Contos

Bobeiras

Faz tempo que falo com Renata sobre a situação do Marcelo. O menino está impossível. Não cumpre regras. Não respeita as professoras. Renata me diz que ele é somente um menino “normal”, saudável e brincalhão. “São coisas da idade, meu bem, não há nada de errado”. Como não? Na semana passada, no dia de banho de piscina na escola, o Marcelo, por puro impulso, furou a piscina inflável. O diretor veio falar comigo, que ele simplesmente, do nada, sem confusão alguma, pegou um pedaço de madeira e enfiou no plástico da borda. Acabou o dia de muitas crianças. Perguntei ao Marcelo se tinha ficado feliz, ele disse que não, mas com um ar de satisfação. Será que meu filho tem desvio de personalidade? A cabeça não para de rodar. Agora, todos os dias sou chamado pela coordenação. Já pensei em tirar o Marcelo do colégio, porque poderia haver algo de errado com a relação escola e criança hiperativa. A professora dele veio me contar que ele estava tirando o lanche das outras crianças, porque, segundo ela, “era mais gostoso que o dele”. Eu, por acaso, vou mandar bagulho para o meu filho merendar na escola? Mando sanduíche, suco e biscoito, às vezes. Ele tem de se acostumar a ter uma alimentação saudável. Converso muito com ele, brigo, mas não bato; quero que ele entenda da maneira certa, sem grandes embates. Felizmente, Renata concordou em levá-lo a uma psicóloga. Vai ter sessões normais e depois fazer um teste para saber se tem TDAH ou outro transtorno. Fico preocupado, sem saber como lidar, em muitas situações. E ele está crescendo, mais rápido do que o esperado, é verdade. Tenho feito o máximo que um pai médio pode fazer. Mas minha cabeça entra em parafuso quando a tia do colégio vem dizer que ele está espiando as meninas indo ao banheiro. Isso não é idade para uma criança se interessar por questões sexuais. Freud pode me contradizer. Não sei bem o que fazer. Converso, mas parece que entra por um ouvido e sai pelo outro, sem que provoque uma mudança razoável. Renata pede para eu me acalmar, que tudo está se resolvendo. Ela tem conversado com a professora dele e, animada, diz que estão colocando as coisas no lugar. Faz duas semanas que não recebo reclamações suas. Marcelo mesmo, quando vou buscá-lo no colégio, diz que não fez nenhuma bobeira. Já é uma evolução. Ainda que recente, talvez a psicóloga tenha conversado com ele de uma forma técnica que o pai não saiba resolver. Estudei um pouco de Melanie Klein, a grande psicanalista das crianças, mas não o suficiente para poder mudar o fado. A questão é que talvez eu não tenha pulso suficiente. A questão é que eu posso ser a raiz do problema, por não saber direcioná-lo. Tenho de levar mais as minhas inquietações ao meu analista, para que possa elaborá-las, pensando no bem do meu filho. Talvez eu tenha que me preocupar de menos e deixar as coisas andarem como tem de ser. O mundo ensina e muito.

Mostrar mais

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar