COntos

  • Um dia qualquer na Cidade

    Quanto mais ando, mais penso que há um mistério na existência das cidades, a maneira como tudo se funde nos entremeios desse emaranhado humano, um caso de estudo de como o caos aparentemente inevitável se transmuta em algum tipo de desastre organizado, em que tudo se encaixa e se desagrega ao mesmo tempo num moto contínuo, envolto por alguma energia invisível que nos conecta uns aos outros sem que percebamos, como as partículas solares que nos trespassam o tempo todo sem nos darmos conta da sua existência.

    Ando de graça no transporte público, migalhas em retorno pelos anos em que meu couro de cidadão comum – passivo e cabisbaixo – foi sendo arrancado dia após dia ao longo de uma existência de utilidade questionável. São as vantagens da idade, grita sempre lá do fundo meu humor amargo e esfarrapado, parceiro velho de caminhada. A moça que me abre a catraca depois de olhar minha identidade parece enfadada. Mas não me destrata. Apenas olha através de mim para algo que não está ali. Sabe-se lá com quantos demônios conversa nessa hora.

    Fico sentado na plataforma, deixo passar um ou dois trens, não tenho pressa. Às vezes folheio um livro que carrego apenas como muleta, para ter para onde olhar quando preciso fugir de certos espantos inevitáveis que toda caminhada traz. Ou para compor aquele ar intelectual de um leitor de longa vivência, que parece conceder a graça de sua presença numa manhã qualquer, olhando com desdém para aqueles rostos perdidos na tela do celular enquanto ele, um gênio da raça, está ali, com sua barba branca e rala e rosto magro e cavoucado, a mimetizar no seu ar circunspecto as perturbações dos grandes escritores, aqueles sim, arrastando as dores do mundo, enquanto constroem a grande literatura e nos elevam sobre seus ombros para a compreensão das pequenas e grandes aflições da humanidade.

    A moça me ofereceu o lugar no canto, e é nestas horas que costumo me dar conta da idade, sempre me esqueço. A culpa é do espelho, você sabe, o espelho de todo dia se torna cumplice no correr dos anos, a convivência o corrompe e ele passa a entregar as ilusões que você deseja enxergar, acho até que deve existir um lugar secreto onde os espelhos se reúnem para rir dessa fraqueza tão humana que é precisar o tempo todo cegar-se para não ver a própria miséria.

    Meu assento é de frente para o vagão, bem do jeito que gosto, de onde posso observar os mais variados tipos humanos, a maioria naquela luta interna contra a vida, espelhada no mau humor e enfado. E que faz todo sentido. Ninguém é obrigado a ser feliz às 7 horas da manhã dentro de um trem lotado. Meu julgamento deve ser descartado, tenho a vida tranquila, posso descer onde quiser, tomar meu café em qualquer quiosque ou boteco, bisbilhotar a vida alheia por tempo indefinido sem me preocupar se vou ter grana para atravessar o mês. Então é fácil.

    Desço na estação junto ao Masp e entro pelo grande vão do museu até a mureta de onde se vê os baixos da Bela Vista e do Anhangabaú. Era por ali, e dali para baixo que tudo foi acontecendo um dia, não foi assim de uma hora para a outra, foi um processo, um descuido. E eu me lembro dela me dizendo junto a janela,

    — Hoje eu vi um disco voador.

    Tem certeza?

    — Sim, mas era diferente dos outros.

    — Não era nem pratos nem caixas de papelão.

    — Não, parecia esses pacotes de salgadinhos, meio amassado, meio disforme, movia-se assim como se fosse um saco vazio empurrado pelo vento.

    — Onde estava?

    — Pelos lados da Zona Leste.

    — Sempre acontece coisas estranhas na Zona Leste. Quanto tempo durou?

    — Dois ou três minutos.

    Ficou assim, parada por alguns instantes, olhando o nada, o vento morno soprava seus cabelos.

    — Como estão seus projetos?

    — Esperando respostas, como sempre — respondi.

    — Admiro tua persistência.

    — Talvez um dia eu me canse ou faça algo diferente quando me aposentar.

    — A gente pode ir morar em outro lugar, ou sair por aí.

    Sair por aí? É a primeira vez que te ouço falar assim.

    Ela se voltou para mim, expressava uma alegria infantil, mas algo nervosa.

    — Tenho pensado. Mas não é uma coisa triste, como essas pessoas que abandonam a família, você nunca teve essa vontade?

    — Já, mas no meu caso seria essa coisa triste que você fala, deixar tudo para trás.

    — Até eu?

    — Não, você sabe que não, você é minha parceira, vamos ser parceiros sempre.

    Ela me olhou, estática, por alguns instantes. Depois sorriu, doce e resignada.

    — É uma pena que não.

    Depois saiu do quarto e nossa conversa terminou por ali. Nunca entendi o significado daquela última frase. Talvez porque nunca tenha sido honesto comigo mesmo e admitir o quanto fui pequeno nos momentos em que ela mais precisou de mim. Nós, machos, precisamos satisfazer nossas necessidades, está escrito nos estatutos gravados nas pedras do reino patriarcal, de nada adiantou o mundo ter saído da invenção da roda para a descoberta das partículas quânticas, tudo permanece igual na visão canhestra e miserável do ser masculino. E como todo bom cínico e desleal, passei a buscar outras mulheres, eu precisava extravasar. Um dia fui parar num lugar ali numa das esquinas da Brigadeiro Luiz Antônio, entrei por um corredor imenso, estreito, indefinido, cores vermelhas na maior parte do trajeto, algo estranho, pouco usual, uma música ao fundo como um eco, como se viesse de longe, mas que veio aos poucos se aproximando, até que adentrei um palco redondo, vazio, escuro. Uma luz se acendeu do lado, entrei por uma porta lateral e saí num puteiro, com mesas, sofás e um pequeno palco ao fundo onde uma senhora de roupas algo velhas e esgarçadas, justas e em cores estridentes, cantava uma música das mais tristes. Larguei-me sobre o sofá e duas mulheres se aproximaram e se jogaram sobre mim e penso que, durante alguns anos, nunca mais saí daquele lugar.

    Hoje olhando no retrovisor, nada justifica o que aconteceu, porque dali pra frente eu fui descendo, moral e geograficamente pela cidade até cair nos puteiros mais ordinários, como aquele, que acabei de descrever. E então, na tela do grande vão, aquela imagem recorrente: eu a vi, depois de rasgar em desespero o paredão de corpos que se aglomeravam para assistir ao espetáculo. Ela estava de pé no beiral, do lado de fora de uma das janelas do quarto, seus braços colados a parede e as mãos, trêmulas, tateavam de maneira aleatória algum lugar longe dali, como se ela buscasse algo palpável que a fizesse retroceder. Os policiais que faziam um cordão em volta do edifício tentaram me conter e eu gritei, tão alto quanto meu desespero desencavou forças que eu não tinha, mas não chegou até ela, vigésimo segundo andar e o alarido em volta, sirenes, gritos, buzinas. E ela, aos poucos, na lentidão das minhas esperanças e incredulidade, alçou voo com sua camisola branca de todos os últimos dias e noites, que ela não tirava mais, por entrega e um grito de socorro, e flutuou em câmera lenta por uma eternidade, pelo tempo em que a congelei com meus olhos, rezando por alguma força mágica que rebobinasse aquela imagem como uma velha fita VHS ou que eu despertasse de um pesadelo. Até que o baque, surdo e entre ossos que estalaram ao mesmo tempo, como a batida final da orquestra, tudo silenciou. Entre o assombro e o desespero, a sensação de fim dos tempos. Como se eu não tivesse nada a ver com aquilo.

  • UM DIA DE VERÃO

    Eunice saiu da rede e se instalou na cadeira de palha da varanda. Cruzou as pernas e substituiu os óculos de leitura por outros com lentes escuras. Pôs de lado o livro sobre questões ligadas aos direitos das pessoas com deficiência que vinha lendo nos últimos dias e contemplou o panorama à sua frente. Sorveu dois goles de suco de limão gelado, pousando em seguida o copo sobre a mesinha de centro. Retocou o batom discreto com o auxílio de um espelhinho. Procurou uma posição confortável e começou a meditar. Aos 67 anos, ainda trabalhava como advogada. Quando ingressou na faculdade, quase meio século atrás, julgava ser aquele o caminho ideal para alguém dotado de um senso de justiça tão exacerbado quanto o seu. O exercício profissional bem cedo se encarregou de demonstrar a falácia desse raciocínio. Ao longo da carreira, foram muitas as decepções. A sensação de impotência e de inutilidade era por vezes tão palpável… Atualmente, gostava de escapar da agitação da cidade fugindo rumo ao sítio da serra. No jardim, sua neta de 5 anos, companheira eventual dessas aventuras bucólicas, brincava. Em sua pureza infantil, mexia na terra, rolava na grama viçosa, colhia flores e observava o comportamento dos insetos. A avó estreante se comovia. Em cima do muro de tijolos ao lado do portão de entrada, a menina abria os braços com convicção e gritava: Eu sou o Cristo Redentor! De tempos em tempos, olhava para trás e acenava. E sorria. O sol forte do início da tarde iluminava-lhe o rosto. Como é lindo o sorriso de uma criança. De qualquer criança. Depois que ficou viúva, Eunice passou a não ver graça no apartamento amplo de Copacabana, onde hoje vivia sozinha. Tudo muito repentino, exatamente como costumam ser as tragédias. Uma bala disparada à luz do dia, não se sabe por quem, conseguiu, com a rapidez de um instante, pôr fim à vida de um homem produtivo, competente, amoroso e responsável. Olhando Camila, Eunice se preocupava. Que mundo lhe estaria destinado? Por um momento, desejou ter o poder de congelar o tempo. Ficaria ali, eternamente a olhar a menina, desligada do resto do Universo, convencida de conseguir assim resguardar e proteger aquele ser inocente. De quê? Nem ela mesma sabia ao certo. Em diversas ocasiões, a própria Eunice se sentia abandonada e perdida, carente de um ombro aconchegante. Um beija-flor inesperado e arisco distraiu-a por alguns segundos. Em seu voo assimétrico, a ave negra e minúscula quase se chocou com uma das pilastras da varanda. As duas garrafinhas penduradas no alto representavam um convite a esses pássaros adoráveis. Solitários, em duplas, lá vinham eles. Parados no ar, batiam as asas com avidez, sugando o néctar a eles destinado. Camila circulava agora entre as estatuetas que enfeitavam o jardim, transformando-as, com sua imaginação prodigiosa, em príncipes, heróis, fadas, duendes, seres alados, bichos falantes… De repente, o tempo começou a se fechar. O sol, até então radioso, de vez em quando sumia por trás de nuvens espessas e acinzentadas, formadas sem que Eunice tivesse se dado conta. Um ambiente opaco surgiu. Um vento assobiando fino começou a ser ouvido. Balançava as folhas das árvores, levantava a poeira da estradinha de terra batida diante da casa e desalinhava os cabelos castanhos de Camila. Arrancava dos galhos mangas maduras que salpicavam o solo com um amarelo vivo e gostoso. A ameaça de chuva e as insistentes lufadas de vento fizeram Eunice convocar a neta até a varanda. Ficaram as duas ali, quietas e pensativas, concentradas apenas naquela realidade. De mãos dadas, exercitavam uma cumplicidade que deveria ser natural entre avós e netas. Meia hora depois, com a volta da claridade e de uma tranquilidade aparente, a pequena dirigiu-se de novo ao jardim. Perto de uma roseira ramosa, um marimbondo picou sua testa. Camila gritou de dor. E chorou.

