Crônicas Cariocas

  • Poema #83: A Queda

    Não digo que estou
    no fundo do poço
    porque este não é mensurável
    e sempre se pode cair mais ainda.
    Mas estou numa queda livre
    e vertiginosa.
    A roupa do passado não me serve,
    o presente é roto
    e estou sem vestes para o futuro.
    E numa queda os laços vão-se rompendo,
    se dissolvendo,
    desagregando-se.
    Nenhum laço segura um homem
    que cai por muito tempo.
    A dignidade é uma palavra para pessoas de pé.
    Na horizontal os conceitos são outros.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Percepção

    Ela enxerga poesia, vê histórias em todos os lugares. Se viaja, escreve mentalmente histórias que jamais tomarão forma na tela ou no papel. Quanto mais longa a viagem, mais tempo em silêncio com seus pensamentos. Entretanto, nunca precisou de uma viagem física para sair do lugar, percorrer mundos, encontrar pessoas e ouvir e falar palavras que apenas ela conhecia, que apenas a ela eram ditas.

    Este é o ar que ela respira: há poesia no contraste de cores inesperado, na casa à beira da estrada, na flor que enfeita o jardim, na aventureira bicicleta que desafia o perigo, na placa informando que saíram de Oizeiro e entraram em Tororomba.

    Há história na venda com balança verde e uma variedade de cachaça sem fim. Há história no homem mestiço de boné que se encosta preguiçosamente na manhã abafada de sábado. Há rima nas casas caprichosamente pintadas e iguais.

    Onde a estrada vai dar?

    Já existem o tempo, o espaço, a gente.

    A história se escreve no caminho.

  • Por que os ataques de cães estão cada vez mais mortais?

    A morte recente de uma veterinária, causada pelo ataque de um pastor-belga-malinois da Polícia do Senado, reacendeu o debate sobre prevenção. O que está por trás de tantas mortes? Descuido, excesso de confiança, irresponsabilidade ou falta de conhecimento? Provavelmente, uma combinação de todos esses fatores.

    Os dados são alarmantes. A forma como a sociedade passou a se relacionar com os cães tem contribuído para essas tragédias. Há um exagero em nome de uma convivência excessivamente humanizada. E não falo de coisas banais, como vestir os cães com roupinhas, deixá-los dormir na cama dos donos ou permitir que subam no sofá. Falo de ignorar as necessidades, os limites e as características próprias da espécie.

    Os cães seguem uma lógica própria. Mesmo inseridos em nossas famílias, conservam traços ancestrais. Negar isso não os torna mais humanos nem mais adaptados. Apenas aumenta a distância entre o que eles são e o que esperamos que sejam.

    Nas minhas aulas e mentorias, falo sobre a importância de respeitar cada fase da vida do cão. Desde filhote, quando, não raro, ele é impedido de experimentar plenamente o mundo, muitas vezes em razão do ciclo vacinal — e aqui não faço juízo de valor sobre a importância das vacinas. É preciso, porém, ponderar e buscar equilíbrio durante essa fase.

    O cão não é um ser totalmente imprevisível: ele pode começar a apresentar sinais de alterações comportamentais desde cedo. Quando ignoramos esses sinais, corremos riscos reais e, em algumas situações, isso pode ser fatal.

    Existem também outros aspectos. Não é difícil encontrar pessoas que acreditam piamente que podem mudar o comportamento de um cão apenas oferecendo mais amor. O cuidado sem conhecimento pode produzir conflitos e tornar o animal confuso. Além disso, a hierarquia não deve ser demonizada em nome desse amor.

    Enquanto isso, políticas públicas continuam sendo criadas sob pressão, após tragédias e especulações midiáticas. Em vez de investir em educação, fiscalização, criação responsável, formação técnica e prevenção, escolhe-se o caminho mais fácil: culpar o animal, proibir raças e esperar que nenhuma morte volte a acontecer.

  • Era só uma bicicleta

    Era só uma bicicleta!

    E Cláudio Rafael não havia roubado nada! Apenas saiu com a bicicleta de sua irmã!

    Ainda que tivesse acontecido um roubo, nada justifica a cena de selvageria que ocorreu em Copacabana.

    Pior, a cena de espancamento e linchamento de Cláudio Rafael escancara o quão estamos doentes! Que sociedade é essa que mata?

    Que sociedade é esta que banaliza a morte?

    Na fúria do dia a dia, vamos perdendo um pouco de nós mesmos.

    Na fúria do dia a dia, vamos nos afastando daquilo a que ainda chamamos humanidade!

    Na fúria do dia a dia, banalizamos a própria vida…

    A sociedade do espetáculo entrega a todo momento cenas grotescas de descomposturas gratuitas, violência verbal, agressão física, feminicídio… um sem-fim de comportamentos gravados e visualizados por milhões.

    Um dos agressores de Cláudio fez questão de filmar a horrenda ação, como se fosse paladino da justiça resolvendo as misérias históricas do país.

    Era só uma bicicleta!

    E uma vida foi tirada pela ignorância, pela barbárie, pela total falta de noção!

    Cláudio Rafael saiu com a bicicleta da irmã. Sentiria o vento na orla da praia? Não se sabe… Olharia para as ruas e cenários aos quais estava acostumado e seguiria para um encontro, uma conversa?

    Não se sabe… Olharia para as singularidades de Copacabana mais uma vez e teria um bom pensamento? Não se sabe…

    O que se sabe é que a brutalidade, mais uma vez, prevaleceu sobre o bom senso.

    A bicicleta?

    O Objeto da discussão e da morte de um inocente ficou jogada na calçada, alheia à fúria dos homens…

  • Bolero de Tecalitlán

    Bolero de Tecalitlán, ao pé do ouvido em pleno 2026, soa como uma serenata de amor cantada à janela de uma casa que já não existe. Ou existe? existe: passou apenas a caber na tela de um smartphone. Informes contemporâneos.

    A linguagem sempre como logradouro de encontros.

    Disseram-nos que:

    • …a globalização tornaria o mundo uniforme;
    • …a tecnologia achataria os afetos;
    • …algoritmos substituiriam as coincidências.
    (…)

    Descubro, porém, precisamente o oposto.

    Recebo um link do Spotify como quem recebe um embrulho de papel pardo amarrado com barbante. Abro-o devagar. Em minhas mãos, deixa de ser um pacote eletrônico e transforma-se num vinil antigo. Antiquíssimo, desses que nos deixam com a respiração em sobressalto, de tão delicados. Assopro a poeira:

    — Fuuuuuuuuuuuh… — ergo, assim, o véu fino que o tempo depositou em partículas. Desnudo a capa de papelão, que reaparece inteira, intacta, intensa, como se houvesse esperado décadas por aquele exato gesto meu.

    O disco começa a girar, sem agulha alguma.

    Enquanto Mariachi Vargas de Tecalitlán invade madrugadas, planilhas, quantitativos e e-mails que insistem em não terminar, descubro o LP virtual realizando o que minhas melhores canzoni italiane não conseguiram: devolve-me um tempo que nunca deixou de existir, esquecido sob camadas e camadas de urgência.

    Não é nostalgia.

    É outra coisa.

    É leveza. (Fuuuuuuuuuuuuuuh)

    Há dias em que me sento para tomar um café com personagens capazes de encontrar delicadezas onde o resto do mundo enxerga apenas rotina. Faço isso com plantas, veja só – são excelentes ouvintes, e ainda nos dão ‘bom dia’ com o perfume de flores coloridas, não só na primavera. Acredito piamente numa arqueologia dos sentimentos, não para reanimar o passado — dar-lhe novamente anima, alma —, mas para perceber que uma ou outra beleza jamais fenece. Permanece de outra forma: silenciosa, aguardando quem a escute.

    Já com o disco agarrando, de tanto tocar boleros, baladas y bachatas, um amigo interrompe meu devaneio para perguntar se conheço determinado perfil no Instagram.

    Paro tudo.

    ***

    Abro a página.

    O retrato em miniatura que acompanha o @não me diz absolutamente nada.

    Depois de alguns segundos, recordo-me de tê-lo visto uma única vez, de passagem, num evento qualquer. Não trocamos palavras, acho que sequer olhares. Restou apenas a matemática contemporânea: seguimos um ao outro. Ou, dizendo de forma mais honesta, aumentamos mutuamente nossos seguidores (intuito subliminar de qualquer evento hoje em dia).

    Contei isso ao meu amigo.

    Ele sorriu e perguntou:

    — Então não passo apenas de mais um número?

    A pergunta me atravessou como poucas.

    Dias antes, folheando as aventuras de Arsène Lupin, me pego filosofando sobre a diferença brutal entre o mundo de ontem e o de hoje. Durante muito tempo e nem faz tanto tempo assim , apresentávamos desconhecidos por palavras.

    “É gentil.”

    “Tem os olhos curiosos.”

    “Ri com o corpo inteiro.”

    “Escreve cartas.”

    “Não sabemos de quem se trata porque não se pode ler nos documentos ausentes das vestimentas, o desmaiado infeliz”

    Hoje, apresentamo-nos por fotografias. Ou, pior, por avatares, essas ficções que criamos com filtros sobre nossos próprios reflexos. Superamos, em engenhosidade, os casamentos arranjados das aristocracias clássicas, cujos noivos tomavam por esposas pinturas guardadas em relicários.

    Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras… não consigo acreditar nisso, nem tendo escolhido, como ofício primeiro, a arquitetura (idioma gráfico em que tantas perguntas se respondem com um simples “quer que eu desenhe?”). Não; sou das letras, por meritocracia já se vão quase vinte anos só desta coluna.

    Uma fotografia congela; mil palavras ou trilhões delas continuam a respirar, a sorrir.

    — a sorrir eu pretendo levar, a vida…

    Não me lembro do aroma das coisas e gestos antigos com essas notas contemporâneas de superficialidade. Vivemos a era narcísica por excelência: basta nos depararmos com uma poça d’água para que contemplemos nossos próprios reflexos e, no mesmo instante, eternizemos nossos rostos desfigurados nos feeds de vidas cada vez menos privadas. A superfície nunca soube apresentar ninguém…

    Acredito que seja isso que falta à contemporaneidade:

    Descrições.

    letrinhas.

    As pequenas apresentações escritas que, durante séculos, antecederam qualquer encontro. Cartas manuscritas. Os artesanatos feitos à mão, com assinaturas.

    Somos a geração que mais produz imagens e em altíssima resolução, diga-se de passagem …, mas desaprendemos a apresentar e a ler pessoas.

    Eu sou das pessoas. Sou dos encontros sem pressa. Sou das cartas. Das serenatas. Dos recadinhos à mão. Dos cafés. Dos vinhos.

