COntos

  • Pés para fora da coberta

    Era 23 de junho do ano passado. Nesse dia, mamãe completou 90 anos. Família reunida no início do inverno em Teresópolis, numa daquelas ocasiões em que o aparelho de chá que minha avó ganhou da tia Olga deixava a cristaleira. Pega com cuidado, não vai me deixar cair nada. Pelo amor de Deus, esse aparelho é francês, um presente de casamento da tia Olga pra minha mãe. Sim, acho melhor lavar, tá guardado há tanto tempo, mas muita atenção, por favor… Até consigo ouvir a voz austera da mamãe fazendo um discurso parecido com esse. Ela não perdia nenhuma chance de relembrar o valor do presente e também a história de como artigo tão precioso passou a fazer parte do acervo familiar. Luciana, Marcelo, Elisa e eu fomos os primeiros a chegar. Logo em seguida, apareceram Pedro, Ester, Vítor e Vinícius. Paulo foi o último. Era a primeira vez que saía de casa desde que tinha ficado viúvo.

    As empadas de camarão e os pastéis de queijo enviados por tia Emília pousados sobre a toalha de linho bege ocupavam o lugar que mais tarde seria preenchido pelo manjar com calda de ameixa e pelo quindim. Ravióli de espinafre com ricota e nozes elogiado por todos. Vinho Lambrusco espumante, coro de “Parabéns a você” acompanhado pelo choro tímido de Luciana. “Copacabana” saindo da TV na voz de Dick Farney e o cheiro do café recém-preparado pela Marlene tomavam o ambiente. A maior parte de nós ria. Ou ao menos sorria. Às vezes falávamos alto, cantarolávamos ou cantávamos. Um filme de Saura com dez anos de antecedência. Somente Elisa, entretida com a boneca nova, que falava e mexia os bracinhos, e Paulo, ainda não plenamente recuperado da partida repentina de Virgínia, pareciam um pouco distantes. Depois da torta de frutas, a favorita da mamãe, servida acompanhada de mais um coro sincero e animado de “Parabéns a você”, Pedro teve a ideia.

    — O que você acha se fizéssemos a foto? Precisamos fazer a foto.

    — Foto? Que foto? — indaguei.

    — Você não reparou, Leonor, são quatro gerações: mamãe, você, Luciana e Elisa.

    A mais velha com 90 e a mais nova com… Quantos anos tem a Elisa?

    — Seis.

    — Podemos providenciar agora mesmo. Escolhemos um cenário caprichado, eu tiro com o celular. Não quero soar funesto ou algo assim, mas esse panorama não vai durar muito tempo. Noventa anos não são noventa meses…

    — Eu sei, Pedro, já entendi, não precisa entrar em detalhes, especialmente num dia como hoje.

    Olhei em torno e busquei mamãe. Acomodada na poltrona perto do quadro com a foto do seu casamento, realizado quase 70 anos antes, ela trazia no rosto a mesma expressão de sabedoria de uma década atrás, época da minha separação do Alberto, quando me disse:

    — Leonor, você deveria ter deixado os pés para fora da coberta. Em alguns casos, é a melhor coisa a fazer.

    — Como assim? Que história é essa de pés para fora da coberta, mamãe?

    — Você sabe, seu pai sempre foi muito friorento. Na nossa cama, insistia para que a gente se cobrisse deixando só a cabeça de fora, entende? Eu me sentia abafada, mas aceitava. Num protesto silencioso, colocava os pés para fora. Quando a gente se casa, vão acontecer muitas situações em que vai ser necessário pôr os pés para fora da coberta, percebe, minha filha?

    Tudo foi decidido num ímpeto. Nunca fui fotogênica e jamais gostei de fotos. No jardim, posamos as quatro ao lado das roseiras amarelas, especialmente floridas naquela ocasião. Pedro ia dirigindo a cena. Mamãe e eu, à esquerda; Luciana e Elisa, à direita. Sorrisos discretos, poses contidas, expressões que buscavam aparentar contentamento… Luciana sugeriu que fizéssemos também alguns registros perto da piscina. A água, como de costume, estava limpa. Apesar disso, algumas folhas caídas da jabuticabeira plantada perto da churrasqueira podiam ser vistas em pontos esparsos do espelho d’água. Josué sempre cuidou do jardim, do quintal e da horta muito bem. Cerca de duas horas depois, fomos dormir.

    No dia seguinte, por volta das dez, já estávamos acomodados dentro do veículo que nos levaria ao Rio de Janeiro. Ao volante, Marcelo, animado como uma criança que estreia um brinquedo novo. No Rio, um almoço na casa de tia Emília nos aguardava. Noventa anos não são noventa meses…

    ****

    Mamãe, Marcelo, Luciana, Paulo e eu estávamos bem. Pedro, Ester e os meninos tinham vindo num outro carro, logo atrás. Na nossa van, arranhões e feridas sem gravidade decoravam alguns braços, pernas e cabeças. Um pouco de sangue manchava os bancos e a lataria… E era só. Demoramos um pouco a entender o que tinha acontecido. Infelizmente, quando os bombeiros chegaram nada puderam fazer por Elisa. Um dos soldados foi então até a ambulância e, deixando seus pezinhos delicados de fora, cobriu o corpo inerte de minha neta com um lençol.

  • A Porca

    Tem uma porca no escritório. Uma porca de verdade, uma leitoa, e parece estar grávida. Chegou de repente na agência de publicidade onde trabalho como se fosse mais um cliente querendo criar anúncios para um novo produto. Olha em volta estranhando o lugar e procurando, sem encontrar, uma maneira de cair fora dali. Fuça nas latas de lixo, mas ali só há papel. Não é violenta, não emite sons agressivos e não procura atacar ninguém. É apenas uma porca deslocada de seu habitat natural.

    É um bicho enorme, corpulento, deve parir uns dez leitõezinhos por vez. O formato retangular e cheio de mesas e cadeiras do escritório não ajuda em nada, já que a coitada deve sentir falta de um espaço aberto e cheio de lama onde se esparramar. E ela deve gostar de calor e de sol, não desse ambiente com ventilação sempre ligada na potência máxima, congelante no verão e insuportavelmente quente no inverno. Pensei em matá-la e chamar os bombeiros para a remoção do corpo, mas acho que o diretor de redação não trouxe a espingarda (ele já trouxe a arma uma vez ao escritório, dizendo que tinha ido caçar capivaras, e ninguém disse nada).

    Se eu fosse opinar, diria que é uma porca muito bem alimentada em alguma fazenda de milionário. A enorme barriga não deixa dúvida: está prenha e não deve demorar a dar à luz. Que isso não ocorra aqui no escritório, pelo amor de Deus!

    Move-se entre as mesas e as cadeiras conforme pode, considerando o seu tamanho e o espaço ocupado pelos móveis da sala. Vagueia sem rumo e, enquanto anda, mexe as orelhas como ventiladores e o rabinho minúsculo, desproporcional ao seu tamanho, como um fio de telefone antigo espetado na parte traseira do corpanzil. Parece um bicho calmo, que pensa devagar no que fazer, sem pressa ou ansiedade. Avança pelo espaço do escritório como se conhecesse o caminho, seus olhinhos examinando tudo ao redor com atenção.

    A turma toda do escritório agora só tem olhos para ela. Quem não olharia para uma porca passeando tranquilamente pelo carpete do escritório, com suas patas sujas de lama? A bicha, no entanto, parece não se importar com nada ao seu redor. Todos a observam, mas ninguém diz nada, incapazes de falar sobre esse acontecimento extraordinário. Miguel, um dos diretores de criação, abre a boca como se fosse dizer algo, mas tudo o que faz é arrotar. Deve estar na quinta cerveja, e ainda estamos no turno da manhã.

    É bastante curioso ver a porca na sala. Conseguiu interromper nosso trabalho, já que todos abandonamos as telas dos computadores e deixamos os celulares de lado para observá-la melhor. Nós, humanos, somos frágeis diante de acontecimentos que fogem à nossa compreensão e à lógica a que estamos acostumados.

    A porca, finalmente, decide sair pelo mesmo caminho por onde chegou. Usa seu peso para arrombar a porta de entrada e alcançar o saguão. Emite grunhidos, óinc-óinc, como se fizesse uma última tentativa de provocar alguém. Assim que cruza a soleira e desaparece, tudo volta ao que era antes.

    Se por alguns minutos todos pensávamos a mesma coisa sobre um bicho imenso que apareceu no escritório, agora só temos olhos para apreciar as vidas felizes que lotam as páginas do Facebook. Se por um segundo estávamos todos olhando para uma porca, agora prestamos atenção na sala do gerente de contabilidade, de onde saem gritos dele dizendo a outro colega para, por favor, tomar um banho porque ele está fedendo. Se por um momento cogitou-se falar do bicho gigantesco, agora estamos todos ocupados com nossas coisas, e ninguém se dignou a perguntar por que raios uma porca prenha entrou no escritório.

  • Engasgo

    Tenho tanto para dizer. Engasgado. Entalado. Falei enquanto pude. Sou conhecido nacionalmente, por ser historiador e filósofo, e, principalmente, com o conhecimento que tenho, por defender a soberania, a justiça social e a democracia. Quando meu pai era vivo, tinha algum respaldo, porque ele foi do movimento estudantil, lutou contra a ditadura militar, inclusive foi preso por isso; amargou anos de sofrimento, até mudar de cidade e conhecer a minha mãe, momento em que tudo se tornou mais tranquilo – ele só queria viver em paz. Era um homem de muitas histórias. Felizmente tive tempo de ouvir algumas, apesar de ele não gostar de falar. Era um homem pacato, até parece que não viveu tudo o que viveu. Durante muito tempo quis se manter isolado, não participar de nada relacionado à política, porque tudo aquilo que experienciou lhe fez mal, a ponto de não querer resgatar as memórias. No entanto, ele me aplaudia, em silêncio, quando bradava meus louvores à democracia, lá no comecinho da minha jornada. O tempo passou. Meu pai faleceu em meados de 2011, de uma doença traiçoeira, o câncer no cérebro. Por ser muito estudioso, era respeitado pela família; todos o viam como uma âncora, como o provedor da sabedoria. Depois de tudo, sem a sua inestimável presença, sou somente a ovelha negra da família. Respeitavam o meu pai, mas por que não me respeitam? Dois primos me apoiam, apesar de serem “neutros”. Um votou no Caiado e o outro, no Zema – para se ter uma noção da disparidade de consciência, ou falta de consciência política. No geral, não suportam o meu nojo ao capitalismo. Penso que não suportam a mim, à minha expressão, que é toda comunista. Não aguentam o meu desplante de ser o que sou, só porque quero o bem comum. Minha tia me falou que isso não eram modos de se portar, principalmente na internet; com a voz grave, quase a me proibir de falar – tive medo; ela é a mandachuva ricaça da família. Pelo andar da carruagem, passando essas eleições para presidente, em que temos a democracia em xeque, vou parar o meu canal no YouTube e minhas divulgações nas redes sociais. Estou, de verdade, cansado de brigar. Talvez seja um tempo rigoroso que eu tire para cuidar de mim. Talvez eu me cale, na hora que mais precisam de mim. Talvez eu fale, e não terá fim.

