pano preto salpicado de luas douradas — “ou restos do almoço, o que também seria uma espécie de constelação”, pensou Ananina. Ia continuar olhando, porque às vezes olhar é só uma forma educada de não saber o que fazer, quando o escuro diante dela se moveu. A mulher se virou. Por um instante mínimo, a luz negra voltou a caber na sala. Não
    era um duende.

    Era pior: era uma pessoa comum.

    “Corta com a mão esquerda.” Ananina cortou. “Agora com a mão direita… não… tenta a sua outra mão esquerda, então…” Ananina sempre tinha suas dúvidas sobre qual mão era uma direção ou outra. Precisava fingir que escrevia algo no ar para ter certeza da mão esquerda, era canhota.
    “Agora pensa.” Pensou.

    “Não precisa pensar tanto.” Ananina piscou, mudando o olhar do baralho para os olhos de Helena.

    A mulher virou uma carta. Depois outra. Depois uma terceira, que olhou por tempo suficiente para que Ananina começasse a desconfiar que talvez tivesse saído ali alguma coisa envolvendo morte, casamento ou imposto atrasado. “Tem distância.” Ananina olhou para a carta.
    “Distância?”
    “Tem.

    Helena virou mais uma.
    “E notícia.”
    Outra.
    “E uma pessoa.”
    Ananina quase perguntou se a pessoa tinha CPF, porque ajudaria bastante. Quase; não perguntou.
    A mulher continuou:
    “É alguém que permanece. Mas não está exatamente perto.”

    Era curioso como o tarô tinha adquirido, em menos de trinta segundos, a precisão geográfica de um aplicativo de mapas com sinal ruim. Ananina olhou para as cartas abertas. Distância tem nove letras e um chapéu, que pode ser de despedida, velório ou em prol da moda. Distância não parece, com toda a sua pompa, circunstância e tamanho encorpado, mas é pobre.

    Pobre de espírito.
    “Pobre de quem dela depende. !”,
    pensou. E no fluxo da reflexão, complementou:
    “Não sei se prefiro estar à distância de um vídeo ou à distância de uma carta.”
    Helena-duende-de-raiva ergueu os olhos.
    Ananina percebeu que tinha dito em voz alta.
    “Como?”
    “Nada.”
    Mas não era nada.

    A carta, ao menos, não tem olhos. Não olha de volta e pode-se tocá-la sem que esta recue. Dobrá-la. Guardá-la entre páginas. Levá-la para a cama sem pedir licença. Esquecê-la numa gaveta por seis anos e reencontrá-la numa terça- feira entre um carnê da loja de sapatos vencido e uma fotografia que pára o próprio tempo. Pode- se cheirá-la. Cartas têm cheiro. Até quando não têm, têm. Há nelas a certeza de uma mão ter estado ali antes da nossa. Uma mão real. Com unha, veias, pele, talvez suor. Uma mão que escreveu, gozou, limpou-se de forma higiênica – ou não – e depois fechou o envelope. Talvez com saliva. A carta sabe ir embora.

    Já o vídeo, não.
    O vídeo fica: Há boca. Há olhos. Há a possibilidade da transmissão ao vivo, com lapsos de segundo que balançam em função de quantos "Gs" temos à disposição. Vídeos meandram entre aquela pequena inclinação da cabeça quando alguém escuta, os dentes, o cabelo fora do lugar. Há uma pessoa inteira acontecendo a cinquenta centímetros do rosto e a quinhentos, cinco mil ou dez mil quilômetros do corpo. Isso deveria ser proibido.

    Ou tributado.
    Ananina imaginou uma repartição pública responsável por distâncias afetivas.

    “Boa tarde. Vim renovar minha saudade.”
    “Trouxe comprovante de residência?”
    “Não. Só a roupa do corpo… e o celular, serve?”
    “Bom… então a senhora vai precisar sofrer mais trinta dias e retornar com original e cópia.”