  • O VÔ ZÉ

    Quando o vô Zé estava para morrer, pediu para sair de casa. Fraquinho, não parava em pé, mas quis por força sair no pomar.

    – Eu quero abraçar as minhas árvores – disse.

    Mal balbuciava as palavras, mas insistia:

    – Eu plantei essas árvores. Vi crescer que nem minhas filhas. Eu quero abraçar minhas filhas pela última vez.

    Tive que carregá-lo nos braços. Não aguentou abraçar mais que três árvores. Fez questão de abraçar a mangueira de manga-espada, no centro do pomar, a jaqueira e uma jabuticabeira do mato, enormes.

    – Agora posso morrer quase feliz – disse, com os olhos marejados de lágrimas.

    Não pudera sair até o pasto, abraçar a grande figueira e as paineiras com seus espinhos.

    Pequenininho nos meus braços, segurando no meu pescoço, olhou o cafezal ao longe:

    – Eu plantei cada uma dessas mudinhas. Elas falam comigo, me pedem a bênção.

    Enxugando as lágrimas com a manga da camisa, ergueu o braço direito.

    – Um pai que é pai conhece os seus filhos – concluiu, abençoando.

  • A luta desigual

    Todas as manhãs o menino verifica, desolado, que seu castelo foi destruído pelas ondas. Quando chega à praia, vê que nada existe além de um monte de areia sem forma. O trabalho que teve no dia anterior desapareceu. Sua arte foi tragada pelo mar e deve estar agora em algum fundo escuro e frio daquela imensidão azul. Com paciência e dedicação, recomeça a tarefa de reconstruir o edifício onde colocará sua fantasia de morar ao lado de reis e princesas. Antes, dirige um olhar de ódio à água que lambe seus pés. Engole as lágrimas e jura que vai se vingar.

    À noite, pôs seu plano em prática. Ninguém percebeu quando ele, sem fazer barulho, saiu de casa e correu na direção da areia. Ninguém foi testemunha da batalha desigual que teve início naquele momento entre o mar imenso e um menino armado de espada de brinquedo. Ninguém o viu quando o dia amanheceu. Ninguém o verá nunca mais.

  • Desmedida

    Mainha prepara o café da manhã todos os dias, às 5h, rigorosamente assim. Acorda e canta com os galos, porque é feliz. Nunca reclamou da vida, desatinou ou embruteceu, apesar da dureza que passou. Teve de criar sozinha dois filhos, revezando com a minha tia, também bondosa, que vinha ficar com a gente em casa. Tia Laura, solteirona, ainda continua adulando os “filhos postiços”, como ela nos chama, só que repugnamos o seu cuidado excessivo, tratando-nos como crianças. Mas isso é o de menos, porque ela nos encheu de amor, da dádiva do carinho, do zelo. Sempre que posso, vou visitá-la. E ela faz uma recepção daquelas, com bolo e café no bule. A prosa passa de horas, perco o tempo, amando ser amada… Nunca tive o amor de pai, aliás não sei do que se trata. O tal genitor nos abandonou (ou nos trocou por bebida). Logo no meu terceiro ano de vida ele partiu. Não deixou saudades. Não lembro sequer de seu rosto. Muito menos o meu irmão, que tinha somente um ano no tempo do abandono. As más línguas dizem que ele queria fugir da responsabilidade e preferia vagabundar. Mas talvez ele seja doente, ou coisa que o valha. Já não me interesso por novidades a seu respeito. Deve bem morar em outro Estado. Nunca nos procurou, e é melhor assim. Artur, meu irmão, tem ojeriza a tocarmos no nome do genitor. Para ele, é como um lixo inservível. Tem ódio à sua figura. E me recrimina sempre que bebo, porque tem medo de eu me tornar como nosso genitor… Então, desde muito cedo aprendi a ser independente. Saía pelas ruas vendendo doces preparados por mainha, na porta de bares, nas faculdades, nos locais mais movimentados. Mainha ficava com o coração na mão, mas precisávamos – e ela dava força a minha verve de autônoma. Eu queria mostrar, também, que era capaz, e queria tirar-nos do atoleiro das contas atrasadas. Mainha, sim, deu todo o suporte emocional de que precisávamos. Não sentimos falta de pai algum. Aliás, quando ele ainda estava presente, batia nela até sangrar – essa é a história que sei por minha avó. Ela nunca fraquejou, mesmo trabalhando em casa de família e dando conta da nossa humilde residência. Perdi a conta das vezes que a vi chegar do trabalho, lavar roupa e engomar. Tudo numa delicadeza ímpar. Não fazia diferença entre o trabalho remunerado e a sua casa; aliás, talvez tivesse ainda mais zelo com as suas coisinhas. Mainha é meu mote para a poesia. É ela quem me dá substância para viver. A maior entusiasta dos meus livros. E diz que um dia serei a maior poeta que esse Brasil já conheceu. Exagero de mãe, por amar assim, desmedida.

  • VENDE-SE

    Cruzei o portão e logo avistei uma rolinha morta. A grama alta e malcuidada competia com o mato. Do lado de fora da casa, uma pintura pálida, descascada e algumas pichações que protestavam contra o governo anterior. Tive vontade de chamar por minha mãe. Quase consigo vê-la em pé diante da porta, postura altiva, robe de seda esvoaçante, cabelos compridos e levemente desalinhados, rosto maquiado… Depois de sua morte, era a primeira vez que eu retornava. Um silêncio intimidador que não combinava com a atmosfera da casa da minha infância e adolescência. Às vezes, um cachorro da vizinhança injetava um pouco de vida ao redor, assim como pássaros escondidos na folhagem das árvores do entorno. No quartinho escuro, o cheiro era muito forte. O galinheiro ficava ao lado, um ambiente que eu frequentava bastante. Era o encarregado de cuidar dos animais. Fazia de tudo e acabei estabelecendo com eles um relacionamento amistoso. Em algumas ocasiões, podíamos contar com caseiros e empregadas, o que, com o passar do tempo, foi ficando cada vez mais raro. Os bichos me esperavam e sentiam minha falta quando eu ficava um tempo maior sem aparecer. Galinhas e coelhos. Patos e marrecos no lago próximo à mangueira. Comecei ajudando meu pai. Você tem sorte, ele dizia, se criássemos porcos e cabritos, o trabalho seria muito mais pesado. Um dia ele nos deixou. Sem aviso. Minha mãe fechou-se no quarto e quase morreu. Tia Berta então veio ficar com a gente. Cuidava dela e de mim, mas não se aproximava da criação. Agora eu era o único responsável. Até que ela também foi embora. Na época, vovó ainda era viva e nos visitava de vez em quando. Minha mãe passou a me trancar no quartinho sempre que recebia algum convidado. Homens, em sua maioria. Eu os via de relance, pelas frestas, descendo de carros elegantes. Dentro do quarto ao lado do galinheiro, penumbra. A lâmpada pendurada no teto queimava e demorava a ser substituída. A janela de madeira velha estava emperrada, era praticamente impossível abri-la. Na época, eu não conseguia. Cogumelos nasciam nas partes podres, devoradas por cupins.

    O doutor Frederico chegou de táxi. Desceu do carro e começou a bater palmas e Na chamar meu nome diante do portão. Fui ao seu encontro. Ainda no jardim, passou a me falar das propostas que havia recebido pela casa. Documentos pendentes e providências à espera de resolução. Burocracia enfadonha, enfim. Você não assinou os papéis que pedi? Estamos perdendo tempo. Talvez tenhamos de reduzir um pouco o preço. As pessoas se interessam, mas não têm dinheiro, são tempos de crise. Você sabe, Felipe, o local se desvalorizou depois que o restaurante e o posto de combustíveis aqui da rua deixaram de funcionar. O sistema de transportes também não é dos melhores, sejamos realistas, acho que o metrô nunca vai circular nas redondezas. Sem dúvida, essa relativa proximidade com o mar continua sendo um atrativo. Como você é o único dono, acho que…

  • AUTO JUDICIAL

    O adjunto de promotor público, representando contra o cabra José Joaquim Faustino, conclui que no dia 26 do mês de Nossa Senhora Aparecida, quando a mulher do João Cruz ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, saiu dela de supetão e fez proposta à dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ela se recusasse, o dito cabra apoderou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas dela de fora e ao Deus dará.

    Ele não conseguiu conúbio porque ela gritou e vieram em amparo dela José Damante e Espiridião Costa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leis que duas testemunhas que assistam a qualquer sufrágio ou naufrágio são prova suficiente do sucesso.

    Considero, portanto, que o cabra Joaquim Faustino agrediu a mulher de João Cruz para deitar por cima e fazer com ela coisas que só ao marido dela competia, porque casados pelo regime da Santa Igreja Católica Apostólica Romana;

    que o cabra José Joaquim Faustino é um suplicante debochado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis também fazer conúbios carnais com a Inês e a Maria da Luz, moças donzelas;

    que José Joaquim Faustino é um sujeito perigoso e que se não tiver quem atenue o fogo aceso dele, amanhã estará metendo medo até nos homens, condeno o cabra José Joaquim Faustino, pelo malefício que fez à mulher do João Cruz, a ser capado.

    A capação deverá ser feita a macete.

    A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta vila.

    Nomeio carrasco o carcereiro Jorge Ferro de Sousa.

    Cumpra-se e apregoem-se editais nos lugares públicos.

    José Felício da Silva Campos
    Juiz de Direito de Santa Cruz das Almas, 26 de Outubro de 1799.

  • Tudo o que cabe num instante

    Celina abre os olhos e vê que está na cozinha. A louça é de porcelana e as panelas são todas novas. Em cima do fogão há um frango assado na travessa, pronto para ser servido. Demora alguns segundos para perceber que esta é a sua outra casa. Feliz, prepara-se para receber o marido, que volta do trabalho, e os filhos, da escola. Os meninos, quando chegam, dão-lhe beijos no rosto. Atrás deles, o marido a abraça e a levanta no ar como se não se vissem há meses. “Eu te amo”, diz ele, mordiscando sua orelha. Todos se sentam à mesa, e os pequenos contam como foi o dia na escola.

    Em silêncio, Celina aproveita a paz do momento. O marido pega sua mão e diz que, na próxima semana, pedirá férias na empresa e a família toda poderá passar uns dias no litoral. E que depois disso ela poderá pensar em seus estudos de pós-graduação, um sonho há muito acalentado. Celina estava prestes a responder quando um murmúrio chegou aos seus ouvidos: “Acorda!”, ouviu uma voz vinda de longe. “Acorda, sua vadia!”, a voz foi ficando mais nítida. “Acorda, sua merda!”, e ela não conseguiu mais ouvir as crianças nem o marido. Sentiu tontura, levantou-se da cadeira e, antes que alguém pudesse segurá-la, caiu. Ao abrir os olhos, percebeu que estava no chão. Sua cabeça doía e sentiu um gosto metálico e quente na boca. “Levanta já, sua fingida!”, disse a mesma voz. “Eu não te bati tão forte, não seja dissimulada. Anda, levanta e me traz outra cerveja.” Celina se levantou, limpou o sangue com as costas da mão e andou até a geladeira, implorando aos céus pelo próximo golpe que lhe trará alívio e a levará de volta à outra família.

