COntos

  • O dia do aniversário

    Doze horas em ponto, os sinos da igreja de Santo Antônio de Pádua anunciavam. No dia em que completava 50 anos, Joel saiu apressado do escritório do advogado e, ainda dentro do elevador, passou a organizar mentalmente as tarefas da tarde. Memória privilegiada, sua melhor agenda sempre foi a própria cabeça. Era quinta-feira, e apenas no sábado uma celebração ocorreria. Reunião modesta, só para os mais íntimos, como se costuma dizer. Afinal, nunca gostou mesmo de comemorar aniversários. Ficar mais velho não é fato que mereça ser festejado, caramba. Mas a filha insistiu: data redonda, meio século, não se pode ignorar uma ocasião como essa. Em frente ao prédio do advogado, uma rua de grande movimento. Teria de atravessá-la antes de alcançar o metrô. Um pouco mais adiante, uma passarela de pedestres. Consultou o relógio e decidiu que não valia a pena utilizá-la. Perderia tempo e, além disso, jamais se sentiu confortável caminhando em cima delas. Os carros passando em alta velocidade lá embaixo causavam-lhe certa aflição, além de taquicardia, pernas bambas e suor nas mãos. Um automóvel vermelho vindo ao seu encontro é a última imagem de que se recorda. Veículo grande, desses projetados para uso em terrenos acidentados. Estendido ali, no meio da pista, julgou que talvez tivesse sido atropelado. Em torno de si, ouvia vozes, muitas; porém, não conseguia entender o que estavam dizendo. Homens e mulheres falando alto, mas era como se aqueles indivíduos se comunicassem numa língua estrangeira e pouco familiar, algo assim como basco, japonês ou turco. Pensou então na filha única e na festa que não aconteceria. Pensou também na pilha de livros a sua espera na estante do escritório, livros que não leria nunca. Pensou na esposa e se deu conta de que ela ficaria viúva. Bem, ao menos não seria mais necessário levar adiante toda aquela burocracia do divórcio. Pensou nos poucos amigos que tinha. Sempre fora um homem introvertido, reservado. Um ou outro talvez sentisse sua falta. Pensou na chefe. Pensou, sem conseguir evitar uma ponta de orgulho, que seria difícil para ela encontrar alguém capaz de substituí-lo com a mesma eficiência. Pensou nas fantasias sexuais que não teria chance de realizar. Sempre fora tão travado… Logo agora que se sentia mais solto, pronto para experimentar novas sensações… Paciência! Pensou nos pais velhinhos, companheiros de uma vida inteira, morando sozinhos no casarão de Vila Esperança. O casarão que se recusavam a abandonar, onde ele e a irmã Jane passaram a infância e a adolescência, local de descobertas e brincadeiras em companhia de primos e vizinhos, de uma vida ao ar livre que já não existe. Pensou nas galinhas, criadas com esmero e dedicação pela mãe no quintal. Nos ovos saborosos de gema escura e nos pintinhos que elas produziam. Nas brigas com a irmã pelo direito de nomeá-los. Nos castelos imponentes, construídos no jardim com terra, água, pazinhas de plástico e competência. Sua vocação para a arquitetura havia nascido ali, não tinha dúvida. Pensou ainda nas flores cultivadas pelo pai. Viçosas e coloridas, faziam os passantes pararem diante dos canteiros a fim de admirá-las. Nos pássaros de vários tipos que, sem pedir autorização, faziam morada nas árvores da propriedade. Pensou na horta atrás da casa, onde Rosalina ia buscar a salada do almoço. Por fim, pensou em Rex, bolinha de pelos preta e saltitante, companheiro fiel e amoroso. Todo esse esforço de recordação o exauriu. Por que todas essas imagens se faziam presentes justo naquele momento? Eram muitas as lembranças a tumultuar-lhe o cérebro. Elas chegavam sem que ele pudesse evitar. Simplesmente brotavam, como a água limpa brota às vezes das pedras. Tentou esvaziar a mente, não pensar em mais nada. Sim, essa era a coisa certa a fazer. Será que depois de velho estava ficando piegas? De onde todo esse sentimentalismo havia surgido? Com a morte dos pais, a casa provavelmente seria vendida pela irmã. Seu maior desejo se tornaria realidade. Não teria dificuldades em convencer a sobrinha. Obstinada, Jane sempre acabava conseguindo tudo o que queria. No local, é possível que um edifício de 49 andares, batizado com algum nome estrangeiro, despontasse. Quem sabe um prédio comercial, com lojas e escritórios… Junto com a casa, toda a história da família iria ao chão. Em torno de si, Joel continuava a ouvir vozes e barulhos diversos. Pessoas de branco pareciam tentar socorrê-lo. Ele louvava o empenho delas, embora tivesse quase certeza de que este resultaria inútil. Inútil seria também a tentativa de impedir a irmã de vender o casarão. Talvez ela nem sequer esperasse a morte dos pais. Talvez os pusesse num asilo — ou casa de repouso, lar geriátrico, pousada ou recanto para idosos, eufemismos que designam tão somente o local onde filhos desalmados abandonam os pais. Nossa, que exagero, agora estava sendo cruel demais com a única irmã. Ela não era nenhuma bruxa, ora bolas, com toda a certeza amava os pais. Só era da opinião de que eles deveriam deixar a casa, isso sempre achou mesmo e nunca escondeu de ninguém. Era tudo muito amplo, argumentava. Nada justificava que continuasse a viver ali um casal de idosos dependentes e de saúde frágil. Sentia-se cada vez mais fraco e experimentava dores terríveis pelo corpo inteiro. Com as últimas forças que lhe restavam pensou finalmente que deveria ter utilizado a passarela, que teria sido muito bom poder reunir aqueles que o amavam em sua festa de aniversário e que uma decisão irresponsável pode transformar uma existência de forma definitiva.

  • O menino que se apagou num sopro

    Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam.

    Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar.

    Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse.

    Passavam os dias, passavam as noites, e o menino durinho na cama.

    Como se estivesse morto, todo mundo pensava.

    Quando acordou, disse: – Preferia não ter acordado – ninguém entendeu por quê.

  • Um homem de muita fé

    Ele desceu do trem numa estação qualquer, numa cidade desconhecida, e esperou por ela. Depois, entrou nas criptas das catedrais, onde o silêncio pulsa de tão denso, e esperou por ela. Empoleirou-se em árvores, em pontes, em terraços, em torres, em montanhas, em aviões, nas nuvens dos sonhos e, talvez, nas asas de algum anjo.

    Esperou por ela na dureza do inverno mais impiedoso, tremendo não de frio, mas de esperança. Também esperou por ela na chuva, até que a água caísse sobre ele como pontas de uma faca. Comprou até um telescópio e esperou para vê-la aparecer entre as estrelas.

    Encontrei-o sentado num banco de parque, em silêncio, olhando fixamente para além das árvores, para além do tempo, para além da loucura. Perguntei-lhe: “Quem você espera com tanta persistência?” Sem desviar os olhos do horizonte, respondeu: “A felicidade. Quem mais poderia ser?” Sentei-me ao lado dele.

  • Os laços

    Os laços de Maria me enfeitiçavam. Eles me atraíam como uma medusa. Não era possível olhar diretamente nos seus olhos. Havia, de minha parte, uma tremenda vergonha. Ainda tinha um atrativo peculiar, o aparelho ortodôntico, com uma linha de aço que ficava para fora da boca, como um ser especial, de outro mundo. Conhecemo- nos desde a infância, mais especificamente no quarto ano, quando ela veio estudar na minha sala. A sua imagem me paralisou, ao entrar atrasada na primeira aula, vindo com a coordenadora, que nos apresentou a aluna novata. Apesar dos apetrechos, ela era bastante sorridente – e sorria mais com os olhos, esverdeados. Por sorte, ela sentou numa cadeira ao lado da minha. Numa pequena brecha da explicação da professora de português, ela me perguntou qual era o meu nome; eu disse: “Gustavo… mas pode me chamar de Guga” – o apelido que meu pai me dera por causa daquele tenista, para quem eu não dava a menor bola. Maria, na verdade, só se entrosava com os garotos, porque, pelo que parece, havia inveja das meninas, que tinham um grupo muito fechado. Passou a jogar futebol com a gente, e por isso foi apelidada pelas mesmas meninas de “Marião”. Eu brigava por ela, não deixava que a maltratassem, porque era novata e porque era o meu novo amor. Nos anos seguintes, Maria foi posta numa sala especial, a “D”, pequena, só com os alunos crânios. Mas, ainda assim, Maria não se afastou de mim – era o meu grande receio. Um dia perguntaram a ela se era minha namorada; ela disse que sim, muito assertiva, e eu me borrei de medo de que aquilo fosse mesmo verdade. “Não liga, Guga, prefiro que pensem que somos namorados”. Foi uma questão que ficou em aberto na minha mente por meses, até que Maria disse que eu estava passando do ponto. “Qual é, Guga, sem essa de pegar na minha mão; vão pensar que somos namorados de verdade!”. Mas eu era apaixonado por ela e ela por mim, disso eu sei. No sétimo ano, quando voltei de férias, soube que Maria tinha mudado de colégio. Eu queria saber o seu paradeiro, por que teria feito isso comigo? Depois de uma semana, recebi uma ligação dela – não consegui falar antes porque ela havia mudado de telefone. “Sabe, Guga, é tudo muito estranho no novo colégio; é como se as pessoas comessem os livros para passar no vestibular. E eu não sei por que tenho que me preocupar com isso, já que faltam alguns anos para o vestibular. Minha mãe disse que era para eu criar experiência, aprender a lidar com as dificuldades da vida logo cedo”. Nisso, Maria foi sugada pelos estudos e pouco falava comigo; sempre tinha provas e simulados. Chorei por um mês a sua partida definitiva da minha vida. Escutava The Cranberries, sua banda predileta, repetidas vezes – chorando. No vestibular, soube que teria feito para Medicina e passado de primeira. Ela era uma puta aluna, merecia. Enquanto isso, eu passei para Ciências da Computação – também um bom curso. Hoje, já formado e casado, me encontro com o meu primeiro amor no supermercado. Ela parece que vinha ou iria para a academia. Estava mais linda do que nunca. De primeiro, não me reconheceu, mas depois me abraçou e disse que tinha muita saudade da nossa pura amizade. Quando me preparei para pedir o seu telefone, ela se virou e disse que teria de ir, porque seu marido e sua filha esperavam no carro. Desde esse dia, mantenho constantes visitas ao mesmo supermercado, a dez quilômetros da minha casa, para um dia encontrá-la de novo, só para vê-la. Minha mulher pergunta por que vou fazer o mercantil tão longe, e eu digo que é pelo preço dos produtos – que de fato são bem mais acessíveis, já que é um atacadão. O tempo a esconde de mim, mas hei de achá-la.