    O vídeo era isso: pura burocracia do desejo.
    Mostrava tudo o que faltava: a testa em que se queria encostar a própria testa; a boca que se queria beijar; o ombro onde caberia perfeitamente uma cabeça… Uma pessoa inteira comprimida numa tela pequena demais para abraçar alguém. A carta era mais feliz porque mentia melhor. A imagem saltitante era cruel porque provava que existia aquilo que faltava.
    Helena virou outra carta.

    “Tem espera.”
    Ananina riu. Riu não porque fosse engraçado, também não porque não fosse. “Quanto tempo?”
    A mulher juntou os lábios. Esse era, concluiu Ananina, o momento exato em que todos os oráculos do mundo se tornavam funcionários públicos:

    “Tempo é difícil de precisar.”
    Claro.
    A esperança, ao contrário, era pontual.
    Chegava cedo.
    Sentava na primeira cadeira.
    Comia dois pães de nata de uma só bocada.
    E, sentada na saleta, cheia de farelos de glúten, aguardava a sua vez.

  • Quando usou a inteligência artificial

    Tudo começou com uma consulta simples. Pediu uma informação banal! Um nome.

    Depois, uma pesquisa sobre um país, sua bandeira, seus habitantes…

    E assim foram outras pesquisas: comida, roupas, música…

    Pedia informações sobre quase tudo. Não tinha mais o trabalho de pensar! Pensar? Dá muito trabalho! Pra que pensar?

    E assim pedia, para todas as atividades do seu dia, uma ideia, uma orientação, uma resposta!

    Vai chover hoje? Que roupa combina com esse evento assim?

    Quem eu sou? O que eu sou? Humano? Coisa?

    Até que, numa manhã qualquer, não sabia mais o próprio nome,

    Não sabia do que gostava e do que não gostava. Não tinha qualquer pensamento sobre si mesmo!

    Olhou para aquele rosto no espelho e não reconheceu traço algum do que via. Afinal, o que era?

  • Luzia e o dia a dia

    Passa das onze e o casal se prepara para dormir. Ele, já na cama, lê o jornal. Ela entra no banheiro da suíte. Ele sempre lia o jornal antes de dormir e ela tomava seu banho. O segundo do dia; o primeiro era ao acordar.

    Ele acaba de ler e ela ainda no banho.

    — Luzia, não demora, quero dormir.

    Ela, no chuveiro, não escuta. A água morna batendo na cabeça, por cima da toca de banho e ela pensando na vida. Mais especificamente no seu casamento. Completariam seis anos de casados.

    — Luzia, porra, vem logo dormir!

    Agora Luzia tinha escutado. Ela já estava acabando de se enxugar. Por que tanto estresse? Nem tinha demorado assim no banho.

    Quando chega ao quarto, o marido aparenta estar dormindo. Ela acha estranho porque ele nunca dorme antes dela e com a luz acesa. Ela coloca um short e o soutien. Gosta de dormir sem calcinha. Penteia o cabelo, prende com rabo de cavalo, puxa o lençol, entra na cama e se ajeita.

    — Pode apagar a luz.

    — Até que enfim, né, Luzia?

    Ela prefere não responder. Rememora o tempo do começo do casamento: dormiam e acordavam juntos, às vezes abraçados. E sexo.

    Muito sexo. Isso que a incomoda. Não trepam há bastante tempo. De deitar e despertar abraçados nem sente tanta falta. Mas sexo…Ela nem lembra quando foi a última vez. Será que ele tem outra? Não, ela teria notado. A fase da paixão havia passado. Casamento passa por fases. Não é o que a perturba, mas a sensação de que, no momento, parecem se detestar, se aturar.

    — Você não quer mais ficar comigo. Se for isso, pode me dizer.

    — Que besteira é essa, Luzia? Está sem sono?

    — Quero só saber. Diga sim ou não.

    — Quero ficar com você. Agora, dorme.

    Ela não sente firmeza na resposta.

    — Mas ficar por ficar, na acomodação de tantos casais por aí, ou porque quer de verdade? Se pudesse escolher, ainda ficaria comigo?

