COntos

  • Desertos

    Os dois esqueletos de um condomínio em construção, voltados para o oeste, acolhem o vento de inverno que rasga as redes de proteção, agora de um laranja desbotado que denuncia o esgotamento de todos os prazos. Assovia por suas entranhas de tijolos cinzentos, cor de sem vida, e ecoa pelos corredores e escadarias e as futuras dependências de 5000 m2 e 800 quartos, o básico de que precisam para viver os que chegarão flutuando sobre tudo e todos, qualquer dia destes. Com suas ideias equivocadas sobre humanidade, graus e degraus.

    De alto a baixo, outra rede de malha fina, como um véu esbranquiçado e vazado de poeira, protege os passantes dos estilhaços de argamassa e blocos, enquanto balança como se fosse um fotograma daquele velho filme sobre prédios que navegam o mundo da contabilidade, do Monty Phyton. A manta que torna invisíveis os corpos que despencam dos andaimes e desaparecem no disco colorido das estatísticas.

    Cá embaixo, neste universo ordinário em que as vidas comuns se colidem, o funcionário baixinho com a aba do seu boné voltada para trás orienta a entrada e saída dos carros no estacionamento junto do metrô. Nos intervalos, dá uma leve polida na sua Mercedes, um Monza Hatch azulado em tons diversos por retoques de spray, e ajusta com chaves de fenda duas caixas de som enormes no espaço do bagageiro. Fala ao celular com sua mulher sobre a feijoada que ela irá deixar no forno, antes de sair para o turno de sábado num hospital na Freguesia, do outro lado da cidade. Coça o rosto cavoucado da idade, passa a flanela para tirar um cisco do teto amassado do carro. Olha para chão junto ao muro e sorri satisfeito. Um sabiá come a quirera espalhada sob uma minúscula edícula que ele tinha arranjado com pedaços de tijolos e uma cobertura de plástico. Um trem emerge por sobre o pontilhão e para na estação do outro lado da avenida. O sabiá estaca por um segundo, um grão suspenso no bico. Não porque o estrondo metálico das rodas sobre os trilhos o incomodasse, mas porque ele percebeu que aquele trem hoje chegara com um minuto de atraso. Em seguida continuou com suas coisas de sabiá.

    O mato cresce sob alguns automóveis abandonados nos fundos do estacionamento, esse deserto, como são desertos as rodoviárias, como é deserto a paisagem daquele velho que fuma, debruçado meio corpo na janela do sobrado espremido entre dois edifícios, do outro lado da rua. Uma senhora desce vagarosamente a rampa do mercado, a bengala na mão esquerda, enquanto com a direita tenta conter o carrinho abarrotado de compras. Elegante, usa sapatinhos cor de rosa e um conjunto de calça e blusa na cor azul turquesa. Colar e brincos de pérolas e anéis prateados nas duas mãos. Uma mulher de cabelos encaracolados vem em seu socorro até que ela consiga sentar-se em um dos bancos perfilados junto a porta de saída. Recupera o fôlego, ergue a cabeça e me olha desolada, como se ponderasse sobre a minha inutilidade de observador. Eu penso em lhe dizer que naquele momento eu rascunhava uma história que iria abalar os alicerces da literatura universal, mas reconsidero. Não é aconselhável dividir segredos com estranhos.

  • Atonais

    Um frango feliz, estampado numa caixa de nuggets.

    Era o que Zími pensava sobre quase todas as pessoas que conhecia.

    E essa imagem bizarra virou uma camiseta usada por sua parceira musical Mila Cox.

    A sensação de certa segurança e conforto que vivia nesse ano ainda não era familiar o suficiente, A sua paranóia consistia no medo que tinha de voltar às condições precárias em que vivia até o ano anterior.

    Zími beirava os cinquenta anos, e entendia que atualmente sua faixa etária poderia significar o fim da linha, ou alguém que resistia a um declínio mais triste.

    A qualidade de vida dependia mais do que nunca de uma segurança financeira insustentável para a maioria.

    Essa maioria se recusava a pensar.

    Eram os frangos felizes na caixa de nuggets.

    Então ele entrou no apartamento que eles dividiam na Rua da Glória, e a viu com a camiseta.

    Estava sentada no sofá assistindo youtube na TV.

    Mila Cox tem vinte e três anos.

    A vizinhança especula muito, mas ninguém sabia nada sobre eles.

    Zími achou a camiseta dela legal, mas nem sabia que Cox havia se inspirado em algo que ele havia comentado usando o frango para ilustrar a cena descrita.

    Zími sempre voltava da rua com o saco cheio. Vestia uma camiseta gasta do Husker Dü, e falou: “O inferno é acordar e perceber que o mundo ainda é o mesmo.”

    Ela respondeu: “Mas pelo menos algumas coisas loucas aconteceram num período curto de tempo. Temos uma banda chamada Crop Circles, e quando escolhemos esse nome, era impensável que Donald postasse aquela foto dele com o ET.”

    Zími entrou no banheiro, e olhou no espelho enquanto mijava.

    Ele sabe que a grandeza do homem consiste na sua decisão de ser mais forte que a condição humana.

    Sabia também que uma tumba mais fria e úmida que os quartos de pensão em que viveu até o ano anterior era o destino inevitável de todos.

    Mila Cox agora fazia café e Zími captou o aroma enquanto lavava  as mãos.

    Ambos desconfiavam que os dois são autistas, mas nunca falam do assunto.

    Preferem saborear silenciosamente a delícia de não serem o frango na caixa de nuggets.

  • O rouxinol

    O tio Argemiro gostava tanto de lendas, que tudo era pretexto para tirar uma do fundo do baú da memória, nem que fosse inventada – que a memória é assim, uma boceta de Pandora que tudo guarda, tudo inventa, tudo cria.

    Eis que numa tarde linda um beija-flor azul, tchibum!, mergulha de repente nas águas limpas de seus olhos.

    Não, não era um beija-flor, e não era azul; no remoinho da memória do tio Argemiro, o beija-flor tinha se transformado num rouxinol, com um canto doce como um sonho. Tinha uma cor que era a suma de todas as cores para o tio, um preto retinto, tão preto que brilhava no espelho d’água do pequeno lago do jardim.

    – Filomena! – disse o tio Argemiro, encantado.

    E não adianta insistir que Filomela era a princesa grega transformada num rouxinol para não ser sacrificada; ele teima, no seu encantamento, repetindo:

    – Filomena!

    E é como se a sua Filomena ressurgisse das cinzas do tempo nas asas de um pequeno beija-flor, que se transformava num rouxinol, fugindo num voo mágico das entranhas da terra onde estava sepultada há séculos.

    A escrava Filomena, que fora uma princesa na sua terra, sacrificada para que não se alastrasse a peste negra da varíola que os brancos trouxeram da Europa, voa nas asas do rouxinol, que os gregos chamaram de Filomela.

    – Filomena, o amor alado! – traduz a seu modo o tio Argemiro.

  • INSTANTÂNEO

    A velha de lenço preto na cabeça não se incomoda de ficar horas dando voltas na casa feita destroços. Era a sua casa. Tenta reconhecer, sem conseguir, a parede do quarto, onde era o banheiro, a sala em que fazia crochê, a cozinha que, nos fins de tarde, parecia um paraíso com cheiro de comida. Traz num dos braços um cobertor sujo de poeira e nas mãos duas colheres de pau — o que sobrou depois do bombardeio, depois da casa no chão. Ela fala sozinha enquanto rodeia os escombros, provavelmente dialogando com seus fantasmas. Ali ao lado dois cachorros mortos aguardam sepultamento e do ventre de cada um sai um fio de sangue que chega até perto da casa. Mas o que é isso? Não basta não existir mais casa, agora também o chão será encharcado de sangue?, pragueja ela.

    O fotógrafo pediu permissão para tirar um instantâneo, mas ela não deu atenção. Estava ausente. Só buscava alguma coisa, talvez buscasse nada. De vez em quando se abaixava para recolher algo do chão e em seguida continuava a rodear a casa e a dialogar com o silêncio.

    Ela e sua família já estavam com as malas prontas, mas não era para sair de férias. Iam para outro lugar, fugindo da guerra interminável. Partiriam como refugiados, gente de nenhuma parte, sem raiz, sem chão próprio, sem nação. Gente de segunda classe, ralé, estorvo para os países ricos. Na noite anterior, os aviões que voavam baixo sinalizavam o terror, e ela tinha ido até outro bairro buscar comida para a viagem. Na volta, encontrou os escombros. Estes, que agora ela e seus fantasmas circundam. Não sobrou nada, nem casa, nem família, nem malas, nem viagem. Só ela.

    Plasmar a alma daquela anciã com sua máquina de eternizar momentos: era isso que o fotógrafo pretendia, mas a incredulidade diante do inexplicável lhe fechava a garganta e o impedia de pensar. Estava mergulhado numa guerra que não era sua, mas era como se fosse, porque era contra toda a humanidade. Posicionou o equipamento diante do rosto da velha e captou um instante daquela miséria, apesar dos próprios olhos marejados.

  • Malhação 2003

    Leandro gostava de Kátia. Desde a quarta série. Já estava no fim do sexto ano. Leandro nunca teve coragem de cumprimentar Kátia.

    Kátia achava Leandro bonito. Achava Leandro e mais uns cinco ou seis da sexta série B bonitos. Sem contar as dezenas de garotos que deixavam Kátia com as maçãs do rosto bem firmes, quando passavam por ela sorrindo. Kátia era uma das muitas garotas cobiçadas do colégio.

    Leandro nunca soube que Kátia o achava bonito. Nem nunca imaginou essa possibilidade. Mesmo desejando tanto que isso fosse possível. Costumava acreditar em novelinhas da Malhação ou das 9 em que, no fim, o mocinho e a mocinha ficam juntos para sempre.

    O sinal toca. Último dia de aula. Kátia se despede de Larissa, Roseane, Aline, Mariane, Lucas, Daniel e Felipe. A uns três metros de distância, seus olhos castanhos e doces abraçam Leandro pela primeira e última vez.

    Naquele mesmo instante, Leandro aguardava ansiosamente o último capítulo da temporada de Malhação 2003.

  • Sunshine

    Fui surpreendido com a doença do Sunshine. Ele sempre foi tão esperto; um gato para além dos limites. Agitado, inquieto. Veja, já passou três dias fora de casa e apareceu como se não tivesse acontecido nada, magro, arranhado de briga etc. Fez aventuras de todos os tipos, como subir na minha antiga casa e pular de telhado em telhado até desaparecer no horizonte. Sunshine nunca foi um gato “normal”. Desde o primeiro dia que o vi, no grupo da cria da casa da minha cunhada, percebi que era diferente. Ele veio direto ao meu encontro, para brincar de subir pela minha camisa com suas pequenas unhas afiadas, até se aconchegar quietinho na minha cabeça. Depois, quando o levei para casa, para ser um guia a cuidar da minha depressão, ele me fazia esquecer a doença; pulava de armário em armário; subia ágil o projeto de guarda-roupa; tomava água corrente, apenas na pia. Vários costumes permaneceram. A excentricidade, por muito tempo, foi sua característica. Isso não quer dizer que não era carinhoso. Apesar de ser intrinsecamente individualista, gostava de deitar-se na cama e passar horas esparramado esperando carinho na barriga. Mas, infelizmente, ele ficou doente. Muito acabrunhado, ficava pelos cantos, diferente dos nossos outros gatos. Tenho um sentimento de culpa muito grande, porque não percebi que o problema poderia se agravar. Poucos dias se passaram, e Sunshine não conseguia urinar. Fazia mil posições, tentava urinar em locais mais confortáveis, mas o líquido não vinha. Levamos imediatamente a uma clínica veterinária. Na primeira consulta, a médica-veterinária parece ter passado um remédio paliativo, para dor, principalmente. Ele melhorou a disposição, já pulava pelos cantos. Mas um mês depois veio a queda de novo. Dessa vez, mais grave, expelindo sangue. Levamos imediatamente a outra clínica, da qual temos confiança, e a médica-veterinária foi mais prudente e o internou. Foram dias de aflição. Ele estava com cristais na bexiga (sabe-se lá o que é isso), um problema ligado à alimentação e à falta de consumo de água. Foram feitas lavagens com soro para tirar os tais cristais obstrutores. Até que, no terceiro dia de internação, segundo a médica-veterinária, ele teve uma parada cardiorrespiratória e não suportou os agravamentos. É importante falar do componente da idade, ele já tinha dez anos. É uma tortura a culpa, não queira saber. Poderia ter feito mais – e urgentemente. Poderia ter amado a ponto de não aceitar o seu abatimento. Sunshine, sim, foi um anjo, me curou milhares de vezes. Eu o amo como nunca. Ele era o meu melhor parceiro de escritas (sou escritor, e ele ficava ao meu lado velando o meu labor). A médica-veterinária disse que foi uma fatalidade inimaginada. Geralmente corre tudo bem. Ele não suportou uma sepse. Na verdade, não era deste mundo cão. Mas teve uma existência digna – e nisso que me fio para não cair em desgraça.

  • INSTANTÂNEOS

    No meio da rua um veio d’água, a luz amarela da madrugada, um homem capengando junto ao muro longo, o som da camisa fina raspando no chapisco de quando em quando. Incertos dias, estes. Em que não somos nem sombra do que pensávamos ser. O sorriso lacônico e de entrega, como se sorri diante da derrota concreta. Um ônibus para o sul, o último da noite. Depois dele, os espaços de silêncio se alongam, ouve-se coisas mínimas, ouve-se dentro, agora que o homem se vê parte do todo, todo o tempo ali, abafado por horas a fio pela insanidade do dia. E dói saber. Ver-se liso de disfarces, o espanto da nudez, os penduricalhos desta vida dita dinâmica arrastados para o sul e para o silêncio pelo último da noite. Ouve-se o coração bater. O som do vento, bravo e tortuoso por entre os labirintos de uma seringueira densa e antiga.

