Crônicas Cariocas

  • Um dia qualquer na Cidade

    Quanto mais ando, mais penso que há um mistério na existência das cidades, a maneira como tudo se funde nos entremeios desse emaranhado humano, um caso de estudo de como o caos aparentemente inevitável se transmuta em algum tipo de desastre organizado, em que tudo se encaixa e se desagrega ao mesmo tempo num moto contínuo, envolto por alguma energia invisível que nos conecta uns aos outros sem que percebamos, como as partículas solares que nos trespassam o tempo todo sem nos darmos conta da sua existência.

    Ando de graça no transporte público, migalhas em retorno pelos anos em que meu couro de cidadão comum – passivo e cabisbaixo – foi sendo arrancado dia após dia ao longo de uma existência de utilidade questionável. São as vantagens da idade, grita sempre lá do fundo meu humor amargo e esfarrapado, parceiro velho de caminhada. A moça que me abre a catraca depois de olhar minha identidade parece enfadada. Mas não me destrata. Apenas olha através de mim para algo que não está ali. Sabe-se lá com quantos demônios conversa nessa hora.

    Fico sentado na plataforma, deixo passar um ou dois trens, não tenho pressa. Às vezes folheio um livro que carrego apenas como muleta, para ter para onde olhar quando preciso fugir de certos espantos inevitáveis que toda caminhada traz. Ou para compor aquele ar intelectual de um leitor de longa vivência, que parece conceder a graça de sua presença numa manhã qualquer, olhando com desdém para aqueles rostos perdidos na tela do celular enquanto ele, um gênio da raça, está ali, com sua barba branca e rala e rosto magro e cavoucado, a mimetizar no seu ar circunspecto as perturbações dos grandes escritores, aqueles sim, arrastando as dores do mundo, enquanto constroem a grande literatura e nos elevam sobre seus ombros para a compreensão das pequenas e grandes aflições da humanidade.

    A moça me ofereceu o lugar no canto, e é nestas horas que costumo me dar conta da idade, sempre me esqueço. A culpa é do espelho, você sabe, o espelho de todo dia se torna cumplice no correr dos anos, a convivência o corrompe e ele passa a entregar as ilusões que você deseja enxergar, acho até que deve existir um lugar secreto onde os espelhos se reúnem para rir dessa fraqueza tão humana que é precisar o tempo todo cegar-se para não ver a própria miséria.

    Meu assento é de frente para o vagão, bem do jeito que gosto, de onde posso observar os mais variados tipos humanos, a maioria naquela luta interna contra a vida, espelhada no mau humor e enfado. E que faz todo sentido. Ninguém é obrigado a ser feliz às 7 horas da manhã dentro de um trem lotado. Meu julgamento deve ser descartado, tenho a vida tranquila, posso descer onde quiser, tomar meu café em qualquer quiosque ou boteco, bisbilhotar a vida alheia por tempo indefinido sem me preocupar se vou ter grana para atravessar o mês. Então é fácil.

    Desço na estação junto ao Masp e entro pelo grande vão do museu até a mureta de onde se vê os baixos da Bela Vista e do Anhangabaú. Era por ali, e dali para baixo que tudo foi acontecendo um dia, não foi assim de uma hora para a outra, foi um processo, um descuido. E eu me lembro dela me dizendo junto a janela,

    — Hoje eu vi um disco voador.

    Tem certeza?

    — Sim, mas era diferente dos outros.

    — Não era nem pratos nem caixas de papelão.

    — Não, parecia esses pacotes de salgadinhos, meio amassado, meio disforme, movia-se assim como se fosse um saco vazio empurrado pelo vento.

    — Onde estava?

    — Pelos lados da Zona Leste.

    — Sempre acontece coisas estranhas na Zona Leste. Quanto tempo durou?

    — Dois ou três minutos.

    Ficou assim, parada por alguns instantes, olhando o nada, o vento morno soprava seus cabelos.

    — Como estão seus projetos?

    — Esperando respostas, como sempre — respondi.

    — Admiro tua persistência.

    — Talvez um dia eu me canse ou faça algo diferente quando me aposentar.

    — A gente pode ir morar em outro lugar, ou sair por aí.

    Sair por aí? É a primeira vez que te ouço falar assim.

    Ela se voltou para mim, expressava uma alegria infantil, mas algo nervosa.

    — Tenho pensado. Mas não é uma coisa triste, como essas pessoas que abandonam a família, você nunca teve essa vontade?

    — Já, mas no meu caso seria essa coisa triste que você fala, deixar tudo para trás.

    — Até eu?

    — Não, você sabe que não, você é minha parceira, vamos ser parceiros sempre.

    Ela me olhou, estática, por alguns instantes. Depois sorriu, doce e resignada.

    — É uma pena que não.

    Depois saiu do quarto e nossa conversa terminou por ali. Nunca entendi o significado daquela última frase. Talvez porque nunca tenha sido honesto comigo mesmo e admitir o quanto fui pequeno nos momentos em que ela mais precisou de mim. Nós, machos, precisamos satisfazer nossas necessidades, está escrito nos estatutos gravados nas pedras do reino patriarcal, de nada adiantou o mundo ter saído da invenção da roda para a descoberta das partículas quânticas, tudo permanece igual na visão canhestra e miserável do ser masculino. E como todo bom cínico e desleal, passei a buscar outras mulheres, eu precisava extravasar. Um dia fui parar num lugar ali numa das esquinas da Brigadeiro Luiz Antônio, entrei por um corredor imenso, estreito, indefinido, cores vermelhas na maior parte do trajeto, algo estranho, pouco usual, uma música ao fundo como um eco, como se viesse de longe, mas que veio aos poucos se aproximando, até que adentrei um palco redondo, vazio, escuro. Uma luz se acendeu do lado, entrei por uma porta lateral e saí num puteiro, com mesas, sofás e um pequeno palco ao fundo onde uma senhora de roupas algo velhas e esgarçadas, justas e em cores estridentes, cantava uma música das mais tristes. Larguei-me sobre o sofá e duas mulheres se aproximaram e se jogaram sobre mim e penso que, durante alguns anos, nunca mais saí daquele lugar.

    Hoje olhando no retrovisor, nada justifica o que aconteceu, porque dali pra frente eu fui descendo, moral e geograficamente pela cidade até cair nos puteiros mais ordinários, como aquele, que acabei de descrever. E então, na tela do grande vão, aquela imagem recorrente: eu a vi, depois de rasgar em desespero o paredão de corpos que se aglomeravam para assistir ao espetáculo. Ela estava de pé no beiral, do lado de fora de uma das janelas do quarto, seus braços colados a parede e as mãos, trêmulas, tateavam de maneira aleatória algum lugar longe dali, como se ela buscasse algo palpável que a fizesse retroceder. Os policiais que faziam um cordão em volta do edifício tentaram me conter e eu gritei, tão alto quanto meu desespero desencavou forças que eu não tinha, mas não chegou até ela, vigésimo segundo andar e o alarido em volta, sirenes, gritos, buzinas. E ela, aos poucos, na lentidão das minhas esperanças e incredulidade, alçou voo com sua camisola branca de todos os últimos dias e noites, que ela não tirava mais, por entrega e um grito de socorro, e flutuou em câmera lenta por uma eternidade, pelo tempo em que a congelei com meus olhos, rezando por alguma força mágica que rebobinasse aquela imagem como uma velha fita VHS ou que eu despertasse de um pesadelo. Até que o baque, surdo e entre ossos que estalaram ao mesmo tempo, como a batida final da orquestra, tudo silenciou. Entre o assombro e o desespero, a sensação de fim dos tempos. Como se eu não tivesse nada a ver com aquilo.

  • Poema #09: Exercício para um ausente

    Falemos da esperança.
    Sim, da velha andança
    Da chuvosa lembrança
    Onde te sondavas.

    Vamos, falemos em novidade.
    Digamos que vai tudo indo, sim.
    Lá fora, diga que, ao todo, te aquietas
    Fora tempo de espera. E te lembravas.

    Este, foi-se?
    Não soubera.
    Tentaste um rumo, fostes sem manual
    Sem estradas, fostes sem-terra.

    Pois que era um domingo.
    E que já não lhe haveria numa segunda
    Para mais saudade.
    Talvez na quarta.

    Ai, quem me dera!

    Esqueça, pois que já vens tarde.
    Tens um brado enxuto, és estrangeiro.
    Sobre ti tens a sombra do mundo
    Lançado fostes à toda verdade.

    Sem dizer-lhe qual.

    Ao oposto cercaram-te.
    Te atraíste. Devias, por te teres vivo, visto.
    Trouxeram-no à enseada, despido.
    Deram-te, como uma cena, por encerrado.

    Pôs-te ao que te vinhas falto
    Te tens liberto, filho, e não sabes.
    Já não vias com teus olhos
    Mas creste.

    Tu lhes enxugava, já secos.
    Cegaram-te, a sorrir-te os lábios.
    Eras jovem, batido. Podias tudo.
    Tinhas em ti a tolice dos sábios.

    Pelo que vibravam.
    Te retirastes.

    Ataviaste um ponto.
    Carregava-te um pensamento
    Sob a alta margem.
    O dissipaste em luzes.

    Te deitaste.

    Dando-lhe o assopro de toda a vontade
    Anseia-me ver-te de novo.
    Como quem te anseia, querida, lhe digo
    Ah, que saudade.

    Ainda que a figura mude.
    Ainda que o vento mude.
    Anseio-te, pois que venhas cedo.

    Aprendeste, enfim, a dizer.
    Fizera um convite.
    Escreveu-lhe poesias,
    Não deixaste um recado.

    Te partias.

    Pois que tudo o que sabia
    Lhe tinha. Sabias nada.
    Como bom servo ao coração, lhe obedecera
    Assim escrevia, e sonhavas.

    Ah, que saudade que sentia.

