COntos

  • O papagaio de Humboldt

    Em fevereiro de 1800, o barão Alexander von Humboldt inicia a exploração do rio Orinoco. Recolhe diversas espécies de plantas e animais desconhecidos, mede meticulosamente a temperatura do rio, do solo e do ar, a pressão atmosférica e a inclinação magnética. Descobre uma passagem navegável entre o Orinoco e o Amazonas. É uma pesquisa atribulada, cheia de perigos e descobertas.

    Numa das pausas de tantas aventuras, Humboldt ganha de presente um papagaio. Tenta entender o que o papagaio fala – afinal, seria o princípio da comunicação entre os homens e os animais. Mas as palavras, os arremedos de frases que o papagaio enuncia não são daquela tribo que o presenteara, a Caribe, mas de uma tribo já extinta, a Mapuré. Morreram todos os índios da tribo, a língua sobrevivera, e um papagaio que a falava. Non omnis moriar, não morrera de todo a língua.

    Humboldt fica fascinado. O seu sonho é aprender a língua do papagaio Mapuré. Em pouco tempo aprendeu várias palavras, consegue formar algumas frases, primárias, mas frases. Já consegue estabelecer uma ponte linguística entre ele e o papagaio. Antes de voltar à Europa, o papagaio falava desbragadamente. Humboldt o entendia e tomava nota. Iria publicar peripécias mirabolantes de um personagem fabuloso, que muito depois Mário de Andrade leria e usaria como material para criar Macunaíma.

    No entanto, quando em alto mar, o papagaio sentiu saudades da selva, adoeceu de saudades. Além disso, Humboldt calculou que ele teria quase cem anos de idade. Em pouco, a idade e a melancolia o mataram. Alexander Humboldt escreve a seu irmão Willelm, que era o primeiro grande linguista da história. Willelm lamentou profundamente tal perda. Se tivesse aprendido a língua do papagaio, se tivessem dialogado proficuamente, poderia estabelecer os princípios da Gramática Universal, feito que Noam Chomski realizaria somente daí a uns cem anos.

    Foi assim que a morte do papagaio Mapuré provocou um grande atraso para a ciência da humanidade.

  • Os olhos e o sorriso dela

    Existiu há muito tempo um homem que dedicou sua vida a estudar o sorriso mais famoso do mundo. Enigmático, indecifrável, dissimulado, insolente — ele jamais admitiu esses adjetivos para descrever o que chamava de “o mais belo ricto da história da espécie humana”. Para ele, ali havia muito mais que um simples contrair e curvar de lábios: havia um segredo, e qual seria? Estudava, estudava. Um dia chegaria a saber.

    Já velho, o homem quase abandonou suas investigações não fosse a descoberta de um fato que mudou tudo: o artista não pintara no rosto da mulher nenhum sorriso. De seu pincel brotara apenas uma face sombria, com olhos da cor de amêndoas maduras em tempo de colheita. Eram esses olhos que seduziam o observador, que, ao admirar o retrato e sentir o despertar do desejo, sorria primeiro. Ela, senhora de si, se tivesse vontade, sorria depois.

