COntos

  • Uma vida normal

    Valéria gosta de Cat Stevens e Johnny Rivers, de ir ao cinema e de bife mal passado pingando sangue. Escondida de todos, costuma colocar açúcar no chão e vai esmagando as formigas que apareciam, uma a uma. Também se diverte arrancando folhas das árvores, plantas dos vasos, cortando com tesoura rabo de lagartixas e atirando pedra nos pombos. Valéria parece ter um comportamento estranho.

    Uma de suas maiores alegrias é a infelicidade alheia. Gosta de apontar os defeitos físicos dos outros: Fulana tem o nariz enorme, aquela ali tem dentes tortos e a vizinha, o cabelo pixaim. Miseravelmente, Valéria é bonita.

    A irmã mais nova foi quem mais sofreu. Quando criança, Valéria cansou de passar o sabonete nos olhos dela quando tomavam banho juntas, fechar a água do chuveiro quando estava toda ensaboada e molhar a toalha da menina na privada. A caçula adorava Valéria e aguentava tudo calada. Já adulta, dizia ter aprendido a lidar com as agruras da vida graças à irmã. Valéria nunca compreendeu.

    Os namorados também padeciam. No primeiro beijo de língua, arrancou um pedaço da boca do rapaz. Adorava o gosto de sangue, de preferência, o alheio. Seu maior prazer era seduzi-los, permitir pequenas intimidades, deixá-los excitados e depois sair fora.

    Valéria tem aversão a pedintes na rua, que enfeiam e emporcalham a cidade. Já havia pegado esmolas de um mendigo e roubado a bengala de um cego no sinal. Por puro divertimento.

    No computador, cultua discussões virtuais. Especialista em discórdia nos grupos, quando surge uma polarização, critica os dois lados. Ninguém presta.

    Jamais colocou uma gota de álcool na boca nem experimentou drogas, é drasticamente contra. Adora ser contra. Ainda mais, de forma drástica.

    Quando casou, esforçou-se para transformar a vida do marido num inferno. Não foi difícil. Achava sempre um jeito de diminui-lo, ora dizendo que era acomodado no emprego, ora péssimo amante. Escolhia os amigos dele para arrastar as asas e insinuava que eram eles que davam em cima dela.

    O marido morreu cedo. Caiu de um precipício durante uma caminhada com ela numa trilha alternativa no pico da Tijuca. Uma fatalidade. Valéria chorou muito no enterro. Meses depois, comprou um pastor alemão – o Pancho – que dorme no quarto com ela, como dois namorados.

    Viúva, passou a frequentar bailes e clubes de salão. Adorava dançar, pagando pelos dançarinos de aluguel. No final, reclamava que fora pisada no pé algumas vezes e do perfume que usavam. Só para poder esculhambar com eles, torpes exploradores da carência feminina.

    Hoje mora sozinha, não tem amigos, ainda escuta Cat Stevens e Johnny Rivers e prefere Netflix a cinema. Ganha dinheiro vendendo vídeos de sadismo com animais, torturando coelhos, afogando pintinhos no balde, esmagando baratas com as mãos e pisoteando camundongos. Valéria permanece com um comportamento bem estranho, mas algumas pessoas acham normal.

  • Luzia e o dia a dia

    Passa das onze e o casal se prepara para dormir. Ele, já na cama, lê o jornal. Ela entra no banheiro da suíte. Ele sempre lia o jornal antes de dormir e ela tomava seu banho. O segundo do dia; o primeiro era ao acordar.

    Ele acaba de ler e ela ainda no banho.

    — Luzia, não demora, quero dormir.

    Ela, no chuveiro, não escuta. A água morna batendo na cabeça, por cima da toca de banho e ela pensando na vida. Mais especificamente no seu casamento. Completariam seis anos de casados.

    — Luzia, porra, vem logo dormir!

    Agora Luzia tinha escutado. Ela já estava acabando de se enxugar. Por que tanto estresse? Nem tinha demorado assim no banho.

    Quando chega ao quarto, o marido aparenta estar dormindo. Ela acha estranho porque ele nunca dorme antes dela e com a luz acesa. Ela coloca um short e o soutien. Gosta de dormir sem calcinha. Penteia o cabelo, prende com rabo de cavalo, puxa o lençol, entra na cama e se ajeita.

    — Pode apagar a luz.

    — Até que enfim, né, Luzia?

    Ela prefere não responder. Rememora o tempo do começo do casamento: dormiam e acordavam juntos, às vezes abraçados. E sexo.

    Muito sexo. Isso que a incomoda. Não trepam há bastante tempo. De deitar e despertar abraçados nem sente tanta falta. Mas sexo…Ela nem lembra quando foi a última vez. Será que ele tem outra? Não, ela teria notado. A fase da paixão havia passado. Casamento passa por fases. Não é o que a perturba, mas a sensação de que, no momento, parecem se detestar, se aturar.

    — Você não quer mais ficar comigo. Se for isso, pode me dizer.

    — Que besteira é essa, Luzia? Está sem sono?

    — Quero só saber. Diga sim ou não.

    — Quero ficar com você. Agora, dorme.

    Ela não sente firmeza na resposta.

    — Mas ficar por ficar, na acomodação de tantos casais por aí, ou porque quer de verdade? Se pudesse escolher, ainda ficaria comigo?

    — Mesmo se a outra opção fosse a Scarlett Johansen?

    — Não fuja da resposta, ficaria ou não?

    — Ficaria, Luzia. Vamos dormir?

    Ela tinha perdido o sono. E a culpa era dele. Tudo havia começado com aquele “Luzia, porra, vem logo dormir!”. Ele nunca tinha se referido a ela daquela maneira.

    — Acho que deveríamos ter uma conversa séria.

    — Luzia, não acredito, conversa séria agora?

    — Para ficar com uma pessoa se sentindo constrangido, obrigado, não vale a pena. A vida é curta. Temos de ter um mínimo de carinho e consideração um com o outro. E respeito, respeito é o básico. Não porque estamos juntos e casados há algum tempo que vamos esquecer a noção de civilidade e educação. Eu até acho que…

    Ela é interrompida pelos roncos do marido.

    — Meu Deus, você dormiu?

    Luzia queria acordá-lo, sacudir-lhe a cabeça e gritar para que ele nunca mais fizesse isso, deixá-la assim no vácuo, falando para as paredes, literalmente.

    O marido continua ressonando. Ela desiste, puxa o lençol e enfia a cabeça no travesseiro. Está puta da vida. Amanhã, sem falta, terá uma conversa franca com ele.

    O marido para de roncar. Menos mal, Luzia tem dificuldade para dormir com barulho. No silêncio do quarto, ainda destila sua raiva. Nem pensar em ficar com alguém que não a respeita. Onde já se viu ficar casada para conviver com desaforos. Começa com “porra, Luzia” aqui, outro “porra, Luzia” ali, e quem sabe o que virá a seguir?

    O marido volta a roncar.

    Ela sacode o corpo dele para que cessem os roncos. Lembra que amanhã terá de acordar cedo para a aula de musculação e ainda fazer o supermercado. Luzia solta uns peidos, vira para o lado e pega no sono.

  • Um corpo que cai

    A Cida foi encontrada boiando no rio Pardo, a cabeça cortada, mal grudada no corpo.

    Tinha exigido do namorado Zé que largasse a mulher e fosse morar com ela. O danado só mandava esperar, mas ela estava cansada de ser enrolada. Ou deixasse a mulher duma vez, e os dois filhos, ou não ia mais querer saber dele. Pior, e tinha mostrado os braços fortes, de melhor cortadeira de cana da cidade.

    O Zé não era de ter medo, mas estava com o facão de cortar cana na mão, e perdeu a cabeça. Que ele se cuidasse, a Maria se cuidasse, as crianças? A Cida exagerou. Não precisava ameaçar. Ele gostava da Cida, mas ela exagerou. E o que as coitadas das crianças tinham com isso? A Cida deu burrada, e perdeu a cabeça.

    O Zé segurava a cabeça pelos cabelos:

    – Conheceu, papuda!

    Mas logo se arrependeu: – Eu não queria.

    Como não tinha mais jeito, botou em cima da mula e tocou para o rio. Foi deixando um rastro de sangue, da casa da Cida até o rio.

    Era ao pôr do sol, o céu azul pintado de vermelho como se estivesse em chamas. Como uma coivara, os tocos chamuscados ainda
    queimando. Até as águas no rio estavam se queimando.

    O Zé admirava, implicado com o sangue pingando nas calças e na camisa:

    – Esse trambolho!

    O Manuel da Venda e o João Venâncio estavam pescando. Nem viram o corpo ali perto deles.

    – A gente estava entretido, Doutor.

    O corpo enroscado nuns galhos, a água fazendo gluglu no buraco da garganta. Foi jogado de um barranco a dois passos dali, um baque na água.

    – A gente não ouviu barulho nenhum. Não é, Venâncio?

    – Dava para ver o vestido vermelho, boiando na água – disse o Venâncio, – mas nós não vimos nada.

    – Não era vermelho nada – disse o Manuel, – era sujeira de terra, de lama.

    – Por isso que não dava peixe, Manuel.

    – Que nada, aqui nunca deu peixe, Venâncio.

    – Por que é que a gente pesca, então?

    – Porque a gente é burro.

  • Bobeiras

    Faz tempo que falo com Renata sobre a situação do Marcelo. O menino está impossível. Não cumpre regras. Não respeita as professoras. Renata me diz que ele é somente um menino “normal”, saudável e brincalhão. “São coisas da idade, meu bem, não há nada de errado”. Como não? Na semana passada, no dia de banho de piscina na escola, o Marcelo, por puro impulso, furou a piscina inflável. O diretor veio falar comigo, que ele simplesmente, do nada, sem confusão alguma, pegou um pedaço de madeira e enfiou no plástico da borda. Acabou o dia de muitas crianças. Perguntei ao Marcelo se tinha ficado feliz, ele disse que não, mas com um ar de satisfação. Será que meu filho tem desvio de personalidade? A cabeça não para de rodar. Agora, todos os dias sou chamado pela coordenação. Já pensei em tirar o Marcelo do colégio, porque poderia haver algo de errado com a relação escola e criança hiperativa. A professora dele veio me contar que ele estava tirando o lanche das outras crianças, porque, segundo ela, “era mais gostoso que o dele”. Eu, por acaso, vou mandar bagulho para o meu filho merendar na escola? Mando sanduíche, suco e biscoito, às vezes. Ele tem de se acostumar a ter uma alimentação saudável. Converso muito com ele, brigo, mas não bato; quero que ele entenda da maneira certa, sem grandes embates. Felizmente, Renata concordou em levá-lo a uma psicóloga. Vai ter sessões normais e depois fazer um teste para saber se tem TDAH ou outro transtorno. Fico preocupado, sem saber como lidar, em muitas situações. E ele está crescendo, mais rápido do que o esperado, é verdade. Tenho feito o máximo que um pai médio pode fazer. Mas minha cabeça entra em parafuso quando a tia do colégio vem dizer que ele está espiando as meninas indo ao banheiro. Isso não é idade para uma criança se interessar por questões sexuais. Freud pode me contradizer. Não sei bem o que fazer. Converso, mas parece que entra por um ouvido e sai pelo outro, sem que provoque uma mudança razoável. Renata pede para eu me acalmar, que tudo está se resolvendo. Ela tem conversado com a professora dele e, animada, diz que estão colocando as coisas no lugar. Faz duas semanas que não recebo reclamações suas. Marcelo mesmo, quando vou buscá-lo no colégio, diz que não fez nenhuma bobeira. Já é uma evolução. Ainda que recente, talvez a psicóloga tenha conversado com ele de uma forma técnica que o pai não saiba resolver. Estudei um pouco de Melanie Klein, a grande psicanalista das crianças, mas não o suficiente para poder mudar o fado. A questão é que talvez eu não tenha pulso suficiente. A questão é que eu posso ser a raiz do problema, por não saber direcioná-lo. Tenho de levar mais as minhas inquietações ao meu analista, para que possa elaborá-las, pensando no bem do meu filho. Talvez eu tenha que me preocupar de menos e deixar as coisas andarem como tem de ser. O mundo ensina e muito.

  • Sugando Ana Paula

    Ana Paula nunca teve sorte no amor. Abusada na infância diversas vezes por um primo, calou-se sobre o ocorrido. Seu primeiro namorado era gay e ela demorou a descobrir. Achou que o problema era dela. Depois ficou noiva de um piloto de helicóptero que viajava muito e quase não ficava com ela. O noivado se arrastou com promessas de casamento. Um dia recebeu do noivo uma carta terminando tudo. Custou a se recuperar.