    Me toca profundamente quando alguém escolhe uma playlist em vez de um emoji. Mais profundo ainda quando se envia um disco inteiro, e não apenas uma música. Dou por mim pesquisando vinis pelos eBays da vida, lembrando meu pai sentado na sala, ouvindo os dele.

    Há uma delicadeza quase revolucionária nisso. Em resistir a ser humano na era em que tudo é automatizado.

    Enquanto escrevo, testemunho um caso de affair improvável: a bandeira italiana mistura-se, verde no branco, branco no vermelho e vermelho no verde mexicanos. Sem conflitos, só a pura e velha simbiose. Um bolero que atravessa oceanos, barreiras culturais e temporais, atraca no Rio de Janeiro através de um aplicativo sueco e, sem pedir licença, sela um encontro entre escritores ítalo-brasileiros que perseveram na crença de que as melhores coisas ainda são feitas com o coração.

    Quem sabe a verdadeira globalização não tenha sido a uniformização do mundo, mas a possibilidade de um gesto intimamente humano atravessar continentes sem perder sua brandura.

    No fim, seguimos buscando o que desejavam os que vieram antes (de nós):

    • os tons das animadas canções mexicanas
    • o ar blasé repleto de delicadezas dos escritores franceses
    • o conciso poético de arquitetos alemães
    • a sabedoria de vida dos artistas italianos
    • a paixão traduzida pelo olhar atento dos/das cronistas brasileiros/as e todos os apaixonados que vieram antes de nós

    Ansiando por uma coisa, apenas:

    Porque as palavras continuam sendo o lugar mais generoso onde um ser humano pode apresentar um outro ao mundo.

  • REINO ANIMAL

    A primeira vez que Joana trouxe um sapo para casa foi um alvoroço. A família não sabia como agir, a menina tinha só cinco anos e uma afinidade especial com os bichos. Até quis levar o sapo para dormir com ela. A muito custo, conseguiram convencê-la de que o sapo precisava voltar para casa dele a fim de se despedir dos amigos.

    Depois do sapo, foi um pintinho da feira, que acabou virando frango e morreu de estresse. Um jabuti habitou a banheira da casa apenas uma semana, provavelmente morto por engasgo com um pedaço de couve. Até uns micos que passaram a frequentar a janela da casa, atraídos pelas bananas que Joana ofertava, ela quis domesticar. Terminou ganhando uma Yorkshire, toda branquinha, que levava escondida para a escola na mochila. Recebeu o nome de Algodão e viveu quase dez anos, falecendo de problemas respiratórios.

    Adulta, morando sozinha, desenvolveu uma fobia de convívio social. A humanidade para ela não tinha o menor sentido. A natureza e os bichos eram seu derradeiro conforto, focada no resgate, reabilitação e adoção de animais. Joana não podia ver nenhum animal abandonado, que cismava de adotar. Para amenizar a saudade da Algodão, pegou um vira-lata, misturado com poodle, com pelos na região do focinho. Deu-lhe o nome de Jânio.

    O primeiro gato adotado foi o Cazuza, um siamês magrelo, quase esquelético, mas uma simpatia. Festivo até demais para um felino. Sempre carinhoso, a não ser quando tinha acessos de tosse. Logo a seguir, veio a Alcione, gata de pelagem marrom, sem pedigree, traumatizada e arredia. Desconfiada com estranhos e de hábitos noturnos, interagia pouco, sempre escondida pelos cantos da casa. Devia ter sofrido maus tratos antes de ser resgatada por Joana. Alcione vivia às turras com Cazuza, mas não se separavam. Adoravam ficar se implicando. Alcione, mais encorpada, levava vantagem.

    Jânio não se misturava. Sua missão era vigiar a porta, atento a quem entrava e saía. Não era de latir. Um cão silencioso e observador, talvez por isso se desse tão bem com os gatos.

    A chegada de Agnaldo causou uma certa surpresa. Um periquito-australiano que aparecera do nada na janela. No início, temeroso, foi aos poucos se enturmando e virando hóspede. Atrevido, não deixava em paz os gatos e dava voos rasantes pela casa. Joana era contra gaiolas, achava que todas as aves deviam voar livres. Agnaldo tinha a sua gaiola com a lateral totalmente aberta. Na verdade, só entrava para se alimentar e matar a sede. Tinha o estranho hábito de dormir com Jânio.

    O desafio maior foi com Eurico, o hamster abandonado. Quando o achou escondido num bueiro, largado à própria sorte, Joana não pôde resistir e o levou para casa. Todos os moradores o receberam com afeto e curiosidade. Cazuza cuidou de sua higiene e Alcione, com seu instinto materno, adotou o pequeno roedor. Jânio apenas observava e Agnaldo nunca chegava perto. Talvez estivesse prevendo o que viria a seguir.

    Eurico foi crescendo e se transformou. Endiabrado, corria atrás dos gatos e do Jânio para morder. Nem o Agnaldo escapava. Sonso, toda vez que Joana chegava em casa, o danado fingia se comportar.

    Ainda assim, aquele lugar era bom de se viver. Joana e seus amigos bichos, família reunida e feliz. Ela não mostrava nenhuma surpresa, já que todos ali, diferente dos seres humanos, comportavam-se como animais. Cada um tinha a sua história de abandono, mas nos olhos de Joana encontravam um porto seguro. Ela costumava dizer que humanos perdiam tempo tentando ensinar os animais, quando deveriam sentar e aprender com eles.

    Até que Joana perdeu o controle. A coisa toda tomou ares de minizoológico: pelo apartamento agora circulavam mais oito gatos,
    iguanas, um casal de furões, uma chinchila sem rabo, dez cágados e uma cacatua com o bico quebrado.

    Ninguém mais se entendia. Um dos gatos, recém-chegado, comeu o hamster. Eurico saiu pela janela e nunca mais voltou. O casal de furões cismou com Jânio. A chinchila não parava de dar guinchos agudos de meia em meia hora. Podia marcar no relógio. Talvez estivesse sentindo dores ou por implicância mesmo. Chinchilas são assim, meio conflituosas. Joana não tinha mais sossego. A cacatua, com seu bico partido, definhava por não ter como se alimentar. Os cágados a tudo assistiam passivamente, como todo bom cágado. Com aquela confusão, Jânio passou a latir para todos que passavam pelo andar. O síndico foi chamado. Os vizinhos reclamavam do barulho e do mau cheiro.

    O siamês Cazuza, angustiado, tentou saltar da janela e ficou preso o parapeito. Alcione miava em desespero. O Corpo de Bombeiros foi acionado e Joana se juntou a eles, se apresentando como ativista dos direitos dos animais. Os moradores ensaiaram uma vaia e o síndico ameaçou denunciá-la. Acuada, Joana tentou se justificar: até Noé tivera problemas com o excesso de bichos na arca.

    Estava cansada. Chegou à conclusão de que, tanto quanto a humanidade, o reino animal ia pelo mesmo caminho. Más influências, não havia dúvida.

  • Token inválido

    O infarto foi fulminante.

    Quatro tentativas de reanimação.

    Nada.

    Resistiu bravamente até a última atualização.

    Merecia um fim digno.

    Logo ao chegar à recepção, um rapaz o atendeu, solícito.

    — Fique tranquilo: aqui, tudo tem solução.

    — O senhor deseja fazer a migração completa?

    Severo aceitou o pacote funerário.

    Os universitários iniciaram o ritual de reencarnação.

    Transplantada a memória.

    O outro, novo, reluzente, exibiu seu sorriso de maçã.

    Faltou a identidade.

    — Agora é só atualizar o login dos bancos.

    — Só?

    Severo entrou no aplicativo.

    Negado: Valide o token pelo Internet banking.

    Perfeito! Tentou acessar o site.

    Negado: Para iniciar o acesso valide pelo token no celular.

    Arrepiou…

    Tentou o atendimento no chat.

    Uma voz metálica de boas-vindas:

    — Estamos com muito tráfego no momento, o Sr. é o 12º na lista de espera, favor aguardar que logo mais vamos atendê-lo.

    O som aumenta para as promoções de intervalo, até que outra voz entra na linha.

    — Sou Larissa e vou prosseguir com seu atendimento. Conte em poucas palavras como podemos ajudá-lo.

    Voltou ao ponto de partida.

    — Troquei de celular. Preciso validar o token no site.

    Mas o site pede o token do celular.

    — Não entendi: Reformule sua pergunta.

    — Validar o token.

    Três pontinhos ondulantes, lá vem a resposta:

    — Para validar o token, é preciso fazer uma transferência inicial no app.

    — Obrigada pelo contato. Avalie sua satisfação com meu atendimento.

    Severo, resiliente, volta ao app.

    Acesso negado — token inválido. Necessário validar pelo Internet banking.

    Uma lágrima surgiu.

    O falecido nunca tinha duvidado que eu era eu.

  • Uma história de gatos e ratos

    — Verônica! Finalmente resolveu aparecer depois de tanto tempo. Ainda se lembra do caminho de casa? Bem, acho que essa não é mais sua casa.

    — Quarenta e sete dias.

    —Você não atendia meus telefonemas…

    — Não quero falar sobre isso agora. Passei aqui porque preciso pegar umas coisas. Rafael, você tá molhado, pingando. Sai, tenho uma reunião de trabalho daqui a pouco.

    — Fiquei o dia todo na piscina. A água me faz bem, me purifica.

    Como estamos longe do mar, tenho de me virar com a piscina mesmo. Ah, eles começaram a reprisar aquela novela que você fez… Queda livre, certo?

    — Pois é, eu saio logo. Morro afogada por volta do capítulo 50. Foi horrível gravar aquela cena.

    Ao contrário de você, não tenho essa paixão toda por água. E o Tarantino tá por aí? Saudade dele…

    — Sei lá. Esse gato anda tão esquisito. Passa o dia todo enfurnado em algum buraco. E deu pra sair por aí. Às vezes, fica dias fora de casa. Comportamento estranho. Será que tá sentindo sua falta? Mas pega logo o que quer e se manda.

    — Rafael, você voltou a beber?

    — Voltei, deu pra perceber? Na verdade, nunca parei, minha querida.

    — A gente devia pensar em vender essa casa. Tem um amigo da minha mãe que é corretor…

    — Aqui é tão isolado, não é o que você vivia dizendo? O lugar não é valorizado, é tudo longe. Até pra comprar pão é preciso pegar o carro. E o que mais tem por aqui é imóvel vazio. Vamos ser realistas, Verônica.

    — Sem contrato na TV, sem trabalho no teatro. Tô filmando um curta. O fato é que preciso de grana. Minhas economias vão acabar…

    E você já arranjou alguma coisa?

    — Isso não é da sua conta.

    — Tá namorando? Arrumou alguém? Será que alguma mulher vai entrar por aquela porta a qualquer momento?

    — Isso também não é da sua conta.

    — Mas então, a gente precisa vender essa casa. Cada um pega a sua parte, vamos resolver logo essa situação.

    — Você já viu o sol que está lá fora? Não quero falar de negócios num dia como hoje.

    — Olha, Rafael, eu…

    Verônica se preparava para ir embora quando Tarantino surgiu na janela da sala. Agora tingidos de vermelho, os pelos brancos ao redor da boca do felino conferiam-lhe um aspecto soturno.

    Eriçando o corpo esguio e produzindo ruídos esganiçados, o bicho aproximou-se de Verônica e atirou aos pés dela o rato morto que trazia na boca.

  • Seria a eternidade um mineral?

    Quem sabe a imortalidade seja um mineral formado por átomos de carbono puro dispostos em uma estrutura cristalina cúbica.

    Nosso inconsciente não acredita na própria morte pois não possui nenhum registro psíquico ou representação para ela, e se comporta como se fosse imortal. Não queremos papo com a finitude, ponto e basta! É ao testemunhar a morte de alguém querido que somos forçados a confrontar a realidade da perda. Mas nem isto abala a invulnerabilidade do nosso desconhecido e destemido inconsciente.

    O pobre ego deve morrer de inveja deste ‘sujeito’ empoderado e persistente que aparece nos nossos sonhos e fantasias, nos lapsos de linguagem, nos chistes e sintomas, manifestando de forma disfarçada nossos desejos e memórias reprimidas, sendo o grande reservatório das pulsões e conflitos psíquicos que nos moldam.

    Me debruçando sobre Eros, a vida, ao invés de Tânatos, a morte, leio as manchetes virtuais. Uma notícia cativou meu interesse. Rumino entre cinzas e diamantes. Regurgito e novamente mastigo. Cogito intimamente: Será o ato de mineralizar-se (mesmo que o desejo nem seja do próprio) uma possibilidade lustrosa de eternizar-se?

    De onde virá esse desejo posto ou póstumo, de transformar-se em diamante? Esse desejo de perpetuar-se como substância sólida, apto de ser objeto de toque e posse, perfilado como adorno sobre uma bonita prateleira, trancafiado numa gaveta para não ser furtado ou até mesmo pendurado no pescoço ou enfiado nos dedos. Melhor não seria expandir-se como matéria gasosa em constante movimento aleatório, sem forma nem volume definidos? No fim das contas, já não estaria sua alma como Éter elevada a um elemento puro do céu e muito bem guardada dentro do peito?

    Não importa. Afinal desejo é de cada um. Mesmo um diamante, a substância mais dura conhecida na face da terra, possui seus pontos fracos. Sua imagem reluzente pode sofrer arranhões e uma pancada certeira te fratura em cheio. Caso tenha a rara oportunidade de tê-los em mãos, muito cuidado ao manuseá-los!

    Diamantes são formados a partir de calor e pressão e podem ser produzidos artificialmente a partir de cinzas humanas, num processo complexo e caríssimo. Para poucos! Do carbono contido nas cinzas, cria-se um simulacro de uma joia que será ofertada como um presente precioso.

    Os diamantes dobram os raios de luz que entram na pedra, refletem suas facetas internas e retornam à superfície saindo como brilho intenso, para tanto, o corte é essencial. Um diamante bruto quase não brilha, a lapidação que o transforma.

    Debruçar sobre cinzas e diamantes me fez recordar de amor e transferência, do agalma fálico (este adorno raro e precioso) que se supõe escondido dentro de uma pessoa, tornando-a desejável, que aponta para a fantasia de completude e a busca por um objeto que garanta poder e valor.

    Ao invés de diamantes poderíamos desejar nos transformar em talco, o mais macio dos minerais, num abundante quartzo ou no simples feldspato… Não importa. O que insiste é o apego humano de ‘re’ existir a qualquer preço!

    E para a nano parte da população que ri dos pobres mortais, diamantes são singelos demais, o capricho desejado será pela extravagância de tornar-se uma Jade Imperial, de mil vezes maior valor ou melhor ainda, perpetuar-se como numa gigante safira “Estrela da Terra Pura” . Alhures, estará sempre lá idealizado, o impagável, o “Diamante da Esperança”.

    Para nosso alento e para os milhões de humanos que vivem ainda abaixo da linha abissal sempre restará a alegria de ser lembrado pelas estrelinhas no céu.

  • Manifesto

    Confesso: eu era indiferente.

    Simplesmente não os notava. Não detestava, nem amava. Eles eram transparentes para mim. Daqueles de quem se diz: nem cheiram, nem fedem.

    Foi assim por dois terços dos meus dias. E nem queiram saber quantos foram. Centenas.

    Não procurei terapia, nem explicações.

    Até que aconteceu.

    Assim, sem me preparar, pensar ou conjecturar, um belo dia eu me apaixonei!

    Paixão de deixar boba. Olhar nos olhos, admirar as nuances, o chamego, o jeitinho, a esperteza. 

    E, como toda paixão, essa também me trouxe dores. Sobressaltos, temores e uma saudade preocupada sempre que precisamos nos separar por algum motivo.

    Agora, quando meus dias estão cada vez mais acumulados, eu não merecia passar por tamanho desassossego: o medo de que ela incomode, a preocupação com reclamações e essa incômoda sensação de impotência diante das regras do mundo.

    Só me resta rezar.

    Recorrer aos santos protetores da boa convivência, da tolerância e da paciência entre vizinhos.

    E pedir a Nossa Senhora dos Gatinhos que proteja a minha querida.

    Nem eu, nem ela merecemos tanta ojeriza. Beira a desprezo mesmo. 

    Deixem que ela contemple o condomínio de vez em quando, sob meus olhos atentos. Não lhe tirem a ilusão de que algum dia ainda será uma grande caçadora, embora os pardais, até hoje, continuem levando larga vantagem.

    As mordidinhas na grama são digestivas e sequer fazem diferença no desenho do jardim.

    Ela já é uma senhora. Tem suas manias, seus hábitos e uma dignidade felina que não admite discussão.

    Não a olhem como uma ameaça.

    Não transformem cada passeio numa operação de guerra.

    Tenham um pouquinho de paciência conosco.

    Eu, que passei tantos anos sem compreender o fascínio que esses bichos exercem sobre as pessoas, hoje me vejo aqui, completamente rendida.

    Portanto, faço este apelo público, sentimental e talvez um pouco exagerado:

    Por favor, amem a minha gata Felícia! 

    🌷

  • Sexo e futebol

    Segundo pesquisa feita na Inglaterra, os homens preferem o futebol ao sexo. Entre pernas cabeludas correndo num campo e pernas depiladas movendo-se sobre um colchão, eles preferem as primeiras.

    Isso deixa intrigados sexólogos, antropólogos, terapeutas comportamentais, que não conseguem entender como se pode trocar, por exemplo, um orgasmo por um grito de gol. Ou os pequenos carinhos que antecedem o ato sexual, pelos gritos obscenos com que se xinga o juiz.

    Alguém com veia poética poderá dizer que o grito de gol é um orgasmo da alma. Ou que a ofensa à mãe do juiz expressa o impulso edipiano de valorizar, por antítese, a própria mãe. Há muitos caminhos que aproximam, pelo menos no reino da metáfora, sexo e futebol. Talvez por isso mesmo seja intrigante valorizar-se um em detrimento do outro.

    A explicação certamente se deve ao que chamam de “mística”. Algumas correntes tântricas, pelo que sei, consideram o ato sexual uma experiência transcendente. Mas isso não se compara ao fervor religioso com que o torcedor cultua a camisa do seu clube.

    Flamengo, Botafogo, Corinthians e tantos outros não são apenas ajuntamentos de homens jogando bola. São credos em função dos quais pequenas multidões se unificam e por eles gritam, sonham, choram, chegando ao limite de matar ou morrer. Não é à toa que o futebol toma emprestadas às guerras algumas de suas imagens, como a de “dar a vida” por um clube.

    O clube é a única coisa que não existe, e talvez por isso exista demais. Tudo nele é efêmero – os jogadores, a presidência e a própria sede. Um time pode, de um ano para o outro, mudar todo o seu plantel – mas nem por isso perderá sua essência.

    Tem até os que modificam o padrão da camisa, ou seja, abdicam do elemento simbólico que por excelência incita a paixão do torcedor. Mesmo de camisa nova, continuam sendo Santos, Palmeiras, Fluminense.

    A palavra “mística” remete a um além de fantasia e mistério. Desse vazio, em função do qual de alguma forma nos ultrapassamos, nasce a força de crer. Em religiões ou em times de futebol. E não adianta investir contra ele nossos míopes óculos intelectuais.

    Não é de estranhar que hoje a mulher, cada vez mais despida de transcendência, perca prestígio e apelo quando confrontada com o futebol. Foi-se o tempo em que seu corpo era um sacrário; seu colo, um lírio; seus olhos, janelas misteriosos para o infinito.

    Hoje ela é mais concreta, corpórea, real, e por vezes diz pornografia. Está muito distante daquele metafísico mistério que faz com que uma bola, depois de quicar numa direção, tome de repente outra e entre na trave adversária.

  • Vida nova mas o mesmo eu, ou não?

    Vida nova para mim mesmo teve início nesse mês de agosto. Do casulo do home office para o palco do magistério. Direto , sem escalas e muito desejado.

    O silêncio perdeu seu espaço privilegiado em minha rotina. Antes, era soberano, só cedia seu lugar sagrado para as eventuais intervenções de minhas filhas. Agora precisa se contentar com as horas que sobra, como as horas mortas de Garcia Marques.

    Ruim? Nem tanto. A tudo, ou quase, se acostuma. Em lugar do silêncio, meus ouvidos agora captam novas vozes, todas antes desconhecidas para mim e muito, mas muito mais jovens do que eu. É a vida.

    No palco do magistério não atuam mímicos. Gestos sem palavras nada significam. É preciso representar por inteiro, corpo e voz conectados para o desempenho cênico perfeito.

    É necessário criar uma imagem que atraia a atenção, modulando-a a cada apresentação, sem superar o seu discurso. Porque o roteiro do espetáculo muda e com ele a expectativa da audiência. Levo, dou, troco, misturo, gero. Malabarista sem rede de proteção ou cordas de segurança, voando no espaço aos olhos do público. Me reconhecerei após experiência tão intensa? Provavelmente, sim. Não sou mutante de hoje. Ninguém é.

    Durante a encenação, as palavras ganharão mais força à medida que escorrerem da língua formando ideias, propondo desafios, inserindo dúvidas, desatando nós, sugerindo caminhos. Porque não há quarta parede, ator e público se mesclam, trocando de papéis momentaneamente à conveniência do espetáculo.

