Crônicas Cariocas

  • Poema #80: A ilha

    A ilha com seu silêncio
    me comunica a morte
    dos seres espectrais
    que nela vivem ou já viveram.

    A ilha cercada por mangues
    é um poço de lama e óleo.

    Os pescadores da ilha
    me comunicam o fim
    dos pescadores da ilha.

    Os pescadores da ilha
    me apresentam a pesca de um dia,
    nada.

    A ilha com sua morte
    me comunica o silêncio
    dos seres superiores
    que a mataram e matam.

    A ilha abandonada pelos banhistas
    é um deserto de espuma e água.

    Os frequentadores da ilha
    me comunicam o desastre
    das praias da ilha.

    Os frequentadores da ilha
    me apresentam o bronzeado de um dia,
    petróleo.

    A ilha com sua sorte
    me comunica o crime
    dos seres continentais
    que seguem impunes.

    Os pescadores da ilha
    me comunicam o fim dos peixes
    e voltam tarde para casa.

    O Acaso das Manhãs

  • Sobre voar

    — Desaprendeu?

    — desaprendi.

    — mas você era tão…

    — Era! Muito tempo atrás. Não sou mais.

    — Tem certeza? Isso a gente nunca esquece. Basta uma vez pra nunca mais esquecer.

    — Não foi só uma vez…

    — Não?! Bem, comigo… Pensei que tivesse sido apenas comigo…

    — A primeira sim, mas houve outras. Tantas… Tão boas, tão lindas… O que foi?

    — Nada! Quer dizer… nada! Nada não.

    — Ficou com ciúmes?

    — Sim.

    — Não fique. A primeira nunca esquecemos.

    — Não?! Então por que desaprendeu?

    — Porque…

    — Por quê…?

    — Sei lá! Fui crescendo. Ficando mais pesada. Deixando de lado.

    — Por quê?

    — Você nunca parou?

    — Não. Por que pararia?

    — Mas você também cresceu. Também ficou mais pesado…

    — Cresci.

    — Então?

    — O quê?

    — Não ficou mais difícil?

    — Não.

    — …

    — Não havia como.

    — …

    — É o meu sentido. É para o que existo.

    — Como sabe?

    — É lógico!

    — Não entendi.

    — É lógico!

    — Tá! Agora me explica.

    — Temos asas.

    — E daí?

    — Como e daí? Temos a-sas!

    — Aff!

    — Qual o motivo de termos asas se não for pra voar?

    — … Você acha?

    — Meu Deus! Tenho certeza.

    — Mas também temos pés. Podemos andar.

    — E a-sas!

    — …

    — Cadê as suas? Elas eram tão bonitas! Tão lindas, cheias de plumas…

    — Não são mais as mesmas. Mas as suas estão mais bonitas, mais definidas.

    — Eu voo.

    — Eu cresci.

    — Você cresceu e desaprendeu.

    — Cresci e desaprendi a voar…

    — Não! Cresceu e desaprendeu a ser.

    — A ser?

    — Sim.

    — A ser o quê?

    — Feliz.

    — …

  • Se eu me perder

    O silêncio cresceu com a sombra mais densa. Então, os fones acenderam as lâmpadas incandescentes da plataforma, que pousava, num instante eterno, sobre a água. Era um simples trajeto de retorno à casa: sobre rodas que não tinha controle, observava o horizonte em que nada tinha fim, tampouco início. De repente, uma centelha flutuou acima, no compasso de seu coração. 

    Itália.

    Fevereiro.

    Março.

    Aquele abraço…

    Um simples caso de sorte genuína“, alguém disse.

    Sorte como híbrido entre sortilégio e providência; qual linguagem explica o que está diante dos olhos? O veículo estremece. Qualquer um percebe.

    O passar balança o assento; fora, o ritmo é outro. E então o tempo aniquila-se e desrelativiza anos em décadas, gerações em séculos. “Faça um pedido e levante os pés ao passar sobre trilhos de trem“, ouviu dizer.  Atenção ao trecho da rodovia que marca o passado na alma das cargas cheias de fumaça em sintonia constante às despedidas. Despir-se em idas. Voltar, outro.

    Faça um pedido“. Hoje. De novo. O mesmo pedido. Sempre.

    Predestinação como resposta a um chamado interno, lançado através das partículas desprendidas da luz de estrelas silenciadas.

    Um brilho cego. Partes que não são os pedaços de um todo, mas o próprio todo. Trechos intermináveis reconhecendo-se pelo caminhar. A boa e desejada sina, lapidada através dos sussurros internos. Nenhum sussurro passa incólume pelo universo.

    Ali, à sorte das rodas que a levavam de volta para casa, estava o que já havia chegado:

    duas pequenas marcas, dois pólos de uma só coisa, duas pintas. Marcas de nascença, tomadas de dois pinos espalhadas em corpos-

    espelho. Baco e Eros na certa apostaram alguma deliciosa ousadia, arremessando as marcas ao tabuleiro da Terra:

    Ache-o-par“, decretou Baco, erguendo mais uma taça de vinho tinto. 

    Mas o sabor era de um negroni sbagliato.

    As pintas reconheceram-se primeiro: eram dois pontos. No achar, perder-se . . Não mover-se: ninguém se move de si. 

    Escreveu-me, nesta manhã, o vidente e anti-cético Instagram:

    If I get lost, return me to Italy.”

  • SOLIDÃO

    Do nada, ela resolveu se isolar do mundo. Sumir do mapa. Escafeder-se. Largar tudo de vez. Pensou numa viagem solitária de barco pelos oceanos. Mas Yolanda nem sabia nadar. Aposentada pelo INSS, seu último emprego foi como caixa do Banco do Brasil. Lidou com o público e com a absoluta contrariedade de fazer isso. Tinha dias que parecia explodir. Controlou-se à base de comprimidos e orações.

    Não tinha mais ninguém, nem amigos nem família. Sua única filha, formada em Economia, tinha casado e se mudado para Boston, onde o marido trabalhava. Yolanda, ainda uma mulher atraente, havia se separado e não considerava, por ora, novos relacionamentos. Fechada para balanço, costumava dizer.

    A ideia era mesmo desaparecer. Alugou seu apartamento no Grajaú e mudou-se para Macuco, município de Cordeiro, na região serrana. Um pequeno sítio no meio do nada, cercado de jequitibás-rosa e muito mato. Um refúgio sonhado, longe da maçante humanidade.

    Yolanda sabia que o passar dos anos cobrava seu preço. As pessoas comentavam que envelhecer com alguém era mais divertido. Você podia compartilhar dores, aflições, limites e remédios. Na solidão da roça, não teria com quem conversar ou se aborrecer. Mas isso não a preocupava.

    Ainda não tinha vivenciado, na plenitude, a reclusão irrestrita. Uma coisa era não se ter vida social, fugir das aglomerações, da vizinhança impertinente, dos grupos de whatsapp, outra era o mergulho no abandono e no isolamento completo.

    A favor de sua ida para o sítio, havia a afinidade com a natureza. Yolanda adorava plantas. Em sua antiga casa, no Grajaú, colecionou vasos com orquídeas, samambaias e suculentas. Um problema a ser enfrentado seriam os mosquitos. Em especial, pernilongos. Na verdade, qualquer tipo de inseto. Nem precisava ser barata voadora, uma mariposa já causava pânico.

    Para se viver na solidão seria preciso aceitar a própria companhia. Yolanda achava que gostava à beça de si mesma. Não havia necessidade de estar convivendo com alguém. Sem contar o lado econômico: as principais despesas resumiam-se a alimentação e livros. Ela adorava ler e era boa cozinheira.

    Outra delícia era não haver televisão, sinal para a Internet e o celular ficar desligado. Bênçãos. Teria, enfim, seus ansiados momentos de autoconhecimento, foco e bem-vindo descanso.

    Com duas semanas no sítio, Yolanda pirou. Ouvia vozes, deu para gritar do nada e ter dificuldade para dormir com o silêncio opressivo. Também não havia supermercado perto e faltavam itens básicos, como sorvete de creme com nozes, iogurte grego e castanhas do Pará. Os malditos cachorros do sítio ao lado, volta e meia, invadiam seu quintal. Yolanda sempre teve medo de cachorro.

    Os dias se arrastavam. Quando chovia ficava tudo enlameado e se necessitasse de atendimento médico, o hospital ficava a quilômetros. Ela pensava seriamente em retornar à agitação urbana, ao progresso massacrante e à chatice das relações interpessoais. O sítio era bucólico, a natureza convidativa, a solidão plena, mas havia também um enorme vazio que ela não conseguia entender. Era como se tivesse o homem mais bonito do mundo, mas não houvesse ninguém para contar.

    Atualmente, Yolanda reside no Grajaú e divide o apartamento com uma ex-colega dos tempos do Banco do Brasil. De vez em quando, gosta de ficar isolada.

  • Amém

    Por debaixo da porta, a convocação. Primeira chamada às 19h.

    Salão lotado, ordem do dia sobre as cadeiras.

    Quando viu “3º item — sorteio das vagas”, Severo percebeu que cometera um erro grave: não tinha jantado.

    Leitura da ata.
    — Amém.
    Leitura do orçamento.
    — Amém.
    Leitura da troca do capacho.
    — Amém.

    Sorteio das vagas. Aí o inferno começa.

    — Alguém tem algo a colocar antes do sorteio?

    A senhora do 1º andar logo se manifesta: — Temos que estabelecer as prioridades. Tenho um problema crônico de coluna.

    Severo arregalou: — e o Hip-Hop?

    — O senhor do 18º: esse motivo não justifica. Eu, por exemplo, tenho dificuldade para enxergar.

    Severo ri: — Hoje está enxergando bem…

    A moradora do 2º andar se levantou, exaltada: — Nada disso! Tenho três crianças pequenas que chegam cansadas.

    Severo ia contestar.
    Suspirou fundo.

    Severo olha o relógio.

    Pensa no sanduíche.

