Crônicas Cariocas

  • Poema #01: Espetáculo

    na calçada dos meus olhos
    você passa

    um palavrão alto
    sai
    na boca do beco
    da minha mente

    a ponta-metal do teu salto
    arrebenta
    o meu tímpano-peito
    num som estridente

    e no meio do palco
    perco todo o sentido
    feito fã cego idolatrando artista
    em seu show ao vivo

  • A vida dos outros

    Quando Januária, a empregada, entrou na sala e anunciou que a comida estava na mesa, ele, o vizinho do prédio em frente ao nosso, continuava na mesma posição e nada tinha mudado desde a manhã: só de cueca, sentado numa cadeira frente a um grande espelho, a arma apontada para o lado direito da cabeça. Não se decidia. Às vezes depositava a arma sobre a escrivaninha e dava passos nervosos na sala, a cabeça entre as mãos. Em seguida sentava-se novamente, olhava-se no espelho e apontava a arma mais uma vez para a têmpora direita. Passou assim a tarde toda, foi o que disseram meu pai e minha mãe quando voltei do trabalho e os guardei espiando a vida alheia.

    Atrás da cortina semicerrada da sala de jantar, meu pai disputava com minha mãe o melhor ângulo para observar a cena. Ela dizia que sim, que era uma questão de minutos e logo se ouviria o disparo e a polícia não tardaria a chegar. Ele apostava que não, aquele homem não teria coragem para ir até o fim.

    Depois de muitas horas de espera e, vendo que o vizinho não dava sinais de que iria resolver a questão de uma vez por todas, fecharam a cortina e foram jantar. Venha, Aparício, enquanto a comida está quente. Comida fria é um horror, disse minha mãe. Eu já tinha jantado e, à falta de algo mais interessante para fazer, liguei a televisão para ver a telenovela.

  • Duas eternidades de escuridão

    O mais belo dos arcanjos mostrou o risco da valorização da beleza, ao se tornar um ser que insistiu com a ideia do eu, em detrimento de nós, desenvolvendo a vaidade pela primeira vez. O nome dele é Lúcifer. Ao se olhar no espelho, se achou bonito, e como portador da Luz, se achou mais bonito que os outros. Sentindo-se individuado chegando ao ponto de dizer eu, quebrou o ritmo da criação, que havia sido concebida como nós. Porque todos seres criados eram nós, e esse demônio se achou melhor que os outros, e se tornou tão pesado, que caiu, segundo uma tradição, no golfo de Nápoles. Ele entrou em combate com dois terços dos anjos restantes, liderados pelo anjo Miguel, que vem do ebraico Micha’el, que significa, “aquele que é similar a Deus”. E o demônio caiu no inferno, vencido por Miguel, e de lá disse ao seu auxiliar:

    — Prefiro ser Senhor do Inferno a ser escravo do céu.

    A partir desse pecado de Lúcifer, surge a vaidade universal. E essa mudança de pensamento lembra aquele soldado Russo artilheiro, que retornou da guerra do Afeganistão nos anos 1980, cuja narrativa está escrita no livro “Os meninos de Zinco” de Svetlana Aleksiévitch: 

    — Aquela pessoa que você amava, se foi. Sou outro. Eu sou outro. Mesmo assim, eu gosto daquele homem de antes… Sinto saudade dele… Lembro dele…. Mas agora sou outro. 

    É claro que esse guerreiro mudou sua mente por causa de sua imensa ruína interior vivida no pós guerra, muito diferente da batalha vaidosa de Lúcifer.

    Olhar o sofrimento do outro é imaginar essa dor segundo nossos valores e referenciais. Enfrentar uma limitação quando somos adultos, é olhar a ameaça de não poder mais experimentar todos os prazeres vividos até então. Seria possível viver privado dos prazeres alimentados pela vaidade? Não seria melhor morrer? 

    O escritor japonês, Kenzaburo Oe pensou nisso, quando teve um filho que nasceu com má formação cerebral. Quis rejeitá-lo, mas após muitas cirurgias o menino Hikari, que significa “Luz”, passou a sofrer de epilepsia e vive num mundo silencioso. Durante anos ouvindo música clássica, Hikari aprendeu tocar piano sozinho, tornando-se rapidamente em best-seller da música.

    Nesse limiar do fio de nylon, afiado e transparente está nossa jornada desde a infância, por vezes acolhida e recebida à uma linda caminhada. Como escreveu Vladimir Nabokov, “Nossa existência não é mais do que um curto-circuito de luz entre duas eternidades de escuridão”.

    Alguns desabrocham talentosos tardiamente, e acabam por sofrer a falta de uma ajuda peculiar, que poderia ter servido de berço, a esse indivíduo esperançoso. Você não quer estar sozinho nesse meio, por isso avance em suas proposições e viagens emocionantes, outros aguardam por indivíduos inspiradores e que façam brilhar suas próprias caminhadas lentas e sem sentido. Andar em círculos atrás de sua própria sombra, não dá eco, se o resultado de seus esforços não aparecer a seus olhos, deixe ir, leve para além de você o que não vingou, assim não corre o risco de sentir saudades.

  • Mabel

    Tenho certeza de que Mabel se esqueceu de mim. Já são muitos anos sem a ver, pelo menos. Fizeram com que se esquecesse, decerto. Eu fui bem quisto na sua família, mas depois passei a ser persona non grata – e o verdadeiro motivo não sei. O momento da ruptura foi abrupto, desproporcional. Meu pai havia falecido há dois meses. Isso foi em meados de 2011. E a namorada não teve a hombridade de estar comigo. Foi um deus nos acuda, com brigas e confusões – para quem gosta de paz, é o inferno. Enfim, isso não vem ao caso. Foi um mal-estar que passou, rasante, na minha vida – arrancando pedaços, é certo –, como tantos com que tive de me virar após a morte de meu pai, meu guerreiro, meu melhor amigo. Deixa eu recontar essa história, porque me vem em momentos de grande saudade: Mabel era apenas uma menina de quase dois anos quando a conheci, por intermédio do namoro que tive com sua mãe. Também fui amigo de seu pai biológico, que me contou quando a então namorada estava grávida, ambos com dezesseis anos, por aí. A pequena nasceu, e a vi, linda e sorridente. Com a aproximação, houve a paquera e o namoro com a sua mãe, que, logicamente, estava livre e desimpedida. Com o tempo, o amor por Mabel foi crescendo, a amizade recíproca e todo o carinho que uma criança merece ter. Me doei. Depois, me doeu por muitos anos a distância. Isso já faz uns bons quinze anos, depois do término do namoro de dez anos que tive com a sua mãe. Rafael, nosso amigo em comum, relata que ela está uma moça linda, talentosa, na área do marketing, e que pretende em breve se casar. Tomei um susto quando soube que já queria se casar. Hoje ela está com vinte e um anos. Acho novinha ainda, tem muito para viver, mas entrego a Deus, que a guarde com um marido bom, porque ela é uma menina boa, merece todo o amor do mundo. Naquela época, ela me chamava de papai dois, porque tinha o avô como pai – este, superpresente. Eu a tratava como filha. Com a separação, me mantive distante, quieto, não quis interferir na sua vida. A família podia não gostar. De fato, não tinha nada a ver, porque não era o seu pai. O pai biológico havia se mudado cedo para a Austrália, logo quando a menina tinha uns dois anos, e de lá não se tinha notícia. Parece que hoje mora no Brasil, mas em outro Estado. Sobre isso, porém, não vale a pena falar. São os estorvos que nos atravessaram. O que é que se pode fazer?! O que queria dizer era que tenho uma saudade danada da pequena Mabel, do tempo em que fomos crianças. Brincávamos juntos, de boneca, de parquinho. Ela que ditava a regra. E hoje não vejo a hora de a reconhecer, abraçá-la e dizer que tudo passou e que podemos recomeçar, se não como pai e filha, mas como grandes amigos.

  • A bolita, o conflito e o mundial vendido pelo Guarany de Bagé

    Fora da província, poucos conhecem a história. Nos jornais soltam abobrinhas, cogitam motivações econômicas e até levantam causos das antigas sociedades secretas que, segundo eles, ainda dominam o mundo. Na verdade, não é bem assim. As coisas são mais simples do que parecem. Os noticiários inventam essas bobagens para atiçar a curiosidade do povo, para vender assinaturas e para cobrar cada vez mais caro pelos espaços reservados aos anunciantes. No fim das contas, não deixa de ser uma questão de dinheiro, com pouca ou nenhuma relação com os fatos e com a verdade.

    Aqui, no entanto, essa história de conflito entre Estados Unidos e Rússia não pega ninguém desprevenido. Para alguns, pode ser novidade, mas é preciso esclarecer: a verdadeira nacionalidade de Donald Trump é argentina. O seu pai vinha pescar no rio Uruguai, era um açougueiro conhecido e, por aqui, chamado de velho Trapo. Ninguém entendia bem aquele sobrenome, estavam mais acostumados com os López, os González e os Fernández.

    Vez ou outra, o velho Trump vinha com um amigo, um tal de Milei, avô do atual presidente. Esse sim, um baita encrenqueiro. Quando Milei aparecia, era difícil retornarem à Argentina sem um quebra-pau ou um tiroteio. Pegou mal também para Trump, claro. Naquela época, até o açougue começou a definhar. De fato, maus ventos vêm com maus amigos. O problema só terminou quando o próprio Erico Veríssimo interviu. Todo diplomata, chamou o velho Trapo para uma conversa e explicou a situação: — Pois então, nada contra você, sabe como é, mas o seu amigo ali é meio difícil, daqui a pouco vai acontecer uma tragédia, somos um povo pacífico… —. Isso foi em fevereiro de 62, pouco antes do velho Trump vender o açougue em Tapebicuá e partir de mala e cuia, sem contar nada a ninguém.

    O ano de 1962, aliás, foi mágico para o esporte gaúcho. Poucos comentam, é verdade, mas o antigo continental teve nas semifinais: Ypiranga de Erechim contra o Club Atlético Peñarol, e Guarany de Bagé contra o Racing Club. Dos quatro jogos, contando ida e volta, foram registradas apenas oito confusões, duas brigas de faca e um morto por bala perdida. Era um torcedor do Internacional. A final foi entre Ypiranga e Guarany, em jogo único, marcado em campo neutro, no estádio do Esporte Clube 24 de Maio, em Itaqui.

    A mobilização foi enorme. Veio gente da Argentina, do Uruguai e do Rio Grande todo. Conta-se, inclusive, que uma caravana partiu diretamente de Assunção, no Paraguai, mas foi interceptada pela polícia e não concluiu o trajeto porque no ônibus havia mais peso em cocaína do que em seres humanos. O Guarany de Bagé tinha contratado um famoso ponta-direita uruguaio e por isso, muitos dos seus conterrâneos apareceram, inclusive o olheiro da seleção, Armândio Putin.

    Foi lá, durante a final do continental, num terreno baldio, ao lado do bar, que o filho de Putin ganhou do filho de Trump num jogo de bolita. Trump-filho, uma criança mimada e problemática, não aceitou a derrota. Putin-filho zombou fervorosamente do adversário. E o Guarany de Bagé se sagrou campeão com um gol do uruguaio Ghiggia. Quem capturou a história foi Paulo Santana, um jovem estagiário do Jornal Zero Hora, que bebia um refrigerante no bar enquanto as crianças brincavam. Dois dias depois, publicou um pequeno texto sobre o jogo, enaltecendo o Guarany e lembrando da breve e engraçada confusão gerada por uma partida de bolita. A reportagem teve o título: “Entre bolas e bolitas: Guarany de Bagé é campeão do continental”.

    Logo depois, Ghiggia se tornou um astro do futebol uruguaio, o olheiro Putin foi recrutado pela seleção da União Soviética, o açougueiro Trump se mudou para a América e o Guarany de Bagé, como é sabido por essas bandas, vendeu o título mundial para o Real Madrid. O resto é história.

  • A grama do vizinho é artificial

    Donald está falando de Ovnis na mídia mainstream para desviar a atenção para coisas muito mais loucas. Quando Zími era criança, seu pai lhe mostrava um grupo de moradores de rua e dizia:

    “Você vai se juntar aos dingos se for irresponsável. Não estarei aqui para sempre, portanto, estude e trabalhe.”

    Mas Zími sabia que no apego de um homem por sua vida, há alguma coisa mais forte do que todas as misérias do mundo.

    Seu pai o estimava como aquele tipo que é jogado em lugares cercados por muros e cujo objetivo não é a cura e nem a recuperação, apenas o controle.