  • Assassina

    Adelaide nunca desejou se transformar numa assassina. Achava mesmo que não apresentava tal vocação. Afinal, era discreta e vestia-se com sobriedade. Tinha uma vozinha fina e pausada, um cabelo bem cortado tingido de ruivo desde os vinte e poucos, uma pele alva salpicada de sardas, além de gestos econômicos e displicentes, que não combinavam nada com um jeito criminoso de ser. Ademais, esses programas sensacionalistas da TV, repletos de sangue, de crime e de exploração explícita e despudorada da miséria humana, a horrorizavam. A que ponto chegamos… Virava a cara, cerrava os olhos e procurava sôfrega o controle remoto. Era moça refinada, colégio de freiras, instituto de educação, aulas de francês, de piano e de etiqueta. Tinha berço, enfim. Chegou virgem ao altar, não obstante as investidas do futuro esposo. A gente precisa se conhecer melhor, ver se há afinidade de fato. Tão pouco original o sacana. Ela até que tentou, mas sempre que estava prestes a consumar o pecado, a lembrança da madre superiora e do crucifixo da capela da escola a paralisavam. Nos momentos de maior confusão e embaraço, essas duas imagens se misturavam, e, no lugar do rosto de Jesus, era a face de irmã Carmela que aparecia. Nessas ocasiões, era como se ainda a ouvisse dizer “nosso corpo é templo do Espírito Santoˮ com sua voz anasalada e monótona e aquele indefectível sotaque italiano. E depois, para quem chegou aos 57 anos sem nunca ter matado sequer uma barata… Seria mesmo uma guinada. Mas aquilo que Dinah havia feito não devia ficar impune. Não podia simplesmente seguir adiante, virar a página com aquela adaga cravada no peito. (Sim, sabia ser dramática quando convinha.) Sua capacidade de perdoar era limitada, acabou descobrindo da pior forma possível. Precisava se reerguer, tal qual o títere deformado no chão, que se anima e resplandece quando aquele que o manipula mete a mão nos fios. Achava que a outra era amiga. Como pôde ter sido tão ingênua? Como se deixou enganar assim tão facilmente? Não dormia mais desde que descobriu toda a verdade. Passava as noites em claro, pensando em como resolver a questão. Virou motivo de piada. Era apontada na rua. Trancou-se no quarto, fechou as cortinas e apagou a luz. Sempre raciocinou melhor no escuro. A sabedoria das corujas era uma característica sua. Por isso é que se martirizava tanto. Aquela traição infame não estava no roteiro. Era cena que o diretor resolveu incluir na hora, em pleno set de gravação. Ela, porém, não sabia trabalhar no improviso, tudo em sua existência era milimetricamente calculado. Quase como se andasse por aí com uma fita métrica nas mãos conferindo tudo. Quem não a conhecia até estranhava aquela idiossincrasia toda. Depois do tal episódio com a mulherzinha traiçoeira e peçonhenta, envelheceu pelo menos dez anos. A pele enrugou, perdeu o viço. Olheiras indesejáveis e profundas passaram a tingir-lhe de preto a cara. Foi-se a vontade de viver; veio a vontade de matar. A ordinária pagaria com a própria vida tamanha ousadia. Teria de sofrer, não bastava que morresse. Era necessário que sentisse dor… Muita dor. Uma dor pelo menos duas vezes maior do que aquela que lhe causara. Arranjaria um jeito de medir isso também. Que arma usaria? Contaria com a ajuda de cúmplices? Melhor não, metade da graça iria embora se não estivesse no controle absoluto de todo o esquema. Inteligente e capaz, sempre resolveu tudo sozinha. Especialmente agora que o marido havia partido por causa daquela fulana. Evitava até dizer seu nome. O casamento parecia tão feliz. Sólido mesmo. Firme. Todavia, bastou Dinah acenar-lhe para que ele fosse. Acho que nem a própria pestilenta esperava tamanha facilidade. Como o gringo idiota que segue a cabrocha seminua e morena no carnaval, lá foi ele atrás dela, da indecente, da despudorada, da destruidora de lares. Trouxa! Imbecil! Burro! Não, não era possível esperar mais. Aquele sentimento a estava envenenando. A hora havia chegado. Sentia-se dona da situação. Dominava a técnica, o processo todo, e nada poderia dar errado… Na sexta-feira da paixão de 2018, ano anterior à chegada da pandemia que assolou a Terra e fez mais de 36 milhões de vítimas ao redor do planeta, por volta das 19h25, Dinah saiu da igreja acompanhada de um senhor circunspecto e grisalho. Na porta do bar do Mané, do outro lado da rua, Adelaide, com uma pistola na mão, mirou Dinah e atirou. Quatro vezes. Os disparos atingiram o muro da paróquia de Santo Antônio de Pádua, o pé esquerdo de uma fiel chamada Maria Doralice de Oliveira, que também deixava a igreja naquela hora, a ponta do rabo de um vira-lata caramelo que vivia perambulando pelas cercanias da paróquia e o senhor circunspecto e grisalho que caminhava distraído ao lado de Dinah. Atingido no coração, Argemiro Santos Patrocínio morreu na mesma hora.

  • O enterrado vivo

    Porque hoje é dia de São Sebastião, e estouram foguetes na minha janela, lembrando que é dia de festa, vou falar da sua história, Sebastião Fidélis, que você merece festa.

    Ninguém mais fiel que um Sebastião Fidélis, fiel até no nome, fiel à vida e seus caminhos e descaminhos.

    Imagino você, velho caipira mineiro de Campo do Meio, velho apesar de apenas 43 anos de idade, de cócoras entre os túmulos, se benzendo, acendendo duas velas, e cuspindo o fumo de lado.

    “Sai-te!”, você estaria dizendo. “T’esconjuro, ó Coisa Sem Nome!”, você diria, sem falar o nome da morte, essa aberração da natureza. Que não é próprio da natureza, morrer, acabar. Que ninguém em sã consciência aceita essa idéia obtusa, nem quem não
    tem a consciência tão sã como você, Sebastião.

    Que nem o nome dessa coisa se deve falar, seria invocar a dita cuja. Ainda mais como é o seu caso, Sebastião, que está de cócoras diante do próprio túmulo, cruz credo, e você se benze e cospe de lado. E já nem cospe o fumo, mas essa ideia mais enrolada que um cipoal.

    Você estava andando pelas estradas, cumprindo o destino que Deus lhe deu, que o homem tem pernas é para andar e tem olhos para olhar além dos horizontes, buscando a graça da vida, indo empós de um chamado misterioso, uma graça singular.

    Você estava há anos longe de casa, que casa é bom para tartaruga que carrega a dita cuja nas costas. Você andava por esse mundão de Deus…

    E não é que chamaram a sua velha para reconhecer o seu cadáver no hospital da cidade vizinha, a cabeça estropiada de um atropelamento, de umas três cirurgias, mais feio e irreconhecível que o diabo?

    E não é que a sua velha disse: “É ele!” E lá foi você para baixo da terra. No corpo de outro, na alma de outro, mas foi para baixo da terra.

    E não adiantou você reaparecer, pelos braços de um antigo conhecido, dizendo:

    “Estou aqui! Sou eu! Não estão vendo?”

    Legalmente, você está morto, Sebastião Fidélis. Morto e enterrado.

    E é tanta a papelama para desenterrar você, que é mais fácil ficar morto. É mais barato ficar morto, afinal os amigos já pagaram e bem pago o enterro. Enterrado, enterrado esteja.

    E você só quer voltar para os caminhos de Deus, para as lonjuras sem fim. E viva a vida!

    Para que pagar a burocracia idiota, se o que você mais deseja é viver? Estradas depois de estradas, as paisagens multiplicadas e sempre a mesma beleza renovada.

    Viva e viva gloriosamente, Sebastião Fidélis, fiel à vida e aos horizontes por vencer. Sempre há um novo horizonte por vencer para os felizes que podem caminhar sem parar.

    ***

    (Este texto foi escrito num dia 20 de janeiro, por isso a referência a São Sebastião.)

  • A grande obra

    Deixei tudo para escrever a obra da minha vida. Sou um grande escritor. Ninguém sabe disso ainda porque nunca escrevi nada, mas quando eu escrever meu livro, meu grande romance… A admiração de todos será um acontecimento, não tenho dúvida.

    Para levar a cabo essa minha missão, pedi desligamento do meu emprego público e… do que mais me desliguei? De nada mais, porque nunca tive amigos e os parentes há muito tempo se esqueceram da minha existência. Isso posto, abandonei o mundo e me isolei de tudo para escrever meu grande romance.

    O problema é que não sei sobre o que será esse meu livro. Já se escreveu tanto sobre tudo… Tenho um pressentimento: sei que sou um grande escritor, mas nenhum assunto parece ser bom o suficiente, grandioso o suficiente, interessante o suficiente para o meu talento. Então uso minha infinita paciência e espero por uma ideia original e surpreendente. Enquanto espero, claro, sofro com a solidão e, às vezes, com a fome, mas através desse sofrimento espero alcançar um estado de calma que me leve a descobrir um tema digno do meu superior dom de escritor.

    Infelizmente, já se passou muito tempo e essa inspiração está demorando para aparecer. Minha solidão tem se tornado cada vez mais sufocante e opressiva. O silêncio me aprisiona, o vazio ocupa todos os lugares de minha casa e intuo que meu estoque de paciência esteja chegando ao fim. Essas três coisas horríveis — solidão, silêncio e vazio — estão destruindo meu teto, despedaçando-o até atingir as estrelas e espalhando-se ao infinito. Já não distingo o dia da noite, a chuva da neve, o calor do frio.

    Numa crise de sofreguidão incontrolável, grito:

    — Vou escrever tudo o que puder ser escrito! Não deixarei nada de fora. Escreverei o universo e a Via Láctea com todos os seus buracos negros.

    Uma voz, vinda não sei de onde, me responde, irônica, mas ainda assim uma voz depois de tanto silêncio:

    — Tudo bem, garoto, escreva sobre tudo. Mas apenas tudo e nada mais, certo?