    Sente cheiro imaginário de pizza.

    O estômago votou a favor do sorteio.

    — Amigos, sorteio é sorteio e vale para todos.

    Aos gritos pula a encrenqueira de plantão: — Você diz isso porque aluga a sua vaga, assim é fácil!

    Motim a bordo.

    Síndico e administradora se entreolharam.
    — Batem na mesa.

    — Está decidido – usaremos um software de sorteio aleatório dos apartamentos e de suas vagas.

    O grupinho do fundo, deu um pulo: — Somos totalmente contra!

    — Não é confiável.

    Recomeça a discussão.

    Severo pega o celular: — Jantar já era. Melhor pedir um delivery.

    Demora só 40’…

    Finalmente, silêncio.

    O software sorteia.

    Prenderam a respiração.

    O síndico anuncia: — Parabéns.

    Nada mudou. As vagas permaneceram exatamente as mesmas.

    Amém!

    Cadê o entregador de pizza?

  • POLICARPO

    É Policarpo, seu país não veio, não vingou…

    A bandeira que tremula na haste não conta mais as glórias do passado (se é que um dia já contou) e tampouco vislumbra as glórias do presente…

    Sua pátria, escondida entre farrapos, negociações e falsas intenções, desmorona todo dia. Todos os dias!

    No trabalhador que sua e sangra e não descansa!

    Na esquina em que se perde uma outra infância!

    Nas escolas abandonadas e no futuro dos jovens.

    Na promessa quebrada em que não há mais lembrança!

    É Policarpo… Você sonhou um país que nunca existiu!

    Aqui, o que plantam é mamata, rachadinhas, picuinhas, um arremedo de Brasil.

    Um país que maltrata professores e livros!

    Um país que não guarda a sua própria memória e vive errando a sua história.

    Um país que idolatra políticos e influenciadores e desvaloriza conteúdos e autores.

    É Policarpo… o avanço não veio. Não veio a utopia! E você não tem um cavalo que fuja a galope!

    Tudo acabou! Tudo fugiu! Tudo mudou! E seu nome não é José!

    Se você refizesse, se você reclamasse, se você mudasse, se você esquecesse… Mas você não está no poema de Drummond!

    Você acredita em um país que jamais existiu!

    Aqui, os piores são o exemplo. Os canalhas, os burocratas, os pilantras e sanguessugas ditam a moral! E, contra esse mal, parece que não há muito o que fazer! Desfazer?

    Aqui, quem tem padrinho tem sucesso e “reconhecimento”!

    Quem trabalha de verdade precisa trabalhar até a exaustão para se iludir com o crescimento!

    É Policarpo… O melhor mesmo é sonhar. No sonho, o que nos resta, é possível ver e viver um outro país. É possível criar Pasárgada!

    No sonho, é possível escrever uma nova história e, nesta história criada, pintar rostos diversos e sorrisos singulares que vão palmilhar muitos caminhos.

    Nestes caminhos, a palavra Brasil terá, enfim, o significado de futuro…

  • A loja do Joca

    — Oi! Vó do Digo, Vó do Digo! Eu tenho uma loja. Você quer comprar o que eu vendo?

    — Mas onde fica essa loja? Eu pergunto, com a maior naturalidade.

    — Peraí. Vou lá buscar.

    E saiu saltitando, feliz da vida com a possibilidade de fazer mais uma venda.

    Essa é a segunda empreitada comercial do Joca.

    Antes disso, foi caubói. Tinha cavalo, chapéu preto e colete de franjas.

    Depois virou dono de um caminhão de gado.

    Também foi tratorista.

    Mais tarde resolveu abandonar, por algum tempo, as atividades ligadas ao campo e entrou para a área da tecnologia.

    Nessa época quase desapareceu. Já não era visto com a mesma frequência de sempre.

    Acho que descobriu rapidamente que telas não conversam.

    E o Joca gosta é de gente.

    Gosta de contar novidades, perguntar da vida dos outros, dar notícias, ouvir histórias.

    Logo abandonou a carreira tecnológica e voltou ao convívio humano.

    Mas, se depender da herança, tanto da genética quanto da financeira, ainda acredito que acabará no setor rural.

    Foi então que ouvi:

    — Mãe, o que você está fazendo aí? Venha. Nós já vamos almoçar.

    — Já vou. Estou esperando o Joca.

    Lá vinha ele, carregando sua loja.

    — Tia, você também quer comprar?

    — Quero. O que você vende?

    Ele respondeu com toda a naturalidade do mundo:

    — Eu vendo lápis… ou melhorias.

    Eu esperava qualquer coisa. Mas desta vez, confesso que fugiu ao meu alcance! O que ele queria dizer com “lápis e melhorias”?

    Abriu uma caixa de papelão, colocou-a sobre a cadeira e levantou a tampa.

    Lá dentro havia três ou quatro lápis.

    Olhei para a caixa e perguntei:

    — E as melhorias? O que são?

    Sem dizer uma palavra, pegou um apontador.

    Ergueu-o diante de mim, como quem apresenta uma grande invenção.

    — Se você já tiver um lápis, eu vendo só a melhoria.

    Fez uma pequena pausa.

    — Mas, se você não tiver, eu vendo o lápis… e dou a melhoria de graça.

    Na lógica dos adultos, aquilo talvez nem fizesse sentido.

    Na lógica do Joca, fazia todo.

    Porque, para ele, um lápis nunca é apenas um lápis.

    Sempre pode melhorar.

    E talvez seja justamente isso que a infância saiba fazer como ninguém: enxergar melhorias onde nós só vemos um apontador.

  • O dia do aniversário

    Doze horas em ponto, os sinos da igreja de Santo Antônio de Pádua anunciavam. No dia em que completava 50 anos, Joel saiu apressado do escritório do advogado e, ainda dentro do elevador, passou a organizar mentalmente as tarefas da tarde. Memória privilegiada, sua melhor agenda sempre foi a própria cabeça. Era quinta-feira, e apenas no sábado uma celebração ocorreria. Reunião modesta, só para os mais íntimos, como se costuma dizer. Afinal, nunca gostou mesmo de comemorar aniversários. Ficar mais velho não é fato que mereça ser festejado, caramba. Mas a filha insistiu: data redonda, meio século, não se pode ignorar uma ocasião como essa. Em frente ao prédio do advogado, uma rua de grande movimento. Teria de atravessá-la antes de alcançar o metrô. Um pouco mais adiante, uma passarela de pedestres. Consultou o relógio e decidiu que não valia a pena utilizá-la. Perderia tempo e, além disso, jamais se sentiu confortável caminhando em cima delas. Os carros passando em alta velocidade lá embaixo causavam-lhe certa aflição, além de taquicardia, pernas bambas e suor nas mãos. Um automóvel vermelho vindo ao seu encontro é a última imagem de que se recorda. Veículo grande, desses projetados para uso em terrenos acidentados. Estendido ali, no meio da pista, julgou que talvez tivesse sido atropelado. Em torno de si, ouvia vozes, muitas; porém, não conseguia entender o que estavam dizendo. Homens e mulheres falando alto, mas era como se aqueles indivíduos se comunicassem numa língua estrangeira e pouco familiar, algo assim como basco, japonês ou turco. Pensou então na filha única e na festa que não aconteceria. Pensou também na pilha de livros a sua espera na estante do escritório, livros que não leria nunca. Pensou na esposa e se deu conta de que ela ficaria viúva. Bem, ao menos não seria mais necessário levar adiante toda aquela burocracia do divórcio. Pensou nos poucos amigos que tinha. Sempre fora um homem introvertido, reservado. Um ou outro talvez sentisse sua falta. Pensou na chefe. Pensou, sem conseguir evitar uma ponta de orgulho, que seria difícil para ela encontrar alguém capaz de substituí-lo com a mesma eficiência. Pensou nas fantasias sexuais que não teria chance de realizar. Sempre fora tão travado… Logo agora que se sentia mais solto, pronto para experimentar novas sensações… Paciência! Pensou nos pais velhinhos, companheiros de uma vida inteira, morando sozinhos no casarão de Vila Esperança. O casarão que se recusavam a abandonar, onde ele e a irmã Jane passaram a infância e a adolescência, local de descobertas e brincadeiras em companhia de primos e vizinhos, de uma vida ao ar livre que já não existe. Pensou nas galinhas, criadas com esmero e dedicação pela mãe no quintal. Nos ovos saborosos de gema escura e nos pintinhos que elas produziam. Nas brigas com a irmã pelo direito de nomeá-los. Nos castelos imponentes, construídos no jardim com terra, água, pazinhas de plástico e competência. Sua vocação para a arquitetura havia nascido ali, não tinha dúvida. Pensou ainda nas flores cultivadas pelo pai. Viçosas e coloridas, faziam os passantes pararem diante dos canteiros a fim de admirá-las. Nos pássaros de vários tipos que, sem pedir autorização, faziam morada nas árvores da propriedade. Pensou na horta atrás da casa, onde Rosalina ia buscar a salada do almoço. Por fim, pensou em Rex, bolinha de pelos preta e saltitante, companheiro fiel e amoroso. Todo esse esforço de recordação o exauriu. Por que todas essas imagens se faziam presentes justo naquele momento? Eram muitas as lembranças a tumultuar-lhe o cérebro. Elas chegavam sem que ele pudesse evitar. Simplesmente brotavam, como a água limpa brota às vezes das pedras. Tentou esvaziar a mente, não pensar em mais nada. Sim, essa era a coisa certa a fazer. Será que depois de velho estava ficando piegas? De onde todo esse sentimentalismo havia surgido? Com a morte dos pais, a casa provavelmente seria vendida pela irmã. Seu maior desejo se tornaria realidade. Não teria dificuldades em convencer a sobrinha. Obstinada, Jane sempre acabava conseguindo tudo o que queria. No local, é possível que um edifício de 49 andares, batizado com algum nome estrangeiro, despontasse. Quem sabe um prédio comercial, com lojas e escritórios… Junto com a casa, toda a história da família iria ao chão. Em torno de si, Joel continuava a ouvir vozes e barulhos diversos. Pessoas de branco pareciam tentar socorrê-lo. Ele louvava o empenho delas, embora tivesse quase certeza de que este resultaria inútil. Inútil seria também a tentativa de impedir a irmã de vender o casarão. Talvez ela nem sequer esperasse a morte dos pais. Talvez os pusesse num asilo — ou casa de repouso, lar geriátrico, pousada ou recanto para idosos, eufemismos que designam tão somente o local onde filhos desalmados abandonam os pais. Nossa, que exagero, agora estava sendo cruel demais com a única irmã. Ela não era nenhuma bruxa, ora bolas, com toda a certeza amava os pais. Só era da opinião de que eles deveriam deixar a casa, isso sempre achou mesmo e nunca escondeu de ninguém. Era tudo muito amplo, argumentava. Nada justificava que continuasse a viver ali um casal de idosos dependentes e de saúde frágil. Sentia-se cada vez mais fraco e experimentava dores terríveis pelo corpo inteiro. Com as últimas forças que lhe restavam pensou finalmente que deveria ter utilizado a passarela, que teria sido muito bom poder reunir aqueles que o amavam em sua festa de aniversário e que uma decisão irresponsável pode transformar uma existência de forma definitiva.