    Para Zími, quem precisava de cura era o rumo que a humanidade seguia, o qual não queria ser cúmplice, e isso foi mais do que provado sem que o pai tivesse clareza e longevidade para constatar, pois morreu sem se desfazer de suas convicções obtusas.

    Agora, à beira dos cinquenta anos e olhando em retrospecto, sem motivo para nostalgia ou arrependimentos, Zimi sentia um pouco de alegria quando cada dia terminava sem chateações importantes, insuficientes para estragar o momento noturno em que novamente avaliava a situação do mundo através das notícias fornecidas por fontes de geopolítica confiáveis.

    Havia para ele um certo prazer em comparar sua trajetória de até então com a média do resto das pessoas e saber que até ali havia dignidade em sua existência.

    Não era um prazer tão intenso, pois sabia que um dia morreria, e se não deixasse algum trabalho artístico autoral de qualidade, seria esquecido com facilidade rapidamente, como a esmagadora maioria das pessoas.

    Isso também pouco importava, desde que antes de morrer alcançasse sua paz individual.

    De qualquer forma, o problema está na possível agonia que antecede a morte, como alguma doença dolorosa, e não a morte em si.  

    Ela, em si, certamente traz algum tipo de descanso, independente do que aconteça depois.

    Muito se especula sobre o que vem depois, mas ninguém volta para contar.

    Sabendo que suas opiniões e sua ideologia não deveriam prevalecer sobre a face da Terra, a busca por essa paz se tornava uma prioridade de vida.

    Por muitos anos da sua juventude, dizia à sua mãe que jamais chegaria aos trinta anos.  

    Era um tempo em que tomava cuidado para não fazer ranger a tábua do corredor da casa durante a madrugada, para evitar que alguém acordasse para gralhar sobre o dever de estar dormindo naquele momento, como todos na casa, enquanto um tempo precioso da vida era desperdiçado.

    Quando era criança, nos anos setenta, suas professoras na escola estavam na faixa etária dos trinta anos e pareciam senhoras de meia idade, mas agora era possível ter cinquenta e ter alguma jovialidade sem parecer ridículo.

    Muito antes de ter contato com qualquer teoria ideológica mais definida, já tinha o desejo por um tipo de liberdade individual que não era possível no modo de vida regido pelo senso comum, e questionava o porquê de as pessoas gostarem de viver sob um patrulhamento coletivo que só as levava à uma vida castrada de sonhos e boas perspectivas.

    Havia inúmeras piadas internas entre os amigos sobre o verdadeiro nome de Zimi ser Chistopher McCohen Oliveira.

    As pesquisas na internet sobre seus homônimos geravam ainda mais piadas, a cada vez que eram feitas.

    Apesar de alguns amigos considerarem um nome expressivo foneticamente, a bebida às vezes tomava o lugar da consciência, e a zoeira virava quase um bullying, e a vingança de Zimi consistia geralmente em arrumar um jeito de lembrar que Deus não existe toda vez que os pais desses caras estivessem por perto, causando polêmicas entre aquelas famílias cristãs, mesmo que seus amigos também fossem ateus.

    Não havia qualquer parentesco de Zimi com qualquer pessoa famosa com o mesmo sobrenome.  

    Herdou do pai, um escocês pobre, apenas o sobrenome.  

    Zimi arriscou numa carreira musical tardiamente sabendo que provavelmente nunca ganharia dinheiro com ela, até porque seu desprezo pelo mainstream era visceral e ele acreditava que a arte era mais genuína se o artista tivesse que se manter com outros trabalhos.  

    Ele se imaginava artista solo, antes de entrar para a banda Crop Circles como baterista e cantando algumas das músicas, pois sabia que seria difícil encontrar alguém que compartilhasse de suas ideias de concepção musical.

    Preza poder fazer algumas viagens pelo interior para shows em praças e bares, e agora sente o peso de viajar na Belina 82 da contrabaixista Mila Cox, dormindo em sacos de dormir antes de pegar a estrada novamente, de volta para casa ou a caminho de algum outro show, feito muitas vezes apenas em troca de gasolina e cerveja.

    Dinheiro mesmo, só conseguiam com a venda de camisetas e cd’s.

    Gostavam de não serem classificados em nenhum gênero específico do rock .

    Mila Cox, quando questionada sobre o som, o descreve como ‘lúdico e psicodélico’.

    Ela era uma das poucas pessoas nascidas depois do ano 2000 com quem Zími conseguia lidar bem.

    Geralmente, por motivos diversos, a reprodução das músicas ao vivo não correspondia fielmente ao que apresentam nas gravações feitas em seu estúdio caseiro, que conta com poucos recursos além de um computador.

    Gostam de ressaltar que os Beatles em sua época tinham à disposição uma tecnologia bem inferior, mesmo sendo a melhor possível para o período.

    Ela, muito mais jovem, gostava de tocar com ele por causa de seu gosto musical irrepreensível e porque via em sua personalidade algo entre o orgulho e a sinceridade.  

    Quando não estavam fazendo música, ele não a procurava nem mesmo se estivesse desesperado, por qualquer que fosse o motivo.

    Desde criança, Zimi gostava de artistas estranhos que não apareciam na televisão ou não tocavam no rádio, e ficava intrigado sobre como essas pessoas viviam, sendo que para todos existem contas a pagar e compromissos sociais que são impossíveis de escapar.  

    Daí vinha a óbvia conclusão de que precisavam de outro trabalho para terem o que comer e onde morar, o que para ele, enobrecia o trabalho artístico.

    Apenas em segundo lugar vinha a admiração pela bizarrice de suas expressões artísticas.

    A primeira vez em que ficou chocado com uma apresentação de música ao vivo foi no meio dos anos oitenta, quando viu no Madame Satã, em meio a várias outras atrações, um sujeito de meia idade pelado que em lamúrias cantava impropérios pagãos e queimava uma bíblia, acompanhado de uma banda minimalista em que o baterista tocava de pé como Slim Jim Phantom e uma garota tocava teclado, e não havia baixista nem guitarrista.

    Alguns tabus de uma sociedade oprimida (artisticamente e também em setores fora da arte) caíram diante dele naquele momento, através de um tipo de expressão que até então ele só ouvira falar, e ainda assim, repudiada pelo ponto de vista do opressor, horrorizado com a existência desse tipo de manifestação imprópria ao horário comercial.

    Qualquer artista internacional que pudesse servir de referência naquele tempo, precisava de pelo menos uma mínima escalada no mainstream para que chegasse ao seu alcance no Brasil naquele tempo através de fitas cassete e não eram tão obscuros no cenário internacional quanto pareciam ser aqui.

    A verdade nunca é contada no horário comercial e o opressor, na melhor das hipóteses, é fã de velhos crooners canastrões de boates de cassino.

    Para esse tipo de situação, o rolo compressor da opinião pública se mantém inoperante.

    Falando em termos comportamentais, o espaço de tempo para que atitudes consideradas normais na época de sua adolescência (inclusive formas de racismo televisivo inimagináveis para os dias de hoje) se transformassem nas bizarrices que se tornaram para os dias atuais foi relativamente curto.  

    Nesse período, a qualidade humana, de um modo geral, não melhorou, mas as patrulhas ideológicas e comportamentais tomaram conta da existência social numa proporção inimaginável para tempos anteriores à internet.  

    Muitas dessas patrulhas agem a serviço do nada, capitaneadas por mentes doentias na frente de um computador e que desconhecem até mesmo uma razão decente para estar vivo.

    A limitação imposta pela ignorância os faz ter convicções rígidas.

    Ao mesmo tempo, olhar para o passado era para Zimi um exercício que passava longe de ser prazeroso.

    As patrulhas malignas já atuavam com os recursos que tinham antes, sem a mesma rapidez e propagação.

    Conseguiam roubar a brisa com muita eficiência.

    Toda a falta de planejamento para o futuro de que Zimi era acusado na juventude se justificam agora, com a possibilidade iminente de algum velho que não teve seus desejos políticos correspondidos apertar um botão e liquidar o planeta, o que desestimula qualquer sonho a longo prazo e salienta a necessidade de viver o agora, e caso haja algum futuro para a humanidade, ter algo digno para lembrar ao olhar para o passado. 

  • Poema #68: Sobrevivência no quarto

    I
    Tenho comigo
    milhões de cadáveres
    que apodrecem seus ossos
    já destituídos do ímpeto
    que movimenta os homens vivos
    para a conquista de algo.

    II
    Tenho comigo
    a inércia do corpo
    que aniquila o meu sonho
    já despojado da vida
    que antes impedia o plano
    de me alimentar desses ossos.

    III
    O que sou hoje é esta certeza
    de não ser senão em mim.
    O que sou hoje é este impulso
    em preservar o que já está desfeito.
    O que sou hoje é esta incapacidade
    de desempenhar papel no mundo.
    O que sou hoje é esta vontade
    de antecipar meu próprio fim.

    IV
    Trago comigo
    as sombras e o peso dos erros
    acumulados nos anos de solidão
    em que tentei construir algo
    que estava fora de meu alcance precário
    e mesmo que se acaso construído em silêncio
    não teria nenhum valor para os homens.

    V
    Trago comigo
    a síntese de um desprezo lógico
    por essa espécie miserável de animais
    que se arrasta numa fixidez sem sentido
    pensando que com suas obras erigidas no espaço
    poderão significar alguma coisa humana no tempo.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #01: Incondicional

    Entre tantas vozes
    Tantos abraços
    Entre tantos conselhos
    Em meio ao cansaço

    Quando sorrio
    Ou quando choro
    Se me surpreendo
    Ou me apavoro

    Se a alegria é tanta
    Ou a decepção é muita,
    Importa ter o teu colo, Mãe,
    Pra valer a pena continuar.

  • Inopinadamente, flores

    — para minha mãe, Lucia.

    Terra fria e emudecida. Inopinadamente, fibras rompem o ventre silencioso, como unhas recém-nascidas. Entre o solo e a grama, um ponto vibrante.

    De um botão, eclode uma cor; formas e aromas a batizam ‘flor’. Surgem os rótulos, retalhos únicos entre tantos iguais, infinitas espécies distintas. Todas, entretanto, flores. Do inesperado, brotam. Despontam singulares. Soam vida. Encantam.

    Por um breve, quase memorável período, flores são flores pré queda:

    — murcham.

    E assim abubam solos com próximas florações. Semeiam, na compacta existência, motivos para seguirmos, talos tensos, pétalas abertas em busca constante do sol.

    Botões como ovários: dilatam-se até romperem em humanidade.

    Das entranhas de todo data-base concebido, da terra revirada do jardim do vizinho, misturam-se memórias, adubo, formas e cores. Vidas.

    Da paciência surge a atenção,
    Da atenção brota o entusiasmo
    Deste, o encantamento

    Aplausos na praia do Arpoador; reverência.

    Ecoa a obra maior da natureza divina:

    MÃES

    Feliz dia a todas as cores que moldam e perfumam todas as existências.

    Bom domingo a todas vocês!

  • Dia das Mães

    Mãe. Palavra pequena que significa tanta coisa! Abraço, afago, aconchego mesmo no cansaço, presença, cuidado…

    Mãe. A matemática de contar feijão! Um a um na palma da mão…

    Mãe. Saber a palavra certa ou não ter palavra alguma e mesmo assim, falar com os olhos.

    Mãe. Toda mãe tem seus silêncios! E os silêncios continuam a dizer coisas, só que como um sussurro…

    Há coisas que não precisam ser ditas com palavras, não é?

    Há coisas que chegam assim, num sussurro…

    Não dá pra colocar em um único texto tudo o que uma mãe representa pra cada ser vivente!

    E é muita coisa! É a dor da vida, é a dor de dente! É o medo do escuro, é o medo de gente! Mesmo diante do improvável e do impossível ela fica contente!

    Ela dá força e ela é a própria força!

    Mãe!

    Queria que essa crônica pudesse capturar por um breve momento o seu abraço, o seu sorriso e a sua proteção!

    Queria que cada palavra aqui representasse um pouco da sua sabedoria.

    Mas a crônica não é mãe, é crônica! E, como se diz, mãe é mãe!

    E não, a crônica não vai dar conta disso!

    É muita coisa pra dar conta! Só mãe mesmo!

    Por isso, mesmo sem jeito, a crônica deste dia coloca sobre a mesa uma toalha, os talheres, os copos e os pratos.

    A comida que chega quentinha, como lembrança gostosa de almoços em família, lembra de novo o cuidado, o cuidado de fazer sempre o melhor.

    E vão chegando à mesa os filhos, que já não são crianças, mas retornam ao tempo em que os sonhos tinham um contorno especial.

    Na mesa, conversas, risadas, mãos que se ajudam com este ou aquele prato ou uma bebida… O tempo para.

