COntos

  • REINO ANIMAL

    A primeira vez que Joana trouxe um sapo para casa foi um alvoroço. A família não sabia como agir, a menina tinha só cinco anos e uma afinidade especial com os bichos. Até quis levar o sapo para dormir com ela. A muito custo, conseguiram convencê-la de que o sapo precisava voltar para casa dele a fim de se despedir dos amigos.

    Depois do sapo, foi um pintinho da feira, que acabou virando frango e morreu de estresse. Um jabuti habitou a banheira da casa apenas uma semana, provavelmente morto por engasgo com um pedaço de couve. Até uns micos que passaram a frequentar a janela da casa, atraídos pelas bananas que Joana ofertava, ela quis domesticar. Terminou ganhando uma Yorkshire, toda branquinha, que levava escondida para a escola na mochila. Recebeu o nome de Algodão e viveu quase dez anos, falecendo de problemas respiratórios.

    Adulta, morando sozinha, desenvolveu uma fobia de convívio social. A humanidade para ela não tinha o menor sentido. A natureza e os bichos eram seu derradeiro conforto, focada no resgate, reabilitação e adoção de animais. Joana não podia ver nenhum animal abandonado, que cismava de adotar. Para amenizar a saudade da Algodão, pegou um vira-lata, misturado com poodle, com pelos na região do focinho. Deu-lhe o nome de Jânio.

    O primeiro gato adotado foi o Cazuza, um siamês magrelo, quase esquelético, mas uma simpatia. Festivo até demais para um felino. Sempre carinhoso, a não ser quando tinha acessos de tosse. Logo a seguir, veio a Alcione, gata de pelagem marrom, sem pedigree, traumatizada e arredia. Desconfiada com estranhos e de hábitos noturnos, interagia pouco, sempre escondida pelos cantos da casa. Devia ter sofrido maus tratos antes de ser resgatada por Joana. Alcione vivia às turras com Cazuza, mas não se separavam. Adoravam ficar se implicando. Alcione, mais encorpada, levava vantagem.

    Jânio não se misturava. Sua missão era vigiar a porta, atento a quem entrava e saía. Não era de latir. Um cão silencioso e observador, talvez por isso se desse tão bem com os gatos.

    A chegada de Agnaldo causou uma certa surpresa. Um periquito-australiano que aparecera do nada na janela. No início, temeroso, foi aos poucos se enturmando e virando hóspede. Atrevido, não deixava em paz os gatos e dava voos rasantes pela casa. Joana era contra gaiolas, achava que todas as aves deviam voar livres. Agnaldo tinha a sua gaiola com a lateral totalmente aberta. Na verdade, só entrava para se alimentar e matar a sede. Tinha o estranho hábito de dormir com Jânio.

    O desafio maior foi com Eurico, o hamster abandonado. Quando o achou escondido num bueiro, largado à própria sorte, Joana não pôde resistir e o levou para casa. Todos os moradores o receberam com afeto e curiosidade. Cazuza cuidou de sua higiene e Alcione, com seu instinto materno, adotou o pequeno roedor. Jânio apenas observava e Agnaldo nunca chegava perto. Talvez estivesse prevendo o que viria a seguir.

    Eurico foi crescendo e se transformou. Endiabrado, corria atrás dos gatos e do Jânio para morder. Nem o Agnaldo escapava. Sonso, toda vez que Joana chegava em casa, o danado fingia se comportar.

    Ainda assim, aquele lugar era bom de se viver. Joana e seus amigos bichos, família reunida e feliz. Ela não mostrava nenhuma surpresa, já que todos ali, diferente dos seres humanos, comportavam-se como animais. Cada um tinha a sua história de abandono, mas nos olhos de Joana encontravam um porto seguro. Ela costumava dizer que humanos perdiam tempo tentando ensinar os animais, quando deveriam sentar e aprender com eles.

    Até que Joana perdeu o controle. A coisa toda tomou ares de minizoológico: pelo apartamento agora circulavam mais oito gatos,
    iguanas, um casal de furões, uma chinchila sem rabo, dez cágados e uma cacatua com o bico quebrado.

    Ninguém mais se entendia. Um dos gatos, recém-chegado, comeu o hamster. Eurico saiu pela janela e nunca mais voltou. O casal de furões cismou com Jânio. A chinchila não parava de dar guinchos agudos de meia em meia hora. Podia marcar no relógio. Talvez estivesse sentindo dores ou por implicância mesmo. Chinchilas são assim, meio conflituosas. Joana não tinha mais sossego. A cacatua, com seu bico partido, definhava por não ter como se alimentar. Os cágados a tudo assistiam passivamente, como todo bom cágado. Com aquela confusão, Jânio passou a latir para todos que passavam pelo andar. O síndico foi chamado. Os vizinhos reclamavam do barulho e do mau cheiro.

    O siamês Cazuza, angustiado, tentou saltar da janela e ficou preso o parapeito. Alcione miava em desespero. O Corpo de Bombeiros foi acionado e Joana se juntou a eles, se apresentando como ativista dos direitos dos animais. Os moradores ensaiaram uma vaia e o síndico ameaçou denunciá-la. Acuada, Joana tentou se justificar: até Noé tivera problemas com o excesso de bichos na arca.

    Estava cansada. Chegou à conclusão de que, tanto quanto a humanidade, o reino animal ia pelo mesmo caminho. Más influências, não havia dúvida.

  • Uma história de gatos e ratos

    — Verônica! Finalmente resolveu aparecer depois de tanto tempo. Ainda se lembra do caminho de casa? Bem, acho que essa não é mais sua casa.

    — Quarenta e sete dias.

    —Você não atendia meus telefonemas…

    — Não quero falar sobre isso agora. Passei aqui porque preciso pegar umas coisas. Rafael, você tá molhado, pingando. Sai, tenho uma reunião de trabalho daqui a pouco.

    — Fiquei o dia todo na piscina. A água me faz bem, me purifica.

    Como estamos longe do mar, tenho de me virar com a piscina mesmo. Ah, eles começaram a reprisar aquela novela que você fez… Queda livre, certo?

    — Pois é, eu saio logo. Morro afogada por volta do capítulo 50. Foi horrível gravar aquela cena.

    Ao contrário de você, não tenho essa paixão toda por água. E o Tarantino tá por aí? Saudade dele…

    — Sei lá. Esse gato anda tão esquisito. Passa o dia todo enfurnado em algum buraco. E deu pra sair por aí. Às vezes, fica dias fora de casa. Comportamento estranho. Será que tá sentindo sua falta? Mas pega logo o que quer e se manda.

    — Rafael, você voltou a beber?

    — Voltei, deu pra perceber? Na verdade, nunca parei, minha querida.

    — A gente devia pensar em vender essa casa. Tem um amigo da minha mãe que é corretor…

    — Aqui é tão isolado, não é o que você vivia dizendo? O lugar não é valorizado, é tudo longe. Até pra comprar pão é preciso pegar o carro. E o que mais tem por aqui é imóvel vazio. Vamos ser realistas, Verônica.

    — Sem contrato na TV, sem trabalho no teatro. Tô filmando um curta. O fato é que preciso de grana. Minhas economias vão acabar…

    E você já arranjou alguma coisa?

    — Isso não é da sua conta.

    — Tá namorando? Arrumou alguém? Será que alguma mulher vai entrar por aquela porta a qualquer momento?

    — Isso também não é da sua conta.

    — Mas então, a gente precisa vender essa casa. Cada um pega a sua parte, vamos resolver logo essa situação.

    — Você já viu o sol que está lá fora? Não quero falar de negócios num dia como hoje.

    — Olha, Rafael, eu…

    Verônica se preparava para ir embora quando Tarantino surgiu na janela da sala. Agora tingidos de vermelho, os pelos brancos ao redor da boca do felino conferiam-lhe um aspecto soturno.

    Eriçando o corpo esguio e produzindo ruídos esganiçados, o bicho aproximou-se de Verônica e atirou aos pés dela o rato morto que trazia na boca.

  • O pião

    Quando o tio Luís encontrava alguns meninos brincando com pião, logo se oferecia para demonstrar a sua habilidade. Escolhia o pião mais gordinho, que era o de que mais gostava, e mais liso, de tanto uso. Enrolava a fieira no pião com um capricho minucioso de filósofo. Escolhia a área de terra mais limpa, que não tivesse nenhum empecilho para quando o pião girasse sobre si mesmo. E então o lançava, não para a terra, como seria de se esperar, mas para a frente; dava depois, ou melhor, concomitantemente, um jogo com a mão e o trazia de volta, para que viesse girar na sua mão grossa de homem da roça.

    Em seguida repetia a operação. Enrolava novamente a fieira no pião com o seu capricho minucioso de filósofo. Todos os mesmos passos anteriores; mesmo a escolha do pião: examinava um a um os piões dos meninos, para enfim se decidir pelo mesmo pião. Quando o lançava, com a ponta da língua de fora, para maior exatidão na pontaria, e o trazia de volta, não o pegava mais na palma da mão, mas na unha. Na unha!, exclamavam interiormente todos os meninos. E todos, os meninos e o tio Luís, se punham a observar em êxtase o universo na forma de um pião encantado a girar, primeiro na mão calejada, depois na unha disforme de um homem rude, para por fim cair exausto, vencido.

    Todos, os meninos e o tio Luís, mal podiam resistir à tentação de aplaudir o desempenho exímio do universo, que girava como um simples pião nesses calos grosseiros ou nessa unha feia, estragada.

  • OS CADERNOS

    “Sempre diremos tudo um ao outro, inclusive o que não for bom. Mesmo o que for desagradável deverá ser dito. Porque calar é perigoso. Não nos separe o silêncio, nunca.”

    Assim foi o pacto que fizeram Carlos e Isabel, tão logo se descobriram apaixonados e dispostos a viver juntos vida afora. “Tem a minha palavra”, disse Carlos. “Tem a minha palavra”, respondeu Isabel. Casaram-se poucos dias depois. Ao cabo de dez anos, com a paixão um tanto esgarçada e frouxa, ainda mantinham o acordo dos primeiros anos.

    Carlos:

    — Sabe, querida, o que seria bom? Que você aprendesse a cozinhar direito de uma vez por todas. As pessoas costumam seguir algum livro de receitas para preparar comida decente, caso não tenham aprendido com a mãe. É fácil, basta saber ler. Outra coisa: seria muito bom também que você perdesse uns quilos. Sua saúde e sua autoestima agradeceriam. Depilar as pernas com mais frequência também é uma ótima ideia. O que você acha?

    Isabel:

    — Eu acho que não vou fazer nada disso, querido. Se fosse para mudar alguma coisa, melhor seria que você tomasse a iniciativa. Sua voz é irritante, parece um pato engasgado. Quando você ri, tenho vontade de enfiar uma faca em sua boca. Falta-lhe inteligência. Essa sua barriga peluda me causa náuseas. Não fosse a minha estranha fixação pelo casamento, já o teria abandonado há muito tempo. Estou bem assim, com esses quilos a mais.

    Os dois logo compreenderam que seu relacionamento estava naufragando e buscaram ajuda. Uma amiga recomendou um terapeuta especialista em casais em crise. Foram vê-lo.

    Terapeuta:

    — A relação de vocês está indo mal pelo excesso de sinceridade. Eu sugiro um remédio simples: o silêncio. Parem de dizer tudo o que pensam um do outro. Acostumem-se a falar pouco e a trocar somente frases cordiais. Habituem-se a escrever o que realmente desejariam falar. Façam isso em segredo, nenhum dos dois precisa saber o que o outro escreveu. Aqui estão dois cadernos, em que anotarão as coisas ruins que deixarão de falar. Desejo sorte ao casal. Sejam felizes.

    Carlos e Isabel saíram do consultório carregando cada um o seu caderno. Durante meses seguiram rigorosamente a orientação do terapeuta. A comunicação entre os dois tornou-se mais afável, embora curta. Os diálogos se reduziram à troca de algumas frases na frente da televisão. No restante do tempo, dedicavam-se a registrar no caderno o que não diziam um ao outro. Quando um volume ficava cheio de anotações, compravam outro. Os cadernos foram se multiplicando com assustadora rapidez e logo a casa começou a ficar cheia deles. Estavam empilhados em todos os cômodos, até no banheiro e embaixo da escada. Cadernos, muitos, uma imensidão deles. Tantos, que Carlos e Isabel tiveram que abandonar a casa e procurar outra moradia. Os cadernos, cheios de frases não ditas, não deixaram espaço para os antigos moradores.