  • O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam.

    Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar.

    Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse.

    Passavam os dias, passavam as noites, e o menino durinho na cama.

    Como se estivesse morto, todo mundo pensava.

    Quando acordou, disse: – Preferia não ter acordado – ninguém entendeu por quê.

  • Poema #07: Aeroporto

    só deus sabe
    quantos e quantos aviões
    (entre sóis
    nuvens
    estrelas
    & luas)
    meus olhos
    decolaram voos

    pra só assim
    do outro lado do continente
    te aterrissar
    e ser passageiro de ti
    por eternos instantes

  • Vira-lata Escudeira

    Há exatamente dois anos, no dia 21 de julho, adotei uma rebolativa de cambitos finos. No recesso profissional fomos à feira de filhotes. Queríamos adotar uma cadela como companheira à nossa Pretinha, já idosa, que entristeceu com a morte da parceira.

    Domingo invernoso ensolarado. Descemos a Serra contando o tempo. Chegamos com meia hora para a feirinha acabar. Não planejei e nem nunca quis ter um cão. Elvis, o Canário Belga, como já contei, esbarrou em minha caminhada na calçada. Não voava, só corria e pulava. Como cantava! Parceiro de felicidade por cinco anos. Sofri. Estanquei vontade de outro bichinho. Mas o destino nos prega peças. É pretensioso.

    Na Feira, avistei uma cadelinha de olhos brilhantes, cílios castanhos e orelhas caídas, nos braços da Veterinária. Encantei. Não tenho palavras para explicar. Não sei o que me deu. Me aproximei, encantada com aquele olhar. Está para adoção? É fêmea? Emoção estranha me apoderou. Senti o coração a comemorar em saltitos. Um afeto brotou instantaneamente. Que lindinha! Posso pegar? Tomei-a nos braços. E assim Mafalda, com dois meses de nascida, entrou para a família.

    Dois anos após a adoção ainda não consigo explicar aquele encontro. Mafalda parecia estar me esperando. Só ela restava da ninhada, encontrada abandonada em uma rua de Teresópolis. Ambas viemos para o Rio de Janeiro. Eu de Petrópolis e ela de Teresópolis. Descemos a Serra para o encontro mágico. Ser tão pequeno e indefeso que emana só felicidade. A propósito, também adotamos a Nina para ser amiga da Pretinha.

    Agora tenho vários pedacinhos de alegria durante o dia. Mafalda é minha fiel escudeira. Adora coco seco, ovo cozido e olhar a rua pelo vidro da varanda latindo para os cães que passam. Uma fofoqueira! Sabe quando não estou bem, quando estou para chegar do trabalho e vai comigo para todos os lugares e viagens. Acordo com os olhinhos dela a me darem bom dia. Ao chegar do trabalho, por mais que eu esteja cansada, zangada com o trânsito, tudo se desfaz quando a vejo. Ela me enche de lambeijos e não sossega enquanto não lhe dou carinho. Sou grata por esta artimanha do Universo chamada AMOR.

  • Um homem de muita fé

    Ele desceu do trem numa estação qualquer, numa cidade desconhecida, e esperou por ela. Depois, entrou nas criptas das catedrais, onde o silêncio pulsa de tão denso, e esperou por ela. Empoleirou-se em árvores, em pontes, em terraços, em torres, em montanhas, em aviões, nas nuvens dos sonhos e, talvez, nas asas de algum anjo.

    Esperou por ela na dureza do inverno mais impiedoso, tremendo não de frio, mas de esperança. Também esperou por ela na chuva, até que a água caísse sobre ele como pontas de uma faca. Comprou até um telescópio e esperou para vê-la aparecer entre as estrelas.

    Encontrei-o sentado num banco de parque, em silêncio, olhando fixamente para além das árvores, para além do tempo, para além da loucura. Perguntei-lhe: “Quem você espera com tanta persistência?” Sem desviar os olhos do horizonte, respondeu: “A felicidade. Quem mais poderia ser?” Sentei-me ao lado dele.

  • Sem direção

    Os humanos mais valentes creem que a solidão não vá corroer seus desejos, ao vagar pelo mundo sem olhos para fitar, que não é a forma mais sutil de ser gente. Passar minutos apreciando os outros se amontoarem em si, vagando em suas ideias ou cruzando pelas ruas frias e úmidas, pode nos trazer uma sabedoria solitária. 

    Porém, é uma companhia quase ausente de um par de mãos, que poderiam acalentar um nobre olhar. O oposto a esses instantes se percebe na vivência amorosa de quem se doou por outra vida.

    Quanto pode pesar para um pai no leito de morte de seu filho? A mão que a poucos minutos pressionava com o amor de um abraço, foge para o silêncio eterno. 

    A criatura foi gerada do desejo de um ser, que acalentava sua forma de manter-se vivo no filho, e nos breves instantes seguintes, o rumo muda o tempo.

    A vida inteira acreditamos que temos tempo, mas depois disso, descobrimos que ele era escasso, e se foi entre os dedos.

    Imagine se você encontrasse a criança que você foi um dia, numa mesa de uma cafeteria, pronta para uma conversa leve.

    O que você acha que ela diria com franqueza sobre sua vida? Que parte mais lhe interessa saber? e qual dela esconder?

    A parte mais difícil não é partir, mas sim voltar ao lugar onde você estava. 

    Porque quando você retorna percebe que não trouxe de volta quem você costumava ser. Aquela versão de você, ficou para trás, perdida em algum lugar no tempo. Você caminha pelos mesmos lugares, pelas mesmas ruas, mas algo não se encaixa. 

    Os lugares ainda estão lá, intocados, como se o tempo nunca tivesse passado. E você olha ao redor e entende o quanto você mudou. As pessoas ainda veem a sua versão antiga, como se você fosse uma fotografia guardada na memória delas. Mas aquela versão de você, não existe mais, foi deixada para trás pelo tempo, e você se sente deslocado em um lugar tão familiar. 

    Talvez por isso, a parte mais difícil não é partir. É voltar. E perceber que você não cabe mais onde um dia pertenceu.

    Por vezes novas vidas nos lembram a peça de Samuel Beckett, “Esperando Godot”, onde dois homens esperam por alguém, que nunca chega. Nada acontece. E, ainda assim, tudo acontece. 

    Eles conversam, repetem gestos, esquecem o que disseram, pensam em ir embora, mas ficam, sempre ficam, como nós, esperando algum sentido, ou respostas. Esperando o momento que a vida finalmente começará. Ele nos mostra que a existência humana não é uma jornada épica, mas uma repetição de dias, hábitos, pensamentos e esperas que sustentam nossa própria angústia. 

    O vazio não é falta de conteúdo, é o próprio conteúdo. Essa espera pode ser pelo sentido da vida, ou pela felicidade futura que prometemos a nós mesmos, ou apenas uma desculpa para não confrontar o vazio do presente. No final ninguém é salvo, e nada é resolvido, mas mesmo assim eles continuam esperando. 

    Admitir que nada é mais angustiante do que imaginar que algo deva estar a caminho. “O Ser humano suporta o absurdo, desde que possa esperar por algo” (Samuel Beckett)

  • A tirania da coerência

    Desde cedo, acostumamo-nos a avaliar a coerência como uma elogiável característica a ser vista nas atitudes de algumas pessoas. Em sua ausência, as divergências entre o que se diz e o que se faz costumam ser apontadas com a virulência de que apenas os mais empedernidos moralistas dispõem. Mas uma vivência menos tirânica e intransigente pode sugerir que todos nós, sem exceção, refletimos em nossos atos as próprias contradições internas. Diferentemente de máquinas cuidadosamente planejadas, somos seres incompletos e em permanente mutação.

    Evidentemente, nem sempre essas transformações levam-nos às nossas melhores versões. Por mais que tentemos acreditar numa história linear de superação e de evolução, somos apresentados a desafios que nos fazem, volta e meia, sucumbir moral e animicamente. No entanto, as histórias de sucesso tendem a alcançar mais espectadores que os relatos de fracasso. Poucos parecem ser aqueles que nutrem uma honesta simpatia pelos derrotados e marginalizados. Em vista disso, creio ser suficiente contar o caso não de um errante qualquer, mas o de uma respeitada pessoa que viu na própria incoerência sua tábua de salvação. Conhecer um pouco de Rodolfo Pacheco ajudar-nos-á, pois, a rever alguns de nossos dogmas existenciais – essas supostas verdades absolutas que nos fazem ser tão casmurros e cabeças-duras.