    Que te chegues ao meio dia, que venhas.
    Que surjas como astro-rei, que ardes
    Se por caminhar pela cidade te demores,
    Não te apresses, mesmo que te atrases.

    Também vou-me indo, pois que é dia.
    Pois que andei a dizer-me
    Te preciso, e quanto mais anseio-te, te avisto
    Nestes outros mesmos lugares.

    Sob a torpe volta deste mundo ocluso
    Ainda que vagueie noite sem rumo,
    É a você quem procuro
    Desejos mil de meus olhares.

  • Poema #77: A Aranha e o Sonho

    Havia uma aranha lá fora
    que tecia sua rede
    a despeito da chuva
    e do desânimo dos homens.

    Era uma aranha
    que tecia a sua rede fora do mundo,
    e eu miseravelmente preso a ele
    perdia-me em conjeturas sobre o amor
    e sobre um livro que acabara de ler.

    O Acaso das Manhãs

  • Sujeito homem

    — Tu é sujeito homem?

    A frase saiu como um soco. Mais agressiva até. Os dois envolvidos na discussão eram homens, não havia dúvidas, mas a pergunta era mais profunda: vinha para mexer com os brios. Para trazer à tona fraquezas ou revelar coragens.

    Seu corpo, um tanto menino, não acompanhava o tamanho da sua integridade. Não revelava quão grande era aquele ser juvenil. Suas razões, explicadas de modo atrapalhado, eram contundentes. Dispensavam eloquência e formalidades. Cortavam a carne feito lâminas.

    Os contra-argumentos vinham em um português formal que nada devia aos melhores oradores, mas, naquele momento, não conseguiam convencer ou responder à pergunta torta e capciosa. Entretanto, ela ecoava ferina pelos corredores, como espada afiada dos dois lados. Amedrontava e constrangia na mesma medida. Impossível não pensar nela.

    Não é fácil nem simples manter a palavra empenhada ou dizer a verdade, mesmo quando sofreremos por dizê-la. Não é fácil escolher ser exemplo, cuidar das próprias atitudes e assumir suas consequências.

    — Eu sou sujeito homem! Eu não minto. Você sabe disso.

    Ainda que o outro quisesse, não podia discordar. Na sua impetuosidade juvenil, não mentia. Apanhava, era preso, mas não mentia. Tinha uma coragem que envergonhava outros. Não escrevia bem, não argumentava a contento, mas convencia como ninguém.

    Tu é sujeito homem, moleque, como são todos os homens e mulheres que têm o dom de dizer a verdade com a vida que levam e com as palavras que saem de suas bocas.

    Ao amor antes de tudo. À verdade, sempre.

  • Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?

    Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!
    Para que a pressa?
    se preciso, eu, mais que vitaminas,
    do alimento para o viço que… reflete-me,
    [interna] e inteiramente?
    Que eu possa deleitar-me com o calor azul
    da caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio

    Eis-me inteira,
    num instante errante,
    naufragada no suor de
    não pertencer.
    Cá estou.

    Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro.

    Bate-me o peito em um não positivo.

    Eis me aqui. Intacta.

    Tempo, tempo…
    por que não fica para o café?
    Uma xícara, a água borbulha sobre o fogo…
    Fique, tempo! Me aceite.

    Tempo, tempo, tempo…
    passe logo, passe aqui, mas com alma!
    Que nossas pegadas sejam uma,
    ao sabor do que se apaga
    ao espreguiçar das ondas sobre a areia
    ao primeiro raio de sol

    Fique.
    faça de mim sua, senz’altro.
    Te espero
    Tempo, tempo…

  • MUSICALIDADES

    Nascera com o dom para a música. Precoce, Marília, com quatro anos já se aproximava do piano, como um beija-flor às flores. Uma profunda atração que deixava a todos impressionados. Com seus dois polegares tirava das teclas um som inédito. Futuras canções. A família, claro, providenciou uma professora.

    Aos seis, já arriscava o começo de algumas canções. Mas era mesmo no “cai cai, balão” que se realizava. Também esboçava, com o indicador, um “parabéns pra você” quase sem erros.

    Completava oito anos e a professora concluía que sua aluna não apresentava progressos. A bem dizer, quase uma nulidade. Não fosse a necessidade de ganhar uns trocados com as aulas, tinha comunicado à família que a pequena Marília talvez estivesse longe de ser um prodígio. Evitou dizer que havia grandes chances do contrário.

    Ainda assim, a professora admirava a sua tenacidade. A menina nunca desistia e não se cansava de ficar tentando acertar as notas e compassos. Sua mão direita era mais precisa que a esquerda. Ambas, ao mesmo tempo, é que causavam o entrave. Parecia não possuir a mínima coordenação.

    Aos doze, mudou de professora. A família achou por bem a troca, um novo professor, austríaco naturalizado, vindo de uma tradicional escola de música em Viena. O instrutor ideal para Marília se desenvolver.

    No começo, ainda mostrou melhoras, improvisando até uma pequena composição. Com o passar das aulas, no entanto, ficava clara sua inaptidão.

    O tal professor austríaco não resistiu muito tempo, decidindo abandoná-la, sem coragem de informar à família e à própria aluna que dali não sairia nenhuma pianista.

    Agora autodidata, Marília ainda impressionava por sua disciplina e força de vontade. Verdade que a família não mais disfarçava e se afastava a cada nova audição ou série de exercícios. Começavam as desconfianças.

    Os primeiros conselhos para que trocasse o piano por um outro instrumento, talvez um violão ou um acordeom, não a convenceram.

    Até que capitulou: desistiria do piano, mas nunca da música. Tinham ouvido falar muito bem da flauta doce…

    Foram, então, meses de inúteis e perdidos solos de flauta. Depois vieram as tentativas de gaita de fole, pianola, baixo elétrico, harmônica e percussão. A família acompanhava tudo, apreensiva.

    Aos dezoito, enfim, uma possível habilidade: a bateria. Porém, sua famosa dificuldade de coordenação dificultava a cadência.

    Alguns anos e ela também abriria mão da bateria, embora jamais passasse por sua cabeça abandonar a música. Esta, genuína vocação, fazia parte de sua alma, desde pequena.

    Tentaria o batuque na caixa de fósforos. Marília era boa nisso…

  • De Diva de Cinema à Madame Mim na Flórida

    Sempre admirei o glamour dos cabelos ao vento. Grace Kelly, Audrey Hepburn, Tippi Hedren… todas sabiam, como ninguém, enrolar as madeixas em um lenço de seda, solto o bastante para deixar escapar charme e liberdade. As cenas de Ladrão de Casaca, Charade e The Birds me provocavam sonhos de princesa: eu, num conversível, óculos escuros, lenço estampado e vestido decotado, enquanto uma brisa perfumada acariciava meu rosto.

    Eis que a vida me presenteia com a chance de transformar fantasia em realidade. A bordo de um Mustang vermelho conversível — ícone de mais de 3.800 produções hollywoodianas — eu faria meu début pelas estradas da Flórida. Escolhi vestidos leves, lenços estampados e até ensaiei, diante do espelho, o gesto charmoso de ajeitar o tecido no pescoço.

    O carro, recém-saído da locadora, veio chegando com toda pompa de um astro de cinema. Fiz uma reverência — não de adoração, mas de necessidade: para entrar, precisei quase me agachar, já que os bancos pareciam instalados no nível do asfalto.

    Uma vez emparedada no cockpit, pernas quase horizontais, respirei fundo. Não importava o aperto: logo sentiria o frescor dos cabelos ao vento.

    Capota baixada, lá fomos nós, rumo a Key West. O que eu não previa: temperatura de 38 °C, sol a pino, céu de brigadeiro. O meu lenço à la Grace Kelly se transformou, em segundos, num abafador de panela de pressão. O calor vinha de cima para baixo e de
    baixo para cima — o carro parecia uma chaleira sobre rodas. Eu, a iguaria em preparo.

    E os cabelos esvoaçantes? Ah, o cinema me enganou! Em vez de ondular delicadamente nas pontas, escapavam pela testa e pelos lados, grudando no batom e no suor. O lenço não parava no lugar; parecia ter vida própria. Resultado: uma cortina desgrenhada de fios colados ao rosto e uma maquiagem que derretia como sorvete no asfalto.

    Olhei no espelho retrovisor, esperando uma diva. Não vi Grace Kelly. Nem Audrey Hepburn. Nem Tippi Hedren. Vi, sim, Madame Mim versão churrasquinho: desgrenhada, vermelha como pimentão e com o glamour de um pastel de feira recém-frito.

    Me recuso, porém, a assistir A Espada Era a Lei!

  • UM DIA DE VERÃO

    Eunice saiu da rede e se instalou na cadeira de palha da varanda. Cruzou as pernas e substituiu os óculos de leitura por outros com lentes escuras. Pôs de lado o livro sobre questões ligadas aos direitos das pessoas com deficiência que vinha lendo nos últimos dias e contemplou o panorama à sua frente. Sorveu dois goles de suco de limão gelado, pousando em seguida o copo sobre a mesinha de centro. Retocou o batom discreto com o auxílio de um espelhinho. Procurou uma posição confortável e começou a meditar. Aos 67 anos, ainda trabalhava como advogada. Quando ingressou na faculdade, quase meio século atrás, julgava ser aquele o caminho ideal para alguém dotado de um senso de justiça tão exacerbado quanto o seu. O exercício profissional bem cedo se encarregou de demonstrar a falácia desse raciocínio. Ao longo da carreira, foram muitas as decepções. A sensação de impotência e de inutilidade era por vezes tão palpável… Atualmente, gostava de escapar da agitação da cidade fugindo rumo ao sítio da serra. No jardim, sua neta de 5 anos, companheira eventual dessas aventuras bucólicas, brincava. Em sua pureza infantil, mexia na terra, rolava na grama viçosa, colhia flores e observava o comportamento dos insetos. A avó estreante se comovia. Em cima do muro de tijolos ao lado do portão de entrada, a menina abria os braços com convicção e gritava: Eu sou o Cristo Redentor! De tempos em tempos, olhava para trás e acenava. E sorria. O sol forte do início da tarde iluminava-lhe o rosto. Como é lindo o sorriso de uma criança. De qualquer criança. Depois que ficou viúva, Eunice passou a não ver graça no apartamento amplo de Copacabana, onde hoje vivia sozinha. Tudo muito repentino, exatamente como costumam ser as tragédias. Uma bala disparada à luz do dia, não se sabe por quem, conseguiu, com a rapidez de um instante, pôr fim à vida de um homem produtivo, competente, amoroso e responsável. Olhando Camila, Eunice se preocupava. Que mundo lhe estaria destinado? Por um momento, desejou ter o poder de congelar o tempo. Ficaria ali, eternamente a olhar a menina, desligada do resto do Universo, convencida de conseguir assim resguardar e proteger aquele ser inocente. De quê? Nem ela mesma sabia ao certo. Em diversas ocasiões, a própria Eunice se sentia abandonada e perdida, carente de um ombro aconchegante. Um beija-flor inesperado e arisco distraiu-a por alguns segundos. Em seu voo assimétrico, a ave negra e minúscula quase se chocou com uma das pilastras da varanda. As duas garrafinhas penduradas no alto representavam um convite a esses pássaros adoráveis. Solitários, em duplas, lá vinham eles. Parados no ar, batiam as asas com avidez, sugando o néctar a eles destinado. Camila circulava agora entre as estatuetas que enfeitavam o jardim, transformando-as, com sua imaginação prodigiosa, em príncipes, heróis, fadas, duendes, seres alados, bichos falantes… De repente, o tempo começou a se fechar. O sol, até então radioso, de vez em quando sumia por trás de nuvens espessas e acinzentadas, formadas sem que Eunice tivesse se dado conta. Um ambiente opaco surgiu. Um vento assobiando fino começou a ser ouvido. Balançava as folhas das árvores, levantava a poeira da estradinha de terra batida diante da casa e desalinhava os cabelos castanhos de Camila. Arrancava dos galhos mangas maduras que salpicavam o solo com um amarelo vivo e gostoso. A ameaça de chuva e as insistentes lufadas de vento fizeram Eunice convocar a neta até a varanda. Ficaram as duas ali, quietas e pensativas, concentradas apenas naquela realidade. De mãos dadas, exercitavam uma cumplicidade que deveria ser natural entre avós e netas. Meia hora depois, com a volta da claridade e de uma tranquilidade aparente, a pequena dirigiu-se de novo ao jardim. Perto de uma roseira ramosa, um marimbondo picou sua testa. Camila gritou de dor. E chorou.

  • GRITO DE GOL

    Um grito de gol não sai de uma superfície plano inclinada: a garganta. Ele irrompe de um outro lugar. Vem do fundo , sinuoso e labiríntico. Vem da pátria, seja verde e amarela, rubro-negra, tricolor…

    Pulsional, berra com a força e velocidade maiores que da própria bola, que estremece a rede, transferindo sua energia cinética para as suas malhas, resvalando no peito e retumbando nas batidas do coração do tocedor.

    Nos traçados da bola, que dribla num tempo lógico, nos projetamos nos talentos dos pés e na alma de quem chuta a bola, que sorri e chora. Transferimos para os jogadores em campo, o nosso ambicioso ideal, desejosos de sermos nós mesmos os campeões e assim teríamos uma constelação cravada nos peitos nus, com astros e estrelas formando figuras imaginárias.

    Nesse jogo renovamos a aposta na improvável vitória. Damos partida no motor do desejo que se realiza quando a bola cobre o goleiro adversário. O grito de gol pula da boca, faz tremer o corpo , como a paixão . Segundos depois do “gozo catártico”,
    retesamos os músculos, atentos, prendemos a respiração.

    Se apaixonar-se é a diminuição do Eu e a hipervalorização do Outro, o gol cai como uma luva nesta fantasia. — Gol! É do Brasil!!!A sexta estrela seria nossa, nos completaria como um álbum de figurinhas e melhor ainda, sem igual no mundo.

    O gol é como o amor. Ambos têm a mesma criativa tática para preencher a falta.

    Mas, se o grito se cala, deixando mais frágeis as solas dos pés, calejamos. A derrota também é nossa, carentes que somos de grandes vitórias. Do lado de fora dos estádios, nos traçados do jogo da vida real, nossas identificações entram em campo.

    Qual é a sua atuação nesta área? Atacante, meio-campista, defensor ou o que espera para agarrar as bolas chutadas?

    Mas as frustrações prorrogam o desejo. “Da próxima vez vai dar certo”.

    A vitória destrói a ilusão ao confrontar o sujeito com o vazio. Esvazia-se a fantasia, revelando que a completude não existe. O que fazer quando os planos tão bem calculados são provocados pelas emoções?

    Em choque, caímos na real: o adversário imbatível é o inesperado. A bola está com o outro e oscila sem concreta explicação.

    O avião da seleção pousou numa outra América, encoberto por um grandioso arco-íris. Estreou no dia de Santo Antônio, o segundo jogo no São João, e depois São Pedro. Sinais de bom augúrio. Mas não houve santo que desse jeito!

    Ciao!

  • Historias antigas…

    Nossa avó morava com a gente.

    Aliás, morava é modo de dizer. Ela fazia parte da casa. Era como a mesa da cozinha, o quintal, o cheiro do café e aquele relógio escurecido  na parede da cozinha, com o antigo passarinho saindo sem pedir licença, para dizer: cuco-cuco.

    Era a nossa melhor amiga.

    Minha, da Laura, dos maiores, dos pequenos, dos primos que apareciam, dos vizinhos e até do cachorro, que, se pudesse escolher, dormia só aos pés dela.

    Todo dia chegava a hora das histórias.

    E histórias não faltavam. A gente nunca sabia o que tinha acontecido de verdade e o que ela aumentava só para deixar o causo melhor. Mas isso pouco importava. O bom era ficar ali ouvindo, enquanto ela mudava a voz para cada personagem, imitava homem bravo, galo cantando e até o cuco do relógio.

    — Vocês lembram do Neguinho do Pastoreio?

    — Aquele que ajuda a encontrar coisa perdida? — alguém respondia.

    — Esse mesmo. Pronto. Bastava isso. A gente se aquietava. Ela ajeitava os óculos, cruzava as mãos no colo e começava.

    — Pois uma vez ele ajudou a encontrar um menino.

    E lá vinha o causo.

    O menino gostava de ver as comitivas passando pela estrada. Quando ouvia o berrante, largava o que estivesse fazendo e corria para a porteira da fazenda.

    Naquele dia, subiu na cerca. Depois no mourão. E acabou sentado lá em cima, todo importante, como se fosse dono da estrada.

    A boiada vinha bonita.

    Gado que não acabava mais.       Peões firmes nos cavalos.               Tudo seguindo devagar, naquele passo de procissão do campo.

    Até que veio um redemoinho de areia.

    — E aí, vó?

    — Aí quase deu o estouro da boiada.

    Ela falava isso arregalando os olhos, e pronto, todo mundo já sentia que a coisa era séria.

    A poeira subiu, os bois se agitaram, os peões perderam a visão por alguns instantes. Quando a ventania passou, a boiada estava ali, mais ou menos nos eixos.

    Mas o menino tinha sumido.

    Chamaram. Procuraram de um lado. Procuraram do outro.

    Nada.

    O chefe da comitiva desceu do cavalo, tirou o chapéu, ajoelhou-se no chão e fez uma oração ao Neguinho do Pastoreio.

    Mal terminou o pedido, ouviu-se um choro.

    O menino estava caído atrás da placa grande da fazenda, coberto de poeira, assustado, mas inteiro.

    Tinha despencado do mourão durante a ventania.

    — Foi o Neguinho que salvou ele, vó?

    — Foi quem ajudou a achar.

    E ela encerrava assim.

    Sem jurar.

    Sem duvidar.

    Deixando a gente acreditar no tanto que quisesse.

    Hoje, quando penso nisso, fico imaginando que história minha avó contaria do mundo atual.

    Talvez eu chegasse aflita, com a bolsa revirada, dizendo:

    — Vó, perdi meu celular.

    Ela nem levantaria muito os olhos.

    — Já procurou direito?

    — Já.

    — Na gaveta?

    — Foi onde procurei primeiro.

    — Debaixo da almofada?

    — Também.

    Aí ela suspiraria, com aquela paciência antiga que só avó tem, e diria:

    — Então pede ajuda ao Neguinho do Pastoreio.

    — Mas, vó, como ele vai achar celular?

    E ela, muito séria:

    — Minha filha, hoje em dia até santo deve usar GPS.

  • O VÔ ZÉ

    Quando o vô Zé estava para morrer, pediu para sair de casa. Fraquinho, não parava em pé, mas quis por força sair no pomar.

    – Eu quero abraçar as minhas árvores – disse.

    Mal balbuciava as palavras, mas insistia:

    – Eu plantei essas árvores. Vi crescer que nem minhas filhas. Eu quero abraçar minhas filhas pela última vez.

    Tive que carregá-lo nos braços. Não aguentou abraçar mais que três árvores. Fez questão de abraçar a mangueira de manga-espada, no centro do pomar, a jaqueira e uma jabuticabeira do mato, enormes.

    – Agora posso morrer quase feliz – disse, com os olhos marejados de lágrimas.

    Não pudera sair até o pasto, abraçar a grande figueira e as paineiras com seus espinhos.

    Pequenininho nos meus braços, segurando no meu pescoço, olhou o cafezal ao longe:

    – Eu plantei cada uma dessas mudinhas. Elas falam comigo, me pedem a bênção.

    Enxugando as lágrimas com a manga da camisa, ergueu o braço direito.

    – Um pai que é pai conhece os seus filhos – concluiu, abençoando.

  • A voz do destino

    Matilde ficou surpresa quando soube que Eulália, uma velha amiga, tinha se separado de Rodolfo. Chegara a sair com os dois e, apesar de uma pequena cena de ciúme de Eulália (o marido era vistoso e simpático), teve a impressão de que eles se entendiam muito bem. Resolveu ligar para a amiga, que talvez precisasse de consolo nesse momento difícil.

    Tentou mais de uma vez, e ninguém atendia; atribuiu o silêncio à depressão pela qual a outra deveria estar passando. Na quarta tentativa, ouviu a voz conhecida do outro lado. Eulália não parecia abatida. Matilde confessou a surpresa e, por solidariedade, quis saber o que tinha acontecido.   

    – Incompatibilidades, amiga. A gente tinha gostos diferentes. Em muitas coisas. No começo, deu para suportar. Com o tempo, foi ficando um saco!

    – Puxa! Eu não imaginava isso.  Achei que vocês se afinavam.

    – Eram muitas as discordâncias – suspirou. E, sem que a amiga perguntasse, começou a enumerar algumas.  

    – Por exemplo, eu gosto de praia; ele preferia viajar para o interior. Se eu não protestasse, todo fim de semana tínhamos que pegar uma estrada – em grande parte de terra! – para ele visitar um tio e tomar cerveja com os primos.

    – Trocar o mar, as ondas, o céu azul por um sítio nos cafundós não é nada agradável – confirmou a outra.

    – Tinha também a questão do gosto musical. Eu adoro música romântica, dessas que fazem a gente sonhar. Ele preferia reggae, punk e outras do tipo. Muitas vezes eu me trancava no quarto por causa do barulho.

    – Nossa! Música tem que trazer paz de espírito. Mas eu acho que, com boa vontade, vocês poderiam ter chegado a um acordo. Quando existe amor…

    – “Quando existe amor”, disse bem. Pois o amor acaba se não for estimulado. Eram muitas as diferenças, inclusive na comida.

    – Na comida também?  

    – Pois é. Eu prefiro coisas leves, como legumes e verduras. Ele gostava mais de picanha, linguiça, toucinho. Era fã de gordura animal. Quando eu como essas coisas, fico com azia.

    Matilde terminou se convencendo de que, com todas essas discordâncias, os dois não podiam mesmo permanecer juntos. Ficou feliz por ver que a amiga parecia ter aceitado a situação, e depois dessa conversa passaram um tempo sem se ver.  

    Curiosamente, a lembrança de Eulalia lhe voltou por ocasião de um encontro com Rodolfo, o ex-marido. Foi na praça de alimentação de um shopping. Há muito tempo não o via e estranhou que ele estivesse ali sozinho, bebericando uma cerveja. Cumprimentaram-se, e Rodolfo chamou-a para se sentar com ele; a primeira pergunta que fez foi:

    – Você soube?

    – Soube. Fiquei triste por vocês. Pareciam se dar tão bem. 

    – Tudo deu certo por um tempo, mas depois deixamos de nos entender.

    Ao contrário do que Eulália fizera com a amiga, Rodolfo não relatou as diferenças entre os dois; assumiu um tom de filosófica resignação, ponderando que nada dura para sempre e que a pessoa deve estar preparada para as perdas que podem vir. Em seguida agradeceu o interesse de Matilde e procurou mudar de assunto, querendo saber como ela estava, o que fazia. Lembrou que, na ocasião em que os três saíram juntos, Matilde se ressentia do fim de uma ligação amorosa.    

    – Vivemos situações parecidas – observou com uma ponta de ironia.   

    – Pois é – ela riu. Fez uma pausa e completou: – As pessoas são diferentes.

    –  Havia incompatibilidades entre vocês?

    – Várias. Ele era muito urbano, gostava de praia, sol. Já eu prefiro o interior, onde a vida é mais simples. Quase primitiva.  

    – Você sabe que eu também sou assim?

    – É mesmo?! Eu não imaginava.

    – É – confirmou Rodolfo, rindo da coincidência.  

    – E tem outra coisa. Nosso gosto musical era muito diferente. Ele gostava de música que faz sonhar, fugir da realidade. Eu, pelo contrário, prefiro as que estão mais próximas da experiência das pessoas. Punk e reggae, por exemplo, que trazem a voz de grupos marginalizados.  

    – É verdade, eles têm isso em comum – concordou Rodolfo, com um leve brilho nos olhos – Você é bem-informada.

    Falaram de outros assuntos, até que chegou a hora de se despedirem. Matilde alegou que não podia mais demorar, pois no dia seguinte iria a uma feijoada na casa de parentes e fora encarregada de preparar umas carnes.

    – Você gosta? – ele perguntou

    – Muito! Adoro uma feijoada com linguiça, costelinha, carne seca. Sei que isso não é salutar… Mas não consigo resistir. Por isso sou requisitada para esse tipo de preparo.    

      Rodolfo riu de uma forma que chamou a atenção de Matilde. 

    – Por que está rindo assim?

    – Nada. É que nossos gostos são memo muito parecidos!

    – Coincidência – ela ponderou.

    – A gente poderia se encontrar mais vezes. Que tal?

    – Claro. Vou lhe passar o número do meu zap.   

    E assim iniciaram um namoro que terminaria em casamento.

    Anos depois, lembrando o encontro em que percebera as afinidades que havia entre ambos, Rodolfo comentou que não acreditava em coincidências.

    – Há nelas o dedo do destino.

    Matilde sorriu, interiormente concordando. Certamente foi o destino que a fez, naquela noite, ligar para Eulália com o intuito de a consolar. Não houve necessidade de consolo, mas ela soube escutar muito bem a amiga.

  • E O BRASIL FOI EMBORA

    É… Perdemos o jogo…

    E o Brasil foi embora!

    Foi-se embora a copa e o sonho… Mas qual sonho?

    Não saímos da copa no jogo contra a Noruega! Tínhamos saído bem antes, quando perdemos de 7x 1 para a Alemanha. Quando quase ficamos fora do torneio com uma péssima campanha nas eliminatórias.

    Não temos mais um futebol ofensivo e vistoso. O futebol brasileiro não contagia mais! O futebol brasileiro não empolga!

    Foi-se há muito tempo o que chamávamos de futebol brasileiro.

    Não há mais dribles desconcertantes aos montes!

    Não há mais especialistas em cobranças de falta.

    Quase nunca se chuta de longe!

    O que aconteceu com o nosso futebol?

    Os gênios da bola já não existem na seleção!

    Perdemos a garra, o brilho, o viço…

    Perdemos a ginga, a criatividade e a ousadia!

    Africanos, asiáticos e, sobretudo, europeus, evoluíram significativamente…

    O Brasil? Parou no tempo e vive das sombras e das glórias do passado!

    Além disso, os interesses políticos e financeiros, como as malfadadas BETS, ajudaram a arruinar ainda mais o cenário já
    desastroso.

    Costuma-se dizer que não existe mais bobo no futebol, mas, infelizmente, tenho que discordar. Nós somos os bobos! Jogamos de forma lenta e previsível. Não temos a disciplina tática e deixamos de ter o nosso diferencial: a improvisação!

    O final da partida, com a atitude infantil de Neymar, foi uma melancólica cena final de um dramalhão mexicano.

    Destemperado, o camisa 10 não correu para o meio de campo para recomeçar a partida e tentar o milagre. Ao contrário, preferiu bater boca com o goleiro e gastar o escasso tempo!

    E perdemos o jogo, o respeito e a nossa própria imagem!

    Resta, agora, tirar a chamada lição. Uma lição de humildade e de reinvenção! E a reinvenção é urgente!

    Pendurar as chuteiras? Isso não pode ser feito porque a amarelinha já escreveu uma história que não pode parar!

  • Poema #06: olhar-eclipse

    tivemos um olhar-eclipse
    após
    anos
    e
    anos

    foi tão lindo
    que até os deuses
    pararam pra ver

    e foi assim
            mais
        uma
    vez

    até o sol dos seus castanhos partir
    para um canto
    e restar
    somente
    essa lua
    minguante
    no céu
    da solidão

  • A luta desigual

    Todas as manhãs o menino verifica, desolado, que seu castelo foi destruído pelas ondas. Quando chega à praia, vê que nada existe além de um monte de areia sem forma. O trabalho que teve no dia anterior desapareceu. Sua arte foi tragada pelo mar e deve estar agora em algum fundo escuro e frio daquela imensidão azul. Com paciência e dedicação, recomeça a tarefa de reconstruir o edifício onde colocará sua fantasia de morar ao lado de reis e princesas. Antes, dirige um olhar de ódio à água que lambe seus pés. Engole as lágrimas e jura que vai se vingar.

    À noite, pôs seu plano em prática. Ninguém percebeu quando ele, sem fazer barulho, saiu de casa e correu na direção da areia. Ninguém foi testemunha da batalha desigual que teve início naquele momento entre o mar imenso e um menino armado de espada de brinquedo. Ninguém o viu quando o dia amanheceu. Ninguém o verá nunca mais.

  • Poder desarmado

    Na esquina da minha memória, moram dois personagens. O primeiro é o Senhor da Chave. Um homem corpulento, de trajes impecáveis, que carrega no bolso do colete um único objeto: uma chave antiga, pesada, que não abre porta alguma que eu conheça. Ele a exibe não como quem abre, mas como quem pode abrir. Seu poder está no tilintar metálico quando caminha, no gesto de tocar o bolso como quem confirma uma arma secreta. Ele fala pouco, mas quando fala, as pessoas se inclinam levemente, como gravetos sob um vento súbito. Do outro lado da rua, na sombra de uma árvore, está a Menina do Livro. Não é mais criança, mas carrega no rosto a perplexidade perpétua de quem está sempre descobrindo algo. Seus livros são velhos, emprestados, com anotações nas margens. Ela não tem chave alguma, mas sabe coisas: sabe por que o musgo cresce no lado norte dos troncos, conhece a história da rua antes do asfalto, decifra os padrões das nuvens antes da chuva. Seu saber é silencioso, despretensioso, como o zumbido de abelhas numa colmeia distante.