    Na faculdade conheceu um professor e se apaixonou. Não demorou e descobriu que ele era casado e tinha duas filhas. A caçula quase da idade dela.

    As sucessivas desilusões deixaram marcas e Ana Paula resolveu ficar um tempo sem se relacionar. Tentava disfarçar sua tristeza e seguia levando a vida. Procurou ajuda com terapia. Algumas sessões e a conclusão: sua infelicidade tinha origem na anulação dos próprios desejos.

    Ana Paula tentou se soltar e exigir menos. Não teve tantas oportunidades, apenas alguns namoros frustrantes. Parecia que tinha o dom de escolher parceiros ruins.

    Ainda assim, manteve a esperança de encontrar alguém. O homem escolhido deveria ter maturidade emocional, não precisava ser milionário nem bonito. Ela até simpatizava com calvos.

    Formou-se em Arquitetura e abriu um escritório em sociedade com uma colega da faculdade. Ana Paula descobriu que sua sócia era homossexual e apaixonada por ela. Mais para tentar manter o negócio do que por real interesse, cedeu e tentou a relação. Não deu certo. Terminaram a sociedade.

    A seguir, conheceu um engenheiro industrial numa festa de fim de ano. Atração imediata e recíproca. Ela custou a acreditar. Ele era um encanto, carinhoso, quase sem vícios, bem apessoado, enfim, de acordo com suas exigências. O namoro prosperava e Ana Paula não cabia em si de felicidade.

    Mas seu engenheiro, numa viagem a trabalho, sofreu um acidente de carro numa estrada, foi hospitalizado e entrou em coma durante quatro dias, até ser declarada sua morte cerebral.

    Durante esses quatro dias, ela ficou a seu lado no hospital, rezando e pedindo a Deus que ele sobrevivesse. Deus não poderia fazer isso com ela. Ana Paula, a partir do dia da morte do namorado, tornou-se uma descrente incondicional.

    Desanimada, sem estímulos, convenceu-se de que seu destino era ficar sozinha. Uma sina. De agora em diante, só casos passageiros, uma trepada aqui e ali e nada de expectativas.

    Era ainda uma mulher bonita, tinha um belo corpo e se comunicava bem. O sexo, no entanto, raramente a satisfazia. Convivia com ejaculações precoces e impotências alheias. Os orgasmos eram raríssimos. Assim, passou a cogitar seriamente a abstinência sexual.

    Até que uma amiga lhe falou a respeito de um sugador de clitóris em formato de porquinho – a escolha perfeita para quem buscava autoprazer aliado à fofura.

    Ana Paula visitou uma sex shop e se impressionou com a quantidade de brinquedos eróticos:  anéis penianos, massageadores, plugs anais… O tal “sugador de clitóris porquinho”, sugerido pela amiga, tinha dez modos de variações, era à prova d’água, não necessitava de pilhas e vinha com carregamento USB. Um pouco caro, mas ela considerou o custo-benefício, já imaginando os benefícios futuros.

    Na primeira noite quase desfaleceu de tanto gozar. Perdeu a conta. Imediatamente apaixonou-se. De agora em diante, não faria mais sentido buscar um homem que se encaixasse nos seus sonhos, melhor usufruir do seu fiel e incansável sugador.

    Num sábado chuvoso, sentindo-se romântica, resolveu fazer em casa uma harmonização de queijos e vinhos. Cortou pão francês emrodelas, queijos brie e camembert, além de um parmesão italiano. Abriu um cabernet chileno, separou duas taças (uma para ela e outra para o porquinho) e serviu o vinho. Depois de brindar, selecionou uma playlist de músicas calmas, apagou a luz e acendeu as velas. À mesa, arrumada com capricho, Ana Paula olhava, arrebatada, para seu parceiro sugador. Ele só faltava falar…

  • Fogos de artifício

    Era uma casa no subúrbio, e Maria acabava de preparar o jantar. Mexia as panelas e pensava que o início da reforma no telhado teria de esperar mais um pouco. Tomara que não chova forte, torcia. Naquele sábado de inverno brando, o clima no país era de tristeza e perplexidade. A eliminação do Brasil na Copa do Mundo era a responsável por essa depressão coletiva. A mulher ganhava a vida como diarista e tinha 66 anos. Aparentava mais. Vivia se queixando de dores pelo corpo e de problemas de saúde. Já não apresentava o mesmo vigor para as tarefas domésticas, mas não podia parar de trabalhar. Nunca soube o significado da expressão carteira assinada e morava sozinha, sem ter quem a sustentasse. Nas redondezas, alguns de seus filhos e netos. De vez em quando, eles se lembravam dela e a visitavam – Natal, aniversário, Dia das Mães, as datas obrigatórias. Ajudavam conforme podiam, eram quase tão necessitados quanto ela. Do ex-marido não queria nem ouvir falar. Tinha um ódio insuportável do único homem que conheceu durante toda a sua existência. Sentia-se aliviada desde que conseguiu se separar cinco anos atrás. A mágoa pelo velho Paulo não era compartilhada pelo resto da família. Ninguém jamais conseguiu compreender o motivo de tanto
    ressentimento.

    Maria não era ligada em futebol, mas, em época de campeonato mundial, tornava-se torcedora entusiasmada. Naquele dia, decidiu assistir ao jogo sozinha. Ficava nervosa e se sentia melhor sem ninguém por perto. Era também uma ótima chance de usar o bem mais precioso que mantinha em casa, agora praticamente inútil desde que se cansou de ver novelas e programas de auditório: um aparelho de TV de segunda mão ganho de uma de suas patroas. Preparava-se para botar a comida no prato quando Marilene, sua filha mais velha, chegou abatida.

    — Mas o que é isso, minha filha? Essa tristeza toda só por causa de um jogo de futebol? Onde é que nós estamos? Levanta essa cabeça, mulher!

    — Pois é, ninguém esperava, né? — disse a moça, constrangida.

    — Senta aí, come comigo, anda! Sei que você adora macarrão. Tá quentinho.

    Apesar de chateada com a derrota do Brasil, Marilene tinha um motivo muito mais grave para estar amuada. Precisava conversar com a mãe, não sabia por onde começar. Suas mãos tremiam, ela suava. Ficou calada por alguns instantes antes de revelar o motivo da visita.

    — Sabe o que é? É que… O pai acabou de morrer.

    — Como é que é? O traste empacotou? Foi isso que você disse?

    — Sim, foi agora, de repente. Coração… Depois do jogo.

    Por um segundo, Marilene achou que os olhos da mãe apresentaram um brilho cintilante demais para alguém que acabara de receber uma notícia tão grave. Notou ainda um tom de contentamento em sua voz, desses que brotam na boca de alguém que descobre ser o ganhador de um prêmio gordo na loteria, por exemplo. É claro, estava a par do que ela sentia pelo ex-marido, mas alegrar-se com o falecimento dele era demais. Maria começou então a andar agitada pela exígua cozinha. Seus movimentos descompassados lembravam alguma exótica dança tribal. Talvez significassem apenas alegria. A reação da mãe desconcertou Marilene, e ela resolveu ir embora. Não saberia o que dizer à mulher saltitante e eufórica que via diante de si.

    Novamente sozinha, Maria continuava a celebrar. Recordou-se dos fogos de artifício que havia comprado. Quando o Brasil ganhava uma partida, a vizinhança se punha à espera dos rojões e dos morteiros lançados no ar pela velha Maria. Dirigiu-se ao quintal e logo encontrou o que desejava. Em frente de casa, iniciou uma comemoração solitária e entusiasmada. Atraídos pelo barulho e pelo brilho, os vizinhos nada entendiam. Com a morte de Paulo, Maria tinha acabado de receber da vida um ansiado troféu. Seu contentamento era imenso. Sua Copa do Mundo estava ganha.

  • O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam.

    Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar.

    Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse.

    Passavam os dias, passavam as noites, e o menino durinho na cama.

    Como se estivesse morto, todo mundo pensava.

    Quando acordou, disse:

    – Preferia não ter acordado – ninguém entendeu por quê.

  • Para a minha análise

    Olho à frente. Como um marinheiro cheio de expectativas de aportar. Às vezes a visão me sabota. Quero ir com muita sede ao pote e me deparo com um paredão. E volto ao estado inicial, de principiante; um novo aprendiz de mim. Pequeno, desprotegido, parto para um possível recomeço. Tenho de olhar em volta e buscar um remanso; a vida está muito dura. Logicamente, emaranhei-me em tentativas de felicidades; ou o que julgava ser felicidade. Quantas vezes me arrisquei e me frustrei. O que sei de mim é que estou, quase sempre, inspirado ou de corpo aberto para ser provocado. Quero perceber sensações novas. Quero uma vida abundante, notadamente de saúde, que, no meu caso, não anda tão boa assim. Não posso culpar ninguém, eu mesmo entrei nesse redemoinho, e deverei sair vitorioso, quiçá. Se tiver forças, farei isso, para o meu orgulho próprio de ter conseguido alcançar meus objetivos. Não, isso não é uma carta de desaforos. É somente um bocado de palavras, sentimentos, que estavam, a priori, guardados em mim. Eu as encontro em pensamentos esparsos, que vagam por esse corpo sensível e ridiculamente acostumado a psicotrópicos. Veja bem, não estou pedindo socorro, é só um modo de pensar e de me esvaziar. Estou cheio e farto, e ainda tenho de aguentar o período eleitoral. Hoje, dia 7 de setembro de 2026, a dor de cabeça me abateu, profundamente, pensei que ia morrer, com tanta maluquice que vejo nos noticiários. Brasileiro com bandeira de americano, com Trump como orgulho nacional (de que nação, cara-pálida?!)… Se você se julga meu amigo, me diga coisas boas, para ver se retomo os trilhos, mesmo diante de tantas provocações. É preciso viver; estou certo disso, mas não sei como. Desviei-me, talvez, do caminho correto da bondade, do olhar casto (que tinha quando menino), de o bem praticar, a quem precisar, indistintamente (reclamo agora porque já fui assim). Ajudar as pessoas me dá um prazer enorme, mas, infelizmente, me afastei disso, pela crueza da vida, que tanto relato. Não sei se tenho forças para mudar esse fado. Mas vou tentar me reinventar, como sempre o faço, para crer na boa nova, para crer que tudo pode mudar, para melhor, como já me aconteceu. Estou somente, momentaneamente, desnorteado, bagunçado. Preciso que me deixem pensar. Preciso parar e pensar, organizar os meus conflitos. Insisto em escrever no meu diário, porque, só assim, sei do sentimento que percorre o meu corpo a cada dia. Faz, talvez, dez dias que não o atualizo. Pois agora pretendo deixá-lo em dia, para que eu possa conversar com o meu analista e pegar a onda da vitória. Nada a ver com competição. A vitória que digo é saber lidar bem com as minhas inúmeras e desorganizadas emoções. Paro por aqui, pois penso que escrever demais leva à confusão.

  • Vivo emoções em seu lugar ou tributo a Ariano

    Doralice ganhava a vida de um modo estranho. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar que alguém pudesse tirar o próprio sustento por meio de uma atividade como aquela. Até que vi numa revista a reportagem de título chamativo: “Vivo emoções em seu lugar”. Ela se intitulava artista performática, morava em Recife e garantia poder realizar desejos – sonhos também, por que não? – de moradores de outras cidades brasileiras e até estrangeiras, coisas como visitar um certo local, fazer um determinado programa, encontrar alguém ou tudo isso junto se a vontade do cliente assim determinasse.

    Após o estranhamento inicial, percebi que os serviços daquela mulher de comportamento inusitado me seriam bastante úteis. Na ocasião, eu morava em Teresópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro. Dias antes, havia assistido a um festival de teatro organizado pela prefeitura num clube tradicional do município. O evento era dedicado à obra de Ariano Suassuna, autor nordestino que, até então, eu desconhecia. Três filhos pequenos, viúva recente, professora em duas escolas. Não tinha tempo para bobagens como teatro. Levada por uma amiga, acabei assistindo a obras-primas como Auto da compadecida, O santo e a porca, A farsa da boa preguiça e Torturas de um coração, peças de enredos críticos e bem urdidos, habitadas por personagens simples, representantes perfeitos de parcela significativa do povo brasileiro.