    Dedicado pai de família, honesto e trabalhador, seu Pacheco era um típico pequeno-burguês a habitar uma de nossas efervescentes cidades. Proprietário de uma loja de materiais de construção, seu trabalho não lhe conferiu grande riqueza. Mas, apesar dos sacrifícios e da austeridade, ascendeu socialmente, chegando a ter uma vida razoavelmente confortável. Teimoso por natureza e sovina por convicção, não admitia que seus funcionários fizessem corpo mole durante o expediente. Se o trabalho era coisa a ser levada a sério, a disciplina acompanhava-o também em casa, onde sua esposa conseguia, muito raramente, amansá-lo. À relativa harmonia familiar sobrepunha-se, entretanto, a rigidez na criação de seu único filho. Seu Pacheco projetava em Diego nada menos do que a excelência, tanto em seus estudos como em seus afazeres fora da escola.

    — Ai de você, se um dia souber que anda fazendo coisa errada por aí! Não criei filho pra ser vagabundo! — prevenia um pai excessivamente preocupado com as armadilhas que rodeiam a juventude.

    Para satisfazer seu ego, seu Pacheco costumava comparar-se com os outros. Visava, especialmente, a família de seu antigo vizinho Antônio Ramires, pai de dois filhos adolescentes e servidor público. Se o trabalho do pobre vizinho gerava um certo desprezo, muito pior era o tipo de criação que a família Ramires dispensava para seus rebentos. Excessivamente permissivo e liberal, Antônio

    deveria, segundo o antiquado seu Pacheco, ser visto como um espantalho moral para todo e qualquer cidadão de bem, devidamente cioso dos perigos que ideias muito modernas representariam às famílias e à juventude.

    Essa discreta antipatia por Antônio foi, ao longo de muitos anos, alimentada por futricos e fofocas até que Diego revelou ter transcendido os limites de uma criação tão rígida. Tomado pela mais lancinante angústia, mas também pela mais resoluta coragem, Diego revelou a seus pais ser homossexual. Tamanho desplante não poderia, obviamente, passar sem maiores consequências! Onde já se viu?! O descaramento custou a antiga e superficial harmonia da casa. Não era mais possível dirigir a palavra tampouco o olhar àquele indecente jovem que vivia sob o mesmo teto do impoluto Rodolfo Pacheco! Se o amor não era costumeiramente expressado, nunca havia faltado conforto material àquele que outrora era chamado de filho.

    Por muitos anos, o suporte materno foi o único esteio que amparou o pobre rapaz. Sem perspectiva de mudança na relação com seu pai, Diego formou-se na faculdade e foi trabalhar no estrangeiro. Não sei dizer em qual país, mas atravessou o Atlântico – distante o suficiente para tentar esquecer o sofrimento que um pai pode causar a seu filho. Mas, com o tempo, até mesmo as pessoas mais inflexíveis e intransigentes são capazes de surpreender. De vez em quando, o grande espetáculo da vida demanda improvisos e correções, haja vista a limitada serventia de seus roteiros. Assim, foi por meio de um telefonema que Diego soube que seu pai, angustiado por uma doença terminal, desejava corrigir o maior de todos os seus erros.

    Que bom que você veio, meu filho! Eu não poderia descansar em paz, se não pudesse te pedir perdão por ter sido tão injusto com você.

    Entre lágrimas e beijos, abraçaram-se pai e filho. Talvez pela primeira vez, Diego sentia como era ser amado por seu pai. Seu nervosismo e sua apreensão foram abafados pelo calor que emanava do peito daquele homem tão claramente debilitado, mas tão forte e impávido em outros tempos. Todo o sofrimento causado por anos de desprezo esmaecia diante do reconhecimento paterno de que estava errado. Não obstante o pedido de perdão ter chegado somente na véspera de seus derradeiros estertores, a sinceridade de tal ato transbordava dos olhos do enfermo pai. Diego sabia o quão difícil seria para um sujeito tão caturra e grosseirão como o pai reconhecer um erro e expressar seu amor. Nem mesmo a deprimente situação em que se encontrava reduziria a importância do último capítulo da história de Rodolfo Pacheco.

    Seu Pacheco foi, ao longo de praticamente toda sua vida, escravo de uma determinada visão de mundo. Suas ideias não admitiam o diferente, o heterogêneo, o sincrético. Não estava autorizado sequer a colocar em dúvida a valência moral de tal código de conduta. Mas seu último ato gravou na memória e no coração de seu filho que algumas de nossas incoerências podem ser salutares.

    Mais do que romper os grilhões de seus preconceitos, seu Pacheco conseguiu libertar-se, enfim, da tirania de uma inútil e nefasta coerência.

  • Os laços

    Os laços de Maria me enfeitiçavam. Eles me atraíam como uma medusa. Não era possível olhar diretamente nos seus olhos. Havia, de minha parte, uma tremenda vergonha. Ainda tinha um atrativo peculiar, o aparelho ortodôntico, com uma linha de aço que ficava para fora da boca, como um ser especial, de outro mundo. Conhecemo- nos desde a infância, mais especificamente no quarto ano, quando ela veio estudar na minha sala. A sua imagem me paralisou, ao entrar atrasada na primeira aula, vindo com a coordenadora, que nos apresentou a aluna novata. Apesar dos apetrechos, ela era bastante sorridente – e sorria mais com os olhos, esverdeados. Por sorte, ela sentou numa cadeira ao lado da minha. Numa pequena brecha da explicação da professora de português, ela me perguntou qual era o meu nome; eu disse: “Gustavo… mas pode me chamar de Guga” – o apelido que meu pai me dera por causa daquele tenista, para quem eu não dava a menor bola. Maria, na verdade, só se entrosava com os garotos, porque, pelo que parece, havia inveja das meninas, que tinham um grupo muito fechado. Passou a jogar futebol com a gente, e por isso foi apelidada pelas mesmas meninas de “Marião”. Eu brigava por ela, não deixava que a maltratassem, porque era novata e porque era o meu novo amor. Nos anos seguintes, Maria foi posta numa sala especial, a “D”, pequena, só com os alunos crânios. Mas, ainda assim, Maria não se afastou de mim – era o meu grande receio. Um dia perguntaram a ela se era minha namorada; ela disse que sim, muito assertiva, e eu me borrei de medo de que aquilo fosse mesmo verdade. “Não liga, Guga, prefiro que pensem que somos namorados”. Foi uma questão que ficou em aberto na minha mente por meses, até que Maria disse que eu estava passando do ponto. “Qual é, Guga, sem essa de pegar na minha mão; vão pensar que somos namorados de verdade!”. Mas eu era apaixonado por ela e ela por mim, disso eu sei. No sétimo ano, quando voltei de férias, soube que Maria tinha mudado de colégio. Eu queria saber o seu paradeiro, por que teria feito isso comigo? Depois de uma semana, recebi uma ligação dela – não consegui falar antes porque ela havia mudado de telefone. “Sabe, Guga, é tudo muito estranho no novo colégio; é como se as pessoas comessem os livros para passar no vestibular. E eu não sei por que tenho que me preocupar com isso, já que faltam alguns anos para o vestibular. Minha mãe disse que era para eu criar experiência, aprender a lidar com as dificuldades da vida logo cedo”. Nisso, Maria foi sugada pelos estudos e pouco falava comigo; sempre tinha provas e simulados. Chorei por um mês a sua partida definitiva da minha vida. Escutava The Cranberries, sua banda predileta, repetidas vezes – chorando. No vestibular, soube que teria feito para Medicina e passado de primeira. Ela era uma puta aluna, merecia. Enquanto isso, eu passei para Ciências da Computação – também um bom curso. Hoje, já formado e casado, me encontro com o meu primeiro amor no supermercado. Ela parece que vinha ou iria para a academia. Estava mais linda do que nunca. De primeiro, não me reconheceu, mas depois me abraçou e disse que tinha muita saudade da nossa pura amizade. Quando me preparei para pedir o seu telefone, ela se virou e disse que teria de ir, porque seu marido e sua filha esperavam no carro. Desde esse dia, mantenho constantes visitas ao mesmo supermercado, a dez quilômetros da minha casa, para um dia encontrá-la de novo, só para vê-la. Minha mulher pergunta por que vou fazer o mercantil tão longe, e eu digo que é pelo preço dos produtos – que de fato são bem mais acessíveis, já que é um atacadão. O tempo a esconde de mim, mas hei de achá-la.

    Adriano Espíndola Santos é autor de “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto” e “Viver morrendo”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. Instagram.com/adrianobespindolasantos/

  • Poema #79: A cor suja

    Mil noites de sono
    e o abismo intacto
    A beleza da árvore
    e do peixe
    A máscara da maldade
    filtrada pelo telefone
    O sorriso do triunfo provisório
    A dor latente e as pancadas na parede
    A pedra que dissolve o leite.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Semente

    A ladeira de paralelepípedos cria obstáculos até o ponto de ônibus. Mal amanhece, o café preto, o banho, a escova de dentes. A roupa, cuidadosamente separada no dia anterior, e a corrida de sempre para não perder a condução.

    O corpo magro vai contra o vento, e sopra uma canção nos seus ouvidos. Ela cantarola.

    No trânsito, procura na paisagem de sempre algum novo detalhe e, invariavelmente, encontra. Tudo está no mesmo lugar, mas seu olhar é novo a cada dia. Não tem consciência da própria sensibilidade. Emociona-se com o que é invisível aos outros e pensa que é normal. Chora com as histórias que lê, com os filmes a que assiste. Inventa histórias longas que nunca serão escritas e, à sua maneira, é feliz.

    Os cadernos presos ao corpo em sacolas improvisadas. Sonha. Tem medo de que tudo seja apenas imaginação. Imagina sempre.

    O vento sopra uma canção nos seus ouvidos. Escuta-a atenta. Apenas o tempo dirá se a canção é tudo, se as histórias vingarão, se o sonho virará realidade.

    Nesse vão, tece.

    As roupas não se ajustam bem. As calças são mais curtas que suas pernas finas. “Pescam siri”, ouve dizerem. O desgaste dos sapatos é coberto por graxa. Apesar de tudo, brilham.