    Por anos, achei que poder e saber eram duas ruas paralelas que nunca se cruzavam. O poder era barulhento, imediato, concreto. O saber era paciente, acumulativo, às vezes invisível.

    Até o dia em que a chuva forte alagou nosso bairro. O Senhor da Chave saiu à porta, tilintando seu símbolo, dando ordens. “Fechem as comportas!”. As pessoas corriam, mas a água subia, desobediente, sem hierarquias. Foi então que a Menina do Livro, de calça encharcada, apontou para o beco dos fundos. “A água não vem só do rio, vem das antigas galerias romanas que passam debaixo do mercado. Estão entupidas com entulho da obra nova. É por ali que ela força a passagem.” Ela sabia da história que os mapas não mostravam, da rede subterrânea que os tubos modernos ignoravam. O Senhor da Chave parou, olhou para a chave no bolso, e pela primeira vez, seu poder parecia pequeno. O que se seguiu foi uma dança curiosa. O poder desarmado, precisou se inclinar ao saber para se materializar. Precisou do poder de convocar pessoas, máquinas e recursos. Juntos, o homem com sua autoridade e a menina com seu conhecimento, dirigiram o esforço para o lugar certo. A água recuou. O Senhor da Chave agora conversa com a Menina do Livro. Pergunta sobre histórias, sobre os nomes antigos das ruas. Ela, por sua vez, aprendeu algo sobre o peso das decisões, sobre a solidão de quem precisa escolher por muitos, sobre como uma chave simbólica pode abrir espaços para que o saber chegue onde é necessário. O verdadeiro mistério talvez não esteja em escolher entre um e outro, mas em reconhecer que eles são irmãos separados na infância. Quando vejo o Senhor da Chave e a Menina do Livro conversando na esquina, percebo que a maior sabedoria seja saber quando ceder o poder. A vida é um permanente aprender quando tilintar, e quando ficar quieto, apreciando a paisagem.

  • Fragmentos de mais uma noite em claro

    Abro os olhos e vejo que o sol vespertino de um certo domingo ainda teima em transmitir um pouco de vida a um fétido e pestilento cômodo. Pelas frestas da janela, a luz do sol ilumina meu quarto, aparentemente vandalizado por poderosos demônios desconhecidos. Aos poucos, recobro minhas forças e sinto o peso de mais uma interminável e irresponsável bebedeira. Em meio a uma breve crise de consciência, escuto uma batida na porta.

    —  Carlos Alberto! Você está bem? —  pergunta Miriam, minha vizinha de porta.

    —  Vou deixar aqui um remedinho pra você. Toma! Vai melhorar! —  insiste aquela que talvez tenha sido meu mais fiel anjo da guarda.

    Com a boca seca e a cabeça latejante, tento refazer, mentalmente, o percurso da noite passada. Mas é tudo tão confuso! Memória e imaginação misturam-se como duas amantes que compartilham entre si os mesmos lençóis. Um turbilhão de imagens e de sons passa pela minha cabeça, sem que eu possa compreender o que significa tudo aquilo.

    Vejo em minha frente uma rua iluminada, algumas mesas sobre a calçada, muitas pessoas animadas. O vaivém de copos e de garrafas enfeitiça este passeante já desobrigado de eventuais compromissos. O sorriso naquele rosto dá continuidade a uma sequência de ações e reações não planejada para aquela noite. Já não estou mais sozinho, pois escuto sua voz alternar momentos de doçura com outros de altivez. Com facilidade, a conversa flui e explora diversos assuntos: música, literatura, política e até futebol. A atração provocada pelo seu olhar só poderia ser mantida por seu humor inteligente e sarcástico. O gosto de seus lábios e a maciez de sua pele impelem-me a querer mais de sua companhia.

    —  Já está tarde, preciso ir embora  diz aquela com quem combino um próximo encontro.

    Não estou mais em sua companhia. Dou um passo à frente, respiro fundo e vejo outras pessoas igualmente alvoroçadas. O ambiente é outro, mas a música alta e a excitação generalizada sugerem que a noite ainda chegará ao seu ápice. Três mesas de sinuca dispostas ao fundo do salão oferecem mais uma opção de diversão a uma pequena súcia de boêmios. Parece que a saudável confraternização do fim de semana começa a dar lugar para os excessos de uma noite imprevisível. Mas eu continuo lá… Necessito permanecer onde estou! Não sei como exatamente, mas aquilo tudo me dá força para respirar com mais vigor. As amarguras de uma vida mal concebida são anestesiadas a cada gole daquela bebida enganadoramente milagrosa.

    De repente, o barulho da jogatina é interrompido por gritos e alguns copos quebrados. A algazarra toma conta do bar, alguns tentam se proteger, outros são enxotados de lá. Minha mente e meu corpo já não interagem da mesma forma. Minhas percepções de tempo e de espaço alteraram-se, completamente. Enfim, as muitas lacunas que se apresentam em minha memória começam a distorcer a narrativa que eu tentava, em vão, construir.

    Vozes altissonantes e rostos desfigurados surgem aqui e acolá. Como se estivesse em um baile de máscaras, não consigo mais identificar aqueles que me cercam. Não são amigos, pois querem sugar o pouco de energia que ainda me resta. O cenário, mais uma vez, mudou! Não há mais mesas, não há mais alegria. São poucos os remanescentes. O fogo daquele isqueiro é ofuscado pelo farol dos poucos carros que cruzam a avenida em alta velocidade. Não tenho ideia de que horas são, mas os pássaros já começaram a cantoria. Não sei onde estou, mas começo a caminhar. De alguma maneira, sei que ainda tenho um endereço para onde me dirigir. Passa uma viatura de polícia, um rapaz faz a sua corrida matinal, a senhora faz suas compras na feira do bairro. Um novo dia começou! E eu aqui… Desgraçado e só!

    Não adianta negar e tentar se enganar, inconsequentemente. Se continuar na mesma toada, essa vida de excessos ainda vai me matar! Chegou o momento de tomar uma resolução e de acabar com tudo isso. Vou atender o telefone, organizar essa bagunça e dar início a uma vida nova!

    —  Alô! Carlos Alberto, você vai demorar? Esqueceu que hoje é aniversário do Marcelo?! Tá todo mundo aqui! Não se esqueça de trazer algumas bebidas! – ordena uma voz conhecida, porém não identificada.

    Na verdade, as palavras que acabei de ouvir soaram mais como um cândido pedido do que como uma maliciosa ordem. E que bom saber que sentiram minha falta! Posso dar uma rápida passada por lá, dar um abraço no aniversariante e voltar cedo para casa. Quer saber?! Que se foda tudo! Não fiz mal a ninguém, e tudo o que fiz foi com o meu dinheiro. Vou tomar um banho, comer alguma coisa e ir, sim, àquela festa! Somente amanhã será uma nova segunda-feira, dia de valorosas resoluções e de intrépidos recomeços.

  • Desmedida

    Mainha prepara o café da manhã todos os dias, às 5h, rigorosamente assim. Acorda e canta com os galos, porque é feliz. Nunca reclamou da vida, desatinou ou embruteceu, apesar da dureza que passou. Teve de criar sozinha dois filhos, revezando com a minha tia, também bondosa, que vinha ficar com a gente em casa. Tia Laura, solteirona, ainda continua adulando os “filhos postiços”, como ela nos chama, só que repugnamos o seu cuidado excessivo, tratando-nos como crianças. Mas isso é o de menos, porque ela nos encheu de amor, da dádiva do carinho, do zelo. Sempre que posso, vou visitá-la. E ela faz uma recepção daquelas, com bolo e café no bule. A prosa passa de horas, perco o tempo, amando ser amada… Nunca tive o amor de pai, aliás não sei do que se trata. O tal genitor nos abandonou (ou nos trocou por bebida). Logo no meu terceiro ano de vida ele partiu. Não deixou saudades. Não lembro sequer de seu rosto. Muito menos o meu irmão, que tinha somente um ano no tempo do abandono. As más línguas dizem que ele queria fugir da responsabilidade e preferia vagabundar. Mas talvez ele seja doente, ou coisa que o valha. Já não me interesso por novidades a seu respeito. Deve bem morar em outro Estado. Nunca nos procurou, e é melhor assim. Artur, meu irmão, tem ojeriza a tocarmos no nome do genitor. Para ele, é como um lixo inservível. Tem ódio à sua figura. E me recrimina sempre que bebo, porque tem medo de eu me tornar como nosso genitor… Então, desde muito cedo aprendi a ser independente. Saía pelas ruas vendendo doces preparados por mainha, na porta de bares, nas faculdades, nos locais mais movimentados. Mainha ficava com o coração na mão, mas precisávamos – e ela dava força a minha verve de autônoma. Eu queria mostrar, também, que era capaz, e queria tirar-nos do atoleiro das contas atrasadas. Mainha, sim, deu todo o suporte emocional de que precisávamos. Não sentimos falta de pai algum. Aliás, quando ele ainda estava presente, batia nela até sangrar – essa é a história que sei por minha avó. Ela nunca fraquejou, mesmo trabalhando em casa de família e dando conta da nossa humilde residência. Perdi a conta das vezes que a vi chegar do trabalho, lavar roupa e engomar. Tudo numa delicadeza ímpar. Não fazia diferença entre o trabalho remunerado e a sua casa; aliás, talvez tivesse ainda mais zelo com as suas coisinhas. Mainha é meu mote para a poesia. É ela quem me dá substância para viver. A maior entusiasta dos meus livros. E diz que um dia serei a maior poeta que esse Brasil já conheceu. Exagero de mãe, por amar assim, desmedida.