  • O chamado

    O telefone tocou. Não olhei, de primeira, porque estava preparando o café e o pão com mortadela, para o desjejum. Entre uma coisa e outra, vacilei e vi o nome de Iasmin na tela do celular. Por que fiz isso? Foi instintivo ou uma premonição? Uma coisa absolutamente inesperada e absurda aconteceu. Era ela mesma. Quem diria… Fiquei a me perguntar se estava alucinando. Passei segundos rodopiando pela cozinha, em busca de alguma explicação, sem saber o que fazer. Comi o pão quente e me queimei. A chamada foi rápida, parou, e eu me desesperei. Teria ligado por engano? Foi um vacilo programado para me desestabilizar? Iasmin, pelo que eu conhecia, poderia ser capaz de qualquer coisa para me tirar do eixo. Ela é boa nisso. Poxa, poderia ser a oportunidade para uma reconciliação ou uma despedida sincera. Não nos víamos há, pelo menos, dois anos. Iasmin se mudou, para muito longe, outra cidade, e não se despediu de mim, talvez porque achasse que eu não tivesse tanta importância. Além de ficantes, éramos, em bons tempos, amigos. De fato, tínhamos uma relação instável; eu que, bobo, idealizei o amor, depois do nosso primeiro e único beijo. Um beijo que marcou a minha história. Era como se minha boca se encaixasse perfeitamente com a dela. Um átimo, um instante, e logo o infinito. Fiquei perdidamente apaixonado; no ato. Pensei que havia achado o meu par perfeito e que seria correspondido. Iasmin não deu bola. Procurei-a alguns dias, e não quis me atender, sempre inventando uma desculpa. A prima, que morava com ela, dizia que estava com dor de barriga, que tinha saído, até que, por fim, diante da minha insistência, disse que ela havia morrido. Decerto, o beijo não foi bom o suficiente. Lógico, eu não sabia beijar, era um “bv” completo, inacabado para o amor. Ela já era mais experiente que eu – é a pura verdade –, porque já havia namorado, tido romances etc. Eu quis, ingenuamente, mostrar que era séria a minha pretensão para a nossa relação. Levei flores que a sua mãe adorou, disse que iria adornar a casa, quando, na verdade, eu queria que sua filha se felicitasse com a grande surpresa – falo grande, porque me custou o olho da cara. Como sempre, Iasmin não deu a mínima, considerou o entulho inservível, e jogou-o pela janela, onde as folhas e flores mortas, putrefatas, contrastavam com a sua beleza magnífica, celestial. Não gostou de mim, e isso é um fato, que me corrói a cada vez que lembro da tragédia do nosso encontro. Resolvi, aflito, ligar de volta, enquanto, nervoso, tomava goles de café. Tremi a xícara e derramei um pouco na roupa (já estava pronto para sair à escola; levei um esporro daqueles). Retornei e Iasmin não me atendeu. Devia estar ocupada ou desistido do contato. Desanimei. O dia foi uma porcaria, porque eu não tinha meios para ajustar a lambança que havia cometido há tempos. Queria, por tudo que é mais sagrado, ter falado com Iasmin, para despachar o meu espírito bruto, moribundo, e me liberar.

  • Do avesso

    Mila Cox achou que Zími estava enlouquecendo de verdade quando ele lhe contou sobre um de seus dilemas. 

    Estavam no banco de trás da Kombi do amigo e vizinho uruguaio Silvano.

     Era um domingo pela manhã, e voltavam de um show que fizeram com mais três bandas em Indaiatuba.

    Foi quando Zími contou que estava a escolher se seria melhor estar vivo e ver o fim do mundo (o que seria para ele glorioso, mesmo tendo a vida interrompida simultaneamente a essa visão), ou que por algum milagre, tivesse vida longa, e a humanidade durasse mais, e ele morresse bem velho, porém antes do final da história dos humanos na Terra. 

    Nesse caso, o mundo continuaria como um trem desembestado e sem trilhos, e também sem ele. 

    Mila Cox usava uma camiseta do Bob Log III, e respondeu que somente a primeira alternativa era possível.

    Ela disse que ele bebia demais a cada vez que visitavam alguma cidade do interior para fazer shows, e que possivelmente perderia o controle se um dia tivesse a chance de fazer alguma turnê maior, que era o objetivo dela. 

    Não era a quantidade de bebida forte consumida na viagem, nem o tijolo inteiro de maconha que ele havia fumado com Silvano desde a véspera. 

    Ela sabia que ele era capaz de pensar coisas estranhas mesmo estando totalmente sóbrio, como costumava estar na vida cotidiana que tinham no apartamento que dividiam em São Paulo. 

    Ela atribuía esse tipo de pensamento dele a uma falta total de esperança num futuro viável para a humanidade, e tentava extrair daí o conteúdo para as músicas que faziam juntos. 

    Ela falou:

    “Nós vivemos num cenário pós apocalíptico. O que sobrou é surreal demais, embora eu esteja vendo com meus próprios olhos.”

    Mila Cox não havia passado por nenhum trauma realmente relevante na vida.  

    Havia, sim, muita insatisfação com convenções sociais que não faziam qualquer sentido, a não ser para um diminuto grupo anônimo que suga e controla as massas. 

    Embora ela amasse a avó materna, com quem viveu até os dezenove anos, não entendia como ela pôde levar uma vida envolta de tanto machismo, sem que tivesse se rebelado de alguma maneira. 

    Parecia até mesmo que sua avó materna gostava e apoiava o sistema patriarcal em que nasceu e cresceu, depois se casou e enviuvou.  

    Não era um apoio declarado, mas havia indícios de adesão a um tipo de conservadorismo que já não tinha (e nunca deveria ter tido) razão de ser. 

    Já sua avó paterna era diferente em todos os aspectos.

     Nunca se casou no papel, bebia, fumava e estava sempre fora do país.  

    Era chamada por parte da família de velha louca. 