  • Desperdício de amar

    Dandara tinha uma casa espetacular. Sendo minha melhor amiga, me chamava várias vezes para visitá-la. Brincávamos e esquecíamos do tempo. Dormi algumas vezes lá durante as férias. Sua mãe gostava de mim porque eu era educada e estudiosa, talvez pensasse que eu seria uma boa companhia para a filha. Seu pai era arquiteto de “mão cheia”, como dizia mamãe. Era uma família endinheirada, diferente da minha, que não chegava à classe média. Nunca percebi qualquer sinal de preconceito. Nossa amizade se formou no colégio. Meus pais, mesmo com pouco estudo, garantiram que eu estudasse num das melhores escolas da cidade. Papai era motorista de van escolar, enquanto mamãe trabalhava para a high society, elaborando roupas. Era levada aos shoppings para copiar os modelitos só de olhar. Um fato muito triste foi que meu irmão não entendeu a força de nossos pais e enveredou para as drogas. Ele era um menino bom e depois se tornou irreconhecível, inclusive pela agressividade. A família de Dandara descobriu que ele estava internado. Fui literalmente proibida de vê-la. Os pais de Dandara ajuizaram que éramos uma família desequilibrada. A dor foi profunda, em não poder mais brincar com a minha melhor amiga, ou mais do que amiga. Sentia sua falta escutando Laura Pausini. Lembrava-me da vez em que encostei minhas mãos, sem querer, nas suas pernas, e me demorei, olhando-a cara a cara; não tivemos reação. Cheguei mesmo a imaginar que estava apaixonada por ela, e não sabia lidar com isso. Me penitenciava. Pedia a Deus para não pensar mais em Dandara, a menina perfeita. O amor era tanto que cheguei a pegar um ônibus e ir até a sua casa. Bati à porta, e Jussara abriu. Pediu que eu fosse embora logo, porque podia dar confusão. Chorei por meses, e minha mãe pensava que tinha depressão, coisa do tipo, e me levou a um médico boboca, que passou um remédio que me deixava letárgica; eu já não era a mesma. Dandara mudou de escola, para uma melhor. Eu culpava o meu irmão. Na verdade, o odiava com todas as minhas forças. Jorge fez, ao mesmo tempo, que eu o odiasse e amasse Dandara mais e mais, dois sentimentos opostos. Ele me impediu de amar. Até hoje, passados dez anos, Jorge apronta bastante, exauriu as forças de meus pais, já tão sofridos, até gerou um infarto no meu pai, que felizmente se recuperou bem… E eu não consigo esquecer Dandara, a menina dos meus sonhos. Deve estar casada, com filhos, não se interessar um milímetro por meninas. E passo de relacionamento em relacionamento tentando encontrar aquele olhar vibrante, que, por tanto tempo, provocou o meu coração. É um desperdício de amar. A nossa história não vingou. Mas ainda sonho um dia poder lhe reencontrar, ainda que seja somente para vê-la, exuberante, como deve estar.

  • INSTINTO

    Toquei a campainha e aguardei cerca de dois minutos até que viessem atender. A longa espera aumentou meu nervosismo. Sim, num caso desses, dois minutos constituem de fato uma longa espera. Desculpando-se pela demora, Augusto abriu a porta. Eu poderia ter interfonado antes de subir, mas, depois de refletir por alguns instantes, decidi que a atitude mais acertada seria aparecer sem avisar. Melhor que ele ouvisse o que eu tinha a lhe dizer com o espírito desarmado. Educado e protocolar, Augusto me cumprimentou com um aperto de mão. Provavelmente, deve ter estranhado o fato de me ver ali diante dele. Nossa relação se resumia aos bons-dias e boas-noites de praxe proferidos, em nome da civilidade, pelas dependências do prédio quando a casualidade fazia com que nos esbarrássemos. Já sentada no sofá, passei a examinar o ambiente. Atitude espontânea, coisa de mulher, não tive como evitar. A decoração da sala era de muito bom gosto. Nas paredes e em porta-retratos espalhados por vários lugares, fotos do dono da casa ao lado de celebridades – cantores, atores e apresentadores de TV, esportistas e até políticos, pessoas sorridentes e bem-vestidas. Prêmios, diplomas, troféus e medalhas também podiam ser vistos espalhados pelo cômodo. Você foi muito corajoso na entrevista de anteontem, comentei, tentando aparentar naturalidade. A Mariana Gonzalez é mesmo fantástica, consegue extrair revelações incríveis dos convidados. Eu sempre assisto ao programa, sabe? Desde que ela ainda trabalhava naquele outro canal, você se lembra? É curioso, somos vizinhos há tanto tempo, dez anos talvez… Mas todo mundo hoje em dia é tão ocupado… São tantas solicitações, apelos… Enquanto produzia esse discurso meio confuso, bem diferente do texto que havia ensaiado, tentava ler no rosto de Augusto alguma indicação, mesmo vaga, acerca do que ele poderia estar pensando daquilo tudo. E que parte da entrevista mais chamou sua atenção? Sem dúvida, quando você descreveu o acidente. Perder a esposa de uma maneira assim tão violenta… Eu me recordo bem de vocês dois sempre juntos, abraçados, pareciam se amar tanto. Sua vida mudou bastante, claro, não podia ser de outro modo. Parei de falar. Esperava que essa fosse a deixa para que Augusto dissesse algo. Ele apenas me encarou. Sua expressão continuava indecifrável. Após algum tempo, resolveu se aproximar. Acionou uma espécie de manivela situada perto do braço da cadeira, o que imediatamente a fez deslizar macia pela sala. Antes de parar ao meu lado, deu dois ou três giros e andou para frente e para trás tentando demonstrar o quanto era hábil no manejo daquela engenhoca. Por fim, sorriu amistoso. É difícil acreditar que você não faz sexo desde o acidente. Lá se vão cinco anos, não é? Eu tenho uma proposta a lhe fazer. Talvez você ache estranho… Eu mesma acho estranho. Você é um homem bonito, jovem, interessante. Não, não diga nada a menos que considere essa minha ideia um completo absurdo. Eu penso que isso não está certo, você com certeza continua a ter desejos. Não é porque ficou assim… Paraplégico, interrompeu ele. Não tenha medo de pronunciar a palavra. Me ajuda aqui, anda. Me põe no sofá. Obedeci. Augusto era extremamente charmoso. Um tipo italiano, com a pele muito branca, olhos castanhos amendoados, nariz grande e lábios grossos. Após o acidente havia engordado um pouco. Naquele dia, estava com a barba por fazer e usava uma camisa estampada de seda. Senti que ele queria tocar meu corpo. Consenti. A partir daí, nem eu nem ele falamos mais nada. Passamos a agir comandados pelo instinto. Eu me oferecia àquele sujeito quase desconhecido sem culpa alguma. Íamos aprendendo na hora como deveríamos nos comportar. Nossa experiência prévia valia pouco, logo constatamos. Aquilo era uma espécie de rito inaugural, de cerimônia de iniciação, sei lá. No início, mãos indecisas a respeito do rumo a tomar, embaraço. Felizmente, foram apenas três minutos de inépcia seguidos por pelo menos uma hora de destreza. Tudo aconteceu de um jeito suave e tranquilo, mais ou menos como eu havia imaginado. Ajeitando o cabelo e retocando a maquiagem num espelhinho, me preparava para ir embora quando a campainha tocou. Era Carlos, uma espécie de enfermeiro de Augusto, que voltava da rua carregado de sacolas. Esqueci a chave, anunciou meio desconsertado ao constatar minha presença. Não sei onde ando com a cabeça, completou. Notei então que os dois homens trocaram um olhar malicioso. Por um instante, me senti envergonhada. No dia seguinte, acordei com um beijo carinhoso do Marcelo me avisando que o caminhão havia chegado e que os carregadores já estavam subindo. É fato que não conseguiria ter feito o que fiz se não estivéssemos de mudança. Sem dúvida, seria muito desconfortável continuar a encontrar Augusto no elevador, na garagem e na portaria do prédio.

  • O MORRO

    No centro da cidade ergue-se um estranho morro. Verde e coberto de flores o ano inteiro, lar de pássaros e vários animais, mas estranho: ninguém o escalou até hoje.

    Contam os antigos que muitos tentaram, mas nenhum retornou; redobraram as tentativas, a subida não oferecia perigo algum; julgou-se que eles haviam se perdido, mas onde? Não se conseguiu saber por que não regressavam.

    Contra todas as recomendações, João e Manuel resolveram subir o morro. Fui com eles, sei do que estou falando; bom, deveria saber. Acontecem coisas nesta vida que não tem explicação mesmo.

    João subiu primeiro; eu e o Manuel ficamos olhando; nada fora do normal: João entrou no meio de umas árvores, apareceu mais acima, depois mais acima ainda, e, quando deveria já estar no topo, sumiu. Gritamos e gritamos, e nada.

    Onde João estaria? Estava tão perto, quase podíamos ouvir a sua respiração. Ouvimos o gemido agônico de um pássaro. Manuel falou: “Não é João.”

    Mas não estava muito convencido: subiu o morro para procurar João e o seu gemido feio. Logo pude ouvir dois gemidos agônicos. Por sete dias ouvi esses gemidos horríveis. Depois, mais nada.

    Ninguém mais da cidade ouviu. E o morro continua lá, agradável, acolhedor, e inexpugnável.

  • A vida em compasso de espera

    Minha avó Penélope perdeu o marido na guerra. Isso é o que ela costumava dizer, embora algumas vizinhas, maledicentes que só, digam que ele saiu por aí a viajar pelo mundo sem pensar em voltar para casa. Não se falava muito sobre isso na família. A verdade é que quase não conversávamos sobre nada. Nos contentávamos em ouvir. Um homem deixou casa e família e não deu mais notícias: para nós, essa informação era suficiente, bastava. Quem perde maridos ou pais geralmente não tem força para se manifestar ou buscar explicações. O tempo se encarrega de explicar.

    Viúva jovem, minha avó trabalhou como costureira para sustentar os filhos. A vida, para ela, passou a ser costurar e costurar. Uma vez tentou se distrair e cantou na festa da padroeira, mas desafinou. Recebeu muitas vaias, fez um escândalo, ficou furiosa, mas depois esqueceu. Não desafinava na costura, e isso a satisfazia.

    Nunca falou com tristeza do passado, nem reclamou de alguma dor de sentimento. Para dor física, tomava uma aspirina e tudo ficava bem. Quando sua visão começou a falhar, continuou costurando guiada pelo instinto. Com décadas sentada na frente daquela máquina, podia costurar até se tivesse ficado cega. Um ponto no direito, dois no avesso, sabia exatamente para onde dirigir a agulha e comandar o pedal. Fazia roupas sem moldes, dizia que não precisava porque conhecia de cor e salteado a medida das mulheres que apareciam em casa querendo um vestido novo, ou uma blusa, ou uma saia.

    Sempre me lembro dela costurando, mas não me recordo de nenhuma camisa ou vestido que tivesse sido fruto de suas horas de costura, como se ela simplesmente costurasse e a peça sumisse. Não tinha outro objetivo senão fazer uma roupa atrás da outra. Era um prazer infrutífero, não se importava com o resultado, apenas apreciava o processo. Talvez, todas as noites, enquanto dormíamos, ela se levantasse para desfazer o que havia costurado e voltasse para a cama sabendo que, com o amanhecer, poderia recomeçar do zero e assim adiar por mais um dia o fim inevitável, que nem sempre justifica os meios, mas justifica muitos medos.

    Minha avó Penélope sempre foi fiel ao marido, principalmente depois de perdê-lo. Permaneceu intocada após o sumiço dele e provavelmente nunca conheceu outro homem em sua vida. Talvez esperasse que o marido de repente voltasse um dia, sem avisar, vestido com trapos como se fosse um mendigo, e ela, mantendo sua dignidade celibatária, pudesse repreendê-lo: “Isso são horas de voltar para casa?” Ele certamente responderia: “Querida, você não vai acreditar no que me aconteceu. Estava voltando direto da guerra quando, de repente, fui capturado por um pirata monstruoso que tinha um olho só, um braço só, um pé só e um pensamento fixo: acabar com a minha raça. Consegui escapar e fui parar no quinto círculo do inferno, onde encontrei antigos companheiros de armas brigando entre si, e então todos nós fomos atraídos por cantos de várias sereias e depois apareceram umas bruxas que me enfeitiçaram e me obrigaram a deitar com elas. Mas essa é outra história, eu conto outro dia. Agora vamos dormir, que estou um bagaço de tão cansado.”

    Meu avô nunca voltou de sua odisseia, e minha avó continuou sua lida diária de tecer e desfazer sua vida até que não lhe restasse mais nenhum fio. Anos após sua morte, ficamos muito espantados quando aquele mendigo apareceu em nossa casa perguntando por ela. O homem fez segredo do próprio nome, não quis dizer como se chamava porque, segundo ele mesmo, seu nome era tudo o que lhe restava. Ofereceu suas condolências pela partida de minha avó, doeu-se pela nossa dor e se despediu. Foi assunto de toda a família saber que a vó Penélope, na idade dela, tinha pretendentes. Nunca mais tivemos notícias dele nem mencionamos esse acontecimento depois. Como sempre, ficamos quietos e esquecemos.