    Ao final, as cortinas se fecharão e todos irão embora.

    Mas muito longe de continuarem sendo os mesmos. Serão todos outros. Seremos todos outros. Seres metamorfoseados, refletindo o embate entre as opiniões e argumentos proferidos ao longo do espetáculo.

    Híbridos, por fim. A cada subida ao palco, a cada cerrar de cortinas.

    Subo híbrido, desço híbrido. Por isso vivo.

  • O pião

    Quando o tio Luís encontrava alguns meninos brincando com pião, logo se oferecia para demonstrar a sua habilidade. Escolhia o pião mais gordinho, que era o de que mais gostava, e mais liso, de tanto uso. Enrolava a fieira no pião com um capricho minucioso de filósofo. Escolhia a área de terra mais limpa, que não tivesse nenhum empecilho para quando o pião girasse sobre si mesmo. E então o lançava, não para a terra, como seria de se esperar, mas para a frente; dava depois, ou melhor, concomitantemente, um jogo com a mão e o trazia de volta, para que viesse girar na sua mão grossa de homem da roça.

    Em seguida repetia a operação. Enrolava novamente a fieira no pião com o seu capricho minucioso de filósofo. Todos os mesmos passos anteriores; mesmo a escolha do pião: examinava um a um os piões dos meninos, para enfim se decidir pelo mesmo pião. Quando o lançava, com a ponta da língua de fora, para maior exatidão na pontaria, e o trazia de volta, não o pegava mais na palma da mão, mas na unha. Na unha!, exclamavam interiormente todos os meninos. E todos, os meninos e o tio Luís, se punham a observar em êxtase o universo na forma de um pião encantado a girar, primeiro na mão calejada, depois na unha disforme de um homem rude, para por fim cair exausto, vencido.

    Todos, os meninos e o tio Luís, mal podiam resistir à tentação de aplaudir o desempenho exímio do universo, que girava como um simples pião nesses calos grosseiros ou nessa unha feia, estragada.

  • OS CADERNOS

    “Sempre diremos tudo um ao outro, inclusive o que não for bom. Mesmo o que for desagradável deverá ser dito. Porque calar é perigoso. Não nos separe o silêncio, nunca.”

    Assim foi o pacto que fizeram Carlos e Isabel, tão logo se descobriram apaixonados e dispostos a viver juntos vida afora. “Tem a minha palavra”, disse Carlos. “Tem a minha palavra”, respondeu Isabel. Casaram-se poucos dias depois. Ao cabo de dez anos, com a paixão um tanto esgarçada e frouxa, ainda mantinham o acordo dos primeiros anos.

    Carlos:

    — Sabe, querida, o que seria bom? Que você aprendesse a cozinhar direito de uma vez por todas. As pessoas costumam seguir algum livro de receitas para preparar comida decente, caso não tenham aprendido com a mãe. É fácil, basta saber ler. Outra coisa: seria muito bom também que você perdesse uns quilos. Sua saúde e sua autoestima agradeceriam. Depilar as pernas com mais frequência também é uma ótima ideia. O que você acha?

    Isabel:

    — Eu acho que não vou fazer nada disso, querido. Se fosse para mudar alguma coisa, melhor seria que você tomasse a iniciativa. Sua voz é irritante, parece um pato engasgado. Quando você ri, tenho vontade de enfiar uma faca em sua boca. Falta-lhe inteligência. Essa sua barriga peluda me causa náuseas. Não fosse a minha estranha fixação pelo casamento, já o teria abandonado há muito tempo. Estou bem assim, com esses quilos a mais.

    Os dois logo compreenderam que seu relacionamento estava naufragando e buscaram ajuda. Uma amiga recomendou um terapeuta especialista em casais em crise. Foram vê-lo.

    Terapeuta:

    — A relação de vocês está indo mal pelo excesso de sinceridade. Eu sugiro um remédio simples: o silêncio. Parem de dizer tudo o que pensam um do outro. Acostumem-se a falar pouco e a trocar somente frases cordiais. Habituem-se a escrever o que realmente desejariam falar. Façam isso em segredo, nenhum dos dois precisa saber o que o outro escreveu. Aqui estão dois cadernos, em que anotarão as coisas ruins que deixarão de falar. Desejo sorte ao casal. Sejam felizes.

    Carlos e Isabel saíram do consultório carregando cada um o seu caderno. Durante meses seguiram rigorosamente a orientação do terapeuta. A comunicação entre os dois tornou-se mais afável, embora curta. Os diálogos se reduziram à troca de algumas frases na frente da televisão. No restante do tempo, dedicavam-se a registrar no caderno o que não diziam um ao outro. Quando um volume ficava cheio de anotações, compravam outro. Os cadernos foram se multiplicando com assustadora rapidez e logo a casa começou a ficar cheia deles. Estavam empilhados em todos os cômodos, até no banheiro e embaixo da escada. Cadernos, muitos, uma imensidão deles. Tantos, que Carlos e Isabel tiveram que abandonar a casa e procurar outra moradia. Os cadernos, cheios de frases não ditas, não deixaram espaço para os antigos moradores.

  • Nossa nave

    Há pouco mais de quarenta anos, a sonda Voyager 1, já distante mais de 6 bilhões de quilômetros de casa, recebeu uma ordem inusitada: virar-se e, com sua câmera já cansada, fotografar o ponto de onde viera. Carl Sagan chamou a imagem de “Pálido Ponto Azul”.

    Nessa fotografia, a Terra ocupa menos de um pixel. É um grão de poeira suspenso num raio de luz solar. Dalí Nenhum mapa, nenhuma fronteira, nenhum presidente, nenhuma guerra, nenhum amor ou despedida é visível. Apenas um pontinho azul-pálido flutuando na imensa escuridão.

    Os astrônomos nos ensinaram que, se colocássemos todas as estrelas conhecidas numa única imagem, elas ainda seriam menos numerosas que os grãos de areia de todas as praias da Terra. E, no entanto, entre essas estrelas, o silêncio é ensurdecedor. Enviamos sinais de rádio há mais de um século, e o cosmo nos responde com o mais absoluto silêncio. Somos, ao que tudo indica, uma anomalia no universo, um breve lampejo de consciência num universo que prefere o vazio e a indiferença.

    Na recente expedição da espaço nave ArtemisII, a astronauta Christina Koch, retorna do passeio noturno e deixa uma mensagem humanista inesperada:

    — Nosso planeta azul, esse bote salva vidas, se perde no universo escuro. E nós, somos a tripulação que pode mantê-lo navegando, e deveríamos nos concentrar na mesma missão. Nos ajudar sobre o mesmo propósito, nos sacrificar por isso, e cuidar dessa nave. Vivemos concentrados no pequeno universo de nosso espelho, engajados com nossas coisas presentes no micro universo, particular, da existência de um grupo pequeno que nos cerca.

    A solidão da Terra não é trágica. É, paradoxalmente, o que nos torna preciosos. Somos a única festa no quarteirão, e ninguém mais foi convidado. Cada nascer do sol, cada xícara de café compartilhada, cada abraço de despedida, cada risada que escapa antes que a gente possa conter, tudo isso acontece nesse frágil grão azul que flutua no nada. Você, neste exato momento, é o universo tentando entender a si mesmo. É um pedaço de matéria estelar que aprendeu a sentir frio, a amar, a ter saudade. É o único lugar no cosmo conhecido onde perguntas como “o que estou fazendo aqui?” fazem algum sentido. Carl Sagan disse naquele mesmo texto, que o Pálido Ponto Azul é “nosso lar, nossa nave mãe, tudo o que já conhecemos em termos de amor, sofrimento e guerras”. E completou: “não há nenhuma outra espécie em nenhum outro lugar que possa nos salvar, apenas nós mesmos”. Na próxima vez que estiver preso num congestionamento, ou preocupado com o boleto que vence amanhã, irritado com a política, frustrado por não ter recebido aquele like, pense melhor antes de explodir em raiva. “A estrada é sua, e somente sua. Outros podem andar ao seu lado, mas ninguém pode andar com você”. (Cora Coralina).

  • Bubbaloo tutti-frutti

    Reunião de pais e mestres.

    — Mãe, o Anderson é um bom menino, educado, gentil, quietinho, não dá trabalho. No entanto, precisa prestar mais atenção nas aulas. Tem horas que ele parece viver no mundo da lua.

    A mãe olha o boletim, que segue com notas regulares, sem nenhum vermelho. Mais tarde em casa, ela parabeniza seu filho por ter recebido elogios da professora, e por não ter ficado abaixo da média. Perfeito, não iria perder o videogame aos finais de semana.

    — Mas, filho, a professora disse que dá pra melhorar as notas se você prestar mais atenção nas aulas. Que tem horas que parece que você vive no mundo da lua.

    A mãe disse que, se ele não melhorasse as notas, iria proibir o videogame. Ela ouviu outro dia que esse aparelho anda tirando a atenção da garotada. “Um mal do século”, disse a vizinha. “Isso vicia”, disseram os tios do garoto à mãe dele. Era o assunto da semana. Anderson ficou puto da vida com esse negócio. Nunca gostou de estudar, tampouco ficar sem videogame.

    Era mais um dia de aula e faltavam poucas semanas para uma nova reunião. Anderson sentava na quarta fileira, à esquerda da parede. Números difusos se espalhavam pela lousa, a voz da professora ecoava ao fundo junto com as hélices dos ventiladores. Seus olhos de azeitona, longe, brilhavam com o reflexo do centro de uma luz lunar. Era Raquel na primeira carteira. Enquanto, naquele momento, os sábados e domingos se projetavam para um destino amargo e relutante, ele tirava mais um chiclete de sua boca, colocando-o debaixo da carteira. Havia dezenas de aulas matadas por ali. De segunda a sexta, Raquel costumava ter um intenso e sutil sabor de Bubbaloo tutti-frutti, nas manhãs de lua nova, crescente, cheia e minguante.

  • Um aniversário diferentemente especial

    Algumas pessoas não costumam dar muita importância a datas comemorativas. Conheço pessoas que parecem fazer questão de esquecer até o dia de seu aniversário. Datas que marcam o dia de uma profissão, de um santo padroeiro, de um clube de futebol, de um município e de uma batalha vencida. São tantas as datas a serem lembradas, que se torna difícil até mesmo ao mais organizado dos mortais saber o que será comemorado nesta ou na próxima semana. Mas, para mim, existe uma grande exceção: o meu aniversário.