    A vida também a lapida, a cada palavra que machuca, a cada desejo não realizado, a cada manhã em que tem um novo olhar sobre tudo.

    O vento sopra uma canção nos seus ouvidos. Nela há esperança e grandiosidade de sinfonia.

    A menina que desce a ladeira correndo, que tropeça nas pontas soltas dos paralelepípedos, não sabe que planta beleza, que seus sonhos são sombras de um futuro que ainda não viu.

    A menina não sabe, mas é semente da mulher que, em algum ponto distante no tempo, já existe.

  • VANILDA não será mãe

    Acho que estou me tornando uma sociopata. Só fico à vontade quando estou enfiada no meu mundo. Concentrada, recolhida comigo, sem interferências. Os amigos me perguntam, Vanilda, você não vai conosco? Vanilda, você está tão sumida; Vanilda, você parece uma velha… Odeio ser colocada contra a parede. Será que não veem que preciso de reclusão? Não é pela idade, mas por escolha.

    A minha fase antissocial começou depois que constatei que odiava crianças. Podia soar meio absurdo, não convencional, eu sabia. Seria um desvio? O mundo é hipócrita desde os primórdios. Conheci muita gente que também pensa como eu, embora se recuse a admitir. Ou receie as repercussões. Que encanto, como é bonitinha, fofinha, uma princesa, e eu, calada, pensava: que peste!

    Nada de dedos melados de chocolate, brinquedos espalhados pelo chão e, definitivamente, choro estridente no meio da noite. O mundo lá fora pode estar cheio de mães com seus filhos, às voltas com joelhos ralados e tendo de responder perguntas intermináveis: por que o céu é azul, por que chove, por que os dinossauros sumiram? Não é meu caso. Não quis ter filhos. Prefiro viver a vida sem a obrigação de perder a identidade pessoal. O paraíso foi feito para se aproveitar, nunca padecer. Não nasci para abnegações nem lido bem com cansaço extremo. Se não durmo oito horas diárias, fico um caco.

    Ainda há a singela responsabilidade de ser a “mãe perfeita”. Um padrão de exigência quase irreal, acompanhado de uma culpa constante em não conseguir atender às expectativas. Dos filhos e da sociedade. Não vim ao mundo para me candidatar a mãe do ano.

    Os amigos contra-argumentavam: Vanilda, se sua mãe tivesse pensado assim, você não nasceria… Pode ser, talvez tivesse sido até melhor. Mamãe – que Deus a tenha bem guardada – não foi essas coisas como genitora. Nessas horas, celebro Machado de Assis: não ter filhos para não transmitir a nenhuma criatura o legado da sua miséria. Grande Brás Cubas.

    Já associei minha fobia ao medo do parto. A adoção poderia ser uma alternativa, se o adotado – ou adotada – viesse maior de idade, saudável e independente.

    O normalizado, o aceito, o natural é você pensar a criança como pura, inocente e coisa e tal. Vai nessa. Crianças também podem personificar o mal. Vide “A Profecia” ou “O “Exorcista”. Todo o cuidado é pouco. Quem vê cara não sabe o que lhe advém.

    E o que dizer daqueles pirralhos mal-educados, mimados e sem limites? Quando me deparo com um desses, tenho gana de lhe torcer o pescoço. Viva Herodes!

    Minha irmã ficou um tempo sem falar comigo, porque no nascimento do meu sobrinho, comentei que ele era feio demais. Parecia com um rato-toupeira careca. O que fazer se o recém-nascido tinha a cabeça grande, dois fiapos de cabelo pela testa, o rosto inchado e a pele avermelhada, enrugada, coberta por uma gosma?

    Aprendi a lição. Para evitar problemas, não falo aos outros da minha aversão. Procuro disfarçar e, em casos extremos, consigo até ser falsa e sorrir, dizendo que o menino (ou a menina) é uma graça, um presente de Deus. Por dentro, gargalho.

    Trabalhei durante uns anos numa creche. Minha implicância com crianças vem daí. Com o tempo, fui perdendo completamente a paciência. Trabalho mais aborrecido e entediante cuidar de bebês. Ainda mais dos outros. Reivindiquei adicional por insalubridade. Fui demitida.

    Como todo assassino que retorna à cena do crime, passei num concurso para professora do primeiro grau de uma escola pública, onde fiquei até me aposentar. Minha metodologia pressupunha hostilizar e perseguir os diabinhos. Quanto mais me divertia, mais eles se apegavam e me respeitavam. Criança gosta de tirania, castigos, sanções e repressões. Tudo junto. O pulo do gato era na hora dos testes e resultado das provas: eu surpreendia e era benevolente. Nunca reprovava ninguém. No íntimo, pouco me importava se no futuro estariam aptos ou não para alguma coisa. Só não queria me aporrinhar. Já imaginou ter de voltar a vê-los um outro período? Melhor não.

    O meu isolamento trouxe consequências, admito. Não posso afirmar que minha vida deu certo, que acumulei afetos ou cativei o mundo. Sigo apenas vivendo e de quase nada me arrependo. O que me incomoda é nunca receber presentes ou ser lembrada no dia das mães.

  • Habite-se!

    Habitar é um estado de bem-aventurança. Nômades ou sedentários, sempre procuramos o nosso lugar. Talvez a casa seja a palavra mais valiosa do mundo, ao lado do amor.

    Vai muito além de um conjunto de paredes, cômodos e teto. O corpo também é casa, a pele que habita a superfície da sua cor, sente frio e calor; a alma que habita a profundidade, sente no exílio, falta e saudade.

    Polvos, moreias, tubarões, passarinhos, também têm seu ninho, sua toca. A casa é o destino da rua, para onde levamos nossas conquistas e feridas e de onde podemos sonhar.

    Como num casulo, nela, abrigamos nossos ovos de ouro. Seja própria, não própria ou até mesmo imprópria.

    A casa desde sempre fez parte do nosso mundo imaginário. A da infância nem se fala, fica marcada tal qual prensada por um ferrete em brasas. Perseguimos numa corrida de obstáculos, o ideal do doce lar, àquele lá de trás, perdido desde sempre, cujo endereço era a barriga de mãe.

    Habitados pelo inconsciente, passamos a vida desejando retornar a este estado de puro prazer e assim emprenhamos de significantes a nossa casa edificada, como se a sua posse nos servisse como uma insígnia fálica.

    De repente e por assombro, metem os pés nos nossos peitos, arrombando as portas. Escancara-se assim o nosso templo sagrado. A casa invadida, outrora pensada tão protegida, cai. Mas içada, remonta-se um novo castelo e assim deixamos a nostalgia ao relento, no sereno de um tempo que já passou.

    Habite-se! Na sua própria construção, nesse lugar de afeto que poderá ser habitado com segurança. Conceder-se a propriedade do seu desejo, pode ser o maior de todos os bens. Aproprie-se do seu nome próprio, este que lhes foi dado com tantas marcas e histórias. Autorize-se das suas palavras e narrativas, essa pode ser sim, a chave tão desejada. Mas antes de destravar a engenhosa fechadura, e adentrar na casa idealizada, assegure-se que a escavação foi profunda e que a esculpiu com delicadeza. Sem esquecer de despejar os restos e as sobras. Despeje-se! Do gozo, que por natureza, carrega em si, prazer e dor. Despeje-se! Do eu cheio de si, que se desborda pela porta.

  • A Despedida

    Estranho ver você aí deitado, fisionomia serena. Por que você não era assim a maior parte do tempo, Samuel? Tenho a impressão de que você vai se levantar a qualquer momento e começar a falar aquelas coisas sem sentido que costumava dizer. Você não percebia que seus argumentos eram frágeis, sem coerência? Suas cenas de ciúme bobas. Samuel, aquilo era apenas meu trabalho, era tudo profissional. Sério. Nunca houve nada. Nada mesmo. Olha em volta, não veio quase ninguém. Sua mãe, seu irmão e sua cunhada mal me cumprimentaram. Nem parecem tão tristes. Ficaram surpresos com a minha presença. Não vejo nenhuma senhora Samuel Arantes. Pra falar a verdade, nunca soube se existiu alguma depois de mim. Claro que você deve ter tido seus casinhos por aí. Presta atenção, vou fazer uma coisa. Quero que você leve minha aliança com você. Sim, eu ainda guardo. Poderíamos ter sido felizes juntos, ter construído uma relação sólida. Mas você era imaturo, queria as coisas sempre do seu jeito. Acabou que não tivemos filhos. Não passamos nossa herança adiante, não deixamos na terra nossa semente. Ainda bem, nunca tive vocação pra maternidade. Acho que você também não teria sido um bom pai. Pra onde será que você foi? Tomara que para um bom lugar. Apesar de tudo, você não merece sofrer. Sua alma já está por aí, flutuando no ar, observando as pessoas de modo furtivo, será que já deu tempo pra isso? Samuel, você já sabe que morreu? A gente ouve dizer que muitas pessoas demoram a descobrir. Bem, meu lado espiritual não é tão desenvolvido, não posso falar com propriedade sobre esses assuntos. Pensei que conseguiria refazer minha vida depois da nossa separação. Não foi isso que aconteceu. Mas sempre é tempo, né? Trouxe uma coroa. É a mais bonita de todas. São apenas duas, ainda assim é a mais bonita. Fiz questão de colocar meu nome na faixa pra todo mundo saber. Ainda não tô acreditando. Nem consegui chorar, embora ache que devesse. Não, não, não. Não vou usar técnica de atriz pra isso. Ou aconteceespontaneamente ou nada feito. Samuel… Eu te perdoo. Você me perdoa?

  • O coração negro do futebol

    Àqueles que acompanharam a Copa do Mundo não deve ter passado despercebida a presença maciça de jogadores negros nas partidas. Não me refiro obviamente às equipes da África Subsaariana (Cabo Verde, Costa do Marfim, Congo…) que, por sinal, a cada edição vêm melhorando seu desempenho, enfrentando de igual para igual seleções consagradas do Primeiro Mundo. E sim às poderosas esquadras europeias, que, apesar do sobe/desce dos últimos anos, permanecem na linha de frente do futebol.