    Essa era a opinião dos tios de Mila Cox, que se encontravam apenas no Natal e muitas vezes já chegavam bêbados ao encontro. 

    No fim das contas, era uma avó ausente, mas generosa, cheia de cultura e bom gosto musical. 

    A mãe de Mila Cox, que também vivia com ela, estava numa posição ideológica intermediária entre as avós, o que para a jovem significava apoiar, pela inércia, o fantasma do machismo e da estrutura familiar patriarcal.  

    Parecia haver em sua mãe um conformismo diante de algo ao qual as mulheres deveriam se opor incondicionalmente. 

    A hora de sair de casa se deu no momento em que não havia mais atritos e nem consenso sobre o que pensar da vida. 

    Então ela foi morar com o amigo e parceiro musical Zími. 

    Embora tivesse um aspecto jovial, pelo seu visual e pelo pensamento libertário, era um cara de meia idade, e aproveitava o estímulo que Mila Cox lhe dava para ter também mais dinamismo em sua vida, já que ele sempre a via agindo de maneira decidida, orientada para objetivos. 

    Se não fosse por ela, ele seria apenas um copywriter que sairia de casa apenas para ir ao mercado e fazer suas atividades de livreiro, comprando, vendendo e trocando livros nos sebos do centro da cidade. 

    Assim, fatalmente cairia num ostracismo artístico. 

    Ele tinha sempre um estoque de livros para ler e depois vender pela internet, para pessoas de outras cidades, onde há poucas ou nenhuma livraria. 

    Com essa rotina, conseguia se manter longe das bebidas e das drogas. 

    Enchia a cara quando saía para tocar, fosse em São Paulo ou alguma cidade do interior. Nessas viagens para outras cidades, ele sempre bebia quantidades transatlânticas de goró, especialmente depois de conhecerem Silvano, que sempre comprava várias garrafas de aguardente de produtores locais, que ele pesquisava na internet antes de viajar. 

    Com Mila Cox (que bebia pouco e quase não usava outras drogas) ao redor, ele continuou com essas atividades cotidianas, mas com bem mais ânimo e dinamismo, pois junto dela havia para ele a aventura, completamente abandonada por muitos de seus amigos da mesma geração. 

    Ele já teve banda de rock antes, mas até que começasse a tocar com ela, passou anos sem cogitar uma volta à música, fazendo shows em troca de cerveja e do dinheiro da gasolina. 

    Mas ela fazia com que ele, mesmo num misto de saudosismo e desencanto com essa vida, retomasse o entusiasmo e, ainda que apenas por rebeldia, enxergasse que não havia motivos para não tocar. 

    Cantava apenas trinta por cento das músicas, pois tocava bateria simultaneamente, mas sua poderosa voz rouca, que contrastava com seus hilários falsetes, tornava essas canções as preferidas da banda, que tinha apenas os dois como integrantes. 

    Era ela no baixo, sintetizador e vocal, e ele na bateria e vocal. 

    A constatação dessa preferência do público pelas músicas cantadas por Zími foi feita por Mila Cox, que cuida das redes sociais do duo, chamado Crop Circles

    Zími agora podia lembrar sem rancor que seu pai dizia que caso ele não seguisse certas diretrizes de comportamento social, viraria um morador de rua. 

    Olhando em retrospecto, era claro para Zími que apesar dos altos e baixos de sua vida, até então tinha conseguido se virar e perder completamente qualquer medo de virar um mendigo destruído pelas drogas e álcool, pois antes de seu pai, a professora Maria Eugênia já havia praguejado algo similar em 1983, quando Zími estava na segunda série do primário. 

    A professora não havia gostado de uma redação que ele fez sobre fraternidade. 

    A escola era católica, e o trecho da redação que irritou a professora criticava gente que humilhava outras pessoas durante o dia e rezava à noite. 

    Nessa época, a situação em sua casa também não era boa. 

    Sua prima mais velha, que ele encontrava nos fins de semana, havia lhe mostrado vários discos de sua coleção e criticava duramente medalhões da MPB que romantizavam a pobreza e os pobres, mas viviam em mansões e dirigindo carrões. 

    Isso causou distúrbio na casa de Zími, pois seus pais achavam que ele não tinha idade para contestar o que quer que fosse, pelo menos enquanto vivesse com eles. 

    Quando perguntado sobre o porquê de não ter tido filhos, ele explicava que ao entrar no ensino médio, não sabia qual profissão queria seguir de fato, mas sabia que fosse ela qual fosse, não serviria para sustentar filhos, pois ele próprio se ressentia por seus pais o terem tido. 