    Adriano Espíndola Santos é autor de “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto” e “Viver morrendo”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. Instagram.com/adrianobespindolasantos/

  • A Despedida

    Estranho ver você aí deitado, fisionomia serena. Por que você não era assim a maior parte do tempo, Samuel? Tenho a impressão de que você vai se levantar a qualquer momento e começar a falar aquelas coisas sem sentido que costumava dizer. Você não percebia que seus argumentos eram frágeis, sem coerência? Suas cenas de ciúme bobas. Samuel, aquilo era apenas meu trabalho, era tudo profissional. Sério. Nunca houve nada. Nada mesmo. Olha em volta, não veio quase ninguém. Sua mãe, seu irmão e sua cunhada mal me cumprimentaram. Nem parecem tão tristes. Ficaram surpresos com a minha presença. Não vejo nenhuma senhora Samuel Arantes. Pra falar a verdade, nunca soube se existiu alguma depois de mim. Claro que você deve ter tido seus casinhos por aí. Presta atenção, vou fazer uma coisa. Quero que você leve minha aliança com você. Sim, eu ainda guardo. Poderíamos ter sido felizes juntos, ter construído uma relação sólida. Mas você era imaturo, queria as coisas sempre do seu jeito. Acabou que não tivemos filhos. Não passamos nossa herança adiante, não deixamos na terra nossa semente. Ainda bem, nunca tive vocação pra maternidade. Acho que você também não teria sido um bom pai. Pra onde será que você foi? Tomara que para um bom lugar. Apesar de tudo, você não merece sofrer. Sua alma já está por aí, flutuando no ar, observando as pessoas de modo furtivo, será que já deu tempo pra isso? Samuel, você já sabe que morreu? A gente ouve dizer que muitas pessoas demoram a descobrir. Bem, meu lado espiritual não é tão desenvolvido, não posso falar com propriedade sobre esses assuntos. Pensei que conseguiria refazer minha vida depois da nossa separação. Não foi isso que aconteceu. Mas sempre é tempo, né? Trouxe uma coroa. É a mais bonita de todas. São apenas duas, ainda assim é a mais bonita. Fiz questão de colocar meu nome na faixa pra todo mundo saber. Ainda não tô acreditando. Nem consegui chorar, embora ache que devesse. Não, não, não. Não vou usar técnica de atriz pra isso. Ou aconteceespontaneamente ou nada feito. Samuel… Eu te perdoo. Você me perdoa?

  • O trapezista

    No ponto mais alto do andaime lateral, aonde chegou depois de subir 42 degraus com ar de vitória e vestindo a calça apertada de malha branca, o trapezista faz uma reverência ao público, que aplaude mais por medo do que por entusiasmo, com a emoção presa na garganta. “É muito alto, ele não vai conseguir”, sussurravam os espectadores, a boca seca de tanta aflição. Era o número final do espetáculo, o mais aguardado, o fecho perfeito para uma noite de encantamento.

    Som de tambores. Tensão. Suspense. Ninguém respira na plateia.

    O trapezista prepara o salto. A audiência reza em silêncio, as mãos postas. “Não tem rede de proteção, olha o perigo!”, um espectador notou. O que estava ao lado dele confirmou: “Não tem mesmo, o cara é corajoso. Meu Deus!”

    O trapezista gruda as duas mãos na barra do aparelho e lança o corpo no ar. Um oh! em uníssono explodiu por toda a arena. Parecia voar o homem de calça apertada de malha branca, indo e vindo como uma folha solta no ar sem peso algum. A cena era arrebatadora. “Agora ele vai trocar o aparelho e dar o triplo salto mortal, tá vendo o trapézio vazio que vem pelo lado contrário? Agora!”, uma senhora abraçou a neta e abafou o grito.

    Vinte metros abaixo, com um som seco, o corpo do atleta se choca contra o chão de concreto da área central do picadeiro. A malha branca tornou-se vermelha. Sangue por todo lado. Novamente o oh! em uníssono na arena. “Um médico, chamem um médico, tem um médico na plateia?”, gritou o assistente de palco. “Aqui, eu sou médico”, respondeu o senhor grisalho, correndo até o centro do picadeiro. O homem se debruça sobre o trapezista e constata o que todos suspeitavam. Olha em volta e faz o gesto de “acabou”, movimentando as mãos do centro para os lados, uma sobre a outra.

    A plateia, como se tivesse ensaiado a reação, soltou o ar retido nos pulmões e explodiu em aplausos e em urros de puro deslumbramento. O espetáculo foi um sucesso retumbante. Que noite, senhoras e senhores, que noite!

  • Expectar

    A cadeira vazia é sinal de luto, a falta do desejo. Morreu muita coisa em mim desde que Maroca se foi. Só tínhamos a nós mesmos, porque nossa família se dispersou, e nossos parentes moram distante, em outro Estado – é uma história longa, mas vou resumir: passei num concurso para um bom cargo no DNOCS; nessa época, namorava com Maroca, e, para assumir o meu posto, logo tive de me mudar e me casar com a mulher da minha vida. Lembro, repetidamente, dos bons tempos em que a casa era cheia de filhos, primos, amigos, afilhados, e quem mais pretendesse se chegar. Maroca acolhia como uma mãe, tanto que Joelma, amiga de Daniel, nas férias, ficava dias em nossa casa, porque eles “precisavam” brincar muito, juntos. A rua toda usava a nossa casa como ponto de encontro à noite, para ficarem na calçada, e boa parte do tempo eu e Maroca ficávamos e brincávamos com os nossos vizinhos. De lá para cá, tudo mudou. Hoje, moro em um “apertamento”, porque nossos digníssimos filhos arranjaram a desculpa de que apartamento é mais seguro; mas se perde a liberdade… Finjo que não me importo em estar só, em plena quinta-feira – dia em que meu apê, em tempos áureos, estava abarrotado de filhos e netos. Transito entre o quarto e a sala, para acompanhar os noticiários, sempre ruins – o Brasil, então, vai de mal a pior. Pela manhã, três vezes por semana, tenho a companhia da Alzira, a diarista, que me faz um bem danado, com o seu jeito leve de viver, mesmo diante de tanta dificuldade, morando em uma zona perigosa da cidade; mesmo tendo perdido um filho para a marginalidade; mesmo sendo mãe solo de quatro filhos; faço questão de ajudá-la no que precisar, ela é a minha amigona do peito, que me tira da inércia de viver por viver, assim… Daniel foi para o Canadá, e se estabeleceu muito bem como músico, baterista (já mora lá há quase dez anos; daí, não sei sequer o cheiro das minhas netas). Fernando, o mais novo, primeiro foi à Inglaterra, mas, por conta do rigor das leis também, se mudou para o Canadá com a família. Não vejo os meus netos há, pelo menos, oito anos. Maroquinha faleceu há dois anos, de câncer, muito rápido; ainda estou sem entender. É uma perda irreparável, insuportável, mas tem de se viver. Meu apê, agora, é um mausoléu que me abriga, tímido e ferino. Ressoa a voz da escuridão. Meus filhos dizem que vêm me buscar para passar um bom tempo com eles. Essa é a única alegria que me mantém em pé. Não vejo a hora de beijar Sofia, Mariana e André. Todos grandes, já encaminhados na vida. Mariana é a mais apegada: liga, e passamos horas conversando. Ela afirma que arrumou o meu quarto; que em setembro tudo vai se resolver. Daniel já comprou as passagens. É questão de tempo, se ainda houver tempo para viver.

  • Tule preto

    Ela se trancou no quarto, triste que estava. Fechou atrás de si a porta.

    Aos poucos criou para si um mundo à parte. Mas o sol teimava em entrar pelas frestas da janela todas as manhãs.

    Fechou as janelas. Teceu com esmero um vestido longo e preto, de modo que seu corpo não mais se mostrasse.

    Lá fora, o tempo encarregava-se de transformar a vida. O vento sempre trazia mudanças. Dentro, tons sobre tons cuidadosamente escolhidos: todos escuros.  Rosas de organza grená passaram a enfeitar o jarro. Cortinas marrons cobriram o que restava de luz nas janelas. Em cada nova peça dedicava-se por completo.

    No início, o tempo bateu na porta trazendo os ventos de outono convidando-a a olhar para as belas folhas douradas sobre o chão. Nada! Voltou trazendo delicados raios de sol para aquecer os dias frios. Em vão! Paciente, trouxe-lhe flores, folhas, frutos, exuberância! Não adiantou. Em sua última tentativa, chegou com o calor dos afagos, com temporais de alegria, com trovões e raios anunciando festa. Então ela quis sair. Mas quando tirou dos olhos o tule preto, nada enxergou. Mesmo assim tentou. Seus pés, no entanto, não conheciam o caminho para a porta e esta, tanto tempo fechada, tinha virado parede…

  • Margarida à janela

    A vida adulta não nos prepara para o entusiasmo.