    No meio da rua, um risco brilhante de luz esticando para o sul. A boca entreaberta da não compreensão, ou da verdade que chegou de repente, ela que rondava por ali dentro há tempos, caindo agora, na hora do grande momento. Um garoto, descansando sobre a moto encostada, acendeu o cigarro e puxou um trago longo que se ouviu do outro lado da rua. E olhou a fumaça fundindo-se com a noite. O outro homem agachou-se e suas costas rasparam pelo chapisco até o chão. O garoto atravessou a rua e lhe entregou o resto do cigarro aceso. Nenhum julgamento, nem perguntas. Um instante, dos muitos por aí, depois que o último da noite some para o sul.

  • Satanásio

    O aluguel do mês estava pago, e quando isso é alcançado, Mila Cox e Zími têm piadas sobre o sonho da casa própria.

    Faziam piadas sobre como conseguiam pagar contas sendo copywriters, mesmo com a inteligência artificial devastando as oportunidades da área.

    Eles não tinham esse sonho.

    As incertezas que eles tinham eram as mesmas do resto da humanidade, nesse momento macabro da história.

    Zími olhava da janela para ver Satanásio, um vizinho desempregado vadiando na rua, gastando o dinheiro da feira com bebida, enquanto a esposa dele está na seis por um, como caixa no mercado, e com a gravidez avançada.

    Havia outro vizinho no prédio deles que era pastor. 

    Antes de saber disso, Mila Cox disse a ele: “A religião serve para  impedir o conhecimento, e promover o medo e a dependência. É uma forma grotesca de adestramento.”

    Eles estavam no elevador, e o sujeito a indagou sobre crença em deus, por conta da camiseta do Venom que ela vestia.

    Cox falou para Zími: “Agora só desço de escada, pra não encontrar aquele cara. Prédio é melhor pra mim do que uma casa, mas eu ainda não acostumei com esse tipo de chateação.”

    Zími falou: “Essa gente é polarizada nas bolhas tóxicas da direita e da esquerda, brigam por isso, mas ambos os grupos gostam de ser governados. Não há muito diálogo possível.”

    Cox falou: “É um tempo em que essa bizarrice pode ser varrida a qualquer momento, com destruição em massa. Donald está muito empenhado nisso.”

    Zími: “Vai ter show do Redd Kross aqui perto, em breve.”

    Cox: “Sim, no Cine Jóia. Nosso bairro é bom.”

    Ficaram atualizando notícias de geopolítica, torcendo para dar merda logo.

    Sabiam que independente de qualquer coisa, não haverá recompensa celestial depois da extinção.

  • Queda livre

    Resolveu descer do elevador no vigésimo nono. A conversa mole do Severino, o ascensorista, o incomodava. Não estava com paciência para ouvir suas reclamações sobre a incompetência do governo e o mau desempenho do time do coração na partida da véspera. Preferiu seguir a pé até o último andar do prédio onde trabalhava. Era, além do mais, uma chance de fazer um pouco de exercício. Não que isso pudesse fazer alguma diferença naquele momento. Meio-dia em ponto, horário de almoço. Inverno, temperatura mais baixa do que o habitual, ventinho cortante, chegou ao terraço praticamente sem transpirar, apesar da jaqueta de lã batida que vestia. Fosse verão, a situação teria sido diferente. Este representava para ele um período de incômodo e desconforto. Suava demais no verão… A mãe e o terapeuta diziam que não era só em função do calor. Era principalmente por causa da ansiedade. Naquele instante, contudo, estava contente, orgulhoso de si mesmo e calmo, surpreendentemente calmo. Finalmente iria colocar em prática o plano há muito concebido. Sabia que agora não haveria recuo, que não faria o movimento contrário de descer as escadas. Era uma pessoa assim, relutante até tomar uma decisão. Depois que isso acontecia, porém, não voltava atrás. Com passos firmes, foi se encaminhando ao parapeito. Um pássaro de penas cinzentas voou para longe emitindo um som estridente ao sentir sua aproximação. Ele esticou o pescoço e olhou para baixo. Os carros minúsculos o fizeram lembrar a coleção de carrinhos de ferro da infância. Por falar nisso, onde estaria ela? Com um discreto movimento de cabeça, afastou essa lembrança inútil e subiu no parapeito. Abriu os braços à la Leonardo di Caprio em Titanic. Senhor do mundo também, por que não? Do seu mundo, pelo menos. Do seu mundinho, seria melhor dizer. Pequeno, insignificante, solitário, dispensável; enfim, o que lhe fora possível construir. Se as coisas não tivessem acontecido dessa forma, não estaria ali, vislumbrando o panorama do alto, prestes a realizar o que… Bem, prestes a realizar um ato tão definitivo. A vida, com frequência, não é justa, muito menos simples. Nem tudo depende de esforço individual. Foi esse o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça assim que se lançou lá de cima. Numa sucessão rápida, outros pensamentos foram aflorando. Indivíduo reflexivo, seguiria dessa maneira até o fim. Apesar de já estar próximo dos quarenta, não havia conseguido conquistar nada de importante: não tinha casa (vivia de aluguel num quarto e sala de um bairro decadente), carro (dependia de ônibus e metrô; táxi, nunca), relacionamentos sólidos (nunca os teve), prestígio (mais de uma vez, no ambiente de trabalho, roubaram-lhe boas ideias). O emprego atual, assim como todos os anteriores, era medíocre, bem abaixo de suas qualificações, o que o obrigava a ainda contar com a ajuda dos pais para as despesas básicas. Na altura do trigésimo segundo andar, não conseguiu evitar um leve sorriso (tudo nele era meio contido) ao pensar que se livraria definitivamente da convivência com a chefe gorda, incompetente, de voz anasalada e monótona, mulher desagradável que tinha prazer em diminuí-lo, desqualificá-lo ou apenas ignorá-lo. Como ela havia conseguido aquele posto é algo que nunca pôde entender. Vigésimo nono andar, pensou nos pais. Certamente seria uma surpresa para eles. Uma tristeza também. Mas, afinal de contas, a vida de todos é feita de surpresas e tristezas, não é mesmo? Com o tempo, tudo voltaria ao normal. O tempo cura tudo, vivem repetindo por aí. A mãe, mulher forte, esclarecida e religiosa, acabaria por compreender as razões do filho único. Será que se sentiria culpada? Talvez, não sabia dizer com segurança. Não tinha resposta para muitas perguntas, estava consciente de suas limitações. Vigésimo terceiro andar: e a pilha de livros à espera de leitura na estante do quarto? Alguns pareciam tão interessantes. Queria tanto ter tido a chance de folhear suas páginas, de fazer anotações nas margens e de sublinhar com o lápis as passagens mais significativas. Poderia ter aprendido coisas. Poderia ter se transformado num ser humano mais forte, mais preparada para as adversidades da vida. A literatura também serve para isso, ora bolas! Vigésimo andar: não teria sido melhor um método mais fácil (comprimidos, por exemplo; o terapeuta poderia tê-lo auxiliado, sem saber de nada, é claro). Décimo sexto andar: não tinha deixado bilhete dirigido aos parentes (muito clichê, a originalidade era para ele uma meta). Décimo primeiro andar: nunca chegaria a conhecer Mariana ao vivo. Já se falavam pela internet havia quase um ano. Como o tempo passa rápido! Ela parecia compreendê-lo tão bem. Existia empatia entre eles, sem dúvida. Pena que o relacionamento houvesse ficado confinado ao âmbito virtual. Será que ela tomaria conhecimento do fato? Será que leria a respeito em algum jornal? Talvez assistisse à reportagem de algum programa sensacionalista da TV, desses que se alimentam da dor e do sangue alheios a pretexto de mostrar a “realidade da vida”, “o mundo como ele é, sem retoques ou maquiagens”. Exploração da miséria humana, isso sim. Sétimo andar: tratamento dentário inacabado, quem se importa? Para sempre livre daquele motor irritante, daquele barulho desagradável, anestesias, brocas, para sempre livre do desprazer de ser torturado e ainda pagar por isso. Terceiro andar: jamais visitaria Florença, a cidade às margens do Arno, cenário de um filme visto na TV. O curso de italiano que vinha frequentando nos últimos anos não serviria para nada. Havia feito tantos progressos… Era, sem dúvida, o melhor aluno da turma. Recebia vários elogios da professora. Pelo menos ali ele se destacava. Ma la vita non è sempre bella. Segundo andar: não teria a oportunidade de pedir perdão a Viviane, sua meia-irmã, filha de seu pai, concebida num momento de crise no casamento oficial. Tomou as dores da mãe e disse palavras terríveis à menina. Na ocasião, até ele se surpreendeu com a própria capacidade de ferir e de magoar. Hoje pensava diferente, que culpa tinha ela? Deveriam ter convivido mais, poderiam ter sido mais próximos. Poderiam… Solo: poça de sangue, dor intensa no corpo todo, justiça, esforço individual, chefe gorda e intolerante, gritos dos passantes, bilhete de despedida, parapeito, carrinhos de ferro, desespero dos transeuntes, voz anasalada e monótona, ler, livros, leitura, pessoa melhor, Mariana, Viviane, Leonardo di Caprio, Titanic, Florença, dolore, surpresas e tristezas, suor, ansiedade, inverno, inferno, internet, terapia, terapeuta, comprimidos, dentista, aluno, professora, paura, sorpresa, surpre e triste, surp e trist, sur e tri, su e tr, s e t…

  • A segunda morte de Lázaro

    Quando estava para morrer a sua segunda e definitiva morte, Lázaro teve uma visão. Uma mulher morena apareceu na porta de sua casa. Mal a viu, ela desapareceu.

    Lázaro sentou-se na cama, sentiu nos pés o eco dos mortos, como um tambor muito longe. Depois que voltou do Xeol, costuma ouvir os mortos. Trouxe-os na cabeça, no peito, na alma. Encosta a mão na parede, apoiando-se, e sente a presença dos mortos. Anda cambaleando, e pensa se já não é um morto. Aliás, esse pensamento nunca o abandonou. Quando você desce ao reino dos mortos, é para sempre. Como Lázaro voltou, trouxe os mortos com ele. E seguramente ele já é um morto.

    “Avô!” Uma jovem lhe estende um prato de frutas. Ampara-o com a outra mão e o conduz a uma cadeira. “Sara”, diz o avô e lhe passa a mão pelos cabelos, olhando-a com os olhos baços. “Sara, você viu a mulher que estava aqui?” A menina não tinha visto ninguém. Estranhou a pergunta. Viviam poucas pessoas na pequena cidade, todos se conheciam, nenhum desconhecido costumava aparecer por ali. Era um lugar entre o deserto e o mar. Havia ainda a montanha. Era um lugar de grande beleza, se você olhasse bem. Mas você não olhava bem: tinha o peito opresso pela solidão.

    Lázaro amava a solidão. Montara ali a sua tenda para usufruir da solidão. Depois construíra uma casa, e uma família para habitar aquela casa. Mas todos já tinham morrido. Restara ele com a sua solidão. Sim, havia os netos. Várias vezes por dia vinha um neto trazer-lhe comida, ver se ele estava vivo. Lázaro era um monumento. Todos queriam que ele contasse o que tinha visto no reino dos mortos. Como se calasse, dizendo que estava dormindo e não vira nada, cansaram-se de perguntar. Mas contemplavam-no como a um monumento. Era o marco de um outro mundo.

    Quanto mais o tempo passava, mais Lázaro se distanciava das pessoas. Na realidade, todos que o conheceram quando jovem, antes de sua partida para o Xeol, tinham morrido. Lázaro sobrevivia a si mesmo. Tocava-se: seria ele mesmo? A sua pele era cinza e quebradiça, como se fosse desfazer-se. Não estaria morto? Não, ele não alcançara a graça de morrer. Passou por essa experiência uma vez, para voltar como um estranho entre os homens. Atormentado por essas ideias, adormeceu. Sara cobriu-o e retirou-se. O avô parecia um morto.

    Quando acordou, a mulher morena estava na porta outra vez. Tinha o mesmo ar estrangeiro de antes, mas sorria. Tinha a areia do deserto na pele dura, mas sorria com doçura. Lázaro levantou-se e caminhou em direção à mulher, dando-lhe as boas-vindas. Mas ela novamente desapareceu. Era como se sumisse no ar. Como uma bolha de ar que se apagasse. Lázaro admirava-se: a mulher era tão real, era mais real do que ele. Como poderia ter se evaporado assim?

    Caminhou até a porta, sentindo nos pés os mortos que não o abandonavam jamais. Era como um eco, prolongando-se em espirais infindáveis, cada vez mais distantes e cada vez mais próximas. “Avô!” Agora era Judith que o amparava. “Os mortos já morreram, avô.” Ele admirava-se da sabedoria da menina, mas continuava sentindo a presença dos mortos. Os mortos nunca morrem de todo, ele pensa. Judith caminha alguns passos com o avô. Mostra-lhe o mar, as ondas calmas e misteriosas, os pescadores preparando-se para partir. Ele também precisa partir, Lázaro pensa.

    Senta-se num banco de pedra e fica olhando a água azul, algumas nuvens, algumas aves. Aos poucos uma sensação de nostalgia apodera-se dele. Aliás, dia e noite ele sente nostalgia. Do passado, simplesmente? Do outro mundo? Lázaro nem sabe de quê. O dia passa como uma modorra sem fim. Lázaro distinguiu o significado da vida quando distinguiu o significado da morte. Só não sabe as palavras para dizer. Tudo que conhece é a música que vem do fundo da terra.

    Dias depois acordou de um torpor. Era como se flutuasse no espaço. Lázaro tornara-se uma luz, um corpo de ar flutuando na luz. Fez força para abrir os olhos. Precisava ver a realidade, tocar as coisas com as mãos e com os pés. Precisava ter certeza de que existia. Lázaro fez força para levantar-se. Queria ver a mulher morena na porta de sua casa, precisava sentir a sensualidade da pele morena da mulher no seu corpo.

    Quando percebeu a mulher estava ao seu lado, um corpo contra o outro, acariciando-se, excitando-se. A mulher beijou-o na face, nos lábios, na língua. Lázaro sentiu-se rejuvenescer. Estava na sua força de homem, um frêmito corria-lhe pelo corpo, sob a pele, no sangue, nos músculos. Os dedos da mulher lhe acariciavam o peito, a barriga, o membro. Quando percebeu, a mulher estava sobre o seu corpo, o seu membro intumescido dentro do corpo da mulher, ela o possuía, ele a possuía. Estava cada vez mais dentro dela, os seus corpos se completavam, num êxtase.