    Em outro extremo, chama a atenção uma notável exceção: a Argentina, em cuja seleção não há sequer um único jogador negro. Resultado de uma política de ‘embranquecimento’ levada a cabo durante o século XIX, derivada do projeto colonialista praticado. O Estado portenho incentivou fortemente a imigração europeia e executou um recrutamento discricionário de negros para as frentes de batalha. Sem falar da incidência de epidemias que atingiu severamente os segmentos mais pobres. Tais fatores contribuíram em encolher drasticamente a presença da etnia no país. Esses movimentos fizeram com que a população negra fosse reduzida ao longo da história, ao que se estima, de 30% para menos de 1%, nível que se mantém até hoje. O resultado desse processo de exclusão racial é percebido dentro e fora dos estádios e ajuda a compreender as lamentáveis cenas de racismo expressas pela torcida celeste e… branca.

    A situação de nosso vizinho sul-americano é intrigante. Separados apenas por uma fronteira de 1200 km, partilhamos com nossos hermanos um passado colonial marcado pela escravidão e muitos pontos em comum em nossas culturas, incluindo uma paixão quase religiosa pelo futebol. No entanto, enquanto o Brasil construiu uma sociedade miscigenada (ainda que marcada por desigualdades e racismo estrutural), no país ao lado os negros foram praticamente banidos da vida política e social.   

    A Europa percorreu caminho inverso. Nas últimas décadas, o continente recebeu grandes levas de imigrantes africanos que se tornaram cidadãos franceses, ingleses, holandeses, belgas, alemães. Muitos deles, claro, tornaram-se craques de bola.

    Antes da virada do século, o padrão dos jogadores europeus era bem diferente: atletas brancos leitosos, quase róseos, robustos, bem nutridos, disciplinados e impecavelmente preparados que praticavam um jogo quadradinho, previsível e altamente técnico, frio como os Alpes austríacos, preciso como os relógios suíços. Conservando esses atributos, o futebol europeu acumulou admiráveis conquistas.

    Até que sua hegemonia foi quebrada em 1958 por um grupo de garotos morenos franzinos, bons em driblar e improvisar, provindos de um país tropical do Hemisfério Sul. Entre eles, um ‘negrinho’ camisa 10 que aos 17 anos cativou o mundo com seu toque genial, sendo entronado ‘rei do futebol’.

    A partir daí, para manter sua relevância, o futebol europeu resolveu mudar de tonalidade. Essa transformação ficou particularmente evidenciada na seleção francesa 70% black de 2026, cuja formação escancarou ao mundo um país de cidadãos com características físicas diferentes daquela que o mundo se acostumara a assistir. Alguns conferiam a esse fenômeno um tom de deboche, insinuando, numa expressão escamoteada de racismo, que a seleção da França não era integrada por autênticos franceses, como se um dos critérios necessários para definir a nacionalidade fosse a cor da pele.

    Não se tratava, é bom que se ressalte, de jogadores estrangeiros naturalizados e sim, em sua maioria, filhos ou netos de imigrantes nascidos ou criados na mesma terra de Charles De Gaulle, Edith Piaf, Monet e Simone de Beauvoir. Pessoas que participaram da construção da sociedade gaulesa contemporânea, mais plural e heterogênea. Que entoavam ‘A Marselhesa’ com o mesmo fervor dos demais e que ali estavam para dar seu sangue (igualmente vermelho) pela nação que os acolheu e exaltou com pioneirismo os ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.

    Nobres valores que parecem vir sendo deixados de lado nesses tempos em que os fantasmas do racismo e da xenofobia têm aflorado, ameaçando até os campos presumivelmente neutros do esporte, ambiente em que o princípio da equanimidade de condições deveria prevalecer. Derivados da mesma lógica que inspirou o mito da superioridade ariana, desmontado quando Jesse Owens cruzou a linha de chegada bem à frente dos atletas que Hitler colocou na raia para se tornarem imbatíveis.

    Hoje, a presença marcante de negros no ‘rude esporte bretão’ já não causa estranheza. Se o futebol é branco de nascimento, carrega em sua face nova coloração. Parodiando Vinícius de Moraes, se hoje ele é branco na estratégia, é negro demais no coração.

    E essa metamorfose foi além do futebol. Basta ver a Corrida de São Silvestre, em que a reiterada superioridade dos filhos da Mama África tornou a competição desinteressante. Não é diferente no boxe, no basquete, no atletismo e em outras categorias olímpicas em que os negros têm monopolizado as grandes conquistas. Ao contrário do que ocorre em modalidades elitistas como tênis, golfe e fórmula 1, em que o domínio de branquelos bem formados permanece. 

    Fenômeno semelhante acontece na música popular. Do jazz ao blues, do rock’n’roll ao soul, do mambo ao reggae, do samba ao maracatu, é difícil imaginar a trilha sonora do mundo sem a contribuição decisiva de artistas como Chuck Berry, Jimi Hendrix, Miles Davis, Duke Ellington, Louis Armstrong, Billie Holiday, Bob Marley, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Michael Jackson, Ray Charles, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Cartola, Pixinguinha e tantos outros.

    Não se trata de talento natural, inato, como se poderia erroneamente deduzir. Mas da capacidade humana que demonstraram de transmutar aflição em criação, exclusão em expressão, resistência em excelência.

    A situação no campo das ciências merece reflexão. A predominância de cientistas e pensadores brancos não pode ser dissociada das condições que favoreceram acesso à educação, instituições de pesquisa e financiamento. A menor participação de negros nesses espaços está relacionada a barreiras econômicas, sociais e políticas, jamais à limitação de capacidade.

    O mesmo ocorre em manifestações artísticas tradicionalmente associadas às elites. A música clássica, o balé, as artes plásticas e mesmo certos circuitos literários, continuam refletindo um padrão menos diverso. Essas expressões dependem de um capital cultural difícil de acumular: aulas precoces, instrumentos caros, escolas especializadas e acesso a instituições pouco permeáveis à segregada população negra.

    Durante séculos, os padrões de valorização cultural privilegiaram referências europeias, enquanto as contribuições africanas e afrodescendentes foram sistematicamente marginalizadas. O reconhecimento de sua importância na música, no esporte e em outras manifestações culturais representa, antes de tudo, a reparação por uma injustiça histórica.

    Assim, a mesma força que molda o coração negro do futebol e dita o ritmo das pistas de dança e dos palcos reluzentes precisa romper as barreiras intransponíveis das universidades e dos centros inacessíveis de poder. O talento e a resiliência que transformaram o esporte nascido inglês em espetáculo mundial de pluralidade são os mesmos que têm potencial para revolucionar a ciência e o pensamento global. Desde que as condições de largada sejam as mesmas. A história mostra que o protagonismo negro já não pede licença. Ele se impõe pelo mérito, provando que, se a tática do mundo insiste em ser monocromática, em seu peito pulsa um coração multicor.

  • O que fica?

    Ganhar é sempre bom?

    Depende.

    Pergunte a quem subiu na balança após um fim de semana prolongado:

    — Ganhei dois quilos.

    Nesse caso, “ganhar” não soa como vitória.

    Também se perde um compromisso, a paciência, o medo, uma oportunidade ou alguns quilos. A palavra é a mesma, mas o sentido muda conforme o que vai ou fica.

    As palavras têm faces.

    Como moedas, pessoas e quase tudo. 

    Outro dia ouvi alguém dizer:

    — Passou.

    Passou o quê?

    A Copa? A esperança da Argentina? Metade do ano?

    A dor? A vontade? Uma moda? A oportunidade? A festa?

    Tudo passa.

    E, quase sempre, isso é bom.

    O problema nem sempre está no que se foi, mas no que insiste em ficar.

    As vezes, a lembrança que fica dói. A dúvida corrói.

    E pior

    Fica a frase incômoda: “Eu poderia ter feito diferente.”

    Talvez sim. Ou não! 

    É fácil julgar depois. Do lado de cá, todos parecem saber mais. Analisamos gestos, palavras e silêncios como se tivéssemos todas as respostas.

    Não tínhamos.

    Fizemos o possível com o que éramos: consciência, experiência, medo e coragem.

    Ainda assim, quando algo não sai como esperado, não nos contentamos com a frustração. Acrescentamos peso.

    Não consegui.

    Logo, não sou capaz.

    Perdi.

    Logo, não merecia.

    Errei.

    Logo, sou um fracasso.

    Não.

    Uma coisa não define a outra.

    Não alcançar algo não torna ninguém incapaz. Um resultado é só um acontecimento, não uma sentença. Uma perda não mede valor. Um erro não apaga acertos.

    Como se não bastasse o desconforto, ainda nos condenamos.

    Eu me recuso.

    Recuso a ideia de que todo ganho seja vitória.

    E também a ideia de que toda perda seja derrota.

    Há ganhos que pesam, e perdas libertadoras. 

    Há portas que não se abrem porque não eram nossas. Caminhos interrompidos que revelam outros. Conquistas que brilham por fora, mas cobram por dentro.

    Toda moeda tem dois lados.

    Não um bom e outro ruim.

    Isso seria simples demais. Ambos pertencem à mesma moeda e têm valor. É preciso virá-la, observá-la, entender o que cada face revela.

    Talvez o verdadeiro otimismo não seja acreditar que tudo dará certo.

    E sim entender que, mesmo quando não dá, nem tudo está perdido.

    Que não fique, depois de tudo, uma injustiça contra nós mesmos.

    Passou.

    Tudo passa… 

  • Revisitando “Alice”

    Alice desistiu de procurar a Rainha, mas não estava nada satisfeita com as mudanças de tamanho. Era muito doloroso não saber como ia acordar no dia seguinte. Caminhava pelo bosque com esses pensamentos tristes, quando viu ao lado da trilha um homem sentado diante de uma mesa sobre a qual havia um papel em branco. Era o Escritor. Resolveu lhe falar:

    – Senhor Escritor…

    – Vá embora! Não vê que estou me concentrando?