    Na semana seguinte, lá estava eu, diante do computador da escola, buscando informações sobre Ariano e sua obra. Quanto mais eu lia, mais me vinha a vontade de encontrá-lo e de conversar com ele. Gostaria de conseguir lhe dizer algo a respeito do impacto que seus textos me causaram. Doralice poderia fazer isso por mim. Claro… A atriz da minha cena, a intérprete de mim mesma. Quem sabe durante um passeio de barco pelo Rio Capiberibe. O cenário deveria estar à altura do acontecimento. O rio seria perfeito. Sempre ouvi dizer que Recife é uma cidade encantadora. O texto também teria de ser caprichado. Um texto dirigido a um escritor deve ser mesmo especial. Não poderia me descuidar da iluminação. Luz natural… O pôr do sol, o luar talvez. Figurino de gala também seria imprescindível. Eu e Doralice acertamos todos os detalhes. Ela comprou minha ideia de cara. Senti que se empenharia em realizá-la da melhor maneira possível, exatamente como da vez em que, a pedido de um ardoroso torcedor do Grêmio, teve de depositar um buquê de rosas brancas no gramado do Estádio dos Aflitos. Era um agradecimento emocionado pela dramática vitória do time gaúcho sobre o Náutico durante aquela partida histórica de 2005, a famosa Batalha dos Aflitos.

    O encontro aconteceu e foi registrado. Não houve Capiberibe, pôr do sol nem luz do luar. Num café do Recife Antigo, Doralice e Ariano se reuniram. Tudo sucedeu de forma muito mais modesta do que eu havia imaginado. Ariano é assim mesmo, desligado de formalidades. Hoje, recebi pelo correio a gravação em DVD do evento. As crianças dormem. O tique-taque do relógio de pêndulo impede que o silêncio na casa seja completo. Sozinha na sala, ligo a televisão e me transporto. O Recife é logo ali… E é mesmo lindo.

  • A galinha manca

    A galinha atravessa vagarosamente o terreiro. Cada passo é quase uma queda. A galinha é torta, tem uma perna mais curta que a outra. É uma galinha manca.

    Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse calculando cada movimento. O terreiro é largo, clareado aqui e ali por algumas réstias de sol. O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra preta, folhas, penas e dor.

    A galinha é um bicho só. Procura algum grão de milho, uma minhoca, procura a sombra, procura o sol. A galinha conjuga os verbos da solidão. Nenhuma outra galinha, nenhum galo. A vida parece sem sentido.

    A galinha ergue a cabeça, apruma o corpo, soluça e volta a caminhar. É preciso presto caminhar. A galinha olha para um lado, para o outro, olha fixo para um objetivo determinado, um ponto que só ela vê. E caminha.

    Sente falta de uma muleta, talvez de uma bengala. Mas caminha, tropeçando na própria perna, caindo, levantando. Caminha, intrépida, poderosa. A galinha mínima domina o seu mundo mínimo.

  • A chuva estranha

    A terapeuta disse à mamãe que procurasse sair do quarto e fazer alguma atividade simples que lhe desse alegria. Sugeriu que cuidasse do jardim. Mexer com a terra é o melhor remédio contra a depressão. Plantar flores ou fazer uma horta traria enormes benefícios à saúde mental de todos. “Aproveitem a primavera precoce que já está no ar”, disse ela. A família toda concordou. Aquele pedaço do terreno atrás da casa estava mesmo inútil, tornara-se uma floresta em miniatura, onde o mato crescia sem controle e onde sempre perdíamos nossa bola de futebol. Todos nós, exceto papai, nos dedicamos a capinar e adubar a terra e plantar flores de várias espécies e belezas.

    Depois de um mês, um poeta, uma dançarina e um violinista germinaram entre os canteiros de cravos e amores-perfeitos. O poeta escreveu palavras novas que mamãe cantou, acompanhando o som do violino, e a dançarina girou loucamente ao nosso redor, como uma borboleta gigante e exótica. Choveram cores primárias e pulamos em poças d’água roxas, amarelas e verdes, salpicando tudo ao redor. Papai olhou para nós muito sério, abrigado embaixo do caramanchão, como se não estivesse feliz ouvindo mamãe cantar depois de tanto silêncio. “São as malditas flores que provocaram essa chuva estranha, onde já se viu chover colorido?”, murmurou, e recolheu a água multicolorida em frascos para analisá-la em seu laboratório. Uma noite, enquanto dormíamos, jogou herbicida no jardim. O poeta, a dançarina e o violinista murcharam da noite para o dia e minha mãe se trancou no quarto novamente. Uma aragem gelada tomou conta da casa.

  • Finjo que consigo viver assim

    Procuro acalmar Luana. Ela está em polvorosa, com medo de ser demitida. O nosso chefe é de veneta, a cada minuto podemos esperar um vendaval ou um refresco brando de mar. Ele é uma boa pessoa, já demonstrou diversas vezes quando quer nos ajudar, mas pode pegar no meu pé ou no pé de qualquer colega por semanas, e isso nos aflige. Nas reuniões, somos chamados a falar: sempre me saio mal, por conta da minha timidez excessiva, mais especificamente por conta do autismo. Acho, talvez, que ele tem pena de mim, por isso não me põe para fora; ou mesmo porque, como tenho muito foco, consigo terminar as atividades a contento. Nessas reuniões, passo ideias às vezes confusas até para mim. Definitivamente, não sei me expressar. Mas estou há três anos na empresa, e até hoje não recebi feedback sobre o meu comportamento. Meu chefe sabe que tenho autismo, mas prefere esquecer; ele me trata como um sujeito “normal” – até gosto disso. Não desejo ter “privilégios”, somente ser aceito com minhas intrínsecas condições. Tem vezes, como hoje, que quero ficar isolado; tenho medo do mundo. Luana me dá todo o suporte, porque é sensível à situação. Ela está há menos de um ano na empresa e me pede, sempre, conselhos sobre o que fazer, sobre como se portar. Digo, sempre, para agir de maneira espontânea e leve, como de fato ela é – e eu a admiro por isso. A pobre tem receio de ser demitida, e diz que procura outras opções. Não consegue, absolutamente, se acostumar com a inconstância emocional do nosso chefe. Hoje mesmo ele chegou nervoso, estilo vendaval; bateu na mesa, chamou Luana para que “prestasse” atenção nos aluguéis em atraso. Luana é casada, possui dois filhos e marido, e é praticamente arrimo de família. Tenho pena de sua decisão, do que está passando. Tenho um apego emocional a ela, porque sei que me entende, por isso faço de tudo para que fique no escritório. Mas não teve jeito, na segunda-feira passada ela chegou superanimada, dizendo que tinha sido chamada para outro trabalho. Que passou numa seleção acirradíssima. Ela é uma mulher de muitos valores e merece ser feliz, é assim que penso agora… O que posso fazer? Nada. Desejei-lhe toda a felicidade do mundo. Wilson e Renato, meus colegas, ainda me dão um suporte, brincam para me distrair, pelo menos sei que não ficarei sozinho. No entanto, tenho muitos medos; o trabalho pode se tornar um ambiente hostil, e ter de me virar sem Luana é mesmo angustiante. Ela já saiu sem dar um tchau. E entendo a sua euforia. Não tenho filho para criar, sequer sou casado. Moro num flat que era do meu pai, que ele me deixou de herança. Tenho uma vida moderada, às vezes – ou muitas vezes – reclusa. E assim vou me virando para viver nesse mundo cão, que não entende a neurodivergência. Meus colegas de trabalho brincam, e tenho certeza de que sequer lembram que sou autista. As pessoas fingem que me entendem. E finjo que consigo viver assim.

  • O Sorriso Perdido

    Jandira teve uma infância de indigente. Criada com mais seis irmãos numa cidade pequena no interior, enquanto seu pai trabalhava na roça, ela ajudava a mãe a cuidar da casa e das crianças. Na tapera em que moravam, a miséria acompanhava de perto a família. Não havia comida todos os dias, faltava luz elétrica e, no caso de Jandira, lhe faltavam todos os dentes da frente. Era pobre, raquítica e banguela.

    Com dez anos, foi entregue aos cuidados de uma senhora para trabalhar na fazenda. Logo aprendeu as tarefas domésticas e se destacou na cozinha. Dava gosto a sua força de vontade e o esforço que fazia em aprender e melhorar. Seu jeito tímido e sempre sorridente cativava. Ela sorria, tapando a boca com a mão. “Jandira, abre essa boca, menina, onde se viu rir assim de boca tampada”.

    Com o tempo Jandira foi se tornando peça-chave na fazenda, uma espécie de faz tudo. Movida por aspirações maiores, mudou-se para a cidade grande e arrumou emprego como ajudante de cozinha numa lanchonete.

    Ela não pensava em namoro, diversão, em mais nada, somente trabalhar e guardar dinheiro quando sobrava algum. Vendendo quentinhas nas horas vagas, obteve certa prosperidade. Seu tempero era comentado. Nessa toada foi levando a vida, sorrindo de boca fechada e sonhando com o dia de deixar de ser banguela e poder dar gargalhadas com seus dentes à mostra. A vida por uma dentadura completa.

    Com obstinação e alguma sorte, finalmente conseguiu no programa do SUS um implante dentário. O procedimento envolvia cirurgia, seguida de osseointegração e colocação da base fixa. Jandira nunca tinha ouvido falar daquilo, apavorou-se e quase desistiu. Mas a longa espera por uma dentadura falou mais alto. Tomou coragem e confirmou o bendito implante.

    Os pinos de titânio foram fixados no osso maxilar de Jandira que aguentou firme, como só Deus sabe. Enfim, teria de volta a função estética do sorriso. Tudo o que sempre havia sonhado.

    Com dentes novos, era outra mulher. Durante o dia, vivia de boca aberta mostrando os dentes por qualquer motivo, orgulhosa que só. À noite, rezava fervorosamente para que não houvesse nenhuma infecção ou rejeição. Eventuais dores e algum sangramento na gengiva, mas nada de grave. O implante múltiplo tinha sido um sucesso. Somente uma singularidade: com o tempo, foi percebendo que quando ia sorrir, involuntariamente tapava a boca. Talvez reminiscências antigas e enraizadas. Bem no fundo, sua alma ainda trazia o seu velho sorriso desdentado.

  • O fim do mundo

    Francisco saltou do metrô apressado. Estava a 300 metros do consultório, e faltavam apenas cinco minutos para o início da sessão. Não se atrasava nunca e, ao contrário de muitos, estava sempre bem-disposto às segundas-feiras. O terapeuta também raramente o atendia fora do horário. Naquele dia, tudo foi diferente. Entrou 45 minutos depois da hora marcada. Tinha muita coisa para falar, havia ensaiado um discurso na véspera. Havia feito anotações no bloco de notas do celular. Já acomodado no divã, começou:

    — Sabe qual é meu maior desejo?

    — …

    — Que o mundo acabe.

    — Mas do jeito que o homem vem tratando o meio ambiente…

    — Não é isso, você não entende! Queria que o mundo acabasse hoje. Ou no máximo na semana que vem. Será que o, deixa eu ver aqui, o Kim Jong-un não tem lá um arsenal atômico secreto… Ou o Irã, quem sabe o Irã… Alguém podia apertar um botão e bum! acabar com tudo. A Rússia está doidinha pra provocar a terceira guerra mundial. Esse Putin não regula bem, parece questão de tempo… Sem contar o Trump, esse doido é um caso à parte…

    — Bem, hoje a gente fica por aqui.

    — Nossa, tive a impressão de que o tempo passou tão rápido…

    — Mas, se você quiser, a gente volta a falar sobre o fim do mundo na próxima sessão, ok?

    Até semana que vem.

    ***

    Enquanto isso, lá em cima no firmamento, o Criador, em companhia de seus anjos, arcanjos, serafins e querubins, repassava a agenda da semana: terça-feira: atentado em universidade americana (39 mortos e 43 feridos); quarta-feira: tsunami e terremoto no Japão (987 mortos, 1264 feridos e 5 mil desaparecidos); quinta-feira: enchente na Malásia (294 mortos e 500 desparecidos); sexta-feira: inundação de lama no Nepal (175 mortos e 384 desaparecidos); sábado: incêndio em floresta da África do Sul (45 pessoas mortas, flora e fauna devastadas); domingo: FIM DO MUNDO.

  • O PARDALZINHO

    O nenê era como um pardal palpitando na palma da mão. Estava morto?

    Não sei o que vou fazer. Depósito com cuidado na covinha, aberta no jardim, cercada de flores.

    Aí ele pára de se mexer. Dá uma respirada comprida, dá que nem uma tossinha engasgada, dá outra respirada já meio sumida, e pronto: agora está morto.

    A Cida ainda está chorando. Mulher chora por qualquer coisa. Era o filho dela? Também era o meu filho.