    Em essência, a adultez deveria nos expandir; acrescentar novos cômodos à casa que temos por dentro para que aprendêssemos idiomas inéditos do corpo e da alma, em vez de interromper indefinidamente as nossas formas de sentir.

    Margarida, que tem nome de flor, sempre foi na direção oposta: cresceu para polinizar. Sentia-se inebriada por novos amanheceres, novos livros, novas promessas, novos começos. Novos rostos. Novos sorrisos nos novos rostos. Estendia o braço para que pudesse acompanhar senhorinhas a atravessar as ruas. Se uma bola se perdia do limite de uma brincadeira infantil, ela apressava os passos para recuperá-la antes de atingir qualquer vidraça ou território vizinho. Andava com petiscos caninos nos bolsos. Nos dias mais quentes, espremia limões para quem atravessava a rua com sede. Para as tardes mais frias, maquinara uma pequena janela de madeira, instalada na moldura da sua própria janela. Dentro, uma garrafa térmica, um punhado de copinhos descartáveis e a seguinte inscrição: “Se o frio te apertar, aperte de volta aqui”.

    Da janela de uma casa em uma rua moderadamente movimentada, Margarida regava o seu jardim de pessoas.

    Na esquina, poucos metros à esquerda, havia um rapaz que parecia existir em voz baixa. Caminhava como quem ocupava pouco espaço no mundo. Trazia nos olhos, escondidos sob a aba de um boné com vontade de ser boina, aquela espécie de silêncio que alguns confundem com timidez. Timidez ou, quem sabe, excesso de poesia. Há sentimentos que compartilham a mesma aparência e só revelam seus verdadeiros nomes quando encontram alguém capaz de lhes falar na mesma língua.

    Toda rua só existe por adição de limites. Há a calçada, pública; há grades, privadas. O pequeno recuo entre a casa e o passeio. Árvores. Bancos. Lixeiras. O leito carroçável — curiosamente, a parte que todos insistem em chamar de rua. Sombras e luz.

    Marquises, beirais de telhados e vazios. A rua de Margarida tinha tudo isso. Tinha também um ipê de floração quase espontânea. Tinha a própria Margarida. E Pedro.

    Numa tarde de primavera, atenta ao cair sereno das flores rosas do Ipê então frondoso, Margarida viu, pela primeira vez, Pedro passar. Reparou os passos amiudados, reparou as mãos costuradas aos bolsos. As sombras projetadas pelo fim da tarde caminhavam ao lado dele, encolhidas junto às fachadas, como se soubessem ocupar ainda menos espaço do que o rapaz. Margarida sentiu uma ausência instantânea no peito. Entrou.

    Na cozinha, à procura de água gelada, depara-se com uma caixa de choconuts vegetal, um leite que não era leite, mas era, e todo produzido em seu apelo visual. Pegou a caixa. Ao rosquear a tampa plástica, leu

    “Por ser natural, pode sedimentar. Basta agitar bem”.

    Como a imaginação lhe crescia do coração e não da cabeça, passou a acreditar que tudo o que sedimenta merece ser agitado. A poeira da casa. O café antes de servir. As cortinas nas manhãs de primavera. Até os silêncios.

    Todos os dias, para compreender a origem do que sentira, Margarida passa a se fazer de namoradeira na janela, à espera do passar de Pedro.

    Passa a agitar a poeira da casa de uma flanela para fora da janela. Agitando as partículas agitaria o menino tão contido em si na esquina. Como um toque divino, uma brisa jocosa decidira participar do desafio; foi Margarida sacudir a poeira para que Pedro espirrasse. E, então, seus olhos se encontraram. O tempo entra em suspensão, frestas ensolaradas penetram o trecho entre beirais. Margarida perde a noção do mundo. Pedro começa a enxergá-lo na altura do horizonte. Margarida cora e enrola-se à cortina.

    O rubor da face permanece. “foi o vento, estou com febre!” Tenta se distrair; “preciso comer, saco vazio não para em pé”. Tateia o armário superior, seus dedos sentem o plástico grosso do saco de tapioca. Pega uma frigideira, liga o fogo, despeja os farelos peneirados. “é só uma tapioca, não tem mistério”. As manchas orgânicas do azulejo desenham um vulto com as mãos nos bolsos. Aperta os olhos, mais atenta. “não é possível… como nunca reparei essa mancha antes?” e assim, distraída, sente o cheiro de queimado e a nuvem esbranquiçada da tapioca, preta e encolhida. Abre as janelas para deixar sair as evidências, renovar os ares. Ao escancarar a janela da sala, Pedro passa, sorrindo. “preciso deitar, a febre está aumentando”.

    Quando alguém habita em demasia os pensamentos, não há um só remédio em toda a medicina e qualquer tentativa de se deixar levar pelo sono é vã. Uma mosca pousa no nariz de Margarida, ela enxerga a aba de um boné. O silêncio passa a perturbá-la, não acalenta mais, como antes. Um barulho constante, mas pausado, a faz desfocar-se daquele estado novo para um possível alguém costurando noite adentro. “Talvez seja Pedro”. Derrete-se ao pensar que costurar uma roupa é quase tão poético quanto costurar a vida, duas linhas de carretéis distintos em ponto zigue-zague.

    A luz do sol acorda Margarida, que suspira. Ouve o cantar dos pássaros misturado ao burburinho do raiar de um novo dia. “Pedro”.

    Corre à janela e olha para a direita. Desta vez permanece. Novos rostos. Novos sorrisos nos novos rostos. Pedro. Margarida. O Ipê regendo a manhã com o cair das flores.

  • O último dia

    O dia ainda não havia amanhecido quando o rádio anunciou neve no mês de novembro pela primeira vez no Brasil. Naquela mesma noite, por volta das 7 e 30, Fubá apareceu sozinho e inquieto, ostentando uma ferida no dorso. Amália logo pensou no mau pressentimento sofrido pela manhã. Sentiu-se culpada, achou que deveria ter tentado me impedir. Denise e Isabel ainda dormiam. Me levantei às 6, tomei banho, comi uma banana e um pedaço de pão, me servi do café preparado por Amália, dei um beijo nela e saí na companhia do meu fiel companheiro. As últimas semanas estavam sendo desanimadoras. Dragas passariam a ser usadas na busca por ouro e diamantes nos trechos mais inacessíveis. O fato é que eu não vinha conseguindo achar nada realmente valioso, capaz de compensar o sacrifício de trabalhar em condições tão desfavoráveis. Alguns dos meus colegas já haviam abandonado aquela parte do rio. Outros estavam prestes a fazer o mesmo. Consumido por dívidas, Ronaldo se matou, Salustiano se afundou na cachaça e vivia vagando pelas ruas sem propósito, enquanto Jorge e Pedro decidiram perseguir a sorte numa cidade vizinha. Eu ainda insistia. Essa situação adversa está por terminar, acreditava. Por volta do meio-dia, resolvi parar para almoçar. Na bolsa, a marmita com feijão, arroz, ovo e um bife, além de pedaços de carne para Fubá. Pus-me a repousar embaixo de uma aroeira. O raciocínio remoía os acontecimentos, e o descanso não durou muito. Minhas costas doíam, a cabeça pesava… A certa distância, via Belmiro, peneira na mão, exercitando seu ofício enquanto cantarolava um samba antigo. Deixe-me ir Preciso andar Vou por aí a procurar Rir pra não chorar… Fubá começou a latir e a agitar-se em círculos. Demorou ao menos uma semana para que os fatos se esclarecessem. Meu corpo, processo de decomposição avançado, foi encontrado encoberto pelo mato por uns moleques que soltavam pipa. Eu havia sido atacado por um tamanduá. As garras do bicho golpearam-me o tórax, causando uma hemorragia fatal.

  • O tio perdido

    Encontraram o tio Pedro perdido na estrada, perto da cidade vizinha. Estava velhinho, meio caduco; as pernas trôpegas, mal se aguentava em pé; ninguém entendia como tinha chegado até ali, arrastando na poeira da estrada os chinelinhos gastos.

    Morava com a Maria, no asilo; não porque fosse um asilado: Maria era a filha; ela e o marido trabalhavam no asilo; moravam numa casinha bem na entrada.

    – Por que, pai? – ela perguntou, sabendo que ele não saberia responder.

    – Muito sozinho, filha – ele disse.

    – Como sozinho, pai? E eu, e o João, e os meninos, nós não estamos aqui?

    – Meus irmãos, onde estão os meus irmãos? Todo mundo morreu… Eu estou tão sozinho!

    Logo chegaram os outros filhos, que moravam perto, vinham sempre, com as crianças, que adoravam o avô. E vieram os velhos do asilo, fraquinhos, cheios de dengues com o tio Pedro.

    – Eu estou tão sozinho – dizia o tio Pedro, sentado no meio de todos eles, os olhos perdidos no ar.

  • As folhas mortas caídas no chão

    Construí minha casa sob a copa generosa da maior árvore do terreno, bem junto ao tronco. Saboreei por antecipação a sombra refrescante que teria nos dias de calor e isso me deu grande alegria. Nivelei o chão, ergui as paredes, pintei tudo de branco. Estava muito bonita a minha casa, mas desde que me mudei não faço outra coisa a não ser varrer as folhas secas do assoalho. Esta é a lembrança mais antiga que tenho a partir do momento em que passei a habitar lá: vassoura na mão, tirava sacos e mais sacos cheios de folhas. A árvore soltava as folhas mortas e elas caíam diretamente sobre o meu chão. Então, eu tinha que varrê-las para fora e assim manter minha casa limpa.

    A toda hora, fosse dia ou fosse noite, eu estava tirando folhas secas do assoalho, e percebi que esse trabalho não trazia o resultado esperado. Por mais que varresse, minutos depois havia novas folhas velhas sobre o chão. Isso demandava mais esforço de minha parte, mas cuidar da minha casa me fazia feliz.

    Quando me casei, trouxe minha esposa para viver comigo em minha casa. Ela olhava com tristeza a minha obsessão por manter o chão limpo. Um dia, com delicadeza, apontou o dedo para o alto e me fez ver que minha casa não tinha teto, por isso as folhas secas caíam diretamente no assoalho, sempre mais e mais. Vi que ela tinha razão e coloquei telhas sobre as paredes. Hoje as folhas mortas não caem dentro de casa, mas não tenho a mesma alegria de tempos atrás, porque agora não sinto, como sentia antes, a sombra refrescante que a árvore me dava nos dias de calor.

  • Menino São

    Ricardinho viajou para a China e vai ficar, pelo menos, uns seis meses lá. Foi a estudo. Ele é um menino que gosta de se atualizar, para atender melhor os seus pacientes, com técnicas modernas. É médico, e faz cirurgia de mão, sua especialidade. Disse a mim e à sua mãe que vai trabalhar/estudar no melhor centro de pesquisa do mundo, no que diz respeito à tecnologia e à medicina. Ele sempre teve uma inclinação para cuidar de gente. Quando menino, fazia “massagens curativas” em mim e na sua mãe. Não só, também tinha (tem) o poder de tranquilizar os ânimos. Quando Maria, que trabalhava com a gente, se estressava e botava tudo para os ares (ela era arretada!), ali estava Ricardinho para, tão pequeno, falar com sabedoria e doçura. Maria se acalmava e dizia que tinha feito isso ou aquilo porque estava com problemas em casa, com o filho usuário de drogas (isso já sabíamos); depois, beijava a cabeça do pequeno sábio e, como um mantra, dizia: “Deus que te dê muita saúde, meu filho!”… Sempre foi um menino exemplar. Nunca nos deu trabalho. Veja só, Maria teve um câncer de pele, que não tratou (escondeu da família e de nós), e, quando foi descoberto, já havia se alastrado para o corpo todo. Nessa época, Ricardinho ainda fazia faculdade e organizou todo o aparato de cuidados paliativos para que Maria não sofresse mais. Ela morreu como um passarinho, disse ele, reforçando que não sentira dor alguma, porque estava constantemente medicada. A equipe que lhe assistia foi extraordinária, e penso que cuidaram melhor de Maria porque gostavam muito de meu filho, que estudava com eles, colegas e professores. Bem sabiam do potencial de Ricardinho, ou mesmo de sua bondade infinita, quase um santo, um São Ricardinho (que Deus me perdoe da blasfêmia). Um fato interessante é que, de tanto se envolver com a igreja, quis por um tempo ser padre. Nós o apoiamos, mas logo, como disse, por inclinação, percebeu que precisava botar a mão na massa para cuidar de gente. Menino solto, como um pássaro, inventou a tal da liberdade depois que se formou. Não para quieto, nem mesmo para arranjar uma namorada – diz que não tem tempo. Ele ama mesmo é a medicina. Essa é a sua grande namorada, companheira, faz gosto de ver o zelo que tem com as pessoas, seus pacientes. E ele faz questão de trabalhar no SUS, porque diz que tem de devolver o seu conhecimento para a ajuda das pessoas carentes. Eu não posso mentir: morro de saudades de quando ele era pequeno e ficava com a gente em casa, brincando, curtindo a nossa vidinha a três. Para driblar a tal da saudade, vamos, eu e a minha esposa, para a China, conhecer aquele belo país e ficar uns dias com nosso menino. Ele ainda não sabe. Provavelmente ficará surpreendido. Sou capaz de qualquer loucura para ficar perto do meu filho. Isso é o que se chama amor.

  • Um dia qualquer na Cidade

    Quanto mais ando, mais penso que há um mistério na existência das cidades, a maneira como tudo se funde nos entremeios desse emaranhado humano, um caso de estudo de como o caos aparentemente inevitável se transmuta em algum tipo de desastre organizado, em que tudo se encaixa e se desagrega ao mesmo tempo num moto contínuo, envolto por alguma energia invisível que nos conecta uns aos outros sem que percebamos, como as partículas solares que nos trespassam o tempo todo sem nos darmos conta da sua existência.

    Ando de graça no transporte público, migalhas em retorno pelos anos em que meu couro de cidadão comum – passivo e cabisbaixo – foi sendo arrancado dia após dia ao longo de uma existência de utilidade questionável. São as vantagens da idade, grita sempre lá do fundo meu humor amargo e esfarrapado, parceiro velho de caminhada. A moça que me abre a catraca depois de olhar minha identidade parece enfadada. Mas não me destrata. Apenas olha através de mim para algo que não está ali. Sabe-se lá com quantos demônios conversa nessa hora.

    Fico sentado na plataforma, deixo passar um ou dois trens, não tenho pressa. Às vezes folheio um livro que carrego apenas como muleta, para ter para onde olhar quando preciso fugir de certos espantos inevitáveis que toda caminhada traz. Ou para compor aquele ar intelectual de um leitor de longa vivência, que parece conceder a graça de sua presença numa manhã qualquer, olhando com desdém para aqueles rostos perdidos na tela do celular enquanto ele, um gênio da raça, está ali, com sua barba branca e rala e rosto magro e cavoucado, a mimetizar no seu ar circunspecto as perturbações dos grandes escritores, aqueles sim, arrastando as dores do mundo, enquanto constroem a grande literatura e nos elevam sobre seus ombros para a compreensão das pequenas e grandes aflições da humanidade.

    A moça me ofereceu o lugar no canto, e é nestas horas que costumo me dar conta da idade, sempre me esqueço. A culpa é do espelho, você sabe, o espelho de todo dia se torna cumplice no correr dos anos, a convivência o corrompe e ele passa a entregar as ilusões que você deseja enxergar, acho até que deve existir um lugar secreto onde os espelhos se reúnem para rir dessa fraqueza tão humana que é precisar o tempo todo cegar-se para não ver a própria miséria.

    Meu assento é de frente para o vagão, bem do jeito que gosto, de onde posso observar os mais variados tipos humanos, a maioria naquela luta interna contra a vida, espelhada no mau humor e enfado. E que faz todo sentido. Ninguém é obrigado a ser feliz às 7 horas da manhã dentro de um trem lotado. Meu julgamento deve ser descartado, tenho a vida tranquila, posso descer onde quiser, tomar meu café em qualquer quiosque ou boteco, bisbilhotar a vida alheia por tempo indefinido sem me preocupar se vou ter grana para atravessar o mês. Então é fácil.

    Desço na estação junto ao Masp e entro pelo grande vão do museu até a mureta de onde se vê os baixos da Bela Vista e do Anhangabaú. Era por ali, e dali para baixo que tudo foi acontecendo um dia, não foi assim de uma hora para a outra, foi um processo, um descuido. E eu me lembro dela me dizendo junto a janela,

    — Hoje eu vi um disco voador.

    Tem certeza?

    — Sim, mas era diferente dos outros.

    — Não era nem pratos nem caixas de papelão.

    — Não, parecia esses pacotes de salgadinhos, meio amassado, meio disforme, movia-se assim como se fosse um saco vazio empurrado pelo vento.

    — Onde estava?

    — Pelos lados da Zona Leste.

    — Sempre acontece coisas estranhas na Zona Leste. Quanto tempo durou?

    — Dois ou três minutos.

    Ficou assim, parada por alguns instantes, olhando o nada, o vento morno soprava seus cabelos.

    — Como estão seus projetos?

    — Esperando respostas, como sempre — respondi.

    — Admiro tua persistência.

    — Talvez um dia eu me canse ou faça algo diferente quando me aposentar.

    — A gente pode ir morar em outro lugar, ou sair por aí.

    Sair por aí? É a primeira vez que te ouço falar assim.

    Ela se voltou para mim, expressava uma alegria infantil, mas algo nervosa.

    — Tenho pensado. Mas não é uma coisa triste, como essas pessoas que abandonam a família, você nunca teve essa vontade?

    — Já, mas no meu caso seria essa coisa triste que você fala, deixar tudo para trás.

    — Até eu?

    — Não, você sabe que não, você é minha parceira, vamos ser parceiros sempre.

    Ela me olhou, estática, por alguns instantes. Depois sorriu, doce e resignada.

    — É uma pena que não.

    Depois saiu do quarto e nossa conversa terminou por ali. Nunca entendi o significado daquela última frase. Talvez porque nunca tenha sido honesto comigo mesmo e admitir o quanto fui pequeno nos momentos em que ela mais precisou de mim. Nós, machos, precisamos satisfazer nossas necessidades, está escrito nos estatutos gravados nas pedras do reino patriarcal, de nada adiantou o mundo ter saído da invenção da roda para a descoberta das partículas quânticas, tudo permanece igual na visão canhestra e miserável do ser masculino. E como todo bom cínico e desleal, passei a buscar outras mulheres, eu precisava extravasar. Um dia fui parar num lugar ali numa das esquinas da Brigadeiro Luiz Antônio, entrei por um corredor imenso, estreito, indefinido, cores vermelhas na maior parte do trajeto, algo estranho, pouco usual, uma música ao fundo como um eco, como se viesse de longe, mas que veio aos poucos se aproximando, até que adentrei um palco redondo, vazio, escuro. Uma luz se acendeu do lado, entrei por uma porta lateral e saí num puteiro, com mesas, sofás e um pequeno palco ao fundo onde uma senhora de roupas algo velhas e esgarçadas, justas e em cores estridentes, cantava uma música das mais tristes. Larguei-me sobre o sofá e duas mulheres se aproximaram e se jogaram sobre mim e penso que, durante alguns anos, nunca mais saí daquele lugar.