    — Mesmo se a outra opção fosse a Scarlett Johansen?

    — Não fuja da resposta, ficaria ou não?

    — Ficaria, Luzia. Vamos dormir?

    Ela tinha perdido o sono. E a culpa era dele. Tudo havia começado com aquele “Luzia, porra, vem logo dormir!”. Ele nunca tinha se referido a ela daquela maneira.

    — Acho que deveríamos ter uma conversa séria.

    — Luzia, não acredito, conversa séria agora?

    — Para ficar com uma pessoa se sentindo constrangido, obrigado, não vale a pena. A vida é curta. Temos de ter um mínimo de carinho e consideração um com o outro. E respeito, respeito é o básico. Não porque estamos juntos e casados há algum tempo que vamos esquecer a noção de civilidade e educação. Eu até acho que…

    Ela é interrompida pelos roncos do marido.

    — Meu Deus, você dormiu?

    Luzia queria acordá-lo, sacudir-lhe a cabeça e gritar para que ele nunca mais fizesse isso, deixá-la assim no vácuo, falando para as paredes, literalmente.

    O marido continua ressonando. Ela desiste, puxa o lençol e enfia a cabeça no travesseiro. Está puta da vida. Amanhã, sem falta, terá uma conversa franca com ele.

    O marido para de roncar. Menos mal, Luzia tem dificuldade para dormir com barulho. No silêncio do quarto, ainda destila sua raiva. Nem pensar em ficar com alguém que não a respeita. Onde já se viu ficar casada para conviver com desaforos. Começa com “porra, Luzia” aqui, outro “porra, Luzia” ali, e quem sabe o que virá a seguir?

    O marido volta a roncar.

    Ela sacode o corpo dele para que cessem os roncos. Lembra que amanhã terá de acordar cedo para a aula de musculação e ainda fazer o supermercado. Luzia solta uns peidos, vira para o lado e pega no sono.

  • “Coisa teimosa”

    O falo é uma coisa teimosa! Esse valente que desaba de um desfiladeiro de significados, exigindo da sua plateia coro, palmas e repetição. Com um sorriso maroto no canto de lábios cascudos, como um menino perverso que tem pavor da castração, arranca o véu na sua cena infantil.

    O falo é uma coisa teimosa! Na sua lógica de ter ou não ter, expõe a sua fragilidade. Na demanda desenfreada de amor, exibe envergonhado, o excesso de desamparo. Com pavor do desconhecido, assume um compromisso com seus sintomas, mesmo pagando um preço caro.

    Capturado pelo sucesso, desconhece as entrelinhas pelas quais é encurralado no seu fiasco. Teimoso, repete mais uma vez. Prefere o embaraço a fazer o novo. Faz de novo. Será que é o tal do prazer masoquista ou do fulano sádico que extrai do gatilho um gozo? Um não vive sem o outro.

    “Cara ou coroa”? Vacilantes, somos presas fáceis. Incertos, como os dois lados da mesma moeda. Indefesos, fantasiamos um falo destemido para chamar de seu, carregado de condecorações: força, coragem, bravura, poder.

    Coisa teimosa! Não falha nem fracassa. Não escapa nem derrapa. Àquele que na fantasia, lhe protegerá contra todo o mal. Iludidos, pegamos o barco. Em mar aberto, navegamos na tempestade, perseguimos os engodos, e somos enfim fisgados,
    entorpecidos pelo canto da sereia.

    O falo é uma coisa teimosa! Ele é garboso. Sopra aos ventos. Cochicha ao pé do ouvido um sonho de consumo — Podemos ser completos! Sussurra tão perto, que sentimos seu bafo quente e fétido, de quem atiça o fogo.

    São 10:20 h, logo cruzarei a Ponte Rio- Niterói. O marcador de combustível no painel do carro indica que estou na reserva. Avisto ao longe um imenso boneco biruta inflável se movimentando com o vento gerado por um motor. Ufa!!! Expiro aliviado. Ali tem
    um posto, onde encherei meu tanque quase vazio.

