Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.
  • Contos

    Os laços

    Os laços de Maria me enfeitiçavam. Eles me atraíam como uma medusa. Não era possível olhar diretamente nos seus olhos. Havia, de minha parte, uma tremenda vergonha. Ainda tinha um atrativo peculiar, o aparelho ortodôntico, com uma linha de aço que ficava para fora da boca, como um ser especial, de outro mundo. Conhecem

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  • Contos

    Expectar

    A cadeira vazia é sinal de luto, a falta do desejo. Morreu muita coisa em mim desde que Maroca se foi. Só tínhamos a nós mesmos, porque nossa família se dispersou, e nossos parentes moram distante, em outro Estado – é uma história longa, mas vou resumir: passei num concurso para um bom cargo no DNOCS; nessa época, namo

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  • Contos

    Menino São

    Ricardinho viajou para a China e vai ficar, pelo menos, uns seis meses lá. Foi a estudo. Ele é um menino que gosta de se atualizar, para atender melhor os seus pacientes, com técnicas modernas. É médico, e faz cirurgia de mão, sua especialidade. Disse a mim e à sua mãe que vai trabalhar/estudar no melhor centro de pesq

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  • Contos

    Desmedida

    Mainha prepara o café da manhã todos os dias, às 5h, rigorosamente assim. Acorda e canta com os galos, porque é feliz. Nunca reclamou da vida, desatinou ou embruteceu, apesar da dureza que passou. Teve de criar sozinha dois filhos, revezando com a minha tia, também bondosa, que vinha ficar com a gente em casa. Tia Laur

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  • Contos

    Não sou desse mundo

    Já amanheceu. São cinco da manhã e não preguei os olhos. O sol não tem um pingo de pudor, atiça a minha visão e o meu corpo. Tento me levantar, mas o corpo pesa uma tonelada. Passo mais cinco minutos deitado, esperando as engrenagens do corpo funcionarem. É pavorosa a sensação de enfrentar o dia. Fico mais cinco, dez m

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  • Contos

    Serena

    Serena entrou no meu mundo por acaso – se é que posso acreditar em acaso; não estou tão seguro assim. Eu não pretendia adotar, essa era uma máxima que construía na minha cabeça pelo fato de ter um primo adotado que sofreu com vários transtornos por não o aceitar. Wilson, o nome dele, tentou se matar umas duas vezes, me

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  • Contos

    Sunshine

    Fui surpreendido com a doença do Sunshine. Ele sempre foi tão esperto; um gato para além dos limites. Agitado, inquieto. Veja, já passou três dias fora de casa e apareceu como se não tivesse acontecido nada, magro, arranhado de briga etc. Fez aventuras de todos os tipos, como subir na minha antiga casa e pular de telha

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  • Contos

    Noites sem fim

    Estou desde às 23h30min acordado. Dormi praticamente duas horas. Já são 4h30min, e nem um sinal de sono. Esboço bocejos ritmados, como se meu corpo fosse se render. Vejo meu filho e minha esposa dormindo plenamente e eu reflito sobre a beleza e a aflição. Logo mais irei ao trabalho, às 7h. Como todos os dias, receberei

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  • Contos

    Passagem

    Talvez essas sejam as minhas últimas palavras. Mas sempre acho que serão as minhas últimas palavras. Insisto em escrever isso, quando sinto dores (fortes dores). Estou completamente enferma, e os médicos não detectam nada. Já fiz uma porção de exames, e ainda os faço. Gasto um dinheirão com isso. Se procuro na internet

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  • Contos

    LAR

    Gilda não me dá descanso. Diz que aposentadoria não é meio de vida. “Homem aposentado é bom para não prestar”. Raro me deixa visitar os amigos, porque preciso, prioritariamente, e diuturnamente, faxinar, lavar as roupas (até dos netos), lavar a louça e arrumar o guarda-roupa. Não acho que homem deve estar em pedestal,