  • Em boa hora

    Fui arrebatado por aquele olhar. Nem sabia que sentimento algum podia me pegar. Profetizei, seguro, que não me “juntaria” com alguém até estabilizar a minha vida financeira. Depois que acabei o namoro com Daniela, com quem achava que iria casar (um namoro morno e regular), resolvi me dedicar aos estudos e à profissão. Sou recém-formado em Odontologia (faz três anos que concluí o curso) e estou fazendo das tripas coração para montar um consultório no centro da cidade, pois a movimentação lá é grande. Ainda atendo por consultórios terceirizados, incansavelmente, dia e noite, para juntar a minha grana e montar o citado consultório. É o meu sonho, e é nisso que me fio. Acreditava que não tinha tempo para pensar em coisas diferentes disso. Liana fez com que eu quebrasse a promessa. Ela é inteligente e sensível, duas características que me atraem. Logo senti uma tranquilidade no coração. Já não era movido por tantas obrigações, para um fim que poderia ser incerto. Eu estava apostando todas as fichas no lugar errado, somente na profissão. Liana, então, quieta, chegou aos poucos, sem se afobar. Parece que ela sabia que eu era uma onça cismada. Tomou a iniciativa de falar comigo quando pegamos o elevador no seu sexto andar, no dia 16 de janeiro. Ela, ao contrário, era aberta, expansiva, e não tinha dificuldade de se relacionar; tanto que provou ser uma mulher encantadora. Depois de muita conversa no WhatsApp, combinamos de tomar um vinho no restaurante Santi. Foi uma noite maravilhosa, onde em que pudemos mostrar os nossos defeitos e qualidades, rindo bastante de alguns comportamentos que os dois tinham, algo parecido. Éramos bondosos e prestativos, duas qualidades que distinguimos no ato. Ela cuidava da mãe viúva, e eu, do pai viúvo. Rimos até da possibilidade de apresentá-los um ao outro, para ver se dava rock. A conversa sempre fluía lindamente. Nunca tinha acontecido isso na minha vida: me “juntei” com quatro meses de relacionamento. Não podíamos viver afastados. Diminuí o trabalho para ficar mais um pouco admirando a sua beleza. A mulher tem uma aura inebriante – sou suspeito para falar. Antes, morávamos sós (essa informação privilegiada ela deve ter conseguido com o Jorge, o porteiro bocão). Hoje, moramos juntos, no meu apartamento, já todo montado e estruturado, com cama de casal (sim, o meu subconsciente já previa um relacionamento). O dela está alugado (renda extra para uma jornalista freelancer). Formamos uma linda família, com quatro gatos (juntamos nossos dois pares). Ela espera o nosso neném e está deitada à minha frente, dormindo, sonhando, com leves espasmos; com as pernas estiradas e as mãos postas embaixo da cabeça, deixando-se bela, como um anjo de candura. Nunca esperei um amor assim.

  • XÊNIA precisa matar alguém

    Xênia estava a ponto de desistir de tudo. Vinha tendo problemas com o marido e os filhos. Ele, gordo, careca, sempre doente e reclamando da próstata que aumentara, do café frio, da chuva, do custo de vida e do governo. E, principalmente, dela. O filho mais velho, vagabundo, demente e drogado, sonhando ser cantor de rock. E não gostava de banho. A menina, uma amoral rebelde e chata, tinha o corpo coberto de tatuagens e piercings. Havia feito três abortos e agora descobrira ser lésbica.

    Xênia queria mudar tudo, mas não encontrava solução. Em busca de alívio, quando sentia que a cabeça estava a ponto de estourar, ia a um bar perto de casa, pedia uma Malzbier gelada, uma porção de torresmos e deixava-se ficar ali, em pé, encostada no balcão, por horas a fio, a pensar sobre nada. Uma espécie de pausa necessária. O dono do boteco, um português que torcia pelo Fluminense, já havia tentado puxar conversa, mas desistira: a mulher parecia em transe, absorta e presa a seu mundo.

    Um sábado, quando Xênia estava no tal boteco, uma mulher loura, alta e bem vestida se aproximou e puxou assunto com ela. Precisava de um serviço urgente, de preferência naquele final de semana. Xênia era a pessoa mais indicada – ela disse – soube disso no primeiro momento em que pôs os olhos nela. Precisava que ela fosse a um apartamento e matasse quem lá estivesse. Só confiava nela para esse trabalho.

    Por que ela? Xênia pensou no anjo que encomendou um réquiem a Mozart. No fundo não queria matar ninguém. Inusitado e tragicômico ser escolhida para esse tipo de serviço. Imaginou-se como o personagem Barry, o assassino de aluguel da série, que viu seu mundo dar uma reviravolta. A misteriosa mulher insistiu e lhe ofereceu uma quantia irrecusável. Devia ser milionária. A seguir, passou-lhe uma bolsa com a pistola e o silenciador para ela fazer o trabalho. Xênia logo associou aquele convite ao conto “O Cobrador”, de Rubem Fonseca. Talvez por ansiar uma guinada em sua vida, aceitou. Logo ela, pacata dona de casa, sempre comedida, que não matava nem uma formiga. Não estava se reconhecendo. A loura, então, passou-lhe um pacote com a metade da quantia combinada. O restante, depois do serviço.

    De lá, foram para o aeroporto Santos Dumont. A mulher deveria seguir na ponte-aérea para São Paulo, de onde só retornaria na segunda-feira. Uma única recomendação: não poderia causar grande sofrimento às vítimas. Serviço limpo e direto.

    Despediram-se, Xênia chamou um táxi e se dirigiu ao endereço que lhe fora passado. Um condomínio residencial de luxo. Durante o trajeto, sua respiração desacelerou e sentiu sumir o peso do próprio corpo. Era como se flutuasse em um espaço onde o tempo tinha deixado de existir.

    O taxista avisou que haviam chegado. Xênia pagou a corrida e saiu do carro, quase em frente ao condomínio. Na entrada, o porteiro acenou, como se a conhecesse. Isso não era normal. Achou estranho, mas foi em frente. Compenetrada, pegou o elevador, tirou a arma da bolsa e colocou, calmamente, o silenciador. Tocou a campainha. Demorou um instante e a porta foi parcialmente aberta. Xênia perguntou pela dona da casa. Uma moça morena, vestida de branco, possivelmente a diarista, respondeu que a patroa estava viajando e perguntou se era só com ela. Xênia não esperou mais. Forçou a porta entreaberta, empurrou a mulher para dentro e com a pistola engatilhada, atirou duas vezes. Antes de cair, a moça ainda a olhou com incredulidade e assombro.

    Xênia, com o coração acelerado, respirou fundo para não perder o controle, passou por cima do corpo, atravessou a sala e seguiu por um longo corredor que a levaria a outros cômodos. As pernas ainda bambeavam. No primeiro quarto, à direita e com a porta aberta, em frente, sentada e se penteando, uma menina com tatuagens e piercings, só de calcinha, com uma garota a seu lado, despida e também distraída. Sem ser notada, Xênia não esperou sequer que virassem. Fez um furo no meio das costas da moça e, antes que sua acompanhante pudesse esboçar qualquer reação, enfiou-lhe um tiro certeiro, quase à queima-roupa. Aguardou um pouco a fim de se certificar de que ambas estavam mortas. Xênia espantou-se com sua frieza. Ainda que estivesse com taquicardia e as mãos geladas de suor, agia como uma assassina experiente.

    Ainda trêmula, voltou ao corredor e foi ao próximo quarto, à esquerda. Percebeu logo o cheiro de maconha e os sons estridentes de um rock nacional. Quando entrou, o rapaz a olhou, assustado. Xênia chegou bem perto, apontou a arma na sua cara, tirou-lhe o cigarro de maconha da boca e, com o cano dentro, detonou o tiro. Deixou o corpo ali mesmo, no meio do quarto, com o som ainda às alturas. Xênia detestava rock.

    Agora, tinha pressa. A ansiedade a mil. Precisava acabar logo com o serviço e sumir dali. Só restava um último quarto, no fim do corredor. E, antes que pensasse em abrir a porta, um homem o fez por ela. Vestia uma espécie de roupão, era calvo, barrigudo e com cara de idiota. O que mais a impressionou foram seus olhos. Cansados e sem brilho. Olhos de uma idiotice clara e assumida. Convidou-a a entrar no quarto, andou calmamente até a cama e sentou-se. Xênia sentiu um arrepio percorrer seu corpo e, antes que pudesse se arrepender, disparou. Mal o homem tombou sem vida na cama, ela já se encontrava de costas, saindo do quarto.

    Não tinha mais nada a fazer. Surpreendeu-se agora bem disposta e empolgada. Conferiu se não havia ninguém no apartamento e saiu. O porteiro sequer notou a sua passagem. Missão cumprida.

    O português tricolor enfim trouxe a Malzbier e os torresmos. Xênia agradeceu, deu um gole na cerveja e fechou, por um momento, os olhos. A imaginação podia mitigar a realidade. No entanto, se achava longe de conhecer suas verdades e pôr um fim em seus tormentos e inquietações. O filme das execuções ainda passava na sua cabeça. Ao menos, sentia-se, de alguma forma, aliviada. Mastigou com vontade o pedaço de torresmo. Xênia estava morrendo de fome.

  • Carolina

    Eu quero que você saiba que ainda não decidi se vou mesmo fazer. Não sei se quero levar essa coisa adiante, se preciso mesmo. Claro, sou ansiosa, mas acho que todo mundo é um pouco hoje em dia. É, depressão também. Levantar da cama às vezes é tão difícil… Esse mundo tá um caos. Depois que a pandemia acabou, acho que ficou até pior. Sabe, me assusta um pouco a ideia de ter de dividir com alguém meus segredos, meus pensamentos mais íntimos. Eu sou atriz, acho que você não sabia, né? Claro que não sabia. A gente mal se conhece. Bem, tô começando, mas você acredita que meu primeiro trabalho profissional foi numa peça de Nelson Rodrigues? A temporada acabou no domingo passado. Bonitinha mas ordinária. Não, eu não era a protagonista. Era uma das irmãs da Ritinha. A Vera Fischer fez no cinema. A Ritinha, eu quero dizer, ela fez a Ritinha. Acho ele um gênio. Foda mesmo. Manda muito bem. Minha família toda foi assistir. Tios, primos, gente que eu não via já há um bom tempo. Até a Marina, que já trabalha lá em casa há 20 anos, foi com a Betina, a filha dela. Meu pai também foi. Ficou meio chateado porque apareci de peito de fora. Mentalidade atrasada, meu Deus. Aquela cena tava completamente dentro do contexto. Por mim, ele nem teria ido. Não somos próximos, ele nunca se importou muito. Eu tinha certeza que ele ia reagir mal. Enfim. E depois eu não quero que as pessoas pensem que sou uma patricinha que veio fazer terapia porque não tem mais nada pra fazer na vida. Tipo pra passar o tempo, entende? Minha família não é rica. Bem classe média, e esse tratamento é meio caro, né? Acho que isso aqui até pode me ajudar no meu trabalho de atriz. Tudo tem prós e contras, não é mesmo? Eu posso começar. Talvez o ideal seja eu começar sem compromisso. Sei que não sou obrigada a nada. Não precisa você me dizer. Não sou tão tapada assim. Verdade. Sou filha única. Não sou mimada. Quando falo que sou filha única, as pessoas logo pensam isso. Bem ao contrário. Mas não posso negar que durante muito tempo eu desejei muito ter um irmão, uma irmã, um primo adotado que fosse, a casa mais cheia, mais barulho, mais agitação… Acho que você entende o que quero dizer, né?

    — Carolina, minha filha, você ainda não está pronta? O táxi já chegou. Temos hora marcada, menina. Por que você se olha tanto nesse espelho? Ah, depois que você entrou pro teatro, resolveu ensaiar tudo. Até a vida.

  • A vaca atropelada

    O carro do professor foi guinchado até ao Plantão Policial de Franca para registrar um boletim de ocorrência de acidente na estrada. Sobre o porta-malas, com as patas para cima, uma vaca morta. O que é isso, professor? Uma vaca em cima do carro? E com as pernas para cima? Que desconfortável!

    Mas está rindo do quê? Ah, já passou o susto! E que susto, hein?! Ele voltava de Franca para São Joaquim da Barra, quando viu três vacas no meio da estrada. Desviou da primeira, driblou a segunda, mas não conseguiu se safar da terceira. Pegou em cheio a coitada. Nem viu onde foi parar, nem imaginou onde poderia ter ido parar a desgraçada da vaca: em cima do porta-malas do carro.