    E lá estava o menino maroto saindo de fininho do lado do boneco titânico do posto. Seu sorriso de canto de boca, não deixou dúvidas. Com um simples furinho de agulha, tombou murcho no asfalto o gigante.

    Aliviado, agora com o tanque cheio, chego ao Rio pontualmente ao encontro marcado pelo iLoveyou.

    Oxalá hoje eu não fracasse no meu destino de povoar o mundo.

  • Livros

    — A senhora gosta de ler?

    — Muito. Leio desde menina.

    — Que bom!

    Alonguei o olhar, curiosa para descobrir o que ela lia.

    Talvez pela aparência de vovó das antigas, meus pensamentos fizeram o caminho mais curto: imaginei uma Bíblia. De capa dura, páginas de papel quase transparentes, letras miudinhas, paginação discreta. Um livro que claramente , eu entendi de formato impróprio para olhos já cansados.

    Enganei-me.

    Era um livro. E não desses atuais, modernos. Nada de letras grandes, espaços largos entre as linhas ou papel fosco para facilitar a leitura.

    Eu estava ao seu lado.

    Olhei melhor.

    Capa dura. Papel delicado. Tipografia caprichada. Letras pequenas, alinhadas, iguais às dos livros que eu conhecera na juventude.

    Viajei.

    Por um instante, voltei àqueles livros feitos para permanecer  por anos, tanto na estante, como nas mãos . Livros que traziam o prazer da leitura, bem como o de sentir o peso nas mãos e o ruído das páginas ao gesto de folheá-las. Aquele prazer quase esquecido de interromper a leitura depois de uma frase, manter o livro aberto sobre o colo e olhar sem ver, apenas deixando as palavras encontrarem lugar dentro da gente.

    Tive saudade.

    Não do tempo.

    Do livro.

    — Parece interessante, comentei.

    Ela levantou os olhos.

    — É muito bom.

    Disse alguma coisa sobre a história, mostrou-me a capa e recomendou a leitura.

    Anotei mentalmente o título.

    Antes que a conversa terminasse, ela acrescentou, com a maior naturalidade:

    — Tem no Kindle. Você pode baixar.

    Sorri.

    Aquela senhora não estava presa ao passado. Sabia que podia levar centenas de livros numa tela, escolher uma leitura em poucos segundos e carregá-la sem peso algum. Mas, naquele momento, preferira o volume de capa dura, o papel delicado, as letras pequenas sob os olhos.

    Não era uma escolha entre o antigo e o novo.

    Era a liberdade de ter os dois.

    E havia modernidade isso.

    Não abandonar o que veio antes, nem obedecer ao que acabou de chegar.

    É poder escolher, a cada vez, o que se quer levar nas mãos.

  • NA CHUVA

    Marcelo – marido de Patrícia
    Alice – 8 anos, filha de Patrícia e Marcelo
    Patrícia – psicóloga, trabalha numa delegacia
    Juvenal Cruz do Espírito Santo – pedófilo
    Anselmo – delegado
    Rosa – tia de Patrícia
    Ione – mãe de uma das vítimas

