Talvez essas sejam as minhas últimas palavras. Mas sempre acho que serão as minhas últimas palavras. Insisto em escrever isso, quando sinto dores (fortes dores). Estou completamente enferma, e os médicos não detectam nada. Já fiz uma porção de exames, e ainda os faço. Gasto um dinheirão com isso. Se procuro na internet os sintomas, acho que vou morrer a qualquer instante. Já me falaram que sou hipocondríaca. Claramente isso não corresponde à realidade. A doença silenciosa e fatal é ainda mais cruel dos três últimos anos para cá. A causa de tudo foi a morte repentina de Charlote, a minha gata. Ela tinha apenas oito anos. Gatos vivem em média quinze anos. Nunca achei que fosse perdê-la da noite para o dia. Primeiro, ela ficou muito quieta; depois, passou a não enxergar, batendo-se pelos cantos, desnorteada. Eu a levei à emergência. O médico-veterinário disse que havia características de envenenamento. Mas como, se não uso nada dessas coisas, nem mesmo inseticida? Ela teve uma hemorragia e depois uma parada cardiorrespiratória. Charlote foi cremada e suas cinzas ainda permanecem comigo, porque preciso de sua presença. Quando a peguei na rua, o fiz justamente pela proteção transcendental dos gatos às pessoas. Eles nos curam, é verdade!; puxam as energias negativas, dores e cansaço. E foi assim, durante os belíssimos oito anos: Charlote me ajudou muito. Na verdade, meu caso de enfermidade é crônico (e possivelmente degenerativo). Ora estou com dores nas costas, ora com enxaqueca. E eu só tinha a Charlote para me acudir nas piores horas. Pensei que ia abandoná-la antes do tempo, e foi ela quem me pregou uma peça. Me deixou desolada e mais doente (mas não quero que se sinta culpada por isso; ela tinha de ir por algum motivo, que ainda não decifrei). Já não controlo os meus músculos. Quando vou comer, derramo toda a comida. Ando desengonçada. Tropeço nas ruas por qualquer mínimo buraco. Semana passada caí, bati a cabeça e fiquei desacordada. Uma senhora muito idosa me socorreu, jogando água no meu rosto e dizendo, como um mantra, que todo o mal iria passar. Pensei na minha avó, que morreu há trilhões de anos, mas deixou o seu amor eternizado em mim. Quis pedir para a velhinha me carregar com ela, já que estava prestes a morrer; para cuidar de mim como a uma netinha. Quando disse que estava mesmo quase partindo desta para uma melhor (tenho fé!), a velhinha deu uma risada e me recriminou, depois, severamente. Que era muito nova para pensar nessas coisas de morte. Não sei bem como estarei daqui a algumas horas. Tomei seis remédios obrigatórios e mais dois para dormir. Espero morrer dormindo, como se não tivesse acontecido nada. A minha passagem, na verdade, é um verdadeiro nada no mundo. Decreto todos os dias o fim da minha existência, para encerrar logo esse martírio, mas esse troço parece estar contra mim.
COntos
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Passagem
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Olhos de cobra
Eu gosto de sair andando sem um rumo definido. Desde moleque assim. Lembro-me da felicidade que sentia ao perceber o dia chegando pelos vãos da janela, era como um chamado da liberdade me arrancando da cama de volta para o mundo que o sono da noite anterior havia me tirado a contragosto. Saía descalço, pisando a grama molhada, enquanto os primeiros raios do sol criavam um pano cintilante sobre as várzeas cobertas de orvalho, a névoa rasteira sobre a superfície dos veios d’água. Ali, sem saber do intrincado invisível que me circundava e me atraía, eu observei um fenômeno que me acompanharia pelo resto da vida e que, de alguma forma enviesada, me escancarou um destino além da minha compreensão e controle. Enquanto pisava prazerosamente a grama molhada, eu ouvi um barulho que me era desconhecido, um guincho de algum animal, um som arranhado e ao mesmo tempo sufocado, como quando se tenta tirar um grito da garganta rouca e quase muda. Aquele som ficava cada vez mais próximo e então vi, na beira do rego d’água, frente a frente, uma cobra e um sapo. Ela tinha a bocarra aberta e os olhos arregalados fixos nos olhos do outro, como se o hipnotizasse. E era dele que vinha aquele som gutural, pontuado por alguma estridência, como se gritasse por socorro. Enquanto, num arrastar dramático que ficou tatuado em minha memória, como se eu pudesse ver dentro do seu corpo todas as contrações que tentavam contê-lo e puxá-lo para o sentido contrário, ele ia, em pequenos pulos, para dentro da boca da cobra. E assim se deu, até que ela o engoliu, aquele grito calando-se aos poucos conforme ele afundava para dentro dela, até que a boca se fechou e tudo ficou silencioso. E agora era apenas o som da água que escorria, densa e veloz, enquanto a serpente parecia fechar e abrir os olhos, lentamente, como quando se ativa as papilas gustativas para identificar e apreciar, um a um, a variedade de sabores de uma iguaria. Exceto por aquele fato raro daquela manhã, aqueles passeios nas primeiras horas do dia eram como se eu retomasse meu lugar no mundo, como se de dentro dele viesse um chamado, com letreiros enormes e fanfarras e uma grande faixa que dizia “bem-vindo ao seu lugar”. Mas a visão daquele dia não passou impune, não conseguia retomar meu caminho que era apenas deixar correr as horas enquanto me perdia na contemplação da vida. Sentia-me culpado por não ter salvo aquele sapo, podia ter pego um pedaço de pau e pelo menos espantado a cobra, mas não, fiquei inerte, como se algo dentro de mim dissesse que aquela era uma lição necessária, ou talvez tenha sido mesmo a faceta maquiavélica dessa coisa chamada destino que me fez ser apenas um observador estático dos minutos finais do pobre animal. Não consegui esquecer e ao cair da tarde subi até a igreja que ficava a um quilometro de casa, no alto, em direção ao centro da cidade. Fique lá, sentado em um dos bancos na terceira ou quarta fileira, enquanto olhava a pintura belíssima numa abóboda sobre o altar, um grupo de anjos rechonchudinhos de cabelos encaracolados flutuando em volta de Nossa Senhora com o menino Jesus no colo. Eu pedi encarecidamente que ela me perdoasse por aquele crime, ao mesmo tempo em que esperava algum movimento em seu rosto, talvez ela se voltasse para mim, e através de algum gesto, mínimo que fosse, me fizesse entender que ela tinha recebido o pedido e me perdoaria. Nada disto aconteceu, mas saí de lá certo de que a minha oração teria chegado aos ouvidos de Deus e que a minha fé, ainda que titubeante, haveria de ser suficiente para que eu alcançasse o perdão.
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Pizza fria
Zimi parecia debochar de tudo o que desprezava sem dizer uma palavra.
Era algo em sua presença.
Algo que se manifestava especialmente na inconveniência das filas.
De mercado, de banco, qualquer uma.
Ele estava com o título de eleitor cancelado por falta de uso, e dessa vez, a fila para regularizar o documento.
A fila era monstruosa e havia gente ansiosa pelo título, especialmente jovens que votariam pela primeira vez.
Eram divididos em duas bolhas tóxicas que chamavam de ideologia.
Zími soube na véspera através de um noticiário televisivo que aquele seria o último dia para regularizar a situação.
Enquanto ele esteve ali, ninguém da imprensa apareceu.
Alguns daqueles jovens talvez soubessem que se votar mudasse alguma coisa, teriam essa possibilidade cortada imediatamente.
Talvez soubessem que poder votar não faz de lugar nenhum uma democracia.
Conheceu uma universitária que tentou fazê-lo gostar de MPB.
Só conseguia pensar sobre como alguém daquela idade podia suportar músicas que ele abominava desde os anos setenta.
Zími usava uma camiseta da banda Mission of Burma, e ela gostava de Gonzaguinha.
Contou a ela que a última vez em que votou foi quando a urna eletrônica foi implantada.
Ele gostava das cédulas de papel, para escrever palavrões.
Nunca mais compareceu às urnas.
Disse a ela: “Políticos dividem as pessoas em dois grupos: instrumentos e inimigos.”
Lembrou do tempo em que na escola passava de ano no terceiro bimestre, só para passar o resto do tempo cabulando aula no Ibirapuera.
Um recurso ingênuo que na época parecia fazê-lo reduzir o dano do tempo de vida perdido no colégio de freiras.
Antes da internet e sem a bolha do celular.
“Pensava que passaria sua vida vagando a esmo, com a pecha de perdedor, mas não me preocupava. Eu não era articulado o suficiente para explicar com clareza o que eu pensava, E se fosse articulado, tomaria porrada da repressão da época.”
Foi expulso da escola de freiras na sexta série.
Na época, voltando à escola depois de três dias suspenso por insubordinação, foi pressionado pela freira na frente dos colegas.
Foi perguntado sobre qual era o motivo de sua revolta.
Zími respondeu: “A primeira revolta é contra a suprema tirania da teologia do fantasma deus. Enquanto as pessoas tiverem um mestre no céu, serão escravos na Terra. E sou contra o uso da religião para justificar hierarquias, obediência e dominação.”
Apanhou em casa e foi então transferido para uma instituição não religiosa, onde se deu melhor e não teve problemas para concluir o segundo grau.
Depois cursou jornalismo, concluindo o curso antes que tivesse internet em casa, na segunda metade dos anos noventa.
Perguntou-se novamente se haveria sentido ter passado por aquilo depois da internet.
O horário de funcionamento daquele cartório eleitoral chegou ao fim, e as pessoas ali eram avisadas que somente em novembro poderiam novamente ter suas situações regularizadas, caso não resolvessem suas pendências naquele dia.
Zími foi embora sem regularizar nada.
Estava ali porque tinha a tarde livre, e o barulho de uma reforma no apartamento de cima não lhe dava sossego.
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O Teste
— Quantos quilos você tem?
— Uns cento e dez.
— Próxima! Mais rápido, minha filha. Anda um pouco. Desfila. Imagina que tem uma plateia aqui só pra te ver. Vamos logo, meu amor, não tenho o dia todo. Chega, pode sair. A gente entra em contato. Próxima! Próóóóxima! Quantos quilos você tem?
— Cento e vinte e um.
— Próxima! Uau, acho que você vai servir. Como se chama?
— Zulmira.
— Então, Zulmira, você tem problemas com nudez? Ainda estou pensando, não é nada certo, mas talvez alguma nudez venha a ser necessária. Só peitos, não se preocupe, tudo de muito bom gosto. E vai ser rápido. Na hora devo colocar uma luz fraca em cima de você… Seria um empecilho?
— Não, tudo bem. Eu…
— Agora anda um pouco, como se estivesse desfilando. Meio Gisele, entende? Meio Gisele, eu disse! Mais disposição, atitude de mulher empoderada. Solta o cabelo. Balança a cabeça. Plínio, joga o ventilador em cima dela. Pega aquele lençol e enrola no corpo. Bem sensual, não seja tímida. Anda, Zulmira, tá esperando o quê? Não precisa ficar com vergonha. Parece bom. Quantos quilos você tem?
— Cento e trinta e sete, acho. Não fico me pesando toda hora.
— Perfeito. Você não é muito alta, né? Um metro e… Idade?
— Quarenta e nove.
— Onde você mora?
— Quintino.
— Cruzes, onde fica isso? É longe, né? Você vai conseguir chegar na hora? Eu não tolero atrasos é bom que você saiba. Plínio, mais alguma?
— Não, Daniel, essa aí é a última.
— Você tá com sorte, Zulmira, vamos fechar com você. Alguém já te disse que você tem muito potencial? Contente, querida?
— Claro. Sempre foi meu sonho. Olha, eu decoro rápido, tenho muita facilidade. E os ensaios quando começam?
— Relaxa, Zulmira. Você não tem texto, não precisa decorar nada. Também não tem que participar de nenhum ensaio. Uns dois dias antes da estreia você passa aqui, a gente conversa sobre marcação, mas é tudo muito simples. Você fica uns trinta segundos em cena e sai. Vai dar tudo certo. Os caras querem ver as garotas, as gostosonas. A sua parte é mais um alívio cômico, entende?
— Mas é só isso? E o contrato?
— Não tem contrato, é cachê. Cinquenta reais por sessão, recebe no domingo.
— Mas eu pensei que…
— O que foi, Zulmira? Não tá satisfeita eu chamo outra.
— Não é isso, é que eu pensei…
— Pensou o quê? Meu bem, você não viu o anúncio? Tá claro no anúncio.
— Eu não li o anúncio. Nem sabia que tinha um anúncio.
— Veio pela agência?
— Não, tava passando aqui na porta…
— Então é isso, minha filha, já expliquei tudo. Conversa com o Plínio se tiver dúvida, mas o negócio é esse mesmo que eu falei. Plínio, tô atrasado, preciso correr. Liga pro elenco e avisa que os ensaios começam amanhã, tudo bem?
— Pode deixar, Daniel.
— Acho que lá pelas seis tá bom. Ah, e fecha o teatro pra mim, ok?
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D. Henrique
Se ouve lá de casa, uma légua de distância – diz o Tio Abílio.
Canto mais belo não há – diz Tia Adélia.
E a Mocinha sorri encantada. É um passarinho mágico, dentro dela.
D. Henrique, tal se soubesse, modula o trinado leve no ar do meio-dia, trinado alegre se espiralando na varanda, nos pomares, nos campos sem fim.
Era presente do Tio Juvenal, trazido de longe, do sítio do Fogo-Apagou, que se agacha numa furna de além da Serra-do-Meio, num lugar que se esconjura já no apelido: Deus-Me-Livre. O nome D. Henrique, homenagem ao audaz navegante. Não tinha cruzado os mares, arrostado perigos, tempestades, naufrágios? Certo que não: canário-da-terra, muito nosso, desta beiradinha de sertão. Amarelinho, o amarelo vivo, lindo, jamais visto – tirante a laranja, mas a gema do ovo, a gema do ouro. Com o cinza descendo nas costas, crescendo, até a cauda – manto real. E o canto, de maravilha. Certo que de um outro mundo, de sonho, da fábula.
A Mocinha era a dona – por isso feliz, feliz como um passarinho. O gorjeio de D. Henrique, o sorriso nos olhos da Mocinha – um namorinho, às escondidas. Ah, ninguém não saberia dos trinados do seu coraçãozinho, a sua paixãozinha. Sabe, eu tenho um passarinho – queria contar. As palavras não dizem o sentimento – todo mundo tem um passarinho. A verdade se imagina – o coração no poleirinho, que balanga pra cá, pra lá.
Ao Nando, o noivo, sentado sério na varanda – Sabe, eu tenho um passarinho. Os olhos dele, de surpresa – o que demais? D. Henrique sacode as asinhas, estufa o peito, as peninhas de ouro. Ah, sei – diz o moço: – É um passarinho de ouro. A Mocinha ofendida, lá com ela. Não é só isso não. Ele nem não existe, de tão bonito. O pensamento tão gravezinho, o Nando nem não entende. Consola – É muito lindo, sim, o canarinho. Não via quem não queria, só de brincadeira que falou. Se ela dissesse: Não se brinca com o sentimento dos outros, Nando. A cara morena dele tão perto – precisava que falasse de amor? E se fosse de brincadeira? Não pensava muito, não. Se encosta, dizendo, o que nem carecia: Nando – eu, você. D. Henrique pula que pula, o biquinho treme na melodia que só ela sabe – batendo palmas no jeito bem dele. E o Nando – Não é que esse passarinho canta bonito? É diferente, não tinha reparado. É até inteligente – ela pensa.
Você põe o dedinho, provoca. D. Henrique vem com o biquinho, as bicadinhas. Bravinho, se arrepiando inteirinho – ou era só que estaria brinca-brincando? Os azuis do céu, a capricho – límpido, livre: a alegria do canarinho, mesmo se bravinho. A Mocinha treme os labiozinhos, estralozinhos, a lingüinha, arremedo de assobio – Assim que se canta, D. Henrique. E D. Henrique, garboso, vestido no seu manto do maior orgulho, trina que trina e trina – como que uma caçoada! – os mais belos trinados. Dedinho no pescoço, na cabecinha – num agrado, o elogio merecido? Não deixa não. De um a outro poleiro, o balanço arisquinho. Elogio? É o meu natural, não precisa não. Folhinha de almeirão? Ah, sim. Mas me ensinar? Isso não. Nasci sabendo, com o sangue. A longa viagem, escura – viu a luz, que lindos gorjeios! Que vida rebentava daquele peitinho! As peninhas de ouro brilhando no sol. Dona Mocinha, trocar minha agüinha? Um banho molhadinho, espanejar mil pozinhos d’água no ar. Esse beicinho, Dona Mocinha? Me dar um beijinho? Muito agradecido – o imaginado é já o sentido. Tri e tri e trinos de luz, claridade, suavidade! Nosso namorinho, Dona Mocinha.
Seu Nando manda dizer que hoje demora mais – o recado, grave. Que novidade! Caçar um jeito de não ouvir o tempo, o de sempre – os dedos delicadíssimos no bordado do enxovalzinho. A calma tristeza sentada na varanda – só D. Henrique vê, solidário, distraído da cantoria que quer sair, explodir na lindeza da tarde clara. Horas sem fim bordando a solidão – tão monótona a espera! Por que será que o Nando demora tanto? Madornando, fecha os olhitos. Desperta com os cuidados – Que seria? Uma desgraça? Madornando, desperta: os trinos agudos, estridentes, tanta alegria, D. Henrique até desafina! Se fosse possível! A Mocinha abre um sorrisinho – Tenho você, D. Henrique. Mas repreende – Estou triste, D. Henrique! Tri, tri, triste? Tri de trinados e trinados, alegres embalando a tarde! Colorindo, perfumando a alegria – Teu noivo chegou! Teu noivo chegou! O Nando – sujo, suado – traz o seu sorriso bom. Cansado, o jeitão aborrecido, por trás o gosto do encontro, curto – Já são horas, logo vou chegando.
O Nando implicava com D. Henrique – Como que vigia a gente, segurando vela, oras! Tem ciúmes – pensava a Mocinha. Uma pontinha de orgulho se acendia nos olhinhos – Tem ciúmes de mim, sim, sim! O Nando implicava, desimplicava – a Mocinha via os olhos dele bulindo: a mãe vinha surgindo na varanda, com café, bolinhos, ou o pai procurando, pretextando os dois dedos de prosa, as honras da casa – D. Henrique dava o aviso, apartava os dois pombinhos. Inteligente, sim senhor! E amigão! Pois é, o Nando nem se desgostava mais com o canarinho. Mas deu de inventar outra implicância: Não gosto de passarinho preso não – falou. A Mocinha até pensava: Fala com franqueza. Desgosta de verdade! Foi pensando. Com o pensamento, quem é que pode? Entra na ideia, sem nem pedir licença. Não sai mais não – preocupaçãozinha cresce que cresce: Meu D. Henrique, infeliz na prisão! Meu prisioneiro, coitadinho. Isso não se faz – desumano, cruel demais. Chorou sentida, magoada nas cordas mais doloridas da sua almazinha ingênua. Soltar D. Henrique – ficar tão sozinha! Um pedaço de mim! É tudo que eu tenho – minha fábula encantada! Não soltar? Não pode ser! Eu não sou tão má. Não tenho tanta ruindade. Como se matasse um pedaço de mim! A Mocinha balangou, balangou – a gangorra da indecisão, as rodas do monjolo plec, plec, a mão do pilão puf, puf! roendo o seu coraçãozinho.
Soltou D. Henrique. Aberta a portinhola – um adeus choroso, demorado, engasgando as palavras na garganta, nem D. Henrique cantava. Vai, amorzinho. Vai, meu tesouro – antes que eu mude de ideia. A cabecinha fora da porta – D. Henrique olha à esquerda, à direita, assuntando. A Mocinha descuidou – lá se foi ele. Adeus! Adeus! Pousa na roseira florida, que lindo! Mas cuidado, D. Henrique – cuidado os espinhos. Ai, meu Deus! Ele não conhece o mundo lá fora. Tantos perigos! Não vai resistir. Meu Deus, o que eu fiz? Mandei D. Henrique para a morte? D. Henrique saltita na laranjeira, na cerca, na jabuticabeira – o trinado claro, nunca tão lindo! A Mocinha vê, de longe – os olhinhos marejados, a dor bulindo naquela aguinha. D. Henrique voa, avoa – some-se no azul. Livre – isto a liberdade! Ingrato – tanto que era amado! Ingrato nada – livre, é o que é. Liberdade, o dom precioso! A Mocinha abraça o Nando – tantas lágrimas, e contidas: inda um esforço de mostrar alegriazinha. Abraça a mãe, abraça o pai – Deixa, menina, que ele volta. Ah, pai: deixa ele ser livre – a Mocinha engole a lagrimazinha. Há uma dorzinha neste mundo, ninguém não vê, enorme, enorme.
Quando D. Henrique voltou – Meu castelo, meu lar! – nunca mais porteirinha fechada. D. Henrique senhor do mundo, livre, trina, trina os límpidos cânticos da liberdade! A Mocinha não cabe em si, tão feliz! Um sorriso largo, livre – livre é uma palavra tão linda! A Mocinha casou, saiu da Fazenda Gabirova para a Fazenda Pau d’Alho, foi feliz. Há dessas histórias de amor, perfeitas, neste planeta. O Nando pegou amor no bichinho – preparava o ovo matutino, limpava a gaiolinha, na tardinha regava o canteirinho de almeirão: D. Henrique não tinha do que se queixar. Uma canarinha – que maravilha de canarinha! Quatro ovinhos, quatro! Nenhum vingou, D. Henrique nem viu. Governava o seu reino, navegante nas águas da alegria. A Mocinha vai se lembrar, por toda a vida! Houve tempos difíceis – os primeiros, depois melhoraram – mas foram tão bons! Ela sempre vai se lembrar. Nas bodas de ouro – rodeada dos muitos filhos, netos, bisnetos – ela vai se lembrar. Ela, o Nando! D. Henrique, Sua Majestade, a nobreza nas peninhas de ouro, penugenzinha, fino pozinho de ouro borrifadinho! O gorjeio de ouro tremulando claro, alto, léguas em redor, leve, livre, límpido – D. Henrique, a rica mágica: este mundo encantado!
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Aurora e o Sujeito Sentimental
Arre, que não teve jeito! Nunca tem. Mente quem diz que tem.
O chefe da Polícia Federal fala ao assistente sem tirar os olhos do cadáver esticado na cama do hospital, dentro de um saco grosso de plástico: Providencie o traslado do corpo do Pestana para Araraquara, a cidade dos pais, no interior de São Paulo. Já assinei o documento de autorização. O caso pra ele tá encerrado. Nós vamos continuar de onde ele parou. Ele trabalhou bem no começo, cagou no final. Otário!
Quando não tinha mulher no meio, Pestana era ágil, resolvia tudo num dois por três. Levou poucos meses para investigar e explodir as entranhas do tráfico da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Rodou por Belo Horizonte, Recife, Cuiabá, São Paulo, Porto Alegre, eliminando as ramificações brasileiras dos traficantes de drogas. Morava mais em avião do que na própria casa. Trabalhou com eficiência. Era quase invisível e conseguiu se infiltrar. Tudo fácil, até que ela apareceu, presa por um colega policial. Ruiva, cabeleira ondulada igual à personagem do gibi, era um espécie de chefe de uma gangue obscura do Rio de Janeiro. Obscura sim, mas que vinha dando trabalho para a polícia: assassinatos, assaltos, conluio com a milícia, submissão de moradores das favelas cariocas. Pestana percebeu o tipo, a malemolência, a malícia. A boca. O olhar. O cheiro. Tinha um nome matador — Aurora —, que nunca mais sairia de sua cabeça. Soube que estava perdido assim que a viu. Ela prestou depoimento e o encarou como se perfurasse sua alma. Foi dispensada por falta de provas. Pestana se rendeu, agiu como um idiota. Ruiva esperta e dissimulada, deslizava feito bagre. Sempre tinha álibi. Nunca se deixou vincular com o tráfico, mas estava sempre por perto, pairando, rondando. Uma sombra difícil de agarrar.
Desbaratada a rede brasileira, foi a vez de investigar o braço internacional. Barcelona, Lisboa, Zurique, Londres. A sombra da ruiva também estava espalhada por lá, a gangue crescia com rapidez. Pestana seguiu pistas, conferiu informações, foi atrás de supostos cúmplices na Europa. Nenhuma prova ainda que incriminasse Aurora, a cachorra sabia como escapar.
Foram para a cama em Londres, no apartamento que ela tinha lá. Pestana sabia onde estava se metendo, mas não conseguia evitar. No sexo era Aurora quem dominava, ele obedecia, fascinado por aquela mulher perigosa que poderia matá-lo sem pensar muito. Ela gostava de ficar por cima. Abria as pernas sobre o corpo esticado dele e o olhava nos olhos. Ordenava: Quero uma enfiada só, de uma vez, ouviu? E ia se abaixando devagarinho, ficando de cócoras sobre o pau em riste. Dava um tranco rápido com as nádegas e se acomodava gostosamente, as pernas ao redor da cintura do policial e o membro dele inteiro dentro dela. Mexia os quadris como profissional experiente, devagar primeiro, acelerando o ritmo aos poucos e apertando e puxando para cima o bico dos seios. Isso deixava Pestana louco e ele tinha que se segurar para não gozar de imediato. Quando se separavam, cada um num lado da cama, suados e vazios, ele gastava minutos olhando a barriga redonda de Aurora, que subia e descia em movimento uniforme. Naquela noite, assim que ela se levantou para ir ao banheiro se lavar, Pestana grampeou o telefone do quarto. Cadela, que pena, agora te peguei, pensou o investigador. Não pegou. No dia seguinte ela descobriu o grampo, desativou a armadilha, pintou o cabelo de preto e sumiu. Semanas sem saber dela, Pestana quase enlouqueceu.
Em Barcelona, pensou tê-la visto na rua. Não era, mas podia ser. Foi pra cama com a desconhecida e percebeu que não era mesmo a outra: não tinha o piercing no clitóris, nem o anjinho tatuado na nádega esquerda, nem gritou Drácula! na hora de gozar. Deu dinheiro e dispensou a falsa.
Andou um tempo com medo. A Europa amedrontava, tinha a barreira da língua, o frio que endurecia os ossos, a comida que parecia cimento e ninguém em quem confiar. E a solidão, essa cachorra! E a cachorra da Aurora, que tinha sumido como fumaça? Estava desolado. Queria voltar e se torrar sob o sol do Leblon. Recebeu notícia do chefe: Aurora tinha sido vista num inferninho em Copacabana. A ordem foi que voltasse correndo. Pestana tomou o primeiro avião. De novo no Rio, recomeçou a perseguição. Maré, Rocinha, Alemão, Cidade de Deus, um sabonete chamado Aurora fazia muita espuma e desaparecia como se nunca tivesse existido.
Até que um dia seus olhares se cruzaram de novo, e aquela foi a penúltima vez. A polícia foi avisada por um delator, vários investigadores deram flagrante, chamaram a televisão e os jornais: a ruiva, dólares e euros em dinheiro vivo, carregamento pesado de drogas, todos presos, ela também. Pestana pôs as algemas olhando para ela direto nos olhos. Quinze anos no xilindró, quando sair vai estar velha, gasta. Pena. Assim que a poeira baixou, Pestana foi para casa descansar, dormir e tentar esquecer.
Com a ajuda de um rábula vesgo e corrupto, a ruiva conseguiu habeas corpus e, de novo na rua, foi cobrar o prejuízo. Soube que uma noite o Pestana estava bebendo no Golden Duck, em Copa. Ele ainda não estava completamente bêbado quando ela entrou e o encarou. Essa, sim, foi a última vez que cruzaram os olhares. Ela sorriu, se aproximou, colou o corpo no dele e o beijou na boca. Disparou cinco vezes com a automática silenciada enquanto o beijava. Saiu da boate sem ninguém impedir ou entender como, protegida por seus capangas.
Pestana respirou uns dias por uma máquina. As agulhas nas veias providenciaram alimento e sobrevivência. Quis morrer, não agonizar. Quis morrer com a ruiva mordendo seus lábios, balançando a cabeleira como a moça do gibi. Morreu sem isso.
O chefe da Polícia Federal entrega o documento ao assistente, autorizando o traslado do corpo. O Pestana disse que queria ser enterrado ao lado do papai e da mamãe dele. Coisa de sujeito sentimental. Otário! Despacha o corpo pra lá, anda. Alguma pista da cachorra da Aurora?
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Dente na garganta
Os garotos atravessaram a ponte de concreto em direção ao campinho. Era o trajeto de todos os dias, a única passagem que ligava os dois estados. Finalzinho de tarde, separação dos times, alarido, escolha de quem ia na linha, quem ia no gol, os melhores já saíam logo da fila, e ficavam num canto debochando dos desajeitados e ansiosos ruins de bola, pernas-de-pau, o gordinho, o magrinho, o esquisito, o que não fala, o manco, o preto, o ferrugem, o sem pai, o filho da puta, puta mesmo, de um pardieiro antigo do outro lado do rio. Deu a saída, gol na primeira jogada, o garoto na lateral levou no meio das pernas, os parceiros de time abaixaram a cabeça inconformados, ele era um desastre, ruim para um caralho, diziam no particular quando ele não estava por perto, mas ali, era tudo meio disfarçado, ninguém tinha peito pra reclamar alto, ninguém tocava nele, era o dono da bola, do terreno onde ficava o campinho, dos barcos ancorados ao longo do rio, das áreas de concessão na beira da estrada dos dois lados, alugados para construção de postos de gasolina e outros serviços, era dono da metade da cidade, era dono de parte do estado junto com outros sócios, era quem pagava o lanche depois do jogo, comprava a simpatia dos amigos, ninguém bolia com o menino.
A reunião fora nos fundos do galpão, todo mundo sem camisa, celulares do lado de fora dentro da tampa de um tambor, sem secretárias, sem auxiliares, só os donos do negócio, o prefeito, o vice, o secretário de obras do município e o do estado representando o governador, o dono da empreiteira vencedora da licitação, edital arranjado, único qualificado capaz de cumprir as regras impossíveis, um cala-a-boca pro resto, todo mundo teria sua vez nas próximas, pacto de silencio, fundão do Brasil, inalcançável, leis próprias, gente de Brasília no bolso, desembargador do estado no bolso, oposição no bolso, suados, caldinho escorrendo pelas dobras do pescoço, mãos feito garras, unhas sujas de sangue, olhos vermelhos, saliva, baba, dente na garganta, a gente dona da engrenagem, da massa do cimento, das ferragens, tudo de segunda e que ergueria a nova ponte para ligar os dois
estados.Numa clareira entre arvores altas, mato cerrado, três urdiam um plano. Ele morre amanhã, é o único jeito. Mas já vamos pedir o dinheiro hoje, a gente mata ele depois, vamos ter que sumir, não podemos mais voltar pra este lugar, e quem quer isto aqui? Vamos pra São Paulo, lá a gente desaparece, vira um traço, a gente é traço aqui, não é por isto que estamos matando? Eles riem, fazemos justiça social, e riem de novo mais e mais. Teu neto tá com a gente, dizia o bilhete. O prefeito urrou, ergueu-se e ergueu com ele a mesa, tombou-a com os braços gordos e fortes, chama o Jeremias, descobre quem escreveu isto, vai atrás do garoto, que não posso agora, tenho reunião, vai na casa dele, o celular da maldita não responde, deve tá metendo, é só o que aqueles dois fazem o dia inteiro, vê se tá no campinho, essa hora eles tão lá, é todo dia de tarde lá, descobre isso aí, mata todo mundo e joga no rio, mas quero os nomes, varre a cidade, ameaça todo mundo, quero esses caras no chão, mas me chama antes, quero ver a cara desses filho da puta, deve ser gente querendo mudar as coisas, algum desgarrado, algum comunista querendo fazer arruaça, vai e me chama, vai, vai.
Três motos seguiam os garotos. Voltavam do jogo, algazarra, risos, deboche uns dos outros, o neto do prefeito na frente, sempre ele na frente, a bola embaixo do braço, os outros já ansiosos, já sentiam o gostinho do sanduíche, do copão de coca, era no McDonalds, o único da cidade, presente do prefeito para o filho do presidente da Câmara, amigo velho, amigo do peito, irmão. Três carretas, quatro carros, cinco motocicletas e os garotos atravessavam a ponte, um tremor, dos dois lados do rio abriram-se duas rachaduras, que se alargaram e balançaram a ponte, e tudo se desgarrou, um segundo e era o vazio, o estrondo na água, o reboliço das ondas levantando os barcos nas margens, o espanto, os gritos, a correria, o estupor, o topo dos caminhões sumindo nas águas, o resto já era nas profundezas, nem sinal dos meninos. No ar, um oco, Jeremias chegou na ponte, gritou para o outro lado, era de lá que vinham os garotos? Alguém respondeu. Foram todos, o menino também? Todos, o menino também. Jeremias abaixou a cabeça, sorriu levemente sem que ninguém percebesse, a vida é um sopro, pensou.
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Visagem
A brisa da manhã invadiu seu quarto. Quase ninguém na rua. Ninguém em casa além dela.
Desceu as escadas suavemente. O cheiro da manhã a entorpecia.
Saiu a caminhar. Cabelos soltos, sonhos leves, pele arrepiada.
Flutuando pelas ruas, não percebia os olhares atônitos. Sorvia a manhã.
Andou até ter os cabelos umedecidos pelo suor, a camisola colada ao corpo…
Os olhares cada vez mais atônitos!
Novamente em casa, tomou um longo banho, pôs seus vinis na máxima altura, abriu as janelas e dançou. Sentia-se, então, menos só.
Chovia, quando abriu os olhos. Uma chuva cor de prata inundava seus olhos, iludia seus ouvidos…
Outra vez, as escadas, a porta, a rua…
Alguns guarda-chuvas davam o tom sério à manhã de prata, enquanto os olhares transpareciam prazer.
A manhã tornava-se bordada de renda.
De braços abertos, ela experimentava a vida trazida pelo novo dia. Os guarda-chuvas a emolduravam. Silenciosamente, destacavam sua beleza.
Comprou flores, trocou os lençóis, cuidou do jardim. Mais tarde recitou seus poemas favoritos em voz alta diante do espelho. Riu e dançou. Era uma menina! Uma estudante travessa no seu quarto de segredos.
A manhã surpreendeu-a nua sob os lençóis bordados.
Um arrepio! Seus pés sentiram a aspereza da calçada. Ela vibrava. O contato era surpreendente. Arriscou mais um, mais outro. E passo a passo cruzou a praça sob olhares novos e antigos: emudecidos, estupefatos. Era linda!
Era menina, moleca, mulher. Nua! Envolta na densa neblina daquela manhã.
Tudo a contemplava.
Quando ele chegou de viagem, encontrou-a diferente. Sem amarras, sem medos, sem limites…
Encantou-se. Amou-a ainda mais. Pelas ruas, ostentava a mulher com um sorriso de canto a canto.
Os olhos da cidade agora se cruzavam, segredando o desejo de vê-lo novamente partir. Invejando-o cúmplices.
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Desobediência
Zími tomou um ácido e saiu.
Cidinha era caixa do mercado perto da casa dele.
Ela era refém da escala 6×1 e sua gravidez estava avançada o suficiente para que o esforço e o desgaste daquele trabalho já parecessem excessivos.
Zími, que mora na Rua da Glória, chega a pé ao mercado em sete minutos.
Ele só saiu naquele horário porque os ítens que precisava comprar eram essenciais.
Duas da tarde de uma terça-feira insanamente quente, que castigava as massas sem aliviar.
Zími precisava de café, cigarro, sabão em pó e água sanitária.
Chegou a vez de Zími no caixa para pagar a compra, e Cidinha, exausta pelo calor excessivo e pela rotina destrutiva, comentou com Zími: “Eu ainda rezo toda noite, mas cada amanhecer parece ainda pior que o anterior!”
Zími respondeu: “Deus não existe. A religião é uma campanha publicitária de um produto que não existe.”
Cidinha soluçou mas não respondeu, apenas deu a Zími a nota da compra, e chamou o próximo cliente.
Zími ainda falou: “O mundo é comandado por uma elite esotérica, ocultista, que tem vínculo com as trevas.”
Então voltou para casa e se deparou com a antítese de Cidinha.
A juventude de Mila Cox não permitiu que fosse eleitora na época das cédulas de papel.
Ela foi apenas uma vez à urna eletrônica anular seu voto só para ver como era. Mesmo tendo ouvido Zimi e sua tia Lola Cox repetindo à exaustão que a única resposta viável nas urnas era não ir até elas.
“Abster-se dessa patifaria é uma manifestação legítima!” — ele dizia, sempre que uma eleição se aproximava.
Sem shows marcados e por isso sem precisarem de um guitarrista provisório, Zimi e Mila Cox surpreendiam um ao outro com a capacidade que tinham de não sentir solidão com o isolamento no apartamento no bairro da Liberdade.
Ali preparavam outro disquinho de sete polegadas com uma música de cada lado para o duo Crop Circles, que eles montaram em 2017.
Ele dizia que seria bom gravar uma canção cover para o Lado B enquanto ela era radicalmente contra covers e tributos, mas concordou apenas pelo fato da canção escolhida ser uma do Cheap Trick, que era uma das bandas preferidas de ambos, e também porque seria ele quem cantaria na faixa.
Esse formato de disco evitava as ‘filers’ que enchiam tantos Lp’s com excessos, mas que seriam bons compactos ou singles. Para esse próximo lançamento, Cox preparou para o Lado A uma canção em português que tratava de uma conversa com pequenos ex-produtores rurais que enfatizavam de forma unânime que o agro é medonho nas entranhas. Mudou um pouco sua temática, antes mais focada em intervenções alienígenas.
Mas agora que Donald postou aquela foto, ela deixou de lado momentaneamente, porque aquele cretino entregou o meme pronto.
Depois da pandemia, as pessoas não se assustam e nem se surpreendem mais com isso.
Apesar de querer chocar de alguma forma, ela vetou para o clipe da música as imagens gravadas por Zimi, em que uma vizinha amiga dele dança pelada queimando uma bíblia.
Trabalhar em casa era um sonho antigo para eles, mesmo num tempo em que já se dizia que copywriters já não servem para nada.
Zimi parecia um Jay Reatard menos prolífico que a fez entender que era importante observar como aqueles novos pseudoartistas pavorosos que eles descobriam do nada que eram famosos, e que apareciam em programas matutinos da TV aberta tinham tudo para afundar em suas aparições ocas de qualidade, enquanto ajudavam a desenvolver métodos de divulgação mesmo sem ter nada de relevante para apresentar.
Num mundo mais coerente essa gente ruim abriria caminho para artistas genuínos, que tinham vidas reais e isso aconteceria por meio de um desvio consciente da história movido pela força da emergência em rever o que realmente importa na vida e na arte.
Comeram cookies de aveia e chocolate amargo durante a visita de Lola Cox, que era tia de Mila, e que chegou sozinha dizendo que estava solteira novamente porque para ela o casamento tem validade de quatro anos e a principal causa dos divórcios são os próprios casamentos.
Ela voltou para a cidade para ver da janela a Avenida São João à noite com o asfalto molhado.
Alegou que achava que não viveria para ver isso novamente, enquanto Mila e Zimi ainda gostavam de ouvir a Voz do Brasil às sete da noite para aprender com aqueles políticos escrotos um português bem falado e NÃO aprender com eles a vender esperança às custas da ignorância das massas.
As noções de decência que os dois procuraram cultivar em suas vidas deixariam de ser tratadas como utopias.
E uma voz dizia a Zími que imperfeições podem ser vistas como virtude, pois elas a seu modo dão movimento a tudo que deve se mover.
Enquanto isso, ele pensava no porquê de Cox buscar uma sonoridade influenciada pelo Ministry se ela agora ouvia Tim Buckley e Fleetwood Mac.
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Meu avô, o escritor
Seguramente, este amor que nutro hoje pela Literatura se deve a meu avô Carlos, um advogado criminalista que gostava mesmo de inventar histórias. Tenho várias lembranças dele trabalhando no escritório da casa do Humaitá junto com sua inseparável Olivetti portátil. Quando não estava no escritório, podia ser visto no jardim observando as plantas, as flores e os insetos ou apenas contemplando o céu. Era a hora de se abastecer de inspiração, justificava ele, antes de se acomodar embaixo da mangueira ou de se sentar ao lado do viveiro para ler o jornal. Na sala de estar ouvindo música clássica, nos quartos meditando e olhando a paisagem ou mesmo na cozinha impregnando-se de cheiros e sabores, vivia espalhando metáforas, metonímias, sinestesias e hipérboles pelo ambiente. E sempre que estava para concluir um texto, dirigia-se ao terraço com as folhas datilografadas na mão. Então, tal qual bandeira desfraldada, estas eram sacudidas ao sabor do vento por alguns instantes. Se alguém presenciava a cena e se surpreendia com esse inusitado comportamento, ele logo explicava num tom meio professoral:
— Trata-se de uma manobra crucial, meus caros, é só neste momento que os clichês se desprendem do texto…
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Meu amigo Tibúrcio
Não passa um dia sem que note sua presença silenciosa, o olhar doce acompanhando meus movimentos e o sorriso acolhedor que me dirige quando, sempre aos domingos, me disponho a ficar quieto no meu quarto e conversar sem palavras com ele. Se ando pela rua, cruzo um viaduto ou paro um pouco para respirar com os olhos fechados o cheiro do pão fresco que vem da padaria, sinto de repente que ele se agita no fundo da minha idade. Que, jovem e cheio de vida e de saúde, golpeia com suas mãos pequenas e ternas minhas paredes interiores. Que grita, ri e trata de pular pra fora, a todo custo, desse corpo envelhecido e cansado de tanta dor.
Meu amigo Tibúrcio nunca me negou companhia nem consolo. Sinto alegria por ouvir, até hoje, quando sofro tanto, sua voz sussurrando vai passar, vai passar.
Não raras vezes ele me desperta no meio da noite com o desejo de que o tome pela mão e o leve para ver o mar. Só ver, sem entrar na água ou quebrar as ondas. Só ver e não esquecer do quanto somos pequenos. Também me irrita um pouco quando tenta parecer mais inteligente do que eu numa conversa adulta, pondo-me em situação ridícula. Para quieto, eu digo com minha voz interior, mas não há maneira de calar o tagarela. Eu o perdoo mesmo assim.
Ele me pede, sempre que volto da rua, que traga flores para enfeitar a casa. Intromete-se em meus problemas cotidianos e sempre inventa uma solução mágica. Me convence, enfim, a sair sem agasalho num dia frio e voltar para casa com os lábios roxos e morrendo de rir.
Em outros dias sou eu quem saio em busca dele, estranhando seu silêncio mais demorado que o habitual. Temo que tenha ido para sempre e deixado um oco escuro em minhas entranhas. Por sorte, sei onde encontrá-lo: toco de leve o meu peito e pergunto ainda está aí?, ao que ele responde como não vou estar se sou um pedaço de você? Então saímos os dois para passear, tomar sorvete ou ler um livro.
Costumo dizer ao meu amigo que não tenho certeza de nada a não ser do medo de, algum dia, não estar aqui. Ele costuma responder que somos como a cebola, que tem várias capas, e que só se chega ao centro dela depois de derrubadas todas as camadas. Que o mesmo acontece com as pessoas, que vão, voltam, vão e voltam novamente, eliminando suas capas até que seu centro seja revelado e então, como o voo breve de uma borboleta, fecham os olhos e dormem.
Concordamos que a memória ficará. Um dia eu não serei eu, ele não será ele. Outros ocuparão os lugares que hoje ocupamos e a lembrança de nós ficará grudada no batente das portas, nos azulejos, nos muros, nas canções e no ar. E assim, de acordo, eu e meu amigo Tibúrcio saímos para o sol.
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Liberdade última
Sempre morei numa casinha construída ao lado da casa da minha avó. Foi um presente do meu avô à minha mãe. Ele queria todos os filhos próximos. Deu um duro danado para que isso se concretizasse. A bem da verdade, fui criada por minha avó, porque minha mãe viajava muito a trabalho e, quando estava em casa, nunca tinha tempo para ficar comigo – hoje suspeito que não tinha aptidão para ser mãe, para cuidar de outra pessoa. Sendo uma casa geminada, eu entrava e saía a hora que quisesse para a casa de vovó Cidinha. Uma coisa interessante é que ela não deixava ser chamada de mãe, porque queria preservar uma relação que não existia, entre mim e a minha mãe. Em um dado momento, quando tinha dezessete anos, minha mãe se juntou com um paulista e resolveu morar de vez na capital. Para falar a verdade, não senti muito, porque tinha a minha avó como referência, como sinônimo de amor. Me virei como pude, fui atendente da McDonald’s, por dois anos; depois, quando passei para contabilidade, fui contratada por uma grande empresa de cosméticos, onde fiquei por cinco anos. Tive de entregar os pontos para cuidar de vovó. Ela, aos poucos, mostrava sinais de esquecimento. Não lembrava sequer se tinha tomado os remédios, se tinha ido ao banheiro, essas coisas básicas. Parei tudo para cuidar dela. Fomos a diversas consultas até que a diagnosticaram com Alzheimer precoce. Foi uma dor monstruosa, perdi meu chão, minha referência. Em meses, passei a cuidar de uma criança. Vovô, mais velho que vovó, não tinha condições de cuidar dela. Então assumi toda a responsabilidade. Certo dia, depois de anos, Guiomar, minha mãe, resolveu visitar minha avó. Praticamente foi expulsa de casa. Minha avó não a reconhecia e queria bater nela. “Bote essa bruxa para fora daqui!”. Parece que algo de ruim estava guardado no seu inconsciente. Guiomar chorou pouco e logo pegou suas trouxas para voltar à rodoviária. Meu avô, pasmado, não pôde fazer nada. Realmente não tinha o que fazer ali. Só éramos nós duas. Cidinha me obedecia e me acompanhava para onde quer que eu fosse. Com perguntas infantis – “Por que que o céu é azul?” –, me fazia rir, e implicava com as minhas roupas, curtas demais para ela. Essa manhã vovó perguntou pelos filhos Guiomar e Sebastião. Disse a ela que Guiomar trabalhava fora, por isso não tinha tempo de vir vê-la. Sebastião, ou simplesmente Tião, meu tio, de fato trabalha muito, viajando, é caminhoneiro. Quando retorna de suas andanças, procura a mãe e o pai, para lhes dar um abraço, para lhes demonstrar todo o carinho e respeito. Me deu um dó danado quando soube que minha mãe estava hospitalizada, por conta de uma pneumonia mal curada – ela fumava muito.
Mas jamais deixaria a minha avó para cuidar de mãe. Rezo para que tenha uma boa recuperação, é o que posso fazer, sinceramente. Mãe Guiomar pecou ao me abandonar. Não a culpo por nada, já a perdoei. Mas numa situação dessa devo privilegiar quem me educou, amou e me acarinhou nos momentos mais difíceis. Meu sonho é voltar a trabalhar, ter a minha independência. Meu avô tem posses, dá uma mesada boa para mim, mas não posso depender disso, não quero. A independência é o meu lema. Espero vó melhorar um pouco para poder trabalhar. Essa é minha liberdade última. Quero me jogar no horizonte de possibilidades, mas só e quando vó melhorar.
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Gerô
E foi quase tropeçando em sua própria cabeça que Gerô desceu a Brigadeiro no fim da madrugada. Um ruído insistente ecoando dentro do ouvido, devia ser o tapão do Negrão, a mão aberta e áspera encaixada em todo o lado direito da sua cabeça, o ouvido no meio. Parecia que o cérebro ia voar pelo outro lado.
Ele sentou na calçada por um instante ali perto da saída pra Radial e olhou de volta para o alto da avenida. Se ainda tivesse pernas ele voltaria lá, com alguma coisa nas mãos pra dar um fim na rapaziada. Mas calculou que o dia ia nascer dali há pouco, já havia até algum movimento de ônibus lá na direção do Largo São Francisco. Parecia conveniente e o sussurro em seu ouvido dizia outro nome, covardia. “O mundo não acaba hoje, amanhã talvez, pra mim e pra eles”, concluiu, apaziguando a consciência.
Capengou até o beco paralelo à avenida. Silêncio completo nos casarões, sinais de fogueira, restos de lixo, alguns carros velhos enfileirados, um caminhão passou com uma buzinada longa saindo para a 23 de maio, parecia um aviso. Ele desceu para o porão. A porta do banheiro estava fechada, o que não fazia sentido já que metade dela estava arrebentada.
Ele viu a bunda de Nádia encaixada no vaso sanitário, um cheiro ácido espalhava-se pelo quarto. O fio de fumaça de cigarro saía pelo vão, no alto da porta, ela gemia entre uma tragada e outra.
Gerô sentou-se no colchão no chão e deixou o corpo cair, o rosto se alinhou com uma poça de água que vinha do canto da parede, o cheiro de bolor e roupas úmidas ia formando uma mistura que aguçava a revolta, havia alguma coisa errada naquilo tudo. Mas a vontade de dormir era maior, então esqueceu.
Três descargas seguidas e Nádia saiu na porta. Estacada de pé, olhava Gerô querendo fechar os olhos. Estava nua. Puxou um último trago e jogou a bituca já no osso para o alto de um resto de escada, Gerô abriu e fechou pesadamente os olhos. Ela veio e se deitou ao seu lado, em silêncio.
Chegou o barulho de uma porta de bar erguendo-se. Alguém com um sotaque do norte perguntou alguma coisa do outro lado das folhas de compensado que dividiam o porão. E repetiu em seguida, o mesmo sotaque e a mesma pergunta. Nádia avisou “Gerô dormiu”. Silêncio.
Um caminhão passou pela rua estreita e chacoalhou a casa. Um pedaço do reboco do teto se soltou e caiu na poça, trazendo ondas até perto da boca de Gerô, que roncava pesado, a orelha do tapão em fogo. Nádia observou tudo por um instante.
Logo o barulho de uma porta raspando o chão veio do canto da parede de madeira. O homem do sotaque balbuciou alguma coisa e a lâmpada amarelada às suas costas desenhava as dobras nos dois lados do pescoço. Nádia levantou-se. “Aproveita que ele tá dormindo, nem vai sentir”, disse ela, antes de enfiar-se num vestido florido e sair.
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A bituca na cerveja
Zími usava uma camiseta com a caricatura de Donald com um grande alargador na orelha, numa alusão a um dos supostos atentados.
Mila Cox escrevia uma letra sobre como alguém que supostamente criou o universo precisava de dez por cento do salário de um pobre infeliz de um país periférico. O processo de composição da dupla consistia em criticar o Estado, a Igreja e a família tradicional com letras diretas, em português ou inglês.
Portanto, nunca sobrou tanto assunto como se tem hoje.
A parte instrumental vinha depois e às vezes demorava para ser concluída.
Eles usavam um teclado de brinquedo e ganharam um de verdade.
Iriam usá-lo, mas prometeram que caso Zími também ganhasse uma bateria de verdade, o duo Crop Circles se separaria.
Ele poderia tocá-la depois em outro projeto musical, mas seriam irredutíveis quanto à dissolução.
Mila Cox dizia que caso isso acontecesse, faria a banda ser realmente descoberta.
Vê-la ouvindo deliberadamente o Galaxie 500, dava a Zími uma alegria que depois ficava confusa com a estranheza da aparente obsessão que ela apresentava com os três primeiros discos do Elvis Costello, mesmo que ele também gostasse.
Ela estava ouvindo também, por vezes seguidas, o Solid Gold, segundo disco do Gang of Four, fazendo parecer que vai roubar alguma coisa dali, enquanto escrevia sobre como a religião só existe para que os pobres não matem os ricos.
Agora dividiam um apartamento no bairro da Liberdade e ambos estavam mais focados.
Zími pegou o quarto da empregada e continuou pagando o mesmo valor que gastava em sua morada anterior, que era um quarto de pensão em que viveu por dois anos com o que ganhava como livreiro, depois de sair de um apartamento em que pagou adiantado os três primeiros meses de aluguel, e então não pagou nem mais um centavo, e ficou lá até ser despejado.
Ela, que deixou a casa da família na Penha, inteirava o aluguel pagando um pouco mais com o que ganhava como copywriter, e ficava no quarto principal.
A diferença de idade despertava a curiosidade dos outros moradores do prédio.
Eram vistos como uma espécie de “Carpenters do Mal”, desde que a vizinhança descobriu que eram parceiros musicais.
Essa alcunha era atribuída a eles pelas pessoas da vizinhança que ouviam gêneros popularescos tocados por semi-celebridades descartáveis que desaparecem rapidamente dos holofotes para logo ressurgirem com escândalos do mais baixo nível.
Ela gostava tanto de Venom quanto de Hello Kitty. Também de X-Ray Spex e Mafalda.
Ele lia Mad e Hermann Hesse, e sua vida parecia o resultado dessa fusão.
Geravam muito mais curiosidade juntos do que individualmente.
Ela queria entender como ele sobrevivia numa vida tão minimalista quanto relatava, quando se encontravam para ensaiar ou finalizar alguma música.
Ele sabia que teria mais espaço e conforto do que no quarto da pensão em que vivia. Era quarto e banheiro, e isso bastava. Nunca pensou que deixaria de morar sozinho, pois até então considerava o estilo de vida ideal.
Ela vivia com o pai e a mãe, onde cresceu alimentando uma ambição precoce pela música, e saiu dali sem brigar.
A meta agora era de lançar um single a cada duas semanas até que as ideias se esgotassem, e aí sim seriam marcados novos shows.
Quando tocam no interior, não é raro que durmam no carro de Cox, que tem toca-fitas e muitas fitas no porta-luvas.
Ao lembrar dessas horas, um frio percorre a espinha de Zimi, que sempre reclama que não tem mais idade para isso, mas sabe que é necessário fazer. E sabe sobretudo que sempre vale a pena.
Até mesmo as eventuais desventuras reais que vão muito além do Spinal Tap dessa trajetória são lembranças de momentos que não foram desperdiçados na zona de conforto.
Zími sempre falou que, com quase cinquenta anos, nunca soube o que é realmente uma zona de conforto. A busca por ela passou a ser quase obsessiva, embora ele não saiba nem mesmo se isso de fato existe. Apenas ouvia falar e queria descobrir.
Já MIla Cox alega que sua saída da casa dos pais vai muito além da necessidade de sair da zona de conforto.
Agora que moravam juntos, eram vizinhos de andar de Silvano., professor de Geografia, fã de rock alternativo.
Silvano frequentemente conseguia atestados para não ir trabalhar, particularmente por tendinite, e não raro tinha tempo e disposição para conversar com eles sobre música e assuntos da vizinhança. Era morador antigo do prédio, mas era reservado e pouco conversava com os outros vizinhos, de modo que pouco se sabia sobre ele na vizinhança.
É mais conhecido como ‘o homem da jaqueta de couro’ pelos vizinhos.
Mila Cox e Zími já tinham notado que Silvano tinha comportamento e hábitos de alguém que nasceu com dinheiro. Sua coleção de discos, por exemplo, só poderia pertencer a alguém que tem ou já teve dinheiro.
Ele mostrou seu apartamento, que de tão abarrotado de Lp’s, compactos, cd’s , revistas e livros, permitis que apenas uma pessoa pudesse aproveitar aquele material com conforto.
A imensa e belíssima poltrona de couro certamente era herdada, e com o banco na frente, ocupava boa parte do espaço que sobrava da sala pequena.
Ele tinha várias edições antigas da revista Creem e Zími ficou embasbacado ao ver.
Enlouqueceu ainda mais ao ser presenteado com um agasalho do Fênix, do Uruguai, que era o time de Silvano.
Silvano contou que era uruguaio, mas antes que entrasse na escola, já vivia em São Paulo com os pais, também uruguaios. Era filho único.
O pai morreu quando ele tinha dezenove anos e a mãe, quando ele tinha vinte e um.
Viviam num apartamento caro no centro de São Paulo, que foi vendido quando Silvano ficou sozinho.
Comprou então um apartamento menor, também no centro, e trabalhava como professor no Estado. Sabia que não havia grandeza onde não houvesse simplicidade. Guardou o que sobrou do dinheiro da venda do apartamento para envelhecer com dignidade.
Tirou suas coisas dali e fez a mudança. Vendeu o que havia de seus pais no apartamento, exceto a poltrona, que pertencia ao pai.
Tinha agora quarenta e três anos. Cinco a menos que Zími e vinte a mais que Mila Cox.
Naquele dia, muito foi falado sobre o quanto o rock sempre foi marginalizado, censurado e boicotado no Brasil, o que impediu que o gênero atingisse mais popularidade.
Silvano inclusive mencionou sobre a bizarrice da passeata contra a guitarra elétrica.
O vexame de ser artista e estar ali era similar ao de ser jogador de futebol e estar jogando na derrota por sete a um, no jogo que deu a maior alegria futebolística da vida de Zími. Ou ao persistente vexame popular de adotar cegamente um político de estimação e defendê-lo até o fim, ignorando os limites do ridículo.
Mila Cox e Zími contaram a Silvano que se conheceram através de Sara Cox, tia de Mila, que cursou jornalismo com Zími trinta anos antes.
Sara nunca vive numa residência por muito tempo, e há anos passava a maior parte do tempo no exterior, e comentava os shows que assistia.
Ela dizia que para alguém poder ser chamado de artista, precisava ser desobediente e buscar o que não deveria ser buscado.
Antes de voltarem para casa, Mila Cox e Zími tramaram a publicidade da banda no Uruguai, para tentarem marcar shows e venderem merchandise.
Tudo no Chevette Jeans 79 de Mila Cox, mas dormindo em camas de hotel e tocando nos três estados brasileiros do Sul para financiar a viagem.
Tudo em meio a uma crise energética e humanitária mundial.
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ISABELLE DE JOUR
Sou feia. Tenho 1,60 e peso 82 quilos. Um pouco gorda também. Prefiro me considerar robusta. Meu maior complexo, no entanto, são os pés: calço 40. As pessoas zombam de mim e dizem que não ando de sapatos, mas de skate. A altura, resolvo com saltos altos, e os pés enormes escondo no tênis. Se pudesse tomava banho e dormia com eles. A gordura só com regime, que toda vida tento começar e nunca vou adiante. Canetas emagrecedoras estão muito caras.
Trabalho no caixa do supermercado Mundial – aquele do menor preço total. Nunca entendi esse preço total, haverá subpreços ou preços parciais? Sou muito questionadora.
Já disse que sou feia, não? Pois é, tenho também espinhas na rosto. Nascem à vontade, sem que eu coma chocolate ou amendoim, que adoro.
Meus pais são da Paraíba e eu vim para o Rio de Janeiro ainda menina. Tenho cabelos longos e cacheados que disfarçam minha cabeça grande. O nariz é meio adunco e meus olhos não têm nada de especiais. Ao menos não sou míope nem vesga. Só uso óculos escuros. Detesto claridade.
Meu sonho era ser atriz de novela. Ninguém vai querer uma atriz feia e gorda, mas sou teimosa. Não sei se por obstinação ou masoquismo, à noite faço um curso de teatro. O professor vive me elogiando, que tenho futuro e coisa e tal. Claro, isso me anima e tento melhorar a aparência. As espinhas na cara posso camuflar com creme e uma boa base e evito roupas justas. Tanto quanto navegar, sonhar é preciso.
Minha colega de caixa no Mundial era a Isabelle. A desgraçada era bonita que nem a peste. Combinava com seu nome, Isabelle, belle. Bem capaz do Alceu Valença ter escrito Belle de Jour, pensando numa Isabelle dessas.
Não é que tivesse inveja. Na verdade, eu morria de inveja. Aquele rosto limpo, sorriso de dentifrício, olhos claros, Isabelle era um pitéu. Nem sei como foi que ela virou caixa de supermercado, podia ser o que
quisesse.Franzina como uma tripa seca, a maldita ainda tinha peito grande. A boca nem precisava de batom. Uma afronta. Ao lado dela, eu, que já era feia e gorda, conseguia ficar pior.
Já havia me pegado desejando matá-la. Confesso. No fundo, Isabelle era gente boa, porreta e não tinha culpa de sua beleza. Era até simpática. Se eu tivesse metade da beleza dela, seria um nojo.
Nosso supervisor, um estrupício, vivia rondando a Isabelle, fazia tudo que ela queria. Se eu fosse homem também faria. Como já falei, nem sei por que ela trabalhava no Mundial.
Um dia, ela faltou ao serviço. Não era comum. Passou uma semana e nada. Acabei sabendo que ela estava doente. Podia ser algo sério, pois já havia outra funcionária em seu lugar. Feia igual a mim, mas magra e alta.
Fui informada pelo supervisor que a doença de Isabelle era grave. Câncer no seio. Cinco meses depois, me falaram que ela tinha falecido.
A natureza pode ser cruel, mas em alguns casos é justa.
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A FUGA E A FESTA
Pensa bem, Marcelo, você acha que vale a pena? Você pode se arrepender. Acabar com tudo assim, por uma bobagem. Você precisa concordar comigo que se trata de uma bobagem, poderia ter acontecido com qualquer um. Me dá a impressão de que está procurando uma desculpa. Você sente prazer em me ver implorando. Eu não me importo, eu me ajoelho se você quiser. É isso que você quer, Marcelo? Marcelo, olha pra mim, presta atenção, alguém como eu não se encontra em qualquer lugar. Lembra o dia em que a gente se conheceu? Você me pediu um cigarro, hein, você se lembra, Marcelo? Você tinha o que, uns vinte anos? Na época a gente ainda fazia coisas tolas como se envenenar aos poucos e ainda pagar por isso. Você ali sentado, no intervalo da aula de italiano… Você é tão italiano, essa pele branca, leitosa, macia, esses olhos amendoados, esse nariz grande. Não mudou nada, continua o mesmo tipo charmoso de sempre. Não precisa responder, isso, não fala nada, não estou te pressionando. Eu sei que você é bom, no íntimo você é bom. Só está meio perdido, não tá raciocinando direito. Uma pessoa com trinta anos ainda tem esse privilégio. Só que o tempo passa rápido… E o Bob, com quem vai ficar? Vocês são tão apegados. Ele não dorme enquanto você não chega. Ouve um barulhinho na porta, corre pra te receber. Não esquece que a casa é minha, e daqui você não leva ele de jeito nenhum. Pra falar a verdade, nem sei se você gosta dele tanto assim. Às vezes penso que você não tem a capacidade de amar ninguém. Nem o Bob nem a mim. Mas eu… Bob, cala a boca! A gente ainda tem tempo. Bob, merda! Cala a boca! Ainda podemos construir uma família de verdade. E aquelas visitas que a gente fez aos orfanatos? Alguns eram tão distantes, gastamos litros de gasolina. Nem o GPS conhecia aqueles lugares. Foi tudo inútil, perda de tempo? Diversão talvez? Passeio… Estávamos entediados, resolvemos pegar o carro e explorar locais desconhecidos. Foi isso, Marcelo? Aqueles dois irmãos gêmeos, não, não são gêmeos, mas são muito parecidos… Aqueles dois irmãos, nós gostamos tanto deles. O que eu digo pra eles? Chego lá e falo Pedro e João, ah sim, Antônio e Pedro, a família de vocês acabou, o Marcelo decidiu acabar com tudo. De repente, de uma hora pra outra. Puf! Sem explicação nem motivo. Não, Marcelo, aquelas crianças inocentes não merecem isso, você não pode fazer uma trapaça dessas com elas. E a Marlene? Ela já se acostumou com você, tem prazer em satisfazer seus caprichos. Os seus dois ovos de gema mole todo dia no café da manhã, a sua limonada suíça, o seu pudim de nata. A Marlene está na família há quarenta e cinco anos. Hoje posso afirmar: ela gosta mais de você, que ela conheceu outro dia, do que de mim. Acho que você não está preparado pra viver sozinho. Você não sabe se cuidar. As tarefas domésticas: lavar, passar, arrumar a casa, fazer comida… A não ser que… Marcelo, me diz, você já tem outra pessoa? Me fala a verdade, eu aguento, sou forte, mais forte do que você imagina. Não, não acredito nisso. Marlene, agora não, diz que não estou, hoje não tô pra ninguém, compreendeu? Nem pro Papa! Solta essa mala. Não vou deixar você sair. Marcelo, me escuta. Você vai se arrepender. Pensa na sua mãe. É, na sua mãe. Ela nos apoiou desde o início, a Iolanda me adora. A gente se entendeu logo de cara. Tivemos de enfrentar muitos obstáculos, mas sua mãe sempre esteve do nosso lado. Marceeeeelo, fecha essa porta. Marlene, me ajuda aqui, segura o Marcelo, pelo amor de Deus. Marlene, chama o Jair. Manda ele vir aqui. Que limpando piscina, mulher… É urgente! Manda o Jair furar os pneus do carro do Marcelo. Jair, não deixa o Marcelo ir embora! Marlene, o Marcelo tá fugindo… Socorro! Polícia… Alguém me acode! Ai, meu Deus!
Três meses depois da partida de Marcelo, Renata já estava refeita. Seu aniversário seria dali a duas semanas, e os preparativos para a comemoração seguiam em ritmo veloz. Sim, ela fazia questão de festa. Afinal, não é todo dia que alguém completa 70 anos de idade.
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A metafísica do corpo
Não tenho papas na língua, falo palavras gordas de ouro ou bosta. Não quero brumas, essência incognoscível. Qual é a verdade? Quem sou eu? Que Deus, que sonho me move? Falo do que posso, a minha história é clara e suja como os olhos do homem. Vi claramente o mundo dos mortos. Voltei molhado do limo primitivo, trouxe a baba da inocência nos dentes. Derramei o meu sangue sujo no mundo dos mortos.
Não tenho papas na língua, falo do sol e da noite como quem sabe e não sabe. Como quem não deve, falo da morte com as palavras que conheço. Como explicar o não dito? Como dizer o sempre visto no mito? Ah, é preciso arrancar a língua da boca velha. Furei os meus olhos para ver de novo. Para a tropa do trapo vazo a tripa, dizia Gregório de Matos e eu digo estou me cagando para essa merda toda.
Isto é a metafísica da palavra. Uma cachopa de marimbondos no saco me fez homem aos sete anos de idade. Volto a ser esse homem: estar vivo é ser filho da vida natural. Isto é a metafísica do corpo. Arranquei a minha língua, arranquei os meus olhos, arranquei os meus colhões, sou o homem que volta a ser homem. Toda a metafísica está no veneno do escorpião. Tudo mais são imagens, quando o ser não é senão sob a máscara.
A linguagem é pura e suja como a gordura de um porco frigindo. A palavra que não frege é morta. Eu vim dos campos da morte, eu posso me dizer da palavra morta. Como um sapo morto que faz chover. Eu sou o morto, eu estou chovendo. Eu tenho todo o sol do mundo no meu corpo e estou chovendo.
Não tenho papas na língua, falo palavras espumando veneno verde. As panelas na cozinha, as verrugas da vizinha, os colhões verdes do escorpião, tudo fervendo no corpo. O corpo é a metafísica do corpo.
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A vida dos outros
Quando Januária, a empregada, entrou na sala e anunciou que a comida estava na mesa, ele, o vizinho do prédio em frente ao nosso, continuava na mesma posição e nada tinha mudado desde a manhã: só de cueca, sentado numa cadeira frente a um grande espelho, a arma apontada para o lado direito da cabeça. Não se decidia. Às vezes depositava a arma sobre a escrivaninha e dava passos nervosos na sala, a cabeça entre as mãos. Em seguida sentava-se novamente, olhava-se no espelho e apontava a arma mais uma vez para a têmpora direita. Passou assim a tarde toda, foi o que disseram meu pai e minha mãe quando voltei do trabalho e os guardei espiando a vida alheia.
Atrás da cortina semicerrada da sala de jantar, meu pai disputava com minha mãe o melhor ângulo para observar a cena. Ela dizia que sim, que era uma questão de minutos e logo se ouviria o disparo e a polícia não tardaria a chegar. Ele apostava que não, aquele homem não teria coragem para ir até o fim.
Depois de muitas horas de espera e, vendo que o vizinho não dava sinais de que iria resolver a questão de uma vez por todas, fecharam a cortina e foram jantar. Venha, Aparício, enquanto a comida está quente. Comida fria é um horror, disse minha mãe. Eu já tinha jantado e, à falta de algo mais interessante para fazer, liguei a televisão para ver a telenovela.
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Mabel
Tenho certeza de que Mabel se esqueceu de mim. Já são muitos anos sem a ver, pelo menos. Fizeram com que se esquecesse, decerto. Eu fui bem quisto na sua família, mas depois passei a ser persona non grata – e o verdadeiro motivo não sei. O momento da ruptura foi abrupto, desproporcional. Meu pai havia falecido há dois meses. Isso foi em meados de 2011. E a namorada não teve a hombridade de estar comigo. Foi um deus nos acuda, com brigas e confusões – para quem gosta de paz, é o inferno. Enfim, isso não vem ao caso. Foi um mal-estar que passou, rasante, na minha vida – arrancando pedaços, é certo –, como tantos com que tive de me virar após a morte de meu pai, meu guerreiro, meu melhor amigo. Deixa eu recontar essa história, porque me vem em momentos de grande saudade: Mabel era apenas uma menina de quase dois anos quando a conheci, por intermédio do namoro que tive com sua mãe. Também fui amigo de seu pai biológico, que me contou quando a então namorada estava grávida, ambos com dezesseis anos, por aí. A pequena nasceu, e a vi, linda e sorridente. Com a aproximação, houve a paquera e o namoro com a sua mãe, que, logicamente, estava livre e desimpedida. Com o tempo, o amor por Mabel foi crescendo, a amizade recíproca e todo o carinho que uma criança merece ter. Me doei. Depois, me doeu por muitos anos a distância. Isso já faz uns bons quinze anos, depois do término do namoro de dez anos que tive com a sua mãe. Rafael, nosso amigo em comum, relata que ela está uma moça linda, talentosa, na área do marketing, e que pretende em breve se casar. Tomei um susto quando soube que já queria se casar. Hoje ela está com vinte e um anos. Acho novinha ainda, tem muito para viver, mas entrego a Deus, que a guarde com um marido bom, porque ela é uma menina boa, merece todo o amor do mundo. Naquela época, ela me chamava de papai dois, porque tinha o avô como pai – este, superpresente. Eu a tratava como filha. Com a separação, me mantive distante, quieto, não quis interferir na sua vida. A família podia não gostar. De fato, não tinha nada a ver, porque não era o seu pai. O pai biológico havia se mudado cedo para a Austrália, logo quando a menina tinha uns dois anos, e de lá não se tinha notícia. Parece que hoje mora no Brasil, mas em outro Estado. Sobre isso, porém, não vale a pena falar. São os estorvos que nos atravessaram. O que é que se pode fazer?! O que queria dizer era que tenho uma saudade danada da pequena Mabel, do tempo em que fomos crianças. Brincávamos juntos, de boneca, de parquinho. Ela que ditava a regra. E hoje não vejo a hora de a reconhecer, abraçá-la e dizer que tudo passou e que podemos recomeçar, se não como pai e filha, mas como grandes amigos.
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A grama do vizinho é artificial
Donald está falando de Ovnis na mídia mainstream para desviar a atenção para coisas muito mais loucas. Quando Zími era criança, seu pai lhe mostrava um grupo de moradores de rua e dizia:
“Você vai se juntar aos dingos se for irresponsável. Não estarei aqui para sempre, portanto, estude e trabalhe.”
Mas Zími sabia que no apego de um homem por sua vida, há alguma coisa mais forte do que todas as misérias do mundo.
Seu pai o estimava como aquele tipo que é jogado em lugares cercados por muros e cujo objetivo não é a cura e nem a recuperação, apenas o controle.
Para Zími, quem precisava de cura era o rumo que a humanidade seguia, o qual não queria ser cúmplice, e isso foi mais do que provado sem que o pai tivesse clareza e longevidade para constatar, pois morreu sem se desfazer de suas convicções obtusas.
Agora, à beira dos cinquenta anos e olhando em retrospecto, sem motivo para nostalgia ou arrependimentos, Zimi sentia um pouco de alegria quando cada dia terminava sem chateações importantes, insuficientes para estragar o momento noturno em que novamente avaliava a situação do mundo através das notícias fornecidas por fontes de geopolítica confiáveis.
Havia para ele um certo prazer em comparar sua trajetória de até então com a média do resto das pessoas e saber que até ali havia dignidade em sua existência.
Não era um prazer tão intenso, pois sabia que um dia morreria, e se não deixasse algum trabalho artístico autoral de qualidade, seria esquecido com facilidade rapidamente, como a esmagadora maioria das pessoas.
Isso também pouco importava, desde que antes de morrer alcançasse sua paz individual.
De qualquer forma, o problema está na possível agonia que antecede a morte, como alguma doença dolorosa, e não a morte em si.
Ela, em si, certamente traz algum tipo de descanso, independente do que aconteça depois.
Muito se especula sobre o que vem depois, mas ninguém volta para contar.
Sabendo que suas opiniões e sua ideologia não deveriam prevalecer sobre a face da Terra, a busca por essa paz se tornava uma prioridade de vida.
Por muitos anos da sua juventude, dizia à sua mãe que jamais chegaria aos trinta anos.
Era um tempo em que tomava cuidado para não fazer ranger a tábua do corredor da casa durante a madrugada, para evitar que alguém acordasse para gralhar sobre o dever de estar dormindo naquele momento, como todos na casa, enquanto um tempo precioso da vida era desperdiçado.
Quando era criança, nos anos setenta, suas professoras na escola estavam na faixa etária dos trinta anos e pareciam senhoras de meia idade, mas agora era possível ter cinquenta e ter alguma jovialidade sem parecer ridículo.
Muito antes de ter contato com qualquer teoria ideológica mais definida, já tinha o desejo por um tipo de liberdade individual que não era possível no modo de vida regido pelo senso comum, e questionava o porquê de as pessoas gostarem de viver sob um patrulhamento coletivo que só as levava à uma vida castrada de sonhos e boas perspectivas.
Havia inúmeras piadas internas entre os amigos sobre o verdadeiro nome de Zimi ser Chistopher McCohen Oliveira.
As pesquisas na internet sobre seus homônimos geravam ainda mais piadas, a cada vez que eram feitas.
Apesar de alguns amigos considerarem um nome expressivo foneticamente, a bebida às vezes tomava o lugar da consciência, e a zoeira virava quase um bullying, e a vingança de Zimi consistia geralmente em arrumar um jeito de lembrar que Deus não existe toda vez que os pais desses caras estivessem por perto, causando polêmicas entre aquelas famílias cristãs, mesmo que seus amigos também fossem ateus.
Não havia qualquer parentesco de Zimi com qualquer pessoa famosa com o mesmo sobrenome.
Herdou do pai, um escocês pobre, apenas o sobrenome.
Zimi arriscou numa carreira musical tardiamente sabendo que provavelmente nunca ganharia dinheiro com ela, até porque seu desprezo pelo mainstream era visceral e ele acreditava que a arte era mais genuína se o artista tivesse que se manter com outros trabalhos.
Ele se imaginava artista solo, antes de entrar para a banda Crop Circles como baterista e cantando algumas das músicas, pois sabia que seria difícil encontrar alguém que compartilhasse de suas ideias de concepção musical.
Preza poder fazer algumas viagens pelo interior para shows em praças e bares, e agora sente o peso de viajar na Belina 82 da contrabaixista Mila Cox, dormindo em sacos de dormir antes de pegar a estrada novamente, de volta para casa ou a caminho de algum outro show, feito muitas vezes apenas em troca de gasolina e cerveja.
Dinheiro mesmo, só conseguiam com a venda de camisetas e cd’s.
Gostavam de não serem classificados em nenhum gênero específico do rock .
Mila Cox, quando questionada sobre o som, o descreve como ‘lúdico e psicodélico’.
Ela era uma das poucas pessoas nascidas depois do ano 2000 com quem Zími conseguia lidar bem.
Geralmente, por motivos diversos, a reprodução das músicas ao vivo não correspondia fielmente ao que apresentam nas gravações feitas em seu estúdio caseiro, que conta com poucos recursos além de um computador.
Gostam de ressaltar que os Beatles em sua época tinham à disposição uma tecnologia bem inferior, mesmo sendo a melhor possível para o período.
Ela, muito mais jovem, gostava de tocar com ele por causa de seu gosto musical irrepreensível e porque via em sua personalidade algo entre o orgulho e a sinceridade.
Quando não estavam fazendo música, ele não a procurava nem mesmo se estivesse desesperado, por qualquer que fosse o motivo.
Desde criança, Zimi gostava de artistas estranhos que não apareciam na televisão ou não tocavam no rádio, e ficava intrigado sobre como essas pessoas viviam, sendo que para todos existem contas a pagar e compromissos sociais que são impossíveis de escapar.
Daí vinha a óbvia conclusão de que precisavam de outro trabalho para terem o que comer e onde morar, o que para ele, enobrecia o trabalho artístico.
Apenas em segundo lugar vinha a admiração pela bizarrice de suas expressões artísticas.
A primeira vez em que ficou chocado com uma apresentação de música ao vivo foi no meio dos anos oitenta, quando viu no Madame Satã, em meio a várias outras atrações, um sujeito de meia idade pelado que em lamúrias cantava impropérios pagãos e queimava uma bíblia, acompanhado de uma banda minimalista em que o baterista tocava de pé como Slim Jim Phantom e uma garota tocava teclado, e não havia baixista nem guitarrista.
Alguns tabus de uma sociedade oprimida (artisticamente e também em setores fora da arte) caíram diante dele naquele momento, através de um tipo de expressão que até então ele só ouvira falar, e ainda assim, repudiada pelo ponto de vista do opressor, horrorizado com a existência desse tipo de manifestação imprópria ao horário comercial.
Qualquer artista internacional que pudesse servir de referência naquele tempo, precisava de pelo menos uma mínima escalada no mainstream para que chegasse ao seu alcance no Brasil naquele tempo através de fitas cassete e não eram tão obscuros no cenário internacional quanto pareciam ser aqui.
A verdade nunca é contada no horário comercial e o opressor, na melhor das hipóteses, é fã de velhos crooners canastrões de boates de cassino.
Para esse tipo de situação, o rolo compressor da opinião pública se mantém inoperante.
Falando em termos comportamentais, o espaço de tempo para que atitudes consideradas normais na época de sua adolescência (inclusive formas de racismo televisivo inimagináveis para os dias de hoje) se transformassem nas bizarrices que se tornaram para os dias atuais foi relativamente curto.
Nesse período, a qualidade humana, de um modo geral, não melhorou, mas as patrulhas ideológicas e comportamentais tomaram conta da existência social numa proporção inimaginável para tempos anteriores à internet.
Muitas dessas patrulhas agem a serviço do nada, capitaneadas por mentes doentias na frente de um computador e que desconhecem até mesmo uma razão decente para estar vivo.
A limitação imposta pela ignorância os faz ter convicções rígidas.
Ao mesmo tempo, olhar para o passado era para Zimi um exercício que passava longe de ser prazeroso.
As patrulhas malignas já atuavam com os recursos que tinham antes, sem a mesma rapidez e propagação.
Conseguiam roubar a brisa com muita eficiência.
Toda a falta de planejamento para o futuro de que Zimi era acusado na juventude se justificam agora, com a possibilidade iminente de algum velho que não teve seus desejos políticos correspondidos apertar um botão e liquidar o planeta, o que desestimula qualquer sonho a longo prazo e salienta a necessidade de viver o agora, e caso haja algum futuro para a humanidade, ter algo digno para lembrar ao olhar para o passado.
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A cartomante do fim da rua
1.
A casa do fim da rua ficou vazia por anos. Sete, para informar com precisão. Dizia-se pela vizinhança que algo terrível havia ocorrido no local. As teorias eram muitas, mas ninguém nunca soube de fato o que aconteceu lá dentro. Um dia, uma caminhonete estacionou na frente do imóvel e começou a descarregar a mudança: um fogão, uma geladeira, uma cama, uma mesa, algumas cadeiras, um abajur, um ventilador, duas poltronas e uma ou outra tralha a mais. Exatamente uma semana após a chegada, a nova proprietária fincou no jardim uma placa que dizia: SULAMITA CARTOMANTE.
2.
Um mês depois desse dia, Laura resolveu tocar a campainha. Nem marcou consulta, mas queria muito ser atendida. Eu não liguei, resolvi arriscar, tô muito necessitada dona Sulamita, a senhora tem uma horinha pra me atender, se não tiver eu volto outro dia, moro logo ali embaixo… E ia emendando uma frase na outra, às vezes atropelando o pensamento, outras vezes nem se fazendo entender. Entra, minha filha, tô sentindo que você tá mesmo precisada.
3.
Dentro da casa, Laura continuava a falar, problema é que não faltava. Contou, explicou, perguntou, até que dona Sulamita disse: Chega! Já entendi. Parte o baralho. Tira uma carta, tira outra carta. Mais uma. Só mais uma. Ia dando as ordens, igual à cartomante de um filme que Laura tinha visto uma vez na televisão. Amor. Sulamita olhava as cartas e dizia lá o que achava. E acertava. Tudo. Detalhes. Trabalho. O processo se repetia: no alvo mais uma vez. Saúde. Nesse ponto é que Laura ficou impressionada. Não é que a mulher havia descoberto até sobre a cirurgia de vesícula feita no ano passado… Eta cartomante boa, pensou.
4.
Foi aí que Laura tomou coragem e pediu: Agora dona Sulamita, eu preciso saber de uma coisa muito importante. Vim aqui mais por causa disso, a senhora compreende? A senhora precisa me ajudar, não sei mais a quem recorrer. E falava, falava… de um modo que irritava até mesmo dona Sulamita, pessoa mais do que preparada para lidar com o desespero alheio. Minha filha, se acalma. O negócio agora é sério. Mas tem jeito, fica tranquila. Tá vendo aquela porta ali? Então, eu quero que você entre lá. Depois, você tem de sentar numa cadeira que fica em frente a um quadro. Não tem erro, é o único quadro do quarto. Olha pra obra e pensa no seu problema que sua mente vai clarear. Depois volta aqui, e a gente completa o serviço com as cartas, entendeu?
5.
Acomodado num sofazinho rasgado, um gato preto e branco nem se incomodou quando Laura entrou e se sentou na tal cadeira. Ela achou o quadro meio esquisito, não conseguia identificar nada na pintura. Eram uns rabiscos, umas cores que não combinavam. Parecia que o pintor tinha jogado as tintas ali de qualquer jeito, sem muito critério. Ficou mesmo decepcionada, pois, do modo como dona Sulamita havia falado, pensou que a obra fosse alguma coisa normal, sei lá, o desenho de uma paisagem, de um bicho, de alguma pessoa.
6.
Laura não sabe ao certo quanto tempo se passou. Por um momento, a impressão é que haviam transcorrido meses ou mesmo anos. Ficou ali olhando o quadro e acabou dormindo. Talvez tenha entrado em transe. Quando acordou, decidiu sair do quarto e procurar dona Sulamita. Buscou pela casa inteira, nem sinal da mulher. Até o gato preto e branco não estava mais lá. Dirigiu-se então ao jardim e ouviu uma senhora de lábios grossos e voz fina perguntar diante do portão: Dona Sulamita? Preciso muito me consultar, ouvi falar tão bem da senhora… Laura não teve tempo de pensar direito. De modo automático, respondeu apenas: Sim, sou eu. E continuou após alguns instantes: Pode entrar, tô sentindo que você tá mesmo precisada. Mas tenha calma, querida, o negócio é sério, mas tem jeito.
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A GAIVOTA
Noite após noite, eu acordava com o grito da gaivota, lancinante, como se viesse de um abismo de loucura. Eu me debruçava no alto do farol, e via lá embaixo, estatelada numa pedra enorme, batida pelos vagalhões, a gaivota. A pedra brilhava banhada pelo sangue da gaivota.
Eu não podia dormir com o terror que o grito e a imagem da gaivota infundiam. De manhã lavava e lavava a pedra, com uma esponja de aço, que me comia os dedos, fazia de tudo para limpar o sangue seco, incrustado entre as ranhuras negras. E nada da gaivota. Somente o sangue, ressecado, velho, incrustrado na pedra.
Na próxima noite, novamente o grito. E era como se o sangue jorrasse do meu peito.
Tantos dias e noites de solidão, sem nenhuma companhia a não ser o mar, e as gaivotas mortas – num baque surdo, com um grito sangrento, e longínquo, como se viesse do fundo do poço da loucura, ali na minha porta.
Por fim, decidi pôr em pratos limpos a minha sanidade. Uma noite, rolei escada abaixo, me batendo, urrando desvairado, como um animal acuado. Queria ver a gaivota, que eu nunca encontrava, que eu via e escutava só do alto, e me enlouquecera.
Mas o que eu encontrei foi uma mulher, banhada de sangue, sobre a pedra. Foi ela quem me chamou: “Me sepulta, maldito!” Eu fiquei paralisado de medo, de terror. Quando consegui me mover, sepultei a mulher como pude. Desde esse dia, a gaivota desapareceu.
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Foi assim que tudo começou
No primeiro dia, vassoura na mão, limpou a casa, caiou as paredes, pendurou as cortinas, distribuiu os móveis, arrumou os livros, pintou o número na porta, colocou o tapete, forrou o sofá e viu que tudo isso era bom.
No segundo dia estendeu os fios elétricos, instalou interruptores novos e brilhantes e, quando os ligou, viu que a luz se fazia clara, forte, iluminando tudo, criando sombras nas paredes brancas, e viu que isso também era muito bom.
No terceiro dia cimentou os encanamentos, trouxe água da nascente do rio e, concluído o trabalho, abriu as torneiras e a água jorrou límpida, cristalina, ainda fresca da fonte, o que o fez sorrir, pensando que isso também era bom, mais do que bom, era ótimo.
No quarto dia comprou um aquário com peixinhos coloridos, uma gaiola com dois canários cantores e diversos vasos com flores, que distribuiu pela casa e, vendo os peixinhos, ouvindo os canários, sentindo o perfume das flores, ficou feliz, pois concluiu que tudo isso era muito bom, e como era!
No quinto dia banhou-se na água do chuveiro recém-instalado, barbeou-se, vestiu roupas novas, olhou-se no espelho e viu-se solitário na casa que construíra com tanto capricho. Pensou que precisava de uma companheira e saiu batendo de casa em casa, até que encontrou uma moça modesta e simples que aceitou dividir com ele a casa, os canários, as flores, a água e a luz, e ele sorriu feliz, pois viu que isso era maravilhoso.
No sexto dia acordou ao lado da companheira, desembaraçou-lhes os cabelos, deu-lhe banho, perfumou-a e a amou, e desse amor nasceram muitos filhos e esses filhos tiveram filhos, de modo que a casa ficou cheia de vida, de risos e alegrias. Todos ficaram felizes, porque viram que tudo isso era muito bom.
No sétimo dia, cumpridas todas as tarefas, reuniu a família, dividiu o pão do celeiro e o vinho da adega, beijou um a um os filhos e netos, sorriu para a companheira e, sem outro aviso, deitou para descansar e nunca mais acordou. Quem ficou achou que isso também foi muito bom, foi boníssimo.
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Prisão
Fábio não é digno de ser dito nessas linhas, mas a minha psicóloga cruel pediu para contar as artimanhas do malfeitor, para eu elaborar, mais uma vez, essa situação que me inferniza. Ainda nos anos 90, Fábio era dono de uma videolocadora. Eu vivia lá por conta dos jogos de videogame, quase sempre sem dinheiro e esperando a boa vontade de um amigo abastado para jogar. Fábio, de início, não me perturbava. Ficava olhando de longe, como se eu fosse um rato. Às vezes até me enxotava de seu estabelecimento, junto com os outros meninos da rua, que se aglomeravam no local. Então, com um ano ou dois de frequência no estabelecimento, Fábio resolveu me contratar para ajudar, “porque a clientela havia aumentado”. Fiquei superfeliz com o convite e com a graninha que iria receber – podia, assim, ajudar a minha família, muito pobrezinha. Eu devia estar antes e depois de fechar o estabelecimento, para “colocar as coisas no lugar”. A primeira investida foi sigilosa, quando não havia ninguém em casa. Ele pegou nas minhas pernas e, depois, nas minhas partes íntimas. Eu estava completamente desconcertado, sem saber como agir. Quando voltei à minha casa, me tranquei no banheiro e comecei a chorar. Meus pais não poderiam ouvir, então eu tapava a boca. Tomei banho e esfreguei uma, duas, três mil vezes tudo em que ele pegou, de nojo. Eu intuía que aquilo era muito errado. Mas, ainda assim, continuei no trabalho, precisava muito. Ele passou a me tratar como se não tivesse acontecido nada. A segunda vez foi mais audaciosa. Fábio me amarrou e lambeu o meu corpo todo, inclusive meu pênis. Eu tinha nojo do seu hálito, fétido, reptiliano. Dessa vez eu gritei, e ele me soltou rapidamente, porque estava desprevenido. Corri novamente para casa e me tranquei no banheiro. Tomei banho me esfregando com mais força, a ponto de me arranhar e sangrar. Não queria nenhum resquício dele no meu corpo. Continuei a trabalhar, porque meus pais estavam desempregados, e o abusador não reagia à minha presença. Era completamente indiferente a mim. Eu era somente um objeto. O tempo passou e achei que nada disso iria acontecer de novo, mas com menos de um ano ele me prendeu outra vez, prometendo me matar se eu gritasse ou fugisse. Estávamos num quarto que era o matadouro. “Hoje eu vou te foder, seu pirralho!”. Esperei que ele encostasse mais e tirei o canivete do bolso de trás. Agarrei o seu membro e, com um golpe forte e incisivo, arranquei-o fora. Jorrou sangue, muito sangue, e eu vibrei com aquilo. O sangue esvaiu e Fábio morreu por hemorragia. Comigo, criminalmente, não aconteceu nada, porque, além de ter somente doze anos, o fiz por legítima defesa. O tormento ainda me acompanha. Fábio é uma alma penada que me aparece em pesadelos. Como vou me livrar dessa prisão?
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Pisando na merda
No macro, Donald parecia um garotinho que subiu numa árvore e não sabia descer.
No micro, o erro principal de um outro idiota foi abordá-la tentando falar sobre rock.
Ele era um vizinho do bairro da Liberdade.
O tiozão de churrasco que saía de moto, dizia que gostava de rock.
Donald era seu ídolo.
Tinha uma família falida em todo e qualquer aspecto possível, idealizada anos antes por ele mesmo, e agora não tinha a quem recorrer, nem mesmo para lamentar a própria burrice.
Então saía para comprar cigarro e ia beber, voltando horas depois sem levar para casa os pães que a esposa havia pedido, causando assim mais uma crise familiar, daquelas que cortam a euforia alcoólica e antecipam a sensação de ressaca.
O sujeito saía de moto usando bandana, porque era careca e insistia em deixar as laterais da cabeça com fios longos e a bandana cobrindo o topo, irremediavelmente calvo.
Recebeu o que merecia, tão logo se manifestou.
Ela era Mila Cox, que com cabelo chanel azul e camiseta dos Buzzcocks.
Título de eleitora cancelado.
Desprezava todos os políticos.
Bebia um drink misterioso em sua caneca personalizada, que levava onde quer que fosse, antes de um show inusitadamente marcado num ponto do Largo da Batata, muito mais conhecido pela música popularesca, gêneros contemporâneos sexistas e machistas, muito apreciados por milhões de pessoas induzidas ao erro desde o nascimento, e um público que correspondia à proposta da casa.
Quem marcou o show ali foi Ado, baterista da banda Hollow Clowns, que naquela noite tocaria depois da banda de Mila Cox, Crop Circles. O camarim era um banheiro desativado, mas que estava razoavelmente limpo e seco.
Todos já haviam chegado.
Os Crop Circles eram um duo, formado por Mila Cox no baixo e sintetizadores, e Zími, com um kit minimalista de bateria, tocado por ele de pé.
Para eles o Hollow Clowns era uma boa banda, ainda que imitassem um pouco o Husker Dü.
Para Ado, Crop Circles era uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex.
Haviam combinado que Os Crop Circles tocariam antes. Mila e Zími queriam terminar logo o show para assistir ao Breu já devidamente relaxados e podendo beber antes de ir embora.
Tudo isso aconteceu conforme o programado, e com a facilidade de acontecer na capital.
Mas a cena com o tiozão do churrasco aconteceu antes, quando nem havia anoitecido.
Mila Cox e Zími haviam chegado ao bar no fim da tarde, deixaram equipamentos no camarim improvisado. Zími saiu para fumar um baseado e Cox ficou para tomar uma bebida antes de tocar.
A banda Hollow Clowns também já estava lá para ver o show de abertura e fazer seu show em seguida.
Mila Cox estava no balcão e o velho tarado da moto estava sentado numa mesa na calçada. Entrou para pegar mais cerveja e puxou assunto, perguntando sobre o tipo de som que seria executado.
Antes de responder a essa pergunta, ela perguntou ao tiozinho qual eram as suas referências de rock, e foi então que o sujeito engasgou pela primeira vez.
Ao mencionar Rolling Stones e Janis Joplin sem conhecer nada a respeito, e ao travar a ponto de não se lembrar nem mesmo do nome de alguma banda de Classic Rock de FM, começou a ser massacrado.
Ela preferiu começar dizendo que detestava Janis Joplin e que “Mercedez Benz” era uma das cinco músicas mais chatas já gravadas.
Explicou que ele certamente estranharia o som das duas bandas naquela noite, pois não saberia identificar nem mesmo as referências ali apresentadas.
A essa altura, Zími entrou no bar e avistou a cena de um monólogo em forma de metralhadora de sua parceira musical para cima de um velho barrigudo motoqueiro e tarado, ele entendeu imediatamente do que se tratava.
Quando se aproximou, ela já estava terminando a parte musical do monólogo, explicando que era preciso guardar segredo sobre certas coisas que gostamos de ouvir secretamente.
Disse a ele que não costumava dizer que gostava da Pat Benatar, Duran Duran ou America. Ela só ouvia essas coisas escondida.
Atacou a indústria cultural, alegando furiosamente que ela produz idiotas aos milhões, que vão desde os artistas que são lançados até o público que os consome.
Então ela mudou de assunto para atacar a hipocrisia da família tradicional brasileira, e a expressão do tio do churrasco ficou ainda mais deprimida, como se um ponto nevrálgico tivesse sido atingido com precisão cirúrgica.
Naquele momento a expressão do sujeito era de perplexidade e de um amargo arrependimento por ter tentado uma investida.
Terminou enfatizando o desprezo que tinha por fascistas, racistas e machistas.
Quinze minutos depois, os Crop CIrcles iniciavam o show, que durou quarenta minutos.
A banda Hollow Clowns tocou por mais quarenta minutos, dando início à apresentação quinze minutos depois do encerramento do show de abertura.
Quando Zími e Mila Cox estavam assistindo o Hollow Clowns, se divertiam com as caras que o velho tarado fazia enquanto assistia embasbacado o segundo show.
O ápice da comédia se deu no intervalo entre um show e o outro, quando satiricamente colocaram o clipe de ‘High in high school’, do Madam X, no projetor que colocaram no fundo do pequeno palco, que era usado para as bandas apresentarem imagens aleatórias durante os shows.
O lugar era pequeno, e cerca de cinquenta pessoas se espremiam durante as apresentações.
Sara Cox, irmã de Mila, cuidava da venda de cd’s e camisetas.
Venderam onze cd’s e quatro camisetas, o que era mais que suficiente para bancar o rolê.
Naquela noite, estavam felizes por não terem que pegar estrada com o Chevette Jeans de Cox para voltar para casa.
Cox morava na Penha e Zími, no centro, e tocavam pouco na capital.
Shows no interior eram mais frequentes.
Gostavam de festas de quintal.
O velho tarado da moto ainda bebia na mesma mesa, miseravelmente desamparado.
As duas bandas se juntaram depois do show, passaram num mercado em Pinheiros e partiram para beber na casa de Mila Cox.
No caminho, dentro do Chevette, os três integrantes do Hollow Clowns riam e contavam sobre os momentos SPINAL TAP que tiveram desde a véspera para que chegassem a tempo do show.
O baterista Ado se comprometeu a agendar mais shows conjuntos com as duas bandas, propondo também a gravação de um split.
Donald jogava War.
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A aventura
Com um sentimento de alívio pelo dever cumprido, Tarcísio depositou a última caixa na carroceria. O esforço solitário doía nos braços. Abriu a porta do lado do motorista, sentou-se ao volante e girou a chave. Passou os olhos pela lista de compras que segurava:
— Na volta, você para lá no mercadinho do seu Vicente e me traz isso aqui. Vou fazer aquela carne assada recheada que você adora. A Rosa e o Jesuíno estão vindo almoçar amanhã e vão trazer o álbum de retratos do neto, o filho da Dorinha que nasceu no ano passado — informou Marlene, com seu jeito despachado, típico de quem sabe delegar funções.
Distraído com a lembrança da captura dos porcos (como o menorzinho dera trabalho) e com o ronco do motor, Tarcísio esperou alguns instantes até dar a partida. Dali a pouco a caminhonete já deslizava cambaleante pela estradinha de terra batida que o levaria até o município vizinho. A viagem não seria tão longa, coisa de três quartos de hora, se tanto. Tarcísio e o veículo conheciam bem o trajeto, e isso facilitava as coisas. O rádio tocando forró ajudaria a encurtar o percurso. Quinze minutos após a saída, Tarcísio meteu a mão no bolso da camisa e não achou nada além da lista de compras preparada pela mulher. Estava sem cigarros. Por sorte, a birosca do velho Jerônimo ficava perto. Compraria os cigarros e ainda tomaria um copo de água gelada. Na porta do estabelecimento, encontrou Cícero, Chico, Zezito e Miguelzinho, os netos do proprietário, jogando bola de gude. Assim que viram Tarcísio, os garotos deixaram de lado a brincadeira e correram em sua direção, envolvendo-o numa roda barulhenta e agitada. Já dentro do bar, o homem acomodou-se próximo do antigo aparelho de TV, que exibia um sonolento programa de entrevistas. A imagem, cheia de fantasmas, vez por outra sumia por completo, tornando difícil o entendimento de grande parte da conversa. Ficou alguns minutos assistindo ao debate sem prestar muita atenção ao mesmo tempo que proseava amenidades com o velho Jerônimo. Retomado o caminho, percebeu que, daquele ponto em diante, as condições da estrada exigiriam velocidade reduzida. As chuvas da semana anterior haviam piorado a precária situação da via, e, em alguns trechos, o barro quase fazia a caminhonete atolar. Sem que Tarcísio tivesse se dado conta, Cícero e Zezito tinham se aboletado na carroceria enquanto Chico e Miguelzinho, a pé, tentavam alcançar os outros dois. Quando a velocidade diminuía, parecia que iam conseguir subir também. Então, mais uma vez, para decepção dos meninos, o veículo tomava impulso e os deixava para trás. Num trecho especialmente pantanoso, Chico cansou. De pé, estático, ficou olhando os primos seguirem adiante. Extenuado, abandonou o corpo e, num misto de lamento e decepção, caiu de joelhos, antes de se largar no solo, respiração ofegante, braços abertos em forma de cruz, corpo tingido de lama misturada com suor. Miguelzinho, por sua vez, seguiu em frente e, alguns metros depois, auxiliado por Cícero e Zezito, acabou subindo na carroceria também. Ao lado das caixas com os porcos, deitaram- se os três de barriga para cima olhando o céu. O sol do início da tarde iluminava-lhes o rosto. Os animais, a cada solavanco mais forte da caminhonete, guinchavam agitados, desejando sair do confinamento. Pouco tempo depois, a viagem se encerraria. Na fazenda do compadre Matias, Tarcísio se preparava para descarregar a encomenda quando notou a presença das crianças. Ameaçou dar uma bronca nos guris, mas, antes de abrir a boca, desistiu. Os quatro, então, puseram-se a descarregar as caixas. O último porco a ser libertado começou a se debater tão logo deixou o cativeiro. Furioso, correu atrás de Zezito com a intenção de atacá-lo. Antes que pudesse alcançar o meleque, o bicho foi atingido por dois tiros de espingarda disparados pelo compadre Matias. Morreu na mesma hora.
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Os dois chapéus
Os dois chapéus vinham boiando nas águas revoltas do rio; quase soçobravam nas ondas encapeladas, entre tábuas, troncos, montes de lixo e um ou outro cadáver, sob o voo indiferente dos urubus; mas vinham resolutos, altaneiros, ostentando orgulhosos as suas insígnias de classe superior; ainda pude ouvi-los, de longe, conversando:
– Esse aí, só olhando – disse o mais velho, que eu chamei de Sílvio.
– Tem gente que é assim, não presta para mais nada – disse o mais novo, o Joãzinho.
Eu cocei a cabeça; que é que eles queriam que eu fizesse? Peguei algumas pedras, tentei acertá-los.
– Idiota – disse o Sílvio.
– Estúpido – disse o Joãozinho.
Lancei-me ao rio, logo alegre, em lépidas braçadas; alcancei os dois, que caíam na gargalhada.
– É idiota mesmo – disse o Sílvio.
– Um arrematado estúpido – disse o Joãzinho.
Peguei os dois chapéus, e afundei com eles; nadamos horas e horas, depois dias e dias, sob as águas do desconhecido, levados pelas torrentes impetuosas do universo; aportamos numa praia deserta, onde o barqueiro e seu enorme cajado nos aguardava.
– A sua decisão, infeliz – disse.
Espantei-me. Que decisão teria para tomar? Onde estava? Para onde iria? O céu avermelhado declinava no horizonte, onde um vulcão fumava pacientemente, tossindo de tempos em tempos. Por fim consegui perguntar:
– Que decisão devo tomar?
– Com qual dos chapéus vai embarcar para o outro lado, oras – disse o barqueiro sorrindo com escárnio por entre seus dentes podres, deixando claro que, não importa o chapéu que escolhesse, eu seria o mesmo idiota ou estúpido de sempre.
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Como sempre foi
Quando fecho os olhos, o mundo desaparece. Quando os abro, o mundo corre para se recompor no mesmo instante. Às vezes, durante o período infinitesimal dessa transição — e isso é apenas uma percepção —, acredito surpreendê-lo ultimando seu trabalho de recomposição: percebo o contorno esfumaçado das coisas ao meu redor, alguns ruídos, uma chispa, o acomodar-se das distâncias, a luz do dia buscando lentamente sua intensidade, meus filhos demorando uns milésimos de segundo para adquirir suas formas habituais, o pelo do gato parece difuso e ele ainda não tem bigodes, a vizinhança descuidada e desagradável se estabelecendo à direita e à esquerda, um grito ao longe que ainda não chegou perto o suficiente para ser identificado, a nuvem que se atrasou em sua tarefa de encobrir o sol… Tudo isso acontece até o momento em que, olhos bem abertos, vejo as coisas irromperem de novo e se reintegrarem velozmente à ordem, recobrarem sua textura, seu volume, seu nome e seu significado, e este mundo líquido e descartável voltar, mais uma vez, a ser como sempre foi: perpetuamente feio e inumano.
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Lugar interno
Há mendigos que não estendem a mão nas esquinas, nem carregam embrulhos com roupas sujas. Sua fome não é de pão, mas de palavras; sua sede é de olhares que os reconheçam. São os mendigos emocionais, aqueles que vagueiam pelos corredores das relações com uma tigela invisível, pedindo migalhas de afeto.
Você os encontra em todos os lugares. No trabalho, aquele colega que, após cada tarefa, busca um “muito bem!” como se fosse um prêmio vital. No amigo que conta histórias de sofrimento repetidamente, não para aliviar a dor, mas para colecionar consolos. Nos corredores das festas, onde alguém ri alto demais para preencher o silêncio ao redor, ou fica grudado a outro como uma âncora em mar revolto.
Eles não carregam cartazes, mas seus sinais são claros: a conversa que sempre retorna ao próprio umbigo, o ciúme disfarçado de cuidado, a necessidade de ocupar todos os espaços vazios com barulho ou presença. Sua tigela tem um fundo falso por mais que você deposite atenção, ela se esvazia em minutos, exigindo mais.
Muitos de nós, em algum momento, fizemos fila com essa tigela. Às vezes, a solidão bate à porta, e saímos em busca de um pouco de calor humano. A diferença está no permanente, no ofício de mendicância afetiva transformado em identidade. O mendigo emocional profissionaliza a carência. Ele não compartilha; extrai. Não conversa; drena.
O paradoxo é que, quanto mais mendigam, mais espantam os doadores. O olhar faminto assusta. As pessoas intuem quando estão sendo usadas como tapa-buracos, e recuam. E o mendigo, então, vaga mais, faminto, convencido de que o mundo é mesquinho.
Talvez a verdadeira esmola que precisamos aprender a dar e receber, não seja a migalha de atenção momentânea, mas a oferta com distintas maneiras para pescar. Um “como você está?” genuíno, que escute a resposta. Um silêncio que acolhe, não que foge. Um convite para que o outro se enxergue inteiro, e não apenas carente. Eventualmente somos autênticos quando corremos risco de vida, quando a morte espreita na porta a fitar nossos movimentos.
A questão é, passamos a vida estendendo a tigela, ou aprendemos a cozinhar nosso próprio banquete?
Os mendigos emocionais nos lembram, no fundo, de um medo comum: o de que nosso afeto não tenha valor se não for validado por outro.
A verdadeira abundância emocional começa quando paramos de estender a mão para o mundo em sinal de súplica e passamos a usá-la para construir, dentro de nós, um lar acolhedor. Todos carregamos feridas, porém, em momentos de fragilidade, podemos agir a partir da carência. A diferença está em reconhecer esse estado e buscar a cura, ao invéz de perpetuá-lo.
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Não arredo pé
Natyely se deleita com o meu fracasso. Ela é o único ser que conheço que não tem empatia. Quando éramos criança, ela ria das minhas quedas, até quando fraturei o braço. Na ida para o hospital, não parava de rir, um riso estridente e sarcástico, como se eu fosse um frouxa, e o pior, meus pais não diziam nada, não a mandaram parar com o escárnio, porque, obviamente, ela era a filhinha amada. Parece que eu era seu palhacinho de estimação. Em muitas estripulias ela me metia só para ver eu me dar mal. Inventava brincadeiras em que, no final, eu me lesionava; nada era tranquilo, nada era harmônico, como deveria ser entre dois irmãos, únicos irmãos. Meus pais a apoiavam porque a queridinha tirava notas muito boas, e para eles isso era suficiente. Natyely, para se ter uma ideia, nunca recebeu uma bronca do meu pai, enquanto eu aguentava toda a rebordosa, principalmente quando ele chegava bêbado e queria descarregar suas frustrações. Meu pai, sim, era um fracassado; dependia de minha mãe, que era concursada, e se virava com bicos. Quando não dava certo nalgum serviço, ele passava o dia bebendo, e, quando chegava em casa, daquele jeito, dava em cima da moça que trabalhava cuidando da gente. Mirian era uma meninota, pouco mais velha que nós, e teria vindo do interior para estudar – mas, na verdade, passava o dia trabalhando com serviços domésticos. Isso hoje seria crime. Meus pais diziam que a contrataram para o seu bem, para que pudesse vencer na vida, mas como? Não tinha tempo sequer de estudar em casa, e ia todas as noites para um colégio público. Mirian era meu amuleto, eu a amava, porque ela me safou de várias empreitadas. Mas, como minha irmã era endiabrada, sempre sobrava uma bronca para mim. Natyely cresceu e ousou destruir todos os meus sonhos. Sou artista e vivo da arte, mas para ela sou um vagabundo. Vendo os meus livros de porta em porta, e tenho uma vida feliz e relativamente estável, para quem não tem filhos. Nossos pais morreram. Minha família é pequena e dispersa. Poucos me entendem. Natyely é médica e não deve tratar bem seus pacientes, porque ela é raivosa – certamente se formou por status. Tenho certo medo dela, devo admitir. Brigamos na justiça pela casa de nossos pais, onde moro até hoje. Ela é farta de dinheiro e quer sempre mais. Por ela, eu não teria nenhum direito sobre os bens dos meus pais, porque sou “vagabundo”. Tenho um amigo advogado que me ajuda muito. Não quer nenhum honorário antecipado. Já fomos a duas audiências, sem acordo. É completamente estafante para mim, que, além do mais, sou autista, nível de suporte um. Mas hei de vencer e ficar, como proponho, com pelo menos uma parte da casa, que já está subdividida. Ela faça o que quiser com o restante, mas não arredo o pé daqui, do meu chão, de onde me criei. 🗞️