  • Não sou desse mundo

    Já amanheceu. São cinco da manhã e não preguei os olhos. O sol não tem um pingo de pudor, atiça a minha visão e o meu corpo. Tento me levantar, mas o corpo pesa uma tonelada. Passo mais cinco minutos deitado, esperando as engrenagens do corpo funcionarem. É pavorosa a sensação de enfrentar o dia. Fico mais cinco, dez minutos olhando para o nada – naturalmente, para as nuvens escassas, que teimam em se afastar, porque podem se movimentar a esmo; eu, pobre de mim, já não tenho forças para avançar. Peço a um ser celestial que me proteja, sem vontade de continuar nessa peleja. Não sou crente nem nada, mas devo confessar que me apego a algum ente superior para me tranquilizar; a ansiedade é grande. O coração está a mil, e o dia nem começou direito. Sei que vou enfrentar Matias, Augusto, César e Eveline, todos meus chefes, que passam orientações descoordenadas e depois exigem coerência no trabalho. Levanto, lavo o rosto e escovo os dentes, automático. Passo alguns minutos olhando as rugas no rosto, ao mesmo tempo em que aplico um hidratante para a pele ressecada – ainda assim sou vaidoso, para manter a aparência. Preparo o café e penso no que virá. Deixo o café esfriar, pensando, disperso. Me embaraço nas minhas próprias alucinações. O dia pode não ser tão ruim assim. O dia pode ser o pior que já vivi. Os sonhos não me deixam mentir. Invariavelmente sonho com Matias e com César, os mais rigorosos, me pedindo para preparar o controle de caixa do mês, insistentes. Acordo, várias vezes, aperreado, até perco o sono. Essa noite sonhei com Eveline, a mais mandona, me pedindo para desviar um dinheiro do caixa, que não iam perceber. Eu, atordoado, como se fosse verdade, acolhi os seus mandos – tenho medo dela. Logo mais estava sendo preso pela polícia e encaminhado para a delegacia. Lá, sofri com os maus tratos infligidos, a mim e aos meus colegas de cela. No total, pelas minhas contas fajutas, fiquei sete anos preso, por desvio de dinheiro – roubo, precisamente. Por isso acordei assim. Hoje, sim, pode ser um péssimo dia. Eveline irá me encontrar e falar pela milésima vez que eu estou acabado, com olheiras. “Não dorme nunca esse malucão!”. Matias, que é casado, tem um caso com Eveline, que é solteira, a mandachuva da empresa. Estou em tempo de pedir as minhas contas e fazer de suas vidas um inferno, entregando as relações escusas e os rombos praticados por César, com a justificativa de sempre estar muito complicado de dinheiro, como se a empresa fosse um banco… Enfim, paro agora de falar dessas pessoas imundas, que escarram seriedade, quando, na verdade, são sujas. Como diria o meu pai, eu não sou desse mundo. Prefiro sair para viver o meu sonho de ser escritor por tempo integral, viver da arte. Só me falta a coragem, a fuga do medo de viver em dificuldade.

  • Apenas uma bolinha

    Ele achava que o mundo estava diminuindo. Disse isto num churrasco com os amigos naquele encontro habitual do condomínio. Foi para casa. Deitado, olhando o teto que lhe parecia mais baixo, ele ainda ouvia as gargalhadas do pessoal. “Tá diminuindo teu cérebro, isto sim”.

    Acordou cansado, algo recorrente nos últimos meses, como se algo estivesse lhe sugando as energias durante o sono. Olhou a mancha no travesseiro. Aumentava dia a dia, um líquido escuro que escorria do seu ouvido direito e que deixava uma crosta ressecada por dentro da orelha. Na primeira que vez que aconteceu ele procurou o médico, um velho amigo da faculdade da cadeira de medicina. O diagnóstico foi enigmático: “isto acabaria acontecendo qualquer dia”. Não questionou. Considerou tratar-se de mais uma das tantas bobagens daquele professor esquisitão, que apesar da amizade de longa data, lhe causava um certo ranço por conta de suas posições políticas.

    Parou diante da rampa que levava ao piso do anfiteatro e das salas de música onde lecionava todas as manhãs. Parecia estranhar o lugar. Sabia que ali era o seu local de trabalho, mas, com o pescoço curvado para a tela do celular, tudo o que vinha na sua cabeça era a imagem de extratos bancários, programas de TV sobre investimentos financeiros e lançamentos imobiliários em Miami, para onde viajava a cada ano com toda a família. Ergueu a cabeça por um instante e olhou para a rua. Percebeu que além do outro lado da calçada não havia nada, um vazio, como se a paisagem de edifícios que se estendia até os altos da cidade tivesse sido apagada com uma borracha. Sentiu-se tonto, achou que ia cair e sentou-se num banco de ripas ao lado da rampa. Isto já acontecera outras vezes e tornara-se mais frequente junto com outras anomalias que ele percebeu surgirem nos últimos tempos.

    Começou a rir quando viu um boneco balançando em frente ao posto de gasolina, na esquina depois da grade que cercava o terreno da universidade. Incomodou-se e parou de rir. Estranho aquilo, pensou. Outro dia quase perdera o folego ao gargalhar de forma descontrolada da água que escorria em espiral na pia do banheiro masculino. Sorte que estava sozinho, pensou no momento.

    Chegou tarde em casa, mais do que de costume. Tinha entrado no metrô na direção errada e de tão apressado acabou passando direto pelo grupo de amigos que o chamava para um vinhozinho no pergolado, numa área ajardinada do condomínio.

    O socorro chegou na madrugada. O mal cheiro que vinha do seu apartamento começou a incomodar logo ao anoitecer. Sumira do convívio e do trabalho havia dias. Bateram em sua porta, tentaram seu celular, mas nenhuma resposta.

    O bombeiro derrubou a porta do apartamento e levou a mão sobre o nariz. Apesar da máscara, o cheiro era repugnante. E o assombro ao entrar em seu quarto: as paredes forradas de bandeiras verde e amarelo, cartazes de manifestações, chapéus, bonés, cornetas, e ele mesmo deitado sobre a cama enrolado em uma bandeira do Brasil. Estava imóvel. O bombeiro se aproximou e virou lentamente sua cabeça. Viu a mancha escura imensa que se espalhava por sobre o travesseiro. Uma bolinha pequena escorreu do ouvido do defunto e acomodou-se numa dobra do lençol. O policial que acompanhava o procedimento pegou a bolinha e a olhou cuidadosamente.

    “Parece um cérebro em miniatura”.

    Riram. Depois colocou a bolinha num saquinho plástico e saíram.

  • Vinte Meia Um

    O ano é 2061, não se esqueça disso. Foram essas as últimas palavras do meu chefe depois de ele ter me explicado todo o projeto. Parece que a solicitação tinha partido lá de cima (ele reforçou a informação com o dedo indicador da mão direita apontado para o alto quando me passou a tarefa). O novo dono da revista cismou que queria uma matéria sobre como estaria o mundo daqui a 35 anos. Bem, eu sou o mais novo da redação (em tempo de casa) e não podia recusar um pedido do chefe. Na verdade, acho que foi mais uma ordem. Transmitida com educação, mas uma ordem. Seja como for, nunca foi do meu feitio desrespeitar algo chamado hierarquia. Mais tarde, refletindo melhor, acabei me sentindo orgulhoso de ter sido o escolhido. Afinal, se o doutor Santiago julgava aquilo tão fundamental… De qualquer forma, foi até engraçado essa incumbência ter surgido justamente nessa época. Um dia antes de receber a solicitação, eu havia lido no jornal alguma coisa a respeito de como tinham sido furadas as previsões de um filme lançado em 1991 sobre o ano de 2026. Nesse caso, o futuro já tinha se tornado presente e não era lá muito semelhante àquilo mostrado três décadas e meia antes. Quer saber? Apesar de mais conformado, continuava a achar a coisa toda meio sem graça e sem sentido, inútil até. Especialmente para o big boss, o maior interessado na brincadeirinha. Todo mundo na revista sabia muito bem que ele já tinha 75 anos (embora aparentasse menos). Nesse estágio da vida, já vai ser muita sorte se ele conseguir saber como será o mundo daqui a uma década, essa é que é a realidade. Não é só uma questão de estar vivo. É preciso também estar com saúde, enfim, no gozo de suas faculdades mentais, pra usar uma expressão cortês e um tanto clichê. Enfim… Não tinha mais tempo a desperdiçar com especulações vazias então li alguns livros, conversei com especialistas, entrei em páginas sugeridas pelo Google e fiz anotações. Nutri-me de uma dose substantiva de otimismo e decidi que o mundo futurístico seria um lugar bom pra se viver. Assistindo a todas as besteiras que o homem tem feito ultimamente, não é tão fácil ter essa esperança, mas vá lá, a imaginação (pelo menos ela) (ainda) é livre. Assim, doenças graves não seriam incuráveis em 2061. Transplantes, vacinas, tratamentos, remédios, a medicina continuaria a evoluir cada vez mais, elevando a expectativa de vida humana às alturas. Seria bastante razoável supor que alguém de 75 tivesse a chance real de conseguir mesmo saber como estaria o mundo 35 anos mais tarde. Além disso, a automação e o avanço tecnológico seguiriam seu curso em marcha acelerada, o mesmo acontecendo com a tão falada Inteligência Artificial. Também não dá pra projetar o futuro sem imaginar algo parecido com o que nos é apresentado pelo cinema de ficção científica: naves espaciais, velocidade de informação, robôs inteligentes, aparatos tecnológicos incríveis, computadores falantes, câmeras onipresentes e oniscientes. O texto tomava corpo, e eu me sentia entusiasmado. Perto do fim, um pensamento infeliz me perturbou: já estava com 58 anos e talvez não vivesse pra conferir os acertos de minhas elucubrações. Foi quando reparei no Renato, meu neto de 6 anos. Sentado no chão, ele mexia concentrado em seu tablet. Voltei os olhos à tela do notebook mais uma vez e retomei o trabalho, o prazo dado por meu chefe estava se esgotando.

  • Zé das Estrelas

    E o Zé deu de olhar as estrelas. Foi subir no telhado uma vez, e não acabou mais. Tinha descoberto a América. O Zé ficou encantado com as estrelas que ele viu no céu. Como se nunca tivesse visto. E olha que eu vivo com o Zé há quase cinqüenta anos. Ele sempre foi uma pessoa normal. Até que deu de olhar as estrelas.

    Não dorme mais na cama, o esquisito. “Faz tempo que eu quase não dormia, Cida”, ele diz. E é verdade: ele só dormia de dia. De noite ficava futricando, não tinha sossego na cama. Ainda bem que o Zé deu de olhar as estrelas. Fica lá em cima do telhado, de boca aberta, como se quisesse comer todas as estrelas do mundo.

    Hoje eu não agüentei, peguei e fui lá com ele. A nossa casa não é muito alta, é só um chalezinho de madeira; o telhado é que é inclinado demais, mas não é difícil subir. O Zé segurou a escada, eu subi devagar, segurando bem. Fiquei toda tremendo lá em cima, enquanto o Zé subia; depois me arrastei pela beirada, até a cumeeira. Fiquei lá em cima abraçadinha com o Zé, a noite inteira, olhando as estrelas.

    Sabe, eu posso cair do telhado. O Zé pode cair do telhado. Mas vai ser uma morte feliz, se a gente morrer. O Zé aponta uma estrela, só com os olhos, impossível não seguir os olhos dele. É como se o Zé fosse um santo fazendo um milagre. Eu só não estou seguindo os olhos do Zé, quando estou mergulhada neles. Tantas estrelas lá dentro. Não é à toa que o Zé ficou maravilhado.

  • O segredo da boa colheita

    Ao entardecer, quando o estranho passou, meu irmão e eu abrimos-lhe o crânio com o grosso ramo de videira que usamos para ocasiões semelhantes. Um único golpe, preciso e sem fúria, nada mais. O chapéu que o estranho usava empoleirado na cabeça rolou alguns metros adiante. Meu irmão o apanhou do barro vermelho e o pôs na sua própria cabeça. Será um ano bom, produtivo e faremos um bom dinheiro — isso foi o que concluímos, meu irmão e eu, apenas com uma troca de olhares.

    Arrastamos o estranho até o paiol e acendemos a lamparina de óleo. A luz embaçada fez brilharem as pás dos ventiladores de teto, espantando os morcegos. Arregaçamos as mangas e estudamos por alguns minutos o corpo inerte do estranho. Era um homem de quarenta e poucos anos, forte e parrudo, farto de carnes, gordura e músculos. Um perfeito fertilizante natural. Abrimos uma vala funda ao pé de uma videira e lá o enterramos com cuidado, como manda a tradição nas vésperas da colheita. Assim, o sangue drenado do corpo sem vida do estranho manchará as uvas, suas carnes nutrirão as raízes e fortalecerão as gavinhas e seus ossos darão vigor novo a esta terra queimada pela névoa e pela geada. A vinha crescerá até que o suco flua, nobre, único, virtuoso de sua fermentação secreta.

  • Serena

    Serena entrou no meu mundo por acaso – se é que posso acreditar em acaso; não estou tão seguro assim. Eu não pretendia adotar, essa era uma máxima que construía na minha cabeça pelo fato de ter um primo adotado que sofreu com vários transtornos por não o aceitar. Wilson, o nome dele, tentou se matar umas duas vezes, mesmo recebendo o apoio dos meus tios para tudo. Ele era depressivo em grau máximo e bipolar. Mas isso agora não vem ao caso… Voltemos: desde muito cedo, queria ter a minha família, com filhos biológicos. Mas Nazaré apareceu. Ela veio trabalhar em casa, recém-chegada do interior, e nós não sabíamos que ela estava grávida. Ela escondeu até onde pôde, mas logo começaram os enjoos, e Nazaré, revoltada com o pai da criança que esperava, dizia que iria abortar. Flávia e eu não deixamos. Foi um deus nos acuda, porque Nazaré falava que não queria ser mãe aos dezessete anos; que sabia da vida difícil que levara, com oito irmãos, no interior; que mulher parida é desprestigiada pela sociedade, como sendo mulher da vida ou algo do tipo. Ficávamos no seu pé todos os dias, convencendo-a de que uma criança é uma dádiva, uma bênção, com todos os argumentos que tínhamos. Foi difícil, quase impossível de segurar a revolta da mãe. Então, me prontifiquei a ficar com Serena – o nome que escolhemos; já um prognóstico para serenar as nossas vidas, tão agitadas –, disse a ela que a menina seria muito bem-criada, teria, certamente, uma vida bem diferente da que Nazaré teve. Nazaré aceitou a proposta, sempre reclamando por estar grávida, pelo peso e tudo o mais para fazer as tarefas de casa, das quais a dispensamos. Veio a sua irmã Lucila para ajudar nos afazeres domésticos. Serena nasceu, e, como esperado, foi enjeitada pela mãe; sequer recebeu a primeira amamentação. Logo, Flávia e eu a pegamos para criar, nos idos de 80, e registramos como nossa filha, com o inteiro consentimento da mãe – o que se chama de adoção à brasileira. Não havia essa burocracia que há hoje. Serena caiu perfeitamente em nossos braços, arrebatados que estávamos por sermos pais. Depois de Serena, felizmente Flávia engravidou duas vezes, e tivemos Serginho e Paulo Filho. A família estava completa. Nazaré continuou conosco e passou a ter uma relação melhor com a filha biológica, ainda que não quisesse ter as responsabilidades de mãe. Nazaré marcava uma diferença grande na relação com a pequena, que a amava. Serena hoje só nos dá orgulho: é formada em engenharia pelo ITA e trabalha num centro de tecnologia em Orlando. De seis em seis meses, ou ela vem nos visitar, ou vamos vê-la. O amor é infinito; não cabe no peito e no pensamento. Ela é minha princesa e meu encantamento. Nasceu justamente para ser a nossa filha amada.

  • Desertos

    Os dois esqueletos de um condomínio em construção, voltados para o oeste, acolhem o vento de inverno que rasga as redes de proteção, agora de um laranja desbotado que denuncia o esgotamento de todos os prazos. Assovia por suas entranhas de tijolos cinzentos, cor de sem vida, e ecoa pelos corredores e escadarias e as futuras dependências de 5000 m2 e 800 quartos, o básico de que precisam para viver os que chegarão flutuando sobre tudo e todos, qualquer dia destes. Com suas ideias equivocadas sobre humanidade, graus e degraus.

    De alto a baixo, outra rede de malha fina, como um véu esbranquiçado e vazado de poeira, protege os passantes dos estilhaços de argamassa e blocos, enquanto balança como se fosse um fotograma daquele velho filme sobre prédios que navegam o mundo da contabilidade, do Monty Phyton. A manta que torna invisíveis os corpos que despencam dos andaimes e desaparecem no disco colorido das estatísticas.

    Cá embaixo, neste universo ordinário em que as vidas comuns se colidem, o funcionário baixinho com a aba do seu boné voltada para trás orienta a entrada e saída dos carros no estacionamento junto do metrô. Nos intervalos, dá uma leve polida na sua Mercedes, um Monza Hatch azulado em tons diversos por retoques de spray, e ajusta com chaves de fenda duas caixas de som enormes no espaço do bagageiro. Fala ao celular com sua mulher sobre a feijoada que ela irá deixar no forno, antes de sair para o turno de sábado num hospital na Freguesia, do outro lado da cidade. Coça o rosto cavoucado da idade, passa a flanela para tirar um cisco do teto amassado do carro. Olha para chão junto ao muro e sorri satisfeito. Um sabiá come a quirera espalhada sob uma minúscula edícula que ele tinha arranjado com pedaços de tijolos e uma cobertura de plástico. Um trem emerge por sobre o pontilhão e para na estação do outro lado da avenida. O sabiá estaca por um segundo, um grão suspenso no bico. Não porque o estrondo metálico das rodas sobre os trilhos o incomodasse, mas porque ele percebeu que aquele trem hoje chegara com um minuto de atraso. Em seguida continuou com suas coisas de sabiá.

    O mato cresce sob alguns automóveis abandonados nos fundos do estacionamento, esse deserto, como são desertos as rodoviárias, como é deserto a paisagem daquele velho que fuma, debruçado meio corpo na janela do sobrado espremido entre dois edifícios, do outro lado da rua. Uma senhora desce vagarosamente a rampa do mercado, a bengala na mão esquerda, enquanto com a direita tenta conter o carrinho abarrotado de compras. Elegante, usa sapatinhos cor de rosa e um conjunto de calça e blusa na cor azul turquesa. Colar e brincos de pérolas e anéis prateados nas duas mãos. Uma mulher de cabelos encaracolados vem em seu socorro até que ela consiga sentar-se em um dos bancos perfilados junto a porta de saída. Recupera o fôlego, ergue a cabeça e me olha desolada, como se ponderasse sobre a minha inutilidade de observador. Eu penso em lhe dizer que naquele momento eu rascunhava uma história que iria abalar os alicerces da literatura universal, mas reconsidero. Não é aconselhável dividir segredos com estranhos.

  • Atonais

    Um frango feliz, estampado numa caixa de nuggets.

    Era o que Zími pensava sobre quase todas as pessoas que conhecia.

    E essa imagem bizarra virou uma camiseta usada por sua parceira musical Mila Cox.

    A sensação de certa segurança e conforto que vivia nesse ano ainda não era familiar o suficiente, A sua paranóia consistia no medo que tinha de voltar às condições precárias em que vivia até o ano anterior.

    Zími beirava os cinquenta anos, e entendia que atualmente sua faixa etária poderia significar o fim da linha, ou alguém que resistia a um declínio mais triste.

    A qualidade de vida dependia mais do que nunca de uma segurança financeira insustentável para a maioria.

    Essa maioria se recusava a pensar.

    Eram os frangos felizes na caixa de nuggets.

    Então ele entrou no apartamento que eles dividiam na Rua da Glória, e a viu com a camiseta.

    Estava sentada no sofá assistindo youtube na TV.

    Mila Cox tem vinte e três anos.

    A vizinhança especula muito, mas ninguém sabia nada sobre eles.

    Zími achou a camiseta dela legal, mas nem sabia que Cox havia se inspirado em algo que ele havia comentado usando o frango para ilustrar a cena descrita.

    Zími sempre voltava da rua com o saco cheio. Vestia uma camiseta gasta do Husker Dü, e falou: “O inferno é acordar e perceber que o mundo ainda é o mesmo.”

    Ela respondeu: “Mas pelo menos algumas coisas loucas aconteceram num período curto de tempo. Temos uma banda chamada Crop Circles, e quando escolhemos esse nome, era impensável que Donald postasse aquela foto dele com o ET.”

    Zími entrou no banheiro, e olhou no espelho enquanto mijava.

    Ele sabe que a grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.

    Sabia também que uma tumba mais fria e úmida que os quartos de pensão em que viveu até o ano anterior era o destino inevitável de todos.

    Mila Cox agora fazia café e Zími captou o aroma enquanto lavava  as mãos.

    Ambos desconfiavam que os dois são autistas, mas nunca falam do assunto.

    Preferem saborear silenciosamente a delícia de não serem o frango na caixa de nuggets.

  • O rouxinol

    O tio Argemiro gostava tanto de lendas, que tudo era pretexto para tirar uma do fundo do baú da memória, nem que fosse inventada – que a memória é assim, uma boceta de Pandora que tudo guarda, tudo inventa, tudo cria.

    Eis que numa tarde linda um beija-flor azul, tchibum!, mergulha de repente nas águas limpas de seus olhos.

    Não, não era um beija-flor, e não era azul; no remoinho da memória do tio Argemiro, o beija-flor tinha se transformado num rouxinol, com um canto doce como um sonho. Tinha uma cor que era a suma de todas as cores para o tio, um preto retinto, tão preto que brilhava no espelho d’água do pequeno lago do jardim.

    – Filomena! – disse o tio Argemiro, encantado.

    E não adianta insistir que Filomela era a princesa grega transformada num rouxinol para não ser sacrificada; ele teima, no seu encantamento, repetindo:

    – Filomena!

    E é como se a sua Filomena ressurgisse das cinzas do tempo nas asas de um pequeno beija-flor, que se transformava num rouxinol, fugindo num voo mágico das entranhas da terra onde estava sepultada há séculos.

    A escrava Filomena, que fora uma princesa na sua terra, sacrificada para que não se alastrasse a peste negra da varíola que os brancos trouxeram da Europa, voa nas asas do rouxinol, que os gregos chamaram de Filomela.

    – Filomena, o amor alado! – traduz a seu modo o tio Argemiro.

  • INSTANTÂNEO

    A velha de lenço preto na cabeça não se incomoda de ficar horas dando voltas na casa feita destroços. Era a sua casa. Tenta reconhecer, sem conseguir, a parede do quarto, onde era o banheiro, a sala em que fazia crochê, a cozinha que, nos fins de tarde, parecia um paraíso com cheiro de comida. Traz num dos braços um cobertor sujo de poeira e nas mãos duas colheres de pau — o que sobrou depois do bombardeio, depois da casa no chão. Ela fala sozinha enquanto rodeia os escombros, provavelmente dialogando com seus fantasmas. Ali ao lado dois cachorros mortos aguardam sepultamento e do ventre de cada um sai um fio de sangue que chega até perto da casa. Mas o que é isso? Não basta não existir mais casa, agora também o chão será encharcado de sangue?, pragueja ela.