    Lázaro quis gritar, mas estava sem voz. Quis tocar o corpo da mulher, mas ela já não estava ali. Quis dizer-lhe o nome, mas não sabia e nem tinha mais voz para falar. Lázaro nem percebeu que já não existia.

    Jesus e Ana encontraram-no com os olhos abertos e um sorriso nos lábios. Estava feliz como nunca em sua vida.

    Ana disse: “Adeus, avô.” E Jesus fechou os olhos do avô, enfim liberto.

  • As uvas

    A cortina se abre. No palco, um homem come uvas. O público aguarda. A publicidade anunciou que era a melhor peça da temporada teatral da cidade. O homem chupa uvas. Os críticos elogiaram a engenhosidade do diretor, a sutileza da atuação, a trama tão bem engendrada. O homem mastiga uvas. “Impressionante!”, publicaram os jornais, revistas e sites da internet. “Ação sem limites, com ritmo e intensidade”, declarou a seção de teatro do Jornal da Manhã, logo após a noite de estreia. O homem termina de chupar as uvas, restando apenas uma. Ao levá-la à boca, a uva reage. Em saltos frenéticos, atinge o homem no rosto, na virilha, na nuca. Voa para longe, estanca para tomar impulso e, com a velocidade de um raio, dispara na direção do ator e perfura o seu crânio entrando pelo olho direito. Silêncio. O público reage, levanta-se e aplaude freneticamente. Cai o pano. Da uva rebelde nunca mais se ouviu falar.

  • Noites sem fim

    Estou desde às 23h30min acordado. Dormi praticamente duas horas. Já são 4h30min, e nem um sinal de sono. Esboço bocejos ritmados, como se meu corpo fosse se render. Vejo meu filho e minha esposa dormindo plenamente e eu reflito sobre a beleza e a aflição. Logo mais irei ao trabalho, às 7h. Como todos os dias, receberei reprimendas do patrão, que nunca está satisfeito com o trabalho – e ter de suportar isso com insônia é a pior das dores. Aliás, penso que a insônia é uma combinação, desta vez, com os esporros que levei e a saúde desregulada. O Dr. Josias não tem apreço pelo bem-estar da sua equipe. Não trabalha como os novos advogados, que, na sua maioria, prezam pela saúde mental. Estamos cheios de colegas com depressão, burnout e ansiedade. É o maior sacrifício para que ele conceda férias. Gianini está há mais de um ano sem tirar, e o pior, ela vai vender parte das férias agora, para, depois, passar alguns dias em casa. Tudo isso só me complica, porque vira uma bola de neve. À medida que deixo de dormir, penso que o organismo se acostuma. Só me lembro, nessas horas, do desespero de meu pai, doente de câncer, por não ter conseguido dormir durante a noite. Quantas ele passou em claro… Chorava ao perceber que o sol nascia e não tinha dormido nada. Estou no mesmo caminho. Já tomei melatonina e relaxante muscular, e nada. São pelo menos três noites seguidas de insônia; desta vez, porém, nem mesmo conseguir pregar os olhos por uns instantes. O dia não rende. Você pode ser, inadvertidamente, um sujeito mal-educado e ranzinza. Peço desculpas quando um fato assim acontece. Ontem mesmo, ao dormir cerca de três horas à noite, fui ríspido com um colega que queria tirar uma dúvida processual. Logo me arrependi profundamente e pedi-lhe desculpas, colocando a culpa na falta de sono – só não sei se surtiu efeito. Agora, no tempo em que escrevo, já se passou meia hora. Devo estar em pé já, já, e disposto, às 6h30min. Meu filho vai demandar a minha atenção, como todos os dias o faz pela manhã: “Papai, me ajuda nisso ou naquilo!”. Tenho de preparar a sua farda, a lancheira e a mochila, para que ele, sim, passe um dia ameno e sem percalços. Minha esposa acordará em cima da hora de ir para o trabalho, com a desculpa de ter dormido mal – quando percebo que ronca ao meu lado. Nesse momento, penso na existência, nas possibilidades de mudança, de como poderia ter uma vida mais tranquila e sem preocupações exageradas. Além do mais, sei que viver assim é não viver. É passar pela vida, simplesmente. Meu organismo não desliga. Não paro de pensar, a mente é inquieta, desde a juventude. Dormir, então, está fora de cogitação. Quando o faço, por descuido, é como o céu que se abre para eu deitar, solene, absoluto. O sono é uma espécie de nuvem fugaz. Há uma maneira de agarrá-la? Quero, ainda, quando puder, me derramar na minha rede e dormir sem fim.

  • Carona

    O cara entrou, bateu a porta e começou. Disse que tinha deixado todos os filhos em casa, um deles, o mais novo tinha morrido dois dias antes, a mulher tinha mudado pra casa da irmã mais velha, tinha ido buscar alguma força pra suportar todo o resto que ainda viria pela frente. Que ela era uma boa mulher, que ele tinha tirado de um grande amigo seu, traição não foi, ele acha, o amigo tratava a mulher muito mal, mulher que nem ela merecia ser bem amada por um homem que nem ele, era morena ele disse, quase mulata, melhor que a outra que ele tinha antes dela, branca que nem leite, aguada de idéias, que deixou ele por causa de um vendeiro da fazenda, matou o sujeito dias depois numa tocaia, e enterrou o corpo embaixo de uma parte esquecida da casa, aquelas casas morrem com o tempo, disse, ninguém mais mexe nelas, vai passando de um pra um até que tudo se acaba. Disse que vai buscar a mulher, deixou comida para os filhos até a noite, um deles vai pra escola, atravessa doze quilômetros até chegar lá, então tem fome, que nem os outros que ficam trabalhando na roça das fazendas vizinhas, agora é tempo de colheita de café, bom de aproveitar porque paga meio ano, o outro meio fica no vazio, não adianta encher a cidade de mais gente, então ficam. Diz que está velho, mas ainda forte, que a vida lhe fez calos no lombo, andou por todo canto deste mundo desde pequeno, sem parada, sempre buscando alguma coisa, mas não sabia dizer o que era, que decerto Deus era que tinha posto aquela sina de andar. Diz que gostava de estrada, do jeito que elas vão esticando pra longe, que pode sempre ter algum outro mundo do lado de lá na outra ponta, que acha triste viver sem saber onde vai dar esse ou outro caminho qualquer. Diz que um dia vai sumir por algum outro lugar, no dia que alguma coisa mudar sua vida de uma hora pra outra, que isto pode bem acontecer, aconteceu com ele muito antes, teve quatro esposas antes da mulata e da branquinha, filhos com quase todas elas, pode ser que alguém deixado lá atrás um dia apareça pra acertar as contas. Chacoalha a cabeça espantando alguma coisa, um instante de silêncio e retoma. Diz que o mundo mudou demais desde que era moço, que apareceu uma coisa que ele não sabia que existia, que era o medo de ficar sozinho, solidão já tinha visto nos outros, no jeito de olhar do seu pai, da última vez que pode encontrar com ele, vinte anos antes, quando o pai olhou pra ele da cama do quarto, sozinho, esperando a morte chegar dali há pouco. Que não sabia que palavra era essa até há pouquinho, quando o mundo cresceu de repente numa hora que ele parou pra olhar o vazio em volta, numa tarde de nuvens de chuva e distância limpa, o mundo quieto. Ele diz que deve ser este o sinal, que a hora que a gente ouve desde pequeno vai chegando, que a gente nunca acredita que um dia ela vem, que vai dando uma vontade de voltar pra trás, de fazer meia volta em certos caminhos por outro lado, pra banda deixada naquele tempo em que teve que escolher uma ou outra estrada, assim é que é a vida, uma fica na frente dos pés vazando pra longe, a outra vai viver nos pés de outro que escolher seguir por ela.

    Ele bate a porta e desce num lugar onde não existia nada. Vazio geral ao redor da estrada. E ficou lá esperando, desintegrando-se aos poucos no retrovisor.

  • Amigos

    Saí de casa por volta das 8 e meia da manhã como fazia todas as segundas, quartas e sextas, andei alguns passos e cheguei à praça. O jogo ainda não havia começado. Arnaldo, Alfredo e Ranulfo já estavam lá conversando sobre a vida alheia, um esporte praticado com afinco na nossa cidade. Aquelas reuniões com os amigos de uma vida inteira ainda eram bastante agradáveis, apesar de o carteado ter perdido um pouco da graça desde que deixamos de jogar valendo dinheiro. Foi o Alcindo, que morreu de tristeza quatro meses atrás, quem sugeriu. Essa grana faz falta pros nossos remédios, argumentou com certa razão. Afinal, somos todos aposentados e clientes preferenciais do Antônio Careca, o dono da única farmácia da região. Digo que o Alcindo morreu de tristeza porque pra ele foi um choque tremendo quando a Arlete teve um ataque cardíaco fatal enquanto via o último capítulo da novela. Convivência de 61 anos — 63 se considerarmos também o período de namoro e noivado — definitivamente não é pra qualquer um. É tempo demais vivendo junto, o que torna a coisa sempre dolorosa quando termina. Se não é pelo amor propriamente dito, é pelo hábito. Claro, costume e preguiça também são capazes de manter muito casamento por aí, mesmo nos dias hoje, marcados por tanto progresso e emancipação feminina. O fato é que exatamente 19 dias depois do enterro da patroa, coube ao Alcindo fazer a passagem, como costuma dizer o Arnaldo, frequentador convicto do centro espírita do bairro onde moramos.

    — Sempre o último a chegar, hein, Hildebrando — falou Arnaldo assim que me viu.

    — É o trânsito — tentei ser engraçado.

    — Pois eu estava só esperando você aparecer pra dar uma notícia importante pros três — prosseguiu ele.

    — Notícia? Que mistério é esse? Fala logo, homem! — impacientou-se Alfredo, o mais agitado do grupo.

    — Ontem eu estive lá no centro…

    — Xiiii, aí vem coisa — interrompeu Ranulfo.

    — … e a dona Isaura psicografou uma mensagem do Alcindo — informou enquanto tirava um papel do bolso.

    — Como é que é? O Alcindo baixou no centro ontem? — perguntei ainda sem compreender direito o que se passava.

    — E pra quem é a mensagem?

    — Pra nós quatro, Ranulfo. Pra mim, pra você, pro Hildebrando e pro Alfredo.

    — E o que ele diz? Vai nos contar ou não? Pra que tanto suspense?

    — Calma, Hildebrando. O troço tá meio em código, linguagem telegráfica, sei lá. Mas, pelo que entendi, acho que houve um erro.

    — Erro, que espécie de erro?

    — Parece que a hora do Alcindo ainda não tinha chegado, Alfredo. Tá escrito aqui, deixa eu ver… “mais cedo que o programado… era a vez de um amigo… amigo da praça e das cartas… falha no controle… a melancolia ia passar… Arlete ainda não tava pronta pra me receber…”. Resumindo: um de nós quatro é que devia ter morrido.

    — Quem? — os três, quase ao mesmo tempo.

    — Não dá pra saber, mas o fim da mensagem deixa claro que o pessoal lá de cima está disposto a corrigir essa falha de alguma maneira.

    — Ressuscitando o Alcindo? — indaguei.

    — Não, isso não se pode fazer. Eles pretendem vir buscar o sujeito certo.

    — Quando? — continuei.

    — Pelo que diz aqui “antes que o oito vire nove”, ou seja, antes que agosto termine.

    — Hoje é dia 25 — anunciei consultando meu relógio de pulso.

    — E agosto tem 30 ou 31? — quis saber Alfredo, ao mesmo tempo que, mais trêmulo do que o habitual, tentava obter a resposta fazendo o teste no dorso da mão.

    — Calma, Alfredo, tá achando que você vai ser o premiado? — provocou Arnaldo.

    Naquele dia, não houve jogo. Cabisbaixos e pensativos, fomos tomando o rumo de casa. Em frente ao portão, ouvi os latidos do Max vindos do lado de dentro. Meti a chave na fechadura com certa dificuldade. Antes de entrar, ainda olhei pra trás e pude ver, na praça, nossa mesa habitual deserta. Aliás, contrariando o costume, a praça inteira se encontrava completamente vazia naquele momento.

    ***

    Bem, o 11 já virou 12, e hoje é véspera de Natal. Nós quatro continuamos vivos e resolvemos celebrar a data aqui em casa. A dona Isaura não dá mais expediente no centro. Há três meses foi internada numa clínica psiquiátrica de uma cidade vizinha à nossa, e, infelizmente, o caso é grave. São quase 9 horas, e eles devem estar chegando. Pelo menos hoje não vou ter de ouvir o Arnaldo dizer que estou sempre atrasado. Nosso amigo ausente não mandou mais notícias, e nunca mais tocamos no assunto. É bem provável, porém, que, na hora da ceia, a gente faça um brinde em homenagem ao Alcindo.

  • A Caruta

    A velha Caruta acordou sobressaltada. Um desassossego lhe correu pela espinha, um arrepio de premonição de desgraças. Esfregou os olhos lambuzados de sono, destrancou a janela, abriu meia folha, xingando o gemido nos gonzos, e espiou o dia.

    Lusco-fusco, brisa morna, como se soprada pela lua sufocada no entremeio das gameleiras, obra de dez braças dali. Parava no escuro, pesava. Isso não era bom sinal.

    Não sabia o quê, mas o peito oprimido, carregado – sentiu o coração estremecer. Lembrou-se do sonho de uns momentos antes: que estava morta – branca, fria, espremida num cantinho da cova, sobre umas folhas de taioba, como uma quarta de geleia, se desfazendo, se desfazendo.

    Gelou: e se não era, num aviso, mais que um aviso? Não seria que estava morta e ninguém sabia? Apalpa-se. Não representava que estivesse mais morta que sempre. Tinha cruzado a cumeeira da velhice, antiga de não se lembrar mais. Era um pouco morta, era, de verdade.