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  • Contos

    Liberdade última

    Sempre morei numa casinha construída ao lado da casa da minha avó. Foi um presente do meu avô à minha mãe. Ele queria todos os filhos próximos. Deu um duro danado para que isso se concretizasse. A bem da verdade, fui criada por minha avó, porque minha mãe viajava muito a trabalho e, quando estava em casa, nunca tinha t

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  • Contos

    Mabel

    Tenho certeza de que Mabel se esqueceu de mim. Já são muitos anos sem a ver, pelo menos. Fizeram com que se esquecesse, decerto. Eu fui bem quisto na sua família, mas depois passei a ser persona non grata – e o verdadeiro motivo não sei. O momento da ruptura foi abrupto, desproporcional. Meu pai havia falecido há dois

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  • Contos

    Prisão

    Fábio não é digno de ser dito nessas linhas, mas a minha psicóloga cruel pediu para contar as artimanhas do malfeitor, para eu elaborar, mais uma vez, essa situação que me inferniza. Ainda nos anos 90, Fábio era dono de uma videolocadora. Eu vivia lá por conta dos jogos de videogame, quase sempre sem dinheiro e esperan

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  • Contos

    Não arredo pé

    Natyely se deleita com o meu fracasso. Ela é o único ser que conheço que não tem empatia. Quando éramos criança, ela ria das minhas quedas, até quando fraturei o braço. Na ida para o hospital, não parava de rir, um riso estridente e sarcástico, como se eu fosse um frouxa, e o pior, meus pais não diziam nada, não a mand

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  • Crônicas

    O chamado

    O telefone tocou. Não olhei, de primeira, porque estava preparando o café e o pão com mortadela, para o desjejum. Entre uma coisa e outra, vacilei e vi o nome de Iasmin na tela do celular. Por que fiz isso? Foi instintivo ou uma premonição? Uma coisa absolutamente inesperada e absurda aconteceu. Era ela mesma. Quem dir

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  • Contos

    Não tô nem aí

    Pega fogo, cabaré… Tem dias que só quero sumir, arranjar um jeito de me safar dessa vidinha. Gregório, meu colega, me diz que não vai durar muito na empresa. Cara, se Gregório sair, vai virar um mausoléu de tristeza. Ele que diverte a gente, faz o tempo passar mais rápido com as suas piadas, é um verdadeiro mágico. É a

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  • Contos

    Pais de filhos mortos

    Não sei o porquê de tanta encrenca na vida. Aliás, é muito mais que encrenca, é uma calamidade familiar. Onde foi que eu errei? Dei um duro danado para educar os meus filhos, e de retorno só recebo ingratidão. Morro de desgosto, e, inclusive, minha saúde tem se debilitado progressivamente. Malu não sabe também o que fa

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  • Contos

    A fuga

    Um caminhão passou por cima de mim, depois da notícia dada por Flávia, minha filha. Ela veio bem cedo à minha casa, enquanto preparava o café, e disse que Murilinho tinha desaparecido. Minhas pernas tremeram, mal pude ficar em pé – fui colocada na cadeira, segura pelos braços, como uma velha coroca. Sentei-me por algun

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  • Contos

    Não sei se isso faz sentido

    Cheguei ao fim da linha. Não basta seguir por seguir, sem propósito. A vida me impôs barreiras e superei quase todas. Agora, depois dos sessenta, estou endividado, falido e exausto. Tudo por causa da minha consciência franca, para acreditar nas pessoas. “Celso, tu tem condições de comprar isso! Tu pode viajar, espairec

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  • Contos

    Posso ser escritor

    O último gole de café foi tomado rápido, para satisfazer a premência do dia. No ato, num pulo, fui à sala do chefe, para atender a uma demanda (ele chamou, quase gritando, numa ânsia descomunal, como lhe é peculiar). Com a vista cansada, de passar o dia no computador, tive um pouco de turvamento. Titubeei. Um amigo per