    O fotógrafo pediu permissão para tirar um instantâneo, mas ela não deu atenção. Estava ausente. Só buscava alguma coisa, talvez buscasse nada. De vez em quando se abaixava para recolher algo do chão e em seguida continuava a rodear a casa e a dialogar com o silêncio.

    Ela e sua família já estavam com as malas prontas, mas não era para sair de férias. Iam para outro lugar, fugindo da guerra interminável. Partiriam como refugiados, gente de nenhuma parte, sem raiz, sem chão próprio, sem nação. Gente de segunda classe, ralé, estorvo para os países ricos. Na noite anterior, os aviões que voavam baixo sinalizavam o terror, e ela tinha ido até outro bairro buscar comida para a viagem. Na volta, encontrou os escombros. Estes, que agora ela e seus fantasmas circundam. Não sobrou nada, nem casa, nem família, nem malas, nem viagem. Só ela.

    Plasmar a alma daquela anciã com sua máquina de eternizar momentos: era isso que o fotógrafo pretendia, mas a incredulidade diante do inexplicável lhe fechava a garganta e o impedia de pensar. Estava mergulhado numa guerra que não era sua, mas era como se fosse, porque era contra toda a humanidade. Posicionou o equipamento diante do rosto da velha e captou um instante daquela miséria, apesar dos próprios olhos marejados.

  • Malhação 2003

    Leandro gostava de Kátia. Desde a quarta série. Já estava no fim do sexto ano. Leandro nunca teve coragem de cumprimentar Kátia.

    Kátia achava Leandro bonito. Achava Leandro e mais uns cinco ou seis da sexta série B bonitos. Sem contar as dezenas de garotos que deixavam Kátia com as maçãs do rosto bem firmes, quando passavam por ela sorrindo. Kátia era uma das muitas garotas cobiçadas do colégio.

    Leandro nunca soube que Kátia o achava bonito. Nem nunca imaginou essa possibilidade. Mesmo desejando tanto que isso fosse possível. Costumava acreditar em novelinhas da Malhação ou das 9 em que, no fim, o mocinho e a mocinha ficam juntos para sempre.

    O sinal toca. Último dia de aula. Kátia se despede de Larissa, Roseane, Aline, Mariane, Lucas, Daniel e Felipe. A uns três metros de distância, seus olhos castanhos e doces abraçam Leandro pela primeira e última vez.

    Naquele mesmo instante, Leandro aguardava ansiosamente o último capítulo da temporada de Malhação 2003.

  • Sunshine

    Fui surpreendido com a doença do Sunshine. Ele sempre foi tão esperto; um gato para além dos limites. Agitado, inquieto. Veja, já passou três dias fora de casa e apareceu como se não tivesse acontecido nada, magro, arranhado de briga etc. Fez aventuras de todos os tipos, como subir na minha antiga casa e pular de telhado em telhado até desaparecer no horizonte. Sunshine nunca foi um gato “normal”. Desde o primeiro dia que o vi, no grupo da cria da casa da minha cunhada, percebi que era diferente. Ele veio direto ao meu encontro, para brincar de subir pela minha camisa com suas pequenas unhas afiadas, até se aconchegar quietinho na minha cabeça. Depois, quando o levei para casa, para ser um guia a cuidar da minha depressão, ele me fazia esquecer a doença; pulava de armário em armário; subia ágil o projeto de guarda-roupa; tomava água corrente, apenas na pia. Vários costumes permaneceram. A excentricidade, por muito tempo, foi sua característica. Isso não quer dizer que não era carinhoso. Apesar de ser intrinsecamente individualista, gostava de deitar-se na cama e passar horas esparramado esperando carinho na barriga. Mas, infelizmente, ele ficou doente. Muito acabrunhado, ficava pelos cantos, diferente dos nossos outros gatos. Tenho um sentimento de culpa muito grande, porque não percebi que o problema poderia se agravar. Poucos dias se passaram, e Sunshine não conseguia urinar. Fazia mil posições, tentava urinar em locais mais confortáveis, mas o líquido não vinha. Levamos imediatamente a uma clínica veterinária. Na primeira consulta, a médica-veterinária parece ter passado um remédio paliativo, para dor, principalmente. Ele melhorou a disposição, já pulava pelos cantos. Mas um mês depois veio a queda de novo. Dessa vez, mais grave, expelindo sangue. Levamos imediatamente a outra clínica, da qual temos confiança, e a médica-veterinária foi mais prudente e o internou. Foram dias de aflição. Ele estava com cristais na bexiga (sabe-se lá o que é isso), um problema ligado à alimentação e à falta de consumo de água. Foram feitas lavagens com soro para tirar os tais cristais obstrutores. Até que, no terceiro dia de internação, segundo a médica-veterinária, ele teve uma parada cardiorrespiratória e não suportou os agravamentos. É importante falar do componente da idade, ele já tinha dez anos. É uma tortura a culpa, não queira saber. Poderia ter feito mais – e urgentemente. Poderia ter amado a ponto de não aceitar o seu abatimento. Sunshine, sim, foi um anjo, me curou milhares de vezes. Eu o amo como nunca. Ele era o meu melhor parceiro de escritas (sou escritor, e ele ficava ao meu lado velando o meu labor). A médica-veterinária disse que foi uma fatalidade inimaginada. Geralmente corre tudo bem. Ele não suportou uma sepse. Na verdade, não era deste mundo cão. Mas teve uma existência digna – e nisso que me fio para não cair em desgraça.

  • INSTANTÂNEOS

    No meio da rua um veio d’água, a luz amarela da madrugada, um homem capengando junto ao muro longo, o som da camisa fina raspando no chapisco de quando em quando. Incertos dias, estes. Em que não somos nem sombra do que pensávamos ser. O sorriso lacônico e de entrega, como se sorri diante da derrota concreta. Um ônibus para o sul, o último da noite. Depois dele, os espaços de silêncio se alongam, ouve-se coisas mínimas, ouve-se dentro, agora que o homem se vê parte do todo, todo o tempo ali, abafado por horas a fio pela insanidade do dia. E dói saber. Ver-se liso de disfarces, o espanto da nudez, os penduricalhos desta vida dita dinâmica arrastados para o sul e para o silêncio pelo último da noite. Ouve-se o coração bater. O som do vento, bravo e tortuoso por entre os labirintos de uma seringueira densa e antiga.

    No meio da rua, um risco brilhante de luz esticando para o sul. A boca entreaberta da não compreensão, ou da verdade que chegou de repente, ela que rondava por ali dentro há tempos, caindo agora, na hora do grande momento. Um garoto, descansando sobre a moto encostada, acendeu o cigarro e puxou um trago longo que se ouviu do outro lado da rua. E olhou a fumaça fundindo-se com a noite. O outro homem agachou-se e suas costas rasparam pelo chapisco até o chão. O garoto atravessou a rua e lhe entregou o resto do cigarro aceso. Nenhum julgamento, nem perguntas. Um instante, dos muitos por aí, depois que o último da noite some para o sul.

  • Satanásio

    O aluguel do mês estava pago, e quando isso é alcançado, Mila Cox e Zími têm piadas sobre o sonho da casa própria.

    Faziam piadas sobre como conseguiam pagar contas sendo copywriters, mesmo com a inteligência artificial devastando as oportunidades da área.

    Eles não tinham esse sonho.

    As incertezas que eles tinham eram as mesmas do resto da humanidade, nesse momento macabro da história.

    Zími olhava da janela para ver Satanásio, um vizinho desempregado vadiando na rua, gastando o dinheiro da feira com bebida, enquanto a esposa dele está na seis por um, como caixa no mercado, e com a gravidez avançada.

    Havia outro vizinho no prédio deles que era pastor. 

    Antes de saber disso, Mila Cox disse a ele: “A religião serve para  impedir o conhecimento, e promover o medo e a dependência. É uma forma grotesca de adestramento.”

    Eles estavam no elevador, e o sujeito a indagou sobre crença em deus, por conta da camiseta do Venom que ela vestia.

    Cox falou para Zími: “Agora só desço de escada, pra não encontrar aquele cara. Prédio é melhor pra mim do que uma casa, mas eu ainda não acostumei com esse tipo de chateação.”

    Zími falou: “Essa gente é polarizada nas bolhas tóxicas da direita e da esquerda, brigam por isso, mas ambos os grupos gostam de ser governados. Não há muito diálogo possível.”

    Cox falou: “É um tempo em que essa bizarrice pode ser varrida a qualquer momento, com destruição em massa. Donald está muito empenhado nisso.”

    Zími: “Vai ter show do Redd Kross aqui perto, em breve.”

    Cox: “Sim, no Cine Jóia. Nosso bairro é bom.”

    Ficaram atualizando notícias de geopolítica, torcendo para dar merda logo.

    Sabiam que independente de qualquer coisa, não haverá recompensa celestial depois da extinção.