    Ainda estava viva. Parece que sorria, a imprudente. Achando graça do quê? Já disposto a descarregar toda a sua raiva sobre a danada, viu-a exalar o último suspiro, um suspiro gostoso, bem prolongado. O que fazer agora? Chamou o guincho, e toca para a Delegacia. Verdade que estava ferido só na mão esquerda, mas alguém tinha que pagar pelo carro amassado – e quase me mata, corri perigo de vida!, diz. Fez lavrar o boletim de ocorrência, a Polícia vai ter que se virar e descobrir o dono da vaca.

    Já pensaram? O cara chegar na Delegacia com uma vaca em cima do carro! Isso é que é matar a cobra e mostrar o pau! Mostrou a vaca, o que é bem mais difícil. Não tinha outra alternativa? Poderia levar a vaca para casa, daria um bom churrasco. Chamaria os amigos, e os amigos dos amigos, e os cachorros da vizinhança, os gatos, os mendigos, quem quisesse saborear um delicioso churrasco – teria carne para todos. Sem miséria! Sirvam-se à vontade, meus amigos e meus inimigos. Desse momento em diante, não teria mais nenhum inimigo. Um bom naco de carne compra qualquer amizade.

    Mas o dono não iria reclamar? Se reclamasse, teria antes que pagar o prejuízo. Depois, seria comprado com um belo churrasco. Já disse um sábio (o guru do Meyer, Millôr Fernandes) que todos somos venais, é só questão de combinar o preço. E a um churrasco quem poderia resistir? Seria um preço muito bem pago. O problema foi o transporte: o carro avariado, mais que arrebentado – como transportaria a vaca? Se nem saía do lugar! Pois não teve que chamar o guincho? O quê?! O guincho não poderia levar o carro e a vaca para casa? Tinha que levar para a Delegacia?

    Lembro-me de um conto de Rubem Fonseca. Uma vaca foi atropelada por um trem, ficou lá estirada na linha. O que fez a população? Comeu a bicha. Um prato suculento, os favelados em volta morrendo de fome, não deixaram por menos: retalharam posta por posta de carne, distribuída equitativamente – ou mais para quem pudesse mais. Quem parte, reparte e não fica com a melhor parte ou é burro ou não entende da arte. Gozado que Rubem Fonseca era um escritor sério, que sabe o que faz, não iria fazer um plágio – justo com uma vaca! Sem querer, uma bruta coincidência, mas acontece que Stanislaw Ponte Preta já tinha contado a mesma história. Cruzes! A vaca foi retalhada duas vezes.

    E se fosse uma vaca na Índia? Ou por aqui mesmo, que temos muitos herdeiros do xintoísmo hindu. A vaca é sagrada. É mais do que sagrada. Poderia ser a encarnação da mãe do dono, ou da avó, da bisavó. De alguém da família. De um recém-nascido, que não teve forças para suportar este mundo imundo, foi-se – mas retornou na pele, ou no couro, de uma vaca. Não faça mal à vaca – isto daria um poema, poderia ser um refrão, um mantra, uma jaculatória. Não faça mal à vaca!

    Fez muito mal o professor em levar a vaca à Delegacia. Fez mais mal em não comer a vaca, tão apetitosa. Fez mais mal ainda em não ver o que de sagrado, de poético, de encantatório não havia por trás, por dentro da vaca. Não foi à toa que Jorge de Lima compôs um de seus melhores poemas dedicado à vaca: “A garupa da vaca era palustre e bela”. Por que teria o poeta chamado a garupa da vaca – e não anca, muito menos bunda – de palustre? Os poetas têm iluminações que ninguém entende – por isso são iluminações, por isso são, eles, poetas.

    Ah, o professor não poderia ter levado a vaca à Delegacia – que crime cometeu ela? Nem poderia ter comido a vaca – comem-se vacas anônimas, mas essa já ficou fazendo parte da minha mitologia particular. Muito menos poderia ter matado a vaca – que essa vaca, se não é santa, se não é fada, se não é nenhuma mulher amada, ah, essa vaca entrou no meu sonho e os sonhos não podem ser mortos. Professor, ou pelo menos você, meu improvável leitor, faça uma prece pensando na minha vaca – eu dormirei mais tranquilo sabendo que ela foi pelo menos motivo de uma prece, que é a forma mais poética de sonhar. Amém.

  • A revolução dos livros

    Os livros começaram a se infiltrar de novo. Fazem isso de madrugada, quando os sonhos se confundem com a realidade. Eram discretos antes, descarados agora. Hoje apareceram três ao lado do espelho do banheiro. Perdi a conta dos que se amontoaram sob a minha cama. Um livro velho sobre cidades fantasmas é particularmente teimoso. Achei que não gostava dos seus vizinhos de estante, então o coloquei sozinho na mesinha de cabeceira. Acordei com ele em cima do meu travesseiro, pedindo para que o abrisse. Fui com ele até a cozinha, com a intenção de procurar um espaço onde ficasse confortável. Ele pareceu se sentir bem dentro do armário, entre o pote de café e o de açúcar.

    Comecei a ter medo de todos eles, principalmente dos que se atiram das estantes como laranjas maduras, implorando por atenção. Os livros já não respeitam o menor espaço de minha casa e está difícil trabalhar sem a intromissão deles. Tentei fugir, mas sempre sabem onde me encontrar. Se as coisas continuarem assim, serei engolido por um deles e acabarei como aquelas flores secas que às vezes encontro entre uma página e outra.

  • Emoção fora de hora

    Nara sacudiu a minha cabeça, de novo. Ela tem o poder de me bagunçar. Sabendo que sou autista e não me dou bem com o imprevisto, deveria me preservar. Na última semana, ela tomou sozinha uma decisão importante: disse que ia comprar um husky siberiano. Moramos num apartamento de aproximadamente 110m². Ela brinca com a minha paciência e com a minha sanidade. Passei noites em claro pensando em como demovê-la de tal decisão. Veja só, já temos três gatos. Para ela, o que importa é que, quando pequena, criou dois huskies siberianos, e tem uma saudade danada daquela época. Só que, convenhamos, ela morava numa casa de, talvez, 300m², que tinha inclusive um canil, pois meu sogro amava os cachorros. Ou seja, morava com gatos, cachorros e passarinhos, sem comprometer o espaço – hoje, sobre pássaro enjaulado, ela tem repugnância. E eu não posso abrir o bico, porque estou “botando catinga” para as coisas de seu interesse; sou uma espécie de mal agouro para os seus arroubos de felicidade. Agora, passa o dia a procurar nos anúncios o bendito cachorro, e vem me mostrar o resultado, toda contente. Minha expressão, no entanto, é de aceitação, sem vibração. E, perceba, essa ideia é antiga, mas voltou com força total depois da morte de sua mãe, dona Aglais; daí o porquê de ser um assunto tão delicado. Enquanto ela efetivamente não compra, penso que isso é somente um sonho. O pior é que não posso abandonar o amor que sinto por ela, jamais. Na verdade, é uma paixão avassaladora que nos une, e quero sempre vê-la feliz – contanto que não me comprometa. Não é por acaso que estamos casados há vinte anos. Optamos por não ter filhos, porque sabemos que ser pai e mãe é uma responsabilidade tremenda. E, também, não temos aptidão para sermos pais, viajamos muito, trabalhamos muito, e tudo isso inviabiliza a criação. Então, hoje somos somente pais de pets. Não sei como vou lidar quando esse cachorro chegar. Nem ela quer saber se o condomínio aceita um animal desse porte – pelo menos, nunca vi um animal aqui maior que o Shin Tzu da minha vizinha Renata, do 601. Mas ela quer, e, quando quer, não há jeito que mude o fato sacramentado. A mulher, além de toda a força que tem, é opiniosa. Ela fala em se candidatar a síndica, possivelmente para viabilizar as suas vontades. Na última briga que tivemos, por causa do cachorro, ela sugeriu que preferia o cachorro a ficar comigo – culpa do Lucky e da Brigitte, seus antigos cachorros, que iluminaram os seus dias, quando criança. Falou isso como se dissesse que os incomodados que se retirem. Fiquei magoado, principalmente por não poder divergir dos assuntos de sua autoridade. Nara promete que vai buscar o cachorro até a próxima semana. Enquanto isso, preparo o coração para mais uma emoção fora de hora.

  • Uma vida normal

    Valéria gosta de Cat Stevens e Johnny Rivers, de ir ao cinema e de bife mal passado pingando sangue. Escondida de todos, costuma colocar açúcar no chão e vai esmagando as formigas que apareciam, uma a uma. Também se diverte arrancando folhas das árvores, plantas dos vasos, cortando com tesoura rabo de lagartixas e atirando pedra nos pombos. Valéria parece ter um comportamento estranho.

    Uma de suas maiores alegrias é a infelicidade alheia. Gosta de apontar os defeitos físicos dos outros: Fulana tem o nariz enorme, aquela ali tem dentes tortos e a vizinha, o cabelo pixaim. Miseravelmente, Valéria é bonita.

    A irmã mais nova foi quem mais sofreu. Quando criança, Valéria cansou de passar o sabonete nos olhos dela quando tomavam banho juntas, fechar a água do chuveiro quando estava toda ensaboada e molhar a toalha da menina na privada. A caçula adorava Valéria e aguentava tudo calada. Já adulta, dizia ter aprendido a lidar com as agruras da vida graças à irmã. Valéria nunca compreendeu.

    Os namorados também padeciam. No primeiro beijo de língua, arrancou um pedaço da boca do rapaz. Adorava o gosto de sangue, de preferência, o alheio. Seu maior prazer era seduzi-los, permitir pequenas intimidades, deixá-los excitados e depois sair fora.

    Valéria tem aversão a pedintes na rua, que enfeiam e emporcalham a cidade. Já havia pegado esmolas de um mendigo e roubado a bengala de um cego no sinal. Por puro divertimento.

    No computador, cultua discussões virtuais. Especialista em discórdia nos grupos, quando surge uma polarização, critica os dois lados. Ninguém presta.

    Jamais colocou uma gota de álcool na boca nem experimentou drogas, é drasticamente contra. Adora ser contra. Ainda mais, de forma drástica.

    Quando casou, esforçou-se para transformar a vida do marido num inferno. Não foi difícil. Achava sempre um jeito de diminui-lo, ora dizendo que era acomodado no emprego, ora péssimo amante. Escolhia os amigos dele para arrastar as asas e insinuava que eram eles que davam em cima dela.

    O marido morreu cedo. Caiu de um precipício durante uma caminhada com ela numa trilha alternativa no pico da Tijuca. Uma fatalidade. Valéria chorou muito no enterro. Meses depois, comprou um pastor alemão – o Pancho – que dorme no quarto com ela, como dois namorados.

    Viúva, passou a frequentar bailes e clubes de salão. Adorava dançar, pagando pelos dançarinos de aluguel. No final, reclamava que fora pisada no pé algumas vezes e do perfume que usavam. Só para poder esculhambar com eles, torpes exploradores da carência feminina.

    Hoje mora sozinha, não tem amigos, ainda escuta Cat Stevens e Johnny Rivers e prefere Netflix a cinema. Ganha dinheiro vendendo vídeos de sadismo com animais, torturando coelhos, afogando pintinhos no balde, esmagando baratas com as mãos e pisoteando camundongos. Valéria permanece com um comportamento bem estranho, mas algumas pessoas acham normal.