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  • Contos

    Só se é de parar quando morrer

    Com dona Raimundinha não tem brincadeira. Mulher trabalhadora, venceu na vida a custo de muito suor, com o seu restaurante lá no centro. Tenho orgulho de minha mãe. Além de tudo, me ensinou a ler e a escrever, porque eu tinha certa dificuldade de decorar as letras, ou mesmo uma dislexia, algo não diagnosticado, porque

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  • Contos

    Consciência econômica

    Não tenho mais medo do futuro. Minha mulher sempre me falou para curtir o presente, que “a vida é o agora!”. Mas, filho de um pai escrupuloso, tive a tendência de seguir os seus passos seguros. Criado por ele, devia ter uma “consciência econômica” – esta frase ecoa ainda hoje – quanto aos gastos, inclusive com a alimen

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  • Contos

    Enfim, Carnaval…

    Já sei bem que é Carnaval. Os sons da rua anunciam a jornada – repare que até os pássaros são proibidos de cantar, com a arruaça que se desorganiza pelo Centro da cidade. Ronaldo, meu vizinho, saiu cedo, às 5h, e me deu notas de como serão as suas aventuras pelas praias do Ceará. Falou que iria de Beberibe a Paracuru,

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  • Contos

    Fervor

    Não tinha nenhuma pretensão de me esquivar. Sou jogo aberto, embora um pouco carrancudo. Apesar da minha masculinidade exacerbada, dei total liberdade aos meus filhos. Paulinho era o único que não se abria muito. Vez ou outra, mesmo depois da separação de sua mãe, tentava uma saída só nossa, para assistir a um filme ou

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    O peso da vida

    Tento não crer nessa tristeza que me abala. Já são muitos os motivos para sofrer. Tá pensando que é por coisas externas, como a falta de minha mãe? Não, absolutamente. Perdi-a, como perdi o meu pai, num acidente de trânsito, ainda na infância. Fui criado por uma tia pobre e carrasca. Ela se satisfazia em me ver padecen

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  • Contos

    Matei

    Nada que pudesse dizer me livraria do pecado. Eu havia matado, ainda que por puro instinto e defesa. Naquela noite, eu lembro, estava afobado e cansado. Entrei em casa arrastando a bolsa do trabalho no chão. Havia brigado com o meu chefe Roberto por causa da sua implicância comigo; ele tem a mania de dizer que faço cor

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  • Contos

    A falta

    Na falta de Ana, me apeguei a Larissa. Não é que fosse um pai relapso, mas dei muita importância ao meu trabalho, e deixei a infância de minha filha de lado. Não sou também um pai muito amoroso, apesar de tentar. Minha filha sempre procura chamar a minha atenção com conversas desconcertantes, como paquera e outras cois

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  • Contos

    Herança

    Não há palanque para bobeira. De minha parte, não vou dar cartaz. Lícia tem a mania de aparecer, de se fazer chamativa na internet. Quer ser influenciadora. Mas de quê, meu Deus? Não tem modos. É exagerada. Uma pessoa pobre, insuportavelmente sem intelecto. Não gosta de ler. Já falou que abomina os livros – espero que

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  • Contos

    Ano-Novo

    Ano-Novo. 2026 está aí. Caminho em direção à casa de meus pais, solitário. Como moro a cerca de duas quadras, resolvi ir a pé. O sapato esquerdo aperta, por conta do joanete, que quase expõe o osso para fora. Caminho devagar, para amenizar a dor. Penso: por que não fiquei em casa? Não gosto de réveillon. Poucas festas

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  • Contos

    Inferno

    Numa terça qualquer, à tarde, sol a pino, estavam todas as roupas estendidas no varal. Salete tirou tudo o que já enxuto, para que, quando o marido chegasse do trabalho, estivesse tudo arrumado. Jonas não gosta de bagunça. Salete sabia desde o dia em que se casou. Mudança brusca de comportamento. E eles ainda foram mor

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