  • Queda livre

    Resolveu descer do elevador no vigésimo nono. A conversa mole do Severino, o ascensorista, o incomodava. Não estava com paciência para ouvir suas reclamações sobre a incompetência do governo e o mau desempenho do time do coração na partida da véspera. Preferiu seguir a pé até o último andar do prédio onde trabalhava. Era, além do mais, uma chance de fazer um pouco de exercício. Não que isso pudesse fazer alguma diferença naquele momento. Meio-dia em ponto, horário de almoço. Inverno, temperatura mais baixa do que o habitual, ventinho cortante, chegou ao terraço praticamente sem transpirar, apesar da jaqueta de lã batida que vestia. Fosse verão, a situação teria sido diferente. Este representava para ele um período de incômodo e desconforto. Suava demais no verão… A mãe e o terapeuta diziam que não era só em função do calor. Era principalmente por causa da ansiedade. Naquele instante, contudo, estava contente, orgulhoso de si mesmo e calmo, surpreendentemente calmo. Finalmente iria colocar em prática o plano há muito concebido. Sabia que agora não haveria recuo, que não faria o movimento contrário de descer as escadas. Era uma pessoa assim, relutante até tomar uma decisão. Depois que isso acontecia, porém, não voltava atrás. Com passos firmes, foi se encaminhando ao parapeito. Um pássaro de penas cinzentas voou para longe emitindo um som estridente ao sentir sua aproximação. Ele esticou o pescoço e olhou para baixo. Os carros minúsculos o fizeram lembrar a coleção de carrinhos de ferro da infância. Por falar nisso, onde estaria ela? Com um discreto movimento de cabeça, afastou essa lembrança inútil e subiu no parapeito. Abriu os braços à la Leonardo di Caprio em Titanic. Senhor do mundo também, por que não? Do seu mundo, pelo menos. Do seu mundinho, seria melhor dizer. Pequeno, insignificante, solitário, dispensável; enfim, o que lhe fora possível construir. Se as coisas não tivessem acontecido dessa forma, não estaria ali, vislumbrando o panorama do alto, prestes a realizar o que… Bem, prestes a realizar um ato tão definitivo. A vida, com frequência, não é justa, muito menos simples. Nem tudo depende de esforço individual. Foi esse o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça assim que se lançou lá de cima. Numa sucessão rápida, outros pensamentos foram aflorando. Indivíduo reflexivo, seguiria dessa maneira até o fim. Apesar de já estar próximo dos quarenta, não havia conseguido conquistar nada de importante: não tinha casa (vivia de aluguel num quarto e sala de um bairro decadente), carro (dependia de ônibus e metrô; táxi, nunca), relacionamentos sólidos (nunca os teve), prestígio (mais de uma vez, no ambiente de trabalho, roubaram-lhe boas ideias). O emprego atual, assim como todos os anteriores, era medíocre, bem abaixo de suas qualificações, o que o obrigava a ainda contar com a ajuda dos pais para as despesas básicas. Na altura do trigésimo segundo andar, não conseguiu evitar um leve sorriso (tudo nele era meio contido) ao pensar que se livraria definitivamente da convivência com a chefe gorda, incompetente, de voz anasalada e monótona, mulher desagradável que tinha prazer em diminuí-lo, desqualificá-lo ou apenas ignorá-lo. Como ela havia conseguido aquele posto é algo que nunca pôde entender. Vigésimo nono andar, pensou nos pais. Certamente seria uma surpresa para eles. Uma tristeza também. Mas, afinal de contas, a vida de todos é feita de surpresas e tristezas, não é mesmo? Com o tempo, tudo voltaria ao normal. O tempo cura tudo, vivem repetindo por aí. A mãe, mulher forte, esclarecida e religiosa, acabaria por compreender as razões do filho único. Será que se sentiria culpada? Talvez, não sabia dizer com segurança. Não tinha resposta para muitas perguntas, estava consciente de suas limitações. Vigésimo terceiro andar: e a pilha de livros à espera de leitura na estante do quarto? Alguns pareciam tão interessantes. Queria tanto ter tido a chance de folhear suas páginas, de fazer anotações nas margens e de sublinhar com o lápis as passagens mais significativas. Poderia ter aprendido coisas. Poderia ter se transformado num ser humano mais forte, mais preparada para as adversidades da vida. A literatura também serve para isso, ora bolas! Vigésimo andar: não teria sido melhor um método mais fácil (comprimidos, por exemplo; o terapeuta poderia tê-lo auxiliado, sem saber de nada, é claro). Décimo sexto andar: não tinha deixado bilhete dirigido aos parentes (muito clichê, a originalidade era para ele uma meta). Décimo primeiro andar: nunca chegaria a conhecer Mariana ao vivo. Já se falavam pela internet havia quase um ano. Como o tempo passa rápido! Ela parecia compreendê-lo tão bem. Existia empatia entre eles, sem dúvida. Pena que o relacionamento houvesse ficado confinado ao âmbito virtual. Será que ela tomaria conhecimento do fato? Será que leria a respeito em algum jornal? Talvez assistisse à reportagem de algum programa sensacionalista da TV, desses que se alimentam da dor e do sangue alheios a pretexto de mostrar a “realidade da vida”, “o mundo como ele é, sem retoques ou maquiagens”. Exploração da miséria humana, isso sim. Sétimo andar: tratamento dentário inacabado, quem se importa? Para sempre livre daquele motor irritante, daquele barulho desagradável, anestesias, brocas, para sempre livre do desprazer de ser torturado e ainda pagar por isso. Terceiro andar: jamais visitaria Florença, a cidade às margens do Arno, cenário de um filme visto na TV. O curso de italiano que vinha frequentando nos últimos anos não serviria para nada. Havia feito tantos progressos… Era, sem dúvida, o melhor aluno da turma. Recebia vários elogios da professora. Pelo menos ali ele se destacava. Ma la vita non è sempre bella. Segundo andar: não teria a oportunidade de pedir perdão a Viviane, sua meia-irmã, filha de seu pai, concebida num momento de crise no casamento oficial. Tomou as dores da mãe e disse palavras terríveis à menina. Na ocasião, até ele se surpreendeu com a própria capacidade de ferir e de magoar. Hoje pensava diferente, que culpa tinha ela? Deveriam ter convivido mais, poderiam ter sido mais próximos. Poderiam… Solo: poça de sangue, dor intensa no corpo todo, justiça, esforço individual, chefe gorda e intolerante, gritos dos passantes, bilhete de despedida, parapeito, carrinhos de ferro, desespero dos transeuntes, voz anasalada e monótona, ler, livros, leitura, pessoa melhor, Mariana, Viviane, Leonardo di Caprio, Titanic, Florença, dolore, surpresas e tristezas, suor, ansiedade, inverno, inferno, internet, terapia, terapeuta, comprimidos, dentista, aluno, professora, paura, sorpresa, surpre e triste, surp e trist, sur e tri, su e tr, s e t…

  • A segunda morte de Lázaro

    Quando estava para morrer a sua segunda e definitiva morte, Lázaro teve uma visão. Uma mulher morena apareceu na porta de sua casa. Mal a viu, ela desapareceu.

    Lázaro sentou-se na cama, sentiu nos pés o eco dos mortos, como um tambor muito longe. Depois que voltou do Xeol, costuma ouvir os mortos. Trouxe-os na cabeça, no peito, na alma. Encosta a mão na parede, apoiando-se, e sente a presença dos mortos. Anda cambaleando, e pensa se já não é um morto. Aliás, esse pensamento nunca o abandonou. Quando você desce ao reino dos mortos, é para sempre. Como Lázaro voltou, trouxe os mortos com ele. E seguramente ele já é um morto.

    “Avô!” Uma jovem lhe estende um prato de frutas. Ampara-o com a outra mão e o conduz a uma cadeira. “Sara”, diz o avô e lhe passa a mão pelos cabelos, olhando-a com os olhos baços. “Sara, você viu a mulher que estava aqui?” A menina não tinha visto ninguém. Estranhou a pergunta. Viviam poucas pessoas na pequena cidade, todos se conheciam, nenhum desconhecido costumava aparecer por ali. Era um lugar entre o deserto e o mar. Havia ainda a montanha. Era um lugar de grande beleza, se você olhasse bem. Mas você não olhava bem: tinha o peito opresso pela solidão.

    Lázaro amava a solidão. Montara ali a sua tenda para usufruir da solidão. Depois construíra uma casa, e uma família para habitar aquela casa. Mas todos já tinham morrido. Restara ele com a sua solidão. Sim, havia os netos. Várias vezes por dia vinha um neto trazer-lhe comida, ver se ele estava vivo. Lázaro era um monumento. Todos queriam que ele contasse o que tinha visto no reino dos mortos. Como se calasse, dizendo que estava dormindo e não vira nada, cansaram-se de perguntar. Mas contemplavam-no como a um monumento. Era o marco de um outro mundo.

    Quanto mais o tempo passava, mais Lázaro se distanciava das pessoas. Na realidade, todos que o conheceram quando jovem, antes de sua partida para o Xeol, tinham morrido. Lázaro sobrevivia a si mesmo. Tocava-se: seria ele mesmo? A sua pele era cinza e quebradiça, como se fosse desfazer-se. Não estaria morto? Não, ele não alcançara a graça de morrer. Passou por essa experiência uma vez, para voltar como um estranho entre os homens. Atormentado por essas ideias, adormeceu. Sara cobriu-o e retirou-se. O avô parecia um morto.

    Quando acordou, a mulher morena estava na porta outra vez. Tinha o mesmo ar estrangeiro de antes, mas sorria. Tinha a areia do deserto na pele dura, mas sorria com doçura. Lázaro levantou-se e caminhou em direção à mulher, dando-lhe as boas-vindas. Mas ela novamente desapareceu. Era como se sumisse no ar. Como uma bolha de ar que se apagasse. Lázaro admirava-se: a mulher era tão real, era mais real do que ele. Como poderia ter se evaporado assim?

    Caminhou até a porta, sentindo nos pés os mortos que não o abandonavam jamais. Era como um eco, prolongando-se em espirais infindáveis, cada vez mais distantes e cada vez mais próximas. “Avô!” Agora era Judith que o amparava. “Os mortos já morreram, avô.” Ele admirava-se da sabedoria da menina, mas continuava sentindo a presença dos mortos. Os mortos nunca morrem de todo, ele pensa. Judith caminha alguns passos com o avô. Mostra-lhe o mar, as ondas calmas e misteriosas, os pescadores preparando-se para partir. Ele também precisa partir, Lázaro pensa.

    Senta-se num banco de pedra e fica olhando a água azul, algumas nuvens, algumas aves. Aos poucos uma sensação de nostalgia apodera-se dele. Aliás, dia e noite ele sente nostalgia. Do passado, simplesmente? Do outro mundo? Lázaro nem sabe de quê. O dia passa como uma modorra sem fim. Lázaro distinguiu o significado da vida quando distinguiu o significado da morte. Só não sabe as palavras para dizer. Tudo que conhece é a música que vem do fundo da terra.

    Dias depois acordou de um torpor. Era como se flutuasse no espaço. Lázaro tornara-se uma luz, um corpo de ar flutuando na luz. Fez força para abrir os olhos. Precisava ver a realidade, tocar as coisas com as mãos e com os pés. Precisava ter certeza de que existia. Lázaro fez força para levantar-se. Queria ver a mulher morena na porta de sua casa, precisava sentir a sensualidade da pele morena da mulher no seu corpo.

    Quando percebeu a mulher estava ao seu lado, um corpo contra o outro, acariciando-se, excitando-se. A mulher beijou-o na face, nos lábios, na língua. Lázaro sentiu-se rejuvenescer. Estava na sua força de homem, um frêmito corria-lhe pelo corpo, sob a pele, no sangue, nos músculos. Os dedos da mulher lhe acariciavam o peito, a barriga, o membro. Quando percebeu, a mulher estava sobre o seu corpo, o seu membro intumescido dentro do corpo da mulher, ela o possuía, ele a possuía. Estava cada vez mais dentro dela, os seus corpos se completavam, num êxtase.

    Lázaro quis gritar, mas estava sem voz. Quis tocar o corpo da mulher, mas ela já não estava ali. Quis dizer-lhe o nome, mas não sabia e nem tinha mais voz para falar. Lázaro nem percebeu que já não existia.

    Jesus e Ana encontraram-no com os olhos abertos e um sorriso nos lábios. Estava feliz como nunca em sua vida.

    Ana disse: “Adeus, avô.” E Jesus fechou os olhos do avô, enfim liberto.

  • As uvas

    A cortina se abre. No palco, um homem come uvas. O público aguarda. A publicidade anunciou que era a melhor peça da temporada teatral da cidade. O homem chupa uvas. Os críticos elogiaram a engenhosidade do diretor, a sutileza da atuação, a trama tão bem engendrada. O homem mastiga uvas. “Impressionante!”, publicaram os jornais, revistas e sites da internet. “Ação sem limites, com ritmo e intensidade”, declarou a seção de teatro do Jornal da Manhã, logo após a noite de estreia. O homem termina de chupar as uvas, restando apenas uma. Ao levá-la à boca, a uva reage. Em saltos frenéticos, atinge o homem no rosto, na virilha, na nuca. Voa para longe, estanca para tomar impulso e, com a velocidade de um raio, dispara na direção do ator e perfura o seu crânio entrando pelo olho direito. Silêncio. O público reage, levanta-se e aplaude freneticamente. Cai o pano. Da uva rebelde nunca mais se ouviu falar.