    Hoje olhando no retrovisor, nada justifica o que aconteceu, porque dali pra frente eu fui descendo, moral e geograficamente pela cidade até cair nos puteiros mais ordinários, como aquele, que acabei de descrever. E então, na tela do grande vão, aquela imagem recorrente: eu a vi, depois de rasgar em desespero o paredão de corpos que se aglomeravam para assistir ao espetáculo. Ela estava de pé no beiral, do lado de fora de uma das janelas do quarto, seus braços colados a parede e as mãos, trêmulas, tateavam de maneira aleatória algum lugar longe dali, como se ela buscasse algo palpável que a fizesse retroceder. Os policiais que faziam um cordão em volta do edifício tentaram me conter e eu gritei, tão alto quanto meu desespero desencavou forças que eu não tinha, mas não chegou até ela, vigésimo segundo andar e o alarido em volta, sirenes, gritos, buzinas. E ela, aos poucos, na lentidão das minhas esperanças e incredulidade, alçou voo com sua camisola branca de todos os últimos dias e noites, que ela não tirava mais, por entrega e um grito de socorro, e flutuou em câmera lenta por uma eternidade, pelo tempo em que a congelei com meus olhos, rezando por alguma força mágica que rebobinasse aquela imagem como uma velha fita VHS ou que eu despertasse de um pesadelo. Até que o baque, surdo e entre ossos que estalaram ao mesmo tempo, como a batida final da orquestra, tudo silenciou. Entre o assombro e o desespero, a sensação de fim dos tempos. Como se eu não tivesse nada a ver com aquilo.

  • UM DIA DE VERÃO

    Eunice saiu da rede e se instalou na cadeira de palha da varanda. Cruzou as pernas e substituiu os óculos de leitura por outros com lentes escuras. Pôs de lado o livro sobre questões ligadas aos direitos das pessoas com deficiência que vinha lendo nos últimos dias e contemplou o panorama à sua frente. Sorveu dois goles de suco de limão gelado, pousando em seguida o copo sobre a mesinha de centro. Retocou o batom discreto com o auxílio de um espelhinho. Procurou uma posição confortável e começou a meditar. Aos 67 anos, ainda trabalhava como advogada. Quando ingressou na faculdade, quase meio século atrás, julgava ser aquele o caminho ideal para alguém dotado de um senso de justiça tão exacerbado quanto o seu. O exercício profissional bem cedo se encarregou de demonstrar a falácia desse raciocínio. Ao longo da carreira, foram muitas as decepções. A sensação de impotência e de inutilidade era por vezes tão palpável… Atualmente, gostava de escapar da agitação da cidade fugindo rumo ao sítio da serra. No jardim, sua neta de 5 anos, companheira eventual dessas aventuras bucólicas, brincava. Em sua pureza infantil, mexia na terra, rolava na grama viçosa, colhia flores e observava o comportamento dos insetos. A avó estreante se comovia. Em cima do muro de tijolos ao lado do portão de entrada, a menina abria os braços com convicção e gritava: Eu sou o Cristo Redentor! De tempos em tempos, olhava para trás e acenava. E sorria. O sol forte do início da tarde iluminava-lhe o rosto. Como é lindo o sorriso de uma criança. De qualquer criança. Depois que ficou viúva, Eunice passou a não ver graça no apartamento amplo de Copacabana, onde hoje vivia sozinha. Tudo muito repentino, exatamente como costumam ser as tragédias. Uma bala disparada à luz do dia, não se sabe por quem, conseguiu, com a rapidez de um instante, pôr fim à vida de um homem produtivo, competente, amoroso e responsável. Olhando Camila, Eunice se preocupava. Que mundo lhe estaria destinado? Por um momento, desejou ter o poder de congelar o tempo. Ficaria ali, eternamente a olhar a menina, desligada do resto do Universo, convencida de conseguir assim resguardar e proteger aquele ser inocente. De quê? Nem ela mesma sabia ao certo. Em diversas ocasiões, a própria Eunice se sentia abandonada e perdida, carente de um ombro aconchegante. Um beija-flor inesperado e arisco distraiu-a por alguns segundos. Em seu voo assimétrico, a ave negra e minúscula quase se chocou com uma das pilastras da varanda. As duas garrafinhas penduradas no alto representavam um convite a esses pássaros adoráveis. Solitários, em duplas, lá vinham eles. Parados no ar, batiam as asas com avidez, sugando o néctar a eles destinado. Camila circulava agora entre as estatuetas que enfeitavam o jardim, transformando-as, com sua imaginação prodigiosa, em príncipes, heróis, fadas, duendes, seres alados, bichos falantes… De repente, o tempo começou a se fechar. O sol, até então radioso, de vez em quando sumia por trás de nuvens espessas e acinzentadas, formadas sem que Eunice tivesse se dado conta. Um ambiente opaco surgiu. Um vento assobiando fino começou a ser ouvido. Balançava as folhas das árvores, levantava a poeira da estradinha de terra batida diante da casa e desalinhava os cabelos castanhos de Camila. Arrancava dos galhos mangas maduras que salpicavam o solo com um amarelo vivo e gostoso. A ameaça de chuva e as insistentes lufadas de vento fizeram Eunice convocar a neta até a varanda. Ficaram as duas ali, quietas e pensativas, concentradas apenas naquela realidade. De mãos dadas, exercitavam uma cumplicidade que deveria ser natural entre avós e netas. Meia hora depois, com a volta da claridade e de uma tranquilidade aparente, a pequena dirigiu-se de novo ao jardim. Perto de uma roseira ramosa, um marimbondo picou sua testa. Camila gritou de dor. E chorou.

  • O VÔ ZÉ

    Quando o vô Zé estava para morrer, pediu para sair de casa. Fraquinho, não parava em pé, mas quis por força sair no pomar.

    – Eu quero abraçar as minhas árvores – disse.

    Mal balbuciava as palavras, mas insistia:

    – Eu plantei essas árvores. Vi crescer que nem minhas filhas. Eu quero abraçar minhas filhas pela última vez.

    Tive que carregá-lo nos braços. Não aguentou abraçar mais que três árvores. Fez questão de abraçar a mangueira de manga-espada, no centro do pomar, a jaqueira e uma jabuticabeira do mato, enormes.

    – Agora posso morrer quase feliz – disse, com os olhos marejados de lágrimas.

    Não pudera sair até o pasto, abraçar a grande figueira e as paineiras com seus espinhos.

    Pequenininho nos meus braços, segurando no meu pescoço, olhou o cafezal ao longe:

    – Eu plantei cada uma dessas mudinhas. Elas falam comigo, me pedem a bênção.

    Enxugando as lágrimas com a manga da camisa, ergueu o braço direito.

    – Um pai que é pai conhece os seus filhos – concluiu, abençoando.

  • A luta desigual

    Todas as manhãs o menino verifica, desolado, que seu castelo foi destruído pelas ondas. Quando chega à praia, vê que nada existe além de um monte de areia sem forma. O trabalho que teve no dia anterior desapareceu. Sua arte foi tragada pelo mar e deve estar agora em algum fundo escuro e frio daquela imensidão azul. Com paciência e dedicação, recomeça a tarefa de reconstruir o edifício onde colocará sua fantasia de morar ao lado de reis e princesas. Antes, dirige um olhar de ódio à água que lambe seus pés. Engole as lágrimas e jura que vai se vingar.

    À noite, pôs seu plano em prática. Ninguém percebeu quando ele, sem fazer barulho, saiu de casa e correu na direção da areia. Ninguém foi testemunha da batalha desigual que teve início naquele momento entre o mar imenso e um menino armado de espada de brinquedo. Ninguém o viu quando o dia amanheceu. Ninguém o verá nunca mais.

  • Desmedida

    Mainha prepara o café da manhã todos os dias, às 5h, rigorosamente assim. Acorda e canta com os galos, porque é feliz. Nunca reclamou da vida, desatinou ou embruteceu, apesar da dureza que passou. Teve de criar sozinha dois filhos, revezando com a minha tia, também bondosa, que vinha ficar com a gente em casa. Tia Laura, solteirona, ainda continua adulando os “filhos postiços”, como ela nos chama, só que repugnamos o seu cuidado excessivo, tratando-nos como crianças. Mas isso é o de menos, porque ela nos encheu de amor, da dádiva do carinho, do zelo. Sempre que posso, vou visitá-la. E ela faz uma recepção daquelas, com bolo e café no bule. A prosa passa de horas, perco o tempo, amando ser amada… Nunca tive o amor de pai, aliás não sei do que se trata. O tal genitor nos abandonou (ou nos trocou por bebida). Logo no meu terceiro ano de vida ele partiu. Não deixou saudades. Não lembro sequer de seu rosto. Muito menos o meu irmão, que tinha somente um ano no tempo do abandono. As más línguas dizem que ele queria fugir da responsabilidade e preferia vagabundar. Mas talvez ele seja doente, ou coisa que o valha. Já não me interesso por novidades a seu respeito. Deve bem morar em outro Estado. Nunca nos procurou, e é melhor assim. Artur, meu irmão, tem ojeriza a tocarmos no nome do genitor. Para ele, é como um lixo inservível. Tem ódio à sua figura. E me recrimina sempre que bebo, porque tem medo de eu me tornar como nosso genitor… Então, desde muito cedo aprendi a ser independente. Saía pelas ruas vendendo doces preparados por mainha, na porta de bares, nas faculdades, nos locais mais movimentados. Mainha ficava com o coração na mão, mas precisávamos – e ela dava força a minha verve de autônoma. Eu queria mostrar, também, que era capaz, e queria tirar-nos do atoleiro das contas atrasadas. Mainha, sim, deu todo o suporte emocional de que precisávamos. Não sentimos falta de pai algum. Aliás, quando ele ainda estava presente, batia nela até sangrar – essa é a história que sei por minha avó. Ela nunca fraquejou, mesmo trabalhando em casa de família e dando conta da nossa humilde residência. Perdi a conta das vezes que a vi chegar do trabalho, lavar roupa e engomar. Tudo numa delicadeza ímpar. Não fazia diferença entre o trabalho remunerado e a sua casa; aliás, talvez tivesse ainda mais zelo com as suas coisinhas. Mainha é meu mote para a poesia. É ela quem me dá substância para viver. A maior entusiasta dos meus livros. E diz que um dia serei a maior poeta que esse Brasil já conheceu. Exagero de mãe, por amar assim, desmedida.