  • Poema #76: “141 A”

    Sequência final
    numa casa de 24 m²
    com vista de frente
    para um beco lateral.
    O piso era grosso
    antes de eu assimilá-lo,
    mas como a vida
    permaneceu em
    desalinho eu adormeci
    deitado de lado e tombado
    em lençóis queimados
    no espaço entre as camas.
    Com uma aliança invisível
    na mão direita e um cheiro
    forte de esgoto vindo do banheiro.
    E pensar que havia promessas
    veladas feitas a mim mesmo
    no escuro de uma vida desfalcada.
    Pinturas metálicas malfeitas
    no fundo de um espelho manchado
    e de brilho opaco.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #04: Motivo

     ( A Cecília)

    Antes que chegue o dia da mudez,
    Cantemos!
    Cantemos elegias
    Cantemos heavy
    Cantemos baladas
    Cantemos !
    Que em nós haja uma eterna canção
    Indescritivelmente bela,
    Inevitavelmente original
    Por sermos, cada um de nós, 
    a própria melodia, 
    a harmonia curativa 
    No desconcerto do mundo.

  • Poema #08: Alteridade

    Este que vos premedita
    Devia dizer-lhes algo
    Mas o profundo que é o sereno
    Mais errôneo que o acaso tornou-se

    Então dizes ao papel:
    Das tuas palavras fizestes
    De pouco caso;
    Que se bastasse um punhado
    ‘Inda que só coubesse o que lhe atava.

    Sonoridade tal das águas já lhes assoavam
    Os cascos empoeirados da vigília
    E tu sonhastes teu atraso…

    O não que dizes é certeiro
    Ressoa pra longe, bem longe se estende.
    Caronas apanhas; onde te encontras?
    Ao retorno te encostas
    De onde trazes teu perdão e tua luta.

    A complacência sempre ouve teu discurso
    E a vergonha nunca toma tua teima.
    É que de verdade, amigo, lhe juro
    Veneno bom fizestes, em fatos,
    Contigo ninguém pode;
    Comigo, jamais pude.

  • “digitando… ”

    |

    Um traço vertical. Pisca, pensativo, opressivo; poético.

    Acho que assim, quase girando o travessão introdutório, na busca pela correspondência de (um) outro, nos injetamos, como tentativa científica, numa releitura d’um passado literário:

    Trocamos cartas, quase como que acendendo um cigarro à mesa de um café de iluminação lúgubre, jazz no fundo, um barman meio ranzinza a enxugar louças e vidros, solitário.

    Uísque.

    Na única mesa redonda ocupada, um casal.
    Casal de poetas conhecendo-se.
    Flertando com a rima que enxerga o narrativo; o tom, e não a beleza do outro.
    Há ausência do encontro.
    Há frequência do oposto.

    Um traço vertical.

    |


    De repente, a linha imperativa deita-se

    _

    Desmancha-se em circunferências pululantes. Três.

    Reticências

    Duas pessoas podem, paradoxalmente, preencher xícaras fumegantes à distância. Dedilhar acordes. Entoar palavras baixinho costurando o tempo e qualquer afastamento.

    Encontramo-nos

    justos, apertados, acariciados e no não-existir-e-esperar de uma tela iluminada ao alcance das mãos

    Dedos que abraçam uma caneta esferográfica: reflito.

    Na mão que me rotula destra ou canhota, dedos avançam na comunicação do meu corpo estrutura emocional e sensorial que não mais espera e esperneia para além tudo instantaneamente.

    Na margem branca entre uma caneta e outra

    no pulsar ritmado de um cursor em linha rígida, ditam e de gélido recado – cheia
    de nuvens – do outro lado da interface, espera

    “digitando… ”

    hesitação
    o quase
    o inteiro no “pronto.., foi ”

    Digitando a paga -se an tes da palavra,

    Ganhou forma na perda de seu sentido

    A carta incendeia ainda no ventre da máquina.

  • A vida como deveria ser

    A gente pensa na vida como algo a ser resolvido depois porque tem urgências urgentíssimas sempre por fazer!

    E esquece, com isso, a flor, o amor, o amar, o mar e as rimas todas que estão no ar.

    A gente pensa que tem tempo, mas tempo, na verdade, não há!

    E esquece aquele encontro, o jogo com os amigos, simplesmente ficar de papo para o ar!

    A gente deixa o cinza e o concreto e o sinal fechado interromperem a fluidez das relações, a espontaneidade das coisas e, quando vê, não há mais nada o que fazer.

    A urgência mesmo é a própria vida nas suas explosões e contradições.

    A urgência simples das coisas é viver a vida a cada dia…

    A urgência urgentíssima é sentir, olhar, perceber, respirar, encontrar, fazer acontecer na conversa na varanda entre samambaias.

    Nas risadas entre um jogo e outro de futebol. Nos olhares cúmplices de irmãos trocados na cozinha e nas palavras que deveriam ser ditas e foram ditas… A vida no seu cotidiano!

    Que tal escrever aquele poema que estava esperando sair do papel?

    Que tal subir uma montanha e gastar os pés e o calçado?

    Que tal parar tudo e escutar o som da própria vida?

    A vida como deveria ser…

  • BELINDA diante do espelho

    Belinda talvez fosse uma sonhadora. Incurável.

    Não era bonita. Sonhava com o conceito de formosura, camuflado em todas as coisas. Quando ouvia Milton Nascimento na introdução de O que será? (À flor da pele), conseguia enxergar toda a beleza.

    Ouvia dos amigos que o lado físico não era tão importante. Havia o exótico, o magnetismo, a beleza interior. Belinda fingia concordar, mas passava horas no espelho, buscando encobrir vestígios de imperfeição no seu corpo. A verdade era que sempre dera total atenção à aparência.

    Preocupada com o visual, fixava-se nos detalhes, assimetrias ou características que fugiam aos padrões de beleza. Implicava com estrias, sardas, celulite e qualquer mancha na pele. Seu maior problema era o que os outros achariam dela.

    Tinha os dentes um pouco afastados, mas não se dava conta que eram um charme. Os ombros, um pouco largos, tentava disfarçar com vestidos. Achava os lábios grossos, sem perceber serem ótimos para beijar. A longa cabeleira ruiva recebia exagerada hidratação com óleos vegetais e queratina. Toda noite, antes de se deitar, o ritual de limpeza facial, sem que conseguisse evitar o constante aparecimento de espinhas. Sua preocupação com a imagem acabou por se tornar uma obsessão.

    Era complicado, mas teria de superar seu complexo de feiura. Está certo que seu nariz meio adunco não cooperava. Mas ninguém era perfeito. Seus um metro e cinquenta e dois de altura podiam ser resolvidos com saltos plataforma. Baixinha, mas com classe e equilíbrio.

    A fim de se sentir mais confiante, fez uma tatuagem com os dizeres “Eu não sou a minha imagem” na parte inferior direita do abdômen, por cima da cicatriz da operação de apendicite.

    Não costumava sair de casa. Adorava ver filmes, mas nunca ia ao cinema. Preferia a televisão. Revia diversas vezes a versão clássica de Zefirelli do amor trágico de Romeu e Julieta. Sua cena predileta era quando Julieta tirava a própria vida ao ver o amante morto. Belinda era dramática.

    Essencial era evitar a negação psicológica. Até admitia a existência de gordura localizada na cintura, mas considerava um suplício abrir mão da batata frita, do pudim de leite e dos bombons. Juntaria dinheiro para comprar umas canetas emagrecedoras. O importante era ela se sentir feliz com o seu corpo. Belinda seguia tentando.

    Numa noite, enquanto retocava a maquiagem, a grande epifania. Resolveu apagar a luz e olhar-se no escuro. Pela primeira vez viu, no breu, o seu verdadeiro rosto. Ou aquilo que gostaria de ter visto. Acendeu a luz e, com calma, retirou toda a maquiagem e reconheceu seu melhor ângulo na coragem de se mostrar como era, sem artifícios ou truques. Chegou mais para perto do espelho: Belinda, cabelos vermelhos, sardas, meio dentuça, bocão, acima do peso, celulite, espinhas pela cara e imperfeita como toda gente.

    Sempre que ouvia a ária de La Bohème, quando Mimi (Lucia) canta a sua paixão pelo primeiro sol da primavera, as lágrimas rolavam pela face, tomada de espinhas. No fundo, era uma feia romântica. Incorrigível.

  • Quando duas palavras resolvem morar juntas

    “Sentipensante” — A primeira vez que li, acho que num texto relacionado à física quântica (o que só piorou a situação), achei que era um erro de digitação. Fiquei curiosa tentando decifrar o significado dessa estranha palavra, para mim meio parecida com CatDog (lembram do seriado?) ou de uma aberração ainda maior: o Feijoaçaí. Só de pensar, me embrulha o estômago.

    Corajosa que sou, fui em frente na leitura e descobri que “sentipensante” é uma palavra híbrida, dessas que misturam o frio da cabeça com o calor do peito, sem pedir licença para nenhuma das duas. Lindo isso, não? Fiquei íntima dela e agora, quando alguém questiona uma decisão minha que briga com a razão ou com a emoção, eu logo retruco: sou Sentipensante e coloco um ponto final.

    Logo imaginei que “Sentipensante” poderia ter vários amigos híbridos — quem sabe até formassem um grupinho nas redes sociais, daqueles discretos, mas cheios de opinião.

    Fui atrás e descobri a Escrevivência, boa para um papo longo de botequim. Lá nos sentamos, e ela me lembrou de que não existe escrita sem vivência — queijo com goiabada: um não existe sem o outro. O que estava eu fazendo, então, que não entrava a fundo na minha vida vivida para colocar no papel?

    Comecei, então, a rebobinar a meu passado, à procura daquele negativo nunca revelado que ficara na minha câmara escura, sem nunca participar do set da minha escrita.

    Mas aí a Experipensante, que observava o papo de outra mesa, se meteu: alto lá! Não se pensa antes para depois viver, pensa-se vivendo. Então corre lá viver isso tudo que brotou aqui. E eu, sem pedir licença — e talvez um pouco empolgada demais — inaugurei uma outra palavra: Expersentipensante. Até sorri da minha ousadia. Só faltava colocá-la em prática.