  • Sala de estar

    A sala de estar da casa da minha avó era o ponto de encontro da família aos sábados. Chegávamos cedo, no começo da tarde, e saímos de madrugada. Era uma festança danada. Os mais velhos sentavam-se e contavam piadas e lorotas, enquanto jogavam cartas e tomavam cerveja, fumando – de quebra, também, inundando a sala de fumaça (naquela época era assim; até cheguei a tomar uns goles de cerveja, dados por meu pai, sem cerimônia). Esporadicamente, a reunião se estendia pela cozinha ou varanda – somente quando vovó estava cozinhando, e pegávamos pequenas sobras de rabanada e de bolo, por exemplo. A bendita sala de estar tinha um querer de abençoada, por Nossa Senhora das Graças, de devoção de vovô e de vovó. A imagem ficava bem no centro da sala; era grande, para que pudéssemos controlar as nossas maluquices, talvez. Partilhávamos a aura leve e envolvente, e, não raro, nós, os netos, preparávamos peças teatrais, para que tios, pais e avós pudessem se divertir. Prestavam atenção com uma curiosidade estranha, já que tio Neto e tio Fagner queriam participar, com falas enviesadas, que nos atrapalhavam (era o sinal de que a bebida já havia tomado de conta de suas mentes sãs – ou nem tanto assim). Claro, não havia bom repertório, mas conseguíamos arrancar boas risadas das tias orgulhosas. Logo que vovó adoeceu, as reuniões ficaram esparsas, íamos mais para vê-la do que para nos divertirmos. Se vovó estava doente, era motivo para a minha mãe, sua filha, dar uns beliscões em mim ou no meu irmão, se saíssemos da linha. Eu não sabia, mas a doença de vovó era fatal; ela estava em fase terminal, com câncer. Após seis meses, entre idas e vindas ao hospital, vovó faleceu e deixou um rastro de dor. Vovô não tinha mais ânimo para nada. Eram muito apegados. As reuniões aos sábados se transformaram num purgatório, pois não podíamos brincar (para mamãe, era uma grande falta de respeito com meu avô, que convalescia com a dor da perda da mulher mui amada). Conto essa história toda para dizer que amei muito a minha vozinha, que fazia de tudo para ter a família unida, fortalecida. Nas voltas que o mundo dá, depois de engenharia, terminei a faculdade que fora “proibido” de fazer, a de teatro. As atuações na casa de vovó, levadas a cabo por mim, invariavelmente como diretor, ficaram marcadas numa memória pura e saudosa. Ainda hoje, quando apresento uma peça, rezo a minha vozinha e a Nossa Senhora das Graças, para que me ilumine, para que a performance seja agradável e catártica. Do meu palco me lembro da sala de estar, e o aconchego me inunda. Talvez eu possa ser, para sempre, um ator das pequenas coisas, da formosura, da vontade de viver expressa em meu rosto úmido. Sou desses que amam sem saber o porquê. Amor à vida e gratidão.

  • O último ônibus para o Rio

    Encostado ao trailer, pedi a última cerveja. Proença disse que para ele estava bom. Pagou sua parte. “O ônibus é às nove. Tu tá ligado, né?”, me lembrou, já saindo e me dando as costas, percebendo que eu ficaria por ali ainda um pouco mais. Fiz que sim com um gesto rápido de cabeça para o lembrete do horário do ônibus. Passavam das sete da noite. Ainda havia um resquício violeta de luz do dia no horizonte, sumindo no mar naquele anoitecer de domingo de quase inverno. Eu voltaria com Proença e o resto do pessoal para o Rio, ao menos era esse o combinado. Eles estavam em casa, certamente se aprontando. A hora passava e eu teria que andar até lá, dali uns quinhentos metros, guardar tudo na mochila e tomar um banho para viajar. Só que mesmo antes do Proença sair fora, eu já havia decidido ficar, porque eu estava desconfiado, ou quase certo, do que aconteceria. E já com o Proença longe, ela deslizou os dedos pelo meu antebraço, olhou-me e disse que estava ventando frio. Para completar, passou a língua nos lábios. Concordei, “Sim, tá ventando frio”, só de camiseta regata, sunga e chinelo. “Entra, bebe aqui dentro”. Eu aceitei imediatamente. Quando entrei, ela fechou o trailer. “Está mesmo na hora de fechar”, soltou com malicia, acrescentando que àquela altura e com aquele vento não havia mais ninguém na praia.

    No meio do primeiro beijo, sua minissaia foi ao chão e, logo em seguida, o biquini lilás, o que fazia girar pescoços quando ela dava um tempo do batente e passava pela areia a caminho de um mergulho. “Para me revigorar com os fluidos de Iemanjá”, explicava, com um riso que fingia ser puro, mas que não me convencia. Aliás, acho que a ninguém. Ela ria do jeito que os demônios devem ensinar as mulheres a rir. Os olhos de todos, os meus incluídos, a devoravam por trás dos óculos escuros. Não era bonita. Para dizer a verdade, passava longe disso. Alguns de nós diziam que ela tinha cara de boneco de ventríloquo. Mas seus peitos, suas pernas e, principalmente, sua bunda, a cada vez mais que vínhamos do Rio para os fins de semana e feriados, mais punha ao chão o queixo de todos. Naquele dia, em um desses mergulhos, cruzou comigo, que voltava do mar. Me olhou de cima a baixo, como jamais havia feito. “Aparece aqui no trailer, lá pelas seis”, ela pediu pouco depois, quando eu estava indo embora, perto do almoço. Na hora combinada, apareci, cheguei com o pretexto de acertar as três cervejas que eu havia levado para a areia de manhã. É que Proença estava por lá e eu não queria que ele desconfiasse das minhas intenções. Bebeu a tarde toda, mas agora fazia cara decidida de quem já estava mesmo indo, o que fez em menos de dez minutos. Sozinhos, ela me chamou para dentro, trancou o trailer, nos beijamos e ela mandou ao chão a minissaia e o biquini. Feito isso, se sentou no freezer, daqueles horizontais, usados no comércio. Abriu as pernas. Seu cheiro engoliu o de cerveja passada misturado ao de fritura de peixe, aroma natural dos trailers de praia. Era mais forte, intenso e, claro, delicioso. Naquele momento, tive certeza de que nunca mais na vida o esqueceria. Definitivamente, eu não voltaria para o Rio no ônibus das nove da noite. De repente, me veio um estalo de preocupação, e não era com a volta. “E teu marido?”, me dei conta. Ela dividia com ele a administração do lugar. “Tá em Macaé, foi tentar fechar a venda de uns terrenos por lá. Volta na terça”. Quando acabamos, eu, em êxtase por ter sido o escolhido entre os outros nove que dividiam comigo o aluguel da casa de veraneio, queria mais; aquela ali, meio apressada, no desconforto do lugar, não seria o suficiente, uma oportunidade de ouro como aquela não poderia se resumir a uma única trepada. A ocasião merecia cama, conforto, e mais do que fizemos até ali. Pedi que fosse comigo para a casa. Subindo o biquini, aceitou na hora, como se já estivesse pensando na possibilidade. Disse apenas que eu fosse na frente, que tinha que fechar o caixa, tomar outras providências, e que lá pelas nove apareceria. Fui embora radiante. Repetiríamos noite adentro tudo que aconteceu no trailer. Aquela cavala dos sonhos de toda a casa só para mim.

    “Porra, vamos perder o ônibus por tua causa”, um dos caras reclamou assim que entrei. Comuniquei que ficaria, que só voltaria na segunda, de manhã cedo. Todos fizeram cara de “Então, foda-se. Vam’bora!”. Todos, menos Proença, que muitas vezes funcionava como meu irmão mais velho. “Tem certeza de que não vai?”, e me olhou com olhos de radiografia, de quem havia percebido o que, lá no trailer, estava suspenso no ar. Sim, eu tinha certeza, confirmei, firme. Saíram feito uma tropa, deixando a sala em silêncio e tomada por minha ansiedade pela noite.

    Ela chegou meia hora depois. Estava com maquiagem leve e batom, os cabelos ajeitados pela umidade do banho. Não estava feia ali. Até pensei se ela era realmente feia como dizíamos, ou se nos preocupávamos apenas se ela era gostosa. Usava uma blusa colorida casada com uma bermuda de tecido fino, um pouco transparente, através da qual dava para ver a marca da calcinha, ainda menor do que o biquíni que provocava o êxtase coletivo.

    A noite se desenhava memorável, daquelas de contar para os melhores amigos no bar. Mas não fomos longe e tudo se tornaria sim memorável, só que por outros motivos. A cama incendiava quando percebemos um vulto encostar junto à janela do quarto que dava para a pequena garagem, que por sua vez começava no portão de entrada da casa. Os caras saíram, não trancaram o portão. Apesar da vidraça espraiada, que distorcia as imagens vistas através dela, ele, o dono do vulto, pode perceber nossos movimentos e ter a certeza do que fazíamos. Algum filho da puta, escondido na praia deserta, deu o serviço, e o corno, nome real do vulto, veio em tempo recorde de Macaé.

    Do lado de fora, ele chamou nossos nomes e pediu que abríssemos a porta. Saí de cima dela, me vesti e fui abrir. Seria patético tentar negar. Nos passos que dei entre o quarto e a porta da sala, a principal da casa, me senti em uma reportagem dos antigos jornais populares, aquelas que não acabam bem. Eu só tinha 22 anos, pensei nisso antes de girar a fechadura, já arrependido para o resto da vida de não ter voltado com os caras. Quando abri a porta, o sujeito entrou olhando-me nos olhos, mas em silêncio, para a minha surpresa, que esperava, no mínimo, uma porrada no meio dos cornos. Parado no meio da sala, disse o nome da mulher e perguntou se era eu quem estava no quarto. “Não, era o presidente dos Estados Unidos”, ela respondeu. Meu silêncio tenso abafou minha risada.

    Quando apareceu na sala, já estava vestida, para dar à situação ao menos um pouco de decência. Começaram uma discussão típica dessas horas. Gritos, acusações de ambos os lados, a merda de uma vida conjugal se revelando, vindo à tona em golfadas de raiva e mágoa, como se fosse vômito. Eu tinha a ver com o que havia acontecido do trailer até ali. O que veio antes não era minha culpa.

    Ele ia dos gritos ao choro, retornava do choro aos gritos. “Eu te dei tudo quando você tava fodida, sem ter onde cair morta, quase passando fome, morando de favor. Mais um pouco e ia pra zona”. “E eu que me mato de trabalhar naquela porra, vendendo cerveja e fritando peixe, enquanto você some dizendo que vai vender terreno e nunca que aparece com a porra do dinheiro”. Foi aí que ele se abaixou em pegou uma garrafa de cerveja, encostada no canto da sala. Havia outras por ali. Os putos se mandaram e nem se deram ao trabalho de recolher a porra das garrafas. O movimento dele em pegar a garrafa, apenas este, foi o suficiente para que eu projetasse um enorme caco rasgando minha jugular. Eu só tinha 22 anos, pensei novamente.

    Levou alguns minutos discutindo com a mulher, segurando a garrafa. Em alguns momentos chegou mesmo a sacudi-la no ar. Mas ao contrário do que insinuava, deixou, propositalmente, a garrafa cair da altura dos joelhos. Ela bateu no chão, rodopiou, caiu deitada e não quebrou. Vidro forte, pensei pateticamente e, principalmente, aliviado. Virou-se para mim. Seu choro tornou-se seco e seus olhos, vazios. “E eu te considerava como um irmão”, e falando mais baixo, jogou na minha cara o modo como me tratava. Irmão era exagero, mas ele era realmente camarada de todos nós, dez rapazes entre vinte e vinte e cinco anos que rachavam o aluguel da casa, dormiam empilhados em dois quartos pequenos e uma sala de tamanho médio e se derretiam de tesão pela sua mulher. Se ele percebia isso, não deixava transparecer. Deu as costas e foi embora, sem dizer mais nada. Ela saiu em seguida; não se despediu, não olhou na minha cara.

    Vi as horas. Eram dez e vinte e cinco. De modo algum eu poderia dormir ali naquela noite. Aliás, em nenhuma outra noite mais. O sentimento de vingança poderia vir com a madrugada, nas semanas e meses seguintes, em algum momento até o fim da vida daquele sujeito. Embolei toda minha roupa, enfiei na mochila, apaguei as luzes, tranquei tudo. Agora faltavam quinze para as onze. Até a rodoviária, que não passava de um recuo à margem da rodovia, dava cerca de meia hora andando rápido. Seria o tempo exato de pegar o ônibus, o último da noite.

    A passos largos, quase correndo, ganhei a rua escura, de terra, assustado por qualquer movimento que eu percebesse atrás de árvores e em becos entre as casas. Na beira da rodovia me senti menos inseguro e apertei o passo, confiante de que chegaria a tempo. Mas foi quando de uma rua transversal saiu um carro, arrancando; mesmo no escuro deu para ver que era um Voyage. Com a arrancada, os pneus deslizaram na terra batida, e cantaram quando alcançaram o asfalto. Ao se aproximar de mim, um sujeito colocou metade do corpo para fora da janela do carona, pôs uma das mãos na cintura e fez o movimento de que dali tirava uma arma. Gritou “Vai morrer, filho da puta!”, e apontou para mim. Havia um objeto escuro, pontudo, preso entre o polegar e o indicador de sua mão direita, mas com a iluminação fraca, não era possível saber do que se tratava. O tempo em que o carro levou passando por mim ficou congelado em algum lugar do espaço sideral. Congelados também ficaram minha respiração e meus batimentos. Eu tinha 22 anos. Não imaginei que nessa vida se pudesse morrer na beira de um estrada, longe de casa, num fim de noite de domingo, tão rápido e por um motivo tão idiota: uma buceta misturada a cheiro de peixe e cerveja choca. Finalmente reagi, e intentei me jogar no matagal a minha esquerda, mas antes que eu fizesse isso, o desgraçado recolheu as mãos para dentro do carro, e ainda com a cara do lado de fora, me olhando feito um palhaço no picadeiro, deu uma risada escandalosa, que ecoou na noite e foi sumindo a medida em que carro ganhava velocidade com o arranque e desparecia na escuridão da estrada. Agora com o coração aos pulos e quase sem ar, não sei quantos segundos levei para realmente entender o que havia acontecido. Quando confirmei que estava vivo, voltei a apressar o passo, pensando que aquele imbecil jamais irá supor que não havia pior hora e pessoa mais errada para ele fazer uma brincadeira tão estúpida.

    Olhei o relógio. Onze e dez. Faltava cerca de meio quilômetro para o arranjo de rodoviária. Apressei o passo; agora, praticamente correndo, estava chegando. Foi quando vi, ainda a certa distância, o letreiro luminoso: Macaé – Rio, 23h15. A porta aberta, dois ou três embarcavam. Juntei todas as forças que tinha numa corrida desabalada, mas a porta fechou e o motorista deu seta para a esquerda, anunciando que pegaria de volta a pista. Perder aquele ônibus poderia significar a diferença entre morrer e continuar vivo. Então, tirei ar de não sei onde e gritei que nem um desesperado, acenando que me esperasse. Quase me joguei na frente, como se achasse melhor morrer com a logomarca da Mercedez Benz na cara do que com possíveis requintes de crueldade de um marido traído.

    Para meu alívio, o maior que senti na vida até então, escutei o barulho de ar comprimido do freio do monstro de lata. Em seguida, a porta se abriu, subi e quase sem respirar, sem conseguir falar, tremendo, tirei o dinheiro da carteira e comprei a passagem direto com o motorista. Ele me vendeu uma poltrona da última fileira. Se fosse pendurado no teto, já estaria ótimo.

    Como não havia ninguém ao lado, abri a janela, para que o vento frio da noite, acelerado pela estrada, secasse o suor da minha cara e da minha camiseta. Quando secou, fechei a janela e deitei um pouco o encosto. Lá fora, mesmo fracas as luzes da saída da cidade clareavam a espuma das ondas e o deserto da praia. Repassei tudo o que acontecera naquela noite, lembrei-me dela, de pernas abertas em cima do freezer, no trailer, mas na memória do olfato não me veio seu cheiro, aquele que eu tive certeza de que lembraria para o resto da vida. Naquela lembrança tão recente, estava apenas e tão somente a mistura enjoativa de cerveja passada e fritura velha de peixe.

  • Dois projéteis e um amor feito em pedaços

    (Domingo de manhã, quarto de Sofia)

    O rádio havia ficado ligado a noite toda. Naquele momento, ia ao ar um debate sobre a epidemia letal que tinha começado havia mais de um ano. Infelizmente, diziam os cientistas, o fim do tormento não era esperado para breve. Uma nova variante do vírus, muito mais transmissível, havia surgido no Marrocos, perto da fronteira com a Espanha. Sofia escancarou a janela e deu de cara com uma nuvem acinzentada e espessa. Aquele borrão ostensivo ousava cobrir quase todo o céu e incomodava pela capacidade de ofuscar a bela paisagem natural da zona sul do Rio de Janeiro, cidade que essa paulista de Ribeirão Preto havia escolhido para viver dez anos atrás. Na noite anterior, havia ido dormir ouvindo gargalhadas inoportunas provenientes do apartamento vizinho. O som, mais alto do que de costume, parecia indicar uma festa. A impressão que se tinha era que os donos da casa e seus convidados não comiam, não bebiam, não dançavam, não conversavam, não se beijavam, não se drogavam, não trepavam. Enfim, não faziam nada do que se costuma fazer numa situação do gênero. Apenas gargalhavam de modo histérico e inconveniente. E ouviam música, claro. Uma salada impensável, de gosto duvidoso, cantores de que Sofia já nem se lembrava. Vários simplesmente desconhecia. Algumas poucas canções daquele eclético repertório a fizeram recordar momentos importantes de sua vida. De sua vida com Olavo inclusive, uma das coisas boas que o Rio havia lhe proporcionado. Sim, é verdade, um dia tinham sido felizes juntos. Pouco mais de meia hora tinha se passado. O panorama havia se modificado um pouco. Agora, um solzinho pálido e preguiçoso tinha conseguido furar o bloqueio da nuvem escura e invadia parcialmente o quarto. Ainda deitada na cama, Sofia ligou para Olavo. O barulho das risadas e das músicas ainda reverberava em seus ouvidos. O que tinha a lhe dizer não seria fácil, mas estava decidida a resolver a situação o mais rapidamente possível. Por ela, liquidaria a questão com apenas uma frase, de preferência algo bem curto como acabou, fim, chega, basta, já deu. Mas uma relação, mesmo uma fracassada como a que mantinha com seu colega de firma, não se termina assim, de forma tão econômica. Não é essa a praxe. Olavo mostrou-se surpreso. Pediu e até implorou nova chance. Não gostava de ser contrariado e tinha por hábito dar sempre a última palavra. Nas semanas seguintes, continuou a procurar Sofia e a tentar uma reaproximação. Ela seguia irredutível. Raramente voltava atrás quando tomava uma decisão. Era patético ver um sujeito de mais de 40 anos apresentando um comportamento tão infantil. O que estaria acontecendo com os homens, se perguntava. Por que todos pareciam sofrer de imaturidade crônica? Cerca de quatro meses depois, Olavo sumiu de repente. Na empresa, diziam que havia sido transferido para Salvador. Sofia passou a sentir falta dos telefonemas diários, das cartas melosas, dos bilhetinhos furtivos, dos e-mails caprichados e dos torpedos insistentes do ex. E do sexo também. Como era bom de cama o danado, tinha de admitir. Ficou saudosa do passado nem ela conseguia explicar bem por quê. Somos todos nós, seres humanos, um poço de contradições, havia ouvido num filme alemão na semana passada. Só pode ser isso. Queremos o que não temos e desprezamos o que conquistamos. Um dia, quando já haviam se passado mais de dois anos desde o último contato, Olavo voltou. Reassumiu seu posto e passou a encontrar a ex-namorada com frequência no ambiente de trabalho. A retomada do romance estava destinada a se tornar realidade. Foi assim que, num barzinho da Lapa, ao som de um chorinho bem tocado, selaram o acordo. Estavam namorando de novo.

    ***

    (Sábado à noite, apartamento de Sofia)

    Depois do sexo, Sofia foi até o banheiro enquanto o homem, olhar meio perdido, continuava deitado na cama. Olavo apresentava uma expressão transtornada, o corpo envolvido por uma nuvem negra de ressentimento e amargura. Assim que a mulher voltou ao quarto, ele disse com voz trêmula:

    – Você não devia ter feito o que fez. Quem vai terminar com você sou eu, sua ordinária. Olha bem… Eu tenho uma surpresa, falava, tal qual um personagem de telenovela mexicana, ao mesmo tempo que exibia uma pistola.

    Foram dois tiros no peito antes de a mulher cair diante do armário. Já não respirava. Olavo ainda continuava sendo alguém que não admitia ser contrariado e que mantinha o hábito de sempre dar a última palavra. Sofia nunca poderia imaginar que sua vida chegaria a termo assim, de forma tão cafonamente melodramática.

  • A Papiloscopista

    Papilo o quê? Expectorei na tosse esta pergunta para minha filha Violeta, liberando as vias áreas de um agente irritante. Nunca entendi o seu sonho de ser uma papiloscopista. Quando meninas sonhavam em ser princesas, a minha desejava ser papiloscopista. Hoje fico aliviada dela não ter brincado de cadáveres ao invés de bonecas. Quando ela me falou pela primeira vez da profissão tão sonhada, confesso que não entendi. Naquela manhã ensolarada, ela desembuchou na lata, com voz grave e semblante decidido: “Mãe, quando crescer eu quero ser papiloscopista”.

    Será que seria uma criança de aura índigo? ou eu estaria confundindo a palavra papiloscopia com parapsicologia? Violeta me desorientava com seu ar fatídico, parece ter nascido de fora para dentro.

    Quando menina, ela passava horas a fio trancada no quarto desenhando papiros. O talo do papiro chega a medir seis metros de comprimento, a flor da planta lembra os raios de sol, uma planta sagrada para os povos antigos. Assim divaguei pelos papiros:

    — Será que a profissão de papiloscopista poderia ter a ver com aqueles vibrantes papiros? Ou seriam pupilas? Afinal, ela era a minha menina dos olhos. A pupila fica no centro da íris, também pode ser um botãozinho ou um mamilo. Violeta era minha pupila, que também apreciava os fósseis. Seria então paleontologia a tal da profissão? Quem sabe minha pupila seria uma cientista que estudaria as formas de vida existentes no passado. Ao menos, para uma mãe, parecia mais palatar esta opção.

    Ela adorava carimbar. Carimbava as mãos, dedos e pés , com tinta ou carvão. Carimbava até o rosto na areia da praia. As visitas na nossa casa já sabiam do passe de entrada: seriam carimbadas por Violeta, que construía um cadastro de gente de forma obsessiva. Até que ela começou a desenhar papilas dérmicas, desenhava com perfeição as digitais, que além de exclusivas, nos fazem companhia até a morte.

    A ameaça desta bizarra profissão me eriçava os pelos dos braços, provocando-me um estranho acovardamento. Hoje acordei desassombrada e decidi perguntar direto a Violeta, mas vacilei e desisti, porque sei que me responderia curta e grossa, com língua
    afiada de pirarucu, com sua lixa que esfola. Digitei mais de vezes para perguntar a IA, e dei de cara com a morte. Não tinha como fugir. É verdade, nós somos todos mortais. Adeus à doce ilusão de eternidade. Isso sim deve ser o nosso fantasma.

    Duro mesmo era saber que minha flor Violeta tinha o desejo de convívio intenso com defuntos. Ela labutaria com corpos mortos, para na superfície de suas peles descobrir a profundidade da sua alma, revelada nas suas identidades fragmentadas, matadas,
    acidentadas, afogadas, carbonizadas. A descoberta me causou horror, o de quem tenta encobrir com o véu do silêncio a palavra morta, como se ela, a morte, fosse um destino inevitável apenas para o outro. Melhor restar-me como espectadora, enquanto violeta testemunharia o nirvana, esse estado inorgânico de seres humanos destituídos ou libertados de qualquer tensão ou pressão de vida.

    — Mãe! O que queres aí?

    Assim atirada, interrompeu a minha pesquisa. Entravei, mas já acalmada por destramar a possível causa do seu desejo papiloscópico! Matei a charada: ela foi atiçada pela síndrome de Nagali. Eis aí a resposta deflagrada. Os portadores da síndrome de Nagali não tem nenhuma impressão digital, um defeito genético raríssimo que impede a formação das digitais no feto. Violeta foi um destes bebês. Antes tivesse perdido suas digitais por acidente. Sem cristas na epiderme das mãos e dos pés, a menina das pontas dos dedos lisas, seria um dia identificada por suas pétalas de margarida.

    Agarrada ao edital do concurso para a função de papiloscopista da polícia federal, Violeta se trancou no seu casulo onde chocava seu desejo fálico. Que insígnia portaria ali no seu distintivo? Talvez conseguisse enfim abrir sua guarda e sairia cheia de marras e nóias à caça dos pobres mortais. Mas não foi fácil como pensava. Tirou de letra as matérias teóricas, aprofundada no direito criminal como se fosse o próprio algoz. Mas como uma mula empacou num pulo.

    A pedra no caminho era um salto para frente, um teste de impulsão horizontal. Se sustentava em barras, mas não conseguia pular com impulso para frente. Eu assistia comovida ao esforço de minha filha, que pulava sem parar. Ficava com dores nos joelhos e articulações, mas não abdicou. Às vezes ela mesma caia de risada, quando nem conseguia sair do lugar. Seria mais uma vez avacalhada! Saltar para frente com propulsão e coragem devem ser um privilégio de poucos, por isso estancamos diante das pedras, olhando desesperados para trás. Mas naquele ano ela pulou, cravando a distância máxima para as mulheres e aterrou na areia do estádio do Maracanã, sob os aplausos da plateia de avaliadores. Desta vez não foi vencida pelo teste de aptidão física, que elimina de cara quase metade dos candidatos. Violeta começou aos 25 anos e só teve êxito aos 33 anos. A mais velha papiloscopista daquele ano, uma façanha só possível pelo impulso louco do desejo. A sua obstinação era rastilho de pólvora.

  • No dia seguinte

    O Zé balançou a cabeça, recostou-se no sofá, acariciando os cabelos, a cara, as orelhas, o nariz. Quando chegou no nariz, ele acordou. Olhou a Cida do lado, sardentinha, de olhos claros.

    Eram mais de três horas da tarde, e ele dormindo. Um gosto de cabo de guarda-chuva na boca! A Cida falava que tudo bem, ele ficou meio alegre ontem à noite, mas quem é que não ficou?

    Todo mundo achou o Zé engraçado, só o Boi que ficou meio contrariado. O Boi é assim, é só alguém chegar muito perto da Zefa. E a Zefa até que estava gostando da conversa, só ficou chateada quando o Zé derramou molho de macarrão nas costas dela.

    Todo mundo adorou o Zé no jantar. O dono do restaurante é que ficou preocupado, mas bem que ele estava gostando. O Zé cantava bonito, o dono do restaurante só tinha medo de que os vizinhos chamassem a polícia com tanto barulho.

    O Zé cantou sem parar, por mais de uma hora. Quando cantou aquela dos políticos fazendo strip-tease no bordel, todos exigiram silêncio, aos gritos. Ninguém queria perder nada. Quando os protestos acabavam, o Zé recomeçava.

    A Cida insistia para o Zé jantar, mas quem diz dele comer alguma coisa! Quando o garçom se aproximava, o Zé repetia e repetia que era irmão dele, que a mãe tinha separado os dois porque eram muito feios. O garçom ficou puto da vida.

    Mais puto ficou o cara no fundo do salão, aquele da gravata vermelha e amarela que o Zé queria arrumar, e quase enforcou o homem! Ainda bem que a Cida conseguiu levar o Zé embora, trançando as pernas e tudo. O Zé dava dois passos e caía, e queria
    cumprimentar cada poste, cada árvore do caminho.

    Pior quando o Zé ergueu a perna, querendo mijar, como um cachorrinho num poste.

    Depois abraçou uma árvore, disse que a copa, os galhos, as folhas brilhavam ao luar.

    Disse que a árvore tinha uma aura, que ele podia ver a alma da árvore.

    A Cida acabou ficando encantada com o Zé. Achava que aquela noite tinha sido a mais importante da vida deles. Agora à tarde ela acariciava o Zé com uma ternura imensa.

    Até lhe serviu mais um gole de conhaque, para rebater.

    O Zé bebeu e ficou olhando a Cida, com um olhar alheado – quem era a Cida?

  • DEIXA ESTAR

    — Por que você apareceu aqui no meu sonho, se o que eu quero agora é sonhar com minha mãe? — perguntei, achando graça na presença dele no meu sonho.

    — É impossível escolher com o que sonhar — respondeu Paul, sentando-se na beirada da cama.

    — Bom, imagino que seja porque ontem eu passei o dia lendo um livro que conta a história de sua mãe e daquela música. Então este sonho de agora é um reflexo do que vivi durante o dia. De acordo?

    Paul fez um movimento com a boca que não consegui decifrar. Olhei para seus olhos amendoados e tristes. Alonguei a conversa: “Você se lembra dela com frequência?” Ele fixou os olhos num ponto qualquer do quarto e contou:

    — Antes de ser internada no Hospital Municipal, em Liverpool, quando ela própria já sabia que nada mais poderia ser feito para salvá-la da doença, deixou as roupas passadas e arrumadas no armário e abasteceu a geladeira com frutas e legumes. Meu irmão menor e eu estávamos no acampamento de verão e só ficamos sabendo de tudo na volta. Papai nos deu a notícia.

    — Não houve despedida? — perguntei.

    Paul caminhou devagar até o piano no outro lado do quarto. “Não, não houve despedida”, ele suspirou. Ajustou a altura do banquinho, sentou-se e ergueu a tampa do instrumento. Começou a cantar. Seu rosto tinha agora uma expressão suavizada. Tentei falar que eu queria mesmo era continuar sonhando com minha mãe, mas, em vez disso, cantei. Cantei junto com Paul.

    When I find myself in times of trouble,
    Mother Mary comes to me
    Speaking words of wisdom, let it be
    And in my hour of darkness she is standing right in front of me
    Speaking words of wisdom, let it be
    Let it be, let it be, let it be, let it be

    — O que significa wisdom, Paul?

    — Sabedoria.

    Fiz silêncio por alguns segundos, o eco da canção, da minha voz e da dele, ainda em meus ouvidos. Olhei para ele sentado ao piano, tão sozinho e tão triste. Falei sem pensar muito, talvez querendo lhe dar algum consolo imediato:

    — Uma das últimas conversas que tive com minha mãe foi muito estranha. Ela, que nunca deixava a cama desarrumada ou a pia com louça por lavar, disse que não adiantava se preocupar mais do que o necessário com essas coisas sem muita importância. Que nesta vida tudo acontecia rápido demais, que o tempo era precioso e precisava ser gasto com o que valia a pena de verdade.

    Paul virou-se para mim com surpresa: “Essa conversa foi um sonho com sua mãe ou aconteceu mesmo?”

    — Não sei dizer ao certo — respondi. — Se foi sonho ou não, tem tudo a ver com sua música, não acha?

    — Acho. Tanto faz mesmo. Como eu disse antes, a gente não pode escolher com o que sonhar.

    — É, eu sei. Eu te contei essa história para inventar uma despedida, Paul. Let it be…

  • Djamila me ensinou a ter fé. Sempre fui avesso ou displicente com a religiosidade. Nem ao menos procurei entendê-la. Meu pai dizia que eu era ateu e que isso era um grande mal para mim, mas me percebi, por muito tempo, agnóstico, porque precisava de prova para acreditar. Muitas vezes me peguei cutucando os meus demônios, para que algo acontecesse. Saudava aos deuses, quando passava em frente à igreja ou a algum lugar de culto, meramente por respeito. Então, Djamila aportou, como um grande navio, na minha vida simplória. No primeiro contato, jamais saberia dimensionar a nossa conexão. Não poderia esperar nada de uma pessoa raquítica e calada. Tive-a, num primeiro momento, como pau-mandado. Ela simplesmente fazia o que lhe dizia, para atender ao meu pai enfermo. Mas, com o tempo, Djamila, com sua doença e sua beleza rara, me fez repensar sobre o sentido da vida. Nunca foi intensa ou ostensiva, me pegou pelo cansaço e pelo amor, notadamente. Ela veio trabalhar como cuidadora do meu pai, quando ele estava com câncer terminal. Era lindo de ver a sua insistência no amor, até o fim. Tornou-se, além de cuidadora, uma amiga de meu pai, que lhe confiava até o cartão de crédito para fazer as compras de casa, ou dos remédios; do que fosse preciso. Para um homem extremamente desconfiado, isso é demais para minha cabecinha entender. Nem mesmo a mim, seu único filho, dava tanta liberdade. Djamila falava de irmã Dulce como uma santa dos pobres e enfermos. Ela não impunha; tratava com palavras doces e humanas. Passei a assumir essa crença, já que papai não tinha perspectiva alguma de melhora. Num primeiro momento, foi como um resgate, me senti abraçado, e chorei aos pés de meu pai. Apeguei-me, à espera de um milagre, conscientemente. (Cabe dizer que sequer cogitava qualquer milagre; achava tudo uma tremenda balela, para enganar os incautos). Depois de um ano de luta intensa, papai faleceu, não exatamente do câncer, mas de complicações associadas. Foi um dia terrível, a sua ida numa ambulância ao hospital, com sepse. Não houve jeito. Mas Djamila, forte e ama, nunca perdeu a fé, me sustentou tantas vezes, me recolocou no sentido da vitória, sempre crente, sempre paciente. Hoje, ela precisa de mim, minha amiga. Doente do coração, não tem forças para se movimentar. Está na fila de transplante e seu caso é grave. Não há vaga, não há espaço no sistema público de saúde. E ela agoniza aos meus pés, momento em que, entendendo a sua dor, faço de tudo para amenizar o sofrimento. Djamila é forte, mas a luta é desigual. Gastei já meus trocados, para o seu conforto. Djamila, minha amiga, ainda há de vencer. Prometi-lhe uma viagem (afinal, adora bater perna por aí) para quando melhorar, e assim ela se sente mais viva. Está por chegar esse dia!

  • O dia do aniversário

    Doze horas em ponto, os sinos da igreja de Santo Antônio de Pádua anunciavam. No dia em que completava 50 anos, Joel saiu apressado do escritório do advogado e, ainda dentro do elevador, passou a organizar mentalmente as tarefas da tarde. Memória privilegiada, sua melhor agenda sempre foi a própria cabeça. Era quinta-feira, e apenas no sábado uma celebração ocorreria. Reunião modesta, só para os mais íntimos, como se costuma dizer. Afinal, nunca gostou mesmo de comemorar aniversários. Ficar mais velho não é fato que mereça ser festejado, caramba. Mas a filha insistiu: data redonda, meio século, não se pode ignorar uma ocasião como essa. Em frente ao prédio do advogado, uma rua de grande movimento. Teria de atravessá-la antes de alcançar o metrô. Um pouco mais adiante, uma passarela de pedestres. Consultou o relógio e decidiu que não valia a pena utilizá-la. Perderia tempo e, além disso, jamais se sentiu confortável caminhando em cima delas. Os carros passando em alta velocidade lá embaixo causavam-lhe certa aflição, além de taquicardia, pernas bambas e suor nas mãos. Um automóvel vermelho vindo ao seu encontro é a última imagem de que se recorda. Veículo grande, desses projetados para uso em terrenos acidentados. Estendido ali, no meio da pista, julgou que talvez tivesse sido atropelado. Em torno de si, ouvia vozes, muitas; porém, não conseguia entender o que estavam dizendo. Homens e mulheres falando alto, mas era como se aqueles indivíduos se comunicassem numa língua estrangeira e pouco familiar, algo assim como basco, japonês ou turco. Pensou então na filha única e na festa que não aconteceria. Pensou também na pilha de livros a sua espera na estante do escritório, livros que não leria nunca. Pensou na esposa e se deu conta de que ela ficaria viúva. Bem, ao menos não seria mais necessário levar adiante toda aquela burocracia do divórcio. Pensou nos poucos amigos que tinha. Sempre fora um homem introvertido, reservado. Um ou outro talvez sentisse sua falta. Pensou na chefe. Pensou, sem conseguir evitar uma ponta de orgulho, que seria difícil para ela encontrar alguém capaz de substituí-lo com a mesma eficiência. Pensou nas fantasias sexuais que não teria chance de realizar. Sempre fora tão travado… Logo agora que se sentia mais solto, pronto para experimentar novas sensações… Paciência! Pensou nos pais velhinhos, companheiros de uma vida inteira, morando sozinhos no casarão de Vila Esperança. O casarão que se recusavam a abandonar, onde ele e a irmã Jane passaram a infância e a adolescência, local de descobertas e brincadeiras em companhia de primos e vizinhos, de uma vida ao ar livre que já não existe. Pensou nas galinhas, criadas com esmero e dedicação pela mãe no quintal. Nos ovos saborosos de gema escura e nos pintinhos que elas produziam. Nas brigas com a irmã pelo direito de nomeá-los. Nos castelos imponentes, construídos no jardim com terra, água, pazinhas de plástico e competência. Sua vocação para a arquitetura havia nascido ali, não tinha dúvida. Pensou ainda nas flores cultivadas pelo pai. Viçosas e coloridas, faziam os passantes pararem diante dos canteiros a fim de admirá-las. Nos pássaros de vários tipos que, sem pedir autorização, faziam morada nas árvores da propriedade. Pensou na horta atrás da casa, onde Rosalina ia buscar a salada do almoço. Por fim, pensou em Rex, bolinha de pelos preta e saltitante, companheiro fiel e amoroso. Todo esse esforço de recordação o exauriu. Por que todas essas imagens se faziam presentes justo naquele momento? Eram muitas as lembranças a tumultuar-lhe o cérebro. Elas chegavam sem que ele pudesse evitar. Simplesmente brotavam, como a água limpa brota às vezes das pedras. Tentou esvaziar a mente, não pensar em mais nada. Sim, essa era a coisa certa a fazer. Será que depois de velho estava ficando piegas? De onde todo esse sentimentalismo havia surgido? Com a morte dos pais, a casa provavelmente seria vendida pela irmã. Seu maior desejo se tornaria realidade. Não teria dificuldades em convencer a sobrinha. Obstinada, Jane sempre acabava conseguindo tudo o que queria. No local, é possível que um edifício de 49 andares, batizado com algum nome estrangeiro, despontasse. Quem sabe um prédio comercial, com lojas e escritórios… Junto com a casa, toda a história da família iria ao chão. Em torno de si, Joel continuava a ouvir vozes e barulhos diversos. Pessoas de branco pareciam tentar socorrê-lo. Ele louvava o empenho delas, embora tivesse quase certeza de que este resultaria inútil. Inútil seria também a tentativa de impedir a irmã de vender o casarão. Talvez ela nem sequer esperasse a morte dos pais. Talvez os pusesse num asilo — ou casa de repouso, lar geriátrico, pousada ou recanto para idosos, eufemismos que designam tão somente o local onde filhos desalmados abandonam os pais. Nossa, que exagero, agora estava sendo cruel demais com a única irmã. Ela não era nenhuma bruxa, ora bolas, com toda a certeza amava os pais. Só era da opinião de que eles deveriam deixar a casa, isso sempre achou mesmo e nunca escondeu de ninguém. Era tudo muito amplo, argumentava. Nada justificava que continuasse a viver ali um casal de idosos dependentes e de saúde frágil. Sentia-se cada vez mais fraco e experimentava dores terríveis pelo corpo inteiro. Com as últimas forças que lhe restavam pensou finalmente que deveria ter utilizado a passarela, que teria sido muito bom poder reunir aqueles que o amavam em sua festa de aniversário e que uma decisão irresponsável pode transformar uma existência de forma definitiva.

  • O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam.

    Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar.

    Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse.

    Passavam os dias, passavam as noites, e o menino durinho na cama.

    Como se estivesse morto, todo mundo pensava.

    Quando acordou, disse: – Preferia não ter acordado – ninguém entendeu por quê.

  • Um homem de muita fé

    Ele desceu do trem numa estação qualquer, numa cidade desconhecida, e esperou por ela. Depois, entrou nas criptas das catedrais, onde o silêncio pulsa de tão denso, e esperou por ela. Empoleirou-se em árvores, em pontes, em terraços, em torres, em montanhas, em aviões, nas nuvens dos sonhos e, talvez, nas asas de algum anjo.

    Esperou por ela na dureza do inverno mais impiedoso, tremendo não de frio, mas de esperança. Também esperou por ela na chuva, até que a água caísse sobre ele como pontas de uma faca. Comprou até um telescópio e esperou para vê-la aparecer entre as estrelas.

    Encontrei-o sentado num banco de parque, em silêncio, olhando fixamente para além das árvores, para além do tempo, para além da loucura. Perguntei-lhe: “Quem você espera com tanta persistência?” Sem desviar os olhos do horizonte, respondeu: “A felicidade. Quem mais poderia ser?” Sentei-me ao lado dele.

  • Os laços

    Os laços de Maria me enfeitiçavam. Eles me atraíam como uma medusa. Não era possível olhar diretamente nos seus olhos. Havia, de minha parte, uma tremenda vergonha. Ainda tinha um atrativo peculiar, o aparelho ortodôntico, com uma linha de aço que ficava para fora da boca, como um ser especial, de outro mundo. Conhecemo- nos desde a infância, mais especificamente no quarto ano, quando ela veio estudar na minha sala. A sua imagem me paralisou, ao entrar atrasada na primeira aula, vindo com a coordenadora, que nos apresentou a aluna novata. Apesar dos apetrechos, ela era bastante sorridente – e sorria mais com os olhos, esverdeados. Por sorte, ela sentou numa cadeira ao lado da minha. Numa pequena brecha da explicação da professora de português, ela me perguntou qual era o meu nome; eu disse: “Gustavo… mas pode me chamar de Guga” – o apelido que meu pai me dera por causa daquele tenista, para quem eu não dava a menor bola. Maria, na verdade, só se entrosava com os garotos, porque, pelo que parece, havia inveja das meninas, que tinham um grupo muito fechado. Passou a jogar futebol com a gente, e por isso foi apelidada pelas mesmas meninas de “Marião”. Eu brigava por ela, não deixava que a maltratassem, porque era novata e porque era o meu novo amor. Nos anos seguintes, Maria foi posta numa sala especial, a “D”, pequena, só com os alunos crânios. Mas, ainda assim, Maria não se afastou de mim – era o meu grande receio. Um dia perguntaram a ela se era minha namorada; ela disse que sim, muito assertiva, e eu me borrei de medo de que aquilo fosse mesmo verdade. “Não liga, Guga, prefiro que pensem que somos namorados”. Foi uma questão que ficou em aberto na minha mente por meses, até que Maria disse que eu estava passando do ponto. “Qual é, Guga, sem essa de pegar na minha mão; vão pensar que somos namorados de verdade!”. Mas eu era apaixonado por ela e ela por mim, disso eu sei. No sétimo ano, quando voltei de férias, soube que Maria tinha mudado de colégio. Eu queria saber o seu paradeiro, por que teria feito isso comigo? Depois de uma semana, recebi uma ligação dela – não consegui falar antes porque ela havia mudado de telefone. “Sabe, Guga, é tudo muito estranho no novo colégio; é como se as pessoas comessem os livros para passar no vestibular. E eu não sei por que tenho que me preocupar com isso, já que faltam alguns anos para o vestibular. Minha mãe disse que era para eu criar experiência, aprender a lidar com as dificuldades da vida logo cedo”. Nisso, Maria foi sugada pelos estudos e pouco falava comigo; sempre tinha provas e simulados. Chorei por um mês a sua partida definitiva da minha vida. Escutava The Cranberries, sua banda predileta, repetidas vezes – chorando. No vestibular, soube que teria feito para Medicina e passado de primeira. Ela era uma puta aluna, merecia. Enquanto isso, eu passei para Ciências da Computação – também um bom curso. Hoje, já formado e casado, me encontro com o meu primeiro amor no supermercado. Ela parece que vinha ou iria para a academia. Estava mais linda do que nunca. De primeiro, não me reconheceu, mas depois me abraçou e disse que tinha muita saudade da nossa pura amizade. Quando me preparei para pedir o seu telefone, ela se virou e disse que teria de ir, porque seu marido e sua filha esperavam no carro. Desde esse dia, mantenho constantes visitas ao mesmo supermercado, a dez quilômetros da minha casa, para um dia encontrá-la de novo, só para vê-la. Minha mulher pergunta por que vou fazer o mercantil tão longe, e eu digo que é pelo preço dos produtos – que de fato são bem mais acessíveis, já que é um atacadão. O tempo a esconde de mim, mas hei de achá-la.

    Adriano Espíndola Santos é autor de “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto” e “Viver morrendo”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. Instagram.com/adrianobespindolasantos/

  • A Despedida

    Estranho ver você aí deitado, fisionomia serena. Por que você não era assim a maior parte do tempo, Samuel? Tenho a impressão de que você vai se levantar a qualquer momento e começar a falar aquelas coisas sem sentido que costumava dizer. Você não percebia que seus argumentos eram frágeis, sem coerência? Suas cenas de ciúme bobas. Samuel, aquilo era apenas meu trabalho, era tudo profissional. Sério. Nunca houve nada. Nada mesmo. Olha em volta, não veio quase ninguém. Sua mãe, seu irmão e sua cunhada mal me cumprimentaram. Nem parecem tão tristes. Ficaram surpresos com a minha presença. Não vejo nenhuma senhora Samuel Arantes. Pra falar a verdade, nunca soube se existiu alguma depois de mim. Claro que você deve ter tido seus casinhos por aí. Presta atenção, vou fazer uma coisa. Quero que você leve minha aliança com você. Sim, eu ainda guardo. Poderíamos ter sido felizes juntos, ter construído uma relação sólida. Mas você era imaturo, queria as coisas sempre do seu jeito. Acabou que não tivemos filhos. Não passamos nossa herança adiante, não deixamos na terra nossa semente. Ainda bem, nunca tive vocação pra maternidade. Acho que você também não teria sido um bom pai. Pra onde será que você foi? Tomara que para um bom lugar. Apesar de tudo, você não merece sofrer. Sua alma já está por aí, flutuando no ar, observando as pessoas de modo furtivo, será que já deu tempo pra isso? Samuel, você já sabe que morreu? A gente ouve dizer que muitas pessoas demoram a descobrir. Bem, meu lado espiritual não é tão desenvolvido, não posso falar com propriedade sobre esses assuntos. Pensei que conseguiria refazer minha vida depois da nossa separação. Não foi isso que aconteceu. Mas sempre é tempo, né? Trouxe uma coroa. É a mais bonita de todas. São apenas duas, ainda assim é a mais bonita. Fiz questão de colocar meu nome na faixa pra todo mundo saber. Ainda não tô acreditando. Nem consegui chorar, embora ache que devesse. Não, não, não. Não vou usar técnica de atriz pra isso. Ou aconteceespontaneamente ou nada feito. Samuel… Eu te perdoo. Você me perdoa?

  • O trapezista

    No ponto mais alto do andaime lateral, aonde chegou depois de subir 42 degraus com ar de vitória e vestindo a calça apertada de malha branca, o trapezista faz uma reverência ao público, que aplaude mais por medo do que por entusiasmo, com a emoção presa na garganta. “É muito alto, ele não vai conseguir”, sussurravam os espectadores, a boca seca de tanta aflição. Era o número final do espetáculo, o mais aguardado, o fecho perfeito para uma noite de encantamento.

    Som de tambores. Tensão. Suspense. Ninguém respira na plateia.

    O trapezista prepara o salto. A audiência reza em silêncio, as mãos postas. “Não tem rede de proteção, olha o perigo!”, um espectador notou. O que estava ao lado dele confirmou: “Não tem mesmo, o cara é corajoso. Meu Deus!”

    O trapezista gruda as duas mãos na barra do aparelho e lança o corpo no ar. Um oh! em uníssono explodiu por toda a arena. Parecia voar o homem de calça apertada de malha branca, indo e vindo como uma folha solta no ar sem peso algum. A cena era arrebatadora. “Agora ele vai trocar o aparelho e dar o triplo salto mortal, tá vendo o trapézio vazio que vem pelo lado contrário? Agora!”, uma senhora abraçou a neta e abafou o grito.

    Vinte metros abaixo, com um som seco, o corpo do atleta se choca contra o chão de concreto da área central do picadeiro. A malha branca tornou-se vermelha. Sangue por todo lado. Novamente o oh! em uníssono na arena. “Um médico, chamem um médico, tem um médico na plateia?”, gritou o assistente de palco. “Aqui, eu sou médico”, respondeu o senhor grisalho, correndo até o centro do picadeiro. O homem se debruça sobre o trapezista e constata o que todos suspeitavam. Olha em volta e faz o gesto de “acabou”, movimentando as mãos do centro para os lados, uma sobre a outra.

    A plateia, como se tivesse ensaiado a reação, soltou o ar retido nos pulmões e explodiu em aplausos e em urros de puro deslumbramento. O espetáculo foi um sucesso retumbante. Que noite, senhoras e senhores, que noite!

  • Expectar

    A cadeira vazia é sinal de luto, a falta do desejo. Morreu muita coisa em mim desde que Maroca se foi. Só tínhamos a nós mesmos, porque nossa família se dispersou, e nossos parentes moram distante, em outro Estado – é uma história longa, mas vou resumir: passei num concurso para um bom cargo no DNOCS; nessa época, namorava com Maroca, e, para assumir o meu posto, logo tive de me mudar e me casar com a mulher da minha vida. Lembro, repetidamente, dos bons tempos em que a casa era cheia de filhos, primos, amigos, afilhados, e quem mais pretendesse se chegar. Maroca acolhia como uma mãe, tanto que Joelma, amiga de Daniel, nas férias, ficava dias em nossa casa, porque eles “precisavam” brincar muito, juntos. A rua toda usava a nossa casa como ponto de encontro à noite, para ficarem na calçada, e boa parte do tempo eu e Maroca ficávamos e brincávamos com os nossos vizinhos. De lá para cá, tudo mudou. Hoje, moro em um “apertamento”, porque nossos digníssimos filhos arranjaram a desculpa de que apartamento é mais seguro; mas se perde a liberdade… Finjo que não me importo em estar só, em plena quinta-feira – dia em que meu apê, em tempos áureos, estava abarrotado de filhos e netos. Transito entre o quarto e a sala, para acompanhar os noticiários, sempre ruins – o Brasil, então, vai de mal a pior. Pela manhã, três vezes por semana, tenho a companhia da Alzira, a diarista, que me faz um bem danado, com o seu jeito leve de viver, mesmo diante de tanta dificuldade, morando em uma zona perigosa da cidade; mesmo tendo perdido um filho para a marginalidade; mesmo sendo mãe solo de quatro filhos; faço questão de ajudá-la no que precisar, ela é a minha amigona do peito, que me tira da inércia de viver por viver, assim… Daniel foi para o Canadá, e se estabeleceu muito bem como músico, baterista (já mora lá há quase dez anos; daí, não sei sequer o cheiro das minhas netas). Fernando, o mais novo, primeiro foi à Inglaterra, mas, por conta do rigor das leis também, se mudou para o Canadá com a família. Não vejo os meus netos há, pelo menos, oito anos. Maroquinha faleceu há dois anos, de câncer, muito rápido; ainda estou sem entender. É uma perda irreparável, insuportável, mas tem de se viver. Meu apê, agora, é um mausoléu que me abriga, tímido e ferino. Ressoa a voz da escuridão. Meus filhos dizem que vêm me buscar para passar um bom tempo com eles. Essa é a única alegria que me mantém em pé. Não vejo a hora de beijar Sofia, Mariana e André. Todos grandes, já encaminhados na vida. Mariana é a mais apegada: liga, e passamos horas conversando. Ela afirma que arrumou o meu quarto; que em setembro tudo vai se resolver. Daniel já comprou as passagens. É questão de tempo, se ainda houver tempo para viver.

  • Tule preto

    Ela se trancou no quarto, triste que estava. Fechou atrás de si a porta.

    Aos poucos criou para si um mundo à parte. Mas o sol teimava em entrar pelas frestas da janela todas as manhãs.

    Fechou as janelas. Teceu com esmero um vestido longo e preto, de modo que seu corpo não mais se mostrasse.

    Lá fora, o tempo encarregava-se de transformar a vida. O vento sempre trazia mudanças. Dentro, tons sobre tons cuidadosamente escolhidos: todos escuros.  Rosas de organza grená passaram a enfeitar o jarro. Cortinas marrons cobriram o que restava de luz nas janelas. Em cada nova peça dedicava-se por completo.

    No início, o tempo bateu na porta trazendo os ventos de outono convidando-a a olhar para as belas folhas douradas sobre o chão. Nada! Voltou trazendo delicados raios de sol para aquecer os dias frios. Em vão! Paciente, trouxe-lhe flores, folhas, frutos, exuberância! Não adiantou. Em sua última tentativa, chegou com o calor dos afagos, com temporais de alegria, com trovões e raios anunciando festa. Então ela quis sair. Mas quando tirou dos olhos o tule preto, nada enxergou. Mesmo assim tentou. Seus pés, no entanto, não conheciam o caminho para a porta e esta, tanto tempo fechada, tinha virado parede…

  • Margarida à janela

    A vida adulta não nos prepara para o entusiasmo.

    Em essência, a adultez deveria nos expandir; acrescentar novos cômodos à casa que temos por dentro para que aprendêssemos idiomas inéditos do corpo e da alma, em vez de interromper indefinidamente as nossas formas de sentir.

    Margarida, que tem nome de flor, sempre foi na direção oposta: cresceu para polinizar. Sentia-se inebriada por novos amanheceres, novos livros, novas promessas, novos começos. Novos rostos. Novos sorrisos nos novos rostos. Estendia o braço para que pudesse acompanhar senhorinhas a atravessar as ruas. Se uma bola se perdia do limite de uma brincadeira infantil, ela apressava os passos para recuperá-la antes de atingir qualquer vidraça ou território vizinho. Andava com petiscos caninos nos bolsos. Nos dias mais quentes, espremia limões para quem atravessava a rua com sede. Para as tardes mais frias, maquinara uma pequena janela de madeira, instalada na moldura da sua própria janela. Dentro, uma garrafa térmica, um punhado de copinhos descartáveis e a seguinte inscrição: “Se o frio te apertar, aperte de volta aqui”.

    Da janela de uma casa em uma rua moderadamente movimentada, Margarida regava o seu jardim de pessoas.

    Na esquina, poucos metros à esquerda, havia um rapaz que parecia existir em voz baixa. Caminhava como quem ocupava pouco espaço no mundo. Trazia nos olhos, escondidos sob a aba de um boné com vontade de ser boina, aquela espécie de silêncio que alguns confundem com timidez. Timidez ou, quem sabe, excesso de poesia. Há sentimentos que compartilham a mesma aparência e só revelam seus verdadeiros nomes quando encontram alguém capaz de lhes falar na mesma língua.

    Toda rua só existe por adição de limites. Há a calçada, pública; há grades, privadas. O pequeno recuo entre a casa e o passeio. Árvores. Bancos. Lixeiras. O leito carroçável — curiosamente, a parte que todos insistem em chamar de rua. Sombras e luz.

    Marquises, beirais de telhados e vazios. A rua de Margarida tinha tudo isso. Tinha também um ipê de floração quase espontânea. Tinha a própria Margarida. E Pedro.

    Numa tarde de primavera, atenta ao cair sereno das flores rosas do Ipê então frondoso, Margarida viu, pela primeira vez, Pedro passar. Reparou os passos amiudados, reparou as mãos costuradas aos bolsos. As sombras projetadas pelo fim da tarde caminhavam ao lado dele, encolhidas junto às fachadas, como se soubessem ocupar ainda menos espaço do que o rapaz. Margarida sentiu uma ausência instantânea no peito. Entrou.

    Na cozinha, à procura de água gelada, depara-se com uma caixa de choconuts vegetal, um leite que não era leite, mas era, e todo produzido em seu apelo visual. Pegou a caixa. Ao rosquear a tampa plástica, leu

    “Por ser natural, pode sedimentar. Basta agitar bem”.

    Como a imaginação lhe crescia do coração e não da cabeça, passou a acreditar que tudo o que sedimenta merece ser agitado. A poeira da casa. O café antes de servir. As cortinas nas manhãs de primavera. Até os silêncios.

    Todos os dias, para compreender a origem do que sentira, Margarida passa a se fazer de namoradeira na janela, à espera do passar de Pedro.

    Passa a agitar a poeira da casa de uma flanela para fora da janela. Agitando as partículas agitaria o menino tão contido em si na esquina. Como um toque divino, uma brisa jocosa decidira participar do desafio; foi Margarida sacudir a poeira para que Pedro espirrasse. E, então, seus olhos se encontraram. O tempo entra em suspensão, frestas ensolaradas penetram o trecho entre beirais. Margarida perde a noção do mundo. Pedro começa a enxergá-lo na altura do horizonte. Margarida cora e enrola-se à cortina.

    O rubor da face permanece. “foi o vento, estou com febre!” Tenta se distrair; “preciso comer, saco vazio não para em pé”. Tateia o armário superior, seus dedos sentem o plástico grosso do saco de tapioca. Pega uma frigideira, liga o fogo, despeja os farelos peneirados. “é só uma tapioca, não tem mistério”. As manchas orgânicas do azulejo desenham um vulto com as mãos nos bolsos. Aperta os olhos, mais atenta. “não é possível… como nunca reparei essa mancha antes?” e assim, distraída, sente o cheiro de queimado e a nuvem esbranquiçada da tapioca, preta e encolhida. Abre as janelas para deixar sair as evidências, renovar os ares. Ao escancarar a janela da sala, Pedro passa, sorrindo. “preciso deitar, a febre está aumentando”.

    Quando alguém habita em demasia os pensamentos, não há um só remédio em toda a medicina e qualquer tentativa de se deixar levar pelo sono é vã. Uma mosca pousa no nariz de Margarida, ela enxerga a aba de um boné. O silêncio passa a perturbá-la, não acalenta mais, como antes. Um barulho constante, mas pausado, a faz desfocar-se daquele estado novo para um possível alguém costurando noite adentro. “Talvez seja Pedro”. Derrete-se ao pensar que costurar uma roupa é quase tão poético quanto costurar a vida, duas linhas de carretéis distintos em ponto zigue-zague.

    A luz do sol acorda Margarida, que suspira. Ouve o cantar dos pássaros misturado ao burburinho do raiar de um novo dia. “Pedro”.

    Corre à janela e olha para a direita. Desta vez permanece. Novos rostos. Novos sorrisos nos novos rostos. Pedro. Margarida. O Ipê regendo a manhã com o cair das flores.

  • O último dia

    O dia ainda não havia amanhecido quando o rádio anunciou neve no mês de novembro pela primeira vez no Brasil. Naquela mesma noite, por volta das 7 e 30, Fubá apareceu sozinho e inquieto, ostentando uma ferida no dorso. Amália logo pensou no mau pressentimento sofrido pela manhã. Sentiu-se culpada, achou que deveria ter tentado me impedir. Denise e Isabel ainda dormiam. Me levantei às 6, tomei banho, comi uma banana e um pedaço de pão, me servi do café preparado por Amália, dei um beijo nela e saí na companhia do meu fiel companheiro. As últimas semanas estavam sendo desanimadoras. Dragas passariam a ser usadas na busca por ouro e diamantes nos trechos mais inacessíveis. O fato é que eu não vinha conseguindo achar nada realmente valioso, capaz de compensar o sacrifício de trabalhar em condições tão desfavoráveis. Alguns dos meus colegas já haviam abandonado aquela parte do rio. Outros estavam prestes a fazer o mesmo. Consumido por dívidas, Ronaldo se matou, Salustiano se afundou na cachaça e vivia vagando pelas ruas sem propósito, enquanto Jorge e Pedro decidiram perseguir a sorte numa cidade vizinha. Eu ainda insistia. Essa situação adversa está por terminar, acreditava. Por volta do meio-dia, resolvi parar para almoçar. Na bolsa, a marmita com feijão, arroz, ovo e um bife, além de pedaços de carne para Fubá. Pus-me a repousar embaixo de uma aroeira. O raciocínio remoía os acontecimentos, e o descanso não durou muito. Minhas costas doíam, a cabeça pesava… A certa distância, via Belmiro, peneira na mão, exercitando seu ofício enquanto cantarolava um samba antigo. Deixe-me ir Preciso andar Vou por aí a procurar Rir pra não chorar… Fubá começou a latir e a agitar-se em círculos. Demorou ao menos uma semana para que os fatos se esclarecessem. Meu corpo, processo de decomposição avançado, foi encontrado encoberto pelo mato por uns moleques que soltavam pipa. Eu havia sido atacado por um tamanduá. As garras do bicho golpearam-me o tórax, causando uma hemorragia fatal.

  • O tio perdido

    Encontraram o tio Pedro perdido na estrada, perto da cidade vizinha. Estava velhinho, meio caduco; as pernas trôpegas, mal se aguentava em pé; ninguém entendia como tinha chegado até ali, arrastando na poeira da estrada os chinelinhos gastos.

    Morava com a Maria, no asilo; não porque fosse um asilado: Maria era a filha; ela e o marido trabalhavam no asilo; moravam numa casinha bem na entrada.

    – Por que, pai? – ela perguntou, sabendo que ele não saberia responder.

    – Muito sozinho, filha – ele disse.

    – Como sozinho, pai? E eu, e o João, e os meninos, nós não estamos aqui?

    – Meus irmãos, onde estão os meus irmãos? Todo mundo morreu… Eu estou tão sozinho!

    Logo chegaram os outros filhos, que moravam perto, vinham sempre, com as crianças, que adoravam o avô. E vieram os velhos do asilo, fraquinhos, cheios de dengues com o tio Pedro.

    – Eu estou tão sozinho – dizia o tio Pedro, sentado no meio de todos eles, os olhos perdidos no ar.

  • As folhas mortas caídas no chão

    Construí minha casa sob a copa generosa da maior árvore do terreno, bem junto ao tronco. Saboreei por antecipação a sombra refrescante que teria nos dias de calor e isso me deu grande alegria. Nivelei o chão, ergui as paredes, pintei tudo de branco. Estava muito bonita a minha casa, mas desde que me mudei não faço outra coisa a não ser varrer as folhas secas do assoalho. Esta é a lembrança mais antiga que tenho a partir do momento em que passei a habitar lá: vassoura na mão, tirava sacos e mais sacos cheios de folhas. A árvore soltava as folhas mortas e elas caíam diretamente sobre o meu chão. Então, eu tinha que varrê-las para fora e assim manter minha casa limpa.

    A toda hora, fosse dia ou fosse noite, eu estava tirando folhas secas do assoalho, e percebi que esse trabalho não trazia o resultado esperado. Por mais que varresse, minutos depois havia novas folhas velhas sobre o chão. Isso demandava mais esforço de minha parte, mas cuidar da minha casa me fazia feliz.

    Quando me casei, trouxe minha esposa para viver comigo em minha casa. Ela olhava com tristeza a minha obsessão por manter o chão limpo. Um dia, com delicadeza, apontou o dedo para o alto e me fez ver que minha casa não tinha teto, por isso as folhas secas caíam diretamente no assoalho, sempre mais e mais. Vi que ela tinha razão e coloquei telhas sobre as paredes. Hoje as folhas mortas não caem dentro de casa, mas não tenho a mesma alegria de tempos atrás, porque agora não sinto, como sentia antes, a sombra refrescante que a árvore me dava nos dias de calor.

  • Menino São

    Ricardinho viajou para a China e vai ficar, pelo menos, uns seis meses lá. Foi a estudo. Ele é um menino que gosta de se atualizar, para atender melhor os seus pacientes, com técnicas modernas. É médico, e faz cirurgia de mão, sua especialidade. Disse a mim e à sua mãe que vai trabalhar/estudar no melhor centro de pesquisa do mundo, no que diz respeito à tecnologia e à medicina. Ele sempre teve uma inclinação para cuidar de gente. Quando menino, fazia “massagens curativas” em mim e na sua mãe. Não só, também tinha (tem) o poder de tranquilizar os ânimos. Quando Maria, que trabalhava com a gente, se estressava e botava tudo para os ares (ela era arretada!), ali estava Ricardinho para, tão pequeno, falar com sabedoria e doçura. Maria se acalmava e dizia que tinha feito isso ou aquilo porque estava com problemas em casa, com o filho usuário de drogas (isso já sabíamos); depois, beijava a cabeça do pequeno sábio e, como um mantra, dizia: “Deus que te dê muita saúde, meu filho!”… Sempre foi um menino exemplar. Nunca nos deu trabalho. Veja só, Maria teve um câncer de pele, que não tratou (escondeu da família e de nós), e, quando foi descoberto, já havia se alastrado para o corpo todo. Nessa época, Ricardinho ainda fazia faculdade e organizou todo o aparato de cuidados paliativos para que Maria não sofresse mais. Ela morreu como um passarinho, disse ele, reforçando que não sentira dor alguma, porque estava constantemente medicada. A equipe que lhe assistia foi extraordinária, e penso que cuidaram melhor de Maria porque gostavam muito de meu filho, que estudava com eles, colegas e professores. Bem sabiam do potencial de Ricardinho, ou mesmo de sua bondade infinita, quase um santo, um São Ricardinho (que Deus me perdoe da blasfêmia). Um fato interessante é que, de tanto se envolver com a igreja, quis por um tempo ser padre. Nós o apoiamos, mas logo, como disse, por inclinação, percebeu que precisava botar a mão na massa para cuidar de gente. Menino solto, como um pássaro, inventou a tal da liberdade depois que se formou. Não para quieto, nem mesmo para arranjar uma namorada – diz que não tem tempo. Ele ama mesmo é a medicina. Essa é a sua grande namorada, companheira, faz gosto de ver o zelo que tem com as pessoas, seus pacientes. E ele faz questão de trabalhar no SUS, porque diz que tem de devolver o seu conhecimento para a ajuda das pessoas carentes. Eu não posso mentir: morro de saudades de quando ele era pequeno e ficava com a gente em casa, brincando, curtindo a nossa vidinha a três. Para driblar a tal da saudade, vamos, eu e a minha esposa, para a China, conhecer aquele belo país e ficar uns dias com nosso menino. Ele ainda não sabe. Provavelmente ficará surpreendido. Sou capaz de qualquer loucura para ficar perto do meu filho. Isso é o que se chama amor.

  • Um dia qualquer na Cidade

    Quanto mais ando, mais penso que há um mistério na existência das cidades, a maneira como tudo se funde nos entremeios desse emaranhado humano, um caso de estudo de como o caos aparentemente inevitável se transmuta em algum tipo de desastre organizado, em que tudo se encaixa e se desagrega ao mesmo tempo num moto contínuo, envolto por alguma energia invisível que nos conecta uns aos outros sem que percebamos, como as partículas solares que nos trespassam o tempo todo sem nos darmos conta da sua existência.

    Ando de graça no transporte público, migalhas em retorno pelos anos em que meu couro de cidadão comum – passivo e cabisbaixo – foi sendo arrancado dia após dia ao longo de uma existência de utilidade questionável. São as vantagens da idade, grita sempre lá do fundo meu humor amargo e esfarrapado, parceiro velho de caminhada. A moça que me abre a catraca depois de olhar minha identidade parece enfadada. Mas não me destrata. Apenas olha através de mim para algo que não está ali. Sabe-se lá com quantos demônios conversa nessa hora.

    Fico sentado na plataforma, deixo passar um ou dois trens, não tenho pressa. Às vezes folheio um livro que carrego apenas como muleta, para ter para onde olhar quando preciso fugir de certos espantos inevitáveis que toda caminhada traz. Ou para compor aquele ar intelectual de um leitor de longa vivência, que parece conceder a graça de sua presença numa manhã qualquer, olhando com desdém para aqueles rostos perdidos na tela do celular enquanto ele, um gênio da raça, está ali, com sua barba branca e rala e rosto magro e cavoucado, a mimetizar no seu ar circunspecto as perturbações dos grandes escritores, aqueles sim, arrastando as dores do mundo, enquanto constroem a grande literatura e nos elevam sobre seus ombros para a compreensão das pequenas e grandes aflições da humanidade.

    A moça me ofereceu o lugar no canto, e é nestas horas que costumo me dar conta da idade, sempre me esqueço. A culpa é do espelho, você sabe, o espelho de todo dia se torna cumplice no correr dos anos, a convivência o corrompe e ele passa a entregar as ilusões que você deseja enxergar, acho até que deve existir um lugar secreto onde os espelhos se reúnem para rir dessa fraqueza tão humana que é precisar o tempo todo cegar-se para não ver a própria miséria.

    Meu assento é de frente para o vagão, bem do jeito que gosto, de onde posso observar os mais variados tipos humanos, a maioria naquela luta interna contra a vida, espelhada no mau humor e enfado. E que faz todo sentido. Ninguém é obrigado a ser feliz às 7 horas da manhã dentro de um trem lotado. Meu julgamento deve ser descartado, tenho a vida tranquila, posso descer onde quiser, tomar meu café em qualquer quiosque ou boteco, bisbilhotar a vida alheia por tempo indefinido sem me preocupar se vou ter grana para atravessar o mês. Então é fácil.

    Desço na estação junto ao Masp e entro pelo grande vão do museu até a mureta de onde se vê os baixos da Bela Vista e do Anhangabaú. Era por ali, e dali para baixo que tudo foi acontecendo um dia, não foi assim de uma hora para a outra, foi um processo, um descuido. E eu me lembro dela me dizendo junto a janela,

    — Hoje eu vi um disco voador.

    Tem certeza?

    — Sim, mas era diferente dos outros.

    — Não era nem pratos nem caixas de papelão.

    — Não, parecia esses pacotes de salgadinhos, meio amassado, meio disforme, movia-se assim como se fosse um saco vazio empurrado pelo vento.

    — Onde estava?

    — Pelos lados da Zona Leste.

    — Sempre acontece coisas estranhas na Zona Leste. Quanto tempo durou?

    — Dois ou três minutos.

    Ficou assim, parada por alguns instantes, olhando o nada, o vento morno soprava seus cabelos.

    — Como estão seus projetos?

    — Esperando respostas, como sempre — respondi.

    — Admiro tua persistência.

    — Talvez um dia eu me canse ou faça algo diferente quando me aposentar.

    — A gente pode ir morar em outro lugar, ou sair por aí.

    Sair por aí? É a primeira vez que te ouço falar assim.

    Ela se voltou para mim, expressava uma alegria infantil, mas algo nervosa.

    — Tenho pensado. Mas não é uma coisa triste, como essas pessoas que abandonam a família, você nunca teve essa vontade?

    — Já, mas no meu caso seria essa coisa triste que você fala, deixar tudo para trás.

    — Até eu?

    — Não, você sabe que não, você é minha parceira, vamos ser parceiros sempre.

    Ela me olhou, estática, por alguns instantes. Depois sorriu, doce e resignada.

    — É uma pena que não.

    Depois saiu do quarto e nossa conversa terminou por ali. Nunca entendi o significado daquela última frase. Talvez porque nunca tenha sido honesto comigo mesmo e admitir o quanto fui pequeno nos momentos em que ela mais precisou de mim. Nós, machos, precisamos satisfazer nossas necessidades, está escrito nos estatutos gravados nas pedras do reino patriarcal, de nada adiantou o mundo ter saído da invenção da roda para a descoberta das partículas quânticas, tudo permanece igual na visão canhestra e miserável do ser masculino. E como todo bom cínico e desleal, passei a buscar outras mulheres, eu precisava extravasar. Um dia fui parar num lugar ali numa das esquinas da Brigadeiro Luiz Antônio, entrei por um corredor imenso, estreito, indefinido, cores vermelhas na maior parte do trajeto, algo estranho, pouco usual, uma música ao fundo como um eco, como se viesse de longe, mas que veio aos poucos se aproximando, até que adentrei um palco redondo, vazio, escuro. Uma luz se acendeu do lado, entrei por uma porta lateral e saí num puteiro, com mesas, sofás e um pequeno palco ao fundo onde uma senhora de roupas algo velhas e esgarçadas, justas e em cores estridentes, cantava uma música das mais tristes. Larguei-me sobre o sofá e duas mulheres se aproximaram e se jogaram sobre mim e penso que, durante alguns anos, nunca mais saí daquele lugar.

    Hoje olhando no retrovisor, nada justifica o que aconteceu, porque dali pra frente eu fui descendo, moral e geograficamente pela cidade até cair nos puteiros mais ordinários, como aquele, que acabei de descrever. E então, na tela do grande vão, aquela imagem recorrente: eu a vi, depois de rasgar em desespero o paredão de corpos que se aglomeravam para assistir ao espetáculo. Ela estava de pé no beiral, do lado de fora de uma das janelas do quarto, seus braços colados a parede e as mãos, trêmulas, tateavam de maneira aleatória algum lugar longe dali, como se ela buscasse algo palpável que a fizesse retroceder. Os policiais que faziam um cordão em volta do edifício tentaram me conter e eu gritei, tão alto quanto meu desespero desencavou forças que eu não tinha, mas não chegou até ela, vigésimo segundo andar e o alarido em volta, sirenes, gritos, buzinas. E ela, aos poucos, na lentidão das minhas esperanças e incredulidade, alçou voo com sua camisola branca de todos os últimos dias e noites, que ela não tirava mais, por entrega e um grito de socorro, e flutuou em câmera lenta por uma eternidade, pelo tempo em que a congelei com meus olhos, rezando por alguma força mágica que rebobinasse aquela imagem como uma velha fita VHS ou que eu despertasse de um pesadelo. Até que o baque, surdo e entre ossos que estalaram ao mesmo tempo, como a batida final da orquestra, tudo silenciou. Entre o assombro e o desespero, a sensação de fim dos tempos. Como se eu não tivesse nada a ver com aquilo.

  • UM DIA DE VERÃO

    Eunice saiu da rede e se instalou na cadeira de palha da varanda. Cruzou as pernas e substituiu os óculos de leitura por outros com lentes escuras. Pôs de lado o livro sobre questões ligadas aos direitos das pessoas com deficiência que vinha lendo nos últimos dias e contemplou o panorama à sua frente. Sorveu dois goles de suco de limão gelado, pousando em seguida o copo sobre a mesinha de centro. Retocou o batom discreto com o auxílio de um espelhinho. Procurou uma posição confortável e começou a meditar. Aos 67 anos, ainda trabalhava como advogada. Quando ingressou na faculdade, quase meio século atrás, julgava ser aquele o caminho ideal para alguém dotado de um senso de justiça tão exacerbado quanto o seu. O exercício profissional bem cedo se encarregou de demonstrar a falácia desse raciocínio. Ao longo da carreira, foram muitas as decepções. A sensação de impotência e de inutilidade era por vezes tão palpável… Atualmente, gostava de escapar da agitação da cidade fugindo rumo ao sítio da serra. No jardim, sua neta de 5 anos, companheira eventual dessas aventuras bucólicas, brincava. Em sua pureza infantil, mexia na terra, rolava na grama viçosa, colhia flores e observava o comportamento dos insetos. A avó estreante se comovia. Em cima do muro de tijolos ao lado do portão de entrada, a menina abria os braços com convicção e gritava: Eu sou o Cristo Redentor! De tempos em tempos, olhava para trás e acenava. E sorria. O sol forte do início da tarde iluminava-lhe o rosto. Como é lindo o sorriso de uma criança. De qualquer criança. Depois que ficou viúva, Eunice passou a não ver graça no apartamento amplo de Copacabana, onde hoje vivia sozinha. Tudo muito repentino, exatamente como costumam ser as tragédias. Uma bala disparada à luz do dia, não se sabe por quem, conseguiu, com a rapidez de um instante, pôr fim à vida de um homem produtivo, competente, amoroso e responsável. Olhando Camila, Eunice se preocupava. Que mundo lhe estaria destinado? Por um momento, desejou ter o poder de congelar o tempo. Ficaria ali, eternamente a olhar a menina, desligada do resto do Universo, convencida de conseguir assim resguardar e proteger aquele ser inocente. De quê? Nem ela mesma sabia ao certo. Em diversas ocasiões, a própria Eunice se sentia abandonada e perdida, carente de um ombro aconchegante. Um beija-flor inesperado e arisco distraiu-a por alguns segundos. Em seu voo assimétrico, a ave negra e minúscula quase se chocou com uma das pilastras da varanda. As duas garrafinhas penduradas no alto representavam um convite a esses pássaros adoráveis. Solitários, em duplas, lá vinham eles. Parados no ar, batiam as asas com avidez, sugando o néctar a eles destinado. Camila circulava agora entre as estatuetas que enfeitavam o jardim, transformando-as, com sua imaginação prodigiosa, em príncipes, heróis, fadas, duendes, seres alados, bichos falantes… De repente, o tempo começou a se fechar. O sol, até então radioso, de vez em quando sumia por trás de nuvens espessas e acinzentadas, formadas sem que Eunice tivesse se dado conta. Um ambiente opaco surgiu. Um vento assobiando fino começou a ser ouvido. Balançava as folhas das árvores, levantava a poeira da estradinha de terra batida diante da casa e desalinhava os cabelos castanhos de Camila. Arrancava dos galhos mangas maduras que salpicavam o solo com um amarelo vivo e gostoso. A ameaça de chuva e as insistentes lufadas de vento fizeram Eunice convocar a neta até a varanda. Ficaram as duas ali, quietas e pensativas, concentradas apenas naquela realidade. De mãos dadas, exercitavam uma cumplicidade que deveria ser natural entre avós e netas. Meia hora depois, com a volta da claridade e de uma tranquilidade aparente, a pequena dirigiu-se de novo ao jardim. Perto de uma roseira ramosa, um marimbondo picou sua testa. Camila gritou de dor. E chorou.

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