    O dia 12 de janeiro, desde que me conheço por gente, é uma data a ser comemorada por representar o início de tudo. Claro que antes de minha chegada a este mundo no distante ano de 1988, o planeta Terra já seguia os seus contínuos movimentos de rotação e de translação, as pessoas já tinham os seus problemas a serem resolvidos, outras datas eram comemoradas e muitos povos já haviam guerreado entre si. Mas, defendendo-me de possíveis acusações de demasiado egocentrismo, esclareço de antemão que esses e outros acontecimentos passaram a existir em minha consciência somente depois daquele dia 12 de janeiro. É apenas nesse sentido que costumo, com uma pitada de humorismo duvidoso adicionado a sobras de requentada presunção, proclamar o meu aniversário como a gênese de tudo.

    Foi com esse tipo de pensamento que aguardei, ansiosa e diligentemente, a chegada de mais um dos meus aniversários. Já que, por um capricho do destino, a data cairia numa segunda-feira, a festa teria de ser transferida para o sábado seguinte. Apesar da importância da efeméride, começar uma semana com os prazeres de uma pequena tertúlia demandaria um tempo que a maioria dos convidados não teria naquele dia. Obviamente, essa incompatibilidade entre os compromissos laborais e a grande data festiva não agradaria a nenhum ortodoxo seguidor de protocolos. Afinal, a exclusividade de um aniversário requer que a comemoração seja feita em sua data precisa. Algumas adaptações são, porém, necessárias e até as convenções mais tradicionais costumam ser quebradas com frequência. Para que todos nós pudéssemos encerrar os árduos trabalhos daquela semana, brindando mais um ano de minha não tão destacada existência, o rega-bofe ficou, então, para o primeiro sábado posterior. Mas aquele importante dia 12 não passaria, de forma alguma, despercebido. Como um filho que se sente ignorado por seu pai, aquele dia faria de tudo para chamar a minha atenção. Mesmo que da pior maneira possível, recorrendo a birras e a desobediências, a segunda-feira em questão seria, indelevelmente, registrada em minha memória. Logo às 5h, antes mesmo do sol começar a aquecer aquela manhã, fui despertado por uma vexatória queda de minha cama. Não estava em quarto desconhecido tampouco sobre uma cama nova. Entretanto, o improvável aconteceu! E, para que não pudesse ousar em dormir novamente, caí sobre o ventilador que havia deixado no chão. Se a noite já havia sido tremendamente abafada, o começo daquela manhã superou toda e qualquer expectativa tragicômica.

    Com o ventilador quebrado, o abafamento já me parabenizava pelo jubileu. Não adiantava insistir, pois o sono já estava perdido. Decidido a não esmorecer perante a primeira dificuldade de um dia especial, tratei de ir à loja de eletrodomésticos mais próxima para comprar um ventilador novo. Mais do que por gosto, um presente por necessidade! Mas quem disse que a compra seria fácil e rápida? Por algum motivo desconhecido, as maquininhas de cartão pareciam ter entrado em greve por tempo indeterminado. Após algumas tentativas frustradas e muitos olhares impacientes, precisei recorrer ao caixa eletrônico. Com o dinheiro em mãos, não poderia resolver a grande saga do ventilador sem o vexame de um escorregão na saída da loja.

    Resignado com as agruras de uma manhã singular, encaminhava-me de volta a minha casa, quando Tupã, a todo-poderosa entidade indígena, resolveu prestar as suas homenagens com os primeiros trovões daquele dia tão promissor. A pouca distância entre a loja e a minha casa não foi suficiente para evitar um reparador, mas pouco desejado banho de chuva. Se a resistência do chuveiro funcionou a contento, o mesmo não pode ser dito a respeito deste desajeitado cozinheiro que tentava fazer uma simples refeição para seu almoço. Um telefonema que se estendeu por alguns longos minutos, e a panela de arroz acusou meu esquecimento com aquele desagradável e inconfundível cheiro de queimado.

    A tarde não seria mais discreta, visto que a cadeira na qual me sentava não suportou meu sobrepeso. Apesar do sedentarismo e do gosto por comidas gordurosas, acreditava não estar sobrecarregando aquela velha companheira de trabalho. Mas nem sempre a verdade é sutil, e os sustos também nos servem para rever antigos estilos de vida. Enquanto ainda planejava a melhor forma de romper o ciclo nada virtuoso de guloseimas e bebidas açucaradas, a natureza parecia compadecer-se com minhas aflições, ao me presentear com uma bela noite estrelada. O destino, todavia, continuava impaciente e, como quem finaliza seu pobre e infeliz oponente no tatame, desferiu um inexplicável apagão elétrico por quase uma hora. Assim, a famigerada segunda-feira encerrava suas traquinadas com um belo e solitário jantar à luz de velas.

    Apesar de todos esses incidentes, os primeiros dias de cada ano continuam fazendo parte de uma espécie de contagem regressiva. Caindo da cama ou tropeçando na rua, queimando o almoço ou jantando às escuras, mal posso esperar por meu próximo aniversário. Que seja, no entanto, uma data marcada por circunstâncias menos desastrosas! Sem recusar os presentes que, porventura, queiram dar, um dia menos desafortunado é, pois, tudo o que posso desejar para uma data tão pessoalmente especial.

  • A Nora, o cachorro da Nora, os namorados da Nora e o adestrador

    A Nora tinha um cachorro. A Nora também tinha um namorado. O cachorro não gostava do namorado da Nora. A Nora contratou um adestrador pra fazer o cachorro acostumar-se com o namorado. Já que ainda não existe adestrador de namorado.

    Pouco tempo depois, quando o cachorro já estava amiguinho do namorado, o namorado caiu fora.

    A Nora tinha dotes físicos e intelectuais exuberantes e logo trouxe outro namorado.

    Pro outro namorado também foi preciso o adestrador, pra estreitar laços de amizade dele, o namorado, com o cachorro que o estranhava.

    A nova paixão também não durou. Foi, como disse um dia o Geraldo Vandré, breve como a perdida flor. E ele, o namorado, se foi.

    Logo a Nora se deixou cair por outro, um carioca que morava na Rua Vasco da Gama, 507, no Brás, e que se disse louco por cachorros só pra seduzí-la.

    Mas como o cachorro não era louco por namorados da Nora, a história se repetiu. E toca o adestrador entrar em cena de novo e aproximar os dois.

    Só não foi o bastante, a aproximação, pra mantê-los, ela e o namorado, aproximados por muito tempo. O caso foi breve também, dessa vez breve como banho num dia frio de 7 graus.

    Assim se sucedeu 3, 4, 5, 6 vezes: entra namorado, cachorro estranha, entra adestrador, sela acordo de paz, sai namorado. 

    Maldito cachorro, malditos namorados.

    Belo dia, quando o último namorado vazou, a Nora teve um lampejo perfeito pra um final feliz.

    Em vez de procurar outro namorado, sabem o que ela fez? Deu jeito de namorar o adestrador.

  • Desperdício de amar

    Dandara tinha uma casa espetacular. Sendo minha melhor amiga, me chamava várias vezes para visitá-la. Brincávamos e esquecíamos do tempo. Dormi algumas vezes lá durante as férias. Sua mãe gostava de mim porque eu era educada e estudiosa, talvez pensasse que eu seria uma boa companhia para a filha. Seu pai era arquiteto de “mão cheia”, como dizia mamãe. Era uma família endinheirada, diferente da minha, que não chegava à classe média. Nunca percebi qualquer sinal de preconceito. Nossa amizade se formou no colégio. Meus pais, mesmo com pouco estudo, garantiram que eu estudasse num das melhores escolas da cidade. Papai era motorista de van escolar, enquanto mamãe trabalhava para a high society, elaborando roupas. Era levada aos shoppings para copiar os modelitos só de olhar. Um fato muito triste foi que meu irmão não entendeu a força de nossos pais e enveredou para as drogas. Ele era um menino bom e depois se tornou irreconhecível, inclusive pela agressividade. A família de Dandara descobriu que ele estava internado. Fui literalmente proibida de vê-la. Os pais de Dandara ajuizaram que éramos uma família desequilibrada. A dor foi profunda, em não poder mais brincar com a minha melhor amiga, ou mais do que amiga. Sentia sua falta escutando Laura Pausini. Lembrava-me da vez em que encostei minhas mãos, sem querer, nas suas pernas, e me demorei, olhando-a cara a cara; não tivemos reação. Cheguei mesmo a imaginar que estava apaixonada por ela, e não sabia lidar com isso. Me penitenciava. Pedia a Deus para não pensar mais em Dandara, a menina perfeita. O amor era tanto que cheguei a pegar um ônibus e ir até a sua casa. Bati à porta, e Jussara abriu. Pediu que eu fosse embora logo, porque podia dar confusão. Chorei por meses, e minha mãe pensava que tinha depressão, coisa do tipo, e me levou a um médico boboca, que passou um remédio que me deixava letárgica; eu já não era a mesma. Dandara mudou de escola, para uma melhor. Eu culpava o meu irmão. Na verdade, o odiava com todas as minhas forças. Jorge fez, ao mesmo tempo, que eu o odiasse e amasse Dandara mais e mais, dois sentimentos opostos. Ele me impediu de amar. Até hoje, passados dez anos, Jorge apronta bastante, exauriu as forças de meus pais, já tão sofridos, até gerou um infarto no meu pai, que felizmente se recuperou bem… E eu não consigo esquecer Dandara, a menina dos meus sonhos. Deve estar casada, com filhos, não se interessar um milímetro por meninas. E passo de relacionamento em relacionamento tentando encontrar aquele olhar vibrante, que, por tanto tempo, provocou o meu coração. É um desperdício de amar. A nossa história não vingou. Mas ainda sonho um dia poder lhe reencontrar, ainda que seja somente para vê-la, exuberante, como deve estar.

  • Poema #82: A mim ensinou-me tudo

    “… e a monotonia da vida será para mim
    como a recordação dos amores
    que me não foram advindos,
    ou dos triunfos que não haveriam
    de ser meus”

    Fernando Pessoa

    O pouco que sei,
    sei de o não saber,
    mas só o de sentir
    e nunca poder alcançar.

    Tudo passou por mim
    como as águas de enchente,
    mas vi tudo fluir e o vazio
    de nada reter nas mãos.

    Se escrevo é só uma fórmula
    de sonhar possibilidades
    enormes, como se fossem
    passos de uma criança deitada.

    O Jardim Simultâneo

  • Mortos, vivos, morcegos e frutas | pausa (in)disponível

    Uma mesa impossível: um tampo que não é firme (minha cama); três cadeiras – eu, que me sento com as pernas esticadas e sobrepostas. Uma única taça de vidro (a que comprei no mercado, porque na minha casa de areia temporal em quase formato pirâmide não tinha nenhuma) com o vinho (o que dividi há duas semanas, hoje esvaziado com outros – é preciso beber do mesmo lugar, a cama).