  • Luzia e o dia a dia

    Passa das onze e o casal se prepara para dormir. Ele, já na cama, lê o jornal. Ela entra no banheiro da suíte. Ele sempre lia o jornal antes de dormir e ela tomava seu banho. O segundo do dia; o primeiro era ao acordar.

    Ele acaba de ler e ela ainda no banho.

    — Luzia, não demora, quero dormir.

    Ela, no chuveiro, não escuta. A água morna batendo na cabeça, por cima da toca de banho e ela pensando na vida. Mais especificamente no seu casamento. Completariam seis anos de casados.

    — Luzia, porra, vem logo dormir!

    Agora Luzia tinha escutado. Ela já estava acabando de se enxugar. Por que tanto estresse? Nem tinha demorado assim no banho.

    Quando chega ao quarto, o marido aparenta estar dormindo. Ela acha estranho porque ele nunca dorme antes dela e com a luz acesa. Ela coloca um short e o soutien. Gosta de dormir sem calcinha. Penteia o cabelo, prende com rabo de cavalo, puxa o lençol, entra na cama e se ajeita.

    — Pode apagar a luz.

    — Até que enfim, né, Luzia?

    Ela prefere não responder. Rememora o tempo do começo do casamento: dormiam e acordavam juntos, às vezes abraçados. E sexo.

    Muito sexo. Isso que a incomoda. Não trepam há bastante tempo. De deitar e despertar abraçados nem sente tanta falta. Mas sexo…Ela nem lembra quando foi a última vez. Será que ele tem outra? Não, ela teria notado. A fase da paixão havia passado. Casamento passa por fases. Não é o que a perturba, mas a sensação de que, no momento, parecem se detestar, se aturar.

    — Você não quer mais ficar comigo. Se for isso, pode me dizer.

    — Que besteira é essa, Luzia? Está sem sono?

    — Quero só saber. Diga sim ou não.

    — Quero ficar com você. Agora, dorme.

    Ela não sente firmeza na resposta.

    — Mas ficar por ficar, na acomodação de tantos casais por aí, ou porque quer de verdade? Se pudesse escolher, ainda ficaria comigo?

    — Mesmo se a outra opção fosse a Scarlett Johansen?

    — Não fuja da resposta, ficaria ou não?

    — Ficaria, Luzia. Vamos dormir?

    Ela tinha perdido o sono. E a culpa era dele. Tudo havia começado com aquele “Luzia, porra, vem logo dormir!”. Ele nunca tinha se referido a ela daquela maneira.

    — Acho que deveríamos ter uma conversa séria.

    — Luzia, não acredito, conversa séria agora?

    — Para ficar com uma pessoa se sentindo constrangido, obrigado, não vale a pena. A vida é curta. Temos de ter um mínimo de carinho e consideração um com o outro. E respeito, respeito é o básico. Não porque estamos juntos e casados há algum tempo que vamos esquecer a noção de civilidade e educação. Eu até acho que…

    Ela é interrompida pelos roncos do marido.

    — Meu Deus, você dormiu?

    Luzia queria acordá-lo, sacudir-lhe a cabeça e gritar para que ele nunca mais fizesse isso, deixá-la assim no vácuo, falando para as paredes, literalmente.

    O marido continua ressonando. Ela desiste, puxa o lençol e enfia a cabeça no travesseiro. Está puta da vida. Amanhã, sem falta, terá uma conversa franca com ele.

    O marido para de roncar. Menos mal, Luzia tem dificuldade para dormir com barulho. No silêncio do quarto, ainda destila sua raiva. Nem pensar em ficar com alguém que não a respeita. Onde já se viu ficar casada para conviver com desaforos. Começa com “porra, Luzia” aqui, outro “porra, Luzia” ali, e quem sabe o que virá a seguir?

    O marido volta a roncar.

    Ela sacode o corpo dele para que cessem os roncos. Lembra que amanhã terá de acordar cedo para a aula de musculação e ainda fazer o supermercado. Luzia solta uns peidos, vira para o lado e pega no sono.

  • Um corpo que cai

    A Cida foi encontrada boiando no rio Pardo, a cabeça cortada, mal grudada no corpo.

    Tinha exigido do namorado Zé que largasse a mulher e fosse morar com ela. O danado só mandava esperar, mas ela estava cansada de ser enrolada. Ou deixasse a mulher duma vez, e os dois filhos, ou não ia mais querer saber dele. Pior, e tinha mostrado os braços fortes, de melhor cortadeira de cana da cidade.

    O Zé não era de ter medo, mas estava com o facão de cortar cana na mão, e perdeu a cabeça. Que ele se cuidasse, a Maria se cuidasse, as crianças? A Cida exagerou. Não precisava ameaçar. Ele gostava da Cida, mas ela exagerou. E o que as coitadas das crianças tinham com isso? A Cida deu burrada, e perdeu a cabeça.

    O Zé segurava a cabeça pelos cabelos:

    – Conheceu, papuda!

    Mas logo se arrependeu: – Eu não queria.

    Como não tinha mais jeito, botou em cima da mula e tocou para o rio. Foi deixando um rastro de sangue, da casa da Cida até o rio.

    Era ao pôr do sol, o céu azul pintado de vermelho como se estivesse em chamas. Como uma coivara, os tocos chamuscados ainda
    queimando. Até as águas no rio estavam se queimando.

    O Zé admirava, implicado com o sangue pingando nas calças e na camisa:

    – Esse trambolho!

    O Manuel da Venda e o João Venâncio estavam pescando. Nem viram o corpo ali perto deles.

    – A gente estava entretido, Doutor.

    O corpo enroscado nuns galhos, a água fazendo gluglu no buraco da garganta. Foi jogado de um barranco a dois passos dali, um baque na água.

    – A gente não ouviu barulho nenhum. Não é, Venâncio?

    – Dava para ver o vestido vermelho, boiando na água – disse o Venâncio, – mas nós não vimos nada.

    – Não era vermelho nada – disse o Manuel, – era sujeira de terra, de lama.

    – Por isso que não dava peixe, Manuel.

    – Que nada, aqui nunca deu peixe, Venâncio.

    – Por que é que a gente pesca, então?

    – Porque a gente é burro.

  • Bobeiras

    Faz tempo que falo com Renata sobre a situação do Marcelo. O menino está impossível. Não cumpre regras. Não respeita as professoras. Renata me diz que ele é somente um menino “normal”, saudável e brincalhão. “São coisas da idade, meu bem, não há nada de errado”. Como não? Na semana passada, no dia de banho de piscina na escola, o Marcelo, por puro impulso, furou a piscina inflável. O diretor veio falar comigo, que ele simplesmente, do nada, sem confusão alguma, pegou um pedaço de madeira e enfiou no plástico da borda. Acabou o dia de muitas crianças. Perguntei ao Marcelo se tinha ficado feliz, ele disse que não, mas com um ar de satisfação. Será que meu filho tem desvio de personalidade? A cabeça não para de rodar. Agora, todos os dias sou chamado pela coordenação. Já pensei em tirar o Marcelo do colégio, porque poderia haver algo de errado com a relação escola e criança hiperativa. A professora dele veio me contar que ele estava tirando o lanche das outras crianças, porque, segundo ela, “era mais gostoso que o dele”. Eu, por acaso, vou mandar bagulho para o meu filho merendar na escola? Mando sanduíche, suco e biscoito, às vezes. Ele tem de se acostumar a ter uma alimentação saudável. Converso muito com ele, brigo, mas não bato; quero que ele entenda da maneira certa, sem grandes embates. Felizmente, Renata concordou em levá-lo a uma psicóloga. Vai ter sessões normais e depois fazer um teste para saber se tem TDAH ou outro transtorno. Fico preocupado, sem saber como lidar, em muitas situações. E ele está crescendo, mais rápido do que o esperado, é verdade. Tenho feito o máximo que um pai médio pode fazer. Mas minha cabeça entra em parafuso quando a tia do colégio vem dizer que ele está espiando as meninas indo ao banheiro. Isso não é idade para uma criança se interessar por questões sexuais. Freud pode me contradizer. Não sei bem o que fazer. Converso, mas parece que entra por um ouvido e sai pelo outro, sem que provoque uma mudança razoável. Renata pede para eu me acalmar, que tudo está se resolvendo. Ela tem conversado com a professora dele e, animada, diz que estão colocando as coisas no lugar. Faz duas semanas que não recebo reclamações suas. Marcelo mesmo, quando vou buscá-lo no colégio, diz que não fez nenhuma bobeira. Já é uma evolução. Ainda que recente, talvez a psicóloga tenha conversado com ele de uma forma técnica que o pai não saiba resolver. Estudei um pouco de Melanie Klein, a grande psicanalista das crianças, mas não o suficiente para poder mudar o fado. A questão é que talvez eu não tenha pulso suficiente. A questão é que eu posso ser a raiz do problema, por não saber direcioná-lo. Tenho de levar mais as minhas inquietações ao meu analista, para que possa elaborá-las, pensando no bem do meu filho. Talvez eu tenha que me preocupar de menos e deixar as coisas andarem como tem de ser. O mundo ensina e muito.

  • Sugando Ana Paula

    Ana Paula nunca teve sorte no amor. Abusada na infância diversas vezes por um primo, calou-se sobre o ocorrido. Seu primeiro namorado era gay e ela demorou a descobrir. Achou que o problema era dela. Depois ficou noiva de um piloto de helicóptero que viajava muito e quase não ficava com ela. O noivado se arrastou com promessas de casamento. Um dia recebeu do noivo uma carta terminando tudo. Custou a se recuperar.

    Na faculdade conheceu um professor e se apaixonou. Não demorou e descobriu que ele era casado e tinha duas filhas. A caçula quase da idade dela.

    As sucessivas desilusões deixaram marcas e Ana Paula resolveu ficar um tempo sem se relacionar. Tentava disfarçar sua tristeza e seguia levando a vida. Procurou ajuda com terapia. Algumas sessões e a conclusão: sua infelicidade tinha origem na anulação dos próprios desejos.

    Ana Paula tentou se soltar e exigir menos. Não teve tantas oportunidades, apenas alguns namoros frustrantes. Parecia que tinha o dom de escolher parceiros ruins.

    Ainda assim, manteve a esperança de encontrar alguém. O homem escolhido deveria ter maturidade emocional, não precisava ser milionário nem bonito. Ela até simpatizava com calvos.

    Formou-se em Arquitetura e abriu um escritório em sociedade com uma colega da faculdade. Ana Paula descobriu que sua sócia era homossexual e apaixonada por ela. Mais para tentar manter o negócio do que por real interesse, cedeu e tentou a relação. Não deu certo. Terminaram a sociedade.

    A seguir, conheceu um engenheiro industrial numa festa de fim de ano. Atração imediata e recíproca. Ela custou a acreditar. Ele era um encanto, carinhoso, quase sem vícios, bem apessoado, enfim, de acordo com suas exigências. O namoro prosperava e Ana Paula não cabia em si de felicidade.

    Mas seu engenheiro, numa viagem a trabalho, sofreu um acidente de carro numa estrada, foi hospitalizado e entrou em coma durante quatro dias, até ser declarada sua morte cerebral.