    Mãe… obrigado por acreditar nos nossos sonhos!

    O menino que escrevia versos já não é mais um menino, mas guarda e guardará pra sempre as contas feitas com feijão na velha mesa de madeira.

    O cronista, homem feito, agradece a oportunidade de poder estar presente em mais um dia das mães!

    E a crônica termina assim, nessa cena de almoço, tão simples, mas tão certa!

  • O outro pé da meia

    Noite fria, escura.
    Abre a portinhola. A roda gira.
    De cabeça coberta, estica os olhos para os dois lados sem virar o rosto.
    Ninguém à vista. Por um momento titubeia. Mas já está feito. Não há volta.
    Segue em passadas trôpegas seu caminho.

    ****

    Sentindo um ardor na boca do estômago, Stefano serviu-se de uma caneca grande de café, entrou no quarto e fechou a porta. Permaneceu alguns minutos diante da janela, até que o calor da bebida agasalhasse um pouco o coração encaramujado.

    Era hora de arrumar a mala. Organizar o que levar e o que deixar para trás. Partiria em busca de um elo capaz de aproximar passado, presente e futuro — distante das referências e afetos acumulados ao longo dos vinte anos de existência.

    Sentou-se diante da escrivaninha e abriu uma gaveta há muito esquecida. Foi retirando os guardados, um a um: fotografias do primeiro dia de aula, do campeonato de futebol, dos pais cantando parabéns em seu aniversário de dez anos.

    Cartões-postais da primeira viagem com os amigos. O recorte de jornal com seu nome grifado entre os aprovados no vestibular. Sorriu ao encontrar as bolas de gude, tesouro absoluto das disputas de caçapinha.

    O primeiro exemplar do Achados e Perdidos, que colecionava avidamente.

    Folheou também o álbum da Copa de dois mil e quatorze, completo graças à generosidade dos pais, que lhe compravam pacotes e mais pacotes de figurinhas.

    Foi tomado por uma ternura funda ao pensar nos dois.

    Continuando a escavação, encontrou no fundo da gaveta uma meinha azul-clara de bebê. Ficou olhando para ela, tentando entender como fora parar ali.

    Nunca a tinha visto antes. Um pé só. Aquilo parecia guardar um recado. Por instinto, colocou a meinha na mala.

    Algo lhe dizia que aquele pequeno pedaço de pano tinha relação com sua chegada ao mundo — e com o pouco que conseguira compreender da revelação feita pelos pais adotivos. Depois do acidente que lhes tirara a vida, tudo acontecera rápido demais. Restaram apenas fragmentos: Itália, Finestra, esperança.

    Decidira partir em busca dessa Finestra. As perguntas martelavam em sua cabeça exausta pela noite em claro: onde, como, por quem procurar?

    Ainda aturdido, deitou-se na tentativa inútil de descansar antes da jornada que começaria na manhã seguinte.

    ****

    Tarde ensolarada em Milão.

    Sentada na varanda do apartamento, absorta em pensamentos, Angela não percebeu a chegada do marido. Havia tomado uma decisão e precisava compartilhá-la com aquele que, havia dez anos, a acolhera sem perguntas, cuidara de suas feridas e amara até os silêncios.

    Chamou Domenico para o café recém-passado, ritual das tardes de sábado.

    Procurou abrigo em seus braços e deixou que a memória vagasse pelo tempo.

    A cabeça escondida no casaco de lã abafava os soluços e turvava a lembrança daquela noite distante em que se virou e partiu.

    No abraço do marido afogava a própria história: a miséria do corpo desnutrido, os seios secos, a penúria do abandono familiar. O remorso que nunca cicatrizou. A ausência que permanecia acesa, silenciosa, à espreita dos dias.

    Assim ficaram por algum tempo, quietos, até que as palavras finalmente transbordassem.

    Contou-lhe que decidira voltar a Milão, à Finestra da Esperança. Lá deixaria seu nome, o endereço onde agora vivia e um pé da meinha azul.

    Roda a roda da esperança: que algum dia o outro pé daquela meinha encontrasse o caminho de volta.

  • Rosane desistiu

    Meu nome é Rosane. Detesto quando me chamam de Rosana. Friso sempre o “e” no final. Não sou uma mulher exigente. E a carência está me fazendo ficar ainda menos. Sinto falta de transar, sinto falta de romance, sinto falta de um homem a quem possa admirar.

    A questão é que não me encanto com facilidade. Não será um abdômen definido, um bíceps malhado ou um rostinho perfeito que me fará ficar animada. Homens com barriga, pouco cabelo, aceito desde que
    mostrem vida inteligente. Sou daquelas que curte quem pensa e se expressa bem. Não precisa ser um gênio nem um pesquisador científico.

    Basta não me envergonhar na frente dos outros.

    Se é adepto do fisiculturismo, joga futebol americano ou ouve rap ou sertanejo, ligo o sinal de alerta, estou fora. Para mim, o tesão é o intelecto. Um entendimento mínimo de quem sabe a diferença entre meio advérbio e meia para sapato. Um simples erro de concordância já me dá um nó na garganta e calafrios. “É nóis” ou “a gente vamos” é a senha para o portal do inferno.

    Pode ser praga ou justamente por só buscar homens com certa cultura, mas todos aqueles de quem me aproximo, mostram-se uns tapados congênitos. Parece proposital, uma trama urdida para me tirar do sério.

    É só eu me interessar por alguém e lá vêm os barbarismos.

    Outro dia, no metrô, avistei um homem elegante e com ótima aparência. Usava óculos, estava em pé, lendo um livro. Puxei conversa e perguntei qual o livro que lia. Era um manual desses para ansiedade.

    Autoajuda clássico. O indício foi claro, mas ainda insisti. Perguntei para onde ele estava indo. O golpe veio avassalador: vou a um bazar “beneficiente”. Brochei. Nem com toda a boa intenção e filantropia.

    Num bar, um rapaz veio pedir se podia me fazer “compania”. Respondi que “compania” não seria possível. Companhia, sim. Ela pareceu não ter entendido. “Posso me sentar com você, “menas” se estiver esperando alguém. Ainda frisou o “menas”. Emudeci. Fiz cara de ódio. Ele desistiu a tempo, acho que finalmente havia entendido.

    A fim de evitar esse tipo de encontros tóxicos, passei a frequentar lugares mais de acordo com minhas perspectivas: museus, bibliotecas, lançamentos, vernissages. Num sábado, Centro Cultural, parada na porta aguardando uma amiga, um carinha lindo se aproximou e me disse: pode entrar que é tudo “gratuíto”. Cheguei a me arrepiar.

    É um tal de “soltar” do ônibus, “resistros” de chuveiros, vamos “tudo” na praia, “seje” em vez de seja, mulheres “estrupadas”, “mindingos” pelas ruas e “imbigos” à mostra. Uma desgraça.

    Prestes a desistir, encontrei um tipo especial. Lia Proust no original, conhecia astrologia e mapas astrais, ia a festivais de cinema e tinha um papo ótimo. Era gay. Quis cortar os pulsos.

    Quem sabe um dia, ache um companheiro que combine atração física e intelecto. Sem gostar de “mortandela”, sem “cardaço” no tênis, que não tenha “ramela” no olho, não more numa casa “germinada” nem tenha medo de chuva de “granito”.

    Talvez desista. Pode ser uma grande “perca” de tempo.

  • A cartomante do fim da rua

    1.

    A casa do fim da rua ficou vazia por anos. Sete, para informar com precisão. Dizia-se pela vizinhança que algo terrível havia ocorrido no local. As teorias eram muitas, mas ninguém nunca soube de fato o que aconteceu lá dentro. Um dia, uma caminhonete estacionou na frente do imóvel e começou a descarregar a mudança: um fogão, uma geladeira, uma cama, uma mesa, algumas cadeiras, um abajur, um ventilador, duas poltronas e uma ou outra tralha a mais. Exatamente uma semana após a chegada, a nova proprietária fincou no jardim uma placa que dizia: SULAMITA CARTOMANTE.

    2.

    Um mês depois desse dia, Laura resolveu tocar a campainha. Nem marcou consulta, mas queria muito ser atendida. Eu não liguei, resolvi arriscar, tô muito necessitada dona Sulamita, a senhora tem uma horinha pra me atender, se não tiver eu volto outro dia, moro logo ali embaixo… E ia emendando uma frase na outra, às vezes atropelando o pensamento, outras vezes nem se fazendo entender. Entra, minha filha, tô sentindo que você tá mesmo precisada.

    3.

    Dentro da casa, Laura continuava a falar, problema é que não faltava. Contou, explicou, perguntou, até que dona Sulamita disse: Chega! Já entendi. Parte o baralho. Tira uma carta, tira outra carta. Mais uma. Só mais uma. Ia dando as ordens, igual à cartomante de um filme que Laura tinha visto uma vez na televisão. Amor. Sulamita olhava as cartas e dizia lá o que achava. E acertava. Tudo. Detalhes. Trabalho. O processo se repetia: no alvo mais uma vez. Saúde. Nesse ponto é que Laura ficou impressionada. Não é que a mulher havia descoberto até sobre a cirurgia de vesícula feita no ano passado… Eta cartomante boa, pensou.

    4.

    Foi aí que Laura tomou coragem e pediu: Agora dona Sulamita, eu preciso saber de uma coisa muito importante. Vim aqui mais por causa disso, a senhora compreende? A senhora precisa me ajudar, não sei mais a quem recorrer. E falava, falava… de um modo que irritava até mesmo dona Sulamita, pessoa mais do que preparada para lidar com o desespero alheio. Minha filha, se acalma. O negócio agora é sério. Mas tem jeito, fica tranquila. Tá vendo aquela porta ali? Então, eu quero que você entre lá. Depois, você tem de sentar numa cadeira que fica em frente a um quadro. Não tem erro, é o único quadro do quarto. Olha pra obra e pensa no seu problema que sua mente vai clarear. Depois volta aqui, e a gente completa o serviço com as cartas, entendeu?

    5.

    Acomodado num sofazinho rasgado, um gato preto e branco nem se incomodou quando Laura entrou e se sentou na tal cadeira. Ela achou o quadro meio esquisito, não conseguia identificar nada na pintura. Eram uns rabiscos, umas cores que não combinavam. Parecia que o pintor tinha jogado as tintas ali de qualquer jeito, sem muito critério. Ficou mesmo decepcionada, pois, do modo como dona Sulamita havia falado, pensou que a obra fosse alguma coisa normal, sei lá, o desenho de uma paisagem, de um bicho, de alguma pessoa.

    6.

    Laura não sabe ao certo quanto tempo se passou. Por um momento, a impressão é que haviam transcorrido meses ou mesmo anos. Ficou ali olhando o quadro e acabou dormindo. Talvez tenha entrado em transe. Quando acordou, decidiu sair do quarto e procurar dona Sulamita. Buscou pela casa inteira, nem sinal da mulher. Até o gato preto e branco não estava mais lá. Dirigiu-se então ao jardim e ouviu uma senhora de lábios grossos e voz fina perguntar diante do portão: Dona Sulamita? Preciso muito me consultar, ouvi falar tão bem da senhora… Laura não teve tempo de pensar direito. De modo automático, respondeu apenas: Sim, sou eu. E continuou após alguns instantes: Pode entrar, tô sentindo que você tá mesmo precisada. Mas tenha calma, querida, o negócio é sério, mas tem jeito.

  • Mundos Paralelos

    As pessoas se levantam cedo, tomam seu café e vão trabalhar.

    Trabalhos variados, perto de onde moram ou longe talvez; trabalhos fáceis, difíceis e até penosos.

    Existe um ditado muito popular que diz: “O trabalho dignifica o homem.”

    Não sei ao certo quem primeiro disse isso. A frase atravessou o tempo, ganhou força, repetição e certo prestígio moral. Embora, em alguns momentos, também pareça servir para romantizar excessos e medir a dignidade humana apenas pela produtividade.

    Mas não é exatamente sobre esse trabalhador que penso agora. Nem sobre o trabalho honesto que sustenta famílias, constrói empresas, alimenta sonhos e atravessa gerações.

    Penso nos trabalhadores do mal.

    Os que aplicam golpes, criam perfis falsos de vendas, driblam mecanismos sofisticados de bancos e enganam pessoas.

    Eles também acordam cedo, tomam café e vão para os seus trabalhos.

    Como são essas pessoas que se afastam da verdade, se dispersam nas próprias paixões e, com impressionante naturalidade, executam diariamente os seus ofícios?

    Elas são aparentemente comuns.
    Dessas pessoas que passam por nós na padaria, reclamam do calor, aguardam atendimento em consultórios e perguntam o preço do tomate na feira. Talvez conversem sobre futebol, tenham dores na coluna, paguem boletos atrasados e levem os filhos à escola antes de começar o expediente.