    Nunca mais vou-me esquecer daquele montinho de terra, parecia que estava pulsando, como se o Eusébio estivesse vivo ali dentro. Eu quis homenagear o meu pai dando o nome dele ao meu filho.

    E agora está morto embaixo da terra. E eu o sinto pulsando embaixo da terra. Se o meu Eusébio morreu duas vezes – se ele estava vivo quando o deixamos embaixo da terra?

    A Cida me culpa, eu me culpo, a minha mãe me culpa, o mundo me culpa – e eu culpo todo mundo. Deus é o grande culpado! Se o Eusébio ia morrer, por que nasceu?

    E eu o vejo vivo como um pardalzinho palpitando na palma da mão, pulsando muito de levezinho – embaixo da terra.

  • Isso é para a vovó

    Meu primo Alfredo chegou correndo e me entregou um pacote pequeno. Disse: “É pra entregar pra vó.” Entrei em casa e falei: “O Alfredo mandou entregar isso pra vovó.” Paty, minha irmã menor, fazia a lição da escola na mesa da copa e gritou na direção da cozinha: “Manhê, o Juca falou que o Alfredinho mandou uma coisa pra vó.” Minha mãe, sem parar de mexer nas panelas, virou o rosto e alterou a voz: “Então fala pro Juca levar logo isso pra sua avó.” Juquinha foi até a sala onde seu pai lia o jornal e falou: “Paiê, olha aqui, o Alfredo trouxe isso e falou que é pra vovó.” O pai olhou na direção do quarto de costura em que a velha finalizava um vestido de baile feito por encomenda e gritou: “Mãe, olha, tem uma encomenda aqui, o Alfredinho, filho da Virgínia e do Alencar, foi quem mandou. Ele disse que é pra entregar pra senhora, pega aqui?”

    A avó primeiro tirou os óculos e os olhos do vestido esticado sobre a Singer, pensou um pouco e sorriu para si mesma. Ajeitou os cabelos num coque apressado. Levantou-se e caminhou devagarinho desde o fundo do quarto até a sala. Tinha um sorriso tímido nos lábios e uma esperança brilhando no olhar.

  • Imagine a minha dor

    Me vi no fundo do copo. É aterrorizante se ver distorcido, confuso, sem se entender bem. Vi também todos os meus achaques ali, quando me sentei e pensei em Ludmila. Ela me deixou, há anos, sem chão. Não porque quisesse. Ela me foi arrancada, a fórceps, como num nascimento complicado. E olhe que Ludmila se cuidava. Não fumava nem bebia, como eu. Aliás, todas as minhas doenças advêm disso, da minha vida tresloucada, irresponsável, principalmente depois da partida de Ludmila. Talvez por isso ela nunca quis ter filhos comigo. Até hoje não sei se era má vontade ou infertilidade. Uma vez ela me liberou para ser pai, se quisesse engravidar outra. Falei para ela que não existia outra. Não cogitava ficar com qualquer mulher. Ser pai nunca foi o meu sonho, ademais. E nunca fui cobrado por isso, de quem quer que fosse, nem mesmo dos amigos, porque havia, há tempos, colocado um ponto final neste assunto, para que ninguém me aperreasse. Pensava, inclusive, que não gostava especificamente de mulher, do gênero feminino, mas sim da Ludmila. E isso me trazia uma louca distorção. Não era capaz de me imaginar por cima de Cláudia Raia ou de Christiane Torloni – a quem razoavelmente aceitava como divas, sensuais, e nada mais. Ludmila era minha fonte de inspiração. Meus melhores sentimentos surgiram a partir dela. Nos conhecemos incrivelmente na infância e logo nos apaixonamos. Não tive outra mulher na minha vida. Meu pai era um puto, porra-louca, vagabundo, e me levou à força para um cabaré (lembro-me dessa espécie de pocilga, nojenta, o cabaré da Zitinha). Dei um tapa no rosto da puta Morena e pulei o muro. Corri feito um fanático, chorando, me sentindo sujo, me sentindo inapto para o meu amor. Ludmila era um corpo e uma alma minhas, com as quais eu tinha, inclusive, me formado como ser humano. Absolutamente, meus pais, separados, tinham suas vidas e seus filhos novos, e se esqueceram de mim. Me pagavam uma mixaria para passar o mês; salário de “cala-boca”; como se fizessem muito por mim. Não me davam um pingo de atenção, mesmo quando fiquei doente no hospital, por conta da diabetes; aí foi quando Ludmila permaneceu serena, dona de si, porque não era vinculada a nenhum escritório, porque era uma puta profissional (não profissional puta), e não necessitava permanecer, como eu, horas e horas no escritório, no meu caso de contabilidade. Por essas e outras, me casei cedo. Não tinha tempo a perder, se já sabia que era e sempre seria Ludmila, o meu grande amor. Mas ela partiu o meu coração (poderia ter sido o meu a parar naquele momento), enquanto o dela pifou. Ela teve um mal súbito quando eu viajava a trabalho. Soube de sua morte quando a vi estirada na cama, branca, possivelmente no mesmo dia do ocorrido. Imagine a minha dor. Não suporto mais estar morto por dentro. E sequer vislumbro um novo e absurdo amor. Se possível, me entenda, fulana…

  • Vasco x Fluminense

    Junto à porta entreaberta, olhou para o fundo da sala. No Sofá, o pai aguardava o início da transmissão pelo Première. Vestia a tradicional camisa verde, branca e grená. Atrás, o número dez e o nome eterno: Rivelino. Não quis colocar o próprio nome, como faziam por aí. Era o de Rivelino, e não o dele, que vararia os tempos.

    O rapaz fitava o pai, antes de afinal sair. “Boa sorte pra vocês”, e acenou para o velho, que retribuiu a nobreza do gesto. Eram adversários, mas eram pai e filho.

    O jovem ganhou o corredor do prédio e no espelho do elevador conferiu a cruz de malta vermelha enfeitando a faixa branca que cruzava o tecido preto. Atrás, também o número dez e também outro nome a ser abrigado pela eternidade: Roberto Dinamite.

    Por que não tinha um pai vascaíno? Perguntou-se na infância. Adulto, essa pergunta perdeu o objeto, e ganharam peso e sentido certas comparações: o pai do fulano espanca a mãe dele; o do beltrano se envolveu em roubalheira na secretaria de Educação. Pareciam até flamenguistas, mas torciam pelo Vasco.

    Quando o filho bateu a porta, o pai ficou olhando, sem ver, o início da transmissão. O já não tão mais garoto estava agora num bar de uma das esquinas da Dias da Cruz com seus pares de torcida. Há mais de trinta anos não assistiam juntos àquele clássico que os opunha, desde quando o garoto escolheu que camisa vestiria, e não era a que vestiram Edinho, Pintinho, Rubens Galaxye, Branco, Romerito, Assis e Washington, além de Rivelino. A mãe, torcedora do Botafogo, não tinha poder de influência clubística sobre o menino. Mas disse ao marido, a título de compensação: “Dos males o menor. Imagina se vira Flamengo?”. O marido até concordou, mas durante algum tempo remoeu aquela escolha. “Um garoto bacana, bem-criado, por que não torce pro Fluminense?”. Ao longo dos anos, a vida lhe ofereceu reflexões. O filho do fulano, drogado de precisar de clínica; o outro, do sicrano, deu desfalque monstro na firma em que trabalhava. Eram tricolores, “mas parecem até flamenguistas”, ele se divertia consigo mesmo, não obstante os colegas conviverem com o desgosto de pai.

    Quando a bola rolasse, aquele clássico teria uma peculiaridade. A mãe botafoguense não estaria mais ali, como sempre esteve, para equilibrar a torcida, conseguindo a estranha proeza de torcer pelos dois times, ou melhor, pelo filho e pelo marido. Agora, para cada um deles, uma vitória dentro das quatro linhas seria um bálsamo menor do que um grito de gol, mas já seria um consolo.

    No primeiro gol, o rapaz gritou forte, com vontade, erguendo os punhos; era uma quebrada na tensão, já que o empate dava vantagem ao outro lado na classificação. Só que menos de dez minutos depois, um chute de longe, o goleiro atrasado, a triscada na trave. E tudo igual de novo. Pensou no velho, no velho se consolando da ausência instransponível da mãe. Dez minutos antes, fora o pai quem pensara o mesmo, em relação ao filho tendo uma alegria espontânea, que de tão grande e verdadeira alegria parecia eterna.

    Ficaram assim no primeiro tempo, tudo igual. Na volta, cinco minutos depois de a bola ter rolado, o bar veio abaixo. “Vaaaaaaascooooo!!!!”. Pularam sobre ele, é sempre bom dividir com um abraço amigo a glória que nos concede um gol do nosso time. Ele comemorou, mas não sabia explicar, sem a mesma vibração do primeiro.

    Passou o resto do jogo com a angústia comum a todo torcedor. O ataque do Fluminense em dia de massacre; a defesa do Vasco, em dia de milagre. Estava angustiado por causa da pressão adversária, com o 2 X 2 iminente; mas também estava angustiado porque eles não empatavam. Era estranho, estranho e louco.

    Até que aos quarenta e quatro, uma bola espirrada armou o contra-ataque, o Fluminense todo lá na frente; a defesa aberta virou uma avenida e recebeu o golpe de misericórdia. O bar tornou a explodir em gritaria. Novamente os amigos o envolveram num abraço coletivo, dessa vez mais eufórico, no êxtase que era o da consagração. Fatura liquidada, classificação garantida e vaga na final assegurada. “E-li-mi-na-do!” e, em coro, as mesas cantavam. Ele ensaiou repetir, mas não evoluiu no canto, se aquietou. Tomou mais dois chopes, praticamente calado, e desse jeito voltou andando para casa. Abriu a porta da sala e deu com o pai, sisudo e acabrunhado, sentado no mesmo lugar, assistindo ao noticiário da noite. Não tirou a camisa tricolor. Ocasião houve de ter dormido com ela.

    O velho fez menção em dar os parabéns quando o filho se aproximou, mas reparou no cenho pesado do rapaz. “O que é menino? Que cara é essa?”. “Eu tô triste, pai…”. “Por que, cara?”. “Pra mim não teve muita graça”, e fez uma expressão cujo significado era tão claro, mas tão óbvio que dispensava a mínima frase que fosse.

    Uma luz da TV escorreu azulada pelo rosto do pai. Levantou-se do sofá, foi em direção ao rapaz, dizendo “Pois eu estou muito contente, muito contente mesmo”, e os dois, agora sorrindo, abraçaram-se com os olhos marejados.

  • REINO ANIMAL

    A primeira vez que Joana trouxe um sapo para casa foi um alvoroço. A família não sabia como agir, a menina tinha só cinco anos e uma afinidade especial com os bichos. Até quis levar o sapo para dormir com ela. A muito custo, conseguiram convencê-la de que o sapo precisava voltar para casa dele a fim de se despedir dos amigos.

    Depois do sapo, foi um pintinho da feira, que acabou virando frango e morreu de estresse. Um jabuti habitou a banheira da casa apenas uma semana, provavelmente morto por engasgo com um pedaço de couve. Até uns micos que passaram a frequentar a janela da casa, atraídos pelas bananas que Joana ofertava, ela quis domesticar. Terminou ganhando uma Yorkshire, toda branquinha, que levava escondida para a escola na mochila. Recebeu o nome de Algodão e viveu quase dez anos, falecendo de problemas respiratórios.

    Adulta, morando sozinha, desenvolveu uma fobia de convívio social. A humanidade para ela não tinha o menor sentido. A natureza e os bichos eram seu derradeiro conforto, focada no resgate, reabilitação e adoção de animais. Joana não podia ver nenhum animal abandonado, que cismava de adotar. Para amenizar a saudade da Algodão, pegou um vira-lata, misturado com poodle, com pelos na região do focinho. Deu-lhe o nome de Jânio.

    O primeiro gato adotado foi o Cazuza, um siamês magrelo, quase esquelético, mas uma simpatia. Festivo até demais para um felino. Sempre carinhoso, a não ser quando tinha acessos de tosse. Logo a seguir, veio a Alcione, gata de pelagem marrom, sem pedigree, traumatizada e arredia. Desconfiada com estranhos e de hábitos noturnos, interagia pouco, sempre escondida pelos cantos da casa. Devia ter sofrido maus tratos antes de ser resgatada por Joana. Alcione vivia às turras com Cazuza, mas não se separavam. Adoravam ficar se implicando. Alcione, mais encorpada, levava vantagem.