    Resumo da ópera: a língua inventa palavras porque a vida não cabe mais no dicionário. Aí surgem palavras híbridas que, como na vida, decidem morar juntas — mesmo que o dicionário torça o nariz.

  • Quando Jesus encontrou os Orixás

    Certas manhãs nascem diferentes. Não porque o sol brilhe mais intenso, mas porque o mundo resolve cochichar histórias para quem tem ouvidos para escutar.

    Numa dessas manhãs, Jesus caminhava descalço, sozinho, por uma estrada de terra vermelha. O chão ainda guardava o frescor do orvalho, e a poeira fina subia entre seus dedos a cada passo. Carregava ele um manto simples, um sorriso sereno e o hábito de saudar árvores e animais.

    Ao chegar a uma velha encruzilhada, sob a poeira suspensa, o ar pareceu subitamente mais denso. Ali sentado sobre uma pedra pontiaguda, encontrou um homem vestindo vermelho e preto e um chapéu desabado que sombreava os olhos vivos. Girava uma bengala entre os dedos e exibia um sorriso enigmático. O silêncio que os cercava era quase palpável, como se o tempo hesitasse diante do cruzamento.

    —  Olá, viajante. O dia amanheceu largo para quem anda sozinho — disse o homem, voz rouca, cortando o silêncio com a precisão de uma lâmina afiada.

    — A paz esteja convosco — respondeu Jesus.

    O homem inclinou a cabeça, o sorriso expandindo-se em desafio.

    — Paz é coisa que se procura no fim. Aqui no meio, o que manda é a escolha. E toda escolha cobra seu pedágio.

    Era Exu. Não o das histórias mal contadas, personagem sombrio dos malfeitos que o preconceito inventou. Era o senhor das passagens, das escolhas, da palavra que abre caminhos e revela tropeços.

    — Vai para onde? — perguntou Exu, tocando levemente a bengala ao solo, testando a firmeza do andarilho.

    — Para onde houver alguém precisando de uma palavra de esperança, replicou Jesus sem recuar.

    — Isso é o que não falta nesse mundinho.

    Ambos sorriram. A tensão desfez-se no ar

    Jesus e Exu continuaram caminhando juntos.

    De repente, a calmaria foi interrompida. O vento começou a dançar de um jeito diferente, soprando em rápidas lufadas que ergueram a poeira e fizeram as folhas girar como se estivessem executando uma coreografia antiga. Envolta por tecidos claros que pareciam feitos do próprio ar, surgiu uma vistosa mulher, com os olhos faiscando como relâmpagos contidos.

    — Bons ventos os trazem, forasteiros — disse ela, a voz vibrando como um trovão distante.

    Era Iansã.

    — As pessoas temem as tormentas, mas ignoram que é o vento quem limpa o céu. E leva embora o que insiste em ficar.

    Jesus, segurando firme seus longos cabelos esvoaçantes e seu manto que se rebelava no corpo, respondeu:

    — Às vezes, é preciso perder o que nos prende para encontrar o que nos chama.

    Iansã sorriu satisfeita e o vento amainou, transformando-se numa brisa suave.

    Enquanto Exu retornava à sua morada na encruzilhada, Jesus seguia em frente.

    O calor do dia começou a apertar e surgiu o rumor de água corrente.

    À margem de um riacho cristalino, onde o aroma de lírios e água fresca acalmavam os sentidos, emerge a silhueta cativante de Oxum. O reflexo do sol na água criava faíscas douradas ao redor de suas mãos. Observava ela os peixes bailarem entre as pedras.

    Ao ver o andarilho exausto, ela prontamente lhe ofereceu água em uma cuia reluzente.

    — Toda sede merece respeito.

    Jesus, sentindo-se acolhido, aceitou de bom grado e agradeceu.

    O contraste entre a urgência do mundo e a calmaria daquele córrego era profundo. Oxum olhou nos olhos dele e perguntou:

    — Reconheço em você um sábio. Então, me esclareça, por favor, essa questão que me tortura: por que tanta gente acredita que a força necessita de barulho?

    — Porque não lhes foi ensinado escutar o silêncio.

    Ela sorriu com a mesma felicidade que invade um curso da água quando os raios do sol da manhã acariciam sua superfície.

    Jesus continuou sua jornada de destino incerto, deixando o vale e subindo a serra. onde o vento uivava e a gravidade parecia confrontar a pequenez e a fragilidade humanas, quando avistou Xangô.

    Recolhido em seu trono de pedra bruta, observava o horizonte como quem pesa as coisas do mundo numa balança invisível.

    — Justiça… — balbuciou, a voz grave reverberando no paredão de pedra, como querendo concluir um pensamento inacabado. — Todos imploram por ela.

    Ele olhou para Jesus, medindo a estatura espiritual daquele homem franzino. Fez uma pausa e completou:

    — Mas o que os homens desejam é apenas vencer.

    Jesus assentiu, sentindo o peso daquela verdade esmagadora.

    — Amar a justiça exige coragem. Amar a vitória nem tanto.

    Os dois trocaram um olhar de cumplicidade. abençoando o veredicto silencioso que compartilhavam.

    Jesus prosseguiu. Ao descer a montanha, a vegetação fechou-se em uma mata densa. O ar tornou-se úmido, com cheiro de musgo, resina e folhas pisadas.

    Na beira da mata, um homem de porte firme e olhar certeiro observava as copas das árvores, perfeitamente camuflado na proteção das sombras. Um pequeno pássaro pousou-lhe no ombro, sem medo.

    Era Oxóssi. A imensidão da floresta parecia intimidar o intruso, mas Jesus avançou com reverência e sem temor. O caçador apresentou-se com as seguintes palavras:

    — A floresta nunca fala alto — disse — Mesmo assim, nada do que acontece lhe escapa.

    Jesus acercou-se com mais um passo e passou a mão sobre o tronco rugoso de uma árvore centenária, sentido a vida pulsar sob a casca grossa.

    — Meu Pai também costuma ensinar usando sementes.

    Oxóssi abriu um sorriso cordial, transformando a tensão da mata em hospitalidade.

    — Sei disso. Ele é um excelente jardineiro. Formaríamos uma ótima dupla.

    Jesus deixou-o, em direção a uma praia isolada, onde as ondas vinham e iam como se o mar, através delas, respirasse. O sal grudava-lhe na pele e o som rítmico do oceano quebrava na areia branca.

    Ali avistou Iemanjá.

    Vestida com as cores da espuma, ela observava o oceano com a serenidade de quem reconhece todas as lágrimas que nele desaguam. O horizonte infinito trazia uma melancolia profunda, quase dolorosa.

    — Os seres humanos choram muito.

    Jesus aproximou-se, parando onde a água borbulhante alcançava seus pés. Respondeu:

    — Porque amam muito.

    Ela concordou, com o olhar medindo a ida e a vinda das marés.

    — E continuam amando, mesmo depois de sofrer.

    — Talvez seja essa sua maior coragem.

    Por um instante, ninguém disse nada. Nem precisava. As ondas falaram por ambos, engolindo a dor do mundo no balanço das águas.

    Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de tons de brasa e púrpura, Exu reapareceu, na margem da estrada.

    — Engraçado…, comentou, surgindo da penumbra.

    — O quê? — perguntou Jesus, sentando-se a seu lado.

    — Estava aqui meditando: cada povo inventa um jeito diferente de procurar o sagrado.

    Jesus, com olhar perdido no horizonte, retrucou:

    — Verdade. E, quase sempre, se desentendem, achando que estão do lado da razão. Como se a razão tivesse um lado.

    Exu deu uma sonora gargalhada que ecoou ao longe, afugentando os últimos pássaros do dia.

    — Sendo que o caminho permanece lá. Indiferente às batalhas que se fazem em seu nome.

    Como velhos amigos, os dois sentaram-se na mesma encruzilhada onde tudo havia começado, ensaiando um final para o encontro.

    Alguns passantes estranharam a cena. Uns viram apenas dois homens comuns conversando. Outros juravam ter presenciado uma roda de luz que os cercava. Houve quem dissesse que eram conhecidos de longa data. Também apareceu quem garantisse que a cena não passava de miragem.

    O certo é que ninguém escutou o que falavam. Talvez porque certas conversas não tenham sido feitas para ser reveladas.

    Quando a noite caiu de vez, cobrindo a paisagem com um manto de estrelas, cada um retomou a direção que lhe cabia.

    Antes de partir, Exu, ajeitando o chapéu, perguntou com respeito:

    — Então, Mestre (permita-me chamá-lo assim?). Quando nos veremos de novo?

    Jesus respondeu:

    — Todo encontro sincero deixa uma porta aberta.

    Exu bateu a ponta da bengala no chão e um estalo seco ecoou bem longe.

    — Que os caminhos então permaneçam abertos.

    — Os corações também.

    Se tal encontro aconteceu de verdade, ninguém sabe com certeza. Mas quem relata costuma terminar sempre do mesmo jeito: dizendo que, naquela encruzilhada, ninguém saiu com a última palavra.