    Durante esses quatro dias, ela ficou a seu lado no hospital, rezando e pedindo a Deus que ele sobrevivesse. Deus não poderia fazer isso com ela. Ana Paula, a partir do dia da morte do namorado, tornou-se uma descrente incondicional.

    Desanimada, sem estímulos, convenceu-se de que seu destino era ficar sozinha. Uma sina. De agora em diante, só casos passageiros, uma trepada aqui e ali e nada de expectativas.

    Era ainda uma mulher bonita, tinha um belo corpo e se comunicava bem. O sexo, no entanto, raramente a satisfazia. Convivia com ejaculações precoces e impotências alheias. Os orgasmos eram raríssimos. Assim, passou a cogitar seriamente a abstinência sexual.

    Até que uma amiga lhe falou a respeito de um sugador de clitóris em formato de porquinho – a escolha perfeita para quem buscava autoprazer aliado à fofura.

    Ana Paula visitou uma sex shop e se impressionou com a quantidade de brinquedos eróticos:  anéis penianos, massageadores, plugs anais… O tal “sugador de clitóris porquinho”, sugerido pela amiga, tinha dez modos de variações, era à prova d’água, não necessitava de pilhas e vinha com carregamento USB. Um pouco caro, mas ela considerou o custo-benefício, já imaginando os benefícios futuros.

    Na primeira noite quase desfaleceu de tanto gozar. Perdeu a conta. Imediatamente apaixonou-se. De agora em diante, não faria mais sentido buscar um homem que se encaixasse nos seus sonhos, melhor usufruir do seu fiel e incansável sugador.

    Num sábado chuvoso, sentindo-se romântica, resolveu fazer em casa uma harmonização de queijos e vinhos. Cortou pão francês emrodelas, queijos brie e camembert, além de um parmesão italiano. Abriu um cabernet chileno, separou duas taças (uma para ela e outra para o porquinho) e serviu o vinho. Depois de brindar, selecionou uma playlist de músicas calmas, apagou a luz e acendeu as velas. À mesa, arrumada com capricho, Ana Paula olhava, arrebatada, para seu parceiro sugador. Ele só faltava falar…

  • Fogos de artifício

    Era uma casa no subúrbio, e Maria acabava de preparar o jantar. Mexia as panelas e pensava que o início da reforma no telhado teria de esperar mais um pouco. Tomara que não chova forte, torcia. Naquele sábado de inverno brando, o clima no país era de tristeza e perplexidade. A eliminação do Brasil na Copa do Mundo era a responsável por essa depressão coletiva. A mulher ganhava a vida como diarista e tinha 66 anos. Aparentava mais. Vivia se queixando de dores pelo corpo e de problemas de saúde. Já não apresentava o mesmo vigor para as tarefas domésticas, mas não podia parar de trabalhar. Nunca soube o significado da expressão carteira assinada e morava sozinha, sem ter quem a sustentasse. Nas redondezas, alguns de seus filhos e netos. De vez em quando, eles se lembravam dela e a visitavam – Natal, aniversário, Dia das Mães, as datas obrigatórias. Ajudavam conforme podiam, eram quase tão necessitados quanto ela. Do ex-marido não queria nem ouvir falar. Tinha um ódio insuportável do único homem que conheceu durante toda a sua existência. Sentia-se aliviada desde que conseguiu se separar cinco anos atrás. A mágoa pelo velho Paulo não era compartilhada pelo resto da família. Ninguém jamais conseguiu compreender o motivo de tanto
    ressentimento.

    Maria não era ligada em futebol, mas, em época de campeonato mundial, tornava-se torcedora entusiasmada. Naquele dia, decidiu assistir ao jogo sozinha. Ficava nervosa e se sentia melhor sem ninguém por perto. Era também uma ótima chance de usar o bem mais precioso que mantinha em casa, agora praticamente inútil desde que se cansou de ver novelas e programas de auditório: um aparelho de TV de segunda mão ganho de uma de suas patroas. Preparava-se para botar a comida no prato quando Marilene, sua filha mais velha, chegou abatida.

    — Mas o que é isso, minha filha? Essa tristeza toda só por causa de um jogo de futebol? Onde é que nós estamos? Levanta essa cabeça, mulher!

    — Pois é, ninguém esperava, né? — disse a moça, constrangida.

    — Senta aí, come comigo, anda! Sei que você adora macarrão. Tá quentinho.

    Apesar de chateada com a derrota do Brasil, Marilene tinha um motivo muito mais grave para estar amuada. Precisava conversar com a mãe, não sabia por onde começar. Suas mãos tremiam, ela suava. Ficou calada por alguns instantes antes de revelar o motivo da visita.

    — Sabe o que é? É que… O pai acabou de morrer.

    — Como é que é? O traste empacotou? Foi isso que você disse?

    — Sim, foi agora, de repente. Coração… Depois do jogo.

    Por um segundo, Marilene achou que os olhos da mãe apresentaram um brilho cintilante demais para alguém que acabara de receber uma notícia tão grave. Notou ainda um tom de contentamento em sua voz, desses que brotam na boca de alguém que descobre ser o ganhador de um prêmio gordo na loteria, por exemplo. É claro, estava a par do que ela sentia pelo ex-marido, mas alegrar-se com o falecimento dele era demais. Maria começou então a andar agitada pela exígua cozinha. Seus movimentos descompassados lembravam alguma exótica dança tribal. Talvez significassem apenas alegria. A reação da mãe desconcertou Marilene, e ela resolveu ir embora. Não saberia o que dizer à mulher saltitante e eufórica que via diante de si.

    Novamente sozinha, Maria continuava a celebrar. Recordou-se dos fogos de artifício que havia comprado. Quando o Brasil ganhava uma partida, a vizinhança se punha à espera dos rojões e dos morteiros lançados no ar pela velha Maria. Dirigiu-se ao quintal e logo encontrou o que desejava. Em frente de casa, iniciou uma comemoração solitária e entusiasmada. Atraídos pelo barulho e pelo brilho, os vizinhos nada entendiam. Com a morte de Paulo, Maria tinha acabado de receber da vida um ansiado troféu. Seu contentamento era imenso. Sua Copa do Mundo estava ganha.

  • O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam.

    Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar.

    Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse.

    Passavam os dias, passavam as noites, e o menino durinho na cama.

    Como se estivesse morto, todo mundo pensava.

    Quando acordou, disse:

    – Preferia não ter acordado – ninguém entendeu por quê.

  • Para a minha análise

    Olho à frente. Como um marinheiro cheio de expectativas de aportar. Às vezes a visão me sabota. Quero ir com muita sede ao pote e me deparo com um paredão. E volto ao estado inicial, de principiante; um novo aprendiz de mim. Pequeno, desprotegido, parto para um possível recomeço. Tenho de olhar em volta e buscar um remanso; a vida está muito dura. Logicamente, emaranhei-me em tentativas de felicidades; ou o que julgava ser felicidade. Quantas vezes me arrisquei e me frustrei. O que sei de mim é que estou, quase sempre, inspirado ou de corpo aberto para ser provocado. Quero perceber sensações novas. Quero uma vida abundante, notadamente de saúde, que, no meu caso, não anda tão boa assim. Não posso culpar ninguém, eu mesmo entrei nesse redemoinho, e deverei sair vitorioso, quiçá. Se tiver forças, farei isso, para o meu orgulho próprio de ter conseguido alcançar meus objetivos. Não, isso não é uma carta de desaforos. É somente um bocado de palavras, sentimentos, que estavam, a priori, guardados em mim. Eu as encontro em pensamentos esparsos, que vagam por esse corpo sensível e ridiculamente acostumado a psicotrópicos. Veja bem, não estou pedindo socorro, é só um modo de pensar e de me esvaziar. Estou cheio e farto, e ainda tenho de aguentar o período eleitoral. Hoje, dia 7 de setembro de 2026, a dor de cabeça me abateu, profundamente, pensei que ia morrer, com tanta maluquice que vejo nos noticiários. Brasileiro com bandeira de americano, com Trump como orgulho nacional (de que nação, cara-pálida?!)… Se você se julga meu amigo, me diga coisas boas, para ver se retomo os trilhos, mesmo diante de tantas provocações. É preciso viver; estou certo disso, mas não sei como. Desviei-me, talvez, do caminho correto da bondade, do olhar casto (que tinha quando menino), de o bem praticar, a quem precisar, indistintamente (reclamo agora porque já fui assim). Ajudar as pessoas me dá um prazer enorme, mas, infelizmente, me afastei disso, pela crueza da vida, que tanto relato. Não sei se tenho forças para mudar esse fado. Mas vou tentar me reinventar, como sempre o faço, para crer na boa nova, para crer que tudo pode mudar, para melhor, como já me aconteceu. Estou somente, momentaneamente, desnorteado, bagunçado. Preciso que me deixem pensar. Preciso parar e pensar, organizar os meus conflitos. Insisto em escrever no meu diário, porque, só assim, sei do sentimento que percorre o meu corpo a cada dia. Faz, talvez, dez dias que não o atualizo. Pois agora pretendo deixá-lo em dia, para que eu possa conversar com o meu analista e pegar a onda da vitória. Nada a ver com competição. A vitória que digo é saber lidar bem com as minhas inúmeras e desorganizadas emoções. Paro por aqui, pois penso que escrever demais leva à confusão.

  • Vivo emoções em seu lugar ou tributo a Ariano

    Doralice ganhava a vida de um modo estranho. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar que alguém pudesse tirar o próprio sustento por meio de uma atividade como aquela. Até que vi numa revista a reportagem de título chamativo: “Vivo emoções em seu lugar”. Ela se intitulava artista performática, morava em Recife e garantia poder realizar desejos – sonhos também, por que não? – de moradores de outras cidades brasileiras e até estrangeiras, coisas como visitar um certo local, fazer um determinado programa, encontrar alguém ou tudo isso junto se a vontade do cliente assim determinasse.

    Após o estranhamento inicial, percebi que os serviços daquela mulher de comportamento inusitado me seriam bastante úteis. Na ocasião, eu morava em Teresópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro. Dias antes, havia assistido a um festival de teatro organizado pela prefeitura num clube tradicional do município. O evento era dedicado à obra de Ariano Suassuna, autor nordestino que, até então, eu desconhecia. Três filhos pequenos, viúva recente, professora em duas escolas. Não tinha tempo para bobagens como teatro. Levada por uma amiga, acabei assistindo a obras-primas como Auto da compadecida, O santo e a porca, A farsa da boa preguiça e Torturas de um coração, peças de enredos críticos e bem urdidos, habitadas por personagens simples, representantes perfeitos de parcela significativa do povo brasileiro.

    Na semana seguinte, lá estava eu, diante do computador da escola, buscando informações sobre Ariano e sua obra. Quanto mais eu lia, mais me vinha a vontade de encontrá-lo e de conversar com ele. Gostaria de conseguir lhe dizer algo a respeito do impacto que seus textos me causaram. Doralice poderia fazer isso por mim. Claro… A atriz da minha cena, a intérprete de mim mesma. Quem sabe durante um passeio de barco pelo Rio Capiberibe. O cenário deveria estar à altura do acontecimento. O rio seria perfeito. Sempre ouvi dizer que Recife é uma cidade encantadora. O texto também teria de ser caprichado. Um texto dirigido a um escritor deve ser mesmo especial. Não poderia me descuidar da iluminação. Luz natural… O pôr do sol, o luar talvez. Figurino de gala também seria imprescindível. Eu e Doralice acertamos todos os detalhes. Ela comprou minha ideia de cara. Senti que se empenharia em realizá-la da melhor maneira possível, exatamente como da vez em que, a pedido de um ardoroso torcedor do Grêmio, teve de depositar um buquê de rosas brancas no gramado do Estádio dos Aflitos. Era um agradecimento emocionado pela dramática vitória do time gaúcho sobre o Náutico durante aquela partida histórica de 2005, a famosa Batalha dos Aflitos.