  • VENDE-SE

    Cruzei o portão e logo avistei uma rolinha morta. A grama alta e malcuidada competia com o mato. Do lado de fora da casa, uma pintura pálida, descascada e algumas pichações que protestavam contra o governo anterior. Tive vontade de chamar por minha mãe. Quase consigo vê-la em pé diante da porta, postura altiva, robe de seda esvoaçante, cabelos compridos e levemente desalinhados, rosto maquiado… Depois de sua morte, era a primeira vez que eu retornava. Um silêncio intimidador que não combinava com a atmosfera da casa da minha infância e adolescência. Às vezes, um cachorro da vizinhança injetava um pouco de vida ao redor, assim como pássaros escondidos na folhagem das árvores do entorno. No quartinho escuro, o cheiro era muito forte. O galinheiro ficava ao lado, um ambiente que eu frequentava bastante. Era o encarregado de cuidar dos animais. Fazia de tudo e acabei estabelecendo com eles um relacionamento amistoso. Em algumas ocasiões, podíamos contar com caseiros e empregadas, o que, com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais raro. Os bichos me esperavam e sentiam minha falta quando eu ficava um tempo maior sem aparecer. Galinhas e coelhos. Patos e marrecos no lago próximo à mangueira. Comecei ajudando meu pai. Você tem sorte, ele dizia, se criássemos porcos e cabritos, o trabalho seria muito mais pesado. Um dia ele nos deixou. Sem aviso. Minha mãe fechou-se no quarto e quase morreu. Tia Berta então veio ficar com a gente. Cuidava dela e de mim, mas não se aproximava da criação. Agora eu era o único responsável. Até que ela também foi embora. Na época, vovó ainda era viva e nos visitava de vez em quando. Minha mãe passou a me trancar no quartinho sempre que recebia algum convidado. Homens, em sua maioria. Eu os via de relance, pelas frestas, descendo de carros elegantes. Dentro do quarto ao lado do galinheiro, penumbra. A lâmpada pendurada no teto queimava e demorava a ser substituída. A janela de madeira velha estava emperrada, era praticamente impossível abri-la. Na época, eu não conseguia. Cogumelos nasciam nas partes podres, devoradas por cupins.

    O doutor Frederico chegou de táxi. Desceu do carro e começou a bater palmas e Na chamar meu nome diante do portão. Fui ao seu encontro. Ainda no jardim, passou a me falar das propostas que havia recebido pela casa. Documentos pendentes e providências à espera de resolução. Burocracia enfadonha, enfim. Você não assinou os papéis que pedi? Estamos perdendo tempo. Talvez tenhamos de reduzir um pouco o preço. As pessoas se interessam, mas não têm dinheiro, são tempos de crise. Você sabe, Felipe, o local se desvalorizou depois que o restaurante e o posto de combustíveis aqui da rua deixaram de funcionar. O sistema de transportes também não é dos melhores, sejamos realistas, acho que o metrô nunca vai circular nas redondezas. Sem dúvida, essa relativa proximidade com o mar continua sendo um atrativo. Como você é o único dono, acho que…

  • AUTO JUDICIAL

    O adjunto de promotor público, representando contra o cabra José Joaquim Faustino, conclui que no dia 26 do mês de Nossa Senhora Aparecida, quando a mulher do João Cruz ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, saiu dela de supetão e fez proposta à dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ela se recusasse, o dito cabra apoderou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas dela de fora e ao Deus dará.

    Ele não conseguiu conúbio porque ela gritou e vieram em amparo dela José Damante e Espiridião Costa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leis que duas testemunhas que assistam a qualquer sufrágio ou naufrágio são prova suficiente do sucesso.

    Considero, portanto, que o cabra Joaquim Faustino agrediu a mulher de João Cruz para deitar por cima e fazer com ela coisas que só ao marido dela competia, porque casados pelo regime da Santa Igreja Católica Apostólica Romana;

    que o cabra José Joaquim Faustino é um suplicante debochado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis também fazer conúbios carnais com a Inês e a Maria da Luz, moças donzelas;

    que José Joaquim Faustino é um sujeito perigoso e que se não tiver quem atenue o fogo aceso dele, amanhã estará metendo medo até nos homens, condeno o cabra José Joaquim Faustino, pelo malefício que fez à mulher do João Cruz, a ser capado.

    A capação deverá ser feita a macete.

    A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta vila.

    Nomeio carrasco o carcereiro Jorge Ferro de Sousa.

    Cumpra-se e apregoem-se editais nos lugares públicos.

    José Felício da Silva Campos
    Juiz de Direito de Santa Cruz das Almas, 26 de Outubro de 1799.

  • Tudo o que cabe num instante

    Celina abre os olhos e vê que está na cozinha. A louça é de porcelana e as panelas são todas novas. Em cima do fogão há um frango assado na travessa, pronto para ser servido. Demora alguns segundos para perceber que esta é a sua outra casa. Feliz, prepara-se para receber o marido, que volta do trabalho, e os filhos, da escola. Os meninos, quando chegam, dão-lhe beijos no rosto. Atrás deles, o marido a abraça e a levanta no ar como se não se vissem há meses. “Eu te amo”, diz ele, mordiscando sua orelha. Todos se sentam à mesa, e os pequenos contam como foi o dia na escola.

    Em silêncio, Celina aproveita a paz do momento. O marido pega sua mão e diz que, na próxima semana, pedirá férias na empresa e a família toda poderá passar uns dias no litoral. E que depois disso ela poderá pensar em seus estudos de pós-graduação, um sonho há muito acalentado. Celina estava prestes a responder quando um murmúrio chegou aos seus ouvidos: “Acorda!”, ouviu uma voz vinda de longe. “Acorda, sua vadia!”, a voz foi ficando mais nítida. “Acorda, sua merda!”, e ela não conseguiu mais ouvir as crianças nem o marido. Sentiu tontura, levantou-se da cadeira e, antes que alguém pudesse segurá-la, caiu. Ao abrir os olhos, percebeu que estava no chão. Sua cabeça doía e sentiu um gosto metálico e quente na boca. “Levanta já, sua fingida!”, disse a mesma voz. “Eu não te bati tão forte, não seja dissimulada. Anda, levanta e me traz outra cerveja.” Celina se levantou, limpou o sangue com as costas da mão e andou até a geladeira, implorando aos céus pelo próximo golpe que lhe trará alívio e a levará de volta à outra família.

  • Não sou desse mundo

    Já amanheceu. São cinco da manhã e não preguei os olhos. O sol não tem um pingo de pudor, atiça a minha visão e o meu corpo. Tento me levantar, mas o corpo pesa uma tonelada. Passo mais cinco minutos deitado, esperando as engrenagens do corpo funcionarem. É pavorosa a sensação de enfrentar o dia. Fico mais cinco, dez minutos olhando para o nada – naturalmente, para as nuvens escassas, que teimam em se afastar, porque podem se movimentar a esmo; eu, pobre de mim, já não tenho forças para avançar. Peço a um ser celestial que me proteja, sem vontade de continuar nessa peleja. Não sou crente nem nada, mas devo confessar que me apego a algum ente superior para me tranquilizar; a ansiedade é grande. O coração está a mil, e o dia nem começou direito. Sei que vou enfrentar Matias, Augusto, César e Eveline, todos meus chefes, que passam orientações descoordenadas e depois exigem coerência no trabalho. Levanto, lavo o rosto e escovo os dentes, automático. Passo alguns minutos olhando as rugas no rosto, ao mesmo tempo em que aplico um hidratante para a pele ressecada – ainda assim sou vaidoso, para manter a aparência. Preparo o café e penso no que virá. Deixo o café esfriar, pensando, disperso. Me embaraço nas minhas próprias alucinações. O dia pode não ser tão ruim assim. O dia pode ser o pior que já vivi. Os sonhos não me deixam mentir. Invariavelmente sonho com Matias e com César, os mais rigorosos, me pedindo para preparar o controle de caixa do mês, insistentes. Acordo, várias vezes, aperreado, até perco o sono. Essa noite sonhei com Eveline, a mais mandona, me pedindo para desviar um dinheiro do caixa, que não iam perceber. Eu, atordoado, como se fosse verdade, acolhi os seus mandos – tenho medo dela. Logo mais estava sendo preso pela polícia e encaminhado para a delegacia. Lá, sofri com os maus tratos infligidos, a mim e aos meus colegas de cela. No total, pelas minhas contas fajutas, fiquei sete anos preso, por desvio de dinheiro – roubo, precisamente. Por isso acordei assim. Hoje, sim, pode ser um péssimo dia. Eveline irá me encontrar e falar pela milésima vez que eu estou acabado, com olheiras. “Não dorme nunca esse malucão!”. Matias, que é casado, tem um caso com Eveline, que é solteira, a mandachuva da empresa. Estou em tempo de pedir as minhas contas e fazer de suas vidas um inferno, entregando as relações escusas e os rombos praticados por César, com a justificativa de sempre estar muito complicado de dinheiro, como se a empresa fosse um banco… Enfim, paro agora de falar dessas pessoas imundas, que escarram seriedade, quando, na verdade, são sujas. Como diria o meu pai, eu não sou desse mundo. Prefiro sair para viver o meu sonho de ser escritor por tempo integral, viver da arte. Só me falta a coragem, a fuga do medo de viver em dificuldade.