    Reunião com amigas da faculdade. Quinze anos de formatura. Na saída, começa a chover. Tempestade. Esqueci a chave de casa. Reviro a bolsa. Não tá. Ensopada na varanda. Esqueci o guarda-chuva. Frio. Vento gelado assobiando. Marcelo, abre a porta! Você tá aí, Marcelo? Pegou a Alice na escola? Aliiiice! É a mesma pessoa, só pode ser ele. O rádio. Desliga o rádio! Não! Aumenta o volume! Falaram o nome dele de novo. Não é um nome comum. Foi preso, tá na delegacia. Quanto tempo faz? Uns 30 anos. Nojento! Asqueroso! Pega a bala, menina, é pra você. Uva, abacaxi e morango. Gosta de hortelã? Vem comigo, lá em casa tem mais. Fica quieta, não faz barulho. Não fala pra sua mãe. Você não vai contar, né? Shhh… Nosso segredo, menina. Patrícia, vem aqui, preciso que você passe na delegacia. Você tem de conversar com as garotas. Com os pais também. Tentaram agredi-lo. Tá todo mundo aqui, muita gente. Da imprensa inclusive. O suspeito se chama Juvenal Cruz do Espírito Santo. Falo suspeito, mas foi ele mesmo, não temos dúvida. Ele tá enrolado. Depois te conto os detalhes. São cinco, todas meninas. Não vou, não posso ir, não consigo. Esse nome… Todas falam basicamente a mesma coisa. Age sempre da mesma maneira. Isso de ficar oferecendo doces e presentes. Estratégia batida, mas são crianças, sabe como é. Depois leva pra casa dele. Setenta e um anos, branco, olhos castanhos, cabelos grisalhos, cicatriz do lado esquerdo perto do nariz, 1,69 m de altura. A esposa morreu tem 6 anos. Um troço meio esquisito, acidente de carro, caiu de uma ponte… Sem filhos, netos, parente nenhum pelo que se apurou. Encontramos muitos cachorros e gatos na casa. Patrícia, tá me escutando? Não vou, não posso ir, não consigo. Pega a bala, é pra você. Lá no quarto tem uma boneca beeeeeem grande, assim do seu tamanho. Quer? Sobe a escada. Vai, sobe a escada. A boneca tá te esperando. Em cima da cama. Que nome você vai dar pra ela? Pode escolher o nome. Anselmo, você já conversou com os pais? As fotos, me mostra as fotos primeiro. Anselmo, pelo amor de Deus, esse nome… Repete o nome. Não! Não fala esse nome. Eu sei… Deixa eu ver as crianças, quero falar com as meninas. Quantas foram? Quatro? Cinco? Sete a onze anos? Eu tinha 8. Tinha acabado de fazer 8. Festa na casa da vó. Tema princesas. Eu tinha 8 anos, e a decoração era mundo das princesas, tá percebendo? Ganhei o vestido da tia Rosa. O mesmo vestido vermelho. Tava chovendo muito. Trovoadas. Meu pai ainda era vivo. Raios. Temporal. Anselmo. Porra, você não tá entendendo! Não fico calma, não posso ficar calma. Vem aqui na minha sala. Tem uma mãe muito nervosa, pediu pra conversar com uma psicóloga. Doutora, ele era nosso vizinho, nunca desconfiei. Frequentava a mesma paróquia, ajudava na missa, era amigo do padre… Não tem culpa, a senhora não tem culpa, dona… Como é mesmo o seu nome? A menina também não tem culpa. Anselmo, vou sair um minuto. Quero ver, preciso ver… Olho pelo vidro, não me aproximo. Sei que é ele… Só pode ser. A senhora me dá licença, dona Ivone? Ione? Desculpe. Anselmo, tá chovendo. Fecha essa janela. Tá entrando água pela janela. Sobe, menina, a boneca é sua, comprei pra você. Graaaande, do seu tamanho. Como você vai chamar ela? O nome da boneca, menina? Deixa. Levanta um pouco, só um pouquinho. O vestido. Vai, um pouco, só um pouquinho… Patrícia, você pode me dizer o que está acontecendo? É ele, Anselmo, sei que é. Trinta anos. Está mais velho, mas tenho certeza. Nunca que eu ia esquecer…

  • HAPPY END

    Filmes com finais felizes, além de nos inundar a alma com uma sensação boa, fazem-nos acreditar que existe uma lógica subjacente à ordem das coisas, na qual a bondade sempre prevalece e os ruins serão punidos. Tais enredos, salpicados de tragédias transitórias, sofrem invariavelmente reviravoltas, até que o glorioso desfecho traga paz a nosso coração. Depois de duas horas de angústia cinematográfica, o alívio compensa a amargura. Podemos, então, dormir o sono dos justos e dos vingados, acreditando que a marcha do destino obedeça a essa lógica regeneradora.