    O encontro aconteceu e foi registrado. Não houve Capiberibe, pôr do sol nem luz do luar. Num café do Recife Antigo, Doralice e Ariano se reuniram. Tudo sucedeu de forma muito mais modesta do que eu havia imaginado. Ariano é assim mesmo, desligado de formalidades. Hoje, recebi pelo correio a gravação em DVD do evento. As crianças dormem. O tique-taque do relógio de pêndulo impede que o silêncio na casa seja completo. Sozinha na sala, ligo a televisão e me transporto. O Recife é logo ali… E é mesmo lindo.

  • A galinha manca

    A galinha atravessa vagarosamente o terreiro. Cada passo é quase uma queda. A galinha é torta, tem uma perna mais curta que a outra. É uma galinha manca.

    Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse calculando cada movimento. O terreiro é largo, clareado aqui e ali por algumas réstias de sol. O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra preta, folhas, penas e dor.

    A galinha é um bicho só. Procura algum grão de milho, uma minhoca, procura a sombra, procura o sol. A galinha conjuga os verbos da solidão. Nenhuma outra galinha, nenhum galo. A vida parece sem sentido.

    A galinha ergue a cabeça, apruma o corpo, soluça e volta a caminhar. É preciso presto caminhar. A galinha olha para um lado, para o outro, olha fixo para um objetivo determinado, um ponto que só ela vê. E caminha.

    Sente falta de uma muleta, talvez de uma bengala. Mas caminha, tropeçando na própria perna, caindo, levantando. Caminha, intrépida, poderosa. A galinha mínima domina o seu mundo mínimo.

  • A chuva estranha

    A terapeuta disse à mamãe que procurasse sair do quarto e fazer alguma atividade simples que lhe desse alegria. Sugeriu que cuidasse do jardim. Mexer com a terra é o melhor remédio contra a depressão. Plantar flores ou fazer uma horta traria enormes benefícios à saúde mental de todos. “Aproveitem a primavera precoce que já está no ar”, disse ela. A família toda concordou. Aquele pedaço do terreno atrás da casa estava mesmo inútil, tornara-se uma floresta em miniatura, onde o mato crescia sem controle e onde sempre perdíamos nossa bola de futebol. Todos nós, exceto papai, nos dedicamos a capinar e adubar a terra e plantar flores de várias espécies e belezas.

    Depois de um mês, um poeta, uma dançarina e um violinista germinaram entre os canteiros de cravos e amores-perfeitos. O poeta escreveu palavras novas que mamãe cantou, acompanhando o som do violino, e a dançarina girou loucamente ao nosso redor, como uma borboleta gigante e exótica. Choveram cores primárias e pulamos em poças d’água roxas, amarelas e verdes, salpicando tudo ao redor. Papai olhou para nós muito sério, abrigado embaixo do caramanchão, como se não estivesse feliz ouvindo mamãe cantar depois de tanto silêncio. “São as malditas flores que provocaram essa chuva estranha, onde já se viu chover colorido?”, murmurou, e recolheu a água multicolorida em frascos para analisá-la em seu laboratório. Uma noite, enquanto dormíamos, jogou herbicida no jardim. O poeta, a dançarina e o violinista murcharam da noite para o dia e minha mãe se trancou no quarto novamente. Uma aragem gelada tomou conta da casa.

  • Finjo que consigo viver assim

    Procuro acalmar Luana. Ela está em polvorosa, com medo de ser demitida. O nosso chefe é de veneta, a cada minuto podemos esperar um vendaval ou um refresco brando de mar. Ele é uma boa pessoa, já demonstrou diversas vezes quando quer nos ajudar, mas pode pegar no meu pé ou no pé de qualquer colega por semanas, e isso nos aflige. Nas reuniões, somos chamados a falar: sempre me saio mal, por conta da minha timidez excessiva, mais especificamente por conta do autismo. Acho, talvez, que ele tem pena de mim, por isso não me põe para fora; ou mesmo porque, como tenho muito foco, consigo terminar as atividades a contento. Nessas reuniões, passo ideias às vezes confusas até para mim. Definitivamente, não sei me expressar. Mas estou há três anos na empresa, e até hoje não recebi feedback sobre o meu comportamento. Meu chefe sabe que tenho autismo, mas prefere esquecer; ele me trata como um sujeito “normal” – até gosto disso. Não desejo ter “privilégios”, somente ser aceito com minhas intrínsecas condições. Tem vezes, como hoje, que quero ficar isolado; tenho medo do mundo. Luana me dá todo o suporte, porque é sensível à situação. Ela está há menos de um ano na empresa e me pede, sempre, conselhos sobre o que fazer, sobre como se portar. Digo, sempre, para agir de maneira espontânea e leve, como de fato ela é – e eu a admiro por isso. A pobre tem receio de ser demitida, e diz que procura outras opções. Não consegue, absolutamente, se acostumar com a inconstância emocional do nosso chefe. Hoje mesmo ele chegou nervoso, estilo vendaval; bateu na mesa, chamou Luana para que “prestasse” atenção nos aluguéis em atraso. Luana é casada, possui dois filhos e marido, e é praticamente arrimo de família. Tenho pena de sua decisão, do que está passando. Tenho um apego emocional a ela, porque sei que me entende, por isso faço de tudo para que fique no escritório. Mas não teve jeito, na segunda-feira passada ela chegou superanimada, dizendo que tinha sido chamada para outro trabalho. Que passou numa seleção acirradíssima. Ela é uma mulher de muitos valores e merece ser feliz, é assim que penso agora… O que posso fazer? Nada. Desejei-lhe toda a felicidade do mundo. Wilson e Renato, meus colegas, ainda me dão um suporte, brincam para me distrair, pelo menos sei que não ficarei sozinho. No entanto, tenho muitos medos; o trabalho pode se tornar um ambiente hostil, e ter de me virar sem Luana é mesmo angustiante. Ela já saiu sem dar um tchau. E entendo a sua euforia. Não tenho filho para criar, sequer sou casado. Moro num flat que era do meu pai, que ele me deixou de herança. Tenho uma vida moderada, às vezes – ou muitas vezes – reclusa. E assim vou me virando para viver nesse mundo cão, que não entende a neurodivergência. Meus colegas de trabalho brincam, e tenho certeza de que sequer lembram que sou autista. As pessoas fingem que me entendem. E finjo que consigo viver assim.

  • O Sorriso Perdido

    Jandira teve uma infância de indigente. Criada com mais seis irmãos numa cidade pequena no interior, enquanto seu pai trabalhava na roça, ela ajudava a mãe a cuidar da casa e das crianças. Na tapera em que moravam, a miséria acompanhava de perto a família. Não havia comida todos os dias, faltava luz elétrica e, no caso de Jandira, lhe faltavam todos os dentes da frente. Era pobre, raquítica e banguela.

    Com dez anos, foi entregue aos cuidados de uma senhora para trabalhar na fazenda. Logo aprendeu as tarefas domésticas e se destacou na cozinha. Dava gosto a sua força de vontade e o esforço que fazia em aprender e melhorar. Seu jeito tímido e sempre sorridente cativava. Ela sorria, tapando a boca com a mão. “Jandira, abre essa boca, menina, onde se viu rir assim de boca tampada”.

    Com o tempo Jandira foi se tornando peça-chave na fazenda, uma espécie de faz tudo. Movida por aspirações maiores, mudou-se para a cidade grande e arrumou emprego como ajudante de cozinha numa lanchonete.

    Ela não pensava em namoro, diversão, em mais nada, somente trabalhar e guardar dinheiro quando sobrava algum. Vendendo quentinhas nas horas vagas, obteve certa prosperidade. Seu tempero era comentado. Nessa toada foi levando a vida, sorrindo de boca fechada e sonhando com o dia de deixar de ser banguela e poder dar gargalhadas com seus dentes à mostra. A vida por uma dentadura completa.

    Com obstinação e alguma sorte, finalmente conseguiu no programa do SUS um implante dentário. O procedimento envolvia cirurgia, seguida de osseointegração e colocação da base fixa. Jandira nunca tinha ouvido falar daquilo, apavorou-se e quase desistiu. Mas a longa espera por uma dentadura falou mais alto. Tomou coragem e confirmou o bendito implante.

    Os pinos de titânio foram fixados no osso maxilar de Jandira que aguentou firme, como só Deus sabe. Enfim, teria de volta a função estética do sorriso. Tudo o que sempre havia sonhado.

    Com dentes novos, era outra mulher. Durante o dia, vivia de boca aberta mostrando os dentes por qualquer motivo, orgulhosa que só. À noite, rezava fervorosamente para que não houvesse nenhuma infecção ou rejeição. Eventuais dores e algum sangramento na gengiva, mas nada de grave. O implante múltiplo tinha sido um sucesso. Somente uma singularidade: com o tempo, foi percebendo que quando ia sorrir, involuntariamente tapava a boca. Talvez reminiscências antigas e enraizadas. Bem no fundo, sua alma ainda trazia o seu velho sorriso desdentado.

  • O fim do mundo

    Francisco saltou do metrô apressado. Estava a 300 metros do consultório, e faltavam apenas cinco minutos para o início da sessão. Não se atrasava nunca e, ao contrário de muitos, estava sempre bem-disposto às segundas-feiras. O terapeuta também raramente o atendia fora do horário. Naquele dia, tudo foi diferente. Entrou 45 minutos depois da hora marcada. Tinha muita coisa para falar, havia ensaiado um discurso na véspera. Havia feito anotações no bloco de notas do celular. Já acomodado no divã, começou:

    — Sabe qual é meu maior desejo?

    — …

    — Que o mundo acabe.

    — Mas do jeito que o homem vem tratando o meio ambiente…

    — Não é isso, você não entende! Queria que o mundo acabasse hoje. Ou no máximo na semana que vem. Será que o, deixa eu ver aqui, o Kim Jong-un não tem lá um arsenal atômico secreto… Ou o Irã, quem sabe o Irã… Alguém podia apertar um botão e bum! acabar com tudo. A Rússia está doidinha pra provocar a terceira guerra mundial. Esse Putin não regula bem, parece questão de tempo… Sem contar o Trump, esse doido é um caso à parte…

    — Bem, hoje a gente fica por aqui.

    — Nossa, tive a impressão de que o tempo passou tão rápido…

    — Mas, se você quiser, a gente volta a falar sobre o fim do mundo na próxima sessão, ok?

    Até semana que vem.

    ***

    Enquanto isso, lá em cima no firmamento, o Criador, em companhia de seus anjos, arcanjos, serafins e querubins, repassava a agenda da semana: terça-feira: atentado em universidade americana (39 mortos e 43 feridos); quarta-feira: tsunami e terremoto no Japão (987 mortos, 1264 feridos e 5 mil desaparecidos); quinta-feira: enchente na Malásia (294 mortos e 500 desparecidos); sexta-feira: inundação de lama no Nepal (175 mortos e 384 desaparecidos); sábado: incêndio em floresta da África do Sul (45 pessoas mortas, flora e fauna devastadas); domingo: FIM DO MUNDO.