  • Apenas uma bolinha

    Ele achava que o mundo estava diminuindo. Disse isto num churrasco com os amigos naquele encontro habitual do condomínio. Foi para casa. Deitado, olhando o teto que lhe parecia mais baixo, ele ainda ouvia as gargalhadas do pessoal. “Tá diminuindo teu cérebro, isto sim”.

    Acordou cansado, algo recorrente nos últimos meses, como se algo estivesse lhe sugando as energias durante o sono. Olhou a mancha no travesseiro. Aumentava dia a dia, um líquido escuro que escorria do seu ouvido direito e que deixava uma crosta ressecada por dentro da orelha. Na primeira que vez que aconteceu ele procurou o médico, um velho amigo da faculdade da cadeira de medicina. O diagnóstico foi enigmático: “isto acabaria acontecendo qualquer dia”. Não questionou. Considerou tratar-se de mais uma das tantas bobagens daquele professor esquisitão, que apesar da amizade de longa data, lhe causava um certo ranço por conta de suas posições políticas.

    Parou diante da rampa que levava ao piso do anfiteatro e das salas de música onde lecionava todas as manhãs. Parecia estranhar o lugar. Sabia que ali era o seu local de trabalho, mas, com o pescoço curvado para a tela do celular, tudo o que vinha na sua cabeça era a imagem de extratos bancários, programas de TV sobre investimentos financeiros e lançamentos imobiliários em Miami, para onde viajava a cada ano com toda a família. Ergueu a cabeça por um instante e olhou para a rua. Percebeu que além do outro lado da calçada não havia nada, um vazio, como se a paisagem de edifícios que se estendia até os altos da cidade tivesse sido apagada com uma borracha. Sentiu-se tonto, achou que ia cair e sentou-se num banco de ripas ao lado da rampa. Isto já acontecera outras vezes e tornara-se mais frequente junto com outras anomalias que ele percebeu surgirem nos últimos tempos.

    Começou a rir quando viu um boneco balançando em frente ao posto de gasolina, na esquina depois da grade que cercava o terreno da universidade. Incomodou-se e parou de rir. Estranho aquilo, pensou. Outro dia quase perdera o folego ao gargalhar de forma descontrolada da água que escorria em espiral na pia do banheiro masculino. Sorte que estava sozinho, pensou no momento.

    Chegou tarde em casa, mais do que de costume. Tinha entrado no metrô na direção errada e de tão apressado acabou passando direto pelo grupo de amigos que o chamava para um vinhozinho no pergolado, numa área ajardinada do condomínio.

    O socorro chegou na madrugada. O mal cheiro que vinha do seu apartamento começou a incomodar logo ao anoitecer. Sumira do convívio e do trabalho havia dias. Bateram em sua porta, tentaram seu celular, mas nenhuma resposta.

    O bombeiro derrubou a porta do apartamento e levou a mão sobre o nariz. Apesar da máscara, o cheiro era repugnante. E o assombro ao entrar em seu quarto: as paredes forradas de bandeiras verde e amarelo, cartazes de manifestações, chapéus, bonés, cornetas, e ele mesmo deitado sobre a cama enrolado em uma bandeira do Brasil. Estava imóvel. O bombeiro se aproximou e virou lentamente sua cabeça. Viu a mancha escura imensa que se espalhava por sobre o travesseiro. Uma bolinha pequena escorreu do ouvido do defunto e acomodou-se numa dobra do lençol. O policial que acompanhava o procedimento pegou a bolinha e a olhou cuidadosamente.

    “Parece um cérebro em miniatura”.

    Riram. Depois colocou a bolinha num saquinho plástico e saíram.

  • Vinte Meia Um

    O ano é 2061, não se esqueça disso. Foram essas as últimas palavras do meu chefe depois de ele ter me explicado todo o projeto. Parece que a solicitação tinha partido lá de cima (ele reforçou a informação com o dedo indicador da mão direita apontado para o alto quando me passou a tarefa). O novo dono da revista cismou que queria uma matéria sobre como estaria o mundo daqui a 35 anos. Bem, eu sou o mais novo da redação (em tempo de casa) e não podia recusar um pedido do chefe. Na verdade, acho que foi mais uma ordem. Transmitida com educação, mas uma ordem. Seja como for, nunca foi do meu feitio desrespeitar algo chamado hierarquia. Mais tarde, refletindo melhor, acabei me sentindo orgulhoso de ter sido o escolhido. Afinal, se o doutor Santiago julgava aquilo tão fundamental… De qualquer forma, foi até engraçado essa incumbência ter surgido justamente nessa época. Um dia antes de receber a solicitação, eu havia lido no jornal alguma coisa a respeito de como tinham sido furadas as previsões de um filme lançado em 1991 sobre o ano de 2026. Nesse caso, o futuro já tinha se tornado presente e não era lá muito semelhante àquilo mostrado três décadas e meia antes. Quer saber? Apesar de mais conformado, continuava a achar a coisa toda meio sem graça e sem sentido, inútil até. Especialmente para o big boss, o maior interessado na brincadeirinha. Todo mundo na revista sabia muito bem que ele já tinha 75 anos (embora aparentasse menos). Nesse estágio da vida, já vai ser muita sorte se ele conseguir saber como será o mundo daqui a uma década, essa é que é a realidade. Não é só uma questão de estar vivo. É preciso também estar com saúde, enfim, no gozo de suas faculdades mentais, pra usar uma expressão cortês e um tanto clichê. Enfim… Não tinha mais tempo a desperdiçar com especulações vazias então li alguns livros, conversei com especialistas, entrei em páginas sugeridas pelo Google e fiz anotações. Nutri-me de uma dose substantiva de otimismo e decidi que o mundo futurístico seria um lugar bom pra se viver. Assistindo a todas as besteiras que o homem tem feito ultimamente, não é tão fácil ter essa esperança, mas vá lá, a imaginação (pelo menos ela) (ainda) é livre. Assim, doenças graves não seriam incuráveis em 2061. Transplantes, vacinas, tratamentos, remédios, a medicina continuaria a evoluir cada vez mais, elevando a expectativa de vida humana às alturas. Seria bastante razoável supor que alguém de 75 tivesse a chance real de conseguir mesmo saber como estaria o mundo 35 anos mais tarde. Além disso, a automação e o avanço tecnológico seguiriam seu curso em marcha acelerada, o mesmo acontecendo com a tão falada Inteligência Artificial. Também não dá pra projetar o futuro sem imaginar algo parecido com o que nos é apresentado pelo cinema de ficção científica: naves espaciais, velocidade de informação, robôs inteligentes, aparatos tecnológicos incríveis, computadores falantes, câmeras onipresentes e oniscientes. O texto tomava corpo, e eu me sentia entusiasmado. Perto do fim, um pensamento infeliz me perturbou: já estava com 58 anos e talvez não vivesse pra conferir os acertos de minhas elucubrações. Foi quando reparei no Renato, meu neto de 6 anos. Sentado no chão, ele mexia concentrado em seu tablet. Voltei os olhos à tela do notebook mais uma vez e retomei o trabalho, o prazo dado por meu chefe estava se esgotando.

  • Zé das Estrelas

    E o Zé deu de olhar as estrelas. Foi subir no telhado uma vez, e não acabou mais. Tinha descoberto a América. O Zé ficou encantado com as estrelas que ele viu no céu. Como se nunca tivesse visto. E olha que eu vivo com o Zé há quase cinqüenta anos. Ele sempre foi uma pessoa normal. Até que deu de olhar as estrelas.

    Não dorme mais na cama, o esquisito. “Faz tempo que eu quase não dormia, Cida”, ele diz. E é verdade: ele só dormia de dia. De noite ficava futricando, não tinha sossego na cama. Ainda bem que o Zé deu de olhar as estrelas. Fica lá em cima do telhado, de boca aberta, como se quisesse comer todas as estrelas do mundo.

    Hoje eu não agüentei, peguei e fui lá com ele. A nossa casa não é muito alta, é só um chalezinho de madeira; o telhado é que é inclinado demais, mas não é difícil subir. O Zé segurou a escada, eu subi devagar, segurando bem. Fiquei toda tremendo lá em cima, enquanto o Zé subia; depois me arrastei pela beirada, até a cumeeira. Fiquei lá em cima abraçadinha com o Zé, a noite inteira, olhando as estrelas.

    Sabe, eu posso cair do telhado. O Zé pode cair do telhado. Mas vai ser uma morte feliz, se a gente morrer. O Zé aponta uma estrela, só com os olhos, impossível não seguir os olhos dele. É como se o Zé fosse um santo fazendo um milagre. Eu só não estou seguindo os olhos do Zé, quando estou mergulhada neles. Tantas estrelas lá dentro. Não é à toa que o Zé ficou maravilhado.

  • O segredo da boa colheita

    Ao entardecer, quando o estranho passou, meu irmão e eu abrimos-lhe o crânio com o grosso ramo de videira que usamos para ocasiões semelhantes. Um único golpe, preciso e sem fúria, nada mais. O chapéu que o estranho usava empoleirado na cabeça rolou alguns metros adiante. Meu irmão o apanhou do barro vermelho e o pôs na sua própria cabeça. Será um ano bom, produtivo e faremos um bom dinheiro — isso foi o que concluímos, meu irmão e eu, apenas com uma troca de olhares.

    Arrastamos o estranho até o paiol e acendemos a lamparina de óleo. A luz embaçada fez brilharem as pás dos ventiladores de teto, espantando os morcegos. Arregaçamos as mangas e estudamos por alguns minutos o corpo inerte do estranho. Era um homem de quarenta e poucos anos, forte e parrudo, farto de carnes, gordura e músculos. Um perfeito fertilizante natural. Abrimos uma vala funda ao pé de uma videira e lá o enterramos com cuidado, como manda a tradição nas vésperas da colheita. Assim, o sangue drenado do corpo sem vida do estranho manchará as uvas, suas carnes nutrirão as raízes e fortalecerão as gavinhas e seus ossos darão vigor novo a esta terra queimada pela névoa e pela geada. A vinha crescerá até que o suco flua, nobre, único, virtuoso de sua fermentação secreta.