    Sacudiu a esquisitice de cima dos ombros. A velhice era um castigo de que não tinha salvação. Escancarou a janela e, arrastando as chinelas, virou para a porta da cozinha.

    Mal distinguia o vulto do dia. Deu dois passos no terreiro e estacou. Bem que não estava assim atrapalhada à toa: o mundo amanhecera diferente demais. Onde a estripulia do amanhecer, esse estrupício de todo santo dia?

    O silêncio reinando – como não pusera reparo nessa reinação estranha? Mas que era? Meu Nosso Senhor! Onde a passarinhada dos diabos? Pôs sentido nas coisas, estudou as redondezas.

    Quietude. Divulgava a cerca, as árvores, os cornos da serra, os beiços do bambual. E a quietude. Bicho nenhum. Seria que só ela de vivalma nesse fim de mundo? A Caruta começou a se enfezar. Embrulhada com o que não existia, gente! O silêncio, onde se viu? O mundo mais quieto que a morte.

    Que é isso, minha Santa Luzia! Enfiou os dedos nos vãos dos olhos, jogou a remela na poça d’água. A água barrenta se esguedelhou num remelexo. Estou viva, se disse a Caruta.

    Esgaravatou os ouvidos com os dedos nodosos. Não fosse esse silêncio! Um despropósito. Chamou: Dourado! Palerma! Chumbado! Boca-Preta! A cachorrada estava metida nalguma biboca perdida. Cachorrada sem préstimo, o diabo se serviu,
    comeu.

    A Caruta juntou nas conchas das mãos um punhado de quirera, semeou no tempo. As pombas? Nenhuma. As galinhas? Os bichinhos na disputa, nas pinicadas, brigando para encher o papo? Tudo deserto.

    Já não ouvira o galo, fugido da obrigação – acender a manhã. Estranhice. Será que eu estou morta e não sei? E morto sabe da morte? O mundo despovoado. Não posso eu sozinha ser o povo deste mundão. Sozinha e Deus! O Diabo não.

    Sozinha – e se eu for só um punhado de pó e eu nem sei? Creio em Deus Padre! E se benze, a Caruta. Será que ela está morta? Não é dada a essas pensamentações. Umas cismas trançadas.

    Mais um argumento: Só se estiver morta! Já vivi tudo quanto tinha para viver, gente! Pensava e pensava. Trançava as suas cismas. Devagar. O dia amanhecia de repente, atordoado, mais morto do que vivo. A Caruta atolou as canelas na lama do mangueirão. Onde o diabo dessas vacas? As amaldiçoadas das porcas?

    Sentou num tronco podre, os cotovelos ossudos nos joelhos, segurou os queixos com as mãos. Pois é, pois é! Sim, senhor! Não pode ser, mas é. Estou morta, mortinha que nem este pau, que já vai se decompondo.

    Apalpou os bolsos do vestido, achou o pito, remexeu o fumo, bateu o isqueiro. Tudo muito meticulosamente. E chupou, chupou fundo. Morto não pita? Ela se ri: Não pitava!

    Relanceou os olhos na casa, o paiol, a tulha, uma plantação deste lado, uma capoeira, depois o mato grosso na beira do morro. Tudo como sempre. Mas o silêncio. Que silêncio! Só se ouve o vento resmungar, inda que a contragosto, irritado, descompassado.

    A velha soltou um suspiro fundo. Pois é, nenhum sintoma de vida, em lugar nenhum. Observou o horizonte, e voltou às pressas para casa, chegou, deu um tranco na porta emperrada, na frente, e ficou zanzando na sala.

    Regular bem eu regulo. Louca não estou. Só se eu virei o morro, saí de fininho da vida no sono, no sonho. Ainda bem que eu não me desesperei de nervosa, tanta bobagem para escarafunchar na cabeça. Ainda bem que eu virei o morro sem perceber, como quem sacode o pó da estrada para retomar a caminhada. A estrada da vida não tem fim, continua até depois do sonho.

    Cismou e cismou. Nada mais a fazer. A vida se acabou, pronto. Valeu a pena? Isso não lhe competia. Arrazoar de Deus ou do Diabo. Estranhava o mundo deserto, isso era. Mas devia estar acostumada: a vida na Tapera da Onça sempre fora um deserto só. Quem se esquecera da vida numa furna como aquela, decerto que desertara do mundo.

    Mas, e os bichos? Não faz sentido um mundo sem bichos. Tinha só duas vacas, duas porcas e a cachorrada. Mas, e a passarinhada? Tinha uma égua que era só pereba, pele e osso. Onde a Gateada? Para onde fugiu o mundo todo?

    Só se o mundo acabou. Ora veja! Não era ela também uma mulher perdida no mundo? Deu com aquele buraco, ali se hospedou para o resto da vida. O Quim da Tapera botava nela os olhos sonsos, não dizia nada. Nem precisava. Foram se cheirando, como dois bichos. Quer ficar? Fique. Daqui não tem mais além – teria dito? Há muito tempo, sem conta.

    Muito antigamente a Caruta ganhou as estradas da vida, ave sem pouso, até pousar no estrado de varas do Quim da Onça, o Quim que um dia uma onça comeu.

    Enterrou o homem, os restos, no pé de um jequitibá. A onça, sapecou fogo na bicha, o cano grosso da espingarda goela a dentro. Ela se lembra. Coisas que pareciam ter acontecido há um século.

    Agora estava morta, embora desenterrada, oras. Mas quem iria enterrá-la? Ali ninguém aparecia, nunca, jamais. Morta, ufa! Já cansara de se dizer morta, em cima das pernas, pererecando entre as taipas.

    Destapou os caldeirões no fogão. Encostar o estômago? Que nada! Nunca fora de muito comer. E morto lá come? Arre! Isso de morto virou uma ideia fixa! Mas, se eu estou morta? Se não tem vivalma neste fim do mundo – por que eu?

    Olhou o picumã nos caibros da cozinha, que nem morceguinhos dependurados. Se ao menos houvesse morcegos! Só se isto for o purgatório, Deus e o Diabo disputando a minha carcaça.

    Mas ninguém se conforma com a própria morte. A Caruta deliberou tirar a limpo o acontecido, que só parecia doidice. Como? Não sabia. Desinventar a morte! Dependurou a espingarda, socou com raiva a pólvora e o chumbo, tomou o rumo do mato, desembestada. Uma plantação abandonada. O sujo da mataria escorada na serra.

    Gozado: quietude demais, como se fosse uma fantasia. Onde os veadinhos? Os macacos nos galhos que nem uns diabinhos pretos? A passarinhada? Santo Deus! É um silêncio dos infernos!

    Pegou numa trilha funda, alcançou o Ribeirão da Capivara, subiu a ribanceira à cata de vau. As águas claras gorgolejando num verde cheiroso. Peixe nenhum. Mosquito nenhum. Sozinha só. Nenhum bicho no mundo. Nem ela. A Caruta abre bem as pernas, para se equilibrar melhor, arregaça o vestido, para dentro d’água. Deus louvado! Apoia a espingarda no ombro, aponta para o alto, aperta o gatilho. Um estrondo trovejando, ecoando a solidão.

    Depois, nada. Barulho nenhum. Só as folhas bolem, caem. Passarinhos voando assustados? Nada. Bicho fugindo? Bulha nenhuma. Escorou a coronha numa pedra, despejou o polvarinho na boca enorme, socou, e atirou de novo. Como um trovão. Será?

    Quase nem se ouviu o eco do tiro. A velha desanimou.

    Voltou para casa às pressas. Virgem! E grunhiu, num riso destrambelhado. Não foi nada, não, só o mundo que acabou. Gingou o corpo para trás, rápido para casa. Que teimosia, gente! Morri, está bem. Vou resguardar o meu cadáver na minha cova. A par do finado, a cova aberta há quantos anos! Pegou com raiva o facão dependurado do ombro esquerdo e, no caminho, cortou umas folhas de taioba. Tal e qual no sonho, bem forradinho o leito da última jornada.

    Deitou o corpo no buraco, revirou-se, esperou. Não se sentia cômoda. Diacho. Não estava à espreita da morte, mas já mortinha bem morrida. Tinha que arejar a mente. Não tem cabimento tanta preocupação, lembrando os problemas da vida.

    Bem que gostaria do Palerma ali na cabeceira. Cachorro inteligente, sempre jurara que o bicho iria assistir a sua morte, se afogar na tristeza, ganir a dor do peito e, desalentado, se acabar junto dela. Peste! Tudo era uma peste, tudo tinha sumido. Por que o diacho da peste desse cachorro tinha que sumir também? Culpa dela, que partira sem aviso. Esquisitice. Morrer na sequela do sonho, sem nem reparar.

    Bom. Agora é se despedir de quanta bobagem se imagina. Imaginando as coisas da vida em cima de nada, oras! Quem diria que isto é o outro lado da vida? Tudo que é vivente se esfarinha no tempo – só resta você, alforje de nada?

    Morrer, o mundo deixar de existir? Só você de bicho. E não tem sentido chorar a miséria, você já era. Ah Caruta, sossega! Que esfrega, a vida! Essa cama não é de empréstimo, é para todo o sempre. E não cansa? Todo o sempre é tempo demais. Mexe e remexe na cova. Incomodada como o diabo. Esta casca de ossos é velha demais, não tem posição que aguente.

    Ela se encolhe, se põe de cócoras. Uma coisa fazia falta: o pito. Faz mal morto pitar? Amansa as iscas de fumo na cunha das mãos, enche bem cheio o cachimbo. E pita com gosto. Chupa no canudo com sofreguidão – e, a cada chupada, a cara mais chupadinha. A pele esticada, lisa, lisinha – parece pele de rã, rãzinha. Serenada, a Caruta cachimbava. De longe se distinguia a fumacinha se suspendendo da cova, bamboleando no ar.

    A Caruta morreu entanguidinha no resvalo da cova – uma geleia de carniça, comidinha dos urubus. Bichos do demo! Ao pé da velha, uma pelanca podre, uns ossinhos, decerto de cachorro – decerto o Palerma, vindo arrefecer seus dias junto da dona. Decerto um urubu lhe bicava o olho, outro urubu sugava o olho da Caruta.

    Vejam! Na caveirinha, os dentes cravados no canudo do pito – a Caruta fungou o derradeiro respiro no oco do pito. O canudo encravado na boca, não sai não. Nem o demônio preto do urubu roubou.

  • À Semelhança

    O mundo carecia de uma criatura que pudesse consolar a todos. Então os homens e as mulheres criaram Deus. Quer o tenham concebido pensando em seus sonhos mais queridos ou, ao contrário, moldado-o a partir do barro da natureza, o fato é que Deus surgiu aos olhos de todos com forma humana. A empatia foi imediata e assim o mundo ficou completo: agora havia um Deus.

    O tempo passou, a vida seguiu, o mundo se transformou, o cotidiano se instalou, a percepção das coisas se acomodou. Os animais, com a cabeça baixa, sempre olhavam para o chão. Os homens e as mulheres, com a cabeça erguida, olhavam para a frente e, às vezes, olhavam para o céu. Para onde o Deus inventado olhava, não era possível saber. Sozinho, muito sozinho, ele frequentemente se queixava de que, depois de o terem feito tão semelhante aos homens e às mulheres, esses mesmos homens e mulheres o tivessem banido para longe de onde viviam. Passou então a vagar pelos ermos do céu e do horizonte, ensimesmado e muito apreensivo com a possibilidade de que um dia, por ser inútil, os homens e as mulheres o desinventassem.

  • Passagem

    Talvez essas sejam as minhas últimas palavras. Mas sempre acho que serão as minhas últimas palavras. Insisto em escrever isso, quando sinto dores (fortes dores). Estou completamente enferma, e os médicos não detectam nada. Já fiz uma porção de exames, e ainda os faço. Gasto um dinheirão com isso. Se procuro na internet os sintomas, acho que vou morrer a qualquer instante. Já me falaram que sou hipocondríaca. Claramente isso não corresponde à realidade. A doença silenciosa e fatal é ainda mais cruel dos três últimos anos para cá. A causa de tudo foi a morte repentina de Charlote, a minha gata. Ela tinha apenas oito anos. Gatos vivem em média quinze anos. Nunca achei que fosse perdê-la da noite para o dia. Primeiro, ela ficou muito quieta; depois, passou a não enxergar, batendo-se pelos cantos, desnorteada. Eu a levei à emergência. O médico-veterinário disse que havia características de envenenamento. Mas como, se não uso nada dessas coisas, nem mesmo inseticida? Ela teve uma hemorragia e depois uma parada cardiorrespiratória. Charlote foi cremada e suas cinzas ainda permanecem comigo, porque preciso de sua presença. Quando a peguei na rua, o fiz justamente pela proteção transcendental dos gatos às pessoas. Eles nos curam, é verdade!; puxam as energias negativas, dores e cansaço. E foi assim, durante os belíssimos oito anos: Charlote me ajudou muito. Na verdade, meu caso de enfermidade é crônico (e possivelmente degenerativo). Ora estou com dores nas costas, ora com enxaqueca. E eu só tinha a Charlote para me acudir nas piores horas. Pensei que ia abandoná-la antes do tempo, e foi ela quem me pregou uma peça. Me deixou desolada e mais doente (mas não quero que se sinta culpada por isso; ela tinha de ir por algum motivo, que ainda não decifrei). Já não controlo os meus músculos. Quando vou comer, derramo toda a comida. Ando desengonçada. Tropeço nas ruas por qualquer mínimo buraco. Semana passada caí, bati a cabeça e fiquei desacordada. Uma senhora muito idosa me socorreu, jogando água no meu rosto e dizendo, como um mantra, que todo o mal iria passar. Pensei na minha avó, que morreu há trilhões de anos, mas deixou o seu amor eternizado em mim. Quis pedir para a velhinha me carregar com ela, já que estava prestes a morrer; para cuidar de mim como a uma netinha. Quando disse que estava mesmo quase partindo desta para uma melhor (tenho fé!), a velhinha deu uma risada e me recriminou, depois, severamente. Que era muito nova para pensar nessas coisas de morte. Não sei bem como estarei daqui a algumas horas. Tomei seis remédios obrigatórios e mais dois para dormir. Espero morrer dormindo, como se não tivesse acontecido nada. A minha passagem, na verdade, é um verdadeiro nada no mundo. Decreto todos os dias o fim da minha existência, para encerrar logo esse martírio, mas esse troço parece estar contra mim.