    O expediente.

    Essa talvez seja a parte que mais me inquieta.
    Porque o mal, quando imaginado, costuma surgir grandioso, quase teatral. Entretanto, a vida real parece preferir os gestos pequenos, repetidos e discretos. Há pessoas que organizam cuidadosamente o próprio dia para enganar desconhecidos. Criam métodos, estudam abordagens, aperfeiçoam narrativas. Aprendem a falar com delicadeza, a parecer confiáveis, a reconhecer solidão, ingenuidade, carência ou desespero do outro lado da tela.

    Existe quase um profissionalismo nisso.

    E essa constatação produz um desconforto difícil de explicar.
    Não falo aqui do criminoso impulsivo, do rompante de raiva ou do erro desesperado. Penso nos que transformam o engano em rotina. Nos que acordam já sabendo exatamente quantas pessoas tentarão lesar naquele dia, como quem estabelece metas silenciosas para si mesmo.

    Será que sentem culpa?

    Ou será que a consciência humana possui uma espantosa capacidade de adaptação?
    Talvez ninguém acorde, de repente, completamente deformado. Imagino que exista um caminho lento. Pequenas concessões interiores. Uma mentira tolerada hoje, uma vantagem injusta amanhã, até que a própria consciência passe a funcionar de maneira diferente, como um relógio que continua marcando as horas, embora já esteja desregulado.

    E então o absurdo se normaliza.

    O sujeito toma café, responde mensagens, organiza contatos, liga o computador e vai trabalhar.

    Trabalhar no erro.

    Curioso como até o mal exige disciplina. Alguns desses homens talvez sejam pontuais, organizados e persistentes. Talvez façam pausas para almoço, conversem sobre assuntos banais e encerrem o expediente cansados, com a sensação íntima de “mais um dia cumprido”.

    Isso me causa um espanto silencioso.
    Porque, no fundo, não é difícil compreender grandes monstros históricos. O horror explícito se apresenta sozinho. Difícil mesmo é compreender o homem comum que aprendeu a conviver pacificamente com a própria fraude.

    Talvez o mais assustador nos trabalhadores do mal seja justamente isso: eles não parecem habitar um mundo separado do nosso. O que nos separa é a verdade deformada em que eles vivem.

    No mesmo mundo.

    🌷
  • CARAS E COROAS

    “Esse cara sou eu” (Roberto Carlos)

    Esse texto vai para aqueles que, como eu, já foram caras e, sem aviso prévio, foram remanejados para a turma dos coroas. Devo ter faltado à assembleia deliberativa que cravou essa arbitrária realocação, à revelia dos afetados.

    Acho que criaram as regras desse jogo para me infligir essa fatalidade metafísica em que o resultado do arremesso da moeda do destino estabelece ‘cara’ para a fase ascendente da existência e ‘coroa’ para seu ocaso.

    Apesar disso, tento me conservar em formol no modo ‘cara’, contrariando a certidão, a lombar e o espelho. Sou um cara duro na queda. Se me chamam de vovô, mando um: “vovô é o cacete, seu fedelho!”

    Não nego certa dificuldade em encarar os caras de hoje, aqueles que são caras de fato, com as características pertinentes. Ser cara no mundo de hoje é bem diferente de ser cara quando eu era cara. Vivem tais seres numa rotação diferente da época em que não havia celular nem internet nem pix nem Netflix. Mas tinha Asterix e Obelix.

    Mas, caramba, não sou saudosista. Ser cara é um estado de espírito e diante das objeções dou um reset e me coloco na parte legal de ser cara: disposição de mudar, fome em aprender, esperança, curiosidade, inconformismo, rebeldia.

    Às vezes me sinto pregando no deserto. Um velho lobo, desgarrado da matilha, cujo uivo rouco ainda ecoa por aí. E incomoda os rebanhos de ovelhas.

    O que me deprime é ver a transformação dos meus companheiros de estrada. Caras que nasceram na mesma época que eu, atravessaram os mesmos anos, encararam as mesmas revoluções, rebeliões, repressões. Fomos cúmplices nesses momentos de resistência. Para, no fim das contas, chegar à conclusão, com cara de tacho, de que, como dizia o Belchior, continuamos vivendo “como nossos pais”. O fato é que muitos caras – pessoas que nos foram caras – por divergências políticas, nos viraram a cara. Que tristeza, cara! Babacas que glorificam as chineladas enquadradoras de que foram vítimas. Descarados.

    Tornaram-se eminentes gagás. Não pelo detalhe da pele franzida, mas pelas rugas de desumanidade que se calcificaram por dentro, imunes a aplicações de botox. As mesmas que nos acomodaram na poltrona da resignação, assistindo a vida escoar pela TV. Lendo Caras.

    Pior são os caras que, na maior cara dura, deixaram-se virar caretas. Gente com corpo jovial que a vida desafia a transgredir, com cabeça de matusalém, exaltando o conformismo e barrando avanços civilizatórios. São aqueles boyzinhos sarados e tatuados, cheios de pose que, na flor da idade, enaltecem patriotismo, militarismo, machismo, racismo. Têm ideias e preconceitos mais arraigados do que os de seus avós. São caras de duas caras. E, desculpe, nenhum caráter.

    Para quando dermos de cara com o dia final, estirados e cercados por coroas a coroar falsamente nossa impoluta figura – com direito a coroa de flores e tudo – chegarmos à constatação de não haverá mágica – por mais cara que seja – capaz de nos fazer voltar a ser caras de novo.

  • A máquina imperfeita

    Desde que o homem é homem, tem a ambição de fabricar instrumentos que o auxiliem e eventualmente o substituam. A história humana pode ser contada, e sobretudo compreendida, a partir dos artefatos com que ele vem transformando a Natureza. A máquina é uma extensão de nossas faculdades e aptidões; quanto mais sofisticada, mais indicativa do refinamento a que terá chegado a inteligência humana.

    Entre a enxada e o computador, vai um abismo que separa a nossa pré-história do estágio em que fazemos viagens fora da Terra, aspirando à conquista do espaço cósmico. O paradoxal é que, enquanto supercomputadores calculam as trajetórias que nos levam à lua, muita gente nos rincões terrenos tem que usar a enxada para sobreviver. Ou seja, num tempo em que a cibernética nos impulsiona para o futuro, muitos ainda se debatem na pré-história explorando rudimentarmente a natureza. Esse paradoxo tira em muito o nosso brilho, a nossa glória de viajantes interestelares.

    O modelo do funcionamento da máquina é o cérebro humano – a chamada “máquina perfeita”. Ela, no entanto, não funciona sozinha. Vive atrelada a um corpo, que a torna caprichosa e falível. O curioso é que nessa falibilidade está a grandeza da máquina humana, a sua possibilidade de, falhando, autocorrigir-se e reorientar-se no rumo não da perfeição, mas da sobrevivência. Aludindo à inteligência do homem, Nietzsche dizia não acreditar na eficiência de uma máquina “que se sabe trabalhando”.

    Ora, essa possibilidade da falha, a partir de uma consciência, é a nossa maior riqueza. Se fôssemos perfeitos, de nada nos serviria a liberdade. O paradoxo do ser humano é que o seu maior bem, a sua maior posse vem justamente do que lhe falta, do que nele é lacunoso e incompleto. Ao contrário das máquinas verdadeiras, somos mais eficientes porque “quebramos”.

    O tipo mais requintado de máquina é sem dúvida o robô. Em suas fantasias tecnológicas, o homem sonha construir um robô que lhe sirva e, mesmo, que o substitua nos diversos encargos do cotidiano. Mas não apenas isso: um robô que lhe faça companhia, como um cão, e que venha um dia a amá-lo. 

    O robô nos daria uma afetividade sem fissuras e sem riscos. Não uma ternura escolhida e conquistada, de quem tem alma, mas infalível e certa como um amor… de máquina. O que procuramos na cega disponibilidade do robô é uma compensação para a inconstância dos homens. Como a fabricação de tal instrumento é impossível, temos que nos contentar com o esquivo e incompleto amor humano. E sonhar, como no filme de Spielberg, com uma engenhoca eletrônica que nos ame sem o ônus da contrapartida, ou seja, sem a exigência de que nos tornemos merecedores desse amor. Isso contraria a natureza desse ou de qualquer outro sentimento, que se alimenta da reciprocidade.

  • Ulisses à beira da lagoa Rodrigo de Freitas

    Alguém já disse que um dia de sol no verão do Rio de Janeiro chega a ser musical. Há no ar uma atmosfera positiva, de bom humor e de vontade que a vida dê certo. As pessoas circulam mais leves, esbanjam-se sorrisos e há uma eletricidade positiva no ar conectando a todos. O clichê que diz que o carioca é um ser solar se encaixa com perfeição quando chega o verão.

    Esse era justamente um domingo desses. Ele acordou cedo desperto pela claridade intensa que invadiu seu quarto. Na véspera ficara em casa vendo “MacBeth”, a versão estrelada com Michael Fassbinder, acompanhado de um bordeaux achado no supermercado e surpreendentemente ótimo. Tomou café, espiou pela janela e encontrou esse domingo radiante. Sorriu, trocou de roupa, vestiu sua camiseta do “Poderoso Chefão”, o tênis de atividade física com calcanhar reforçado e foi para a rua. Seu destino era a Lagoa Rodrigo de Freitas.

    Nada de praia. Decidiu que hoje queria caminhar, quem sabe pedalar e se desse sorte encontrar alguma capivara nadando. Tomar água de côco, o clichê dos últimos anos de quem circula pela Lagoa, faria parte do cardápio. Sem patrulha estética, só curtição.

    Foi de metrô. Desceu na estação Jardim de Alah e caminhou até a Lagoa. De saída a vontade de pedalar falou mais forte e pegou um desses modelos que os bancos espalharam pela cidade. Ali perto chamou sua atenção uma barraca de frutas enorme, com uma mulher quase do tamanho da barraca vestida de vermelho e preto. Na hora lhe veio a mente que a figura se adequava bem ao lugar onde estava porque afinal, ali pertinho ficava a sede do Flamengo. Ela falava muito, cumprimentou ele e mais quatro pessoas sem perder o fôlego, seguindo sua rotina de vender frutas, sucos e dar bom dia.

    O rapaz achou graça, escolheu uma bicicleta e ganhou a ciclovia na direção do Clube Naval, onde as capivaras nadavam nas proximidades. Pedalava contente, em ritmo pouco acima do passeio e bem abaixo do treino. Queria rodar sem compromisso fora o de desfrutar esse prazer.

    Parou junto a outras pessoas que buscavam as capivaras e nada viu. Tinha gente aborrecida com isso mas ele disse em alto e bom som: hoje é folga das capivaras e com esse calor devem estar em casa no ar condicionado. Todos riram espantando o clima de decepção dando lugar ao astral leve e contagiante do dia.

    Depois de passar pela sede náutica do Vasco, ao virar o rosto um instante na direção do bairro, veio a memória que do outro lado, lá na avenida Jardim Botânico, estava o parque Lage. Um dos lugares preferidos dos dois. Parou de pedalar e ficou sério.

    Suspirou fundo. Já havia passado um tempo desde a conversa que ele tivera com ela naquela manhã, no quiosque na encosta do Leme. As palavras trocadas foram de certa forma amenas mas definitivas. Não havia mais espaço para eles dois existirem juntos. Ficou chateado, óbvio, mas aliviado porque a tensão da incerteza desaparecera e podia enfim tocar sua vida. Achava, portanto, que estava curado. Mas não era bem assim.

    Naquele instante as lembranças vieram fortes e intensas o suficiente para interromper seu passeio e mudar seu humor. Sentiu percorrer por seu corpo uma sensação fria, como um jorro de água gelada descendo pela coluna vertebral. Sua memória se inundou com as lembranças dos momentos felizes, dos piqueniques a dois no parque Lage, regados a vinho branco e queijos. Os olhos ficaram úmidos e sentiu um travo na garganta.

    Suspirou, afastando a vontade de chorar e fez força para retomar as pedaladas. O ar fresco e a necessidade de prestar atenção às demais pessoas na ciclovia ajudaram a se desconectar daquelas lembranças. Seguiu de olho na ciclovia espiando o que a paisagem lhe mostrava, como garças e outras aves aquáticas. Valia tudo para voltar ao estado de tranquilidade que estava nele antes da interrupção.