  • Serena

    Serena entrou no meu mundo por acaso – se é que posso acreditar em acaso; não estou tão seguro assim. Eu não pretendia adotar, essa era uma máxima que construía na minha cabeça pelo fato de ter um primo adotado que sofreu com vários transtornos por não o aceitar. Wilson, o nome dele, tentou se matar umas duas vezes, mesmo recebendo o apoio dos meus tios para tudo. Ele era depressivo em grau máximo e bipolar. Mas isso agora não vem ao caso… Voltemos: desde muito cedo, queria ter a minha família, com filhos biológicos. Mas Nazaré apareceu. Ela veio trabalhar em casa, recém-chegada do interior, e nós não sabíamos que ela estava grávida. Ela escondeu até onde pôde, mas logo começaram os enjoos, e Nazaré, revoltada com o pai da criança que esperava, dizia que iria abortar. Flávia e eu não deixamos. Foi um deus nos acuda, porque Nazaré falava que não queria ser mãe aos dezessete anos; que sabia da vida difícil que levara, com oito irmãos, no interior; que mulher parida é desprestigiada pela sociedade, como sendo mulher da vida ou algo do tipo. Ficávamos no seu pé todos os dias, convencendo-a de que uma criança é uma dádiva, uma bênção, com todos os argumentos que tínhamos. Foi difícil, quase impossível de segurar a revolta da mãe. Então, me prontifiquei a ficar com Serena – o nome que escolhemos; já um prognóstico para serenar as nossas vidas, tão agitadas –, disse a ela que a menina seria muito bem-criada, teria, certamente, uma vida bem diferente da que Nazaré teve. Nazaré aceitou a proposta, sempre reclamando por estar grávida, pelo peso e tudo o mais para fazer as tarefas de casa, das quais a dispensamos. Veio a sua irmã Lucila para ajudar nos afazeres domésticos. Serena nasceu, e, como esperado, foi enjeitada pela mãe; sequer recebeu a primeira amamentação. Logo, Flávia e eu a pegamos para criar, nos idos de 80, e registramos como nossa filha, com o inteiro consentimento da mãe – o que se chama de adoção à brasileira. Não havia essa burocracia que há hoje. Serena caiu perfeitamente em nossos braços, arrebatados que estávamos por sermos pais. Depois de Serena, felizmente Flávia engravidou duas vezes, e tivemos Serginho e Paulo Filho. A família estava completa. Nazaré continuou conosco e passou a ter uma relação melhor com a filha biológica, ainda que não quisesse ter as responsabilidades de mãe. Nazaré marcava uma diferença grande na relação com a pequena, que a amava. Serena hoje só nos dá orgulho: é formada em engenharia pelo ITA e trabalha num centro de tecnologia em Orlando. De seis em seis meses, ou ela vem nos visitar, ou vamos vê-la. O amor é infinito; não cabe no peito e no pensamento. Ela é minha princesa e meu encantamento. Nasceu justamente para ser a nossa filha amada.

  • Desertos

    Os dois esqueletos de um condomínio em construção, voltados para o oeste, acolhem o vento de inverno que rasga as redes de proteção, agora de um laranja desbotado que denuncia o esgotamento de todos os prazos. Assovia por suas entranhas de tijolos cinzentos, cor de sem vida, e ecoa pelos corredores e escadarias e as futuras dependências de 5000 m2 e 800 quartos, o básico de que precisam para viver os que chegarão flutuando sobre tudo e todos, qualquer dia destes. Com suas ideias equivocadas sobre humanidade, graus e degraus.

    De alto a baixo, outra rede de malha fina, como um véu esbranquiçado e vazado de poeira, protege os passantes dos estilhaços de argamassa e blocos, enquanto balança como se fosse um fotograma daquele velho filme sobre prédios que navegam o mundo da contabilidade, do Monty Phyton. A manta que torna invisíveis os corpos que despencam dos andaimes e desaparecem no disco colorido das estatísticas.

    Cá embaixo, neste universo ordinário em que as vidas comuns se colidem, o funcionário baixinho com a aba do seu boné voltada para trás orienta a entrada e saída dos carros no estacionamento junto do metrô. Nos intervalos, dá uma leve polida na sua Mercedes, um Monza Hatch azulado em tons diversos por retoques de spray, e ajusta com chaves de fenda duas caixas de som enormes no espaço do bagageiro. Fala ao celular com sua mulher sobre a feijoada que ela irá deixar no forno, antes de sair para o turno de sábado num hospital na Freguesia, do outro lado da cidade. Coça o rosto cavoucado da idade, passa a flanela para tirar um cisco do teto amassado do carro. Olha para chão junto ao muro e sorri satisfeito. Um sabiá come a quirera espalhada sob uma minúscula edícula que ele tinha arranjado com pedaços de tijolos e uma cobertura de plástico. Um trem emerge por sobre o pontilhão e para na estação do outro lado da avenida. O sabiá estaca por um segundo, um grão suspenso no bico. Não porque o estrondo metálico das rodas sobre os trilhos o incomodasse, mas porque ele percebeu que aquele trem hoje chegara com um minuto de atraso. Em seguida continuou com suas coisas de sabiá.

    O mato cresce sob alguns automóveis abandonados nos fundos do estacionamento, esse deserto, como são desertos as rodoviárias, como é deserto a paisagem daquele velho que fuma, debruçado meio corpo na janela do sobrado espremido entre dois edifícios, do outro lado da rua. Uma senhora desce vagarosamente a rampa do mercado, a bengala na mão esquerda, enquanto com a direita tenta conter o carrinho abarrotado de compras. Elegante, usa sapatinhos cor de rosa e um conjunto de calça e blusa na cor azul turquesa. Colar e brincos de pérolas e anéis prateados nas duas mãos. Uma mulher de cabelos encaracolados vem em seu socorro até que ela consiga sentar-se em um dos bancos perfilados junto a porta de saída. Recupera o fôlego, ergue a cabeça e me olha desolada, como se ponderasse sobre a minha inutilidade de observador. Eu penso em lhe dizer que naquele momento eu rascunhava uma história que iria abalar os alicerces da literatura universal, mas reconsidero. Não é aconselhável dividir segredos com estranhos.

  • Atonais

    Um frango feliz, estampado numa caixa de nuggets.

    Era o que Zími pensava sobre quase todas as pessoas que conhecia.

    E essa imagem bizarra virou uma camiseta usada por sua parceira musical Mila Cox.

    A sensação de certa segurança e conforto que vivia nesse ano ainda não era familiar o suficiente, A sua paranóia consistia no medo que tinha de voltar às condições precárias em que vivia até o ano anterior.

    Zími beirava os cinquenta anos, e entendia que atualmente sua faixa etária poderia significar o fim da linha, ou alguém que resistia a um declínio mais triste.

    A qualidade de vida dependia mais do que nunca de uma segurança financeira insustentável para a maioria.

    Essa maioria se recusava a pensar.

    Eram os frangos felizes na caixa de nuggets.

    Então ele entrou no apartamento que eles dividiam na Rua da Glória, e a viu com a camiseta.

    Estava sentada no sofá assistindo youtube na TV.

    Mila Cox tem vinte e três anos.

    A vizinhança especula muito, mas ninguém sabia nada sobre eles.

    Zími achou a camiseta dela legal, mas nem sabia que Cox havia se inspirado em algo que ele havia comentado usando o frango para ilustrar a cena descrita.

    Zími sempre voltava da rua com o saco cheio. Vestia uma camiseta gasta do Husker Dü, e falou: “O inferno é acordar e perceber que o mundo ainda é o mesmo.”

    Ela respondeu: “Mas pelo menos algumas coisas loucas aconteceram num período curto de tempo. Temos uma banda chamada Crop Circles, e quando escolhemos esse nome, era impensável que Donald postasse aquela foto dele com o ET.”

    Zími entrou no banheiro, e olhou no espelho enquanto mijava.

    Ele sabe que a grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.

    Sabia também que uma tumba mais fria e úmida que os quartos de pensão em que viveu até o ano anterior era o destino inevitável de todos.

    Mila Cox agora fazia café e Zími captou o aroma enquanto lavava  as mãos.

    Ambos desconfiavam que os dois são autistas, mas nunca falam do assunto.

    Preferem saborear silenciosamente a delícia de não serem o frango na caixa de nuggets.

  • O rouxinol

    O tio Argemiro gostava tanto de lendas, que tudo era pretexto para tirar uma do fundo do baú da memória, nem que fosse inventada – que a memória é assim, uma boceta de Pandora que tudo guarda, tudo inventa, tudo cria.

    Eis que numa tarde linda um beija-flor azul, tchibum!, mergulha de repente nas águas limpas de seus olhos.

    Não, não era um beija-flor, e não era azul; no remoinho da memória do tio Argemiro, o beija-flor tinha se transformado num rouxinol, com um canto doce como um sonho. Tinha uma cor que era a suma de todas as cores para o tio, um preto retinto, tão preto que brilhava no espelho d’água do pequeno lago do jardim.

    – Filomena! – disse o tio Argemiro, encantado.

    E não adianta insistir que Filomela era a princesa grega transformada num rouxinol para não ser sacrificada; ele teima, no seu encantamento, repetindo:

    – Filomena!

    E é como se a sua Filomena ressurgisse das cinzas do tempo nas asas de um pequeno beija-flor, que se transformava num rouxinol, fugindo num voo mágico das entranhas da terra onde estava sepultada há séculos.

    A escrava Filomena, que fora uma princesa na sua terra, sacrificada para que não se alastrasse a peste negra da varíola que os brancos trouxeram da Europa, voa nas asas do rouxinol, que os gregos chamaram de Filomela.

    – Filomena, o amor alado! – traduz a seu modo o tio Argemiro.

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