  • Olhos de cobra

    Eu gosto de sair andando sem um rumo definido. Desde moleque assim. Lembro-me da felicidade que sentia ao perceber o dia chegando pelos vãos da janela, era como um chamado da liberdade me arrancando da cama de volta para o mundo que o sono da noite anterior havia me tirado a contragosto. Saía descalço, pisando a grama molhada, enquanto os primeiros raios do sol criavam um pano cintilante sobre as várzeas cobertas de orvalho, a névoa rasteira sobre a superfície dos veios d’água. Ali, sem saber do intrincado invisível que me circundava e me atraía, eu observei um fenômeno que me acompanharia pelo resto da vida e que, de alguma forma enviesada, me escancarou um destino além da minha compreensão e controle. Enquanto pisava prazerosamente a grama molhada, eu ouvi um barulho que me era desconhecido, um guincho de algum animal, um som arranhado e ao mesmo tempo sufocado, como quando se tenta tirar um grito da garganta rouca e quase muda. Aquele som ficava cada vez mais próximo e então vi, na beira do rego d’água, frente a frente, uma cobra e um sapo. Ela tinha a bocarra aberta e os olhos arregalados fixos nos olhos do outro, como se o hipnotizasse. E era dele que vinha aquele som gutural, pontuado por alguma estridência, como se gritasse por socorro. Enquanto, num arrastar dramático que ficou tatuado em minha memória, como se eu pudesse ver dentro do seu corpo todas as contrações que tentavam contê-lo e puxá-lo para o sentido contrário, ele ia, em pequenos pulos, para dentro da boca da cobra. E assim se deu, até que ela o engoliu, aquele grito calando-se aos poucos conforme ele afundava para dentro dela, até que a boca se fechou e tudo ficou silencioso. E agora era apenas o som da água que escorria, densa e veloz, enquanto a serpente parecia fechar e abrir os olhos, lentamente, como quando se ativa as papilas gustativas para identificar e apreciar, um a um, a variedade de sabores de uma iguaria. Exceto por aquele fato raro daquela manhã, aqueles passeios nas primeiras horas do dia eram como se eu retomasse meu lugar no mundo, como se de dentro dele viesse um chamado, com letreiros enormes e fanfarras e uma grande faixa que dizia “bem-vindo ao seu lugar”. Mas a visão daquele dia não passou impune, não conseguia retomar meu caminho que era apenas deixar correr as horas enquanto me perdia na contemplação da vida. Sentia-me culpado por não ter salvo aquele sapo, podia ter pego um pedaço de pau e pelo menos espantado a cobra, mas não, fiquei inerte, como se algo dentro de mim dissesse que aquela era uma lição necessária, ou talvez tenha sido mesmo a faceta maquiavélica dessa coisa chamada destino que me fez ser apenas um observador estático dos minutos finais do pobre animal. Não consegui esquecer e ao cair da tarde subi até a igreja que ficava a um quilometro de casa, no alto, em direção ao centro da cidade. Fique lá, sentado em um dos bancos na terceira ou quarta fileira, enquanto olhava a pintura belíssima numa abóboda sobre o altar, um grupo de anjos rechonchudinhos de cabelos encaracolados flutuando em volta de Nossa Senhora com o menino Jesus no colo. Eu pedi encarecidamente que ela me perdoasse por aquele crime, ao mesmo tempo em que esperava algum movimento em seu rosto, talvez ela se voltasse para mim, e através de algum gesto, mínimo que fosse, me fizesse entender que ela tinha recebido o pedido e me perdoaria. Nada disto aconteceu, mas saí de lá certo de que a minha oração teria chegado aos ouvidos de Deus e que a minha fé, ainda que titubeante, haveria de ser suficiente para que eu alcançasse o perdão.

  • Pizza fria

    Zimi parecia debochar de tudo o que desprezava sem dizer uma palavra.

    Era algo em sua presença.

    Algo que se manifestava especialmente na inconveniência das filas.

    De mercado, de banco, qualquer uma.

    Ele estava com o título de eleitor cancelado por falta de uso, e dessa vez, a fila para regularizar o documento.

    A fila era monstruosa e havia gente ansiosa pelo título, especialmente jovens que votariam pela primeira vez.

    Eram divididos em duas bolhas tóxicas que chamavam de ideologia.

    Zími soube na véspera através de um noticiário televisivo que aquele seria o último dia para regularizar a situação.

    Enquanto ele esteve ali, ninguém da imprensa apareceu.

    Alguns daqueles jovens talvez soubessem que se votar mudasse alguma coisa, teriam essa possibilidade cortada imediatamente.

    Talvez soubessem que poder votar não faz de lugar nenhum uma democracia.

    Conheceu uma universitária que tentou fazê-lo gostar de MPB.

    Só conseguia pensar sobre como alguém daquela idade podia suportar músicas que ele abominava desde os anos setenta.

    Zími usava uma camiseta da banda Mission of Burma, e ela gostava de Gonzaguinha.

    Contou a ela que a última vez em que votou foi quando a urna eletrônica foi implantada.

    Ele gostava das cédulas de papel, para escrever palavrões.

    Nunca mais compareceu às urnas.

    Disse a ela: “Políticos dividem as pessoas em dois grupos: instrumentos e inimigos.”

    Lembrou do tempo em que na escola passava de ano no terceiro bimestre, só para passar o resto do tempo cabulando aula no Ibirapuera.

     Um recurso ingênuo que na época parecia fazê-lo reduzir o dano do tempo de vida perdido no colégio de freiras.

     Antes da internet e sem a bolha do celular.

    “Pensava que passaria sua vida vagando a esmo, com a pecha de perdedor, mas não me preocupava. Eu não era articulado o suficiente para explicar com clareza o que eu pensava, E se fosse articulado, tomaria porrada da repressão da época.” 

    Foi expulso da escola de freiras na sexta série.

    Na época, voltando à escola depois de três dias suspenso por insubordinação, foi pressionado pela freira na frente dos colegas.

    Foi perguntado sobre qual era o motivo de sua revolta.

    Zími respondeu: “A primeira revolta é contra a suprema tirania da teologia do fantasma deus. Enquanto as pessoas tiverem um mestre no céu, serão escravos na Terra. E sou contra o uso da religião para justificar hierarquias, obediência e dominação.”

    Apanhou em casa e foi então transferido para uma instituição não religiosa, onde se deu melhor e não teve problemas para concluir o segundo grau.

    Depois cursou jornalismo, concluindo o curso antes que tivesse internet em casa, na segunda metade dos anos noventa.

    Perguntou-se novamente se haveria sentido ter passado por aquilo depois da internet.

    O horário de funcionamento daquele cartório eleitoral chegou ao fim, e as pessoas ali eram avisadas que somente em novembro poderiam novamente ter suas situações regularizadas, caso não resolvessem suas pendências naquele dia.

    Zími foi embora sem regularizar nada.

    Estava ali porque tinha a tarde livre, e o barulho de uma reforma no apartamento de cima não lhe dava sossego.

  • O Teste

    — Quantos quilos você tem?

    — Uns cento e dez.

    — Próxima! Mais rápido, minha filha. Anda um pouco. Desfila. Imagina que tem uma plateia aqui só pra te ver. Vamos logo, meu amor, não tenho o dia todo. Chega, pode sair. A gente entra em contato. Próxima! Próóóóxima! Quantos quilos você tem?

    — Cento e vinte e um.

    — Próxima! Uau, acho que você vai servir. Como se chama?

    — Zulmira.

    — Então, Zulmira, você tem problemas com nudez? Ainda estou pensando, não é nada certo, mas talvez alguma nudez venha a ser necessária. Só peitos, não se preocupe, tudo de muito bom gosto. E vai ser rápido. Na hora devo colocar uma luz fraca em cima de você… Seria um empecilho?

    — Não, tudo bem. Eu…

    — Agora anda um pouco, como se estivesse desfilando. Meio Gisele, entende? Meio Gisele, eu disse! Mais disposição, atitude de mulher empoderada. Solta o cabelo. Balança a cabeça. Plínio, joga o ventilador em cima dela. Pega aquele lençol e enrola no corpo. Bem sensual, não seja tímida. Anda, Zulmira, tá esperando o quê? Não precisa ficar com vergonha. Parece bom. Quantos quilos você tem?

    — Cento e trinta e sete, acho. Não fico me pesando toda hora.

    — Perfeito. Você não é muito alta, né? Um metro e… Idade?

    — Quarenta e nove.

    — Onde você mora?

    — Quintino.

    — Cruzes, onde fica isso? É longe, né? Você vai conseguir chegar na hora? Eu não tolero atrasos é bom que você saiba. Plínio, mais alguma?

    — Não, Daniel, essa aí é a última.

    — Você tá com sorte, Zulmira, vamos fechar com você. Alguém já te disse que você tem muito potencial? Contente, querida?

    — Claro. Sempre foi meu sonho. Olha, eu decoro rápido, tenho muita facilidade. E os ensaios quando começam?

    — Relaxa, Zulmira. Você não tem texto, não precisa decorar nada. Também não tem que participar de nenhum ensaio. Uns dois dias antes da estreia você passa aqui, a gente conversa sobre marcação, mas é tudo muito simples. Você fica uns trinta segundos em cena e sai. Vai dar tudo certo. Os caras querem ver as garotas, as gostosonas. A sua parte é mais um alívio cômico, entende?

    — Mas é só isso? E o contrato?

    — Não tem contrato, é cachê. Cinquenta reais por sessão, recebe no domingo.

    — Mas eu pensei que…

    — O que foi, Zulmira? Não tá satisfeita eu chamo outra.

    — Não é isso, é que eu pensei…

    — Pensou o quê? Meu bem, você não viu o anúncio? Tá claro no anúncio.

    — Eu não li o anúncio. Nem sabia que tinha um anúncio.

    — Veio pela agência?

    — Não, tava passando aqui na porta…

    — Então é isso, minha filha, já expliquei tudo. Conversa com o Plínio se tiver dúvida, mas o negócio é esse mesmo que eu falei. Plínio, tô atrasado, preciso correr. Liga pro elenco e avisa que os ensaios começam amanhã, tudo bem?

    — Pode deixar, Daniel.

    — Acho que lá pelas seis tá bom. Ah, e fecha o teatro pra mim, ok?

  • D. Henrique

    Se ouve lá de casa, uma légua de distância – diz o Tio Abílio.

    Canto mais belo não há – diz Tia Adélia.

    E a Mocinha sorri encantada. É um passarinho mágico, dentro dela.

    D. Henrique, tal se soubesse, modula o trinado leve no ar do meio-dia, trinado alegre se espiralando na varanda, nos pomares, nos campos sem fim.

    Era presente do Tio Juvenal, trazido de longe, do sítio do Fogo-Apagou, que se agacha numa furna de além da Serra-do-Meio, num lugar que se esconjura já no apelido: Deus-Me-Livre. O nome D. Henrique, homenagem ao audaz navegante. Não tinha cruzado os mares, arrostado perigos, tempestades, naufrágios? Certo que não: canário-da-terra, muito nosso, desta beiradinha de sertão. Amarelinho, o amarelo vivo, lindo, jamais visto – tirante a laranja, mas a gema do ovo, a gema do ouro. Com o cinza descendo nas costas, crescendo, até a cauda – manto real. E o canto, de maravilha. Certo que de um outro mundo, de sonho, da fábula.

    A Mocinha era a dona – por isso feliz, feliz como um passarinho. O gorjeio de D. Henrique, o sorriso nos olhos da Mocinha – um namorinho, às escondidas. Ah, ninguém não saberia dos trinados do seu coraçãozinho, a sua paixãozinha. Sabe, eu tenho um passarinho – queria contar. As palavras não dizem o sentimento – todo mundo tem um passarinho. A verdade se imagina – o coração no poleirinho, que balanga pra cá, pra lá.

    Ao Nando, o noivo, sentado sério na varanda – Sabe, eu tenho um passarinho. Os olhos dele, de surpresa – o que demais? D. Henrique sacode as asinhas, estufa o peito, as peninhas de ouro. Ah, sei – diz o moço: – É um passarinho de ouro. A Mocinha ofendida, lá com ela. Não é só isso não. Ele nem não existe, de tão bonito. O pensamento tão gravezinho, o Nando nem não entende. Consola – É muito lindo, sim, o canarinho. Não via quem não queria, só de brincadeira que falou. Se ela dissesse: Não se brinca com o sentimento dos outros, Nando. A cara morena dele tão perto – precisava que falasse de amor? E se fosse de brincadeira? Não pensava muito, não. Se encosta, dizendo, o que nem carecia: Nando – eu, você. D. Henrique pula que pula, o biquinho treme na melodia que só ela sabe – batendo palmas no jeito bem dele. E o Nando – Não é que esse passarinho canta bonito? É diferente, não tinha reparado. É até inteligente – ela pensa.

    Você põe o dedinho, provoca. D. Henrique vem com o biquinho, as bicadinhas. Bravinho, se arrepiando inteirinho – ou era só que estaria brinca-brincando? Os azuis do céu, a capricho – límpido, livre: a alegria do canarinho, mesmo se bravinho. A Mocinha treme os labiozinhos, estralozinhos, a lingüinha, arremedo de assobio – Assim que se canta, D. Henrique. E D. Henrique, garboso, vestido no seu manto do maior orgulho, trina que trina e trina – como que uma caçoada! – os mais belos trinados. Dedinho no pescoço, na cabecinha – num agrado, o elogio merecido? Não deixa não. De um a outro poleiro, o balanço arisquinho. Elogio? É o meu natural, não precisa não. Folhinha de almeirão? Ah, sim. Mas me ensinar? Isso não. Nasci sabendo, com o sangue. A longa viagem, escura – viu a luz, que lindos gorjeios! Que vida rebentava daquele peitinho! As peninhas de ouro brilhando no sol. Dona Mocinha, trocar minha agüinha? Um banho molhadinho, espanejar mil pozinhos d’água no ar. Esse beicinho, Dona Mocinha? Me dar um beijinho? Muito agradecido – o imaginado é já o sentido. Tri e tri e trinos de luz, claridade, suavidade! Nosso namorinho, Dona Mocinha.