  • Noites sem fim

    Estou desde às 23h30min acordado. Dormi praticamente duas horas. Já são 4h30min, e nem um sinal de sono. Esboço bocejos ritmados, como se meu corpo fosse se render. Vejo meu filho e minha esposa dormindo plenamente e eu reflito sobre a beleza e a aflição. Logo mais irei ao trabalho, às 7h. Como todos os dias, receberei reprimendas do patrão, que nunca está satisfeito com o trabalho – e ter de suportar isso com insônia é a pior das dores. Aliás, penso que a insônia é uma combinação, desta vez, com os esporros que levei e a saúde desregulada. O Dr. Josias não tem apreço pelo bem-estar da sua equipe. Não trabalha como os novos advogados, que, na sua maioria, prezam pela saúde mental. Estamos cheios de colegas com depressão, burnout e ansiedade. É o maior sacrifício para que ele conceda férias. Gianini está há mais de um ano sem tirar, e o pior, ela vai vender parte das férias agora, para, depois, passar alguns dias em casa. Tudo isso só me complica, porque vira uma bola de neve. À medida que deixo de dormir, penso que o organismo se acostuma. Só me lembro, nessas horas, do desespero de meu pai, doente de câncer, por não ter conseguido dormir durante a noite. Quantas ele passou em claro… Chorava ao perceber que o sol nascia e não tinha dormido nada. Estou no mesmo caminho. Já tomei melatonina e relaxante muscular, e nada. São pelo menos três noites seguidas de insônia; desta vez, porém, nem mesmo conseguir pregar os olhos por uns instantes. O dia não rende. Você pode ser, inadvertidamente, um sujeito mal-educado e ranzinza. Peço desculpas quando um fato assim acontece. Ontem mesmo, ao dormir cerca de três horas à noite, fui ríspido com um colega que queria tirar uma dúvida processual. Logo me arrependi profundamente e pedi-lhe desculpas, colocando a culpa na falta de sono – só não sei se surtiu efeito. Agora, no tempo em que escrevo, já se passou meia hora. Devo estar em pé já, já, e disposto, às 6h30min. Meu filho vai demandar a minha atenção, como todos os dias o faz pela manhã: “Papai, me ajuda nisso ou naquilo!”. Tenho de preparar a sua farda, a lancheira e a mochila, para que ele, sim, passe um dia ameno e sem percalços. Minha esposa acordará em cima da hora de ir para o trabalho, com a desculpa de ter dormido mal – quando percebo que ronca ao meu lado. Nesse momento, penso na existência, nas possibilidades de mudança, de como poderia ter uma vida mais tranquila e sem preocupações exageradas. Além do mais, sei que viver assim é não viver. É passar pela vida, simplesmente. Meu organismo não desliga. Não paro de pensar, a mente é inquieta, desde a juventude. Dormir, então, está fora de cogitação. Quando o faço, por descuido, é como o céu que se abre para eu deitar, solene, absoluto. O sono é uma espécie de nuvem fugaz. Há uma maneira de agarrá-la? Quero, ainda, quando puder, me derramar na minha rede e dormir sem fim.

  • Carona

    O cara entrou, bateu a porta e começou. Disse que tinha deixado todos os filhos em casa, um deles, o mais novo tinha morrido dois dias antes, a mulher tinha mudado pra casa da irmã mais velha, tinha ido buscar alguma força pra suportar todo o resto que ainda viria pela frente. Que ela era uma boa mulher, que ele tinha tirado de um grande amigo seu, traição não foi, ele acha, o amigo tratava a mulher muito mal, mulher que nem ela merecia ser bem amada por um homem que nem ele, era morena ele disse, quase mulata, melhor que a outra que ele tinha antes dela, branca que nem leite, aguada de idéias, que deixou ele por causa de um vendeiro da fazenda, matou o sujeito dias depois numa tocaia, e enterrou o corpo embaixo de uma parte esquecida da casa, aquelas casas morrem com o tempo, disse, ninguém mais mexe nelas, vai passando de um pra um até que tudo se acaba. Disse que vai buscar a mulher, deixou comida para os filhos até a noite, um deles vai pra escola, atravessa doze quilômetros até chegar lá, então tem fome, que nem os outros que ficam trabalhando na roça das fazendas vizinhas, agora é tempo de colheita de café, bom de aproveitar porque paga meio ano, o outro meio fica no vazio, não adianta encher a cidade de mais gente, então ficam. Diz que está velho, mas ainda forte, que a vida lhe fez calos no lombo, andou por todo canto deste mundo desde pequeno, sem parada, sempre buscando alguma coisa, mas não sabia dizer o que era, que decerto Deus era que tinha posto aquela sina de andar. Diz que gostava de estrada, do jeito que elas vão esticando pra longe, que pode sempre ter algum outro mundo do lado de lá na outra ponta, que acha triste viver sem saber onde vai dar esse ou outro caminho qualquer. Diz que um dia vai sumir por algum outro lugar, no dia que alguma coisa mudar sua vida de uma hora pra outra, que isto pode bem acontecer, aconteceu com ele muito antes, teve quatro esposas antes da mulata e da branquinha, filhos com quase todas elas, pode ser que alguém deixado lá atrás um dia apareça pra acertar as contas. Chacoalha a cabeça espantando alguma coisa, um instante de silêncio e retoma. Diz que o mundo mudou demais desde que era moço, que apareceu uma coisa que ele não sabia que existia, que era o medo de ficar sozinho, solidão já tinha visto nos outros, no jeito de olhar do seu pai, da última vez que pode encontrar com ele, vinte anos antes, quando o pai olhou pra ele da cama do quarto, sozinho, esperando a morte chegar dali há pouco. Que não sabia que palavra era essa até há pouquinho, quando o mundo cresceu de repente numa hora que ele parou pra olhar o vazio em volta, numa tarde de nuvens de chuva e distância limpa, o mundo quieto. Ele diz que deve ser este o sinal, que a hora que a gente ouve desde pequeno vai chegando, que a gente nunca acredita que um dia ela vem, que vai dando uma vontade de voltar pra trás, de fazer meia volta em certos caminhos por outro lado, pra banda deixada naquele tempo em que teve que escolher uma ou outra estrada, assim é que é a vida, uma fica na frente dos pés vazando pra longe, a outra vai viver nos pés de outro que escolher seguir por ela.

    Ele bate a porta e desce num lugar onde não existia nada. Vazio geral ao redor da estrada. E ficou lá esperando, desintegrando-se aos poucos no retrovisor.

  • Amigos

    Saí de casa por volta das 8 e meia da manhã como fazia todas as segundas, quartas e sextas, andei alguns passos e cheguei à praça. O jogo ainda não havia começado. Arnaldo, Alfredo e Ranulfo já estavam lá conversando sobre a vida alheia, um esporte praticado com afinco na nossa cidade. Aquelas reuniões com os amigos de uma vida inteira ainda eram bastante agradáveis, apesar de o carteado ter perdido um pouco da graça desde que deixamos de jogar valendo dinheiro. Foi o Alcindo, que morreu de tristeza quatro meses atrás, quem sugeriu. Essa grana faz falta pros nossos remédios, argumentou com certa razão. Afinal, somos todos aposentados e clientes preferenciais do Antônio Careca, o dono da única farmácia da região. Digo que o Alcindo morreu de tristeza porque pra ele foi um choque tremendo quando a Arlete teve um ataque cardíaco fatal enquanto via o último capítulo da novela. Convivência de 61 anos — 63 se considerarmos também o período de namoro e noivado — definitivamente não é pra qualquer um. É tempo demais vivendo junto, o que torna a coisa sempre dolorosa quando termina. Se não é pelo amor propriamente dito, é pelo hábito. Claro, costume e preguiça também são capazes de manter muito casamento por aí, mesmo nos dias hoje, marcados por tanto progresso e emancipação feminina. O fato é que exatamente 19 dias depois do enterro da patroa, coube ao Alcindo fazer a passagem, como costuma dizer o Arnaldo, frequentador convicto do centro espírita do bairro onde moramos.

    — Sempre o último a chegar, hein, Hildebrando — falou Arnaldo assim que me viu.

    — É o trânsito — tentei ser engraçado.

    — Pois eu estava só esperando você aparecer pra dar uma notícia importante pros três — prosseguiu ele.

    — Notícia? Que mistério é esse? Fala logo, homem! — impacientou-se Alfredo, o mais agitado do grupo.

    — Ontem eu estive lá no centro…

    — Xiiii, aí vem coisa — interrompeu Ranulfo.

    — … e a dona Isaura psicografou uma mensagem do Alcindo — informou enquanto tirava um papel do bolso.

    — Como é que é? O Alcindo baixou no centro ontem? — perguntei ainda sem compreender direito o que se passava.

    — E pra quem é a mensagem?

    — Pra nós quatro, Ranulfo. Pra mim, pra você, pro Hildebrando e pro Alfredo.

    — E o que ele diz? Vai nos contar ou não? Pra que tanto suspense?

    — Calma, Hildebrando. O troço tá meio em código, linguagem telegráfica, sei lá. Mas, pelo que entendi, acho que houve um erro.

    — Erro, que espécie de erro?

    — Parece que a hora do Alcindo ainda não tinha chegado, Alfredo. Tá escrito aqui, deixa eu ver… “mais cedo que o programado… era a vez de um amigo… amigo da praça e das cartas… falha no controle… a melancolia ia passar… Arlete ainda não tava pronta pra me receber…”. Resumindo: um de nós quatro é que devia ter morrido.

    — Quem? — os três, quase ao mesmo tempo.

    — Não dá pra saber, mas o fim da mensagem deixa claro que o pessoal lá de cima está disposto a corrigir essa falha de alguma maneira.

    — Ressuscitando o Alcindo? — indaguei.

    — Não, isso não se pode fazer. Eles pretendem vir buscar o sujeito certo.

    — Quando? — continuei.

    — Pelo que diz aqui “antes que o oito vire nove”, ou seja, antes que agosto termine.

    — Hoje é dia 25 — anunciei consultando meu relógio de pulso.

    — E agosto tem 30 ou 31? — quis saber Alfredo, ao mesmo tempo que, mais trêmulo do que o habitual, tentava obter a resposta fazendo o teste no dorso da mão.

    — Calma, Alfredo, tá achando que você vai ser o premiado? — provocou Arnaldo.

    Naquele dia, não houve jogo. Cabisbaixos e pensativos, fomos tomando o rumo de casa. Em frente ao portão, ouvi os latidos do Max vindos do lado de dentro. Meti a chave na fechadura com certa dificuldade. Antes de entrar, ainda olhei pra trás e pude ver, na praça, nossa mesa habitual deserta. Aliás, contrariando o costume, a praça inteira se encontrava completamente vazia naquele momento.

    ***

    Bem, o 11 já virou 12, e hoje é véspera de Natal. Nós quatro continuamos vivos e resolvemos celebrar a data aqui em casa. A dona Isaura não dá mais expediente no centro. Há três meses foi internada numa clínica psiquiátrica de uma cidade vizinha à nossa, e, infelizmente, o caso é grave. São quase 9 horas, e eles devem estar chegando. Pelo menos hoje não vou ter de ouvir o Arnaldo dizer que estou sempre atrasado. Nosso amigo ausente não mandou mais notícias, e nunca mais tocamos no assunto. É bem provável, porém, que, na hora da ceia, a gente faça um brinde em homenagem ao Alcindo.

  • A Caruta

    A velha Caruta acordou sobressaltada. Um desassossego lhe correu pela espinha, um arrepio de premonição de desgraças. Esfregou os olhos lambuzados de sono, destrancou a janela, abriu meia folha, xingando o gemido nos gonzos, e espiou o dia.

    Lusco-fusco, brisa morna, como se soprada pela lua sufocada no entremeio das gameleiras, obra de dez braças dali. Parava no escuro, pesava. Isso não era bom sinal.

    Não sabia o quê, mas o peito oprimido, carregado – sentiu o coração estremecer. Lembrou-se do sonho de uns momentos antes: que estava morta – branca, fria, espremida num cantinho da cova, sobre umas folhas de taioba, como uma quarta de geleia, se desfazendo, se desfazendo.

    Gelou: e se não era, num aviso, mais que um aviso? Não seria que estava morta e ninguém sabia? Apalpa-se. Não representava que estivesse mais morta que sempre. Tinha cruzado a cumeeira da velhice, antiga de não se lembrar mais. Era um pouco morta, era, de verdade.