    Decidiu dar outra parada, mais adiante na altura do corte do Cantagalo, um pouco antes do acesso a Copacabana. Desceu da bicicleta para beber água de côco. O vendedor esbanjava alegria e comentou com ele: hoje está um dia daqueles. Ele sorriu e respondeu formal que sim era um belo dia de sol. O moço piscou o olho para ele, com aquele jeito masculino cúmplice, e disse: hoje só não encontra alguém quem não quiser. O rapaz deu uma risadinha e deixou escapar um “quem sabe” mas o outro, ao que parece, percebendo que algo não ia bem com ele continuou: basta prestar atenção em volta, ter olhos de olhar e coração de sentir. Ele se espantou com a frase bem estruturada e nem teve tempo de falar nada porque o vendedor disse: espantado? Olha meu amigo eu não nasci vendedor. Antes de vender côco eu era professor e fazia mestrado em literatura grega.

    O rapaz arregalou os olhos e ficou mudo. O vendedor resumiu sua vida explicando que chegara a barraquinha de côco por falta de alternativa para se sustentar, depois que um incêndio criminoso destruiu a fábrica da família e matou seus pais. Ele ia falar algo quando o moço o interrompeu com um gesto: eu vivo um dia depois do outro e você deve fazer o mesmo. Portanto vá e quem sabe aquela que vai te fazer sorrir está por aí, na próxima curva da lagoa.

    O rapaz agradeceu, pagou, subiu na bicicleta e antes de partir perguntou: como você se chama. O vendedor sorriu e apontou para o nome escrito em sua barraquinha com rodas – Tirésias – e gargalhou alto.

    Pedalou para longe do vendedor ainda incrédulo e espantado por ter passado por aquele impressionante encontro. Tirésias, o profeta cego de Tebas, quem diria, vendendo côco na Lagoa. E em sua versão carioquíssima ele não me alerta dos perigos por vir mas me anima com palavras gentis e espirituosas. E eu, o Ulisses moderno e desprovido de Penélope mas navegando a esmo, o escutei. Cada uma que me acontece…

    Estava distraído quando quase na frente da sede náutica do Botafogo viu uma moça parada ao lado da ciclovia segurando sua bicicleta, igual a dele emprestada por um banco. Ela olhava atenta ora para um lado ora para outro. Ele parou a meia distância observando-a. Não era linda mas muito charmosa, sem sombra de dúvida. Nas costas levava um colchonete enrolado, que daquela distância lembrava uma aljava. Nossa, pensou ele, é Ártemis, a caçadora, diante dos meus olhos. Será que ela precisa de ajuda? Como me dirijo a uma deusa?

    Como não se decidia se ia até a moça ou não se manteve parado, absorto com a bela visão. E tão concentrado estava que não percebeu a moça com o corpo virado na sua direção o encarando. E custou a escutar ela o chamando até que ela gritou: ei, você é surdo ou é estátua de sal? Assustado ele respondeu: bem vivo. Então senhor “bemvivo” me diz: para que lado está a barraca de frutas da Creusa? Creusa? É, sim, uma mulher grande, assim, gordona que se veste de vermelho e preto mas não é flamenguista. Ela não torce para o Flamengo? Que nada, Creuza detesta futebol, ficou viúva depois que o marido enfartou em um jogo do Vasco. E por que se veste com aquelas cores? Porque são as cores de Exu. Ah, nossa, nem tinha me tocado. Pois é, e sabe que combina com ela. Por que? Porque uma das atribuições de Exu é ser o orixá da comunicação. Puxa, nem imaginava, mas por que combina com ela? Porque a Creusa fala pelos cotovelos e dá bom dia até para passarinho. Verdade, eu percebi isso. Mas sem crítica a ela, por favor, é coisa do orixá dela. Olha como não sou religioso nem imaginava que ela se vestia em atenção a Exú. Nem eu sou religiosa. E como conhece sobre candomblé? Sou professora de cultura afro-brasileira. Ah tá.

    E ficaram nessa conversa mais uns minutos até ele lembrar de informa-la para que lado estava a barraca de frutas da Creusa. Como também era a direção que ele seguiria, foram pedalando lado a lado, se desviando ocasionalmente dos demais ciclistas porque sempre tem muita gente na ciclovia, ainda mais nos domingos de sol. A conversa seguiu leve a respeito da natureza que os cercava até chegarem ao seu destino. Os dois devolveram as respectivas bicicletas e sem parar de conversar foram a barraca da Creusa. Pediram o especial do dia, suco de abacaxi com laranja, e beberam ali mesmo. Foi só nessa hora que ele se lembrou que não sabia o nome da moça. Sorriu, comentou e se apresentou. Ela sorriu de volta, estendeu a mão e disse: prazer, Diana.

    Ele teve um acesso de riso e ela não entendeu a razão. Ele explicou que Diana era o nome romano da deusa Ártemis, a caçadora. E isso é engraçado desde quando?, quis saber ela assumindo um ar sério. Ele tremeu.

    Não era de fato engraçado. Rira de nervoso porque quando a viu achou que ela fosse a personificação da deusa grega. Deu uma tossidinha e já estava ensaiando algo para se justificar quando ela riu com vontade e disse: seu bobo, foi só sacanagem minha, até porque estou acostumada que façam brincadeiras com meu nome. Ah é? Sim, os mais eruditos fazem referência a Diana, a caçadora, versão romana da deusa grega. Claro, confesso que foi o que me passou pela cabeça. Mas aqueles mais sintonizados em cultura popular fazem referência a Diana Prince. Diana quem? Menino, a Mulher Maravilha! Ah claro, nossa sim a Mulher Maravilha! Pela sua cara acho que era fã dela. Eu e todos os garotos da escola adorávamos o seriado da televisão.

    E ficaram mais um tempo por ali, sentados em um banco de madeira rememorando séries de televisão do tempo em que eram jovens, os aparelhos tinham tubos imensos e as opções de canais se resumiam a uns quatro ou cinco. Quando do nada ela alegremente propôs: se você não for fazer nada hoje, que tal um cineminha logo mais? Topo, respondeu ele sem hesitar. A gente se encontra na estação Botafogo do metrô e espia o que está passando em algumas daquelas três salas que tem por ali. Assim, sem ver a programação antes? Será impossível não ter nada que a gente não queira ver, concorda? É, acho que sim. Tenha fé, querido e vamos confiar em Ifá, o orixá do destino. Mesmo? Claro, afinal pode ter sido obra dele esse nosso encontro? Ou de Moros, o deus grego do destino, rebateu ele. Touché, disse ela com um sorriso.

    Se levantaram e ele a acompanhou até seu carro que ela estacionara ali perto. Se despediram com dois beijos, como manda a boa cortesia carioca. Já no carro ela disse antes de partir: Você é engraçado, um tantinho estranho, mas bastante agradável. E foi embora. Ele ficou olhando o carro seguir e suspirou sorrindo. Como era o destino! Por no seu caminho Diana a caçadora! Era um presságio maravilhoso e se conhecesse algum oráculo iria correndo fazer uma consulta.

    Quase rindo ao se imaginar no templo de Apolo consultando o deus sobre seu destino, se virou para tomar o rumo da estação do metrô do Jardim de Alah quando sentiu, vindo por trás, uma brisa suave meio perfumada. Um arrepio percorreu seu corpo. Uma brisa como aquela vinda do nada, não parecia obra do acaso. A lembrança da ex veio forte. Ela sempre se referia a si mesma como bruxa e que eventualmente conversava com os elementos. No início achava engraçadinho mas depois achou aquilo uma bobagem arrogante, sem sentido. Mas naquele instante a lembrança dela se fez presente naquela brisa perfumada.

    Ficou parado sem se mover. A impressão que tinha era de ser observado por um par de olhos, provavelmente muito conhecidos seus. Ia se virar para conferir quando inesperadamente seu corpo não se mexeu. Olhando fixo na direção da estação do metrô pensou um instante e sorriu para si. Resistiria a tentação de conferir simplesmente porque não estava mais interessado. O que passou, passou. Agora é seguir em frente, disse para si, sentindo-se bastante aliviado com sua força de vontade.

    Qual Ulisses não se dobrou a tentação do canto das sereias. E caminhou firme para longe dali. Porque hoje à noite iria encontrar Diana. E não se deixam as deusas esperando.

  • A GAIVOTA

    Noite após noite, eu acordava com o grito da gaivota, lancinante, como se viesse de um abismo de loucura. Eu me debruçava no alto do farol, e via lá embaixo, estatelada numa pedra enorme, batida pelos vagalhões, a gaivota. A pedra brilhava banhada pelo sangue da gaivota.

    Eu não podia dormir com o terror que o grito e a imagem da gaivota infundiam. De manhã lavava e lavava a pedra, com uma esponja de aço, que me comia os dedos, fazia de tudo para limpar o sangue seco, incrustado entre as ranhuras negras. E nada da gaivota. Somente o sangue, ressecado, velho, incrustrado na pedra.

    Na próxima noite, novamente o grito. E era como se o sangue jorrasse do meu peito.

    Tantos dias e noites de solidão, sem nenhuma companhia a não ser o mar, e as gaivotas mortas – num baque surdo, com um grito sangrento, e longínquo, como se viesse do fundo do poço da loucura, ali na minha porta.

    Por fim, decidi pôr em pratos limpos a minha sanidade. Uma noite, rolei escada abaixo, me batendo, urrando desvairado, como um animal acuado. Queria ver a gaivota, que eu nunca encontrava, que eu via e escutava só do alto, e me enlouquecera.

    Mas o que eu encontrei foi uma mulher, banhada de sangue, sobre a pedra. Foi ela quem me chamou: “Me sepulta, maldito!” Eu fiquei paralisado de medo, de terror. Quando consegui me mover, sepultei a mulher como pude. Desde esse dia, a gaivota desapareceu.

  • Foi assim que tudo começou

    No primeiro dia, vassoura na mão, limpou a casa, caiou as paredes, pendurou as cortinas, distribuiu os móveis, arrumou os livros, pintou o número na porta, colocou o tapete, forrou o sofá e viu que tudo isso era bom.

    No segundo dia estendeu os fios elétricos, instalou interruptores novos e brilhantes e, quando os ligou, viu que a luz se fazia clara, forte, iluminando tudo, criando sombras nas paredes brancas, e viu que isso também era muito bom.

    No terceiro dia cimentou os encanamentos, trouxe água da nascente do rio e, concluído o trabalho, abriu as torneiras e a água jorrou límpida, cristalina, ainda fresca da fonte, o que o fez sorrir, pensando que isso também era bom, mais do que bom, era ótimo.

    No quarto dia comprou um aquário com peixinhos coloridos, uma gaiola com dois canários cantores e diversos vasos com flores, que distribuiu pela casa e, vendo os peixinhos, ouvindo os canários, sentindo o perfume das flores, ficou feliz, pois concluiu que tudo isso era muito bom, e como era!

    No quinto dia banhou-se na água do chuveiro recém-instalado, barbeou-se, vestiu roupas novas, olhou-se no espelho e viu-se solitário na casa que construíra com tanto capricho. Pensou que precisava de uma companheira e saiu batendo de casa em casa, até que encontrou uma moça modesta e simples que aceitou dividir com ele a casa, os canários, as flores, a água e a luz, e ele sorriu feliz, pois viu que isso era maravilhoso.

    No sexto dia acordou ao lado da companheira, desembaraçou-lhes os cabelos, deu-lhe banho, perfumou-a e a amou, e desse amor nasceram muitos filhos e esses filhos tiveram filhos, de modo que a casa ficou cheia de vida, de risos e alegrias. Todos ficaram felizes, porque viram que tudo isso era muito bom.

    No sétimo dia, cumpridas todas as tarefas, reuniu a família, dividiu o pão do celeiro e o vinho da adega, beijou um a um os filhos e netos, sorriu para a companheira e, sem outro aviso, deitou para descansar e nunca mais acordou. Quem ficou achou que isso também foi muito bom, foi boníssimo.

  • Um gênio e um louco

    Em 1879, o Professor James Murray candidatou-se para liderar a tarefa de elaborar o célebre Oxford Dictionary of English.

    Monstruosa empreitada que consistiu em colocar toda a língua inglesa em livros, bem como a etimologia das palavras e o sentido de cada termo.

    O filme “O Gênio e o Louco”, que foi aos cinemas em 2019, contou essa história: um grupo de sábios reuniu-se para resolver a pendência de 20 anos da Universidade de Oxford. No papel do Dr. William Chester Minor, Sean Penn atuou novamente com maestria. Encarnou o médico, militar, esquizofrênico e solitário. Mel Gibson, ator tenaz e intenso, representou o Professor James Murray, o sábio da época. A trama mostra o professor vencendo os preconceitos dos mestres de toga de Oxford para encarar a empreitada nunca antes realizada. Mesmo não sendo acadêmico de formação, mostrou sua capacidade de homem letrado, estudioso e muito dedicado aos livros, cujas habilidades o autorizaram à confecção desse dicionário. Assumindo o compromisso, que sem algum grau de loucura não levaria adiante, teve a brilhante ideia de pedir ajuda ao povo para compor sua equipe. Através do envio de milhares de cartas à população do Reino Unido, recebeu respostas com as origens das palavras, que foram parar em seu dicionário.