    Seu Nando manda dizer que hoje demora mais – o recado, grave. Que novidade! Caçar um jeito de não ouvir o tempo, o de sempre – os dedos delicadíssimos no bordado do enxovalzinho. A calma tristeza sentada na varanda – só D. Henrique vê, solidário, distraído da cantoria que quer sair, explodir na lindeza da tarde clara. Horas sem fim bordando a solidão – tão monótona a espera! Por que será que o Nando demora tanto? Madornando, fecha os olhitos. Desperta com os cuidados – Que seria? Uma desgraça? Madornando, desperta: os trinos agudos, estridentes, tanta alegria, D. Henrique até desafina! Se fosse possível! A Mocinha abre um sorrisinho – Tenho você, D. Henrique. Mas repreende – Estou triste, D. Henrique! Tri, tri, triste? Tri de trinados e trinados, alegres embalando a tarde! Colorindo, perfumando a alegria – Teu noivo chegou! Teu noivo chegou! O Nando – sujo, suado – traz o seu sorriso bom. Cansado, o jeitão aborrecido, por trás o gosto do encontro, curto – Já são horas, logo vou chegando.

    O Nando implicava com D. Henrique – Como que vigia a gente, segurando vela, oras! Tem ciúmes – pensava a Mocinha. Uma pontinha de orgulho se acendia nos olhinhos – Tem ciúmes de mim, sim, sim! O Nando implicava, desimplicava – a Mocinha via os olhos dele bulindo: a mãe vinha surgindo na varanda, com café, bolinhos, ou o pai procurando, pretextando os dois dedos de prosa, as honras da casa – D. Henrique dava o aviso, apartava os dois pombinhos. Inteligente, sim senhor! E amigão! Pois é, o Nando nem se desgostava mais com o canarinho. Mas deu de inventar outra implicância: Não gosto de passarinho preso não – falou. A Mocinha até pensava: Fala com franqueza. Desgosta de verdade! Foi pensando. Com o pensamento, quem é que pode? Entra na ideia, sem nem pedir licença. Não sai mais não – preocupaçãozinha cresce que cresce: Meu D. Henrique, infeliz na prisão! Meu prisioneiro, coitadinho. Isso não se faz – desumano, cruel demais. Chorou sentida, magoada nas cordas mais doloridas da sua almazinha ingênua. Soltar D. Henrique – ficar tão sozinha! Um pedaço de mim! É tudo que eu tenho – minha fábula encantada! Não soltar? Não pode ser! Eu não sou tão má. Não tenho tanta ruindade. Como se matasse um pedaço de mim! A Mocinha balangou, balangou – a gangorra da indecisão, as rodas do monjolo plec, plec, a mão do pilão puf, puf! roendo o seu coraçãozinho.

    Soltou D. Henrique. Aberta a portinhola – um adeus choroso, demorado, engasgando as palavras na garganta, nem D. Henrique cantava. Vai, amorzinho. Vai, meu tesouro – antes que eu mude de ideia. A cabecinha fora da porta – D. Henrique olha à esquerda, à direita, assuntando. A Mocinha descuidou – lá se foi ele. Adeus! Adeus! Pousa na roseira florida, que lindo! Mas cuidado, D. Henrique – cuidado os espinhos. Ai, meu Deus! Ele não conhece o mundo lá fora. Tantos perigos! Não vai resistir. Meu Deus, o que eu fiz? Mandei D. Henrique para a morte? D. Henrique saltita na laranjeira, na cerca, na jabuticabeira – o trinado claro, nunca tão lindo! A Mocinha vê, de longe – os olhinhos marejados, a dor bulindo naquela aguinha. D. Henrique voa, avoa – some-se no azul. Livre – isto a liberdade! Ingrato – tanto que era amado! Ingrato nada – livre, é o que é. Liberdade, o dom precioso! A Mocinha abraça o Nando – tantas lágrimas, e contidas: inda um esforço de mostrar alegriazinha. Abraça a mãe, abraça o pai – Deixa, menina, que ele volta. Ah, pai: deixa ele ser livre – a Mocinha engole a lagrimazinha. Há uma dorzinha neste mundo, ninguém não vê, enorme, enorme.

    Quando D. Henrique voltou – Meu castelo, meu lar! – nunca mais porteirinha fechada. D. Henrique senhor do mundo, livre, trina, trina os límpidos cânticos da liberdade! A Mocinha não cabe em si, tão feliz! Um sorriso largo, livre – livre é uma palavra tão linda! A Mocinha casou, saiu da Fazenda Gabirova para a Fazenda Pau d’Alho, foi feliz. Há dessas histórias de amor, perfeitas, neste planeta. O Nando pegou amor no bichinho – preparava o ovo matutino, limpava a gaiolinha, na tardinha regava o canteirinho de almeirão: D. Henrique não tinha do que se queixar. Uma canarinha – que maravilha de canarinha! Quatro ovinhos, quatro! Nenhum vingou, D. Henrique nem viu. Governava o seu reino, navegante nas águas da alegria. A Mocinha vai se lembrar, por toda a vida! Houve tempos difíceis – os primeiros, depois melhoraram – mas foram tão bons! Ela sempre vai se lembrar. Nas bodas de ouro – rodeada dos muitos filhos, netos, bisnetos – ela vai se lembrar. Ela, o Nando! D. Henrique, Sua Majestade, a nobreza nas peninhas de ouro, penugenzinha, fino pozinho de ouro borrifadinho! O gorjeio de ouro tremulando claro, alto, léguas em redor, leve, livre, límpido – D. Henrique, a rica mágica: este mundo encantado!

  • Aurora e o Sujeito Sentimental

    Arre, que não teve jeito! Nunca tem. Mente quem diz que tem.

    O chefe da Polícia Federal fala ao assistente sem tirar os olhos do cadáver esticado na cama do hospital, dentro de um saco grosso de plástico: Providencie o traslado do corpo do Pestana para Araraquara, a cidade dos pais, no interior de São Paulo. Já assinei o documento de autorização. O caso pra ele tá encerrado. Nós vamos continuar de onde ele parou. Ele trabalhou bem no começo, cagou no final. Otário!

    Quando não tinha mulher no meio, Pestana era ágil, resolvia tudo num dois por três. Levou poucos meses para investigar e explodir as entranhas do tráfico da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Rodou por Belo Horizonte, Recife, Cuiabá, São Paulo, Porto Alegre, eliminando as ramificações brasileiras dos traficantes de drogas. Morava mais em avião do que na própria casa. Trabalhou com eficiência. Era quase invisível e conseguiu se infiltrar. Tudo fácil, até que ela apareceu, presa por um colega policial. Ruiva, cabeleira ondulada igual à personagem do gibi, era um espécie de chefe de uma gangue obscura do Rio de Janeiro. Obscura sim, mas que vinha dando trabalho para a polícia: assassinatos, assaltos, conluio com a milícia, submissão de moradores das favelas cariocas. Pestana percebeu o tipo, a malemolência, a malícia. A boca. O olhar. O cheiro. Tinha um nome matador — Aurora —, que nunca mais sairia de sua cabeça. Soube que estava perdido assim que a viu. Ela prestou depoimento e o encarou como se perfurasse sua alma. Foi dispensada por falta de provas. Pestana se rendeu, agiu como um idiota. Ruiva esperta e dissimulada, deslizava feito bagre. Sempre tinha álibi. Nunca se deixou vincular com o tráfico, mas estava sempre por perto, pairando, rondando. Uma sombra difícil de agarrar.

    Desbaratada a rede brasileira, foi a vez de investigar o braço internacional. Barcelona, Lisboa, Zurique, Londres. A sombra da ruiva também estava espalhada por lá, a gangue crescia com rapidez. Pestana seguiu pistas, conferiu informações, foi atrás de supostos cúmplices na Europa. Nenhuma prova ainda que incriminasse Aurora, a cachorra sabia como escapar.

    Foram para a cama em Londres, no apartamento que ela tinha lá. Pestana sabia onde estava se metendo, mas não conseguia evitar. No sexo era Aurora quem dominava, ele obedecia, fascinado por aquela mulher perigosa que poderia matá-lo sem pensar muito. Ela gostava de ficar por cima. Abria as pernas sobre o corpo esticado dele e o olhava nos olhos. Ordenava: Quero uma enfiada só, de uma vez, ouviu? E ia se abaixando devagarinho, ficando de cócoras sobre o pau em riste. Dava um tranco rápido com as nádegas e se acomodava gostosamente, as pernas ao redor da cintura do policial e o membro dele inteiro dentro dela. Mexia os quadris como profissional experiente, devagar primeiro, acelerando o ritmo aos poucos e apertando e puxando para cima o bico dos seios. Isso deixava Pestana louco e ele tinha que se segurar para não gozar de imediato. Quando se separavam, cada um num lado da cama, suados e vazios, ele gastava minutos olhando a barriga redonda de Aurora, que subia e descia em movimento uniforme. Naquela noite, assim que ela se levantou para ir ao banheiro se lavar, Pestana grampeou o telefone do quarto. Cadela, que pena, agora te peguei, pensou o investigador. Não pegou. No dia seguinte ela descobriu o grampo, desativou a armadilha, pintou o cabelo de preto e sumiu. Semanas sem saber dela, Pestana quase enlouqueceu.

    Em Barcelona, pensou tê-la visto na rua. Não era, mas podia ser. Foi pra cama com a desconhecida e percebeu que não era mesmo a outra: não tinha o piercing no clitóris, nem o anjinho tatuado na nádega esquerda, nem gritou Drácula! na hora de gozar. Deu dinheiro e dispensou a falsa.

    Andou um tempo com medo. A Europa amedrontava, tinha a barreira da língua, o frio que endurecia os ossos, a comida que parecia cimento e ninguém em quem confiar. E a solidão, essa cachorra! E a cachorra da Aurora, que tinha sumido como fumaça? Estava desolado. Queria voltar e se torrar sob o sol do Leblon. Recebeu notícia do chefe: Aurora tinha sido vista num inferninho em Copacabana. A ordem foi que voltasse correndo. Pestana tomou o primeiro avião. De novo no Rio, recomeçou a perseguição. Maré, Rocinha, Alemão, Cidade de Deus, um sabonete chamado Aurora fazia muita espuma e desaparecia como se nunca tivesse existido.

    Até que um dia seus olhares se cruzaram de novo, e aquela foi a penúltima vez. A polícia foi avisada por um delator, vários investigadores deram flagrante, chamaram a televisão e os jornais: a ruiva, dólares e euros em dinheiro vivo, carregamento pesado de drogas, todos presos, ela também. Pestana pôs as algemas olhando para ela direto nos olhos. Quinze anos no xilindró, quando sair vai estar velha, gasta. Pena. Assim que a poeira baixou, Pestana foi para casa descansar, dormir e tentar esquecer.

    Com a ajuda de um rábula vesgo e corrupto, a ruiva conseguiu habeas corpus e, de novo na rua, foi cobrar o prejuízo. Soube que uma noite o Pestana estava bebendo no Golden Duck, em Copa. Ele ainda não estava completamente bêbado quando ela entrou e o encarou. Essa, sim, foi a última vez que cruzaram os olhares. Ela sorriu, se aproximou, colou o corpo no dele e o beijou na boca. Disparou cinco vezes com a automática silenciada enquanto o beijava. Saiu da boate sem ninguém impedir ou entender como, protegida por seus capangas.

    Pestana respirou uns dias por uma máquina. As agulhas nas veias providenciaram alimento e sobrevivência. Quis morrer, não agonizar. Quis morrer com a ruiva mordendo seus lábios, balançando a cabeleira como a moça do gibi. Morreu sem isso.

    O chefe da Polícia Federal entrega o documento ao assistente, autorizando o traslado do corpo. O Pestana disse que queria ser enterrado ao lado do papai e da mamãe dele. Coisa de sujeito sentimental. Otário! Despacha o corpo pra lá, anda. Alguma pista da cachorra da Aurora?

  • Dente na garganta

    Os garotos atravessaram a ponte de concreto em direção ao campinho. Era o trajeto de todos os dias, a única passagem que ligava os dois estados. Finalzinho de tarde, separação dos times, alarido, escolha de quem ia na linha, quem ia no gol, os melhores já saíam logo da fila, e ficavam num canto debochando dos desajeitados e ansiosos ruins de bola, pernas-de-pau, o gordinho, o magrinho, o esquisito, o que não fala, o manco, o preto, o ferrugem, o sem pai, o filho da puta, puta mesmo, de um pardieiro antigo do outro lado do rio. Deu a saída, gol na primeira jogada, o garoto na lateral levou no meio das pernas, os parceiros de time abaixaram a cabeça inconformados, ele era um desastre, ruim para um caralho, diziam no particular quando ele não estava por perto, mas ali, era tudo meio disfarçado, ninguém tinha peito pra reclamar alto, ninguém tocava nele, era o dono da bola, do terreno onde ficava o campinho, dos barcos ancorados ao longo do rio, das áreas de concessão na beira da estrada dos dois lados, alugados para construção de postos de gasolina e outros serviços, era dono da metade da cidade, era dono de parte do estado junto com outros sócios, era quem pagava o lanche depois do jogo, comprava a simpatia dos amigos, ninguém bolia com o menino.

    A reunião fora nos fundos do galpão, todo mundo sem camisa, celulares do lado de fora dentro da tampa de um tambor, sem secretárias, sem auxiliares, só os donos do negócio, o prefeito, o vice, o secretário de obras do município e o do estado representando o governador, o dono da empreiteira vencedora da licitação, edital arranjado, único qualificado capaz de cumprir as regras impossíveis, um cala-a-boca pro resto, todo mundo teria sua vez nas próximas, pacto de silencio, fundão do Brasil, inalcançável, leis próprias, gente de Brasília no bolso, desembargador do estado no bolso, oposição no bolso, suados, caldinho escorrendo pelas dobras do pescoço, mãos feito garras, unhas sujas de sangue, olhos vermelhos, saliva, baba, dente na garganta, a gente dona da engrenagem, da massa do cimento, das ferragens, tudo de segunda e que ergueria a nova ponte para ligar os dois
    estados.