    No entanto, quando nos voltamos para a realidade cruel que nos cerca, constatamos que o roteiro da vida foi escrito por alguém com pouco senso de humor e as coisas não caminham para a catarse desejada. Quem tripudia sobre os outros é que alcança o triunfo; quem explora os necessitados é que usufrui da opulência.

    E o justo? Qual o papel desse escultor ingênuo da utopia que se esmera em moldar o ser humano? Acumula decepções, esperando em vão que o destino dê uma guinada e faça com que a lógica hollywoodiana possa enfim vingar. Até que uma dúvida advém: e se o canalha com sua falta de escrúpulos, for aquele que goza da preferência dos deuses?

    As crenças religiosas oferecem a promessa de que algum dia os bons serão recompensados e os maus castigados pelas entidades etéreas que, no conforto de seus assentos celestiais, assistem as desventuras da vida se desenrolarem.

    Cadê o paraíso que premia os venturosos? Qual é mesmo o endereço do inferno, destino dos maus? Onde está o deus que assiste impassível a tantas maldades? Talvez não seja bem aquele que imaginamos e esteja se divertindo daqueles que se equivocaram sobre sua índole benevolente. Talvez seja ele um ser perverso que não se preocupa com o destino incerto que aguarda seu rebanho desamparado.

    E, pior: e se não houver deus nenhum? Seja ele apenas uma criação fantasiosa dos homens para atender seu desejo íntimo de que, num outro plano, se aplique a justiça. Porque, se não existe uma justiça escondida atrás da cortina do mundo, então somos nós, apenas nós, os atores desse espetáculo macabro em que improvisamos a trama. Onde não há um roteirista nem um diretor cósmico. Não haverá um tribunal no fim dos tempos para devolver ao injustiçado aquilo que lhe foi tomado. Apenas esta vida finita e cruel.

    O homem que tentou ser decente e correto olha para trás e vê pouco além de perdas e danos. Fez o que acreditava certo e, em troca, recebeu ingratidão. Agora, está cansado de não ter reconhecimento. Talvez essa seja a forma mais perversa de revolta: não bradar contra os céus, mas simplesmente deixar de acreditar que os céus se importam.

    Apesar de todos os reveses que lhe são colocados, o legítimo justo não se abate. Mesmo depois de tudo, quando alguém cai na rua, ele estende a mão. Quando alguém chora, ele pergunta o motivo. Quando alguém é injustiçado, sua indignação aflora.

    Ele não se conforma em ser desse jeito, mas tal sentimento nele está impregnado, não consegue evitar. Não se sente superior, pois não há escala a avaliar a qualidade de suas ações. Ele é apenas assim. Uma ovelha branca em meio a ovelhas negras.

    Contra as mensagens que lhe são passadas, ele ainda acredita. É como uma pequena brasa que resiste, mantendo seu brilho sob toneladas de cinza. Uma centelha que ilumina tenuemente a esperança dos tolos. O mundo lhe mostra que a bondade é inútil, mas ele teima em ignorar essa evidência. Não porque lhe tenham prometido recompensas, nem porque acredita que o tal deus o observa, ou porque espere um lugar melhor após a morte. Sequer sabe se haverá esse ‘depois’. Continua porque, se abandonar também isso, talvez descubra que a pior injustiça não é sofrer num mundo sem justiça. É tornar-se semelhante àquilo que o fez sofrer.

    Percebe que o ‘happy end’ não é ver as coisas terminarem bem como o céu cor de rosa das telas de cinema, mas saber que o final feliz vem daqueles que, mesmo com tanta coisa ruim rolando por aí, não desistem. E essa seja a sina mais cruel: continuar esperando por um mundo melhor quando os indícios são de que ele jamais virá.

    E ele segue, vivendo a cada passo uma nova desilusão. Mais um patife vencerá. Mais um inocente sucumbirá. E os crédulos continuarão perguntando: “Onde estás, meu Deus?” enquanto do outro lado, haverá apenas o silêncio. Talvez seja esse o verdadeiro happy end: não esperar que seja feita a justiça, mas impedir que a injustiça nos transforme naquilo que não queremos ser.

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