    Jânio não se misturava. Sua missão era vigiar a porta, atento a quem entrava e saía. Não era de latir. Um cão silencioso e observador, talvez por isso se desse tão bem com os gatos.

    A chegada de Agnaldo causou uma certa surpresa. Um periquito-australiano que aparecera do nada na janela. No início, temeroso, foi aos poucos se enturmando e virando hóspede. Atrevido, não deixava em paz os gatos e dava voos rasantes pela casa. Joana era contra gaiolas, achava que todas as aves deviam voar livres. Agnaldo tinha a sua gaiola com a lateral totalmente aberta. Na verdade, só entrava para se alimentar e matar a sede. Tinha o estranho hábito de dormir com Jânio.

    O desafio maior foi com Eurico, o hamster abandonado. Quando o achou escondido num bueiro, largado à própria sorte, Joana não pôde resistir e o levou para casa. Todos os moradores o receberam com afeto e curiosidade. Cazuza cuidou de sua higiene e Alcione, com seu instinto materno, adotou o pequeno roedor. Jânio apenas observava e Agnaldo nunca chegava perto. Talvez estivesse prevendo o que viria a seguir.

    Eurico foi crescendo e se transformou. Endiabrado, corria atrás dos gatos e do Jânio para morder. Nem o Agnaldo escapava. Sonso, toda vez que Joana chegava em casa, o danado fingia se comportar.

    Ainda assim, aquele lugar era bom de se viver. Joana e seus amigos bichos, família reunida e feliz. Ela não mostrava nenhuma surpresa, já que todos ali, diferente dos seres humanos, comportavam-se como animais. Cada um tinha a sua história de abandono, mas nos olhos de Joana encontravam um porto seguro. Ela costumava dizer que humanos perdiam tempo tentando ensinar os animais, quando deveriam sentar e aprender com eles.

    Até que Joana perdeu o controle. A coisa toda tomou ares de minizoológico: pelo apartamento agora circulavam mais oito gatos,
    iguanas, um casal de furões, uma chinchila sem rabo, dez cágados e uma cacatua com o bico quebrado.

    Ninguém mais se entendia. Um dos gatos, recém-chegado, comeu o hamster. Eurico saiu pela janela e nunca mais voltou. O casal de furões cismou com Jânio. A chinchila não parava de dar guinchos agudos de meia em meia hora. Podia marcar no relógio. Talvez estivesse sentindo dores ou por implicância mesmo. Chinchilas são assim, meio conflituosas. Joana não tinha mais sossego. A cacatua, com seu bico partido, definhava por não ter como se alimentar. Os cágados a tudo assistiam passivamente, como todo bom cágado. Com aquela confusão, Jânio passou a latir para todos que passavam pelo andar. O síndico foi chamado. Os vizinhos reclamavam do barulho e do mau cheiro.

    O siamês Cazuza, angustiado, tentou saltar da janela e ficou preso o parapeito. Alcione miava em desespero. O Corpo de Bombeiros foi acionado e Joana se juntou a eles, se apresentando como ativista dos direitos dos animais. Os moradores ensaiaram uma vaia e o síndico ameaçou denunciá-la. Acuada, Joana tentou se justificar: até Noé tivera problemas com o excesso de bichos na arca.

    Estava cansada. Chegou à conclusão de que, tanto quanto a humanidade, o reino animal ia pelo mesmo caminho. Más influências, não havia dúvida.

  • Uma história de gatos e ratos

    — Verônica! Finalmente resolveu aparecer depois de tanto tempo. Ainda se lembra do caminho de casa? Bem, acho que essa não é mais sua casa.

    — Quarenta e sete dias.

    —Você não atendia meus telefonemas…

    — Não quero falar sobre isso agora. Passei aqui porque preciso pegar umas coisas. Rafael, você tá molhado, pingando. Sai, tenho uma reunião de trabalho daqui a pouco.

    — Fiquei o dia todo na piscina. A água me faz bem, me purifica.

    Como estamos longe do mar, tenho de me virar com a piscina mesmo. Ah, eles começaram a reprisar aquela novela que você fez… Queda livre, certo?

    — Pois é, eu saio logo. Morro afogada por volta do capítulo 50. Foi horrível gravar aquela cena.

    Ao contrário de você, não tenho essa paixão toda por água. E o Tarantino tá por aí? Saudade dele…

    — Sei lá. Esse gato anda tão esquisito. Passa o dia todo enfurnado em algum buraco. E deu pra sair por aí. Às vezes, fica dias fora de casa. Comportamento estranho. Será que tá sentindo sua falta? Mas pega logo o que quer e se manda.

    — Rafael, você voltou a beber?

    — Voltei, deu pra perceber? Na verdade, nunca parei, minha querida.

    — A gente devia pensar em vender essa casa. Tem um amigo da minha mãe que é corretor…

    — Aqui é tão isolado, não é o que você vivia dizendo? O lugar não é valorizado, é tudo longe. Até pra comprar pão é preciso pegar o carro. E o que mais tem por aqui é imóvel vazio. Vamos ser realistas, Verônica.

    — Sem contrato na TV, sem trabalho no teatro. Tô filmando um curta. O fato é que preciso de grana. Minhas economias vão acabar…

    E você já arranjou alguma coisa?

    — Isso não é da sua conta.

    — Tá namorando? Arrumou alguém? Será que alguma mulher vai entrar por aquela porta a qualquer momento?

    — Isso também não é da sua conta.

    — Mas então, a gente precisa vender essa casa. Cada um pega a sua parte, vamos resolver logo essa situação.

    — Você já viu o sol que está lá fora? Não quero falar de negócios num dia como hoje.

    — Olha, Rafael, eu…

    Verônica se preparava para ir embora quando Tarantino surgiu na janela da sala. Agora tingidos de vermelho, os pelos brancos ao redor da boca do felino conferiam-lhe um aspecto soturno.

    Eriçando o corpo esguio e produzindo ruídos esganiçados, o bicho aproximou-se de Verônica e atirou aos pés dela o rato morto que trazia na boca.

  • O pião

    Quando o tio Luís encontrava alguns meninos brincando com pião, logo se oferecia para demonstrar a sua habilidade. Escolhia o pião mais gordinho, que era o de que mais gostava, e mais liso, de tanto uso. Enrolava a fieira no pião com um capricho minucioso de filósofo. Escolhia a área de terra mais limpa, que não tivesse nenhum empecilho para quando o pião girasse sobre si mesmo. E então o lançava, não para a terra, como seria de se esperar, mas para a frente; dava depois, ou melhor, concomitantemente, um jogo com a mão e o trazia de volta, para que viesse girar na sua mão grossa de homem da roça.

    Em seguida repetia a operação. Enrolava novamente a fieira no pião com o seu capricho minucioso de filósofo. Todos os mesmos passos anteriores; mesmo a escolha do pião: examinava um a um os piões dos meninos, para enfim se decidir pelo mesmo pião. Quando o lançava, com a ponta da língua de fora, para maior exatidão na pontaria, e o trazia de volta, não o pegava mais na palma da mão, mas na unha. Na unha!, exclamavam interiormente todos os meninos. E todos, os meninos e o tio Luís, se punham a observar em êxtase o universo na forma de um pião encantado a girar, primeiro na mão calejada, depois na unha disforme de um homem rude, para por fim cair exausto, vencido.

    Todos, os meninos e o tio Luís, mal podiam resistir à tentação de aplaudir o desempenho exímio do universo, que girava como um simples pião nesses calos grosseiros ou nessa unha feia, estragada.

  • OS CADERNOS

    “Sempre diremos tudo um ao outro, inclusive o que não for bom. Mesmo o que for desagradável deverá ser dito. Porque calar é perigoso. Não nos separe o silêncio, nunca.”

    Assim foi o pacto que fizeram Carlos e Isabel, tão logo se descobriram apaixonados e dispostos a viver juntos vida afora. “Tem a minha palavra”, disse Carlos. “Tem a minha palavra”, respondeu Isabel. Casaram-se poucos dias depois. Ao cabo de dez anos, com a paixão um tanto esgarçada e frouxa, ainda mantinham o acordo dos primeiros anos.

    Carlos:

    — Sabe, querida, o que seria bom? Que você aprendesse a cozinhar direito de uma vez por todas. As pessoas costumam seguir algum livro de receitas para preparar comida decente, caso não tenham aprendido com a mãe. É fácil, basta saber ler. Outra coisa: seria muito bom também que você perdesse uns quilos. Sua saúde e sua autoestima agradeceriam. Depilar as pernas com mais frequência também é uma ótima ideia. O que você acha?

    Isabel:

    — Eu acho que não vou fazer nada disso, querido. Se fosse para mudar alguma coisa, melhor seria que você tomasse a iniciativa. Sua voz é irritante, parece um pato engasgado. Quando você ri, tenho vontade de enfiar uma faca em sua boca. Falta-lhe inteligência. Essa sua barriga peluda me causa náuseas. Não fosse a minha estranha fixação pelo casamento, já o teria abandonado há muito tempo. Estou bem assim, com esses quilos a mais.

    Os dois logo compreenderam que seu relacionamento estava naufragando e buscaram ajuda. Uma amiga recomendou um terapeuta especialista em casais em crise. Foram vê-lo.

    Terapeuta:

    — A relação de vocês está indo mal pelo excesso de sinceridade. Eu sugiro um remédio simples: o silêncio. Parem de dizer tudo o que pensam um do outro. Acostumem-se a falar pouco e a trocar somente frases cordiais. Habituem-se a escrever o que realmente desejariam falar. Façam isso em segredo, nenhum dos dois precisa saber o que o outro escreveu. Aqui estão dois cadernos, em que anotarão as coisas ruins que deixarão de falar. Desejo sorte ao casal. Sejam felizes.

    Carlos e Isabel saíram do consultório carregando cada um o seu caderno. Durante meses seguiram rigorosamente a orientação do terapeuta. A comunicação entre os dois tornou-se mais afável, embora curta. Os diálogos se reduziram à troca de algumas frases na frente da televisão. No restante do tempo, dedicavam-se a registrar no caderno o que não diziam um ao outro. Quando um volume ficava cheio de anotações, compravam outro. Os cadernos foram se multiplicando com assustadora rapidez e logo a casa começou a ficar cheia deles. Estavam empilhados em todos os cômodos, até no banheiro e embaixo da escada. Cadernos, muitos, uma imensidão deles. Tantos, que Carlos e Isabel tiveram que abandonar a casa e procurar outra moradia. Os cadernos, cheios de frases não ditas, não deixaram espaço para os antigos moradores.

  • Desperdício de amar

    Dandara tinha uma casa espetacular. Sendo minha melhor amiga, me chamava várias vezes para visitá-la. Brincávamos e esquecíamos do tempo. Dormi algumas vezes lá durante as férias. Sua mãe gostava de mim porque eu era educada e estudiosa, talvez pensasse que eu seria uma boa companhia para a filha. Seu pai era arquiteto de “mão cheia”, como dizia mamãe. Era uma família endinheirada, diferente da minha, que não chegava à classe média. Nunca percebi qualquer sinal de preconceito. Nossa amizade se formou no colégio. Meus pais, mesmo com pouco estudo, garantiram que eu estudasse num das melhores escolas da cidade. Papai era motorista de van escolar, enquanto mamãe trabalhava para a high society, elaborando roupas. Era levada aos shoppings para copiar os modelitos só de olhar. Um fato muito triste foi que meu irmão não entendeu a força de nossos pais e enveredou para as drogas. Ele era um menino bom e depois se tornou irreconhecível, inclusive pela agressividade. A família de Dandara descobriu que ele estava internado. Fui literalmente proibida de vê-la. Os pais de Dandara ajuizaram que éramos uma família desequilibrada. A dor foi profunda, em não poder mais brincar com a minha melhor amiga, ou mais do que amiga. Sentia sua falta escutando Laura Pausini. Lembrava-me da vez em que encostei minhas mãos, sem querer, nas suas pernas, e me demorei, olhando-a cara a cara; não tivemos reação. Cheguei mesmo a imaginar que estava apaixonada por ela, e não sabia lidar com isso. Me penitenciava. Pedia a Deus para não pensar mais em Dandara, a menina perfeita. O amor era tanto que cheguei a pegar um ônibus e ir até a sua casa. Bati à porta, e Jussara abriu. Pediu que eu fosse embora logo, porque podia dar confusão. Chorei por meses, e minha mãe pensava que tinha depressão, coisa do tipo, e me levou a um médico boboca, que passou um remédio que me deixava letárgica; eu já não era a mesma. Dandara mudou de escola, para uma melhor. Eu culpava o meu irmão. Na verdade, o odiava com todas as minhas forças. Jorge fez, ao mesmo tempo, que eu o odiasse e amasse Dandara mais e mais, dois sentimentos opostos. Ele me impediu de amar. Até hoje, passados dez anos, Jorge apronta bastante, exauriu as forças de meus pais, já tão sofridos, até gerou um infarto no meu pai, que felizmente se recuperou bem… E eu não consigo esquecer Dandara, a menina dos meus sonhos. Deve estar casada, com filhos, não se interessar um milímetro por meninas. E passo de relacionamento em relacionamento tentando encontrar aquele olhar vibrante, que, por tanto tempo, provocou o meu coração. É um desperdício de amar. A nossa história não vingou. Mas ainda sonho um dia poder lhe reencontrar, ainda que seja somente para vê-la, exuberante, como deve estar.