    De maneira quase indecente, Hilda Hilst e Victor Heringer se juntam a mim nesse ménage a trois de escritores, dois mortos. Um ménage literário com os vermes, os últimos íntimos de suas carnes: memento mori. Bebemos da mesma taça; espero em vão roubar seus segredos – eles, um pouco do meu sangue latente, latindo.

    Desejo de um maracujá azedo. As papilas da minha boca incendeiam-me os circuitos internos com água e um cheiro que vem, não sei bem de onde. Um sibilo ressoa acima de tantas cabeças errantes em frente à calçada escura, sem poste de luz; mendigos na encolha do recuo da arquitetura, motoboys a postos. Tudo, em sua pequinês, grande o suficiente para tornar a cena estranha e noturna. Sem querer, o morcego pausa meu caminhar, já há três meses no automático.

    “Pausa indisponível”.

    Hilda, com um vestido ficcional, segura a minha taça como se dela fosse íntima, conhecendo-a inteira. Victor, em uma camisa de linho desalinhada, olhos verdes que guardo em minhas próprias retinas, olha como quem já viu demais das entranhas e das superfícies do (meu) mundo; toma a taça. Passa a língua sobre os lábios, sem levar o vidro a eles, e fala o que não sai da sua boca, mas da minha atrevida invencionice noturna:

    — O que você quer roubar dos segredos que levamos, hein, mocinha?

    — Propriamente os inteiros que se encerraram em vocês — respondo. Ele me entrega a taça; a borda fria, suas mãos vaporosas, quase estilhaços, não fosse eu me ancorar à realidade no último segundo. O peso da hipótese não cabe mais em perguntas.

    — E o que nos propõe, em troca? — Hilda toma-me a taça e quase a esvazia de um gole imenso.

    — Minha centelha — e não sei se o que soa é o sorvo do vinho, um arroto interno em forma de desespero ou simplesmente o silêncio que me cutuca o pensamento.

    — A centelha é quase nada — Hilst ecoa um riso que pode ser mar ou a ponta de uma faca.

    — Não queremos a centelha; queremos o incêndio que ainda não aconteceu.

    Os dois tomam a taça das minhas mãos. Por um instante que parece durar mais do que toda a minha vida, sinto os lábios dos dois se encontrarem no mesmo vidro que o meu. Bebem do meu tempo, do que ainda não escrevi, do que não vivi direito. A luz sobre a cama pisca; num reflexo, ambos se foram. Deixam, para além da superfície brilhante, um gole seco de palavras, como o vinho que ali figurava minutos antes.

    Ainda não nasceram.

    A cama já tem menos colchão vazio do que nunca; penso em mandar uma SMS para Lewis, só porque ele está deliciosamente disponível no cômodo ao lado. Deixemos o Diabo no outro quarto.

    Lá me vem o Prime Vídeo com uma dessas, passadas 22h de uma noite que exauriu o dia — ou foi o dia que, estendido, invadira a noite anterior? Sabe Sísifo, empurrando a pedra? Sou eu com as noites, dias adentro.

    Assisti a “The Drama”, uma tragédia sinistra que, não sei bem o porquê — ou sei —, sentou-se ao lado do último livro que li, “A menina que não sabia ler”. O que pode caber dentro de uma pergunta despretensiosa – ou nem tão assim – sobre o que você já fez de pior na vida? E o que acontece quando alguém que nos ama sabe o que foi isso?

    Charlie enlouqueceu. Theo morreu, de susto, medo e asma.

    O morcego, ao passar, me fez perceber as duas pistas que cruzo diariamente.

    São apenas e as mesmas duas. Para vir de casa para o trabalho é rápido: minha face desarma os portões e me lança ao passeio público. Olho para a esquerda; logo em seguida, é possível atravessar.

    A segunda pista, contígua — seria parte da primeira não fosse um salpicado de grama esturricada pelo sol da zona Norte —, é mais complexa. Os carros vêm da direita, em alto fluxo. Demanda tempo.

    A grama chinfrim é minha pausa cotidiana, e, mesmo assim, toda a travessia me demanda menos de cinco minutos.

    Aí, leio Hilst:

    Um parágrafo rotineiro desses colóquios de dois que são um pelas convenções, pela intimidade e pelo tédio ordinário da vida. Não sei por que caminhos da minha mente-floresta-tropical ele me leva a redigir estas linhas:

    “É lindo completar com vida uma outra vida. Isso é a beleza Cda gravidez; tudo síntese, tudo caos, paz, expectativas e não. Ausculto o coração incipiente.

    Nada.

    Em quantos dias se forma o coração? O que se forma primeiro, após a fecundação do óvulo? Por que a mulher se perde nesse molho feito a dois, de si?”

    Do aparelho televisivo de LED, fixo à parede em frente à cama, me dizem que o cérebro se forma somente após os 25 anos.

    Coração, então, quando é que se firma?

    Não quis pesquisar. Há certas coisas na vida que não demandam respostas; caem mais leves como a falta de letramento dos que apenas vivem.

    — Ignorar uma pergunta também é falta de respeito.

    — Aquiete a língua, morto. Termine o vinho.

    — Acabou.

    Cusparada póstuma.

    Levantaram a cabeça, tensionados. Silêncios de toda uma vida num hífen; cospem o vinho numa gargalhada. Filhos da mãe… — Será que a mancha no lençol de elástico é um desses resquícios?

    A oração não fecha. Algumas orações subordinam; outras, dirigimos aos mortos: mãos unidas, dedos para o céu.

    A palavra não ama. O amar talvez não caiba no sucinto grafo de concordâncias humanas para ninguém.

    Ao segurar as alças da minha mochila, que já se agarram aos meus ombros para o caminho de casa, a travessia entra no segundo tempo; os lados do campo se invertem. A direita agora é à esquerda e vice-versa?

    Parece que todo mundo quer ir, agora. Mas quase ninguém quer verdadeiramente voltar, ainda que a calçada do meu destino esteja repleta de mesas com quatro esperas de cadeira em cada.

    Tomei, no provador de uma loja de varejo concorrente, o café que fiz para a obra e esqueci de beber. Experimentava uma calça jeans com margaridas. Não a comprei. O aroma do café chegou às cabines limítrofes. Ri e bebi da ousadia.

    Mãe natureza, Hilda Hilst, Kristoffer Borgli, Victor Heringer, John Harding e Bia Mies resolveram comer pipoca enquanto as unhas pintadas do vermelho “padrãozinho para quem” secam na liberdade de extravasar as unhas para as cutículas, sem limpeza.

    Vida longa às crônicas crônicas, que não têm remédio além da melancólica e estonteante poesia!

    Abro a porta da geladeira e lá está, a saliva na ponta da língua, o lustroso da forma amarelamente arredondada a se oferecer para mim, assim, sem pudor algum. E, ao invés de querê-lo mais, percebo a ruguinha escondida na curva que dá para as suas costas.

    — Será que o maracujá todo murcho se acha desajeitado? Avulso? Fora da fruteira? Old school & fashioned , propriamente falando? E será que o liso, no refletir da energia interna, percebe que não dá um bom suco, ainda?

    Eu, que não quero pensar no avançar do tempo, dei com ele, há parcos dias, nos primeiros três cabelos brancos que apareceram assim, unidos | um corte à navalha na realidade. Sinais dos trigêmeos à vista que tanto desejo? | Acabo por me encarar no espelho e repetir aquilo com que toda a minha geração de millennials se ilude:

    — Eu só tenho 27, todo mundo concorda.

    Desafio as madeixas, que resolveram brincar de esconde-esconde na nem tão mais vasta cabeleira de outrora. Outrora, nada. E quem nada é a mobelha negra num mar hilstiano. Recolho os remos.

    O morcego ronda as minhas janelas. O sibilo ressoa novamente. A ave preta e fashion, em algum canto, solta sua risada demoníaca. Thoreau entenderia – espero.

    Theo, Florence e Giles estarão seguros, brincando de pique-esconde e beijo roubado entre as páginas, antes que o próximo leitor chegue ao seu fim. O final do drama é a outra face da máscara.

    Tudo vai bem.

    O coração, (s)em idade; cérebro, louco aos 22. Numerologia lunática. Meus três fios prateados são um charme que ainda espero rever no espelho. Mesmo que tudo isso aqui não passe de um sonho interrompido. “Pausa indisponível”.

    — Encapsulei a vida?

    A taça está rasa das palavras, que se foram todas neste correr da tela; só me resta a Fanta preta, comprada nas Lojas Americanas. Pura curiosidade mórbida; blasfêmia a todos os santos.

    Estalo o lacre. Preencho a taça.

    (derrubo um pouco na varanda para algum com sede).

    Mais um líquido vermelho-sangue-escuro, agora borbulhante. Carmesim.

    Gosto de batom. As borbulhas ressoam entre os dentes, bocca chiusa. O sabor encontra o sólido da boca e marca o carmim na taça. Pela primeira vez, por fim, alguma evidência da noite.

  • As tentativas de WALDINEIDE

    A primeira vez que tentou se matar, tinha dezoito anos. Entrou no mar de São Conrado e nadou até cansar e perder as forças. Foi resgatada pelo helicóptero dos bombeiros. Aos salva-vidas, envergonhada, não revelou a tentativa malfadada de suicídio. Ironicamente, ainda agradeceu por ter sido salva.

    Waldineide amaldiçoava o pai pelo nome recebido. Seu Waldir era porteiro de um prédio na Barra da Tijuca. Ele, a mulher, Neide, e a filha moravam num barraco na Rocinha. Waldineide preferia chamar de comunidade.

    Talvez nem quisesse de fato morrer, apenas momentaneamente aplacar sua dor. Sentia a pior das dores, as desconhecidas, as que vinham da alma. Nada valia a pena nesta vida. Para seu Waldir, a filha era só meio maluca.

    Na segunda tentativa, ela subiu no parapeito do terraço de um edifício. O vento frio batendo em seu rosto pareceu querer empurrá-la para trás. Olhou para baixo, medindo a altura da queda. Nesse momento, descobriu que tinha vertigem de altura. Desistiu.

    A frustração foi enorme e ela começou a se achar incapaz até para se matar. Sentia-se ridícula. Não merecia permanecer viva.

    Seguiu tentando.

    Planejou enfiar sua cabeça no fogão e se envenenar com o gás. O cheiro forte, no entanto, alertou sua mãe que a retirou à força. Seu Waldir, quando soube, disse que a filha estava precisando de uma boa surra. Dona Neide impediu, a menina era sensível e devia estar passando por algum problema sério. Na verdade, eram incontáveis problemas. O atual era não conseguir se matar com competência.

    Uma amiga que soube das tentativas dela, falou sobre a existência de um serviço pela Internet de valorização da vida, que oferecia apoio emocional a quem tentava o suicídio. Waldineide desconfiava desse tipo de ajuda virtual e não se interessou. Além do que, estava decidida. Na próxima vez não iria falhar.