    Dr. William, um louco maior que James, após se tornar assassino, decidiu unir-se à busca das origens dos vocábulos e muniu o professor com milhares de palavras.

    Dr. William foi preso e diagnosticado com esquizofrenia aguda e, durante sua dedicação ao dicionário, teve melhora considerável, imaginando ser possível resolver tal doença ao se envolver com esse tema tão valioso.

    “O medo é o afeto da ordem, do egoísmo e da covardia moral” (Christian Dunker). Por isso, o medo de se manter perseguido pela doença em seus pensamentos doloridos e maldosos o fez entrar de corpo e alma nessa empreitada. Ele enviou ao professor centenas de palavras para inserção no dicionário. Recebeu dezenas de livros para suas pesquisas e, com dedicação benevolente, entregou seu precioso tempo à confecção do primeiro volume desse dicionário, que, em sua totalidade, chegou a vinte volumes.

    Nos primeiros meses de trabalhos incessantes, concentrou-se como em uma perseguição à sua própria saúde.

    E, por doce desgraça do destino, a viúva do assassinado cruza sua vida carcerária.

    O povo daquele Reino, Unido, contribuiu com sua boa vontade e conhecimentos, sendo partícipe de um evento histórico de sua terra.

    Todos envolvidos no mesmo objetivo, pensando juntos naquele mesmo tema, crescendo com o evento, que, em seu término, entregou um grandioso resultado, fruto de um tempo dedicado com prazer.

    Que força incomensurável pode um povo em conjunto surtir, causando um forte efeito na existência de todos, como, por exemplo, extirpar uma peste utilizando-se do bom senso em prol do bem e do futuro da sociedade.

    Quão belos são os esforços que se despejam resolutos na união dos povos. Famílias inteiras proporcionaram para si um novo mundo, pois os livros deram outro rumo às gerações vindouras, que passaram a ser instruídas por sábios que, de antemão, tiveram essa visão promissora, oportunizada por um gênio e um louco.

  • Prisão

    Fábio não é digno de ser dito nessas linhas, mas a minha psicóloga cruel pediu para contar as artimanhas do malfeitor, para eu elaborar, mais uma vez, essa situação que me inferniza. Ainda nos anos 90, Fábio era dono de uma videolocadora. Eu vivia lá por conta dos jogos de videogame, quase sempre sem dinheiro e esperando a boa vontade de um amigo abastado para jogar. Fábio, de início, não me perturbava. Ficava olhando de longe, como se eu fosse um rato. Às vezes até me enxotava de seu estabelecimento, junto com os outros meninos da rua, que se aglomeravam no local. Então, com um ano ou dois de frequência no estabelecimento, Fábio resolveu me contratar para ajudar, “porque a clientela havia aumentado”. Fiquei superfeliz com o convite e com a graninha que iria receber – podia, assim, ajudar a minha família, muito pobrezinha. Eu devia estar antes e depois de fechar o estabelecimento, para “colocar as coisas no lugar”. A primeira investida foi sigilosa, quando não havia ninguém em casa. Ele pegou nas minhas pernas e, depois, nas minhas partes íntimas. Eu estava completamente desconcertado, sem saber como agir. Quando voltei à minha casa, me tranquei no banheiro e comecei a chorar. Meus pais não poderiam ouvir, então eu tapava a boca. Tomei banho e esfreguei uma, duas, três mil vezes tudo em que ele pegou, de nojo. Eu intuía que aquilo era muito errado. Mas, ainda assim, continuei no trabalho, precisava muito. Ele passou a me tratar como se não tivesse acontecido nada. A segunda vez foi mais audaciosa. Fábio me amarrou e lambeu o meu corpo todo, inclusive meu pênis. Eu tinha nojo do seu hálito, fétido, reptiliano. Dessa vez eu gritei, e ele me soltou rapidamente, porque estava desprevenido. Corri novamente para casa e me tranquei no banheiro. Tomei banho me esfregando com mais força, a ponto de me arranhar e sangrar. Não queria nenhum resquício dele no meu corpo. Continuei a trabalhar, porque meus pais estavam desempregados, e o abusador não reagia à minha presença. Era completamente indiferente a mim. Eu era somente um objeto. O tempo passou e achei que nada disso iria acontecer de novo, mas com menos de um ano ele me prendeu outra vez, prometendo me matar se eu gritasse ou fugisse. Estávamos num quarto que era o matadouro. “Hoje eu vou te foder, seu pirralho!”. Esperei que ele encostasse mais e tirei o canivete do bolso de trás. Agarrei o seu membro e, com um golpe forte e incisivo, arranquei-o fora. Jorrou sangue, muito sangue, e eu vibrei com aquilo. O sangue esvaiu e Fábio morreu por hemorragia. Comigo, criminalmente, não aconteceu nada, porque, além de ter somente doze anos, o fiz por legítima defesa. O tormento ainda me acompanha. Fábio é uma alma penada que me aparece em pesadelos. Como vou me livrar dessa prisão?

  • Pisando na merda

    No macro, Donald parecia um garotinho que subiu numa árvore e não sabia descer.

    No micro, o erro principal de um outro idiota foi abordá-la tentando falar sobre rock. 

    Ele era um vizinho do bairro da Liberdade.

     O tiozão de churrasco que saía de moto, dizia que gostava de rock. 

    Donald era seu ídolo.

    Tinha uma família falida em todo e qualquer aspecto possível, idealizada anos antes por ele mesmo, e agora não tinha a quem recorrer, nem mesmo para lamentar a própria burrice. 

    Então saía para comprar cigarro e ia beber, voltando horas depois sem levar para casa os pães que a esposa havia pedido, causando assim mais uma crise familiar, daquelas que cortam a euforia alcoólica e antecipam a sensação de ressaca. 

    O sujeito saía de moto usando bandana, porque era careca e insistia em deixar as laterais da cabeça com fios longos e a bandana cobrindo o topo, irremediavelmente calvo. 

    Recebeu o que merecia, tão logo se manifestou.  

    Ela era Mila Cox, que com cabelo chanel azul e camiseta dos Buzzcocks.

    Título de eleitora cancelado.

    Desprezava todos os políticos.

    Bebia um drink misterioso em sua caneca personalizada, que levava onde quer que fosse, antes de um show inusitadamente marcado num ponto do Largo da Batata, muito mais conhecido pela música popularesca, gêneros contemporâneos sexistas e machistas, muito apreciados por milhões de pessoas induzidas ao erro desde o nascimento, e um público que correspondia à proposta da casa. 

    Quem marcou o show ali foi Ado, baterista da banda Hollow Clowns, que naquela noite tocaria depois da banda de Mila Cox, Crop Circles. O camarim era um banheiro desativado, mas que estava razoavelmente limpo e seco. 

    Todos já haviam chegado.  

    Os Crop Circles eram um duo, formado por Mila Cox no baixo e sintetizadores, e Zími, com um kit minimalista de bateria, tocado por ele de pé. 

    Para eles o Hollow Clowns era uma boa banda, ainda que imitassem um pouco o Husker Dü. 

    Para Ado, Crop Circles era uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex. 

    Haviam combinado que Os Crop Circles tocariam antes. Mila e Zími queriam terminar logo o show para assistir ao Breu já devidamente relaxados e podendo beber antes de ir embora. 

    Tudo isso aconteceu conforme o programado, e com a facilidade de acontecer na capital.  

    Mas a cena com o tiozão do churrasco aconteceu antes, quando nem havia anoitecido. 

    Mila Cox e Zími haviam chegado ao bar no fim da tarde, deixaram equipamentos no camarim improvisado. Zími saiu para fumar um baseado e Cox ficou para tomar uma bebida antes de tocar. 

    A banda Hollow Clowns também já estava lá para ver o show de abertura e fazer seu show em seguida. 

    Mila Cox estava no balcão e o velho tarado da moto estava sentado numa mesa na calçada. Entrou para pegar mais cerveja e puxou assunto, perguntando sobre o tipo de som que seria executado. 

    Antes de responder a essa pergunta, ela perguntou ao tiozinho qual eram as suas referências de rock, e foi então que o sujeito engasgou pela primeira vez. 

    Ao mencionar Rolling Stones e Janis Joplin sem conhecer nada a respeito, e ao travar a ponto de não se lembrar nem mesmo do nome de alguma banda de Classic Rock de FM, começou a ser massacrado. 

    Ela preferiu começar dizendo que detestava Janis Joplin e que “Mercedez Benz” era uma das cinco músicas mais chatas já gravadas. 

    Explicou que ele certamente estranharia o som das duas bandas naquela noite, pois não saberia identificar nem mesmo as referências ali apresentadas. 

    A essa altura, Zími entrou no bar e avistou a cena de um monólogo em forma de metralhadora de sua parceira musical para cima de um velho barrigudo motoqueiro e tarado, ele entendeu imediatamente do que se tratava. 

    Quando se aproximou, ela já estava terminando a parte musical do monólogo, explicando que era preciso guardar segredo sobre certas coisas que gostamos de ouvir secretamente. 

    Disse a ele que não costumava dizer que gostava da Pat Benatar, Duran Duran ou America. Ela só ouvia essas coisas escondida. 

    Atacou a indústria cultural, alegando furiosamente que ela produz idiotas aos milhões, que vão desde os artistas que são lançados até o público que os consome. 

     Então ela mudou de assunto para atacar a hipocrisia da família tradicional brasileira, e a expressão do tio do churrasco ficou ainda mais deprimida, como se um ponto nevrálgico tivesse sido atingido com precisão cirúrgica. 

    Naquele momento a expressão do sujeito era de perplexidade e de um amargo arrependimento por ter tentado uma investida.  

    Terminou enfatizando o desprezo que tinha por fascistas, racistas e machistas. 

    Quinze minutos depois, os Crop CIrcles iniciavam o show, que durou quarenta minutos. 

    A banda Hollow Clowns tocou por mais quarenta minutos, dando início à apresentação quinze minutos depois do encerramento do show de abertura. 

    Quando Zími e Mila Cox estavam assistindo o Hollow Clowns, se divertiam com as caras que o velho tarado fazia enquanto assistia embasbacado o segundo show.  

    O ápice da comédia se deu no intervalo entre um show e o outro, quando satiricamente colocaram o clipe de ‘High in high school’, do Madam X, no projetor que colocaram no fundo do pequeno palco, que era usado para as bandas apresentarem imagens aleatórias durante os shows. 

    O lugar era pequeno, e cerca de cinquenta pessoas se espremiam durante as apresentações. 

    Sara Cox, irmã de Mila, cuidava da venda de cd’s e camisetas. 

    Venderam onze cd’s e quatro camisetas, o que era mais que suficiente para bancar o rolê. 

    Naquela noite, estavam felizes por não terem que pegar estrada com o Chevette Jeans de Cox para voltar para casa. 

    Cox morava na Penha e Zími, no centro, e tocavam pouco na capital. 

    Shows no interior eram mais frequentes. 

    Gostavam de festas de quintal.

    O velho tarado da moto ainda bebia na mesma mesa, miseravelmente desamparado. 

    As duas bandas se juntaram depois do show, passaram num mercado em Pinheiros e partiram para beber na casa de Mila Cox. 

    No caminho, dentro do Chevette, os três integrantes do Hollow Clowns riam e contavam sobre os momentos SPINAL TAP que tiveram desde a véspera para que chegassem a tempo do show. 

    O baterista Ado se comprometeu a agendar mais shows conjuntos com as duas bandas, propondo também a gravação de um split. 

    Donald jogava War.

  • Li ho visto passare

    Dove mi nasconderò?
    Dove mi sentirò?
    L’appartenenza non è più
    Che la gentilezza Di far nulla
    Senza
    Una scelta.

    Il poema sarebbe bello
    Se non fossi io
    A scrivirtelo,
    Dall’uomo che suona zero
    Insomma, dammelo subito!
    Che poi riesco a diventare…
    Ansito.

    Chiusa è l’ombra poiché si è
    avvolta alla finestra
    e finchè La parola più lunga
    Sotto l’esistenza esterna
    Trovasi infatti un esempio
    Cioè, una resistenza
    Incerta.

    Dimmi di più, dimmi di sì, di no…
    Su di noi lo scontro
    Sofferto, dal petto che brucia
    Esci la mia paura e
    La tenerezza…
    Un segreto mai detto.