  • O PARDALZINHO

    O nenê era como um pardal palpitando na palma da mão. Estava morto?

    Não sei o que vou fazer. Depósito com cuidado na covinha, aberta no jardim, cercada de flores.

    Aí ele pára de se mexer. Dá uma respirada comprida, dá que nem uma tossinha engasgada, dá outra respirada já meio sumida, e pronto: agora está morto.

    A Cida ainda está chorando. Mulher chora por qualquer coisa. Era o filho dela? Também era o meu filho.

    Nunca mais vou-me esquecer daquele montinho de terra, parecia que estava pulsando, como se o Eusébio estivesse vivo ali dentro. Eu quis homenagear o meu pai dando o nome dele ao meu filho.

    E agora está morto embaixo da terra. E eu o sinto pulsando embaixo da terra. Se o meu Eusébio morreu duas vezes – se ele estava vivo quando o deixamos embaixo da terra?

    A Cida me culpa, eu me culpo, a minha mãe me culpa, o mundo me culpa – e eu culpo todo mundo. Deus é o grande culpado! Se o Eusébio ia morrer, por que nasceu?

    E eu o vejo vivo como um pardalzinho palpitando na palma da mão, pulsando muito de levezinho – embaixo da terra.

  • Isso é para a vovó

    Meu primo Alfredo chegou correndo e me entregou um pacote pequeno. Disse: “É pra entregar pra vó.” Entrei em casa e falei: “O Alfredo mandou entregar isso pra vovó.” Paty, minha irmã menor, fazia a lição da escola na mesa da copa e gritou na direção da cozinha: “Manhê, o Juca falou que o Alfredinho mandou uma coisa pra vó.” Minha mãe, sem parar de mexer nas panelas, virou o rosto e alterou a voz: “Então fala pro Juca levar logo isso pra sua avó.” Juquinha foi até a sala onde seu pai lia o jornal e falou: “Paiê, olha aqui, o Alfredo trouxe isso e falou que é pra vovó.” O pai olhou na direção do quarto de costura em que a velha finalizava um vestido de baile feito por encomenda e gritou: “Mãe, olha, tem uma encomenda aqui, o Alfredinho, filho da Virgínia e do Alencar, foi quem mandou. Ele disse que é pra entregar pra senhora, pega aqui?”

    A avó primeiro tirou os óculos e os olhos do vestido esticado sobre a Singer, pensou um pouco e sorriu para si mesma. Ajeitou os cabelos num coque apressado. Levantou-se e caminhou devagarinho desde o fundo do quarto até a sala. Tinha um sorriso tímido nos lábios e uma esperança brilhando no olhar.

  • Imagine a minha dor

    Me vi no fundo do copo. É aterrorizante se ver distorcido, confuso, sem se entender bem. Vi também todos os meus achaques ali, quando me sentei e pensei em Ludmila. Ela me deixou, há anos, sem chão. Não porque quisesse. Ela me foi arrancada, a fórceps, como num nascimento complicado. E olhe que Ludmila se cuidava. Não fumava nem bebia, como eu. Aliás, todas as minhas doenças advêm disso, da minha vida tresloucada, irresponsável, principalmente depois da partida de Ludmila. Talvez por isso ela nunca quis ter filhos comigo. Até hoje não sei se era má vontade ou infertilidade. Uma vez ela me liberou para ser pai, se quisesse engravidar outra. Falei para ela que não existia outra. Não cogitava ficar com qualquer mulher. Ser pai nunca foi o meu sonho, ademais. E nunca fui cobrado por isso, de quem quer que fosse, nem mesmo dos amigos, porque havia, há tempos, colocado um ponto final neste assunto, para que ninguém me aperreasse. Pensava, inclusive, que não gostava especificamente de mulher, do gênero feminino, mas sim da Ludmila. E isso me trazia uma louca distorção. Não era capaz de me imaginar por cima de Cláudia Raia ou de Christiane Torloni – a quem razoavelmente aceitava como divas, sensuais, e nada mais. Ludmila era minha fonte de inspiração. Meus melhores sentimentos surgiram a partir dela. Nos conhecemos incrivelmente na infância e logo nos apaixonamos. Não tive outra mulher na minha vida. Meu pai era um puto, porra-louca, vagabundo, e me levou à força para um cabaré (lembro-me dessa espécie de pocilga, nojenta, o cabaré da Zitinha). Dei um tapa no rosto da puta Morena e pulei o muro. Corri feito um fanático, chorando, me sentindo sujo, me sentindo inapto para o meu amor. Ludmila era um corpo e uma alma minhas, com as quais eu tinha, inclusive, me formado como ser humano. Absolutamente, meus pais, separados, tinham suas vidas e seus filhos novos, e se esqueceram de mim. Me pagavam uma mixaria para passar o mês; salário de “cala-boca”; como se fizessem muito por mim. Não me davam um pingo de atenção, mesmo quando fiquei doente no hospital, por conta da diabetes; aí foi quando Ludmila permaneceu serena, dona de si, porque não era vinculada a nenhum escritório, porque era uma puta profissional (não profissional puta), e não necessitava permanecer, como eu, horas e horas no escritório, no meu caso de contabilidade. Por essas e outras, me casei cedo. Não tinha tempo a perder, se já sabia que era e sempre seria Ludmila, o meu grande amor. Mas ela partiu o meu coração (poderia ter sido o meu a parar naquele momento), enquanto o dela pifou. Ela teve um mal súbito quando eu viajava a trabalho. Soube de sua morte quando a vi estirada na cama, branca, possivelmente no mesmo dia do ocorrido. Imagine a minha dor. Não suporto mais estar morto por dentro. E sequer vislumbro um novo e absurdo amor. Se possível, me entenda, fulana…

  • Vasco x Fluminense

    Junto à porta entreaberta, olhou para o fundo da sala. No Sofá, o pai aguardava o início da transmissão pelo Première. Vestia a tradicional camisa verde, branca e grená. Atrás, o número dez e o nome eterno: Rivelino. Não quis colocar o próprio nome, como faziam por aí. Era o de Rivelino, e não o dele, que vararia os tempos.

    O rapaz fitava o pai, antes de afinal sair. “Boa sorte pra vocês”, e acenou para o velho, que retribuiu a nobreza do gesto. Eram adversários, mas eram pai e filho.

    O jovem ganhou o corredor do prédio e no espelho do elevador conferiu a cruz de malta vermelha enfeitando a faixa branca que cruzava o tecido preto. Atrás, também o número dez e também outro nome a ser abrigado pela eternidade: Roberto Dinamite.

    Por que não tinha um pai vascaíno? Perguntou-se na infância. Adulto, essa pergunta perdeu o objeto, e ganharam peso e sentido certas comparações: o pai do fulano espanca a mãe dele; o do beltrano se envolveu em roubalheira na secretaria de Educação. Pareciam até flamenguistas, mas torciam pelo Vasco.

    Quando o filho bateu a porta, o pai ficou olhando, sem ver, o início da transmissão. O já não tão mais garoto estava agora num bar de uma das esquinas da Dias da Cruz com seus pares de torcida. Há mais de trinta anos não assistiam juntos àquele clássico que os opunha, desde quando o garoto escolheu que camisa vestiria, e não era a que vestiram Edinho, Pintinho, Rubens Galaxye, Branco, Romerito, Assis e Washington, além de Rivelino. A mãe, torcedora do Botafogo, não tinha poder de influência clubística sobre o menino. Mas disse ao marido, a título de compensação: “Dos males o menor. Imagina se vira Flamengo?”. O marido até concordou, mas durante algum tempo remoeu aquela escolha. “Um garoto bacana, bem-criado, por que não torce pro Fluminense?”. Ao longo dos anos, a vida lhe ofereceu reflexões. O filho do fulano, drogado de precisar de clínica; o outro, do sicrano, deu desfalque monstro na firma em que trabalhava. Eram tricolores, “mas parecem até flamenguistas”, ele se divertia consigo mesmo, não obstante os colegas conviverem com o desgosto de pai.

    Quando a bola rolasse, aquele clássico teria uma peculiaridade. A mãe botafoguense não estaria mais ali, como sempre esteve, para equilibrar a torcida, conseguindo a estranha proeza de torcer pelos dois times, ou melhor, pelo filho e pelo marido. Agora, para cada um deles, uma vitória dentro das quatro linhas seria um bálsamo menor do que um grito de gol, mas já seria um consolo.

    No primeiro gol, o rapaz gritou forte, com vontade, erguendo os punhos; era uma quebrada na tensão, já que o empate dava vantagem ao outro lado na classificação. Só que menos de dez minutos depois, um chute de longe, o goleiro atrasado, a triscada na trave. E tudo igual de novo. Pensou no velho, no velho se consolando da ausência instransponível da mãe. Dez minutos antes, fora o pai quem pensara o mesmo, em relação ao filho tendo uma alegria espontânea, que de tão grande e verdadeira alegria parecia eterna.

    Ficaram assim no primeiro tempo, tudo igual. Na volta, cinco minutos depois de a bola ter rolado, o bar veio abaixo. “Vaaaaaaascooooo!!!!”. Pularam sobre ele, é sempre bom dividir com um abraço amigo a glória que nos concede um gol do nosso time. Ele comemorou, mas não sabia explicar, sem a mesma vibração do primeiro.

    Passou o resto do jogo com a angústia comum a todo torcedor. O ataque do Fluminense em dia de massacre; a defesa do Vasco, em dia de milagre. Estava angustiado por causa da pressão adversária, com o 2 X 2 iminente; mas também estava angustiado porque eles não empatavam. Era estranho, estranho e louco.

    Até que aos quarenta e quatro, uma bola espirrada armou o contra-ataque, o Fluminense todo lá na frente; a defesa aberta virou uma avenida e recebeu o golpe de misericórdia. O bar tornou a explodir em gritaria. Novamente os amigos o envolveram num abraço coletivo, dessa vez mais eufórico, no êxtase que era o da consagração. Fatura liquidada, classificação garantida e vaga na final assegurada. “E-li-mi-na-do!” e, em coro, as mesas cantavam. Ele ensaiou repetir, mas não evoluiu no canto, se aquietou. Tomou mais dois chopes, praticamente calado, e desse jeito voltou andando para casa. Abriu a porta da sala e deu com o pai, sisudo e acabrunhado, sentado no mesmo lugar, assistindo ao noticiário da noite. Não tirou a camisa tricolor. Ocasião houve de ter dormido com ela.

    O velho fez menção em dar os parabéns quando o filho se aproximou, mas reparou no cenho pesado do rapaz. “O que é menino? Que cara é essa?”. “Eu tô triste, pai…”. “Por que, cara?”. “Pra mim não teve muita graça”, e fez uma expressão cujo significado era tão claro, mas tão óbvio que dispensava a mínima frase que fosse.

    Uma luz da TV escorreu azulada pelo rosto do pai. Levantou-se do sofá, foi em direção ao rapaz, dizendo “Pois eu estou muito contente, muito contente mesmo”, e os dois, agora sorrindo, abraçaram-se com os olhos marejados.

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