  • VENDE-SE

    Cruzei o portão e logo avistei uma rolinha morta. A grama alta e malcuidada competia com o mato. Do lado de fora da casa, uma pintura pálida, descascada e algumas pichações que protestavam contra o governo anterior. Tive vontade de chamar por minha mãe. Quase consigo vê-la em pé diante da porta, postura altiva, robe de seda esvoaçante, cabelos compridos e levemente desalinhados, rosto maquiado… Depois de sua morte, era a primeira vez que eu retornava. Um silêncio intimidador que não combinava com a atmosfera da casa da minha infância e adolescência. Às vezes, um cachorro da vizinhança injetava um pouco de vida ao redor, assim como pássaros escondidos na folhagem das árvores do entorno. No quartinho escuro, o cheiro era muito forte. O galinheiro ficava ao lado, um ambiente que eu frequentava bastante. Era o encarregado de cuidar dos animais. Fazia de tudo e acabei estabelecendo com eles um relacionamento amistoso. Em algumas ocasiões, podíamos contar com caseiros e empregadas, o que, com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais raro. Os bichos me esperavam e sentiam minha falta quando eu ficava um tempo maior sem aparecer. Galinhas e coelhos. Patos e marrecos no lago próximo à mangueira. Comecei ajudando meu pai. Você tem sorte, ele dizia, se criássemos porcos e cabritos, o trabalho seria muito mais pesado. Um dia ele nos deixou. Sem aviso. Minha mãe fechou-se no quarto e quase morreu. Tia Berta então veio ficar com a gente. Cuidava dela e de mim, mas não se aproximava da criação. Agora eu era o único responsável. Até que ela também foi embora. Na época, vovó ainda era viva e nos visitava de vez em quando. Minha mãe passou a me trancar no quartinho sempre que recebia algum convidado. Homens, em sua maioria. Eu os via de relance, pelas frestas, descendo de carros elegantes. Dentro do quarto ao lado do galinheiro, penumbra. A lâmpada pendurada no teto queimava e demorava a ser substituída. A janela de madeira velha estava emperrada, era praticamente impossível abri-la. Na época, eu não conseguia. Cogumelos nasciam nas partes podres, devoradas por cupins.

    O doutor Frederico chegou de táxi. Desceu do carro e começou a bater palmas e Na chamar meu nome diante do portão. Fui ao seu encontro. Ainda no jardim, passou a me falar das propostas que havia recebido pela casa. Documentos pendentes e providências à espera de resolução. Burocracia enfadonha, enfim. Você não assinou os papéis que pedi? Estamos perdendo tempo. Talvez tenhamos de reduzir um pouco o preço. As pessoas se interessam, mas não têm dinheiro, são tempos de crise. Você sabe, Felipe, o local se desvalorizou depois que o restaurante e o posto de combustíveis aqui da rua deixaram de funcionar. O sistema de transportes também não é dos melhores, sejamos realistas, acho que o metrô nunca vai circular nas redondezas. Sem dúvida, essa relativa proximidade com o mar continua sendo um atrativo. Como você é o único dono, acho que…

  • Despreparar

    Ou preparar. Quem sabe?

    A vida exige aprendizados. Será que nos preparamos para a luta diária ou aprendemos tudo enquanto ela acontece?

    Em que momento soubemos nos equilibrar sobre um salto alto, tirar os sapatos para brincar no parque com os filhos, passar no mercado na volta do serviço, engolir o almoço às pressas e correr para a faculdade?

    Quase sem perceber, deixamos de ser cuidados para nos tornar cuidadores. Talvez nunca tenha existido um aprendizado formal. Apenas a vida acontecendo.

    Então surge uma febre repentina. Chamamos o pai. Só que ele também está aprendendo. Ontem era um rapaz sem grandes preocupações. Hoje tenta descobrir por que o bebê chora, aprende a fazê-lo arrotar, troca fraldas, anda pela casa com a criança no colo durante a madrugada. Tudo isso enquanto o pequeno tem cólicas, regurgita e volta a chorar.

    Ninguém entregou um manual.

    Faço essa reflexão e me vem à mente a ideia de que carregamos uma memória antiga, quase genética, exemplos silenciosos e uma rede invisível de proteção.

    Há sempre os anjos da guarda da vida real: mães, tias, vizinhas, amigas, sogras, primas.

    Há também as heroínas dos livros, dos filmes e das histórias. Mesmo sem perceber, somos influenciados por elas.

    Talvez seja assim que sobrevivemos. Escutamos a música e, intuitivamente, sabemos dançar.

    É por isso que acredito nessa sabedoria sem nome. Uma mistura de experiência, instinto, coragem e referências que vamos recolhendo ao longo da vida.

    Algumas nascem conosco. Outras nos são emprestadas por quem passou antes de nós.

    Depois de tantos anos sendo exigidos pela vida, atravessando fases tão diferentes, é natural que chegue o tempo de colher um pouco do que plantamos e aproveitar as benesses da terceira idade.

    Também aprenderemos a envelhecer. Como aprendemos a ser adultos. Na prática.

    Talvez a velhice não peça tantos aprendizados novos. Ela nos convide apenas a desaprender. Que não há culpa de pensar em nós primeiro. Nem ter a necessidade de resolver tudo.

    Desaprender a acreditar que nossa felicidade deve esperar a de todos os outros.

    Acredito que precisemos nos despreparar.

    Deixar pelo caminho algumas exigências que fizeram sentido durante tantos anos, mas que já cumpriram sua missão.

    Quero crer que envelhecer também seja isso: reconhecer que continuo responsável pela minha vida, mas que agora posso escolher um ritmo diferente.

    Porque viver nunca foi uma escolha. Aprender a viver, sim.

    E, depois de ajudar a sedimentar o caminho de quem um dia dependeu de nós, talvez seja chegada a hora de caminharmos com mais leveza pelo nosso próprio. Intuitivamente, mais uma vez!

    🌷

  • ANTIGAMENTE

    As palavras, como as pessoas, nascem e morrem. A diferença entre elas e nós é que podem ressuscitar. Um dia, quando menos esperamos, deparamo-nos com um arcaísmo que nos faz voltar à infância (esse “deparamo-nos”, com o pronome enclítico, já não seria um?).

    Outro dia eu estava listando uns termos que ouvia quando era menino e que hoje praticamente não se dizem mais. Alguns se tornaram esquisitos; outros preservam um sabor que nos desperta o desejo de resgatá-los.

    Hoje se diz de alguém convencido e presunçoso que é esnobe. Antigamente, uma pessoa desse tipo “só queria ser as pregas”. Por que as pregas? Pedi a ajuda da minha mulher, que logo matou a charada: na roupa feminina, as pregas são o que dá mais trabalho. Constituem um requinte, uma marca de distinção.

    Pirralho mal-educado a gente tratava “no cascudo”. Ou no “cocorote”. Levei vários deles, por sinal, e nem por isso fiquei ruim da cabeça. Ruim da cabeça? Naquele tempo ninguém falava assim. Dizia-se “leso”, “abilolado”. Os cascudos eram para mostrar que a criança tinha de obedecer aos pais “sem tugir nem mugir”, eu seja, sem murmúrio nem grito.

    Homem usava “brilhantina”. Mulher, “laquê”. Cheguei a acompanhar meus pais a alguns bailes em que os cabelos dos homens eram um lustre só. Ainda não entrara em cena o xampu com a sua variedade de nutrientes que se ajustam aos vários tipos de fios. Fossem os cabelos secos, oleosos, lisos, encaracolados, louros, pretos ou brancos, a inevitável brilhantina os untava da mesma forma e impedia, se fosse o caso, que se revolvessem no atropelo da dança (mas que risco para isso as dolentes valsas podiam representar?).

    Nesses bailes, por sinal, chamava-se a mulher para dançar pedindo-lhe que “concedesse uma parte”. Ela nem sempre se dispunha a saracotear com o “janota”, que achava “espeto” receber a negativa. “Espeto” se aplicava a pessoa ou situação difícil de suportar. Surgiu, certamente, por analogia com o objeto perfurante encontrado hoje nos rodízios de carne, peixe, pizza. A rejeição da mulher era mesmo um golpe, um furo na autoestima do cavalheiro, que tinha vontade de por causa disso provocar um “sururu”.

    Mas ele nem sempre se dava por vencido, e às vezes conseguia se vingar. Dando uma “rabiçaca” em quem o rechaçou, por exemplo, ou esfregando-lhe na cara um “pedaço de mau caminho”. Isso: uma garota boazuda, fornida, “de fechar o comércio”, que fazia a outra se sentir um “sibito baleado”.

    E os nomes? Naquele tempo os homens se chamavam Anfilófio, Eleutério Salustiano. As mulheres: Eudóxia, Escolástica, Alaor. E os utensílios? Como nos quartos não havia banheiro, fazia-se xixi no “urinol”, que após o uso era pudicamente colocado embaixo da cama. Comida se guardava no “petisqueiro”, e no guarda-roupa se amontoavam sapatos ao lado de roupas. Algumas, para o gosto de hoje, muito “ababecadas”.

  • AUTO JUDICIAL

    O adjunto de promotor público, representando contra o cabra José Joaquim Faustino, conclui que no dia 26 do mês de Nossa Senhora Aparecida, quando a mulher do João Cruz ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, saiu dela de supetão e fez proposta à dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ela se recusasse, o dito cabra apoderou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas dela de fora e ao Deus dará.

    Ele não conseguiu conúbio porque ela gritou e vieram em amparo dela José Damante e Espiridião Costa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leis que duas testemunhas que assistam a qualquer sufrágio ou naufrágio são prova suficiente do sucesso.

    Considero, portanto, que o cabra Joaquim Faustino agrediu a mulher de João Cruz para deitar por cima e fazer com ela coisas que só ao marido dela competia, porque casados pelo regime da Santa Igreja Católica Apostólica Romana;

    que o cabra José Joaquim Faustino é um suplicante debochado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis também fazer conúbios carnais com a Inês e a Maria da Luz, moças donzelas;

    que José Joaquim Faustino é um sujeito perigoso e que se não tiver quem atenue o fogo aceso dele, amanhã estará metendo medo até nos homens, condeno o cabra José Joaquim Faustino, pelo malefício que fez à mulher do João Cruz, a ser capado.

    A capação deverá ser feita a macete.

    A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta vila.

    Nomeio carrasco o carcereiro Jorge Ferro de Sousa.

    Cumpra-se e apregoem-se editais nos lugares públicos.

    José Felício da Silva Campos
    Juiz de Direito de Santa Cruz das Almas, 26 de Outubro de 1799.

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