  • INSTINTO

    Toquei a campainha e aguardei cerca de dois minutos até que viessem atender. A longa espera aumentou meu nervosismo. Sim, num caso desses, dois minutos constituem de fato uma longa espera. Desculpando-se pela demora, Augusto abriu a porta. Eu poderia ter interfonado antes de subir, mas, depois de refletir por alguns instantes, decidi que a atitude mais acertada seria aparecer sem avisar. Melhor que ele ouvisse o que eu tinha a lhe dizer com o espírito desarmado. Educado e protocolar, Augusto me cumprimentou com um aperto de mão. Provavelmente, deve ter estranhado o fato de me ver ali diante dele. Nossa relação se resumia aos bons-dias e boas-noites de praxe proferidos, em nome da civilidade, pelas dependências do prédio quando a casualidade fazia com que nos esbarrássemos. Já sentada no sofá, passei a examinar o ambiente. Atitude espontânea, coisa de mulher, não tive como evitar. A decoração da sala era de muito bom gosto. Nas paredes e em porta-retratos espalhados por vários lugares, fotos do dono da casa ao lado de celebridades – cantores, atores e apresentadores de TV, esportistas e até políticos, pessoas sorridentes e bem-vestidas. Prêmios, diplomas, troféus e medalhas também podiam ser vistos espalhados pelo cômodo. Você foi muito corajoso na entrevista de anteontem, comentei, tentando aparentar naturalidade. A Mariana Gonzalez é mesmo fantástica, consegue extrair revelações incríveis dos convidados. Eu sempre assisto ao programa, sabe? Desde que ela ainda trabalhava naquele outro canal, você se lembra? É curioso, somos vizinhos há tanto tempo, dez anos talvez… Mas todo mundo hoje em dia é tão ocupado… São tantas solicitações, apelos… Enquanto produzia esse discurso meio confuso, bem diferente do texto que havia ensaiado, tentava ler no rosto de Augusto alguma indicação, mesmo vaga, acerca do que ele poderia estar pensando daquilo tudo. E que parte da entrevista mais chamou sua atenção? Sem dúvida, quando você descreveu o acidente. Perder a esposa de uma maneira assim tão violenta… Eu me recordo bem de vocês dois sempre juntos, abraçados, pareciam se amar tanto. Sua vida mudou bastante, claro, não podia ser de outro modo. Parei de falar. Esperava que essa fosse a deixa para que Augusto dissesse algo. Ele apenas me encarou. Sua expressão continuava indecifrável. Após algum tempo, resolveu se aproximar. Acionou uma espécie de manivela situada perto do braço da cadeira, o que imediatamente a fez deslizar macia pela sala. Antes de parar ao meu lado, deu dois ou três giros e andou para frente e para trás tentando demonstrar o quanto era hábil no manejo daquela engenhoca. Por fim, sorriu amistoso. É difícil acreditar que você não faz sexo desde o acidente. Lá se vão cinco anos, não é? Eu tenho uma proposta a lhe fazer. Talvez você ache estranho… Eu mesma acho estranho. Você é um homem bonito, jovem, interessante. Não, não diga nada a menos que considere essa minha ideia um completo absurdo. Eu penso que isso não está certo, você com certeza continua a ter desejos. Não é porque ficou assim… Paraplégico, interrompeu ele. Não tenha medo de pronunciar a palavra. Me ajuda aqui, anda. Me põe no sofá. Obedeci. Augusto era extremamente charmoso. Um tipo italiano, com a pele muito branca, olhos castanhos amendoados, nariz grande e lábios grossos. Após o acidente havia engordado um pouco. Naquele dia, estava com a barba por fazer e usava uma camisa estampada de seda. Senti que ele queria tocar meu corpo. Consenti. A partir daí, nem eu nem ele falamos mais nada. Passamos a agir comandados pelo instinto. Eu me oferecia àquele sujeito quase desconhecido sem culpa alguma. Íamos aprendendo na hora como deveríamos nos comportar. Nossa experiência prévia valia pouco, logo constatamos. Aquilo era uma espécie de rito inaugural, de cerimônia de iniciação, sei lá. No início, mãos indecisas a respeito do rumo a tomar, embaraço. Felizmente, foram apenas três minutos de inépcia seguidos por pelo menos uma hora de destreza. Tudo aconteceu de um jeito suave e tranquilo, mais ou menos como eu havia imaginado. Ajeitando o cabelo e retocando a maquiagem num espelhinho, me preparava para ir embora quando a campainha tocou. Era Carlos, uma espécie de enfermeiro de Augusto, que voltava da rua carregado de sacolas. Esqueci a chave, anunciou meio desconsertado ao constatar minha presença. Não sei onde ando com a cabeça, completou. Notei então que os dois homens trocaram um olhar malicioso. Por um instante, me senti envergonhada. No dia seguinte, acordei com um beijo carinhoso do Marcelo me avisando que o caminhão havia chegado e que os carregadores já estavam subindo. É fato que não conseguiria ter feito o que fiz se não estivéssemos de mudança. Sem dúvida, seria muito desconfortável continuar a encontrar Augusto no elevador, na garagem e na portaria do prédio.

  • O MORRO

    No centro da cidade ergue-se um estranho morro. Verde e coberto de flores o ano inteiro, lar de pássaros e vários animais, mas estranho: ninguém o escalou até hoje.

    Contam os antigos que muitos tentaram, mas nenhum retornou; redobraram as tentativas, a subida não oferecia perigo algum; julgou-se que eles haviam se perdido, mas onde? Não se conseguiu saber por que não regressavam.

    Contra todas as recomendações, João e Manuel resolveram subir o morro. Fui com eles, sei do que estou falando; bom, deveria saber. Acontecem coisas nesta vida que não tem explicação mesmo.

    João subiu primeiro; eu e o Manuel ficamos olhando; nada fora do normal: João entrou no meio de umas árvores, apareceu mais acima, depois mais acima ainda, e, quando deveria já estar no topo, sumiu. Gritamos e gritamos, e nada.

    Onde João estaria? Estava tão perto, quase podíamos ouvir a sua respiração. Ouvimos o gemido agônico de um pássaro. Manuel falou: “Não é João.”

    Mas não estava muito convencido: subiu o morro para procurar João e o seu gemido feio. Logo pude ouvir dois gemidos agônicos. Por sete dias ouvi esses gemidos horríveis. Depois, mais nada.

    Ninguém mais da cidade ouviu. E o morro continua lá, agradável, acolhedor, e inexpugnável.

  • A vida em compasso de espera

    Minha avó Penélope perdeu o marido na guerra. Isso é o que ela costumava dizer, embora algumas vizinhas, maledicentes que só, digam que ele saiu por aí a viajar pelo mundo sem pensar em voltar para casa. Não se falava muito sobre isso na família. A verdade é que quase não conversávamos sobre nada. Nos contentávamos em ouvir. Um homem deixou casa e família e não deu mais notícias: para nós, essa informação era suficiente, bastava. Quem perde maridos ou pais geralmente não tem força para se manifestar ou buscar explicações. O tempo se encarrega de explicar.

    Viúva jovem, minha avó trabalhou como costureira para sustentar os filhos. A vida, para ela, passou a ser costurar e costurar. Uma vez tentou se distrair e cantou na festa da padroeira, mas desafinou. Recebeu muitas vaias, fez um escândalo, ficou furiosa, mas depois esqueceu. Não desafinava na costura, e isso a satisfazia.

    Nunca falou com tristeza do passado, nem reclamou de alguma dor de sentimento. Para dor física, tomava uma aspirina e tudo ficava bem. Quando sua visão começou a falhar, continuou costurando guiada pelo instinto. Com décadas sentada na frente daquela máquina, podia costurar até se tivesse ficado cega. Um ponto no direito, dois no avesso, sabia exatamente para onde dirigir a agulha e comandar o pedal. Fazia roupas sem moldes, dizia que não precisava porque conhecia de cor e salteado a medida das mulheres que apareciam em casa querendo um vestido novo, ou uma blusa, ou uma saia.

    Sempre me lembro dela costurando, mas não me recordo de nenhuma camisa ou vestido que tivesse sido fruto de suas horas de costura, como se ela simplesmente costurasse e a peça sumisse. Não tinha outro objetivo senão fazer uma roupa atrás da outra. Era um prazer infrutífero, não se importava com o resultado, apenas apreciava o processo. Talvez, todas as noites, enquanto dormíamos, ela se levantasse para desfazer o que havia costurado e voltasse para a cama sabendo que, com o amanhecer, poderia recomeçar do zero e assim adiar por mais um dia o fim inevitável, que nem sempre justifica os meios, mas justifica muitos medos.

    Minha avó Penélope sempre foi fiel ao marido, principalmente depois de perdê-lo. Permaneceu intocada após o sumiço dele e provavelmente nunca conheceu outro homem em sua vida. Talvez esperasse que o marido de repente voltasse um dia, sem avisar, vestido com trapos como se fosse um mendigo, e ela, mantendo sua dignidade celibatária, pudesse repreendê-lo: “Isso são horas de voltar para casa?” Ele certamente responderia: “Querida, você não vai acreditar no que me aconteceu. Estava voltando direto da guerra quando, de repente, fui capturado por um pirata monstruoso que tinha um olho só, um braço só, um pé só e um pensamento fixo: acabar com a minha raça. Consegui escapar e fui parar no quinto círculo do inferno, onde encontrei antigos companheiros de armas brigando entre si, e então todos nós fomos atraídos por cantos de várias sereias e depois apareceram umas bruxas que me enfeitiçaram e me obrigaram a deitar com elas. Mas essa é outra história, eu conto outro dia. Agora vamos dormir, que estou um bagaço de tão cansado.”

    Meu avô nunca voltou de sua odisseia, e minha avó continuou sua lida diária de tecer e desfazer sua vida até que não lhe restasse mais nenhum fio. Anos após sua morte, ficamos muito espantados quando aquele mendigo apareceu em nossa casa perguntando por ela. O homem fez segredo do próprio nome, não quis dizer como se chamava porque, segundo ele mesmo, seu nome era tudo o que lhe restava. Ofereceu suas condolências pela partida de minha avó, doeu-se pela nossa dor e se despediu. Foi assunto de toda a família saber que a vó Penélope, na idade dela, tinha pretendentes. Nunca mais tivemos notícias dele nem mencionamos esse acontecimento depois. Como sempre, ficamos quietos e esquecemos.