    No seu íntimo, temia por novo fracasso. Foi quando optou por matar-se com roleta russa. Havia algo lúdico que a atraía: o acaso definiria o seu futuro. Pegou o revólver do pai na gaveta, retirou as balas, deixando apenas uma na agulha e rolou o tambor.

    Colocou a arma no canto da testa e apertou o gatilho. Para sua sorte, ou azar, nada. Waldineide tentou mais uma vez. Como não tivesse morrido, suspeitou que não era para ela morrer com um tiro na cabeça. O destino decidira.

    Tinha gente que morria engasgada com azeitona, gente que morria de susto, de bala perdida ou atropelada por bicicleta, por que ela não conseguia? Sentia-se um ser mais risível do que já era.

    Não tomaria veneno para ratos, queria morrer com mínima dignidade, não como uma roedora de esgoto. Ainda havia a possibilidade do tradicional expediente de cortar os pulsos, mas ela não podia ver sangue, que desmaiava.

    Waldineide começou a se desesperar. Escolheu uma forma mais randômica: andaria, de madrugada, por lugares ermos e sinistros. Algum bendito marginal da favela completaria o trabalho. Depois de alguns dias perambulando por vielas e becos, finalmente, um assaltante a abordou. Ela ansiava pelo corriqueiro “a bolsa ou a vida” para, de forma categórica, devolver: “a bolsa, idiota. Atira logo”. Entretanto, escutou o habitual “perdeu”. Segurou com as duas mãos a bolsa e encarou-o: “pode me matar!”. O meliante, pego de surpresa, olhou-a de cima a baixo. Ela concluiu que, enfim, sua hora havia chegado e aguardou, de olhos fechados, o desfecho. O assaltante puxou-a pelo braço, levou-a para trás de um tapume e começou a rasgar suas roupas. Waldineide pretendia morrer, não ser estuprada. Enfrentou-o como pôde. Depois de muita luta, já exausta, com o maldito sobre seu corpo, conseguiu pegar no chão sua bolsa com o revólver da roleta russa. Tinha só uma bala. Apertou o gatilho no pescoço do bandido e ouviu o estampido. Em choque, desvencilhou-se do corpo ensanguentado dele, arrumou-se com o que havia restado de roupa e saiu correndo em disparada. Só queria fugir dali. Desaparecer, sumir do mundo.

    Soube depois pelos jornais que o tal rapaz fora encontrado vivo. Era tudo que ela queria, que ele sobrevivesse. A morte era dela, ele não tinha nada a ver com isso.

    Waldineide havia tomado uma decisão. A melhor maneira de realmente se conhecer era fazer o contrário. Numa manhã como outra qualquer, levantou da cama, escovou os dentes e foi até a cozinha. Pegou uma faca e a afiou, pacientemente. Dessa vez não ia vacilar. Enquanto cortava em fatias o filé de frango para o almoço, pensava na vida que teria pela frente.

  • Poema #19: Presente

    O presente vivido é quase o infinito…
    o presente amado a eternidade incompleta.
    Ridícula a angústia, o cansaço tolhido,
    começo de caminho, meia-volta discreta…

    Ansiedade é pequena eternidade no presente,
    pedras e esforço inútil, chamado repetitivo.
    Tormento, fingimento, ser em estar ausente.
    Velho e novo, refundidos, abertos num livro…

    Os grãos de areia podem ser incontáveis,
    mas o mar recolhe um a um, a toda hora.
    O resto são espumas, simples brincadeira…

    Do tempo incerto, mãos postas e flecha ligeira
    tangem no pensamento cenas impublicáveis,
    pois o que habita hoje, amanhã já não mora…

  • A Vida em Bullet Points

    Dizem que “a fila anda”. Talvez ande nos relacionamentos. Já na minha lista de tarefas, ela parece ter criado raízes.

    Ela nos persegue pelo celular, mandando alertas sonoros de tudo o que ainda não foi completado. Para quem prefere o caderninho, nem isso resolve: as tarefas não riscadas ficam ali, silenciosas, aguardando o momento de despertar a culpa.

    Tenho a impressão de que as listas de tarefas se reproduzem durante a madrugada. Vou dormir com oito itens e acordo com quinze.

    Cumprir uma To Do List é como correr na esteira vendo uma paisagem virtual: a trilha avança, mas quem continua parado somos nós.

    Outro dia risquei “trocar a lâmpada da cozinha” e, quando voltei à lista, ela já tinha gerado “limpar o lustre”, “organizar a área de serviço” e “pesquisar iluminação para ambientes pequenos”.

    Às vezes tento me lembrar quem colocou tudo aquilo na lista. Não encontro outra explicação senão a de que as listas ganharam vida própria e passaram a escrever novos itens quando ninguém está olhando.

    Suspeito que exista um aplicativo clandestino frequentado exclusivamente por tarefas. Lá, num ambiente chamado Todobook, elas trocam informações e combinam estratégias para nunca desaparecer completamente. Até flagrei uma luz acesa suspeita uma noite dessas no meu celular.

    Talvez eu devesse anotar “não fazer nada” no topo da lista. O problema é que, conhecendo seu gosto pela provocação, ela logo acrescentaria três subtarefas, dois lembretes e um prazo final.

    E ainda me enviaria uma notificação perguntando por que a tarefa está atrasada.

  • INSTINTO

    Toquei a campainha e aguardei cerca de dois minutos até que viessem atender. A longa espera aumentou meu nervosismo. Sim, num caso desses, dois minutos constituem de fato uma longa espera. Desculpando-se pela demora, Augusto abriu a porta. Eu poderia ter interfonado antes de subir, mas, depois de refletir por alguns instantes, decidi que a atitude mais acertada seria aparecer sem avisar. Melhor que ele ouvisse o que eu tinha a lhe dizer com o espírito desarmado. Educado e protocolar, Augusto me cumprimentou com um aperto de mão. Provavelmente, deve ter estranhado o fato de me ver ali diante dele. Nossa relação se resumia aos bons-dias e boas-noites de praxe proferidos, em nome da civilidade, pelas dependências do prédio quando a casualidade fazia com que nos esbarrássemos. Já sentada no sofá, passei a examinar o ambiente. Atitude espontânea, coisa de mulher, não tive como evitar. A decoração da sala era de muito bom gosto. Nas paredes e em porta-retratos espalhados por vários lugares, fotos do dono da casa ao lado de celebridades – cantores, atores e apresentadores de TV, esportistas e até políticos, pessoas sorridentes e bem-vestidas. Prêmios, diplomas, troféus e medalhas também podiam ser vistos espalhados pelo cômodo. Você foi muito corajoso na entrevista de anteontem, comentei, tentando aparentar naturalidade. A Mariana Gonzalez é mesmo fantástica, consegue extrair revelações incríveis dos convidados. Eu sempre assisto ao programa, sabe? Desde que ela ainda trabalhava naquele outro canal, você se lembra? É curioso, somos vizinhos há tanto tempo, dez anos talvez… Mas todo mundo hoje em dia é tão ocupado… São tantas solicitações, apelos… Enquanto produzia esse discurso meio confuso, bem diferente do texto que havia ensaiado, tentava ler no rosto de Augusto alguma indicação, mesmo vaga, acerca do que ele poderia estar pensando daquilo tudo. E que parte da entrevista mais chamou sua atenção? Sem dúvida, quando você descreveu o acidente. Perder a esposa de uma maneira assim tão violenta… Eu me recordo bem de vocês dois sempre juntos, abraçados, pareciam se amar tanto. Sua vida mudou bastante, claro, não podia ser de outro modo. Parei de falar. Esperava que essa fosse a deixa para que Augusto dissesse algo. Ele apenas me encarou. Sua expressão continuava indecifrável. Após algum tempo, resolveu se aproximar. Acionou uma espécie de manivela situada perto do braço da cadeira, o que imediatamente a fez deslizar macia pela sala. Antes de parar ao meu lado, deu dois ou três giros e andou para frente e para trás tentando demonstrar o quanto era hábil no manejo daquela engenhoca. Por fim, sorriu amistoso. É difícil acreditar que você não faz sexo desde o acidente. Lá se vão cinco anos, não é? Eu tenho uma proposta a lhe fazer. Talvez você ache estranho… Eu mesma acho estranho. Você é um homem bonito, jovem, interessante. Não, não diga nada a menos que considere essa minha ideia um completo absurdo. Eu penso que isso não está certo, você com certeza continua a ter desejos. Não é porque ficou assim… Paraplégico, interrompeu ele. Não tenha medo de pronunciar a palavra. Me ajuda aqui, anda. Me põe no sofá. Obedeci. Augusto era extremamente charmoso. Um tipo italiano, com a pele muito branca, olhos castanhos amendoados, nariz grande e lábios grossos. Após o acidente havia engordado um pouco. Naquele dia, estava com a barba por fazer e usava uma camisa estampada de seda. Senti que ele queria tocar meu corpo. Consenti. A partir daí, nem eu nem ele falamos mais nada. Passamos a agir comandados pelo instinto. Eu me oferecia àquele sujeito quase desconhecido sem culpa alguma. Íamos aprendendo na hora como deveríamos nos comportar. Nossa experiência prévia valia pouco, logo constatamos. Aquilo era uma espécie de rito inaugural, de cerimônia de iniciação, sei lá. No início, mãos indecisas a respeito do rumo a tomar, embaraço. Felizmente, foram apenas três minutos de inépcia seguidos por pelo menos uma hora de destreza. Tudo aconteceu de um jeito suave e tranquilo, mais ou menos como eu havia imaginado. Ajeitando o cabelo e retocando a maquiagem num espelhinho, me preparava para ir embora quando a campainha tocou. Era Carlos, uma espécie de enfermeiro de Augusto, que voltava da rua carregado de sacolas. Esqueci a chave, anunciou meio desconsertado ao constatar minha presença. Não sei onde ando com a cabeça, completou. Notei então que os dois homens trocaram um olhar malicioso. Por um instante, me senti envergonhada. No dia seguinte, acordei com um beijo carinhoso do Marcelo me avisando que o caminhão havia chegado e que os carregadores já estavam subindo. É fato que não conseguiria ter feito o que fiz se não estivéssemos de mudança. Sem dúvida, seria muito desconfortável continuar a encontrar Augusto no elevador, na garagem e na portaria do prédio.

  • Mitos

    O mito é uma criação fantasiosa que procura explicar aspectos da natureza ou da condição humana. Nossos antepassados os cultivavam para dar sentido ao mundo. Esse reinado da imaginação durou séculos, até ser destronado primeiro pela filosofia, depois pela ciência.

    Isso não significa que nos livramos dos mitos. Com outras roupagens, eles continuam orientando nossas crenças. Cultivamo-los como um vício da imaginação, ou melhor, como um suporte a nossas precárias certezas racionais.