    Numa clareira entre arvores altas, mato cerrado, três urdiam um plano. Ele morre amanhã, é o único jeito. Mas já vamos pedir o dinheiro hoje, a gente mata ele depois, vamos ter que sumir, não podemos mais voltar pra este lugar, e quem quer isto aqui? Vamos pra São Paulo, lá a gente desaparece, vira um traço, a gente é traço aqui, não é por isto que estamos matando? Eles riem, fazemos justiça social, e riem de novo mais e mais. Teu neto tá com a gente, dizia o bilhete. O prefeito urrou, ergueu-se e ergueu com ele a mesa, tombou-a com os braços gordos e fortes, chama o Jeremias, descobre quem escreveu isto, vai atrás do garoto, que não posso agora, tenho reunião, vai na casa dele, o celular da maldita não responde, deve tá metendo, é só o que aqueles dois fazem o dia inteiro, vê se tá no campinho, essa hora eles tão lá, é todo dia de tarde lá, descobre isso aí, mata todo mundo e joga no rio, mas quero os nomes, varre a cidade, ameaça todo mundo, quero esses caras no chão, mas me chama antes, quero ver a cara desses filho da puta, deve ser gente querendo mudar as coisas, algum desgarrado, algum comunista querendo fazer arruaça, vai e me chama, vai, vai.

    Três motos seguiam os garotos. Voltavam do jogo, algazarra, risos, deboche uns dos outros, o neto do prefeito na frente, sempre ele na frente, a bola embaixo do braço, os outros já ansiosos, já sentiam o gostinho do sanduíche, do copão de coca, era no McDonalds, o único da cidade, presente do prefeito para o filho do presidente da Câmara, amigo velho, amigo do peito, irmão. Três carretas, quatro carros, cinco motocicletas e os garotos atravessavam a ponte, um tremor, dos dois lados do rio abriram-se duas rachaduras, que se alargaram e balançaram a ponte, e tudo se desgarrou, um segundo e era o vazio, o estrondo na água, o reboliço das ondas levantando os barcos nas margens, o espanto, os gritos, a correria, o estupor, o topo dos caminhões sumindo nas águas, o resto já era nas profundezas, nem sinal dos meninos. No ar, um oco, Jeremias chegou na ponte, gritou para o outro lado, era de lá que vinham os garotos? Alguém respondeu. Foram todos, o menino também? Todos, o menino também. Jeremias abaixou a cabeça, sorriu levemente sem que ninguém percebesse, a vida é um sopro, pensou.

  • Visagem

    A brisa da manhã invadiu seu quarto. Quase ninguém na rua. Ninguém em casa além dela.

    Desceu as escadas suavemente. O cheiro da manhã a entorpecia.

    Saiu a caminhar. Cabelos soltos, sonhos leves, pele arrepiada.

    Flutuando pelas ruas, não percebia os olhares atônitos. Sorvia a manhã.

    Andou até ter os cabelos umedecidos pelo suor, a camisola colada ao corpo…

    Os olhares cada vez mais atônitos!

    Novamente em casa, tomou um longo banho, pôs seus vinis na máxima altura, abriu as janelas e dançou. Sentia-se, então, menos só.

    Chovia, quando abriu os olhos. Uma chuva cor de prata inundava seus olhos, iludia seus ouvidos…

    Outra vez, as escadas, a porta, a rua…

    Alguns guarda-chuvas davam o tom sério à manhã de prata, enquanto os olhares transpareciam prazer.

    A manhã tornava-se bordada de renda.

    De braços abertos, ela experimentava a vida trazida pelo novo dia. Os guarda-chuvas a emolduravam. Silenciosamente, destacavam sua beleza.

    Comprou flores, trocou os lençóis, cuidou do jardim. Mais tarde recitou seus poemas favoritos em voz alta diante do espelho. Riu e dançou. Era uma menina! Uma estudante travessa no seu quarto de segredos.

    A manhã surpreendeu-a nua sob os lençóis bordados.

    Um arrepio! Seus pés sentiram a aspereza da calçada. Ela vibrava. O contato era surpreendente. Arriscou mais um, mais outro. E passo a passo cruzou a praça sob olhares novos e antigos: emudecidos, estupefatos. Era linda!

    Era menina, moleca, mulher. Nua! Envolta na densa neblina daquela manhã.

    Tudo a contemplava.

    Quando ele chegou de viagem, encontrou-a diferente. Sem amarras, sem medos, sem limites…

    Encantou-se. Amou-a ainda mais. Pelas ruas, ostentava a mulher com um sorriso de canto a canto.

    Os olhos da cidade agora se cruzavam, segredando o desejo de vê-lo novamente partir. Invejando-o cúmplices.

  • Desobediência

    Zími tomou um ácido e saiu.

    Cidinha era caixa do mercado perto da casa dele.

    Ela era refém da escala 6×1 e sua gravidez estava avançada o suficiente para que o esforço e o desgaste daquele trabalho já parecessem excessivos.

    Zími, que mora na Rua da Glória, chega a pé ao mercado em sete minutos.

    Ele só saiu naquele horário porque os ítens que precisava comprar eram essenciais.

    Duas da tarde de uma terça-feira insanamente quente, que castigava as massas sem aliviar.

    Zími precisava de café, cigarro, sabão em pó e água sanitária.

    Chegou a vez de Zími no caixa para pagar a compra, e Cidinha, exausta pelo calor excessivo e pela rotina destrutiva, comentou com Zími: “Eu ainda rezo toda noite, mas cada amanhecer parece ainda pior que o anterior!”

    Zími respondeu: “Deus não existe. A religião é uma campanha publicitária de um produto que não existe.”

    Cidinha soluçou mas não respondeu, apenas deu a Zími a nota da compra, e chamou o próximo cliente.

    Zími ainda falou: “O mundo é comandado por uma elite esotérica, ocultista, que tem vínculo com as trevas.”

    Então voltou para casa e se deparou com a antítese de Cidinha.

    A juventude de Mila Cox não permitiu que fosse eleitora na época das cédulas de papel.

    Ela foi apenas uma vez à urna eletrônica anular seu voto só para ver como era. Mesmo tendo ouvido Zimi e sua tia Lola Cox repetindo à exaustão que a única resposta viável nas urnas era não ir até elas. 

    “Abster-se dessa patifaria é uma manifestação legítima!” — ele dizia, sempre que uma eleição se aproximava.

    Sem shows marcados e por isso sem precisarem de um guitarrista provisório, Zimi e Mila Cox surpreendiam um ao outro com a capacidade que tinham de não sentir solidão com o isolamento no apartamento no bairro da Liberdade.

    Ali preparavam outro disquinho de sete polegadas com uma música de cada lado para o duo Crop Circles, que eles montaram em 2017.

    Ele dizia que seria bom gravar uma canção cover para o Lado B enquanto ela era radicalmente contra covers e tributos, mas concordou apenas pelo fato da canção escolhida ser uma do Cheap Trick, que era uma das bandas preferidas de ambos, e também porque seria ele quem cantaria na faixa.

    Esse formato de disco evitava as ‘filers’ que enchiam tantos Lp’s com excessos, mas que seriam bons compactos ou singles. Para esse próximo lançamento, Cox preparou para o Lado A uma canção em português que tratava de uma conversa com pequenos ex-produtores rurais  que enfatizavam de forma unânime que o agro é medonho nas entranhas. Mudou um pouco sua temática, antes mais focada em intervenções alienígenas.

    Mas agora que Donald postou aquela foto, ela deixou de lado momentaneamente, porque aquele cretino entregou o meme pronto.

    Depois da pandemia, as pessoas não se assustam e nem se surpreendem mais com isso.

    Apesar de querer chocar de alguma forma, ela vetou para o clipe da música as imagens gravadas por Zimi, em que uma vizinha amiga dele dança pelada queimando uma bíblia.

    Trabalhar em casa era um sonho antigo para eles, mesmo num tempo em que já se dizia que copywriters já não servem para nada.

    Zimi parecia um Jay Reatard menos prolífico que a fez entender que era importante  observar como aqueles novos pseudoartistas pavorosos que eles descobriam do nada que eram famosos, e que apareciam em programas matutinos da TV aberta tinham tudo para afundar em suas aparições ocas de qualidade, enquanto ajudavam a desenvolver métodos de divulgação mesmo sem ter nada de relevante para apresentar.

    Num mundo mais coerente essa gente ruim abriria caminho para artistas genuínos, que tinham vidas reais e isso aconteceria por meio de um desvio consciente da história movido pela força da emergência em rever o que realmente importa na vida e na arte.

    Comeram cookies de aveia e chocolate amargo durante a visita de Lola Cox, que era tia de Mila, e que chegou sozinha dizendo que estava solteira novamente porque para ela o casamento tem validade de quatro anos e a principal causa dos divórcios são os próprios casamentos.

    Ela voltou para a cidade para ver da janela a Avenida São João à noite com o asfalto molhado.

    Alegou que achava que não viveria para ver isso novamente, enquanto Mila e Zimi ainda gostavam de ouvir a Voz do Brasil às sete da noite para aprender com aqueles políticos escrotos um português bem falado e NÃO aprender com eles a vender esperança às custas da ignorância das massas.

    As noções de decência que os dois procuraram cultivar em suas vidas deixariam de ser tratadas como utopias.

    E uma voz dizia a Zími que imperfeições podem ser vistas como virtude, pois elas a seu modo dão movimento a tudo que deve se mover.

    Enquanto isso, ele pensava no porquê de Cox buscar uma sonoridade influenciada pelo Ministry se ela agora ouvia Tim Buckley e Fleetwood Mac.

  • Meu avô, o escritor

    Seguramente, este amor que nutro hoje pela Literatura se deve a meu avô Carlos, um advogado criminalista que gostava mesmo de inventar histórias. Tenho várias lembranças dele trabalhando no escritório da casa do Humaitá junto com sua inseparável Olivetti portátil. Quando não estava no escritório, podia ser visto no jardim observando as plantas, as flores e os insetos ou apenas contemplando o céu. Era a hora de se abastecer de inspiração, justificava ele, antes de se acomodar embaixo da mangueira ou de se sentar ao lado do viveiro para ler o jornal. Na sala de estar ouvindo música clássica, nos quartos meditando e olhando a paisagem ou mesmo na cozinha impregnando-se de cheiros e sabores, vivia espalhando metáforas, metonímias, sinestesias e hipérboles pelo ambiente. E sempre que estava para concluir um texto, dirigia-se ao terraço com as folhas datilografadas na mão. Então, tal qual bandeira desfraldada, estas eram sacudidas ao sabor do vento por alguns instantes. Se alguém presenciava a cena e se surpreendia com esse inusitado comportamento, ele logo explicava num tom meio professoral:

    — Trata-se de uma manobra crucial, meus caros, é só neste momento que os clichês se desprendem do texto…

  • Meu amigo Tibúrcio

    Não passa um dia sem que note sua presença silenciosa, o olhar doce acompanhando meus movimentos e o sorriso acolhedor que me dirige quando, sempre aos domingos, me disponho a ficar quieto no meu quarto e conversar sem palavras com ele. Se ando pela rua, cruzo um viaduto ou paro um pouco para respirar com os olhos fechados o cheiro do pão fresco que vem da padaria, sinto de repente que ele se agita no fundo da minha idade. Que, jovem e cheio de vida e de saúde, golpeia com suas mãos pequenas e ternas minhas paredes interiores. Que grita, ri e trata de pular pra fora, a todo custo, desse corpo envelhecido e cansado de tanta dor.

    Meu amigo Tibúrcio nunca me negou companhia nem consolo. Sinto alegria por ouvir, até hoje, quando sofro tanto, sua voz sussurrando vai passar, vai passar.

    Não raras vezes ele me desperta no meio da noite com o desejo de que o tome pela mão e o leve para ver o mar. Só ver, sem entrar na água ou quebrar as ondas. Só ver e não esquecer do quanto somos pequenos. Também me irrita um pouco quando tenta parecer mais inteligente do que eu numa conversa adulta, pondo-me em situação ridícula. Para quieto, eu digo com minha voz interior, mas não há maneira de calar o tagarela. Eu o perdoo mesmo assim.

    Ele me pede, sempre que volto da rua, que traga flores para enfeitar a casa. Intromete-se em meus problemas cotidianos e sempre inventa uma solução mágica. Me convence, enfim, a sair sem agasalho num dia frio e voltar para casa com os lábios roxos e morrendo de rir.

    Em outros dias sou eu quem saio em busca dele, estranhando seu silêncio mais demorado que o habitual. Temo que tenha ido para sempre e deixado um oco escuro em minhas entranhas. Por sorte, sei onde encontrá-lo: toco de leve o meu peito e pergunto ainda está aí?, ao que ele responde como não vou estar se sou um pedaço de você? Então saímos os dois para passear, tomar sorvete ou ler um livro.

    Costumo dizer ao meu amigo que não tenho certeza de nada a não ser do medo de, algum dia, não estar aqui. Ele costuma responder que somos como a cebola, que tem várias capas, e que só se chega ao centro dela depois de derrubadas todas as camadas. Que o mesmo acontece com as pessoas, que vão, voltam, vão e voltam novamente, eliminando suas capas até que seu centro seja revelado e então, como o voo breve de uma borboleta, fecham os olhos e dormem.

    Concordamos que a memória ficará. Um dia eu não serei eu, ele não será ele. Outros ocuparão os lugares que hoje ocupamos e a lembrança de nós ficará grudada no batente das portas, nos azulejos, nos muros, nas canções e no ar. E assim, de acordo, eu e meu amigo Tibúrcio saímos para o sol.