  • Sala de estar

    A sala de estar da casa da minha avó era o ponto de encontro da família aos sábados. Chegávamos cedo, no começo da tarde, e saímos de madrugada. Era uma festança danada. Os mais velhos sentavam-se e contavam piadas e lorotas, enquanto jogavam cartas e tomavam cerveja, fumando – de quebra, também, inundando a sala de fumaça (naquela época era assim; até cheguei a tomar uns goles de cerveja, dados por meu pai, sem cerimônia). Esporadicamente, a reunião se estendia pela cozinha ou varanda – somente quando vovó estava cozinhando, e pegávamos pequenas sobras de rabanada e de bolo, por exemplo. A bendita sala de estar tinha um querer de abençoada, por Nossa Senhora das Graças, de devoção de vovô e de vovó. A imagem ficava bem no centro da sala; era grande, para que pudéssemos controlar as nossas maluquices, talvez. Partilhávamos a aura leve e envolvente, e, não raro, nós, os netos, preparávamos peças teatrais, para que tios, pais e avós pudessem se divertir. Prestavam atenção com uma curiosidade estranha, já que tio Neto e tio Fagner queriam participar, com falas enviesadas, que nos atrapalhavam (era o sinal de que a bebida já havia tomado de conta de suas mentes sãs – ou nem tanto assim). Claro, não havia bom repertório, mas conseguíamos arrancar boas risadas das tias orgulhosas. Logo que vovó adoeceu, as reuniões ficaram esparsas, íamos mais para vê-la do que para nos divertirmos. Se vovó estava doente, era motivo para a minha mãe, sua filha, dar uns beliscões em mim ou no meu irmão, se saíssemos da linha. Eu não sabia, mas a doença de vovó era fatal; ela estava em fase terminal, com câncer. Após seis meses, entre idas e vindas ao hospital, vovó faleceu e deixou um rastro de dor. Vovô não tinha mais ânimo para nada. Eram muito apegados. As reuniões aos sábados se transformaram num purgatório, pois não podíamos brincar (para mamãe, era uma grande falta de respeito com meu avô, que convalescia com a dor da perda da mulher mui amada). Conto essa história toda para dizer que amei muito a minha vozinha, que fazia de tudo para ter a família unida, fortalecida. Nas voltas que o mundo dá, depois de engenharia, terminei a faculdade que fora “proibido” de fazer, a de teatro. As atuações na casa de vovó, levadas a cabo por mim, invariavelmente como diretor, ficaram marcadas numa memória pura e saudosa. Ainda hoje, quando apresento uma peça, rezo a minha vozinha e a Nossa Senhora das Graças, para que me ilumine, para que a performance seja agradável e catártica. Do meu palco me lembro da sala de estar, e o aconchego me inunda. Talvez eu possa ser, para sempre, um ator das pequenas coisas, da formosura, da vontade de viver expressa em meu rosto úmido. Sou desses que amam sem saber o porquê. Amor à vida e gratidão.

  • O último ônibus para o Rio

    Encostado ao trailer, pedi a última cerveja. Proença disse que para ele estava bom. Pagou sua parte. “O ônibus é às nove. Tu tá ligado, né?”, me lembrou, já saindo e me dando as costas, percebendo que eu ficaria por ali ainda um pouco mais. Fiz que sim com um gesto rápido de cabeça para o lembrete do horário do ônibus. Passavam das sete da noite. Ainda havia um resquício violeta de luz do dia no horizonte, sumindo no mar naquele anoitecer de domingo de quase inverno. Eu voltaria com Proença e o resto do pessoal para o Rio, ao menos era esse o combinado. Eles estavam em casa, certamente se aprontando. A hora passava e eu teria que andar até lá, dali uns quinhentos metros, guardar tudo na mochila e tomar um banho para viajar. Só que mesmo antes do Proença sair fora, eu já havia decidido ficar, porque eu estava desconfiado, ou quase certo, do que aconteceria. E já com o Proença longe, ela deslizou os dedos pelo meu antebraço, olhou-me e disse que estava ventando frio. Para completar, passou a língua nos lábios. Concordei, “Sim, tá ventando frio”, só de camiseta regata, sunga e chinelo. “Entra, bebe aqui dentro”. Eu aceitei imediatamente. Quando entrei, ela fechou o trailer. “Está mesmo na hora de fechar”, soltou com malicia, acrescentando que àquela altura e com aquele vento não havia mais ninguém na praia.

    No meio do primeiro beijo, sua minissaia foi ao chão e, logo em seguida, o biquini lilás, o que fazia girar pescoços quando ela dava um tempo do batente e passava pela areia a caminho de um mergulho. “Para me revigorar com os fluidos de Iemanjá”, explicava, com um riso que fingia ser puro, mas que não me convencia. Aliás, acho que a ninguém. Ela ria do jeito que os demônios devem ensinar as mulheres a rir. Os olhos de todos, os meus incluídos, a devoravam por trás dos óculos escuros. Não era bonita. Para dizer a verdade, passava longe disso. Alguns de nós diziam que ela tinha cara de boneco de ventríloquo. Mas seus peitos, suas pernas e, principalmente, sua bunda, a cada vez mais que vínhamos do Rio para os fins de semana e feriados, mais punha ao chão o queixo de todos. Naquele dia, em um desses mergulhos, cruzou comigo, que voltava do mar. Me olhou de cima a baixo, como jamais havia feito. “Aparece aqui no trailer, lá pelas seis”, ela pediu pouco depois, quando eu estava indo embora, perto do almoço. Na hora combinada, apareci, cheguei com o pretexto de acertar as três cervejas que eu havia levado para a areia de manhã. É que Proença estava por lá e eu não queria que ele desconfiasse das minhas intenções. Bebeu a tarde toda, mas agora fazia cara decidida de quem já estava mesmo indo, o que fez em menos de dez minutos. Sozinhos, ela me chamou para dentro, trancou o trailer, nos beijamos e ela mandou ao chão a minissaia e o biquini. Feito isso, se sentou no freezer, daqueles horizontais, usados no comércio. Abriu as pernas. Seu cheiro engoliu o de cerveja passada misturado ao de fritura de peixe, aroma natural dos trailers de praia. Era mais forte, intenso e, claro, delicioso. Naquele momento, tive certeza de que nunca mais na vida o esqueceria. Definitivamente, eu não voltaria para o Rio no ônibus das nove da noite. De repente, me veio um estalo de preocupação, e não era com a volta. “E teu marido?”, me dei conta. Ela dividia com ele a administração do lugar. “Tá em Macaé, foi tentar fechar a venda de uns terrenos por lá. Volta na terça”. Quando acabamos, eu, em êxtase por ter sido o escolhido entre os outros nove que dividiam comigo o aluguel da casa de veraneio, queria mais; aquela ali, meio apressada, no desconforto do lugar, não seria o suficiente, uma oportunidade de ouro como aquela não poderia se resumir a uma única trepada. A ocasião merecia cama, conforto, e mais do que fizemos até ali. Pedi que fosse comigo para a casa. Subindo o biquini, aceitou na hora, como se já estivesse pensando na possibilidade. Disse apenas que eu fosse na frente, que tinha que fechar o caixa, tomar outras providências, e que lá pelas nove apareceria. Fui embora radiante. Repetiríamos noite adentro tudo que aconteceu no trailer. Aquela cavala dos sonhos de toda a casa só para mim.

    “Porra, vamos perder o ônibus por tua causa”, um dos caras reclamou assim que entrei. Comuniquei que ficaria, que só voltaria na segunda, de manhã cedo. Todos fizeram cara de “Então, foda-se. Vam’bora!”. Todos, menos Proença, que muitas vezes funcionava como meu irmão mais velho. “Tem certeza de que não vai?”, e me olhou com olhos de radiografia, de quem havia percebido o que, lá no trailer, estava suspenso no ar. Sim, eu tinha certeza, confirmei, firme. Saíram feito uma tropa, deixando a sala em silêncio e tomada por minha ansiedade pela noite.

    Ela chegou meia hora depois. Estava com maquiagem leve e batom, os cabelos ajeitados pela umidade do banho. Não estava feia ali. Até pensei se ela era realmente feia como dizíamos, ou se nos preocupávamos apenas se ela era gostosa. Usava uma blusa colorida casada com uma bermuda de tecido fino, um pouco transparente, através da qual dava para ver a marca da calcinha, ainda menor do que o biquíni que provocava o êxtase coletivo.

    A noite se desenhava memorável, daquelas de contar para os melhores amigos no bar. Mas não fomos longe e tudo se tornaria sim memorável, só que por outros motivos. A cama incendiava quando percebemos um vulto encostar junto à janela do quarto que dava para a pequena garagem, que por sua vez começava no portão de entrada da casa. Os caras saíram, não trancaram o portão. Apesar da vidraça espraiada, que distorcia as imagens vistas através dela, ele, o dono do vulto, pode perceber nossos movimentos e ter a certeza do que fazíamos. Algum filho da puta, escondido na praia deserta, deu o serviço, e o corno, nome real do vulto, veio em tempo recorde de Macaé.

    Do lado de fora, ele chamou nossos nomes e pediu que abríssemos a porta. Saí de cima dela, me vesti e fui abrir. Seria patético tentar negar. Nos passos que dei entre o quarto e a porta da sala, a principal da casa, me senti em uma reportagem dos antigos jornais populares, aquelas que não acabam bem. Eu só tinha 22 anos, pensei nisso antes de girar a fechadura, já arrependido para o resto da vida de não ter voltado com os caras. Quando abri a porta, o sujeito entrou olhando-me nos olhos, mas em silêncio, para a minha surpresa, que esperava, no mínimo, uma porrada no meio dos cornos. Parado no meio da sala, disse o nome da mulher e perguntou se era eu quem estava no quarto. “Não, era o presidente dos Estados Unidos”, ela respondeu. Meu silêncio tenso abafou minha risada.

    Quando apareceu na sala, já estava vestida, para dar à situação ao menos um pouco de decência. Começaram uma discussão típica dessas horas. Gritos, acusações de ambos os lados, a merda de uma vida conjugal se revelando, vindo à tona em golfadas de raiva e mágoa, como se fosse vômito. Eu tinha a ver com o que havia acontecido do trailer até ali. O que veio antes não era minha culpa.

    Ele ia dos gritos ao choro, retornava do choro aos gritos. “Eu te dei tudo quando você tava fodida, sem ter onde cair morta, quase passando fome, morando de favor. Mais um pouco e ia pra zona”. “E eu que me mato de trabalhar naquela porra, vendendo cerveja e fritando peixe, enquanto você some dizendo que vai vender terreno e nunca que aparece com a porra do dinheiro”. Foi aí que ele se abaixou em pegou uma garrafa de cerveja, encostada no canto da sala. Havia outras por ali. Os putos se mandaram e nem se deram ao trabalho de recolher a porra das garrafas. O movimento dele em pegar a garrafa, apenas este, foi o suficiente para que eu projetasse um enorme caco rasgando minha jugular. Eu só tinha 22 anos, pensei novamente.

    Levou alguns minutos discutindo com a mulher, segurando a garrafa. Em alguns momentos chegou mesmo a sacudi-la no ar. Mas ao contrário do que insinuava, deixou, propositalmente, a garrafa cair da altura dos joelhos. Ela bateu no chão, rodopiou, caiu deitada e não quebrou. Vidro forte, pensei pateticamente e, principalmente, aliviado. Virou-se para mim. Seu choro tornou-se seco e seus olhos, vazios. “E eu te considerava como um irmão”, e falando mais baixo, jogou na minha cara o modo como me tratava. Irmão era exagero, mas ele era realmente camarada de todos nós, dez rapazes entre vinte e vinte e cinco anos que rachavam o aluguel da casa, dormiam empilhados em dois quartos pequenos e uma sala de tamanho médio e se derretiam de tesão pela sua mulher. Se ele percebia isso, não deixava transparecer. Deu as costas e foi embora, sem dizer mais nada. Ela saiu em seguida; não se despediu, não olhou na minha cara.

    Vi as horas. Eram dez e vinte e cinco. De modo algum eu poderia dormir ali naquela noite. Aliás, em nenhuma outra noite mais. O sentimento de vingança poderia vir com a madrugada, nas semanas e meses seguintes, em algum momento até o fim da vida daquele sujeito. Embolei toda minha roupa, enfiei na mochila, apaguei as luzes, tranquei tudo. Agora faltavam quinze para as onze. Até a rodoviária, que não passava de um recuo à margem da rodovia, dava cerca de meia hora andando rápido. Seria o tempo exato de pegar o ônibus, o último da noite.

    A passos largos, quase correndo, ganhei a rua escura, de terra, assustado por qualquer movimento que eu percebesse atrás de árvores e em becos entre as casas. Na beira da rodovia me senti menos inseguro e apertei o passo, confiante de que chegaria a tempo. Mas foi quando de uma rua transversal saiu um carro, arrancando; mesmo no escuro deu para ver que era um Voyage. Com a arrancada, os pneus deslizaram na terra batida, e cantaram quando alcançaram o asfalto. Ao se aproximar de mim, um sujeito colocou metade do corpo para fora da janela do carona, pôs uma das mãos na cintura e fez o movimento de que dali tirava uma arma. Gritou “Vai morrer, filho da puta!”, e apontou para mim. Havia um objeto escuro, pontudo, preso entre o polegar e o indicador de sua mão direita, mas com a iluminação fraca, não era possível saber do que se tratava. O tempo em que o carro levou passando por mim ficou congelado em algum lugar do espaço sideral. Congelados também ficaram minha respiração e meus batimentos. Eu tinha 22 anos. Não imaginei que nessa vida se pudesse morrer na beira de um estrada, longe de casa, num fim de noite de domingo, tão rápido e por um motivo tão idiota: uma buceta misturada a cheiro de peixe e cerveja choca. Finalmente reagi, e intentei me jogar no matagal a minha esquerda, mas antes que eu fizesse isso, o desgraçado recolheu as mãos para dentro do carro, e ainda com a cara do lado de fora, me olhando feito um palhaço no picadeiro, deu uma risada escandalosa, que ecoou na noite e foi sumindo a medida em que carro ganhava velocidade com o arranque e desparecia na escuridão da estrada. Agora com o coração aos pulos e quase sem ar, não sei quantos segundos levei para realmente entender o que havia acontecido. Quando confirmei que estava vivo, voltei a apressar o passo, pensando que aquele imbecil jamais irá supor que não havia pior hora e pessoa mais errada para ele fazer uma brincadeira tão estúpida.