    Há vários tipos de mitos: políticos econômicos, sociais. Há também os pessoais, domésticos, que engendramos visando à saúde ou à boa convivência.   

    O cultivo de um deles me fez sofrer cerca de quinze anos com uma dor de cabeça quase diária. Eu não podia ler de manhã, que começava o latejamento na têmpora direita. Com ele vinham náuseas e, por vezes, vômito. A exemplo de João Cabral, transformei-me num cativo da aspirina – o “sol branco” que lhe apaziguava a dolorosa contorção dos vasos sanguíneos.  

    Procurei um médico, que me sugeriu tirar o leite e derivados. 

    Aí começou o drama, pois se revelou a força do mito. Como viver sem leite? Tentei, mas sem ele me sentia desnutrido. Mais do que isso: desamparado. Nenhum alimento tem tanto valor simbólico. Ao leite associa-se o seio materno, o crescimento, a solidificação do corpo e da mente.

    O jeito era mentir para Dra. Moyra, que não conseguia entender a persistência da dor de cabeça:

    – Tirei tudo, doutora. Leite, queijo, chocolate – dizia eu, constrangido. No fundo, não acreditava que eram esses alimentos os responsáveis pelo problema. 

    Até que um dia comi um “chocolate ao leite” gorduroso. Na manhã seguinte, tive uma dessas enxaquecas que os acadêmicos de Medicina chamam “de livro”. Com direito a cefaleia, vômito e coriscos espoucando nos olhos.

    Comecei, então, a ligar uma coisa à outra. Pouco a pouco a luz da razão foi expulsando as trevas do mito. O vilão era mesmo o leite. Ou melhor, a lactose. À medida que me convencia disso, foi ficando fácil trocá-lo pela soja.

    Ainda hoje, lamento não ter dito a verdade a Dra. Moyra. Ela desde o início estava certa. Consola-me, no entanto, ver que meu pecado foi pequeno – uma simples e piedosa mentira. Quantas pessoas, por apego aos mitos, não perseguem, torturam e matam o ser humano?

  • O MORRO

    No centro da cidade ergue-se um estranho morro. Verde e coberto de flores o ano inteiro, lar de pássaros e vários animais, mas estranho: ninguém o escalou até hoje.

    Contam os antigos que muitos tentaram, mas nenhum retornou; redobraram as tentativas, a subida não oferecia perigo algum; julgou-se que eles haviam se perdido, mas onde? Não se conseguiu saber por que não regressavam.

    Contra todas as recomendações, João e Manuel resolveram subir o morro. Fui com eles, sei do que estou falando; bom, deveria saber. Acontecem coisas nesta vida que não tem explicação mesmo.

    João subiu primeiro; eu e o Manuel ficamos olhando; nada fora do normal: João entrou no meio de umas árvores, apareceu mais acima, depois mais acima ainda, e, quando deveria já estar no topo, sumiu. Gritamos e gritamos, e nada.

    Onde João estaria? Estava tão perto, quase podíamos ouvir a sua respiração. Ouvimos o gemido agônico de um pássaro. Manuel falou: “Não é João.”

    Mas não estava muito convencido: subiu o morro para procurar João e o seu gemido feio. Logo pude ouvir dois gemidos agônicos. Por sete dias ouvi esses gemidos horríveis. Depois, mais nada.

    Ninguém mais da cidade ouviu. E o morro continua lá, agradável, acolhedor, e inexpugnável.

  • A vida em compasso de espera

    Minha avó Penélope perdeu o marido na guerra. Isso é o que ela costumava dizer, embora algumas vizinhas, maledicentes que só, digam que ele saiu por aí a viajar pelo mundo sem pensar em voltar para casa. Não se falava muito sobre isso na família. A verdade é que quase não conversávamos sobre nada. Nos contentávamos em ouvir. Um homem deixou casa e família e não deu mais notícias: para nós, essa informação era suficiente, bastava. Quem perde maridos ou pais geralmente não tem força para se manifestar ou buscar explicações. O tempo se encarrega de explicar.

    Viúva jovem, minha avó trabalhou como costureira para sustentar os filhos. A vida, para ela, passou a ser costurar e costurar. Uma vez tentou se distrair e cantou na festa da padroeira, mas desafinou. Recebeu muitas vaias, fez um escândalo, ficou furiosa, mas depois esqueceu. Não desafinava na costura, e isso a satisfazia.

    Nunca falou com tristeza do passado, nem reclamou de alguma dor de sentimento. Para dor física, tomava uma aspirina e tudo ficava bem. Quando sua visão começou a falhar, continuou costurando guiada pelo instinto. Com décadas sentada na frente daquela máquina, podia costurar até se tivesse ficado cega. Um ponto no direito, dois no avesso, sabia exatamente para onde dirigir a agulha e comandar o pedal. Fazia roupas sem moldes, dizia que não precisava porque conhecia de cor e salteado a medida das mulheres que apareciam em casa querendo um vestido novo, ou uma blusa, ou uma saia.

    Sempre me lembro dela costurando, mas não me recordo de nenhuma camisa ou vestido que tivesse sido fruto de suas horas de costura, como se ela simplesmente costurasse e a peça sumisse. Não tinha outro objetivo senão fazer uma roupa atrás da outra. Era um prazer infrutífero, não se importava com o resultado, apenas apreciava o processo. Talvez, todas as noites, enquanto dormíamos, ela se levantasse para desfazer o que havia costurado e voltasse para a cama sabendo que, com o amanhecer, poderia recomeçar do zero e assim adiar por mais um dia o fim inevitável, que nem sempre justifica os meios, mas justifica muitos medos.

    Minha avó Penélope sempre foi fiel ao marido, principalmente depois de perdê-lo. Permaneceu intocada após o sumiço dele e provavelmente nunca conheceu outro homem em sua vida. Talvez esperasse que o marido de repente voltasse um dia, sem avisar, vestido com trapos como se fosse um mendigo, e ela, mantendo sua dignidade celibatária, pudesse repreendê-lo: “Isso são horas de voltar para casa?” Ele certamente responderia: “Querida, você não vai acreditar no que me aconteceu. Estava voltando direto da guerra quando, de repente, fui capturado por um pirata monstruoso que tinha um olho só, um braço só, um pé só e um pensamento fixo: acabar com a minha raça. Consegui escapar e fui parar no quinto círculo do inferno, onde encontrei antigos companheiros de armas brigando entre si, e então todos nós fomos atraídos por cantos de várias sereias e depois apareceram umas bruxas que me enfeitiçaram e me obrigaram a deitar com elas. Mas essa é outra história, eu conto outro dia. Agora vamos dormir, que estou um bagaço de tão cansado.”

    Meu avô nunca voltou de sua odisseia, e minha avó continuou sua lida diária de tecer e desfazer sua vida até que não lhe restasse mais nenhum fio. Anos após sua morte, ficamos muito espantados quando aquele mendigo apareceu em nossa casa perguntando por ela. O homem fez segredo do próprio nome, não quis dizer como se chamava porque, segundo ele mesmo, seu nome era tudo o que lhe restava. Ofereceu suas condolências pela partida de minha avó, doeu-se pela nossa dor e se despediu. Foi assunto de toda a família saber que a vó Penélope, na idade dela, tinha pretendentes. Nunca mais tivemos notícias dele nem mencionamos esse acontecimento depois. Como sempre, ficamos quietos e esquecemos.

  • Coisas duráveis

    Há uma pergunta que atravessa os séculos sem nunca envelhecer: se tudo passa, o que nos resta pensar, e porque valorizar o que temos e vivemos hoje? Os gregos chamavam esse fluxo ininterrupto de panta rhei (tudo flui) e Heráclito o personificou no rio onde jamais nos banhamos duas vezes na mesma água. A efemeridade não é apenas uma característica acidental da existência, ela é a própria textura. Talvez o primeiro espanto filosófico diante da brevidade das coisas venha da comparação entre a solidez aparente do mundo e a fragilidade real de tudo o que nele habita. As montanhas parecem eternas, mas a geologia nos ensina que elas também se erguem e se desgastam, como ondas petrificadas. As estrelas, que os antigos supunham fixas na abóbada celeste, nascem, brilham e morrem em explosões tão vastas quanto silenciosas. Se até o cosmos tem seu prazo de validade, o que dizer de nós, criaturas de passagem?

    Há uma dimensão trágica nessa constatação, mas também uma beleza sutil. Os estoicos compreenderam que a consciência da finitude não deveria nos lançar no desespero, mas sim na valorização radical do presente. Marco Aurélio escrevia para si mesmo: “Você poderia viver agora a vida que pensa que viverá quando se aposentar”. A efemeridade, vista com olhos lúcidos, é um convite à presença. Se o instante é tudo o que temos, que seja então plenamente vivido. Os existencialistas do século XX radicalizaram essa percepção. Para Heidegger, o ser para a morte não é uma patologia, mas a condição que nos torna autênticos. É a consciência de que nossa existência é limitada que nos permite escolher, nos comprometer, dar direção à vida. Sem o horizonte do fim, tudo seria indiferente, poderíamos adiar eternamente as decisões, como personagens de um teatro sem cortinas.

    No Oriente, o pensamento budista oferece outra chave, a impermanência (anicca), é uma das três marcas da existência, ao lado do sofrimento e da ausência de um eu permanente. Mas longe de ser uma maldição, ela é precisamente o que torna possível a transformação. Se tudo fosse permanente, estaríamos condenados à repetição do mesmo. Devido a mudança continua temos a oportunidade de florescer, aprender, nos libertar.

    A contemporaneidade, no entanto, vive uma relação esquizofrênica com a efemeridade. Por um lado, aceleramos o fluxo, por outro, tentamos desesperadamente congelar a vida em imagens, memórias digitais, registros que prometem imortalidade num disco rígido qualquer. Fotografamos a flor para que ela não murche, sem perceber que a flor murchou enquanto a fotografávamos. A experiência do belo, do amor, da amizade, todas elas são intensas justamente porque são passageiras. Uma felicidade eterna deixaria de ser felicidade para se tornar uma tediosa repetição. O que dá sabor ao vinho é saber que a garrafa se esvazia, o que torna precioso o encontro é saber que ele termina, mesmo entendendo que, mais cedo ou mais tarde, uma mão distraída nos colherá, pois as coisas duráveis são feitas do tempo que passa.

  • Poema #08: o velho tênis nos fios elétricos

    só Deus & o Diabo
    sabem
    o quanto eu caminhei
    até chegar
    aqui
    nesse fim de mundo.
    hoje
    joguei
    meus velhos & gastos
    passos
    no alto
    dos fios elétricos.

    acendi uma luz no fim do beco.

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