    A menina se desculpou e ficou em silêncio, observando a expressão do homem. Ele parecia olhar para dentro de si. Depois de uns dois minutos, dirigiu-se a Alice com um ar aborrecido:

    – Já falei que fosse embora. Preciso de concentração.

    – Mas eu estou calada!

    – Está olhando para mim, o que é pior. Não consigo pensar com alguém olhando para mim. Mesmo que seja uma menina como você.

    Alice não gostou do que ouvira, mas resolveu não se contrariar. Sempre que se contrariava, ficava um pouco menor. O pior não era diminuir de tamanho, era ver que os outros notavam isso.

    – Por que o senhor escreve?

    – Ainda não descobri. Na verdade, escrevo para descobrir por que escrevo – respondeu o homem. Ficou tão satisfeito com a resposta, que resolveu usá-la em seu próximo escrito. – E você, já escreveu alguma coisa?

    – Uma vez tentei escrever uma história, mas era muito triste e acabei chorando. As lágrimas manchavam o papel.

    – É verdade – concordou o Escritor – Não se pode chorar e escrever ao mesmo tempo. Além de manchar o papel, prejudica o estilo.

    – Estilo? Engraçado… minha mãe sempre diz que eu preciso ter estilo. E agora o senhor vem com essa. O que é mesmo estilo?

    – Estilo é o modo de fazer uma coisa. Cada um tem o seu.

    – Se cada um tem o seu, por que mamãe diz que eu… “preciso ter um”?

    – Sua mãe se refere a outro tipo de estilo. Quer que você se comporte bem.

    – Então estilo é bom comportamento?

    – Pelo contrário… Estilo é rebeldia – disse ele pensativamente.

    Alice ficou sem entender e resolveu mudar de assunto:

    – Posso lhe falar um pouquinho dos meus problemas?

    – Não tenho tempo para ouvir; estou escrevendo. Além disso, que problemas pode ter uma menininha como você?

    – Na verdade tenho um problema só, mas enorme. Eu até trocaria esse problemão por alguns problemas menores.

    – E qual é seu… grande problema? – quis saber o Escritor, imaginando se poderia tirar dali uma história.

    – Mudar de tamanho. Nunca ser muito tempo uma coisa só.

    – Fique tranquila, você não é a única. Esse é o problema de todo o mundo.

    – Isso não me faz sofrer menos. Nem todo o mundo aumenta ou diminui do mesmo jeito. Depende do… estilo de cada um.

    – O que você diz tem sentido, mas não muda as coisas. Você não é diferente dos outros, e nada do que me disser vai ser novidade.

    Desapontada, a menina resolveu ir embora. Não dava para conversar com alguém que só queria olhar para si mesmo e não tinha tempo de escutar os outros.

  • Karim, a alegria da feira

    Ele chega com cara de sono. Não está tão cedo assim, são quase onze da manhã. A feira já vai bem animada quando o garoto surge entre a barraca de flores e a primeira de frutas. Vem com a mãe e a irmã mais nova no carrinho de bebê.

    Karim está com o cabelo desarrumado. Parece que foi tirado da cama agorinha. Não reclama, não faz birra. Segue obediente ao lado da mãe. Olha ao redor e vê mais pernas e a beirada dos tabuleiros armados com frutas, legumes e tudo mais do que qualquer outra coisa. Seu campo de visão é restrito por sua altura de menino de seis anos.

    O sono é mais forte que sua curiosidade. Por isso segue comportado, sem explorar o mundo multicolorido e polifônico que o envolve. Caminha devagar quase desequilibrado, encostando de vez em quando a mão na perna da calça da mãe. Até que escuta seu nome ser gritado. Vira o rosto devagar, com um sorriso tímido. A mulher que vende bananas abre os braços para ele. A mãe sorri e dá um toque de leve no seu ombro para que vá até ela.

    A mulher sorri de orelha à orelha e o põe no seu colo. Karim dá um risinho tímido enquanto ela o enche de beijos. Pega uma banana e dá ao menino que, antes de aceitar, lança um olhar de consulta à mãe que abana a cabeça em aprovação. Karim não come mas segura firme a banana.

    A mulher circula com ele por trás das outras barracas de frutas. O menino é popular. A mãe o acompanha com o olhar. Pega Ana, sua irmã, e a segura no colo mostrando onde vai o irmão. Ela mexe no hijab da mãe que com carinho afasta sua mãozinha gorda do seu véu.

    Karim circular sempre no colo da vendedora de bananas. Mais mulheres sorriem e fazem festa para ele. A mãe acompanha e espera pacientemente que ele termine seu tour de afagos. Ela tem mais oque fazer e não veio à feira a passeio. Mas interrompe tudo por esse momento feliz. Para ela, para o filho e para as trabalhadoras da feira que todo sábado esperam a chegada dele. Karim, a alegria da feira.

  • A mão de pilão

    Era uma vez uma família que morava numa casa assombrada. Todas as noites apanhavam de um fantasma com uma mão de pilão. Cansados de tanto apanhar, de acordar todos os dias com as costas doendo, resolveram mudar-se.

    Contrataram um caminhão, puseram a mudança em cima, procurando não se esquecer de nada. O pai, a mãe, os filhos, cada um se encarregou de levar uma coisa. Quando o caminhão estava para sair, ainda no escuro da madrugada, ouviram o fantasma num canto:

    – A mão de pilão eu levo!

  • A Revelação dos Porquinhos da Índia

    Na casa da minha professora particular há dois porquinhos da índia. Eu não costumo ter muito contato com eles, eu apenas os via no Pet Shop. Os porquinhos da índia são pequenos roedores, mas são majestosos porque são fofos e lindinhos (e também são descolados: fazem de 10 a 12 sons diferentes!). Porém, o que descobri sobre eles vai te surpreender…

    Em uma conversa com a minha professora, dona dos porquinhos, ela me fez uma revelação chocante: os porquinhos da índia não são porcos e não são originários da Índia! Eu fiquei extremamente chocado e desacreditado. Como isso é possível? Como alguém pode chamar “porco” e não ser porco e chamar “da índia” sendo que não vem do país indiano?

    Fui pesquisar mais sobre o assunto. Descobri que “da índia” vem por causa da confusão dos portugueses que ao chegarem no Brasil acharam que estavam “na Índia”. Já o motivo de se chamarem “porquinhos” é por causa do som que eles fazem que parecem guinchos de porcos. Na verdade, os porquinhos da índia são originários da América do Sul, nos países Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e também são encontrados na bacia do Rio Amazonas, no Brasil. Inclusive, em certas regiões da América do Sul, há pessoas que comem a carne deles (que desnecessário!). Outra coisa que pesquisei é que o nome científico deles é Cavia Porcellus e seus ancestrais eram maiores que um furão.

    Pesquisei, por fim, como se chamam em outros idiomas e descobri que em inglês se fala “Guinea Pig”, em francês “Cochon D’Inde” e em espanhol “Cobaya ou Cuy” – o “Cuy” vem do barulho que eles produzem, mas na minha opinião devia ser “Guí” porque é muito mais parecido com o som!

    Com todas essas minhas pesquisas, refleti que não deveríamos chamar mais de “Porquinhos da índia”, mas sim “Porquinhos da América do Sul”, para ninguém nunca mais se confundir!

    Colaborou com este texto: Letícia Hyppólito, professora de Literatura

    Colaborou com este texto:
    Letícia Hyppólito, professora de Literatura*.

  • Memórias gravadas nas paredes

    As paredes de uma casa de infância raramente são apenas tijolos e tinta. Em Belford Roxo, onde o afeto era escasso e o ódio falava mais alto que os abraços, a literatura se fez presente para mim não na lombada de livros encadernados, mas no reboco. E, mais especificamente, na porta do banheiro.

    Acho que aquele era o refúgio do meu genitor, de quem à época ainda valia a pena chamar de pai. O lugar onde ele se trancava, acendia seus baseados e tentava fugir do peso da própria rotina. Foi no verso daquela porta que ele deixou registrado o seu manifesto, numa época em que ele e minha mãe ainda tentavam engrenar a família que resolveram formar. “Queria viajar mas não tinha dinheiro, fumei um baseado e viajei o dia inteiro”, dita como de Bob Marley, dividia o compensado de madeira com a altivez de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.”

    Eu, bem criança, sem nem saber direito o que era poesia, já me fascinava pela destreza daquelas letras pintadas no refúgio dele. Soavam como um enigma poético. Havia um ritmo ali, uma rota de fuga imaginária e uma tentativa de grandeza no meio de tanta desestrutura. Anos mais tarde, o novo marido da minha genitora raspou aquelas frases da madeira, tentando apagar o fantasma e os vestígios do homem de antes. Mas a literatura tem essa teimosia: depois que entra na cabeça, não há espátula ou lixa que remova. Eu já guardava cada palavra de memória.

    Pouco adiante, na porta de entrada da casa dos meus avós, a terceira sentença marcava o território: “Se sua estrela não brilha, não tente apagar a minha.” Muito provavelmente, obra do meu avô. O patriarca tinha o hábito quase ritualístico de culpar o oculto por qualquer fracasso pessoal. Se algo dava errado, não era imperícia ou desleixo; era “macumba” feita pelos outros. Afinal, jogar a responsabilidade para o mundo sempre foi mais confortável do que encarar as próprias falhas.

    Cresci cercada por essas inscrições de dor e fuga. Uma mistura surreal de brisa de banheiro, transcendência pessoal e defensiva de ditado popular.

    Hoje sei o que é poesia, mas aprendi a lê-la no lugar mais improvável: raspada do compensado de uma porta em Belford Roxo, gravada no meu coração e na minha mente para nunca mais sair.