    Discreto come lui
    Non ne ho scritto più di un verso,
    Di certo che l’ho fatto per me
    Ma perchè?

    Alzato ai monti
    Come si diceva, un desiderio
    Davanti quartiere Lumbo
    Un rumore di fondo
    Davano le ali al vetro

    E sin venuto l’insuccesso
    Era trascorso l’autunno
    Mentre gridavano gli ucceli
    “Sei tu il numero uno”
    – E vogliono lo zero… poi seguivano

    Caduti gli anni dalle grondaie
    Incrinate, poveri scopritori…
    Eravamo noi i secondari
    Dove nemmeno i primi erano
    Pronti a sopportare
    Così
    Il dolore!

    Venivano le tende, a volte…
    Scivolate e vertiginose
    Verso le fessure del tempo
    – “Hai visto tutto, uccellino…
    Adesso fategli un riscontro,
    un fischio nel cielo,
    oppure un salto cieco… qualcosa!
    Ma sincero.”

    Tornati al tuo nido buio…
    A mezzogiorno d’inverno
    È presto.
    E se non muoio…

    Così vedo le piume
    Indossare la luce
    di un invento
    eterno.

    Vi vocês, passando

    Tradução | por Bia Mies | do poema
    “Li ho visto passare”, de Pedro D’ Ambrosio

    Onde é que me esconderei?
    Onde reconhecer-me-ei?
    Já não há vínculo
    Além da gentileza do absoluto nada agir
    Carente de
    Escolha, uma.

    Emergiria beleza qualquer do poema
    Não fosse eu a escrevê-lo, a si
    Vindo do homem que vibra vazio
    Enfim, entregue-me de prontidão!
    Que ainda consigo tornar-me…
    Aflito

    Oclusa é a sombra por
    Enroscar-se à janela
    E porquanto a palavra mais longilínea
    Censurada pela existência externa
    Depara-se fatalmente frente ao modelo
    Quem sabe, brio
    Indefinido.

    Entoe-me além, diga-me sim, quiçá não
    Sobre nós contrastantemente
    Sofrido, ardendo-me o peito
    Desvaneço-me em temores
    Em ternura…
    Um segredo sequer confabulado.

    Prudente tal qual
    Não me atrevi além de um verso
    Convenço-me enfim, escrevi a mim
    Entretanto… por quê?

    Falido, levanto-me
    Como dizem, ambicionado
    À frente: os limites de Lumbo
    Rumores, logo ao fundo
    Asas conjuradas ao vidro

    Atrevido achega-se, pois, o fracasso
    Recuado o outono
    No mesmo passo grasnam, a mim, os pássaros
    “És único, oh, número mono”
    —  Querem doravante o não-dito… e então, seguem

    Escorridos se vão, calha abaixo, os anos
    Falhada aos furos, modestos desbravadores
    Éramos os de em seguida
    Onde sequer os pioneiros
    Prontos estiveram a suportar
    Assim
    Tamanha dor!

    Descortinavam-se, vez em quando
    Tecidos esvoaçantes e vertiginosos
    Rumo às frestas do tempo

    — “Viste de tudo, passarinho…
    Agora plana: entrega-lhes o perdão migratório
    Um pio-canto; verso em céu
    Ouse além, numa queda cega, livre… tanto faz!
    —  sin-cero”.

    Ao retornar – ninho para onde mingo…
    Ao meio-dia invernil
    É cedo.
    E se não me extingo…
    Assim me restam as plumas
    Vestindo a luz
    De um intento
    Eterno.

  • SITUAÇÃO

    Alguma coisa se move e não é pouca. Contudo não sabemos definir exatamente sua natureza e extensão. Não obstante algo acontece e estamos inseridos, como blocos de nuvens a caminho do abismo. Somos protagonistas meio tontos no mundo e não sabemos ao certo o seu desfecho. E se vivemos de uma forma obscura é porque é assim que sempre acontece nas cavernas em tempos sombrios. Nossa percepção das coisas anda meio embaçada, mas são as teias dos nossos olhos que as fazem assim. Um dia poderemos ser nós mesmos, ainda que dormindo.

    Inventário de Sombras

  • O que há de velho?

    Li, há muito tempo, um conto em que o protagonista se queixava de que os amigos sempre lhe faziam a mesma pergunta: o que há de novo? Não recordo o nome do conto nem do autor, a quem humildemente peço desculpas, embora estas soem falsas dado que ele deve ser falecido.

    O protagonista do tal conto, cansado da mesmice repetitiva da pergunta, decidiu vingar-se e passou a responder com notícias bombásticas. Lembro-me que uma delas dava conta de um avassalador terremoto em Lisboa. O herói dava detalhes sobre mortos e feridos, deixando o interlocutor assustado e boquiaberto. Só então revelava a data exata do evento: 1755. Não sei como terminava o texto, no mínimo pararam de pedir-lhe novidades, mas é provável que tenha perdido os amigos.

    Se tivéssemos que modernizar essa história, acho que a pergunta que caberia hoje em dia seria o inverso: o que há de velho? Porque a todo momento a internet ressuscita conteúdos antigos como se fossem novos. Muita notícia velha é divulgada como atual. De boa e de má fé.

    Mensagens de cunho político com frequência apresentam fatos passados como novidades. Quase sempre se trata de propaganda disfarçada que intencionalmente omite datas e contextos. Ajudaria se cada matéria pudesse vir acompanhada de um certificado imutável informando a origem e a data da primeira publicação. Uma espécie de certidão de nascimento.

    Mas nem toda a desinformação é deliberada: há também uma série de bobagens que circulam por pura ingenuidade. Basta que alguém de má memória ou de outra bolha ‘descubra’ algo que julgue interessante e dê a partida para que aquilo volte a se espalhar como um rastilho de pólvora.

    É por isso que, se você sabe do que estou falando, recebe de vez em quando aquele texto sobre o ano chinês do bolso cheio de dinheiro que se repete a cada 827 anos. Um clássico.

    Assim se espalham muitas coisas falsas, quer como notícia, quer como autoria. O Arnaldo Jabor vivia reclamando disso (entre outras, insistiam em atribuir-lhe uma crônica sobre bundas que ele repudiava), mas qualquer figura pública sofre do mesmo.

    Deposito minhas esperanças numa IA cada vez mais eficiente para identificar plágios e más intenções. Por enquanto a internet continua sendo uma terra de ninguém.

    O personagem do conto pelo menos avisava que a notícia era velha – e não mentia.

  • No raso, a/mar não ensina — derruba

    Aquosa, a superfície reflexiva.

    – custa a –

    Imprópria ao banho… Mergulhar machuca [jamais acolhe]; rasga, sangra, desfaz a um e à outra sem que se fundam; era ela o acaso.

    – …entender que aquela é –

    (A/) Ela – narrativa, aqui; não fofoca – que, sem distorcer o sentido da prosa, faleciam palavras para exprimir o que sentia. Sentia – e segue sentindo – a falta de si, dela própria; demora-se na compreensão da charada. Só então veste-se de si mesma.

    – … mesmo ela, –

    Que ama o mar — mas não é a/mar para ninguém.

    Os olhos estão sempre, em qualquer tentativa, no mesmo plano; ou não. Realidade x expressionismo fajuto.

    – … só… –

    Era o acaso. É o acaso. O caso é (ela).

    – no raso.

    Não longe, às três e quarenta e seis da manhã, do escuro ouve-se um galo cantar, repetida e ritmicamente. Seria um galo ou… o toque insistente de um celular?

  • Sucesso

    Diana Duran, cantora e compositora, planejava lançar seu novo álbum com músicas inéditas. Algumas faixas em inglês. Quando Diana cantava em outro idioma, inventava erros linguísticos somente pela graça do viés poético. Adorava aliterações, repetições de sons para dar ênfase ao conceito. Para ela, certos sons se encaixavam melhor nas canções, ainda que pudessem soar algo inusuais.

    As letras simples falavam de amor e solidão. Tinha um tipo de poesia blasé com um toque nostálgico, um gênero que nem saberia direito explicar. Suas melodias, em algum momento, passavam uma certa levada de bolero pop e balada new age.

    Para seu novo trabalho, decidiu que o formato ideal seria a simplicidade de voz e violão. Convidou um velho amigo violonista. Os dois resolveram que os arranjos mereciam um beat a mais e acrescentaram batidas e sintetizadores em algumas faixas.

    Discutiram a respeito da divulgação, palavra-chave para o sucesso do lance. Devido a uma lombalgia crônica e a uma crise existencial, Diana Duran havia ficado um tempo afastada dos palcos. Isso pesava um pouco contra. A favor, uma grande quantidade de amigos. No conjunto, seu público era, na maioria, underground e imprevisível.

    A ideia inicial era divulgar o trabalho nos shows começando pela periferia. Diana desejava cantar todas as músicas novas, mas como se tratava de um disco curto, poderia acrescentar também hits de outros artistas, fazendo questão de esclarecer não se tratar de covers, e sim, de releituras.

    Diana e seu violonista ensaiavam exaustivamente. Os encontros seguiam no apartamento dela, causando desavença com vizinhos e uma longa discussão com a síndica do prédio. Ao se sentir pressionada, Diana optou por terminar os ensaios em um estúdio.

    Muito esforço e, enfim, tudo pronto.

    Agora era definir data e local para o show de lançamento. Conseguiram um bar com ambiente dark fashion, que Diana adorava. Um lugar alternativo, um pequeno palco improvisado e uma vontade imensa de acertar.

    Diana se desdobrou em mandar os convites, dar pequenas amostras do disco na internet, elaborar a lista amiga e providenciar o figurino. Comprou à prestação sua roupa, assentada em mistério, poder e sensualidade consciente. O preto como cor predominante. Escolheu uma peça com transparência, blusa top e short de couro com textura wet look para uma vibração mais gótica e punk, combinando com suas tatuagens e piercings. Tudo bem calculado nos detalhes.

    Chamou para o show alguns artistas conhecidos, que ela, na verdade, não contava que fossem. Mas, nunca se sabe…

    Um ator de teatro amador, amigo de infância, prometeu prestigiar. Como Diana tivera vários romances casuais, temeu convidar todos para o show. Podia surgir um clima ruim. Dane-se. Não poderia se dar ao luxo de dispensar ex-ficantes: tinha dado garantia ao dono do bar da presença de, no mínimo, trinta pessoas, correndo o risco de o espetáculo não acontecer. Era dura a vida da cantora nova.

    Terça- feira, 22 horas, tudo acertado.

    Diana chegou antes para a passagem de som. Notou que seu violonista aparentava um certo nervosismo. Procurou acalmá-lo e o aconselhou a não beber. Uma dose para esquentar, mas que não fosse encher a cara. Ela era a voz e ele o violão, necessitavam estar em completa sintonia…e minimamente sóbrios.

    Umas duas horas antes do horário do show, despencou um temporal. Muito azar. Só podia ser olho grande. Pegou um táxi, apanhou o violonista, a aparelhagem de som e partiram rumo à glória efêmera ou ao fiasco retumbante debaixo d’água.

    Quando Diana chegou, um grande susto. O interior do bar, apesar da chuva, lotado. Gente em pé. Seu coração bateu forte diante de tanta responsabilidade. Cumprimentou pessoas e bebeu um chope com um antigo namorado.

    Passava das 22:30. Tinha chegado o aguardado momento. Diana não queria admitir, mas sentia um vazio enorme. O violonista entrou no palco e checou o som. Não foi notado. Após alguns minutos, Diana surgiu. O pessoal continuou bebendo e conversando. Pessoas de algumas mesas a observavam. Diana encheu-se de coragem, deu sinal ao violonista e começou a cantar.

    Num canto do bar, em pé, uma figura de óculos escuros e boné parecia estar filmando no celular. Depois de algumas canções, o público continuava a conversar alto. Diana, então, se apresentou, falou de sua carreira e do disco. A próxima canção era de sua autoria e falava de um amor sofrido. Só o ator amador, amigo de infância, bateu palmas. Diana obteve mais sucesso quando cantou Ronda, do Paulo Vanzolini e Como eu Quero, do Kid Abelha. A plateia mantinha-se fria, palmas ocasionais sempre ao final de cada música. E muito barulho e risadas. O tipo de óculos escuros, no fundo do bar, continuava filmando. Quando ela anunciou a última canção, pairou no ar um certo alívio. Diana agradeceu a presença de todos e saiu. Não houve o bis.

    Na saída, falou com alguns conhecidos, recebeu elogios e se despediu. Quase virando a esquina, ouviu um chamamento: era o cara de boné e óculos escuros. Ele falou que tinha gostado das suas músicas e se apresentou como agente de várias cantoras. Deixou seu cartão e pediu que o procurasse. Ainda sugeriu que ela pensasse em incluir um tecladista e, talvez, um percussionista para o próximo show.