    Sacudiu a esquisitice de cima dos ombros. A velhice era um castigo de que não tinha salvação. Escancarou a janela e, arrastando as chinelas, virou para a porta da cozinha.

    Mal distinguia o vulto do dia. Deu dois passos no terreiro e estacou. Bem que não estava assim atrapalhada à toa: o mundo amanhecera diferente demais. Onde a estripulia do amanhecer, esse estrupício de todo santo dia?

    O silêncio reinando – como não pusera reparo nessa reinação estranha? Mas que era? Meu Nosso Senhor! Onde a passarinhada dos diabos? Pôs sentido nas coisas, estudou as redondezas.

    Quietude. Divulgava a cerca, as árvores, os cornos da serra, os beiços do bambual. E a quietude. Bicho nenhum. Seria que só ela de vivalma nesse fim de mundo? A Caruta começou a se enfezar. Embrulhada com o que não existia, gente! O silêncio, onde se viu? O mundo mais quieto que a morte.

    Que é isso, minha Santa Luzia! Enfiou os dedos nos vãos dos olhos, jogou a remela na poça d’água. A água barrenta se esguedelhou num remelexo. Estou viva, se disse a Caruta.

    Esgaravatou os ouvidos com os dedos nodosos. Não fosse esse silêncio! Um despropósito. Chamou: Dourado! Palerma! Chumbado! Boca-Preta! A cachorrada estava metida nalguma biboca perdida. Cachorrada sem préstimo, o diabo se serviu,
    comeu.

    A Caruta juntou nas conchas das mãos um punhado de quirera, semeou no tempo. As pombas? Nenhuma. As galinhas? Os bichinhos na disputa, nas pinicadas, brigando para encher o papo? Tudo deserto.

    Já não ouvira o galo, fugido da obrigação – acender a manhã. Estranhice. Será que eu estou morta e não sei? E morto sabe da morte? O mundo despovoado. Não posso eu sozinha ser o povo deste mundão. Sozinha e Deus! O Diabo não.

    Sozinha – e se eu for só um punhado de pó e eu nem sei? Creio em Deus Padre! E se benze, a Caruta. Será que ela está morta? Não é dada a essas pensamentações. Umas cismas trançadas.

    Mais um argumento: Só se estiver morta! Já vivi tudo quanto tinha para viver, gente! Pensava e pensava. Trançava as suas cismas. Devagar. O dia amanhecia de repente, atordoado, mais morto do que vivo. A Caruta atolou as canelas na lama do mangueirão. Onde o diabo dessas vacas? As amaldiçoadas das porcas?

    Sentou num tronco podre, os cotovelos ossudos nos joelhos, segurou os queixos com as mãos. Pois é, pois é! Sim, senhor! Não pode ser, mas é. Estou morta, mortinha que nem este pau, que já vai se decompondo.

    Apalpou os bolsos do vestido, achou o pito, remexeu o fumo, bateu o isqueiro. Tudo muito meticulosamente. E chupou, chupou fundo. Morto não pita? Ela se ri: Não pitava!

    Relanceou os olhos na casa, o paiol, a tulha, uma plantação deste lado, uma capoeira, depois o mato grosso na beira do morro. Tudo como sempre. Mas o silêncio. Que silêncio! Só se ouve o vento resmungar, inda que a contragosto, irritado, descompassado.

    A velha soltou um suspiro fundo. Pois é, nenhum sintoma de vida, em lugar nenhum. Observou o horizonte, e voltou às pressas para casa, chegou, deu um tranco na porta emperrada, na frente, e ficou zanzando na sala.

    Regular bem eu regulo. Louca não estou. Só se eu virei o morro, saí de fininho da vida no sono, no sonho. Ainda bem que eu não me desesperei de nervosa, tanta bobagem para escarafunchar na cabeça. Ainda bem que eu virei o morro sem perceber, como quem sacode o pó da estrada para retomar a caminhada. A estrada da vida não tem fim, continua até depois do sonho.

    Cismou e cismou. Nada mais a fazer. A vida se acabou, pronto. Valeu a pena? Isso não lhe competia. Arrazoar de Deus ou do Diabo. Estranhava o mundo deserto, isso era. Mas devia estar acostumada: a vida na Tapera da Onça sempre fora um deserto só. Quem se esquecera da vida numa furna como aquela, decerto que desertara do mundo.

    Mas, e os bichos? Não faz sentido um mundo sem bichos. Tinha só duas vacas, duas porcas e a cachorrada. Mas, e a passarinhada? Tinha uma égua que era só pereba, pele e osso. Onde a Gateada? Para onde fugiu o mundo todo?

    Só se o mundo acabou. Ora veja! Não era ela também uma mulher perdida no mundo? Deu com aquele buraco, ali se hospedou para o resto da vida. O Quim da Tapera botava nela os olhos sonsos, não dizia nada. Nem precisava. Foram se cheirando, como dois bichos. Quer ficar? Fique. Daqui não tem mais além – teria dito? Há muito tempo, sem conta.

    Muito antigamente a Caruta ganhou as estradas da vida, ave sem pouso, até pousar no estrado de varas do Quim da Onça, o Quim que um dia uma onça comeu.

    Enterrou o homem, os restos, no pé de um jequitibá. A onça, sapecou fogo na bicha, o cano grosso da espingarda goela a dentro. Ela se lembra. Coisas que pareciam ter acontecido há um século.

    Agora estava morta, embora desenterrada, oras. Mas quem iria enterrá-la? Ali ninguém aparecia, nunca, jamais. Morta, ufa! Já cansara de se dizer morta, em cima das pernas, pererecando entre as taipas.

    Destapou os caldeirões no fogão. Encostar o estômago? Que nada! Nunca fora de muito comer. E morto lá come? Arre! Isso de morto virou uma ideia fixa! Mas, se eu estou morta? Se não tem vivalma neste fim do mundo – por que eu?

    Olhou o picumã nos caibros da cozinha, que nem morceguinhos dependurados. Se ao menos houvesse morcegos! Só se isto for o purgatório, Deus e o Diabo disputando a minha carcaça.

    Mas ninguém se conforma com a própria morte. A Caruta deliberou tirar a limpo o acontecido, que só parecia doidice. Como? Não sabia. Desinventar a morte! Dependurou a espingarda, socou com raiva a pólvora e o chumbo, tomou o rumo do mato, desembestada. Uma plantação abandonada. O sujo da mataria escorada na serra.

    Gozado: quietude demais, como se fosse uma fantasia. Onde os veadinhos? Os macacos nos galhos que nem uns diabinhos pretos? A passarinhada? Santo Deus! É um silêncio dos infernos!

    Pegou numa trilha funda, alcançou o Ribeirão da Capivara, subiu a ribanceira à cata de vau. As águas claras gorgolejando num verde cheiroso. Peixe nenhum. Mosquito nenhum. Sozinha só. Nenhum bicho no mundo. Nem ela. A Caruta abre bem as pernas, para se equilibrar melhor, arregaça o vestido, para dentro d’água. Deus louvado! Apoia a espingarda no ombro, aponta para o alto, aperta o gatilho. Um estrondo trovejando, ecoando a solidão.

    Depois, nada. Barulho nenhum. Só as folhas bolem, caem. Passarinhos voando assustados? Nada. Bicho fugindo? Bulha nenhuma. Escorou a coronha numa pedra, despejou o polvarinho na boca enorme, socou, e atirou de novo. Como um trovão. Será?

    Quase nem se ouviu o eco do tiro. A velha desanimou.

    Voltou para casa às pressas. Virgem! E grunhiu, num riso destrambelhado. Não foi nada, não, só o mundo que acabou. Gingou o corpo para trás, rápido para casa. Que teimosia, gente! Morri, está bem. Vou resguardar o meu cadáver na minha cova. A par do finado, a cova aberta há quantos anos! Pegou com raiva o facão dependurado do ombro esquerdo e, no caminho, cortou umas folhas de taioba. Tal e qual no sonho, bem forradinho o leito da última jornada.

    Deitou o corpo no buraco, revirou-se, esperou. Não se sentia cômoda. Diacho. Não estava à espreita da morte, mas já mortinha bem morrida. Tinha que arejar a mente. Não tem cabimento tanta preocupação, lembrando os problemas da vida.

    Bem que gostaria do Palerma ali na cabeceira. Cachorro inteligente, sempre jurara que o bicho iria assistir a sua morte, se afogar na tristeza, ganir a dor do peito e, desalentado, se acabar junto dela. Peste! Tudo era uma peste, tudo tinha sumido. Por que o diacho da peste desse cachorro tinha que sumir também? Culpa dela, que partira sem aviso. Esquisitice. Morrer na sequela do sonho, sem nem reparar.

    Bom. Agora é se despedir de quanta bobagem se imagina. Imaginando as coisas da vida em cima de nada, oras! Quem diria que isto é o outro lado da vida? Tudo que é vivente se esfarinha no tempo – só resta você, alforje de nada?

    Morrer, o mundo deixar de existir? Só você de bicho. E não tem sentido chorar a miséria, você já era. Ah Caruta, sossega! Que esfrega, a vida! Essa cama não é de empréstimo, é para todo o sempre. E não cansa? Todo o sempre é tempo demais. Mexe e remexe na cova. Incomodada como o diabo. Esta casca de ossos é velha demais, não tem posição que aguente.

    Ela se encolhe, se põe de cócoras. Uma coisa fazia falta: o pito. Faz mal morto pitar? Amansa as iscas de fumo na cunha das mãos, enche bem cheio o cachimbo. E pita com gosto. Chupa no canudo com sofreguidão – e, a cada chupada, a cara mais chupadinha. A pele esticada, lisa, lisinha – parece pele de rã, rãzinha. Serenada, a Caruta cachimbava. De longe se distinguia a fumacinha se suspendendo da cova, bamboleando no ar.

    A Caruta morreu entanguidinha no resvalo da cova – uma geleia de carniça, comidinha dos urubus. Bichos do demo! Ao pé da velha, uma pelanca podre, uns ossinhos, decerto de cachorro – decerto o Palerma, vindo arrefecer seus dias junto da dona. Decerto um urubu lhe bicava o olho, outro urubu sugava o olho da Caruta.

    Vejam! Na caveirinha, os dentes cravados no canudo do pito – a Caruta fungou o derradeiro respiro no oco do pito. O canudo encravado na boca, não sai não. Nem o demônio preto do urubu roubou.

  • À Semelhança

    O mundo carecia de uma criatura que pudesse consolar a todos. Então os homens e as mulheres criaram Deus. Quer o tenham concebido pensando em seus sonhos mais queridos ou, ao contrário, moldado-o a partir do barro da natureza, o fato é que Deus surgiu aos olhos de todos com forma humana. A empatia foi imediata e assim o mundo ficou completo: agora havia um Deus.

    O tempo passou, a vida seguiu, o mundo se transformou, o cotidiano se instalou, a percepção das coisas se acomodou. Os animais, com a cabeça baixa, sempre olhavam para o chão. Os homens e as mulheres, com a cabeça erguida, olhavam para a frente e, às vezes, olhavam para o céu. Para onde o Deus inventado olhava, não era possível saber. Sozinho, muito sozinho, ele frequentemente se queixava de que, depois de o terem feito tão semelhante aos homens e às mulheres, esses mesmos homens e mulheres o tivessem banido para longe de onde viviam. Passou então a vagar pelos ermos do céu e do horizonte, ensimesmado e muito apreensivo com a possibilidade de que um dia, por ser inútil, os homens e as mulheres o desinventassem.

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