  • O home e o neno

    Em novembro de 1957, nos cais de Ferrol, no norte da Espanha, um instante de dor humana pura se desenhou no ar frio da manhã. Uma mãe partia deixando para trás, seu marido, um filho e a vida inteira que conhecia, para seguir rumo a um oceano que prometia futuro, mas cobrava despedidas irreparáveis. Ali, entre malas gastas e lenços úmidos, o fotógrafo Manuel Ferrol ergueu discretamente uma câmera escondida sob o casaco. O que ele capturou não foi pose teatral, foi a alma aberta de uma despedida. A fotografia, mais tarde chamada “O home e o neno”, se tornaria um dos retratos mais comoventes do êxodo europeu do pós-guerra. Na imagem, o jovem pai, Ángel Calo Marcote, de vinte e nove anos, desaba em lágrimas ao lado do filho, Juan Jesús, de apenas oito. Diante deles, Josefina López, esposa, mãe, coração da casa, embarcava no Juan de Garay, rumo a Buenos Aires. Ela viajaria com a própria mãe e o irmão, juntando-se aos que buscavam, do outro lado do Atlântico, trabalho, dignidade e esperança. Para Ángel e Juan Jesús, aquele adeus era definitivo. A fotografia eterniza esse instante, o segundo exato em que uma família se divide, não por falta de amor, mas pela violência silenciosa da necessidade. A história não registra números, mas a vida, guarda rostos, vozes, cartas tardias e ausências que nunca deixaram de doer. Para muitos, a migração não era viagem, era ruptura. O oceano tornava-se parede, o tempo, inimigo. As casas ficavam cheias de silêncio. As fotografias, de fantasmas. A Espanha dos anos 1950 ainda vivia sob a sombra severa da ditadura de Franco. Partir era uma ferida, mas ficar também era. Ferrol e sua câmera captaram não apenas o drama íntimo de uma família despedaçada, mas o retrato de um país aprisionado pela pobreza, pela censura, pela falta de horizontes. O nome do fotógrafo só veio à luz depois de 1975, quando o país voltou a respirar democracia. A composição é simples, e isso é que torna a fotografia tão poderosa, ela fala de migração não como estatística, mas como fratura do cotidiano, como amor posto à prova pela distância. Para Ángel e Juan Jesús, a partida de Josefina significava perder o ritmo da vida em comum. As refeições, os aniversários, a partilha dos dias, tudo se fragmentava no instante daquela fotografia. O que Ferrol capturou foi o nascimento dessa ausência.

    O legado de “O home e o neno” tornou-se símbolo do que fica, o vazio, o peso, a coragem silenciosa. Ferrol fotografou pessoas comuns pagando o preço extraordinário da mudança. Ele não roubou aquela dor, apenas testemunhou sua existência. E talvez seja esse o motivo pelo qual ditaduras temem fotografias, porque a verdade nelas escapa ao controle. O retrato lembra que a migração não é apenas jornada de quem parte, é também o luto silencioso de quem não tem escolha, senão ficar. “O home e o neno” não é apenas documento histórico, é um poema de perda e coragem.

  • O trapezista

    No ponto mais alto do andaime lateral, aonde chegou depois de subir 42 degraus com ar de vitória e vestindo a calça apertada de malha branca, o trapezista faz uma reverência ao público, que aplaude mais por medo do que por entusiasmo, com a emoção presa na garganta. “É muito alto, ele não vai conseguir”, sussurravam os espectadores, a boca seca de tanta aflição. Era o número final do espetáculo, o mais aguardado, o fecho perfeito para uma noite de encantamento.

    Som de tambores. Tensão. Suspense. Ninguém respira na plateia.

    O trapezista prepara o salto. A audiência reza em silêncio, as mãos postas. “Não tem rede de proteção, olha o perigo!”, um espectador notou. O que estava ao lado dele confirmou: “Não tem mesmo, o cara é corajoso. Meu Deus!”

    O trapezista gruda as duas mãos na barra do aparelho e lança o corpo no ar. Um oh! em uníssono explodiu por toda a arena. Parecia voar o homem de calça apertada de malha branca, indo e vindo como uma folha solta no ar sem peso algum. A cena era arrebatadora. “Agora ele vai trocar o aparelho e dar o triplo salto mortal, tá vendo o trapézio vazio que vem pelo lado contrário? Agora!”, uma senhora abraçou a neta e abafou o grito.

    Vinte metros abaixo, com um som seco, o corpo do atleta se choca contra o chão de concreto da área central do picadeiro. A malha branca tornou-se vermelha. Sangue por todo lado. Novamente o oh! em uníssono na arena. “Um médico, chamem um médico, tem um médico na plateia?”, gritou o assistente de palco. “Aqui, eu sou médico”, respondeu o senhor grisalho, correndo até o centro do picadeiro. O homem se debruça sobre o trapezista e constata o que todos suspeitavam. Olha em volta e faz o gesto de “acabou”, movimentando as mãos do centro para os lados, uma sobre a outra.

    A plateia, como se tivesse ensaiado a reação, soltou o ar retido nos pulmões e explodiu em aplausos e em urros de puro deslumbramento. O espetáculo foi um sucesso retumbante. Que noite, senhoras e senhores, que noite!

  • A Subversão de um Insone

    Desde criança, Armando sente verdadeiro fascínio pelas noites. Segundo ele, é de noite que sua mente consegue trabalhar mais eficaz e diligentemente. Independentemente da estação do ano e do lugar onde se encontra, noites quentes, frias, chuvosas e estreladas sempre despertam em seu interior o gozo pela vida e a curiosidade pelo desconhecido. Mais do que uma contemplação serena do universo e de seus mistérios, Armando embarca em excitantes e intermináveis aventuras pelo imponderável e pelo inexplorado.

    Talvez você, cara leitora, identifique-se com o protagonista deste relato. Talvez você apenas conheça alguma pessoa que não desfrute de um sono bem regulado. Mas nós dois sabemos o quão desafiante é conciliar o apreço por uma noite em claro e a necessidade de um trabalho diuturno. Mesmo aqueles que não sofrem de insônia já experimentaram o acre sabor de uma noite maldormida, ao serem enxotados da cama por um sádico e ruidoso despertador. É claro que nosso improvável herói não sacrifica, intencionalmente, um dia de trabalho pelo indescritível prazer de ver o sol nascer e a cidade acordar. Se diversas tarefas laborais acumulam-se sobre sua mesa e cobranças por seu lento e sofrível desempenho fazem-se ouvir da boca de seu chefe, ressalvo que Armando sempre tentou ser comprometido com seu trabalho. Não sou psicanalista, mas, a meu ver, essa relação caótica e subversiva com a noite é que coloca quase tudo a perder.

    Subversiva, sim! Não que Armando queira derrubar a ordem política vigente. Sujeito parcamente politizado, avesso a discussões ideológicas, nosso amigo nunca pensou em alternativas ao que lhe dizem ser o correto e o natural. No entanto, sustento que a subversão que sua insônia carrega é de um tipo muito mais sutil e engenhoso. Enquanto a maioria recobra suas energias para a jornada de trabalho seguinte, Armando teima, ainda que inconscientemente, em não se submeter aos ditames de um tirano e mordaz relógio. Para nós, acostumados a orientar nossos feitos e nossos desejos conforme uma só temporalidade, tal resistência pode parecer fútil e pueril. Mas, até mesmo Cronos, o titã grego do tempo, admirar-se-ia com o simbolismo e a resiliência de nosso nobre guerreiro.

    A noite foi feita para dormir, Armandinho! – advertia-lhe sua avó, para quem as esquisitices de seu neto eram apenas coisas de gente jovem.

    Armando tornou-se adulto, amadureceu como pessoa, empregou-se num escritório de contabilidade, mas essa singular esquisitice continuou a fazer parte de seu dia a dia. Só que, diferentemente de quando era jovem, nosso estimado subversivo passou a usar as horas disponíveis para enriquecer sua criatividade. Nutrindo-se do silêncio e da beleza noturnos, Armando começou a dedicar sua insônia ao deleite que somente a pintura é capaz de provocar-lhe. Até tentou trabalhar com escultura, mas os vizinhos reclamaram do barulho e seu verdadeiro talento direcionou-o para o pincel e as tintas. É naqueles momentos de solidão, quando seus monstros mais indomáveis e cruéis ameaçam atazanar sua existência, que ele se entrega de corpo e alma aos seus quadros. Como numa mágica transmutação, Armando esquece a aridez patrimonial dos endinheirados clientes de seu escritório e mergulha na imensidão de possibilidades que somente sua imaginação é capaz de criar.

    De dia, trabalho por obrigação; de noite, trabalho por prazer – costuma dizer Armando, em vãs tentativas de justificar-se, moralmente, perante olhares de incompreensão e de hostilidade.

    Não, minha cara senhora… Não incito ninguém à rebelião! Não tenho a pretensão de causar tumultos e desordens, visto que os tempos são difíceis e requerem prudência de todos nós. Mas o caso que aqui lhe conto parece ensinar-nos que somos muito mais potentes do que aparentamos ser. É verdade que estamos muito aquém de uma pretensiosa e arrogante onipotência. Tendo a acreditar que a maior parte de nossos sonhos esfacela-se contra a dureza de nossas existências. Mesmo assim, de seu antigo sofrimento crônico, Armando extraiu a seiva que enriquece seu ser e que fornece esperança a uma vida até então sem propósito. Nosso valente pintor complementa-se com sua arte, expressando por meio dela suas dúvidas e suas inquietações.

    Claro está que ele continua precisando cumprir uma estafante e modorrenta carga horária no escritório. Mas as descobertas que apenas as noites permitem-lhe fazer servem como um anteparo contra a frieza de uma vida dedicada, exclusivamente, à sobrevivência. Diferentemente de tantos por aí, Armando cria, reflete, pergunta, desafia e sorri. Suficiente? Creio que não! Porém, enquanto estiver sozinho, o que mais poderá ele fazer?

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