    A chuva tinha parado e Diana sentia-se nas nuvens. Chegando em casa, abriu uma garrafa de espumante nacional e brindou, em silêncio. Pensou em Lady Gaga e imaginou-se a estrela que nascia…

  • Arca em regime fechado

    Como se não bastassem os quarenta dias de dilúvio, ainda teve o Pandê.

    Consta que tudo começou com um morcego infiltrado — desses ressentidos — que embarcou sem autorização enquanto Noé se distraía organizando a fila dos puros e impuros. As corujas, sempre oportunistas, deram cabo do invasor. Tarde demais.

    Instalada a contaminação, veio a ordem: isolamento imediato. Cada casal no seu quadrado. Sem visitas. Sem circulação. Sem desculpas.

    E assim começou o verdadeiro dilúvio.

    No papel, a Arca comportava todos. Na prática, nem tanto. Sobrava espaço para os coelhos (desde que fingissem bom comportamento), faltava para elefantes e rinocerontes. As reclamações se acumularam na porta de Noé até serem diplomaticamente abafadas pelo casal de corvos, especialistas em crises e carniça.

    Resolvido o espaço — ou fingido que — veio o problema real: convivência.

    Cento e cinquenta dias. Vinte e quatro horas. Sempre o mesmo par.

    Dividir ração, ar, silêncio, mau humor. Decidir quem limpa, quem cede, quem respira primeiro. Um experimento ousado: juntar dois seres diferentes num cubículo e chamar isso de harmonia.

    Deu muito certo. Claro.

    Os leões, por exemplo, entraram em colapso narcísico. Sem plateia, a juba perdeu o sentido. Passaram a competir diante do próprio reflexo: quem já foi mais admirado. Pequeno demais o espaço para tanto ego.

    Os elefantes transformaram a escassez em campo de batalha. Ela, ansiosa, comia por dois e justificava pelo confinamento. Ele, inflado de si, ameaçava abandonar o barco na primeira oportunidade. Trombas voaram. Gritos ecoaram. E, curiosamente, para os vizinhos, ele seguia sendo um exemplo de parceiro dedicado. As paredes afinam tudo — menos a aparência.

    As raposas optaram pela sutileza. Ela, doce como mel envenenado, sempre “sugerindo” que fosse servida primeiro. Ele, concordando — enquanto uma voz interna gritava o óbvio. Mas educação é isso: perder espaço com elegância.

    Já as gralhas aboliram qualquer protocolo. Brigavam alto, sem filtro, revisitando cada desavença desde o início dos tempos. Minutos depois, trocavam juras eternas. Um espetáculo completo, com direito a reconciliação.

    Para quem assistia, melhor não escolher lado.

    E os bodes — ah, os bodes. Permaneceram fiéis à tradição: chifradas por qualquer motivo. Porta, feno, respiração inadequada. Constância é uma virtude.

    Noé, dizem, passou a evitar os corredores.

    Moral da história: com ou sem dilúvio, cada um vive confinado na própria Arca.

    O problema não é o casal que você escolhe. É o bicho que você insiste em achar que não é.

  • Crônica sobre uma foto: a estação rodoviária

    Organizando algumas caixas no armário, umas com papel sem importância ou importância pouca e burocrática — notas de cartão de crédito, documentos, tíquetes de estacionamento —, deparei-me com algumas fotos antigas. Fotos do tempo de eu-menino, como diria Manuel Bandeira. Mas não era Pasárgada, não. Era São Roque, cidade do interior de São Paulo.

    É… O cronista que agora tece esta crônica morou um bom tempo em São Paulo. Precisamente no interior: Cachoeira Paulista, Guaratinguetá, Cruzeiro, Lorena, Itapeva, Sorocaba, São Roque. Uma cidadezinha de pouco mais de 60.000 habitantes. Tempo de eu-menino. Mas mãe-d’água não me chamava. Chamavam-me os amigos, a poeira, as brincadeiras e o sol.

    Uma das fotos era da antiga estação ferroviária. Paredes amarelas e telhados vermelhos. Quantas corridas foram feitas sobre os trilhos… Parece que sinto agora o calor do trem! Quantas pedras jogadas de um lado para o outro. Algumas, as pequenas e pontudas, jogadas uns nos outros. E as conversas? O campeonato de futebol (e a briga era grande, porque cada um torcia para um time diferente e achava que o seu era o melhor), a menina de olhos verdes. Eu não lembro o seu nome, mas lembro dos olhos: olhos verdes! As incontáveis histórias da escola.

    É… Uma foto faz lembrar tanta coisa! O tempo parado, como se fosse nosso. Como se pudéssemos pegá-lo com as mãos, agarrá-lo à força. O tempo tem vozes! As vozes, todas elas, guardadas num pedaço de papel. E chego a escutar algumas: “Olha a pedra!”, “Aposto que eu ganho de você!”, “Até perto da cachoeira!”.

    Não sei o que fazem ou por onde andam alguns desses intrépidos personagens das minhas lembranças. Não sei. Sei que sinto saudade.

    Não vou embora para Pasárgada, entretanto. Quando relembro um tempo, relembro a mim, e a viagem que faço é inesquecível!

    Tempos de eu-menino…

  • Sertanejo Universitário

    “Ô saudade que eu tava da vida de cachorrada, da vida de putaria” — (Gusttavo Lima)

    Quando ouvi pela primeira falar em ‘sertanejo universitário’, a ideia que me passou pela cabeça é que se tratava de uma versão mais elaborada do sertanejo ‘mainstream’ que dominava o mercado, também conhecido como ‘sertanejo romântico’, de duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano. O adjetivo ‘universitário’ sugeria, um refinamento estético, algo que teve precedentes com outros estilos musicais populares – como o antigo ‘brega’ e a ‘jovem guarda’ – que, ao dialogarem com públicos mais exigentes e escolarizados, sofreram releituras. Exemplos: Caetano interpretando Peninha e Adriana Calcanhotto reinventando Leno & Lílian.

    Fiz uma associação (que se mostrou indevida) com o chamado “forró universitário” dos anos 90, uma derivação do forró ‘pé de serra’ de nomes lendários como os de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, conferindo ao ritmo um toque mais pop e urbano, porém sem causar uma ruptura em sua base rítmica, centrada no trio sanfona/zabumba/triângulo e sem romper com seu contexto simbólico, ligado ao cotidiano nordestino.

    Para entender melhor esse processo, é preciso recuar um pouco. O sertanejo original (rebatizado de ‘sertanejo raiz’) estava ligado à figura do homem simples do interior (estigmatizado na figura do Jeca Tatu) e à sonoridade da viola caipira. Duplas como Cascatinha & Inhana, Tião Carreiro & Pardinho e Pena Branca & Xavantinho são frutos dessa linhagem que manteve os traços da cultura pura do campo.

    A partir dos anos 80/90, o gênero passou por uma transmutação significativa, incorporando a guitarra elétrica, sofrendo influência do pop internacional e adotando padrões inspirados no country norte-americano como o uso de chapéu e figurino de cowboy A ênfase a temas românticos, propiciou-lhe grande sucesso de vendas. Canções como “É o Amor” (Zezé & Luciano) e “Evidências” (Ch & X) marcaram essa fase.

    Foi nos anos 2000 que desponta o tal sertanejo universitário que, diferentemente do forró universitário, renegou a essência do ritmo que lhe deu à luz. Nada tem a ver com o estereótipo do homem do interior, sua religiosidade, seus valores simplórios, sua aparência humilde. Em seu lugar, surge o machão individualista, endinheirado, trajado com roupas de grife, jaquetas de couro e penteados estilosos. Visava atingir um público mais ‘descolado’, conectado em novos padrões de comportamento. Para tanto, lançou mão de teclados, sintetizadores e estruturas rítmicas mais dançáveis para seduzir frequentadores de baladas.

    O termo ‘universitário’ revela-se ambíguo. Ao contrário do que poderia sugerir, não indica um salto de sofisticação estética, apenas uma estratégia de marketing, um rótulo para fascinar um público mais jovem, urbano e ambicioso em ascender socialmente, inclusive através de formação acadêmica. A explosão do número de faculdades, sobretudo privadas, gerou uma enxurrada de formandos, orientados mais pela lógica de mercado do que pelo rigor acadêmico. Essa mudança de perfil ocasionou um reducionismo de repertório e um menor senso crítico. Esse crescente contingente ‘universitário’ foi capturado pelos neosertanejos que lhes ofereciam produtos de fácil assimilação, compatíveis com suas demandas.

    Os representantes do estilo gostam de embalar sua trajetória exitosa na retórica da meritocracia, atribuindo a ‘bênção’ do sucesso a seu pretenso talento. Com isso, constroem a imagem de quem ‘venceu na vida’, desfilando envaidecidos nos palcos como nova elite econômica do entretenimento. Amparados por uma presença digital massiva, convertem a popularidade em negócio, diversificando as receitas com marcas próprias e publicidade, incluindo apostas esportivas (bets), sem contar os cachês milionários.

    Em termos artísticos, o sertanejo universitário, apesar do título pretensioso, deu um passo atrás em relação ao sertanejo romântico. As melodias tornaram-se ainda mais previsíveis e sem inspiração, as letras frívolas tratam de relações afetivas descartáveis, exaltação à farra e à bebedeira, reservando à mulher o papel de objeto sexual.

    Apesar de exibir invejáveis números no streaming, o subgênero não adquiriu relevância. Os críticos torcem o nariz para ele. São canções banais, sem criatividade, com prazo curto de validade, que não permanecem na memória afetiva. Para aqueles que concebem música como manifestação artística, o sertanejo universitário representa uma completa decepção para um país que possui diversidade rítmica e riqueza melódica que se tornou referência internacional.

    Sua expansão, ao contrário do que se imagina, não brotou espontaneamente do gosto popular, mas de uma portentosa engrenagem de impulsionamento financiada pelo agronegócio que ganhou peso com a crescente importância dessa atividade da economia do país. Isso explica a hegemonia do ritmo na programação das emissoras de rádio, sobretudo do interior. Shows, feiras agropecuárias e rodeios bancados por pequenas prefeituras, controladas por políticos vinculados ao agro, ajudaram a bombar o gênero.

    A forte ligação com o agro traduz-se na esfera política a alinhamento a valores conservadores. Diferentemente de outros segmentos artísticos, parte expressiva do sertanejo está fortemente vinculada ao bolsonarismo, não raro manifestado em suas preferências políticas. Embora acusem astros como Anitta, Pabllo Vittar, Caetano e Gil por pretensamente usarem recursos da Lei Rouanet, levantamentos demonstram que os 10 maiores beneficiários de recursos públicos provêm todos do mundo sertanejo, liderados por Gusttavo Lima, e Bruno & Marrone.

    Dominante no cenário nacional, o gênero encontra resistências como em capitais do Norte/Nordeste como Recife e Belém, onde prevalecem ritmos regionais, e sobretudo no Rio de Janeiro, território livre do sertanejo, onde o ritmo ocupa um modesto 6º lugar na escala de preferência, atrás de MPB, samba/pagode, gospel, rock e funk. Também no exterior, mesmo em países vizinhos, o estilo não pegou. Os gringos que se renderam à bossa nova e ao samba, não se deixaram encantar pelo lenga-lenga sertanejo e sua parafernália tecnológica.

    É comum também a comparação com o funk carioca. Ambos são populares, comerciais e criticados pelo teor sexual presente em suas letras. Mas há diferenças marcantes. O sertanejo, por trás de uma postura aparentemente pudica, promove condutas amorais e obscenas, enquanto o funk é premeditadamente chulo e insolente, refletindo o comportamento transgressor das periferias, ambiente de desigualdade e exclusão, tornando-se forma de expressão e pertencimento nesses territórios. Ademais, o funk não tem o suporte financeiro institucional de que dispõe o sertanejo. Sua ascensão nas plataformas de streaming incomoda o sertanejo que usa diversos expedientes para barrá-lo e desacreditá-lo. Apesar de o funk se sobressair nos rankings digitais, foi bloqueado nas emissoras de rádio por pressões econômicas (jabás). Os sertanejos ficaram mordidos com o crescimento do funk, com seu apelo sensorial que conquistou boa parte da juventude pela batida e pela dança.

    No fim das contas, o ‘universitário’ do sertanejo diz menos sobre universidade e mais sobre mercado. Representa, na prática, um flagrante empobrecimento artístico, levando os críticos, preocupados com a pauperização musical, a se perguntarem até onde vai o fundo do poço. 🗞️

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar