COntos

  • Vivo emoções em seu lugar ou tributo a Ariano

    Doralice ganhava a vida de um modo estranho. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar que alguém pudesse tirar o próprio sustento por meio de uma atividade como aquela. Até que vi numa revista a reportagem de título chamativo: “Vivo emoções em seu lugar”. Ela se intitulava artista performática, morava em Recife e garantia poder realizar desejos – sonhos também, por que não? – de moradores de outras cidades brasileiras e até estrangeiras, coisas como visitar um certo local, fazer um determinado programa, encontrar alguém ou tudo isso junto se a vontade do cliente assim determinasse.

    Após o estranhamento inicial, percebi que os serviços daquela mulher de comportamento inusitado me seriam bastante úteis. Na ocasião, eu morava em Teresópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro. Dias antes, havia assistido a um festival de teatro organizado pela prefeitura num clube tradicional do município. O evento era dedicado à obra de Ariano Suassuna, autor nordestino que, até então, eu desconhecia. Três filhos pequenos, viúva recente, professora em duas escolas. Não tinha tempo para bobagens como teatro. Levada por uma amiga, acabei assistindo a obras-primas como Auto da compadecida, O santo e a porca, A farsa da boa preguiça e Torturas de um coração, peças de enredos críticos e bem urdidos, habitadas por personagens simples, representantes perfeitos de parcela significativa do povo brasileiro.

    Na semana seguinte, lá estava eu, diante do computador da escola, buscando informações sobre Ariano e sua obra. Quanto mais eu lia, mais me vinha a vontade de encontrá-lo e de conversar com ele. Gostaria de conseguir lhe dizer algo a respeito do impacto que seus textos me causaram. Doralice poderia fazer isso por mim. Claro… A atriz da minha cena, a intérprete de mim mesma. Quem sabe durante um passeio de barco pelo Rio Capiberibe. O cenário deveria estar à altura do acontecimento. O rio seria perfeito. Sempre ouvi dizer que Recife é uma cidade encantadora. O texto também teria de ser caprichado. Um texto dirigido a um escritor deve ser mesmo especial. Não poderia me descuidar da iluminação. Luz natural… O pôr do sol, o luar talvez. Figurino de gala também seria imprescindível. Eu e Doralice acertamos todos os detalhes. Ela comprou minha ideia de cara. Senti que se empenharia em realizá-la da melhor maneira possível, exatamente como da vez em que, a pedido de um ardoroso torcedor do Grêmio, teve de depositar um buquê de rosas brancas no gramado do Estádio dos Aflitos. Era um agradecimento emocionado pela dramática vitória do time gaúcho sobre o Náutico durante aquela partida histórica de 2005, a famosa Batalha dos Aflitos.

    O encontro aconteceu e foi registrado. Não houve Capiberibe, pôr do sol nem luz do luar. Num café do Recife Antigo, Doralice e Ariano se reuniram. Tudo sucedeu de forma muito mais modesta do que eu havia imaginado. Ariano é assim mesmo, desligado de formalidades. Hoje, recebi pelo correio a gravação em DVD do evento. As crianças dormem. O tique-taque do relógio de pêndulo impede que o silêncio na casa seja completo. Sozinha na sala, ligo a televisão e me transporto. O Recife é logo ali… E é mesmo lindo.

  • A galinha manca

    A galinha atravessa vagarosamente o terreiro. Cada passo é quase uma queda. A galinha é torta, tem uma perna mais curta que a outra. É uma galinha manca.

    Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse calculando cada movimento. O terreiro é largo, clareado aqui e ali por algumas réstias de sol. O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra preta, folhas, penas e dor.

    A galinha é um bicho só. Procura algum grão de milho, uma minhoca, procura a sombra, procura o sol. A galinha conjuga os verbos da solidão. Nenhuma outra galinha, nenhum galo. A vida parece sem sentido.

    A galinha ergue a cabeça, apruma o corpo, soluça e volta a caminhar. É preciso presto caminhar. A galinha olha para um lado, para o outro, olha fixo para um objetivo determinado, um ponto que só ela vê. E caminha.

    Sente falta de uma muleta, talvez de uma bengala. Mas caminha, tropeçando na própria perna, caindo, levantando. Caminha, intrépida, poderosa. A galinha mínima domina o seu mundo mínimo.

  • A chuva estranha

    A terapeuta disse à mamãe que procurasse sair do quarto e fazer alguma atividade simples que lhe desse alegria. Sugeriu que cuidasse do jardim. Mexer com a terra é o melhor remédio contra a depressão. Plantar flores ou fazer uma horta traria enormes benefícios à saúde mental de todos. “Aproveitem a primavera precoce que já está no ar”, disse ela. A família toda concordou. Aquele pedaço do terreno atrás da casa estava mesmo inútil, tornara-se uma floresta em miniatura, onde o mato crescia sem controle e onde sempre perdíamos nossa bola de futebol. Todos nós, exceto papai, nos dedicamos a capinar e adubar a terra e plantar flores de várias espécies e belezas.

    Depois de um mês, um poeta, uma dançarina e um violinista germinaram entre os canteiros de cravos e amores-perfeitos. O poeta escreveu palavras novas que mamãe cantou, acompanhando o som do violino, e a dançarina girou loucamente ao nosso redor, como uma borboleta gigante e exótica. Choveram cores primárias e pulamos em poças d’água roxas, amarelas e verdes, salpicando tudo ao redor. Papai olhou para nós muito sério, abrigado embaixo do caramanchão, como se não estivesse feliz ouvindo mamãe cantar depois de tanto silêncio. “São as malditas flores que provocaram essa chuva estranha, onde já se viu chover colorido?”, murmurou, e recolheu a água multicolorida em frascos para analisá-la em seu laboratório. Uma noite, enquanto dormíamos, jogou herbicida no jardim. O poeta, a dançarina e o violinista murcharam da noite para o dia e minha mãe se trancou no quarto novamente. Uma aragem gelada tomou conta da casa.

  • Finjo que consigo viver assim

    Procuro acalmar Luana. Ela está em polvorosa, com medo de ser demitida. O nosso chefe é de veneta, a cada minuto podemos esperar um vendaval ou um refresco brando de mar. Ele é uma boa pessoa, já demonstrou diversas vezes quando quer nos ajudar, mas pode pegar no meu pé ou no pé de qualquer colega por semanas, e isso nos aflige. Nas reuniões, somos chamados a falar: sempre me saio mal, por conta da minha timidez excessiva, mais especificamente por conta do autismo. Acho, talvez, que ele tem pena de mim, por isso não me põe para fora; ou mesmo porque, como tenho muito foco, consigo terminar as atividades a contento. Nessas reuniões, passo ideias às vezes confusas até para mim. Definitivamente, não sei me expressar. Mas estou há três anos na empresa, e até hoje não recebi feedback sobre o meu comportamento. Meu chefe sabe que tenho autismo, mas prefere esquecer; ele me trata como um sujeito “normal” – até gosto disso. Não desejo ter “privilégios”, somente ser aceito com minhas intrínsecas condições. Tem vezes, como hoje, que quero ficar isolado; tenho medo do mundo. Luana me dá todo o suporte, porque é sensível à situação. Ela está há menos de um ano na empresa e me pede, sempre, conselhos sobre o que fazer, sobre como se portar. Digo, sempre, para agir de maneira espontânea e leve, como de fato ela é – e eu a admiro por isso. A pobre tem receio de ser demitida, e diz que procura outras opções. Não consegue, absolutamente, se acostumar com a inconstância emocional do nosso chefe. Hoje mesmo ele chegou nervoso, estilo vendaval; bateu na mesa, chamou Luana para que “prestasse” atenção nos aluguéis em atraso. Luana é casada, possui dois filhos e marido, e é praticamente arrimo de família. Tenho pena de sua decisão, do que está passando. Tenho um apego emocional a ela, porque sei que me entende, por isso faço de tudo para que fique no escritório. Mas não teve jeito, na segunda-feira passada ela chegou superanimada, dizendo que tinha sido chamada para outro trabalho. Que passou numa seleção acirradíssima. Ela é uma mulher de muitos valores e merece ser feliz, é assim que penso agora… O que posso fazer? Nada. Desejei-lhe toda a felicidade do mundo. Wilson e Renato, meus colegas, ainda me dão um suporte, brincam para me distrair, pelo menos sei que não ficarei sozinho. No entanto, tenho muitos medos; o trabalho pode se tornar um ambiente hostil, e ter de me virar sem Luana é mesmo angustiante. Ela já saiu sem dar um tchau. E entendo a sua euforia. Não tenho filho para criar, sequer sou casado. Moro num flat que era do meu pai, que ele me deixou de herança. Tenho uma vida moderada, às vezes – ou muitas vezes – reclusa. E assim vou me virando para viver nesse mundo cão, que não entende a neurodivergência. Meus colegas de trabalho brincam, e tenho certeza de que sequer lembram que sou autista. As pessoas fingem que me entendem. E finjo que consigo viver assim.

  • O Sorriso Perdido

    Jandira teve uma infância de indigente. Criada com mais seis irmãos numa cidade pequena no interior, enquanto seu pai trabalhava na roça, ela ajudava a mãe a cuidar da casa e das crianças. Na tapera em que moravam, a miséria acompanhava de perto a família. Não havia comida todos os dias, faltava luz elétrica e, no caso de Jandira, lhe faltavam todos os dentes da frente. Era pobre, raquítica e banguela.

    Com dez anos, foi entregue aos cuidados de uma senhora para trabalhar na fazenda. Logo aprendeu as tarefas domésticas e se destacou na cozinha. Dava gosto a sua força de vontade e o esforço que fazia em aprender e melhorar. Seu jeito tímido e sempre sorridente cativava. Ela sorria, tapando a boca com a mão. “Jandira, abre essa boca, menina, onde se viu rir assim de boca tampada”.

    Com o tempo Jandira foi se tornando peça-chave na fazenda, uma espécie de faz tudo. Movida por aspirações maiores, mudou-se para a cidade grande e arrumou emprego como ajudante de cozinha numa lanchonete.

    Ela não pensava em namoro, diversão, em mais nada, somente trabalhar e guardar dinheiro quando sobrava algum. Vendendo quentinhas nas horas vagas, obteve certa prosperidade. Seu tempero era comentado. Nessa toada foi levando a vida, sorrindo de boca fechada e sonhando com o dia de deixar de ser banguela e poder dar gargalhadas com seus dentes à mostra. A vida por uma dentadura completa.

    Com obstinação e alguma sorte, finalmente conseguiu no programa do SUS um implante dentário. O procedimento envolvia cirurgia, seguida de osseointegração e colocação da base fixa. Jandira nunca tinha ouvido falar daquilo, apavorou-se e quase desistiu. Mas a longa espera por uma dentadura falou mais alto. Tomou coragem e confirmou o bendito implante.

    Os pinos de titânio foram fixados no osso maxilar de Jandira que aguentou firme, como só Deus sabe. Enfim, teria de volta a função estética do sorriso. Tudo o que sempre havia sonhado.

    Com dentes novos, era outra mulher. Durante o dia, vivia de boca aberta mostrando os dentes por qualquer motivo, orgulhosa que só. À noite, rezava fervorosamente para que não houvesse nenhuma infecção ou rejeição. Eventuais dores e algum sangramento na gengiva, mas nada de grave. O implante múltiplo tinha sido um sucesso. Somente uma singularidade: com o tempo, foi percebendo que quando ia sorrir, involuntariamente tapava a boca. Talvez reminiscências antigas e enraizadas. Bem no fundo, sua alma ainda trazia o seu velho sorriso desdentado.

  • O fim do mundo

    Francisco saltou do metrô apressado. Estava a 300 metros do consultório, e faltavam apenas cinco minutos para o início da sessão. Não se atrasava nunca e, ao contrário de muitos, estava sempre bem-disposto às segundas-feiras. O terapeuta também raramente o atendia fora do horário. Naquele dia, tudo foi diferente. Entrou 45 minutos depois da hora marcada. Tinha muita coisa para falar, havia ensaiado um discurso na véspera. Havia feito anotações no bloco de notas do celular. Já acomodado no divã, começou:

    — Sabe qual é meu maior desejo?

    — …

    — Que o mundo acabe.

    — Mas do jeito que o homem vem tratando o meio ambiente…

    — Não é isso, você não entende! Queria que o mundo acabasse hoje. Ou no máximo na semana que vem. Será que o, deixa eu ver aqui, o Kim Jong-un não tem lá um arsenal atômico secreto… Ou o Irã, quem sabe o Irã… Alguém podia apertar um botão e bum! acabar com tudo. A Rússia está doidinha pra provocar a terceira guerra mundial. Esse Putin não regula bem, parece questão de tempo… Sem contar o Trump, esse doido é um caso à parte…

    — Bem, hoje a gente fica por aqui.

    — Nossa, tive a impressão de que o tempo passou tão rápido…

    — Mas, se você quiser, a gente volta a falar sobre o fim do mundo na próxima sessão, ok?

    Até semana que vem.

    ***

    Enquanto isso, lá em cima no firmamento, o Criador, em companhia de seus anjos, arcanjos, serafins e querubins, repassava a agenda da semana: terça-feira: atentado em universidade americana (39 mortos e 43 feridos); quarta-feira: tsunami e terremoto no Japão (987 mortos, 1264 feridos e 5 mil desaparecidos); quinta-feira: enchente na Malásia (294 mortos e 500 desparecidos); sexta-feira: inundação de lama no Nepal (175 mortos e 384 desaparecidos); sábado: incêndio em floresta da África do Sul (45 pessoas mortas, flora e fauna devastadas); domingo: FIM DO MUNDO.

  • O PARDALZINHO

    O nenê era como um pardal palpitando na palma da mão. Estava morto?

    Não sei o que vou fazer. Depósito com cuidado na covinha, aberta no jardim, cercada de flores.

    Aí ele pára de se mexer. Dá uma respirada comprida, dá que nem uma tossinha engasgada, dá outra respirada já meio sumida, e pronto: agora está morto.

    A Cida ainda está chorando. Mulher chora por qualquer coisa. Era o filho dela? Também era o meu filho.

    Nunca mais vou-me esquecer daquele montinho de terra, parecia que estava pulsando, como se o Eusébio estivesse vivo ali dentro. Eu quis homenagear o meu pai dando o nome dele ao meu filho.

    E agora está morto embaixo da terra. E eu o sinto pulsando embaixo da terra. Se o meu Eusébio morreu duas vezes – se ele estava vivo quando o deixamos embaixo da terra?

    A Cida me culpa, eu me culpo, a minha mãe me culpa, o mundo me culpa – e eu culpo todo mundo. Deus é o grande culpado! Se o Eusébio ia morrer, por que nasceu?

    E eu o vejo vivo como um pardalzinho palpitando na palma da mão, pulsando muito de levezinho – embaixo da terra.

  • Isso é para a vovó

    Meu primo Alfredo chegou correndo e me entregou um pacote pequeno. Disse: “É pra entregar pra vó.” Entrei em casa e falei: “O Alfredo mandou entregar isso pra vovó.” Paty, minha irmã menor, fazia a lição da escola na mesa da copa e gritou na direção da cozinha: “Manhê, o Juca falou que o Alfredinho mandou uma coisa pra vó.” Minha mãe, sem parar de mexer nas panelas, virou o rosto e alterou a voz: “Então fala pro Juca levar logo isso pra sua avó.” Juquinha foi até a sala onde seu pai lia o jornal e falou: “Paiê, olha aqui, o Alfredo trouxe isso e falou que é pra vovó.” O pai olhou na direção do quarto de costura em que a velha finalizava um vestido de baile feito por encomenda e gritou: “Mãe, olha, tem uma encomenda aqui, o Alfredinho, filho da Virgínia e do Alencar, foi quem mandou. Ele disse que é pra entregar pra senhora, pega aqui?”

    A avó primeiro tirou os óculos e os olhos do vestido esticado sobre a Singer, pensou um pouco e sorriu para si mesma. Ajeitou os cabelos num coque apressado. Levantou-se e caminhou devagarinho desde o fundo do quarto até a sala. Tinha um sorriso tímido nos lábios e uma esperança brilhando no olhar.

  • Imagine a minha dor

    Me vi no fundo do copo. É aterrorizante se ver distorcido, confuso, sem se entender bem. Vi também todos os meus achaques ali, quando me sentei e pensei em Ludmila. Ela me deixou, há anos, sem chão. Não porque quisesse. Ela me foi arrancada, a fórceps, como num nascimento complicado. E olhe que Ludmila se cuidava. Não fumava nem bebia, como eu. Aliás, todas as minhas doenças advêm disso, da minha vida tresloucada, irresponsável, principalmente depois da partida de Ludmila. Talvez por isso ela nunca quis ter filhos comigo. Até hoje não sei se era má vontade ou infertilidade. Uma vez ela me liberou para ser pai, se quisesse engravidar outra. Falei para ela que não existia outra. Não cogitava ficar com qualquer mulher. Ser pai nunca foi o meu sonho, ademais. E nunca fui cobrado por isso, de quem quer que fosse, nem mesmo dos amigos, porque havia, há tempos, colocado um ponto final neste assunto, para que ninguém me aperreasse. Pensava, inclusive, que não gostava especificamente de mulher, do gênero feminino, mas sim da Ludmila. E isso me trazia uma louca distorção. Não era capaz de me imaginar por cima de Cláudia Raia ou de Christiane Torloni – a quem razoavelmente aceitava como divas, sensuais, e nada mais. Ludmila era minha fonte de inspiração. Meus melhores sentimentos surgiram a partir dela. Nos conhecemos incrivelmente na infância e logo nos apaixonamos. Não tive outra mulher na minha vida. Meu pai era um puto, porra-louca, vagabundo, e me levou à força para um cabaré (lembro-me dessa espécie de pocilga, nojenta, o cabaré da Zitinha). Dei um tapa no rosto da puta Morena e pulei o muro. Corri feito um fanático, chorando, me sentindo sujo, me sentindo inapto para o meu amor. Ludmila era um corpo e uma alma minhas, com as quais eu tinha, inclusive, me formado como ser humano. Absolutamente, meus pais, separados, tinham suas vidas e seus filhos novos, e se esqueceram de mim. Me pagavam uma mixaria para passar o mês; salário de “cala-boca”; como se fizessem muito por mim. Não me davam um pingo de atenção, mesmo quando fiquei doente no hospital, por conta da diabetes; aí foi quando Ludmila permaneceu serena, dona de si, porque não era vinculada a nenhum escritório, porque era uma puta profissional (não profissional puta), e não necessitava permanecer, como eu, horas e horas no escritório, no meu caso de contabilidade. Por essas e outras, me casei cedo. Não tinha tempo a perder, se já sabia que era e sempre seria Ludmila, o meu grande amor. Mas ela partiu o meu coração (poderia ter sido o meu a parar naquele momento), enquanto o dela pifou. Ela teve um mal súbito quando eu viajava a trabalho. Soube de sua morte quando a vi estirada na cama, branca, possivelmente no mesmo dia do ocorrido. Imagine a minha dor. Não suporto mais estar morto por dentro. E sequer vislumbro um novo e absurdo amor. Se possível, me entenda, fulana…

  • Vasco x Fluminense

    Junto à porta entreaberta, olhou para o fundo da sala. No Sofá, o pai aguardava o início da transmissão pelo Première. Vestia a tradicional camisa verde, branca e grená. Atrás, o número dez e o nome eterno: Rivelino. Não quis colocar o próprio nome, como faziam por aí. Era o de Rivelino, e não o dele, que vararia os tempos.

    O rapaz fitava o pai, antes de afinal sair. “Boa sorte pra vocês”, e acenou para o velho, que retribuiu a nobreza do gesto. Eram adversários, mas eram pai e filho.

    O jovem ganhou o corredor do prédio e no espelho do elevador conferiu a cruz de malta vermelha enfeitando a faixa branca que cruzava o tecido preto. Atrás, também o número dez e também outro nome a ser abrigado pela eternidade: Roberto Dinamite.

    Por que não tinha um pai vascaíno? Perguntou-se na infância. Adulto, essa pergunta perdeu o objeto, e ganharam peso e sentido certas comparações: o pai do fulano espanca a mãe dele; o do beltrano se envolveu em roubalheira na secretaria de Educação. Pareciam até flamenguistas, mas torciam pelo Vasco.

    Quando o filho bateu a porta, o pai ficou olhando, sem ver, o início da transmissão. O já não tão mais garoto estava agora num bar de uma das esquinas da Dias da Cruz com seus pares de torcida. Há mais de trinta anos não assistiam juntos àquele clássico que os opunha, desde quando o garoto escolheu que camisa vestiria, e não era a que vestiram Edinho, Pintinho, Rubens Galaxye, Branco, Romerito, Assis e Washington, além de Rivelino. A mãe, torcedora do Botafogo, não tinha poder de influência clubística sobre o menino. Mas disse ao marido, a título de compensação: “Dos males o menor. Imagina se vira Flamengo?”. O marido até concordou, mas durante algum tempo remoeu aquela escolha. “Um garoto bacana, bem-criado, por que não torce pro Fluminense?”. Ao longo dos anos, a vida lhe ofereceu reflexões. O filho do fulano, drogado de precisar de clínica; o outro, do sicrano, deu desfalque monstro na firma em que trabalhava. Eram tricolores, “mas parecem até flamenguistas”, ele se divertia consigo mesmo, não obstante os colegas conviverem com o desgosto de pai.

    Quando a bola rolasse, aquele clássico teria uma peculiaridade. A mãe botafoguense não estaria mais ali, como sempre esteve, para equilibrar a torcida, conseguindo a estranha proeza de torcer pelos dois times, ou melhor, pelo filho e pelo marido. Agora, para cada um deles, uma vitória dentro das quatro linhas seria um bálsamo menor do que um grito de gol, mas já seria um consolo.

    No primeiro gol, o rapaz gritou forte, com vontade, erguendo os punhos; era uma quebrada na tensão, já que o empate dava vantagem ao outro lado na classificação. Só que menos de dez minutos depois, um chute de longe, o goleiro atrasado, a triscada na trave. E tudo igual de novo. Pensou no velho, no velho se consolando da ausência instransponível da mãe. Dez minutos antes, fora o pai quem pensara o mesmo, em relação ao filho tendo uma alegria espontânea, que de tão grande e verdadeira alegria parecia eterna.

    Ficaram assim no primeiro tempo, tudo igual. Na volta, cinco minutos depois de a bola ter rolado, o bar veio abaixo. “Vaaaaaaascooooo!!!!”. Pularam sobre ele, é sempre bom dividir com um abraço amigo a glória que nos concede um gol do nosso time. Ele comemorou, mas não sabia explicar, sem a mesma vibração do primeiro.

    Passou o resto do jogo com a angústia comum a todo torcedor. O ataque do Fluminense em dia de massacre; a defesa do Vasco, em dia de milagre. Estava angustiado por causa da pressão adversária, com o 2 X 2 iminente; mas também estava angustiado porque eles não empatavam. Era estranho, estranho e louco.

    Até que aos quarenta e quatro, uma bola espirrada armou o contra-ataque, o Fluminense todo lá na frente; a defesa aberta virou uma avenida e recebeu o golpe de misericórdia. O bar tornou a explodir em gritaria. Novamente os amigos o envolveram num abraço coletivo, dessa vez mais eufórico, no êxtase que era o da consagração. Fatura liquidada, classificação garantida e vaga na final assegurada. “E-li-mi-na-do!” e, em coro, as mesas cantavam. Ele ensaiou repetir, mas não evoluiu no canto, se aquietou. Tomou mais dois chopes, praticamente calado, e desse jeito voltou andando para casa. Abriu a porta da sala e deu com o pai, sisudo e acabrunhado, sentado no mesmo lugar, assistindo ao noticiário da noite. Não tirou a camisa tricolor. Ocasião houve de ter dormido com ela.

    O velho fez menção em dar os parabéns quando o filho se aproximou, mas reparou no cenho pesado do rapaz. “O que é menino? Que cara é essa?”. “Eu tô triste, pai…”. “Por que, cara?”. “Pra mim não teve muita graça”, e fez uma expressão cujo significado era tão claro, mas tão óbvio que dispensava a mínima frase que fosse.

    Uma luz da TV escorreu azulada pelo rosto do pai. Levantou-se do sofá, foi em direção ao rapaz, dizendo “Pois eu estou muito contente, muito contente mesmo”, e os dois, agora sorrindo, abraçaram-se com os olhos marejados.

  • REINO ANIMAL

    A primeira vez que Joana trouxe um sapo para casa foi um alvoroço. A família não sabia como agir, a menina tinha só cinco anos e uma afinidade especial com os bichos. Até quis levar o sapo para dormir com ela. A muito custo, conseguiram convencê-la de que o sapo precisava voltar para casa dele a fim de se despedir dos amigos.

    Depois do sapo, foi um pintinho da feira, que acabou virando frango e morreu de estresse. Um jabuti habitou a banheira da casa apenas uma semana, provavelmente morto por engasgo com um pedaço de couve. Até uns micos que passaram a frequentar a janela da casa, atraídos pelas bananas que Joana ofertava, ela quis domesticar. Terminou ganhando uma Yorkshire, toda branquinha, que levava escondida para a escola na mochila. Recebeu o nome de Algodão e viveu quase dez anos, falecendo de problemas respiratórios.

    Adulta, morando sozinha, desenvolveu uma fobia de convívio social. A humanidade para ela não tinha o menor sentido. A natureza e os bichos eram seu derradeiro conforto, focada no resgate, reabilitação e adoção de animais. Joana não podia ver nenhum animal abandonado, que cismava de adotar. Para amenizar a saudade da Algodão, pegou um vira-lata, misturado com poodle, com pelos na região do focinho. Deu-lhe o nome de Jânio.

    O primeiro gato adotado foi o Cazuza, um siamês magrelo, quase esquelético, mas uma simpatia. Festivo até demais para um felino. Sempre carinhoso, a não ser quando tinha acessos de tosse. Logo a seguir, veio a Alcione, gata de pelagem marrom, sem pedigree, traumatizada e arredia. Desconfiada com estranhos e de hábitos noturnos, interagia pouco, sempre escondida pelos cantos da casa. Devia ter sofrido maus tratos antes de ser resgatada por Joana. Alcione vivia às turras com Cazuza, mas não se separavam. Adoravam ficar se implicando. Alcione, mais encorpada, levava vantagem.

    Jânio não se misturava. Sua missão era vigiar a porta, atento a quem entrava e saía. Não era de latir. Um cão silencioso e observador, talvez por isso se desse tão bem com os gatos.

    A chegada de Agnaldo causou uma certa surpresa. Um periquito-australiano que aparecera do nada na janela. No início, temeroso, foi aos poucos se enturmando e virando hóspede. Atrevido, não deixava em paz os gatos e dava voos rasantes pela casa. Joana era contra gaiolas, achava que todas as aves deviam voar livres. Agnaldo tinha a sua gaiola com a lateral totalmente aberta. Na verdade, só entrava para se alimentar e matar a sede. Tinha o estranho hábito de dormir com Jânio.

    O desafio maior foi com Eurico, o hamster abandonado. Quando o achou escondido num bueiro, largado à própria sorte, Joana não pôde resistir e o levou para casa. Todos os moradores o receberam com afeto e curiosidade. Cazuza cuidou de sua higiene e Alcione, com seu instinto materno, adotou o pequeno roedor. Jânio apenas observava e Agnaldo nunca chegava perto. Talvez estivesse prevendo o que viria a seguir.

    Eurico foi crescendo e se transformou. Endiabrado, corria atrás dos gatos e do Jânio para morder. Nem o Agnaldo escapava. Sonso, toda vez que Joana chegava em casa, o danado fingia se comportar.

    Ainda assim, aquele lugar era bom de se viver. Joana e seus amigos bichos, família reunida e feliz. Ela não mostrava nenhuma surpresa, já que todos ali, diferente dos seres humanos, comportavam-se como animais. Cada um tinha a sua história de abandono, mas nos olhos de Joana encontravam um porto seguro. Ela costumava dizer que humanos perdiam tempo tentando ensinar os animais, quando deveriam sentar e aprender com eles.

    Até que Joana perdeu o controle. A coisa toda tomou ares de minizoológico: pelo apartamento agora circulavam mais oito gatos,
    iguanas, um casal de furões, uma chinchila sem rabo, dez cágados e uma cacatua com o bico quebrado.

    Ninguém mais se entendia. Um dos gatos, recém-chegado, comeu o hamster. Eurico saiu pela janela e nunca mais voltou. O casal de furões cismou com Jânio. A chinchila não parava de dar guinchos agudos de meia em meia hora. Podia marcar no relógio. Talvez estivesse sentindo dores ou por implicância mesmo. Chinchilas são assim, meio conflituosas. Joana não tinha mais sossego. A cacatua, com seu bico partido, definhava por não ter como se alimentar. Os cágados a tudo assistiam passivamente, como todo bom cágado. Com aquela confusão, Jânio passou a latir para todos que passavam pelo andar. O síndico foi chamado. Os vizinhos reclamavam do barulho e do mau cheiro.

    O siamês Cazuza, angustiado, tentou saltar da janela e ficou preso o parapeito. Alcione miava em desespero. O Corpo de Bombeiros foi acionado e Joana se juntou a eles, se apresentando como ativista dos direitos dos animais. Os moradores ensaiaram uma vaia e o síndico ameaçou denunciá-la. Acuada, Joana tentou se justificar: até Noé tivera problemas com o excesso de bichos na arca.

    Estava cansada. Chegou à conclusão de que, tanto quanto a humanidade, o reino animal ia pelo mesmo caminho. Más influências, não havia dúvida.

  • Uma história de gatos e ratos

    — Verônica! Finalmente resolveu aparecer depois de tanto tempo. Ainda se lembra do caminho de casa? Bem, acho que essa não é mais sua casa.

    — Quarenta e sete dias.

    —Você não atendia meus telefonemas…

    — Não quero falar sobre isso agora. Passei aqui porque preciso pegar umas coisas. Rafael, você tá molhado, pingando. Sai, tenho uma reunião de trabalho daqui a pouco.

    — Fiquei o dia todo na piscina. A água me faz bem, me purifica.

    Como estamos longe do mar, tenho de me virar com a piscina mesmo. Ah, eles começaram a reprisar aquela novela que você fez… Queda livre, certo?

    — Pois é, eu saio logo. Morro afogada por volta do capítulo 50. Foi horrível gravar aquela cena.

    Ao contrário de você, não tenho essa paixão toda por água. E o Tarantino tá por aí? Saudade dele…

    — Sei lá. Esse gato anda tão esquisito. Passa o dia todo enfurnado em algum buraco. E deu pra sair por aí. Às vezes, fica dias fora de casa. Comportamento estranho. Será que tá sentindo sua falta? Mas pega logo o que quer e se manda.

    — Rafael, você voltou a beber?

    — Voltei, deu pra perceber? Na verdade, nunca parei, minha querida.

    — A gente devia pensar em vender essa casa. Tem um amigo da minha mãe que é corretor…

    — Aqui é tão isolado, não é o que você vivia dizendo? O lugar não é valorizado, é tudo longe. Até pra comprar pão é preciso pegar o carro. E o que mais tem por aqui é imóvel vazio. Vamos ser realistas, Verônica.

    — Sem contrato na TV, sem trabalho no teatro. Tô filmando um curta. O fato é que preciso de grana. Minhas economias vão acabar…

    E você já arranjou alguma coisa?

    — Isso não é da sua conta.

    — Tá namorando? Arrumou alguém? Será que alguma mulher vai entrar por aquela porta a qualquer momento?

    — Isso também não é da sua conta.

    — Mas então, a gente precisa vender essa casa. Cada um pega a sua parte, vamos resolver logo essa situação.

    — Você já viu o sol que está lá fora? Não quero falar de negócios num dia como hoje.

    — Olha, Rafael, eu…

    Verônica se preparava para ir embora quando Tarantino surgiu na janela da sala. Agora tingidos de vermelho, os pelos brancos ao redor da boca do felino conferiam-lhe um aspecto soturno.

    Eriçando o corpo esguio e produzindo ruídos esganiçados, o bicho aproximou-se de Verônica e atirou aos pés dela o rato morto que trazia na boca.

  • O pião

    Quando o tio Luís encontrava alguns meninos brincando com pião, logo se oferecia para demonstrar a sua habilidade. Escolhia o pião mais gordinho, que era o de que mais gostava, e mais liso, de tanto uso. Enrolava a fieira no pião com um capricho minucioso de filósofo. Escolhia a área de terra mais limpa, que não tivesse nenhum empecilho para quando o pião girasse sobre si mesmo. E então o lançava, não para a terra, como seria de se esperar, mas para a frente; dava depois, ou melhor, concomitantemente, um jogo com a mão e o trazia de volta, para que viesse girar na sua mão grossa de homem da roça.

    Em seguida repetia a operação. Enrolava novamente a fieira no pião com o seu capricho minucioso de filósofo. Todos os mesmos passos anteriores; mesmo a escolha do pião: examinava um a um os piões dos meninos, para enfim se decidir pelo mesmo pião. Quando o lançava, com a ponta da língua de fora, para maior exatidão na pontaria, e o trazia de volta, não o pegava mais na palma da mão, mas na unha. Na unha!, exclamavam interiormente todos os meninos. E todos, os meninos e o tio Luís, se punham a observar em êxtase o universo na forma de um pião encantado a girar, primeiro na mão calejada, depois na unha disforme de um homem rude, para por fim cair exausto, vencido.

    Todos, os meninos e o tio Luís, mal podiam resistir à tentação de aplaudir o desempenho exímio do universo, que girava como um simples pião nesses calos grosseiros ou nessa unha feia, estragada.

  • OS CADERNOS

    “Sempre diremos tudo um ao outro, inclusive o que não for bom. Mesmo o que for desagradável deverá ser dito. Porque calar é perigoso. Não nos separe o silêncio, nunca.”

    Assim foi o pacto que fizeram Carlos e Isabel, tão logo se descobriram apaixonados e dispostos a viver juntos vida afora. “Tem a minha palavra”, disse Carlos. “Tem a minha palavra”, respondeu Isabel. Casaram-se poucos dias depois. Ao cabo de dez anos, com a paixão um tanto esgarçada e frouxa, ainda mantinham o acordo dos primeiros anos.

    Carlos:

    — Sabe, querida, o que seria bom? Que você aprendesse a cozinhar direito de uma vez por todas. As pessoas costumam seguir algum livro de receitas para preparar comida decente, caso não tenham aprendido com a mãe. É fácil, basta saber ler. Outra coisa: seria muito bom também que você perdesse uns quilos. Sua saúde e sua autoestima agradeceriam. Depilar as pernas com mais frequência também é uma ótima ideia. O que você acha?

    Isabel:

    — Eu acho que não vou fazer nada disso, querido. Se fosse para mudar alguma coisa, melhor seria que você tomasse a iniciativa. Sua voz é irritante, parece um pato engasgado. Quando você ri, tenho vontade de enfiar uma faca em sua boca. Falta-lhe inteligência. Essa sua barriga peluda me causa náuseas. Não fosse a minha estranha fixação pelo casamento, já o teria abandonado há muito tempo. Estou bem assim, com esses quilos a mais.

    Os dois logo compreenderam que seu relacionamento estava naufragando e buscaram ajuda. Uma amiga recomendou um terapeuta especialista em casais em crise. Foram vê-lo.

    Terapeuta:

    — A relação de vocês está indo mal pelo excesso de sinceridade. Eu sugiro um remédio simples: o silêncio. Parem de dizer tudo o que pensam um do outro. Acostumem-se a falar pouco e a trocar somente frases cordiais. Habituem-se a escrever o que realmente desejariam falar. Façam isso em segredo, nenhum dos dois precisa saber o que o outro escreveu. Aqui estão dois cadernos, em que anotarão as coisas ruins que deixarão de falar. Desejo sorte ao casal. Sejam felizes.

    Carlos e Isabel saíram do consultório carregando cada um o seu caderno. Durante meses seguiram rigorosamente a orientação do terapeuta. A comunicação entre os dois tornou-se mais afável, embora curta. Os diálogos se reduziram à troca de algumas frases na frente da televisão. No restante do tempo, dedicavam-se a registrar no caderno o que não diziam um ao outro. Quando um volume ficava cheio de anotações, compravam outro. Os cadernos foram se multiplicando com assustadora rapidez e logo a casa começou a ficar cheia deles. Estavam empilhados em todos os cômodos, até no banheiro e embaixo da escada. Cadernos, muitos, uma imensidão deles. Tantos, que Carlos e Isabel tiveram que abandonar a casa e procurar outra moradia. Os cadernos, cheios de frases não ditas, não deixaram espaço para os antigos moradores.

  • Desperdício de amar

    Dandara tinha uma casa espetacular. Sendo minha melhor amiga, me chamava várias vezes para visitá-la. Brincávamos e esquecíamos do tempo. Dormi algumas vezes lá durante as férias. Sua mãe gostava de mim porque eu era educada e estudiosa, talvez pensasse que eu seria uma boa companhia para a filha. Seu pai era arquiteto de “mão cheia”, como dizia mamãe. Era uma família endinheirada, diferente da minha, que não chegava à classe média. Nunca percebi qualquer sinal de preconceito. Nossa amizade se formou no colégio. Meus pais, mesmo com pouco estudo, garantiram que eu estudasse num das melhores escolas da cidade. Papai era motorista de van escolar, enquanto mamãe trabalhava para a high society, elaborando roupas. Era levada aos shoppings para copiar os modelitos só de olhar. Um fato muito triste foi que meu irmão não entendeu a força de nossos pais e enveredou para as drogas. Ele era um menino bom e depois se tornou irreconhecível, inclusive pela agressividade. A família de Dandara descobriu que ele estava internado. Fui literalmente proibida de vê-la. Os pais de Dandara ajuizaram que éramos uma família desequilibrada. A dor foi profunda, em não poder mais brincar com a minha melhor amiga, ou mais do que amiga. Sentia sua falta escutando Laura Pausini. Lembrava-me da vez em que encostei minhas mãos, sem querer, nas suas pernas, e me demorei, olhando-a cara a cara; não tivemos reação. Cheguei mesmo a imaginar que estava apaixonada por ela, e não sabia lidar com isso. Me penitenciava. Pedia a Deus para não pensar mais em Dandara, a menina perfeita. O amor era tanto que cheguei a pegar um ônibus e ir até a sua casa. Bati à porta, e Jussara abriu. Pediu que eu fosse embora logo, porque podia dar confusão. Chorei por meses, e minha mãe pensava que tinha depressão, coisa do tipo, e me levou a um médico boboca, que passou um remédio que me deixava letárgica; eu já não era a mesma. Dandara mudou de escola, para uma melhor. Eu culpava o meu irmão. Na verdade, o odiava com todas as minhas forças. Jorge fez, ao mesmo tempo, que eu o odiasse e amasse Dandara mais e mais, dois sentimentos opostos. Ele me impediu de amar. Até hoje, passados dez anos, Jorge apronta bastante, exauriu as forças de meus pais, já tão sofridos, até gerou um infarto no meu pai, que felizmente se recuperou bem… E eu não consigo esquecer Dandara, a menina dos meus sonhos. Deve estar casada, com filhos, não se interessar um milímetro por meninas. E passo de relacionamento em relacionamento tentando encontrar aquele olhar vibrante, que, por tanto tempo, provocou o meu coração. É um desperdício de amar. A nossa história não vingou. Mas ainda sonho um dia poder lhe reencontrar, ainda que seja somente para vê-la, exuberante, como deve estar.

  • INSTINTO

    Toquei a campainha e aguardei cerca de dois minutos até que viessem atender. A longa espera aumentou meu nervosismo. Sim, num caso desses, dois minutos constituem de fato uma longa espera. Desculpando-se pela demora, Augusto abriu a porta. Eu poderia ter interfonado antes de subir, mas, depois de refletir por alguns instantes, decidi que a atitude mais acertada seria aparecer sem avisar. Melhor que ele ouvisse o que eu tinha a lhe dizer com o espírito desarmado. Educado e protocolar, Augusto me cumprimentou com um aperto de mão. Provavelmente, deve ter estranhado o fato de me ver ali diante dele. Nossa relação se resumia aos bons-dias e boas-noites de praxe proferidos, em nome da civilidade, pelas dependências do prédio quando a casualidade fazia com que nos esbarrássemos. Já sentada no sofá, passei a examinar o ambiente. Atitude espontânea, coisa de mulher, não tive como evitar. A decoração da sala era de muito bom gosto. Nas paredes e em porta-retratos espalhados por vários lugares, fotos do dono da casa ao lado de celebridades – cantores, atores e apresentadores de TV, esportistas e até políticos, pessoas sorridentes e bem-vestidas. Prêmios, diplomas, troféus e medalhas também podiam ser vistos espalhados pelo cômodo. Você foi muito corajoso na entrevista de anteontem, comentei, tentando aparentar naturalidade. A Mariana Gonzalez é mesmo fantástica, consegue extrair revelações incríveis dos convidados. Eu sempre assisto ao programa, sabe? Desde que ela ainda trabalhava naquele outro canal, você se lembra? É curioso, somos vizinhos há tanto tempo, dez anos talvez… Mas todo mundo hoje em dia é tão ocupado… São tantas solicitações, apelos… Enquanto produzia esse discurso meio confuso, bem diferente do texto que havia ensaiado, tentava ler no rosto de Augusto alguma indicação, mesmo vaga, acerca do que ele poderia estar pensando daquilo tudo. E que parte da entrevista mais chamou sua atenção? Sem dúvida, quando você descreveu o acidente. Perder a esposa de uma maneira assim tão violenta… Eu me recordo bem de vocês dois sempre juntos, abraçados, pareciam se amar tanto. Sua vida mudou bastante, claro, não podia ser de outro modo. Parei de falar. Esperava que essa fosse a deixa para que Augusto dissesse algo. Ele apenas me encarou. Sua expressão continuava indecifrável. Após algum tempo, resolveu se aproximar. Acionou uma espécie de manivela situada perto do braço da cadeira, o que imediatamente a fez deslizar macia pela sala. Antes de parar ao meu lado, deu dois ou três giros e andou para frente e para trás tentando demonstrar o quanto era hábil no manejo daquela engenhoca. Por fim, sorriu amistoso. É difícil acreditar que você não faz sexo desde o acidente. Lá se vão cinco anos, não é? Eu tenho uma proposta a lhe fazer. Talvez você ache estranho… Eu mesma acho estranho. Você é um homem bonito, jovem, interessante. Não, não diga nada a menos que considere essa minha ideia um completo absurdo. Eu penso que isso não está certo, você com certeza continua a ter desejos. Não é porque ficou assim… Paraplégico, interrompeu ele. Não tenha medo de pronunciar a palavra. Me ajuda aqui, anda. Me põe no sofá. Obedeci. Augusto era extremamente charmoso. Um tipo italiano, com a pele muito branca, olhos castanhos amendoados, nariz grande e lábios grossos. Após o acidente havia engordado um pouco. Naquele dia, estava com a barba por fazer e usava uma camisa estampada de seda. Senti que ele queria tocar meu corpo. Consenti. A partir daí, nem eu nem ele falamos mais nada. Passamos a agir comandados pelo instinto. Eu me oferecia àquele sujeito quase desconhecido sem culpa alguma. Íamos aprendendo na hora como deveríamos nos comportar. Nossa experiência prévia valia pouco, logo constatamos. Aquilo era uma espécie de rito inaugural, de cerimônia de iniciação, sei lá. No início, mãos indecisas a respeito do rumo a tomar, embaraço. Felizmente, foram apenas três minutos de inépcia seguidos por pelo menos uma hora de destreza. Tudo aconteceu de um jeito suave e tranquilo, mais ou menos como eu havia imaginado. Ajeitando o cabelo e retocando a maquiagem num espelhinho, me preparava para ir embora quando a campainha tocou. Era Carlos, uma espécie de enfermeiro de Augusto, que voltava da rua carregado de sacolas. Esqueci a chave, anunciou meio desconsertado ao constatar minha presença. Não sei onde ando com a cabeça, completou. Notei então que os dois homens trocaram um olhar malicioso. Por um instante, me senti envergonhada. No dia seguinte, acordei com um beijo carinhoso do Marcelo me avisando que o caminhão havia chegado e que os carregadores já estavam subindo. É fato que não conseguiria ter feito o que fiz se não estivéssemos de mudança. Sem dúvida, seria muito desconfortável continuar a encontrar Augusto no elevador, na garagem e na portaria do prédio.

  • O MORRO

    No centro da cidade ergue-se um estranho morro. Verde e coberto de flores o ano inteiro, lar de pássaros e vários animais, mas estranho: ninguém o escalou até hoje.

    Contam os antigos que muitos tentaram, mas nenhum retornou; redobraram as tentativas, a subida não oferecia perigo algum; julgou-se que eles haviam se perdido, mas onde? Não se conseguiu saber por que não regressavam.

    Contra todas as recomendações, João e Manuel resolveram subir o morro. Fui com eles, sei do que estou falando; bom, deveria saber. Acontecem coisas nesta vida que não tem explicação mesmo.

    João subiu primeiro; eu e o Manuel ficamos olhando; nada fora do normal: João entrou no meio de umas árvores, apareceu mais acima, depois mais acima ainda, e, quando deveria já estar no topo, sumiu. Gritamos e gritamos, e nada.

    Onde João estaria? Estava tão perto, quase podíamos ouvir a sua respiração. Ouvimos o gemido agônico de um pássaro. Manuel falou: “Não é João.”

    Mas não estava muito convencido: subiu o morro para procurar João e o seu gemido feio. Logo pude ouvir dois gemidos agônicos. Por sete dias ouvi esses gemidos horríveis. Depois, mais nada.

    Ninguém mais da cidade ouviu. E o morro continua lá, agradável, acolhedor, e inexpugnável.

  • A vida em compasso de espera

    Minha avó Penélope perdeu o marido na guerra. Isso é o que ela costumava dizer, embora algumas vizinhas, maledicentes que só, digam que ele saiu por aí a viajar pelo mundo sem pensar em voltar para casa. Não se falava muito sobre isso na família. A verdade é que quase não conversávamos sobre nada. Nos contentávamos em ouvir. Um homem deixou casa e família e não deu mais notícias: para nós, essa informação era suficiente, bastava. Quem perde maridos ou pais geralmente não tem força para se manifestar ou buscar explicações. O tempo se encarrega de explicar.

    Viúva jovem, minha avó trabalhou como costureira para sustentar os filhos. A vida, para ela, passou a ser costurar e costurar. Uma vez tentou se distrair e cantou na festa da padroeira, mas desafinou. Recebeu muitas vaias, fez um escândalo, ficou furiosa, mas depois esqueceu. Não desafinava na costura, e isso a satisfazia.

    Nunca falou com tristeza do passado, nem reclamou de alguma dor de sentimento. Para dor física, tomava uma aspirina e tudo ficava bem. Quando sua visão começou a falhar, continuou costurando guiada pelo instinto. Com décadas sentada na frente daquela máquina, podia costurar até se tivesse ficado cega. Um ponto no direito, dois no avesso, sabia exatamente para onde dirigir a agulha e comandar o pedal. Fazia roupas sem moldes, dizia que não precisava porque conhecia de cor e salteado a medida das mulheres que apareciam em casa querendo um vestido novo, ou uma blusa, ou uma saia.

    Sempre me lembro dela costurando, mas não me recordo de nenhuma camisa ou vestido que tivesse sido fruto de suas horas de costura, como se ela simplesmente costurasse e a peça sumisse. Não tinha outro objetivo senão fazer uma roupa atrás da outra. Era um prazer infrutífero, não se importava com o resultado, apenas apreciava o processo. Talvez, todas as noites, enquanto dormíamos, ela se levantasse para desfazer o que havia costurado e voltasse para a cama sabendo que, com o amanhecer, poderia recomeçar do zero e assim adiar por mais um dia o fim inevitável, que nem sempre justifica os meios, mas justifica muitos medos.

    Minha avó Penélope sempre foi fiel ao marido, principalmente depois de perdê-lo. Permaneceu intocada após o sumiço dele e provavelmente nunca conheceu outro homem em sua vida. Talvez esperasse que o marido de repente voltasse um dia, sem avisar, vestido com trapos como se fosse um mendigo, e ela, mantendo sua dignidade celibatária, pudesse repreendê-lo: “Isso são horas de voltar para casa?” Ele certamente responderia: “Querida, você não vai acreditar no que me aconteceu. Estava voltando direto da guerra quando, de repente, fui capturado por um pirata monstruoso que tinha um olho só, um braço só, um pé só e um pensamento fixo: acabar com a minha raça. Consegui escapar e fui parar no quinto círculo do inferno, onde encontrei antigos companheiros de armas brigando entre si, e então todos nós fomos atraídos por cantos de várias sereias e depois apareceram umas bruxas que me enfeitiçaram e me obrigaram a deitar com elas. Mas essa é outra história, eu conto outro dia. Agora vamos dormir, que estou um bagaço de tão cansado.”

    Meu avô nunca voltou de sua odisseia, e minha avó continuou sua lida diária de tecer e desfazer sua vida até que não lhe restasse mais nenhum fio. Anos após sua morte, ficamos muito espantados quando aquele mendigo apareceu em nossa casa perguntando por ela. O homem fez segredo do próprio nome, não quis dizer como se chamava porque, segundo ele mesmo, seu nome era tudo o que lhe restava. Ofereceu suas condolências pela partida de minha avó, doeu-se pela nossa dor e se despediu. Foi assunto de toda a família saber que a vó Penélope, na idade dela, tinha pretendentes. Nunca mais tivemos notícias dele nem mencionamos esse acontecimento depois. Como sempre, ficamos quietos e esquecemos.

  • Sala de estar

    A sala de estar da casa da minha avó era o ponto de encontro da família aos sábados. Chegávamos cedo, no começo da tarde, e saímos de madrugada. Era uma festança danada. Os mais velhos sentavam-se e contavam piadas e lorotas, enquanto jogavam cartas e tomavam cerveja, fumando – de quebra, também, inundando a sala de fumaça (naquela época era assim; até cheguei a tomar uns goles de cerveja, dados por meu pai, sem cerimônia). Esporadicamente, a reunião se estendia pela cozinha ou varanda – somente quando vovó estava cozinhando, e pegávamos pequenas sobras de rabanada e de bolo, por exemplo. A bendita sala de estar tinha um querer de abençoada, por Nossa Senhora das Graças, de devoção de vovô e de vovó. A imagem ficava bem no centro da sala; era grande, para que pudéssemos controlar as nossas maluquices, talvez. Partilhávamos a aura leve e envolvente, e, não raro, nós, os netos, preparávamos peças teatrais, para que tios, pais e avós pudessem se divertir. Prestavam atenção com uma curiosidade estranha, já que tio Neto e tio Fagner queriam participar, com falas enviesadas, que nos atrapalhavam (era o sinal de que a bebida já havia tomado de conta de suas mentes sãs – ou nem tanto assim). Claro, não havia bom repertório, mas conseguíamos arrancar boas risadas das tias orgulhosas. Logo que vovó adoeceu, as reuniões ficaram esparsas, íamos mais para vê-la do que para nos divertirmos. Se vovó estava doente, era motivo para a minha mãe, sua filha, dar uns beliscões em mim ou no meu irmão, se saíssemos da linha. Eu não sabia, mas a doença de vovó era fatal; ela estava em fase terminal, com câncer. Após seis meses, entre idas e vindas ao hospital, vovó faleceu e deixou um rastro de dor. Vovô não tinha mais ânimo para nada. Eram muito apegados. As reuniões aos sábados se transformaram num purgatório, pois não podíamos brincar (para mamãe, era uma grande falta de respeito com meu avô, que convalescia com a dor da perda da mulher mui amada). Conto essa história toda para dizer que amei muito a minha vozinha, que fazia de tudo para ter a família unida, fortalecida. Nas voltas que o mundo dá, depois de engenharia, terminei a faculdade que fora “proibido” de fazer, a de teatro. As atuações na casa de vovó, levadas a cabo por mim, invariavelmente como diretor, ficaram marcadas numa memória pura e saudosa. Ainda hoje, quando apresento uma peça, rezo a minha vozinha e a Nossa Senhora das Graças, para que me ilumine, para que a performance seja agradável e catártica. Do meu palco me lembro da sala de estar, e o aconchego me inunda. Talvez eu possa ser, para sempre, um ator das pequenas coisas, da formosura, da vontade de viver expressa em meu rosto úmido. Sou desses que amam sem saber o porquê. Amor à vida e gratidão.

  • O último ônibus para o Rio

    Encostado ao trailer, pedi a última cerveja. Proença disse que para ele estava bom. Pagou sua parte. “O ônibus é às nove. Tu tá ligado, né?”, me lembrou, já saindo e me dando as costas, percebendo que eu ficaria por ali ainda um pouco mais. Fiz que sim com um gesto rápido de cabeça para o lembrete do horário do ônibus. Passavam das sete da noite. Ainda havia um resquício violeta de luz do dia no horizonte, sumindo no mar naquele anoitecer de domingo de quase inverno. Eu voltaria com Proença e o resto do pessoal para o Rio, ao menos era esse o combinado. Eles estavam em casa, certamente se aprontando. A hora passava e eu teria que andar até lá, dali uns quinhentos metros, guardar tudo na mochila e tomar um banho para viajar. Só que mesmo antes do Proença sair fora, eu já havia decidido ficar, porque eu estava desconfiado, ou quase certo, do que aconteceria. E já com o Proença longe, ela deslizou os dedos pelo meu antebraço, olhou-me e disse que estava ventando frio. Para completar, passou a língua nos lábios. Concordei, “Sim, tá ventando frio”, só de camiseta regata, sunga e chinelo. “Entra, bebe aqui dentro”. Eu aceitei imediatamente. Quando entrei, ela fechou o trailer. “Está mesmo na hora de fechar”, soltou com malicia, acrescentando que àquela altura e com aquele vento não havia mais ninguém na praia.

    No meio do primeiro beijo, sua minissaia foi ao chão e, logo em seguida, o biquini lilás, o que fazia girar pescoços quando ela dava um tempo do batente e passava pela areia a caminho de um mergulho. “Para me revigorar com os fluidos de Iemanjá”, explicava, com um riso que fingia ser puro, mas que não me convencia. Aliás, acho que a ninguém. Ela ria do jeito que os demônios devem ensinar as mulheres a rir. Os olhos de todos, os meus incluídos, a devoravam por trás dos óculos escuros. Não era bonita. Para dizer a verdade, passava longe disso. Alguns de nós diziam que ela tinha cara de boneco de ventríloquo. Mas seus peitos, suas pernas e, principalmente, sua bunda, a cada vez mais que vínhamos do Rio para os fins de semana e feriados, mais punha ao chão o queixo de todos. Naquele dia, em um desses mergulhos, cruzou comigo, que voltava do mar. Me olhou de cima a baixo, como jamais havia feito. “Aparece aqui no trailer, lá pelas seis”, ela pediu pouco depois, quando eu estava indo embora, perto do almoço. Na hora combinada, apareci, cheguei com o pretexto de acertar as três cervejas que eu havia levado para a areia de manhã. É que Proença estava por lá e eu não queria que ele desconfiasse das minhas intenções. Bebeu a tarde toda, mas agora fazia cara decidida de quem já estava mesmo indo, o que fez em menos de dez minutos. Sozinhos, ela me chamou para dentro, trancou o trailer, nos beijamos e ela mandou ao chão a minissaia e o biquini. Feito isso, se sentou no freezer, daqueles horizontais, usados no comércio. Abriu as pernas. Seu cheiro engoliu o de cerveja passada misturado ao de fritura de peixe, aroma natural dos trailers de praia. Era mais forte, intenso e, claro, delicioso. Naquele momento, tive certeza de que nunca mais na vida o esqueceria. Definitivamente, eu não voltaria para o Rio no ônibus das nove da noite. De repente, me veio um estalo de preocupação, e não era com a volta. “E teu marido?”, me dei conta. Ela dividia com ele a administração do lugar. “Tá em Macaé, foi tentar fechar a venda de uns terrenos por lá. Volta na terça”. Quando acabamos, eu, em êxtase por ter sido o escolhido entre os outros nove que dividiam comigo o aluguel da casa de veraneio, queria mais; aquela ali, meio apressada, no desconforto do lugar, não seria o suficiente, uma oportunidade de ouro como aquela não poderia se resumir a uma única trepada. A ocasião merecia cama, conforto, e mais do que fizemos até ali. Pedi que fosse comigo para a casa. Subindo o biquini, aceitou na hora, como se já estivesse pensando na possibilidade. Disse apenas que eu fosse na frente, que tinha que fechar o caixa, tomar outras providências, e que lá pelas nove apareceria. Fui embora radiante. Repetiríamos noite adentro tudo que aconteceu no trailer. Aquela cavala dos sonhos de toda a casa só para mim.

    “Porra, vamos perder o ônibus por tua causa”, um dos caras reclamou assim que entrei. Comuniquei que ficaria, que só voltaria na segunda, de manhã cedo. Todos fizeram cara de “Então, foda-se. Vam’bora!”. Todos, menos Proença, que muitas vezes funcionava como meu irmão mais velho. “Tem certeza de que não vai?”, e me olhou com olhos de radiografia, de quem havia percebido o que, lá no trailer, estava suspenso no ar. Sim, eu tinha certeza, confirmei, firme. Saíram feito uma tropa, deixando a sala em silêncio e tomada por minha ansiedade pela noite.

    Ela chegou meia hora depois. Estava com maquiagem leve e batom, os cabelos ajeitados pela umidade do banho. Não estava feia ali. Até pensei se ela era realmente feia como dizíamos, ou se nos preocupávamos apenas se ela era gostosa. Usava uma blusa colorida casada com uma bermuda de tecido fino, um pouco transparente, através da qual dava para ver a marca da calcinha, ainda menor do que o biquíni que provocava o êxtase coletivo.

    A noite se desenhava memorável, daquelas de contar para os melhores amigos no bar. Mas não fomos longe e tudo se tornaria sim memorável, só que por outros motivos. A cama incendiava quando percebemos um vulto encostar junto à janela do quarto que dava para a pequena garagem, que por sua vez começava no portão de entrada da casa. Os caras saíram, não trancaram o portão. Apesar da vidraça espraiada, que distorcia as imagens vistas através dela, ele, o dono do vulto, pode perceber nossos movimentos e ter a certeza do que fazíamos. Algum filho da puta, escondido na praia deserta, deu o serviço, e o corno, nome real do vulto, veio em tempo recorde de Macaé.

    Do lado de fora, ele chamou nossos nomes e pediu que abríssemos a porta. Saí de cima dela, me vesti e fui abrir. Seria patético tentar negar. Nos passos que dei entre o quarto e a porta da sala, a principal da casa, me senti em uma reportagem dos antigos jornais populares, aquelas que não acabam bem. Eu só tinha 22 anos, pensei nisso antes de girar a fechadura, já arrependido para o resto da vida de não ter voltado com os caras. Quando abri a porta, o sujeito entrou olhando-me nos olhos, mas em silêncio, para a minha surpresa, que esperava, no mínimo, uma porrada no meio dos cornos. Parado no meio da sala, disse o nome da mulher e perguntou se era eu quem estava no quarto. “Não, era o presidente dos Estados Unidos”, ela respondeu. Meu silêncio tenso abafou minha risada.

    Quando apareceu na sala, já estava vestida, para dar à situação ao menos um pouco de decência. Começaram uma discussão típica dessas horas. Gritos, acusações de ambos os lados, a merda de uma vida conjugal se revelando, vindo à tona em golfadas de raiva e mágoa, como se fosse vômito. Eu tinha a ver com o que havia acontecido do trailer até ali. O que veio antes não era minha culpa.

    Ele ia dos gritos ao choro, retornava do choro aos gritos. “Eu te dei tudo quando você tava fodida, sem ter onde cair morta, quase passando fome, morando de favor. Mais um pouco e ia pra zona”. “E eu que me mato de trabalhar naquela porra, vendendo cerveja e fritando peixe, enquanto você some dizendo que vai vender terreno e nunca que aparece com a porra do dinheiro”. Foi aí que ele se abaixou em pegou uma garrafa de cerveja, encostada no canto da sala. Havia outras por ali. Os putos se mandaram e nem se deram ao trabalho de recolher a porra das garrafas. O movimento dele em pegar a garrafa, apenas este, foi o suficiente para que eu projetasse um enorme caco rasgando minha jugular. Eu só tinha 22 anos, pensei novamente.

    Levou alguns minutos discutindo com a mulher, segurando a garrafa. Em alguns momentos chegou mesmo a sacudi-la no ar. Mas ao contrário do que insinuava, deixou, propositalmente, a garrafa cair da altura dos joelhos. Ela bateu no chão, rodopiou, caiu deitada e não quebrou. Vidro forte, pensei pateticamente e, principalmente, aliviado. Virou-se para mim. Seu choro tornou-se seco e seus olhos, vazios. “E eu te considerava como um irmão”, e falando mais baixo, jogou na minha cara o modo como me tratava. Irmão era exagero, mas ele era realmente camarada de todos nós, dez rapazes entre vinte e vinte e cinco anos que rachavam o aluguel da casa, dormiam empilhados em dois quartos pequenos e uma sala de tamanho médio e se derretiam de tesão pela sua mulher. Se ele percebia isso, não deixava transparecer. Deu as costas e foi embora, sem dizer mais nada. Ela saiu em seguida; não se despediu, não olhou na minha cara.

    Vi as horas. Eram dez e vinte e cinco. De modo algum eu poderia dormir ali naquela noite. Aliás, em nenhuma outra noite mais. O sentimento de vingança poderia vir com a madrugada, nas semanas e meses seguintes, em algum momento até o fim da vida daquele sujeito. Embolei toda minha roupa, enfiei na mochila, apaguei as luzes, tranquei tudo. Agora faltavam quinze para as onze. Até a rodoviária, que não passava de um recuo à margem da rodovia, dava cerca de meia hora andando rápido. Seria o tempo exato de pegar o ônibus, o último da noite.

    A passos largos, quase correndo, ganhei a rua escura, de terra, assustado por qualquer movimento que eu percebesse atrás de árvores e em becos entre as casas. Na beira da rodovia me senti menos inseguro e apertei o passo, confiante de que chegaria a tempo. Mas foi quando de uma rua transversal saiu um carro, arrancando; mesmo no escuro deu para ver que era um Voyage. Com a arrancada, os pneus deslizaram na terra batida, e cantaram quando alcançaram o asfalto. Ao se aproximar de mim, um sujeito colocou metade do corpo para fora da janela do carona, pôs uma das mãos na cintura e fez o movimento de que dali tirava uma arma. Gritou “Vai morrer, filho da puta!”, e apontou para mim. Havia um objeto escuro, pontudo, preso entre o polegar e o indicador de sua mão direita, mas com a iluminação fraca, não era possível saber do que se tratava. O tempo em que o carro levou passando por mim ficou congelado em algum lugar do espaço sideral. Congelados também ficaram minha respiração e meus batimentos. Eu tinha 22 anos. Não imaginei que nessa vida se pudesse morrer na beira de um estrada, longe de casa, num fim de noite de domingo, tão rápido e por um motivo tão idiota: uma buceta misturada a cheiro de peixe e cerveja choca. Finalmente reagi, e intentei me jogar no matagal a minha esquerda, mas antes que eu fizesse isso, o desgraçado recolheu as mãos para dentro do carro, e ainda com a cara do lado de fora, me olhando feito um palhaço no picadeiro, deu uma risada escandalosa, que ecoou na noite e foi sumindo a medida em que carro ganhava velocidade com o arranque e desparecia na escuridão da estrada. Agora com o coração aos pulos e quase sem ar, não sei quantos segundos levei para realmente entender o que havia acontecido. Quando confirmei que estava vivo, voltei a apressar o passo, pensando que aquele imbecil jamais irá supor que não havia pior hora e pessoa mais errada para ele fazer uma brincadeira tão estúpida.

    Olhei o relógio. Onze e dez. Faltava cerca de meio quilômetro para o arranjo de rodoviária. Apressei o passo; agora, praticamente correndo, estava chegando. Foi quando vi, ainda a certa distância, o letreiro luminoso: Macaé – Rio, 23h15. A porta aberta, dois ou três embarcavam. Juntei todas as forças que tinha numa corrida desabalada, mas a porta fechou e o motorista deu seta para a esquerda, anunciando que pegaria de volta a pista. Perder aquele ônibus poderia significar a diferença entre morrer e continuar vivo. Então, tirei ar de não sei onde e gritei que nem um desesperado, acenando que me esperasse. Quase me joguei na frente, como se achasse melhor morrer com a logomarca da Mercedez Benz na cara do que com possíveis requintes de crueldade de um marido traído.

    Para meu alívio, o maior que senti na vida até então, escutei o barulho de ar comprimido do freio do monstro de lata. Em seguida, a porta se abriu, subi e quase sem respirar, sem conseguir falar, tremendo, tirei o dinheiro da carteira e comprei a passagem direto com o motorista. Ele me vendeu uma poltrona da última fileira. Se fosse pendurado no teto, já estaria ótimo.

    Como não havia ninguém ao lado, abri a janela, para que o vento frio da noite, acelerado pela estrada, secasse o suor da minha cara e da minha camiseta. Quando secou, fechei a janela e deitei um pouco o encosto. Lá fora, mesmo fracas as luzes da saída da cidade clareavam a espuma das ondas e o deserto da praia. Repassei tudo o que acontecera naquela noite, lembrei-me dela, de pernas abertas em cima do freezer, no trailer, mas na memória do olfato não me veio seu cheiro, aquele que eu tive certeza de que lembraria para o resto da vida. Naquela lembrança tão recente, estava apenas e tão somente a mistura enjoativa de cerveja passada e fritura velha de peixe.

  • Dois projéteis e um amor feito em pedaços

    (Domingo de manhã, quarto de Sofia)

    O rádio havia ficado ligado a noite toda. Naquele momento, ia ao ar um debate sobre a epidemia letal que tinha começado havia mais de um ano. Infelizmente, diziam os cientistas, o fim do tormento não era esperado para breve. Uma nova variante do vírus, muito mais transmissível, havia surgido no Marrocos, perto da fronteira com a Espanha. Sofia escancarou a janela e deu de cara com uma nuvem acinzentada e espessa. Aquele borrão ostensivo ousava cobrir quase todo o céu e incomodava pela capacidade de ofuscar a bela paisagem natural da zona sul do Rio de Janeiro, cidade que essa paulista de Ribeirão Preto havia escolhido para viver dez anos atrás. Na noite anterior, havia ido dormir ouvindo gargalhadas inoportunas provenientes do apartamento vizinho. O som, mais alto do que de costume, parecia indicar uma festa. A impressão que se tinha era que os donos da casa e seus convidados não comiam, não bebiam, não dançavam, não conversavam, não se beijavam, não se drogavam, não trepavam. Enfim, não faziam nada do que se costuma fazer numa situação do gênero. Apenas gargalhavam de modo histérico e inconveniente. E ouviam música, claro. Uma salada impensável, de gosto duvidoso, cantores de que Sofia já nem se lembrava. Vários simplesmente desconhecia. Algumas poucas canções daquele eclético repertório a fizeram recordar momentos importantes de sua vida. De sua vida com Olavo inclusive, uma das coisas boas que o Rio havia lhe proporcionado. Sim, é verdade, um dia tinham sido felizes juntos. Pouco mais de meia hora tinha se passado. O panorama havia se modificado um pouco. Agora, um solzinho pálido e preguiçoso tinha conseguido furar o bloqueio da nuvem escura e invadia parcialmente o quarto. Ainda deitada na cama, Sofia ligou para Olavo. O barulho das risadas e das músicas ainda reverberava em seus ouvidos. O que tinha a lhe dizer não seria fácil, mas estava decidida a resolver a situação o mais rapidamente possível. Por ela, liquidaria a questão com apenas uma frase, de preferência algo bem curto como acabou, fim, chega, basta, já deu. Mas uma relação, mesmo uma fracassada como a que mantinha com seu colega de firma, não se termina assim, de forma tão econômica. Não é essa a praxe. Olavo mostrou-se surpreso. Pediu e até implorou nova chance. Não gostava de ser contrariado e tinha por hábito dar sempre a última palavra. Nas semanas seguintes, continuou a procurar Sofia e a tentar uma reaproximação. Ela seguia irredutível. Raramente voltava atrás quando tomava uma decisão. Era patético ver um sujeito de mais de 40 anos apresentando um comportamento tão infantil. O que estaria acontecendo com os homens, se perguntava. Por que todos pareciam sofrer de imaturidade crônica? Cerca de quatro meses depois, Olavo sumiu de repente. Na empresa, diziam que havia sido transferido para Salvador. Sofia passou a sentir falta dos telefonemas diários, das cartas melosas, dos bilhetinhos furtivos, dos e-mails caprichados e dos torpedos insistentes do ex. E do sexo também. Como era bom de cama o danado, tinha de admitir. Ficou saudosa do passado nem ela conseguia explicar bem por quê. Somos todos nós, seres humanos, um poço de contradições, havia ouvido num filme alemão na semana passada. Só pode ser isso. Queremos o que não temos e desprezamos o que conquistamos. Um dia, quando já haviam se passado mais de dois anos desde o último contato, Olavo voltou. Reassumiu seu posto e passou a encontrar a ex-namorada com frequência no ambiente de trabalho. A retomada do romance estava destinada a se tornar realidade. Foi assim que, num barzinho da Lapa, ao som de um chorinho bem tocado, selaram o acordo. Estavam namorando de novo.

    ***

    (Sábado à noite, apartamento de Sofia)

    Depois do sexo, Sofia foi até o banheiro enquanto o homem, olhar meio perdido, continuava deitado na cama. Olavo apresentava uma expressão transtornada, o corpo envolvido por uma nuvem negra de ressentimento e amargura. Assim que a mulher voltou ao quarto, ele disse com voz trêmula:

    – Você não devia ter feito o que fez. Quem vai terminar com você sou eu, sua ordinária. Olha bem… Eu tenho uma surpresa, falava, tal qual um personagem de telenovela mexicana, ao mesmo tempo que exibia uma pistola.

    Foram dois tiros no peito antes de a mulher cair diante do armário. Já não respirava. Olavo ainda continuava sendo alguém que não admitia ser contrariado e que mantinha o hábito de sempre dar a última palavra. Sofia nunca poderia imaginar que sua vida chegaria a termo assim, de forma tão cafonamente melodramática.

  • A Papiloscopista

    Papilo o quê? Expectorei na tosse esta pergunta para minha filha Violeta, liberando as vias áreas de um agente irritante. Nunca entendi o seu sonho de ser uma papiloscopista. Quando meninas sonhavam em ser princesas, a minha desejava ser papiloscopista. Hoje fico aliviada dela não ter brincado de cadáveres ao invés de bonecas. Quando ela me falou pela primeira vez da profissão tão sonhada, confesso que não entendi. Naquela manhã ensolarada, ela desembuchou na lata, com voz grave e semblante decidido: “Mãe, quando crescer eu quero ser papiloscopista”.

    Será que seria uma criança de aura índigo? ou eu estaria confundindo a palavra papiloscopia com parapsicologia? Violeta me desorientava com seu ar fatídico, parece ter nascido de fora para dentro.

    Quando menina, ela passava horas a fio trancada no quarto desenhando papiros. O talo do papiro chega a medir seis metros de comprimento, a flor da planta lembra os raios de sol, uma planta sagrada para os povos antigos. Assim divaguei pelos papiros:

    — Será que a profissão de papiloscopista poderia ter a ver com aqueles vibrantes papiros? Ou seriam pupilas? Afinal, ela era a minha menina dos olhos. A pupila fica no centro da íris, também pode ser um botãozinho ou um mamilo. Violeta era minha pupila, que também apreciava os fósseis. Seria então paleontologia a tal da profissão? Quem sabe minha pupila seria uma cientista que estudaria as formas de vida existentes no passado. Ao menos, para uma mãe, parecia mais palatar esta opção.

    Ela adorava carimbar. Carimbava as mãos, dedos e pés , com tinta ou carvão. Carimbava até o rosto na areia da praia. As visitas na nossa casa já sabiam do passe de entrada: seriam carimbadas por Violeta, que construía um cadastro de gente de forma obsessiva. Até que ela começou a desenhar papilas dérmicas, desenhava com perfeição as digitais, que além de exclusivas, nos fazem companhia até a morte.

    A ameaça desta bizarra profissão me eriçava os pelos dos braços, provocando-me um estranho acovardamento. Hoje acordei desassombrada e decidi perguntar direto a Violeta, mas vacilei e desisti, porque sei que me responderia curta e grossa, com língua
    afiada de pirarucu, com sua lixa que esfola. Digitei mais de vezes para perguntar a IA, e dei de cara com a morte. Não tinha como fugir. É verdade, nós somos todos mortais. Adeus à doce ilusão de eternidade. Isso sim deve ser o nosso fantasma.

    Duro mesmo era saber que minha flor Violeta tinha o desejo de convívio intenso com defuntos. Ela labutaria com corpos mortos, para na superfície de suas peles descobrir a profundidade da sua alma, revelada nas suas identidades fragmentadas, matadas,
    acidentadas, afogadas, carbonizadas. A descoberta me causou horror, o de quem tenta encobrir com o véu do silêncio a palavra morta, como se ela, a morte, fosse um destino inevitável apenas para o outro. Melhor restar-me como espectadora, enquanto violeta testemunharia o nirvana, esse estado inorgânico de seres humanos destituídos ou libertados de qualquer tensão ou pressão de vida.

    — Mãe! O que queres aí?

    Assim atirada, interrompeu a minha pesquisa. Entravei, mas já acalmada por destramar a possível causa do seu desejo papiloscópico! Matei a charada: ela foi atiçada pela síndrome de Nagali. Eis aí a resposta deflagrada. Os portadores da síndrome de Nagali não tem nenhuma impressão digital, um defeito genético raríssimo que impede a formação das digitais no feto. Violeta foi um destes bebês. Antes tivesse perdido suas digitais por acidente. Sem cristas na epiderme das mãos e dos pés, a menina das pontas dos dedos lisas, seria um dia identificada por suas pétalas de margarida.

    Agarrada ao edital do concurso para a função de papiloscopista da polícia federal, Violeta se trancou no seu casulo onde chocava seu desejo fálico. Que insígnia portaria ali no seu distintivo? Talvez conseguisse enfim abrir sua guarda e sairia cheia de marras e nóias à caça dos pobres mortais. Mas não foi fácil como pensava. Tirou de letra as matérias teóricas, aprofundada no direito criminal como se fosse o próprio algoz. Mas como uma mula empacou num pulo.

    A pedra no caminho era um salto para frente, um teste de impulsão horizontal. Se sustentava em barras, mas não conseguia pular com impulso para frente. Eu assistia comovida ao esforço de minha filha, que pulava sem parar. Ficava com dores nos joelhos e articulações, mas não abdicou. Às vezes ela mesma caia de risada, quando nem conseguia sair do lugar. Seria mais uma vez avacalhada! Saltar para frente com propulsão e coragem devem ser um privilégio de poucos, por isso estancamos diante das pedras, olhando desesperados para trás. Mas naquele ano ela pulou, cravando a distância máxima para as mulheres e aterrou na areia do estádio do Maracanã, sob os aplausos da plateia de avaliadores. Desta vez não foi vencida pelo teste de aptidão física, que elimina de cara quase metade dos candidatos. Violeta começou aos 25 anos e só teve êxito aos 33 anos. A mais velha papiloscopista daquele ano, uma façanha só possível pelo impulso louco do desejo. A sua obstinação era rastilho de pólvora.

  • No dia seguinte

    O Zé balançou a cabeça, recostou-se no sofá, acariciando os cabelos, a cara, as orelhas, o nariz. Quando chegou no nariz, ele acordou. Olhou a Cida do lado, sardentinha, de olhos claros.

    Eram mais de três horas da tarde, e ele dormindo. Um gosto de cabo de guarda-chuva na boca! A Cida falava que tudo bem, ele ficou meio alegre ontem à noite, mas quem é que não ficou?

    Todo mundo achou o Zé engraçado, só o Boi que ficou meio contrariado. O Boi é assim, é só alguém chegar muito perto da Zefa. E a Zefa até que estava gostando da conversa, só ficou chateada quando o Zé derramou molho de macarrão nas costas dela.

    Todo mundo adorou o Zé no jantar. O dono do restaurante é que ficou preocupado, mas bem que ele estava gostando. O Zé cantava bonito, o dono do restaurante só tinha medo de que os vizinhos chamassem a polícia com tanto barulho.

    O Zé cantou sem parar, por mais de uma hora. Quando cantou aquela dos políticos fazendo strip-tease no bordel, todos exigiram silêncio, aos gritos. Ninguém queria perder nada. Quando os protestos acabavam, o Zé recomeçava.

    A Cida insistia para o Zé jantar, mas quem diz dele comer alguma coisa! Quando o garçom se aproximava, o Zé repetia e repetia que era irmão dele, que a mãe tinha separado os dois porque eram muito feios. O garçom ficou puto da vida.

    Mais puto ficou o cara no fundo do salão, aquele da gravata vermelha e amarela que o Zé queria arrumar, e quase enforcou o homem! Ainda bem que a Cida conseguiu levar o Zé embora, trançando as pernas e tudo. O Zé dava dois passos e caía, e queria
    cumprimentar cada poste, cada árvore do caminho.

    Pior quando o Zé ergueu a perna, querendo mijar, como um cachorrinho num poste.

    Depois abraçou uma árvore, disse que a copa, os galhos, as folhas brilhavam ao luar.

    Disse que a árvore tinha uma aura, que ele podia ver a alma da árvore.

    A Cida acabou ficando encantada com o Zé. Achava que aquela noite tinha sido a mais importante da vida deles. Agora à tarde ela acariciava o Zé com uma ternura imensa.

    Até lhe serviu mais um gole de conhaque, para rebater.

    O Zé bebeu e ficou olhando a Cida, com um olhar alheado – quem era a Cida?

  • DEIXA ESTAR

    — Por que você apareceu aqui no meu sonho, se o que eu quero agora é sonhar com minha mãe? — perguntei, achando graça na presença dele no meu sonho.

    — É impossível escolher com o que sonhar — respondeu Paul, sentando-se na beirada da cama.

    — Bom, imagino que seja porque ontem eu passei o dia lendo um livro que conta a história de sua mãe e daquela música. Então este sonho de agora é um reflexo do que vivi durante o dia. De acordo?

    Paul fez um movimento com a boca que não consegui decifrar. Olhei para seus olhos amendoados e tristes. Alonguei a conversa: “Você se lembra dela com frequência?” Ele fixou os olhos num ponto qualquer do quarto e contou:

    — Antes de ser internada no Hospital Municipal, em Liverpool, quando ela própria já sabia que nada mais poderia ser feito para salvá-la da doença, deixou as roupas passadas e arrumadas no armário e abasteceu a geladeira com frutas e legumes. Meu irmão menor e eu estávamos no acampamento de verão e só ficamos sabendo de tudo na volta. Papai nos deu a notícia.

    — Não houve despedida? — perguntei.

    Paul caminhou devagar até o piano no outro lado do quarto. “Não, não houve despedida”, ele suspirou. Ajustou a altura do banquinho, sentou-se e ergueu a tampa do instrumento. Começou a cantar. Seu rosto tinha agora uma expressão suavizada. Tentei falar que eu queria mesmo era continuar sonhando com minha mãe, mas, em vez disso, cantei. Cantei junto com Paul.

    When I find myself in times of trouble,
    Mother Mary comes to me
    Speaking words of wisdom, let it be
    And in my hour of darkness she is standing right in front of me
    Speaking words of wisdom, let it be
    Let it be, let it be, let it be, let it be

    — O que significa wisdom, Paul?

    — Sabedoria.

    Fiz silêncio por alguns segundos, o eco da canção, da minha voz e da dele, ainda em meus ouvidos. Olhei para ele sentado ao piano, tão sozinho e tão triste. Falei sem pensar muito, talvez querendo lhe dar algum consolo imediato:

    — Uma das últimas conversas que tive com minha mãe foi muito estranha. Ela, que nunca deixava a cama desarrumada ou a pia com louça por lavar, disse que não adiantava se preocupar mais do que o necessário com essas coisas sem muita importância. Que nesta vida tudo acontecia rápido demais, que o tempo era precioso e precisava ser gasto com o que valia a pena de verdade.

    Paul virou-se para mim com surpresa: “Essa conversa foi um sonho com sua mãe ou aconteceu mesmo?”

    — Não sei dizer ao certo — respondi. — Se foi sonho ou não, tem tudo a ver com sua música, não acha?

    — Acho. Tanto faz mesmo. Como eu disse antes, a gente não pode escolher com o que sonhar.

    — É, eu sei. Eu te contei essa história para inventar uma despedida, Paul. Let it be…

  • Djamila me ensinou a ter fé. Sempre fui avesso ou displicente com a religiosidade. Nem ao menos procurei entendê-la. Meu pai dizia que eu era ateu e que isso era um grande mal para mim, mas me percebi, por muito tempo, agnóstico, porque precisava de prova para acreditar. Muitas vezes me peguei cutucando os meus demônios, para que algo acontecesse. Saudava aos deuses, quando passava em frente à igreja ou a algum lugar de culto, meramente por respeito. Então, Djamila aportou, como um grande navio, na minha vida simplória. No primeiro contato, jamais saberia dimensionar a nossa conexão. Não poderia esperar nada de uma pessoa raquítica e calada. Tive-a, num primeiro momento, como pau-mandado. Ela simplesmente fazia o que lhe dizia, para atender ao meu pai enfermo. Mas, com o tempo, Djamila, com sua doença e sua beleza rara, me fez repensar sobre o sentido da vida. Nunca foi intensa ou ostensiva, me pegou pelo cansaço e pelo amor, notadamente. Ela veio trabalhar como cuidadora do meu pai, quando ele estava com câncer terminal. Era lindo de ver a sua insistência no amor, até o fim. Tornou-se, além de cuidadora, uma amiga de meu pai, que lhe confiava até o cartão de crédito para fazer as compras de casa, ou dos remédios; do que fosse preciso. Para um homem extremamente desconfiado, isso é demais para minha cabecinha entender. Nem mesmo a mim, seu único filho, dava tanta liberdade. Djamila falava de irmã Dulce como uma santa dos pobres e enfermos. Ela não impunha; tratava com palavras doces e humanas. Passei a assumir essa crença, já que papai não tinha perspectiva alguma de melhora. Num primeiro momento, foi como um resgate, me senti abraçado, e chorei aos pés de meu pai. Apeguei-me, à espera de um milagre, conscientemente. (Cabe dizer que sequer cogitava qualquer milagre; achava tudo uma tremenda balela, para enganar os incautos). Depois de um ano de luta intensa, papai faleceu, não exatamente do câncer, mas de complicações associadas. Foi um dia terrível, a sua ida numa ambulância ao hospital, com sepse. Não houve jeito. Mas Djamila, forte e ama, nunca perdeu a fé, me sustentou tantas vezes, me recolocou no sentido da vitória, sempre crente, sempre paciente. Hoje, ela precisa de mim, minha amiga. Doente do coração, não tem forças para se movimentar. Está na fila de transplante e seu caso é grave. Não há vaga, não há espaço no sistema público de saúde. E ela agoniza aos meus pés, momento em que, entendendo a sua dor, faço de tudo para amenizar o sofrimento. Djamila é forte, mas a luta é desigual. Gastei já meus trocados, para o seu conforto. Djamila, minha amiga, ainda há de vencer. Prometi-lhe uma viagem (afinal, adora bater perna por aí) para quando melhorar, e assim ela se sente mais viva. Está por chegar esse dia!

  • O dia do aniversário

    Doze horas em ponto, os sinos da igreja de Santo Antônio de Pádua anunciavam. No dia em que completava 50 anos, Joel saiu apressado do escritório do advogado e, ainda dentro do elevador, passou a organizar mentalmente as tarefas da tarde. Memória privilegiada, sua melhor agenda sempre foi a própria cabeça. Era quinta-feira, e apenas no sábado uma celebração ocorreria. Reunião modesta, só para os mais íntimos, como se costuma dizer. Afinal, nunca gostou mesmo de comemorar aniversários. Ficar mais velho não é fato que mereça ser festejado, caramba. Mas a filha insistiu: data redonda, meio século, não se pode ignorar uma ocasião como essa. Em frente ao prédio do advogado, uma rua de grande movimento. Teria de atravessá-la antes de alcançar o metrô. Um pouco mais adiante, uma passarela de pedestres. Consultou o relógio e decidiu que não valia a pena utilizá-la. Perderia tempo e, além disso, jamais se sentiu confortável caminhando em cima delas. Os carros passando em alta velocidade lá embaixo causavam-lhe certa aflição, além de taquicardia, pernas bambas e suor nas mãos. Um automóvel vermelho vindo ao seu encontro é a última imagem de que se recorda. Veículo grande, desses projetados para uso em terrenos acidentados. Estendido ali, no meio da pista, julgou que talvez tivesse sido atropelado. Em torno de si, ouvia vozes, muitas; porém, não conseguia entender o que estavam dizendo. Homens e mulheres falando alto, mas era como se aqueles indivíduos se comunicassem numa língua estrangeira e pouco familiar, algo assim como basco, japonês ou turco. Pensou então na filha única e na festa que não aconteceria. Pensou também na pilha de livros a sua espera na estante do escritório, livros que não leria nunca. Pensou na esposa e se deu conta de que ela ficaria viúva. Bem, ao menos não seria mais necessário levar adiante toda aquela burocracia do divórcio. Pensou nos poucos amigos que tinha. Sempre fora um homem introvertido, reservado. Um ou outro talvez sentisse sua falta. Pensou na chefe. Pensou, sem conseguir evitar uma ponta de orgulho, que seria difícil para ela encontrar alguém capaz de substituí-lo com a mesma eficiência. Pensou nas fantasias sexuais que não teria chance de realizar. Sempre fora tão travado… Logo agora que se sentia mais solto, pronto para experimentar novas sensações… Paciência! Pensou nos pais velhinhos, companheiros de uma vida inteira, morando sozinhos no casarão de Vila Esperança. O casarão que se recusavam a abandonar, onde ele e a irmã Jane passaram a infância e a adolescência, local de descobertas e brincadeiras em companhia de primos e vizinhos, de uma vida ao ar livre que já não existe. Pensou nas galinhas, criadas com esmero e dedicação pela mãe no quintal. Nos ovos saborosos de gema escura e nos pintinhos que elas produziam. Nas brigas com a irmã pelo direito de nomeá-los. Nos castelos imponentes, construídos no jardim com terra, água, pazinhas de plástico e competência. Sua vocação para a arquitetura havia nascido ali, não tinha dúvida. Pensou ainda nas flores cultivadas pelo pai. Viçosas e coloridas, faziam os passantes pararem diante dos canteiros a fim de admirá-las. Nos pássaros de vários tipos que, sem pedir autorização, faziam morada nas árvores da propriedade. Pensou na horta atrás da casa, onde Rosalina ia buscar a salada do almoço. Por fim, pensou em Rex, bolinha de pelos preta e saltitante, companheiro fiel e amoroso. Todo esse esforço de recordação o exauriu. Por que todas essas imagens se faziam presentes justo naquele momento? Eram muitas as lembranças a tumultuar-lhe o cérebro. Elas chegavam sem que ele pudesse evitar. Simplesmente brotavam, como a água limpa brota às vezes das pedras. Tentou esvaziar a mente, não pensar em mais nada. Sim, essa era a coisa certa a fazer. Será que depois de velho estava ficando piegas? De onde todo esse sentimentalismo havia surgido? Com a morte dos pais, a casa provavelmente seria vendida pela irmã. Seu maior desejo se tornaria realidade. Não teria dificuldades em convencer a sobrinha. Obstinada, Jane sempre acabava conseguindo tudo o que queria. No local, é possível que um edifício de 49 andares, batizado com algum nome estrangeiro, despontasse. Quem sabe um prédio comercial, com lojas e escritórios… Junto com a casa, toda a história da família iria ao chão. Em torno de si, Joel continuava a ouvir vozes e barulhos diversos. Pessoas de branco pareciam tentar socorrê-lo. Ele louvava o empenho delas, embora tivesse quase certeza de que este resultaria inútil. Inútil seria também a tentativa de impedir a irmã de vender o casarão. Talvez ela nem sequer esperasse a morte dos pais. Talvez os pusesse num asilo — ou casa de repouso, lar geriátrico, pousada ou recanto para idosos, eufemismos que designam tão somente o local onde filhos desalmados abandonam os pais. Nossa, que exagero, agora estava sendo cruel demais com a única irmã. Ela não era nenhuma bruxa, ora bolas, com toda a certeza amava os pais. Só era da opinião de que eles deveriam deixar a casa, isso sempre achou mesmo e nunca escondeu de ninguém. Era tudo muito amplo, argumentava. Nada justificava que continuasse a viver ali um casal de idosos dependentes e de saúde frágil. Sentia-se cada vez mais fraco e experimentava dores terríveis pelo corpo inteiro. Com as últimas forças que lhe restavam pensou finalmente que deveria ter utilizado a passarela, que teria sido muito bom poder reunir aqueles que o amavam em sua festa de aniversário e que uma decisão irresponsável pode transformar uma existência de forma definitiva.

  • O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam.

    Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar.

    Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse.

    Passavam os dias, passavam as noites, e o menino durinho na cama.

    Como se estivesse morto, todo mundo pensava.

    Quando acordou, disse: – Preferia não ter acordado – ninguém entendeu por quê.

  • Um homem de muita fé

    Ele desceu do trem numa estação qualquer, numa cidade desconhecida, e esperou por ela. Depois, entrou nas criptas das catedrais, onde o silêncio pulsa de tão denso, e esperou por ela. Empoleirou-se em árvores, em pontes, em terraços, em torres, em montanhas, em aviões, nas nuvens dos sonhos e, talvez, nas asas de algum anjo.

    Esperou por ela na dureza do inverno mais impiedoso, tremendo não de frio, mas de esperança. Também esperou por ela na chuva, até que a água caísse sobre ele como pontas de uma faca. Comprou até um telescópio e esperou para vê-la aparecer entre as estrelas.

    Encontrei-o sentado num banco de parque, em silêncio, olhando fixamente para além das árvores, para além do tempo, para além da loucura. Perguntei-lhe: “Quem você espera com tanta persistência?” Sem desviar os olhos do horizonte, respondeu: “A felicidade. Quem mais poderia ser?” Sentei-me ao lado dele.

  • Os laços

    Os laços de Maria me enfeitiçavam. Eles me atraíam como uma medusa. Não era possível olhar diretamente nos seus olhos. Havia, de minha parte, uma tremenda vergonha. Ainda tinha um atrativo peculiar, o aparelho ortodôntico, com uma linha de aço que ficava para fora da boca, como um ser especial, de outro mundo. Conhecemo- nos desde a infância, mais especificamente no quarto ano, quando ela veio estudar na minha sala. A sua imagem me paralisou, ao entrar atrasada na primeira aula, vindo com a coordenadora, que nos apresentou a aluna novata. Apesar dos apetrechos, ela era bastante sorridente – e sorria mais com os olhos, esverdeados. Por sorte, ela sentou numa cadeira ao lado da minha. Numa pequena brecha da explicação da professora de português, ela me perguntou qual era o meu nome; eu disse: “Gustavo… mas pode me chamar de Guga” – o apelido que meu pai me dera por causa daquele tenista, para quem eu não dava a menor bola. Maria, na verdade, só se entrosava com os garotos, porque, pelo que parece, havia inveja das meninas, que tinham um grupo muito fechado. Passou a jogar futebol com a gente, e por isso foi apelidada pelas mesmas meninas de “Marião”. Eu brigava por ela, não deixava que a maltratassem, porque era novata e porque era o meu novo amor. Nos anos seguintes, Maria foi posta numa sala especial, a “D”, pequena, só com os alunos crânios. Mas, ainda assim, Maria não se afastou de mim – era o meu grande receio. Um dia perguntaram a ela se era minha namorada; ela disse que sim, muito assertiva, e eu me borrei de medo de que aquilo fosse mesmo verdade. “Não liga, Guga, prefiro que pensem que somos namorados”. Foi uma questão que ficou em aberto na minha mente por meses, até que Maria disse que eu estava passando do ponto. “Qual é, Guga, sem essa de pegar na minha mão; vão pensar que somos namorados de verdade!”. Mas eu era apaixonado por ela e ela por mim, disso eu sei. No sétimo ano, quando voltei de férias, soube que Maria tinha mudado de colégio. Eu queria saber o seu paradeiro, por que teria feito isso comigo? Depois de uma semana, recebi uma ligação dela – não consegui falar antes porque ela havia mudado de telefone. “Sabe, Guga, é tudo muito estranho no novo colégio; é como se as pessoas comessem os livros para passar no vestibular. E eu não sei por que tenho que me preocupar com isso, já que faltam alguns anos para o vestibular. Minha mãe disse que era para eu criar experiência, aprender a lidar com as dificuldades da vida logo cedo”. Nisso, Maria foi sugada pelos estudos e pouco falava comigo; sempre tinha provas e simulados. Chorei por um mês a sua partida definitiva da minha vida. Escutava The Cranberries, sua banda predileta, repetidas vezes – chorando. No vestibular, soube que teria feito para Medicina e passado de primeira. Ela era uma puta aluna, merecia. Enquanto isso, eu passei para Ciências da Computação – também um bom curso. Hoje, já formado e casado, me encontro com o meu primeiro amor no supermercado. Ela parece que vinha ou iria para a academia. Estava mais linda do que nunca. De primeiro, não me reconheceu, mas depois me abraçou e disse que tinha muita saudade da nossa pura amizade. Quando me preparei para pedir o seu telefone, ela se virou e disse que teria de ir, porque seu marido e sua filha esperavam no carro. Desde esse dia, mantenho constantes visitas ao mesmo supermercado, a dez quilômetros da minha casa, para um dia encontrá-la de novo, só para vê-la. Minha mulher pergunta por que vou fazer o mercantil tão longe, e eu digo que é pelo preço dos produtos – que de fato são bem mais acessíveis, já que é um atacadão. O tempo a esconde de mim, mas hei de achá-la.

    Adriano Espíndola Santos é autor de “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto” e “Viver morrendo”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. Instagram.com/adrianobespindolasantos/

  • A Despedida

    Estranho ver você aí deitado, fisionomia serena. Por que você não era assim a maior parte do tempo, Samuel? Tenho a impressão de que você vai se levantar a qualquer momento e começar a falar aquelas coisas sem sentido que costumava dizer. Você não percebia que seus argumentos eram frágeis, sem coerência? Suas cenas de ciúme bobas. Samuel, aquilo era apenas meu trabalho, era tudo profissional. Sério. Nunca houve nada. Nada mesmo. Olha em volta, não veio quase ninguém. Sua mãe, seu irmão e sua cunhada mal me cumprimentaram. Nem parecem tão tristes. Ficaram surpresos com a minha presença. Não vejo nenhuma senhora Samuel Arantes. Pra falar a verdade, nunca soube se existiu alguma depois de mim. Claro que você deve ter tido seus casinhos por aí. Presta atenção, vou fazer uma coisa. Quero que você leve minha aliança com você. Sim, eu ainda guardo. Poderíamos ter sido felizes juntos, ter construído uma relação sólida. Mas você era imaturo, queria as coisas sempre do seu jeito. Acabou que não tivemos filhos. Não passamos nossa herança adiante, não deixamos na terra nossa semente. Ainda bem, nunca tive vocação pra maternidade. Acho que você também não teria sido um bom pai. Pra onde será que você foi? Tomara que para um bom lugar. Apesar de tudo, você não merece sofrer. Sua alma já está por aí, flutuando no ar, observando as pessoas de modo furtivo, será que já deu tempo pra isso? Samuel, você já sabe que morreu? A gente ouve dizer que muitas pessoas demoram a descobrir. Bem, meu lado espiritual não é tão desenvolvido, não posso falar com propriedade sobre esses assuntos. Pensei que conseguiria refazer minha vida depois da nossa separação. Não foi isso que aconteceu. Mas sempre é tempo, né? Trouxe uma coroa. É a mais bonita de todas. São apenas duas, ainda assim é a mais bonita. Fiz questão de colocar meu nome na faixa pra todo mundo saber. Ainda não tô acreditando. Nem consegui chorar, embora ache que devesse. Não, não, não. Não vou usar técnica de atriz pra isso. Ou aconteceespontaneamente ou nada feito. Samuel… Eu te perdoo. Você me perdoa?

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