  • Liberdade última

    Sempre morei numa casinha construída ao lado da casa da minha avó. Foi um presente do meu avô à minha mãe. Ele queria todos os filhos próximos. Deu um duro danado para que isso se concretizasse. A bem da verdade, fui criada por minha avó, porque minha mãe viajava muito a trabalho e, quando estava em casa, nunca tinha tempo para ficar comigo – hoje suspeito que não tinha aptidão para ser mãe, para cuidar de outra pessoa. Sendo uma casa geminada, eu entrava e saía a hora que quisesse para a casa de vovó Cidinha. Uma coisa interessante é que ela não deixava ser chamada de mãe, porque queria preservar uma relação que não existia, entre mim e a minha mãe. Em um dado momento, quando tinha dezessete anos, minha mãe se juntou com um paulista e resolveu morar de vez na capital. Para falar a verdade, não senti muito, porque tinha a minha avó como referência, como sinônimo de amor. Me virei como pude, fui atendente da McDonald’s, por dois anos; depois, quando passei para contabilidade, fui contratada por uma grande empresa de cosméticos, onde fiquei por cinco anos. Tive de entregar os pontos para cuidar de vovó. Ela, aos poucos, mostrava sinais de esquecimento. Não lembrava sequer se tinha tomado os remédios, se tinha ido ao banheiro, essas coisas básicas. Parei tudo para cuidar dela. Fomos a diversas consultas até que a diagnosticaram com Alzheimer precoce. Foi uma dor monstruosa, perdi meu chão, minha referência. Em meses, passei a cuidar de uma criança. Vovô, mais velho que vovó, não tinha condições de cuidar dela. Então assumi toda a responsabilidade. Certo dia, depois de anos, Guiomar, minha mãe, resolveu visitar minha avó. Praticamente foi expulsa de casa. Minha avó não a reconhecia e queria bater nela. “Bote essa bruxa para fora daqui!”. Parece que algo de ruim estava guardado no seu inconsciente. Guiomar chorou pouco e logo pegou suas trouxas para voltar à rodoviária. Meu avô, pasmado, não pôde fazer nada. Realmente não tinha o que fazer ali. Só éramos nós duas. Cidinha me obedecia e me acompanhava para onde quer que eu fosse. Com perguntas infantis – “Por que que o céu é azul?” –, me fazia rir, e implicava com as minhas roupas, curtas demais para ela. Essa manhã vovó perguntou pelos filhos Guiomar e Sebastião. Disse a ela que Guiomar trabalhava fora, por isso não tinha tempo de vir vê-la. Sebastião, ou simplesmente Tião, meu tio, de fato trabalha muito, viajando, é caminhoneiro. Quando retorna de suas andanças, procura a mãe e o pai, para lhes dar um abraço, para lhes demonstrar todo o carinho e respeito. Me deu um dó danado quando soube que minha mãe estava hospitalizada, por conta de uma pneumonia mal curada – ela fumava muito.

    Mas jamais deixaria a minha avó para cuidar de mãe. Rezo para que tenha uma boa recuperação, é o que posso fazer, sinceramente. Mãe Guiomar pecou ao me abandonar. Não a culpo por nada, já a perdoei. Mas numa situação dessa devo privilegiar quem me educou, amou e me acarinhou nos momentos mais difíceis. Meu sonho é voltar a trabalhar, ter a minha independência. Meu avô tem posses, dá uma mesada boa para mim, mas não posso depender disso, não quero. A independência é o meu lema. Espero vó melhorar um pouco para poder trabalhar. Essa é minha liberdade última. Quero me jogar no horizonte de possibilidades, mas só e quando vó melhorar.

  • Gerô

    E foi quase tropeçando em sua própria cabeça que Gerô desceu a Brigadeiro no fim da madrugada. Um ruído insistente ecoando dentro do ouvido, devia ser o tapão do Negrão, a mão aberta e áspera encaixada em todo o lado direito da sua cabeça, o ouvido no meio. Parecia que o cérebro ia voar pelo outro lado.

    Ele sentou na calçada por um instante ali perto da saída pra Radial e olhou de volta para o alto da avenida. Se ainda tivesse pernas ele voltaria lá, com alguma coisa nas mãos pra dar um fim na rapaziada. Mas calculou que o dia ia nascer dali há pouco, já havia até algum movimento de ônibus lá na direção do Largo São Francisco. Parecia conveniente e o sussurro em seu ouvido dizia outro nome, covardia. “O mundo não acaba hoje, amanhã talvez, pra mim e pra eles”, concluiu, apaziguando a consciência.

    Capengou até o beco paralelo à avenida. Silêncio completo nos casarões, sinais de fogueira, restos de lixo, alguns carros velhos enfileirados, um caminhão passou com uma buzinada longa saindo para a 23 de maio, parecia um aviso. Ele desceu para o porão. A porta do banheiro estava fechada, o que não fazia sentido já que metade dela estava arrebentada.

    Ele viu a bunda de Nádia encaixada no vaso sanitário, um cheiro ácido espalhava-se pelo quarto. O fio de fumaça de cigarro saía pelo vão, no alto da porta, ela gemia entre uma tragada e outra.

    Gerô sentou-se no colchão no chão e deixou o corpo cair, o rosto se alinhou com uma poça de água que vinha do canto da parede, o cheiro de bolor e roupas úmidas ia formando uma mistura que aguçava a revolta, havia alguma coisa errada naquilo tudo. Mas a vontade de dormir era maior, então esqueceu.

    Três descargas seguidas e Nádia saiu na porta. Estacada de pé, olhava Gerô querendo fechar os olhos. Estava nua. Puxou um último trago e jogou a bituca já no osso para o alto de um resto de escada, Gerô abriu e fechou pesadamente os olhos. Ela veio e se deitou ao seu lado, em silêncio.

    Chegou o barulho de uma porta de bar erguendo-se. Alguém com um sotaque do norte perguntou alguma coisa do outro lado das folhas de compensado que dividiam o porão. E repetiu em seguida, o mesmo sotaque e a mesma pergunta. Nádia avisou “Gerô dormiu”. Silêncio.

    Um caminhão passou pela rua estreita e chacoalhou a casa. Um pedaço do reboco do teto se soltou e caiu na poça, trazendo ondas até perto da boca de Gerô, que roncava pesado, a orelha do tapão em fogo. Nádia observou tudo por um instante.

    Logo o barulho de uma porta raspando o chão veio do canto da parede de madeira. O homem do sotaque balbuciou alguma coisa e a lâmpada amarelada às suas costas desenhava as dobras nos dois lados do pescoço. Nádia levantou-se. “Aproveita que ele tá dormindo, nem vai sentir”, disse ela, antes de enfiar-se num vestido florido e sair.

  • A bituca na cerveja

    Zími usava uma camiseta com a caricatura de Donald com um grande alargador na orelha, numa alusão a um dos supostos atentados.

    Mila Cox escrevia uma letra sobre como alguém que supostamente criou o universo precisava de dez por cento do salário de um pobre infeliz de um país periférico. O processo de composição da dupla consistia em criticar o Estado, a Igreja e a família tradicional com letras diretas, em português ou inglês.

    Portanto, nunca sobrou tanto assunto como se tem hoje.

    A parte instrumental vinha depois e às vezes demorava para ser concluída.

    Eles usavam um teclado de brinquedo e ganharam um de verdade. 

    Iriam usá-lo, mas prometeram que caso Zími também ganhasse uma bateria de verdade, o duo Crop Circles se separaria.

    Ele poderia tocá-la depois em outro projeto musical, mas seriam irredutíveis quanto à dissolução.

    Mila Cox dizia que caso  isso acontecesse, faria a banda ser realmente descoberta.

    Vê-la ouvindo deliberadamente o Galaxie 500, dava a Zími uma alegria que depois ficava confusa com a estranheza da aparente obsessão que ela apresentava com os três primeiros discos do Elvis Costello, mesmo que ele também gostasse.

    Ela estava ouvindo também, por vezes seguidas, o Solid Gold, segundo disco do Gang of Four, fazendo parecer que vai roubar alguma coisa dali, enquanto escrevia sobre como a religião só existe para que os pobres não matem os ricos.

    Agora dividiam um apartamento no bairro da Liberdade e ambos estavam mais focados.

    Zími pegou o quarto da empregada e continuou pagando o mesmo valor que gastava em sua morada anterior, que era um quarto de pensão em que viveu por dois anos com o que ganhava como livreiro, depois de sair de um apartamento em que pagou adiantado os três primeiros meses de aluguel, e então não pagou nem mais um centavo, e ficou lá até ser despejado.

    Ela, que deixou a casa da família na Penha, inteirava o aluguel pagando um pouco mais com o que ganhava como copywriter, e ficava no quarto principal.

    A diferença de idade despertava a curiosidade dos outros moradores do prédio.

    Eram vistos como uma espécie de “Carpenters do Mal”, desde que a vizinhança descobriu que eram parceiros musicais.

    Essa alcunha era atribuída a eles pelas pessoas da vizinhança que ouviam gêneros popularescos tocados por semi-celebridades descartáveis que desaparecem rapidamente dos holofotes para logo ressurgirem com escândalos do mais baixo nível.

    Ela gostava tanto de Venom quanto de Hello Kitty. Também de X-Ray Spex e Mafalda.

    Ele lia Mad e Hermann Hesse, e sua vida parecia o resultado dessa fusão.

    Geravam muito mais curiosidade juntos do que individualmente.

    Ela queria entender como ele sobrevivia numa vida tão minimalista quanto relatava, quando se encontravam para ensaiar ou finalizar alguma música.

    Ele sabia que teria mais espaço e conforto do que no quarto da pensão em que vivia. Era quarto e banheiro, e isso bastava. Nunca pensou que deixaria de morar sozinho, pois até então considerava o estilo de vida ideal.

    Ela vivia com o pai e a mãe, onde cresceu alimentando uma ambição precoce pela música, e saiu dali sem brigar.

    A meta agora era de lançar um single a cada duas semanas até que as ideias se esgotassem, e aí sim seriam marcados novos shows.

    Quando tocam no interior, não é raro que durmam no carro de Cox, que tem toca-fitas e muitas fitas no porta-luvas.

     Ao lembrar dessas horas, um frio percorre a espinha de Zimi, que sempre reclama que não tem mais idade para isso, mas sabe que é necessário fazer. E sabe sobretudo que sempre vale a pena.

    Até mesmo as eventuais desventuras reais que vão muito além do Spinal Tap dessa trajetória são lembranças de momentos que não foram desperdiçados na zona de conforto.

    Zími sempre falou que, com quase cinquenta anos, nunca soube o que é realmente uma zona de conforto. A busca por ela passou a ser quase obsessiva, embora ele não saiba nem mesmo se isso de fato existe. Apenas ouvia falar e queria descobrir.

    Já MIla Cox alega que sua saída da casa dos pais vai muito além da necessidade de sair da zona de conforto.

    Agora que moravam juntos, eram vizinhos de andar de Silvano., professor de Geografia, fã de rock alternativo.

    Silvano frequentemente conseguia atestados para não ir trabalhar, particularmente por tendinite, e não raro tinha tempo e disposição para conversar com eles sobre música e assuntos da vizinhança. Era morador antigo do prédio, mas era reservado e pouco conversava com os outros vizinhos, de modo que pouco se sabia sobre ele na vizinhança.

    É mais conhecido como ‘o homem da jaqueta de couro’ pelos vizinhos.

    Mila Cox e Zími já tinham notado que Silvano tinha comportamento e hábitos de alguém que nasceu com dinheiro. Sua coleção de discos, por exemplo, só poderia pertencer a alguém que tem ou já teve dinheiro.

    Ele mostrou seu apartamento, que de tão abarrotado de Lp’s, compactos, cd’s , revistas e livros, permitis que apenas uma pessoa pudesse aproveitar aquele material com conforto.

    A imensa e belíssima poltrona de couro certamente era herdada, e com o banco na frente, ocupava boa parte do espaço que sobrava da sala pequena.

    Ele tinha várias edições antigas da revista Creem e Zími ficou embasbacado ao ver.

    Enlouqueceu ainda mais ao ser presenteado com um agasalho do Fênix, do Uruguai, que era o time de Silvano.

    Silvano contou que era uruguaio, mas antes que entrasse na escola, já vivia em São Paulo com os pais, também uruguaios. Era filho único.

    O pai morreu quando ele tinha dezenove anos e a mãe, quando ele tinha vinte e um.

    Viviam num apartamento caro no centro de São Paulo, que foi vendido quando Silvano ficou sozinho.

    Comprou então um apartamento menor, também no centro, e trabalhava como professor no Estado. Sabia que não havia grandeza onde não houvesse simplicidade. Guardou o que sobrou do dinheiro da venda do apartamento para envelhecer com dignidade.

    Tirou suas coisas dali e fez a mudança. Vendeu o que havia de seus pais no apartamento, exceto a poltrona, que pertencia ao pai.

    Tinha agora quarenta e três anos. Cinco a menos que Zími e vinte a mais que Mila Cox.

    Naquele dia, muito foi falado sobre o quanto o rock sempre foi marginalizado, censurado e boicotado no Brasil, o que impediu que o gênero atingisse mais popularidade.

    Silvano inclusive mencionou sobre a bizarrice da passeata contra a guitarra elétrica.  

    O vexame de ser artista e estar ali era similar ao de ser jogador de futebol e estar jogando na derrota por sete a um, no jogo que deu a maior alegria futebolística da vida de Zími. Ou ao persistente vexame popular de adotar cegamente um político de estimação e defendê-lo até o fim, ignorando os limites do ridículo.

    Mila Cox e Zími contaram a Silvano que se conheceram através de Sara Cox, tia de Mila, que cursou jornalismo com Zími trinta anos antes.

    Sara nunca vive numa residência por muito tempo, e há anos passava a maior parte do tempo no exterior, e comentava os shows que assistia.

    Ela dizia que para alguém poder ser chamado de artista, precisava ser desobediente e buscar o que não deveria ser buscado.  

    Antes de voltarem para casa, Mila Cox e Zími tramaram a publicidade da banda no Uruguai, para tentarem marcar shows e venderem merchandise.  

    Tudo no Chevette Jeans 79 de Mila Cox, mas dormindo em camas de hotel e tocando nos três estados brasileiros do Sul para financiar a viagem.

    Tudo em meio a uma crise energética e humanitária mundial.  

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