    Olhei o relógio. Onze e dez. Faltava cerca de meio quilômetro para o arranjo de rodoviária. Apressei o passo; agora, praticamente correndo, estava chegando. Foi quando vi, ainda a certa distância, o letreiro luminoso: Macaé – Rio, 23h15. A porta aberta, dois ou três embarcavam. Juntei todas as forças que tinha numa corrida desabalada, mas a porta fechou e o motorista deu seta para a esquerda, anunciando que pegaria de volta a pista. Perder aquele ônibus poderia significar a diferença entre morrer e continuar vivo. Então, tirei ar de não sei onde e gritei que nem um desesperado, acenando que me esperasse. Quase me joguei na frente, como se achasse melhor morrer com a logomarca da Mercedez Benz na cara do que com possíveis requintes de crueldade de um marido traído.

    Para meu alívio, o maior que senti na vida até então, escutei o barulho de ar comprimido do freio do monstro de lata. Em seguida, a porta se abriu, subi e quase sem respirar, sem conseguir falar, tremendo, tirei o dinheiro da carteira e comprei a passagem direto com o motorista. Ele me vendeu uma poltrona da última fileira. Se fosse pendurado no teto, já estaria ótimo.

    Como não havia ninguém ao lado, abri a janela, para que o vento frio da noite, acelerado pela estrada, secasse o suor da minha cara e da minha camiseta. Quando secou, fechei a janela e deitei um pouco o encosto. Lá fora, mesmo fracas as luzes da saída da cidade clareavam a espuma das ondas e o deserto da praia. Repassei tudo o que acontecera naquela noite, lembrei-me dela, de pernas abertas em cima do freezer, no trailer, mas na memória do olfato não me veio seu cheiro, aquele que eu tive certeza de que lembraria para o resto da vida. Naquela lembrança tão recente, estava apenas e tão somente a mistura enjoativa de cerveja passada e fritura velha de peixe.

  • Dois projéteis e um amor feito em pedaços

    (Domingo de manhã, quarto de Sofia)

    O rádio havia ficado ligado a noite toda. Naquele momento, ia ao ar um debate sobre a epidemia letal que tinha começado havia mais de um ano. Infelizmente, diziam os cientistas, o fim do tormento não era esperado para breve. Uma nova variante do vírus, muito mais transmissível, havia surgido no Marrocos, perto da fronteira com a Espanha. Sofia escancarou a janela e deu de cara com uma nuvem acinzentada e espessa. Aquele borrão ostensivo ousava cobrir quase todo o céu e incomodava pela capacidade de ofuscar a bela paisagem natural da zona sul do Rio de Janeiro, cidade que essa paulista de Ribeirão Preto havia escolhido para viver dez anos atrás. Na noite anterior, havia ido dormir ouvindo gargalhadas inoportunas provenientes do apartamento vizinho. O som, mais alto do que de costume, parecia indicar uma festa. A impressão que se tinha era que os donos da casa e seus convidados não comiam, não bebiam, não dançavam, não conversavam, não se beijavam, não se drogavam, não trepavam. Enfim, não faziam nada do que se costuma fazer numa situação do gênero. Apenas gargalhavam de modo histérico e inconveniente. E ouviam música, claro. Uma salada impensável, de gosto duvidoso, cantores de que Sofia já nem se lembrava. Vários simplesmente desconhecia. Algumas poucas canções daquele eclético repertório a fizeram recordar momentos importantes de sua vida. De sua vida com Olavo inclusive, uma das coisas boas que o Rio havia lhe proporcionado. Sim, é verdade, um dia tinham sido felizes juntos. Pouco mais de meia hora tinha se passado. O panorama havia se modificado um pouco. Agora, um solzinho pálido e preguiçoso tinha conseguido furar o bloqueio da nuvem escura e invadia parcialmente o quarto. Ainda deitada na cama, Sofia ligou para Olavo. O barulho das risadas e das músicas ainda reverberava em seus ouvidos. O que tinha a lhe dizer não seria fácil, mas estava decidida a resolver a situação o mais rapidamente possível. Por ela, liquidaria a questão com apenas uma frase, de preferência algo bem curto como acabou, fim, chega, basta, já deu. Mas uma relação, mesmo uma fracassada como a que mantinha com seu colega de firma, não se termina assim, de forma tão econômica. Não é essa a praxe. Olavo mostrou-se surpreso. Pediu e até implorou nova chance. Não gostava de ser contrariado e tinha por hábito dar sempre a última palavra. Nas semanas seguintes, continuou a procurar Sofia e a tentar uma reaproximação. Ela seguia irredutível. Raramente voltava atrás quando tomava uma decisão. Era patético ver um sujeito de mais de 40 anos apresentando um comportamento tão infantil. O que estaria acontecendo com os homens, se perguntava. Por que todos pareciam sofrer de imaturidade crônica? Cerca de quatro meses depois, Olavo sumiu de repente. Na empresa, diziam que havia sido transferido para Salvador. Sofia passou a sentir falta dos telefonemas diários, das cartas melosas, dos bilhetinhos furtivos, dos e-mails caprichados e dos torpedos insistentes do ex. E do sexo também. Como era bom de cama o danado, tinha de admitir. Ficou saudosa do passado nem ela conseguia explicar bem por quê. Somos todos nós, seres humanos, um poço de contradições, havia ouvido num filme alemão na semana passada. Só pode ser isso. Queremos o que não temos e desprezamos o que conquistamos. Um dia, quando já haviam se passado mais de dois anos desde o último contato, Olavo voltou. Reassumiu seu posto e passou a encontrar a ex-namorada com frequência no ambiente de trabalho. A retomada do romance estava destinada a se tornar realidade. Foi assim que, num barzinho da Lapa, ao som de um chorinho bem tocado, selaram o acordo. Estavam namorando de novo.

    ***

    (Sábado à noite, apartamento de Sofia)

    Depois do sexo, Sofia foi até o banheiro enquanto o homem, olhar meio perdido, continuava deitado na cama. Olavo apresentava uma expressão transtornada, o corpo envolvido por uma nuvem negra de ressentimento e amargura. Assim que a mulher voltou ao quarto, ele disse com voz trêmula:

    – Você não devia ter feito o que fez. Quem vai terminar com você sou eu, sua ordinária. Olha bem… Eu tenho uma surpresa, falava, tal qual um personagem de telenovela mexicana, ao mesmo tempo que exibia uma pistola.

    Foram dois tiros no peito antes de a mulher cair diante do armário. Já não respirava. Olavo ainda continuava sendo alguém que não admitia ser contrariado e que mantinha o hábito de sempre dar a última palavra. Sofia nunca poderia imaginar que sua vida chegaria a termo assim, de forma tão cafonamente melodramática.

  • A Papiloscopista

    Papilo o quê? Expectorei na tosse esta pergunta para minha filha Violeta, liberando as vias áreas de um agente irritante. Nunca entendi o seu sonho de ser uma papiloscopista. Quando meninas sonhavam em ser princesas, a minha desejava ser papiloscopista. Hoje fico aliviada dela não ter brincado de cadáveres ao invés de bonecas. Quando ela me falou pela primeira vez da profissão tão sonhada, confesso que não entendi. Naquela manhã ensolarada, ela desembuchou na lata, com voz grave e semblante decidido: “Mãe, quando crescer eu quero ser papiloscopista”.

    Será que seria uma criança de aura índigo? ou eu estaria confundindo a palavra papiloscopia com parapsicologia? Violeta me desorientava com seu ar fatídico, parece ter nascido de fora para dentro.

    Quando menina, ela passava horas a fio trancada no quarto desenhando papiros. O talo do papiro chega a medir seis metros de comprimento, a flor da planta lembra os raios de sol, uma planta sagrada para os povos antigos. Assim divaguei pelos papiros:

    — Será que a profissão de papiloscopista poderia ter a ver com aqueles vibrantes papiros? Ou seriam pupilas? Afinal, ela era a minha menina dos olhos. A pupila fica no centro da íris, também pode ser um botãozinho ou um mamilo. Violeta era minha pupila, que também apreciava os fósseis. Seria então paleontologia a tal da profissão? Quem sabe minha pupila seria uma cientista que estudaria as formas de vida existentes no passado. Ao menos, para uma mãe, parecia mais palatar esta opção.

    Ela adorava carimbar. Carimbava as mãos, dedos e pés , com tinta ou carvão. Carimbava até o rosto na areia da praia. As visitas na nossa casa já sabiam do passe de entrada: seriam carimbadas por Violeta, que construía um cadastro de gente de forma obsessiva. Até que ela começou a desenhar papilas dérmicas, desenhava com perfeição as digitais, que além de exclusivas, nos fazem companhia até a morte.

    A ameaça desta bizarra profissão me eriçava os pelos dos braços, provocando-me um estranho acovardamento. Hoje acordei desassombrada e decidi perguntar direto a Violeta, mas vacilei e desisti, porque sei que me responderia curta e grossa, com língua
    afiada de pirarucu, com sua lixa que esfola. Digitei mais de vezes para perguntar a IA, e dei de cara com a morte. Não tinha como fugir. É verdade, nós somos todos mortais. Adeus à doce ilusão de eternidade. Isso sim deve ser o nosso fantasma.

    Duro mesmo era saber que minha flor Violeta tinha o desejo de convívio intenso com defuntos. Ela labutaria com corpos mortos, para na superfície de suas peles descobrir a profundidade da sua alma, revelada nas suas identidades fragmentadas, matadas,
    acidentadas, afogadas, carbonizadas. A descoberta me causou horror, o de quem tenta encobrir com o véu do silêncio a palavra morta, como se ela, a morte, fosse um destino inevitável apenas para o outro. Melhor restar-me como espectadora, enquanto violeta testemunharia o nirvana, esse estado inorgânico de seres humanos destituídos ou libertados de qualquer tensão ou pressão de vida.

    — Mãe! O que queres aí?

    Assim atirada, interrompeu a minha pesquisa. Entravei, mas já acalmada por destramar a possível causa do seu desejo papiloscópico! Matei a charada: ela foi atiçada pela síndrome de Nagali. Eis aí a resposta deflagrada. Os portadores da síndrome de Nagali não tem nenhuma impressão digital, um defeito genético raríssimo que impede a formação das digitais no feto. Violeta foi um destes bebês. Antes tivesse perdido suas digitais por acidente. Sem cristas na epiderme das mãos e dos pés, a menina das pontas dos dedos lisas, seria um dia identificada por suas pétalas de margarida.

    Agarrada ao edital do concurso para a função de papiloscopista da polícia federal, Violeta se trancou no seu casulo onde chocava seu desejo fálico. Que insígnia portaria ali no seu distintivo? Talvez conseguisse enfim abrir sua guarda e sairia cheia de marras e nóias à caça dos pobres mortais. Mas não foi fácil como pensava. Tirou de letra as matérias teóricas, aprofundada no direito criminal como se fosse o próprio algoz. Mas como uma mula empacou num pulo.

    A pedra no caminho era um salto para frente, um teste de impulsão horizontal. Se sustentava em barras, mas não conseguia pular com impulso para frente. Eu assistia comovida ao esforço de minha filha, que pulava sem parar. Ficava com dores nos joelhos e articulações, mas não abdicou. Às vezes ela mesma caia de risada, quando nem conseguia sair do lugar. Seria mais uma vez avacalhada! Saltar para frente com propulsão e coragem devem ser um privilégio de poucos, por isso estancamos diante das pedras, olhando desesperados para trás. Mas naquele ano ela pulou, cravando a distância máxima para as mulheres e aterrou na areia do estádio do Maracanã, sob os aplausos da plateia de avaliadores. Desta vez não foi vencida pelo teste de aptidão física, que elimina de cara quase metade dos candidatos. Violeta começou aos 25 anos e só teve êxito aos 33 anos. A mais velha papiloscopista daquele ano, uma façanha só possível pelo impulso louco do desejo. A sua obstinação era rastilho de pólvora.

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