    A economia feita com essa escolha o livraria do destino miserável que lhe previam, de virar um mendigo bêbado e drogado.  

    A paternidade é definitiva, irreversível e cara, algo que não combinava com sua perspectiva de ser razoavelmente livre, tanto nos momentos de agonia como nos momentos de glória. 

    Dizia que estabeleceu desde cedo que seria um adulto com diploma universitário e sem filhos. Anos depois, com o advento da internet, consolidou essa perspectiva. 

    Na mesma manhã em que voltavam do show em Indaiatuba, leram a matéria sobre os jogadores de futebol que tomaram um golpe milionário da empresa de criptomoedas que prometia muito, não entregou nada, e usava nas redes sociais o lema ‘Deus, pátria e família’. 

    Para Mila Cox e Zími, Deus se manifestava em suas próprias consciências, individualmente. 

    Era algo que estava sempre com eles, direcionando-os para um caminho de ética, decência e respeito. Não era alguém ou algo exterior, que pudesse ser encontrado numa igreja, por exemplo. 

    O dinheiro para eles não era um deus, e sim, algo criado pelos humanos.  

    Tornou-se algo sem o qual não se vive na sociedade. 

    Torna as pessoas muito mais escravas do que livres. 

    Os poucos que conseguem viver sem dinheiro e com alegria, quando descobertos, são alvos de um tipo de atenção que os torna quase desumanos, por abrirem mão de um convívio padrão com os outros, sendo considerados anomalias humanas pelo senso comum. 

    Ela queria dinheiro para comprar instrumentos melhores, ele queria dinheiro para comprar de uma vez o apartamento alugado e poder gastar sua energia com outras coisas que não fossem sofrer com aluguel atrasado. 

    A pátria não significava nada, a não ser limites fronteiriços, divisões políticas que motivam guerras. O patriotismo, uma doença infantil, o sarampo da humanidade. 

    A família eram as pessoas com quem escolhiam conviver. 

    Eram temas que já tinham sido explorados à exaustão nas músicas que faziam, mas que pareciam inesgotáveis diante do que viam nas ruas e nos noticiários. 

    O prédio em que viviam era também uma fonte de inspiração, pois abrigava uma classe média há anos empobrecida, mas sempre orgulhosa e sedenta não por direitos, mas por privilégios, custe os direitos de quem custar. 

    Gente que precisa de um líder, e segue coachs messiânicos picaretas, e vivem sem entender que estão muito mais próximos da favela do que da mansão. 

    Uma soberba que desce ao patético. 

    Desde que se mudaram para o novo apartamento e conheceram Silvano, as viagens para tocarem em outras cidades ganharam mais estrutura, embora a força motriz do rolê ainda fosse gerida por uma paixão que eles só poderiam ter no amadorismo. 

    Um contrato, por exemplo, poderia fazer daquilo uma profissão chata e desgastante, especialmente no que diz respeito à autonomia artística. 

    Os vizinhos tinham curiosidade ao vê-los chegando ou saindo, enchendo ou esvaziando a Kombi.  

    Era uma curiosidade grande, inversamente proporcional à empatia que sentiam, pois viviam de outra forma, passando por cima das diferenças individuais e seguindo os velhos padrões de comportamento de burguês mal remunerado, querendo ser o que nunca serão, e querendo ter o que nunca terão. 

    Chegaram a São Paulo, depois de duas horas, com trânsito em pleno domingo de manhã, e a perspectiva de futuro naquele momento era uma semana trabalhando como copywriters, e fazendo uma música nova para ser lançada como single na internet, além de um show no sábado seguinte em Cosmópolis. 

    A essa altura, Donald debilmente fazia de tudo para antecipar o final.

  • Um trem sem destino

    Dora acordou cedo, decidida a embarcar no primeiro trem que partisse. Não havia destino no horizonte, apenas a necessidade de distância. Tomou banho, comeu, sem muita vontade, um sanduíche de queijo e presunto no pão francês do dia anterior e se arrumou. O vestido bege de zibeline, usado nas bodas de ouro dos pais dois anos antes, estava agora um pouco largo. A mala, pronta desde a véspera, a esperava ao lado do sofá. Em cima do piano, um bilhete escrito à mão depositado num envelope meio amassado. Parou um momento e mirou entorno, sentindo que poderia hesitar. Fixou o olhar em Valentina pela última vez enquanto a gata rodopiava pela sala antes de se instalar na poltrona preferida. Com um gesto brusco, fechou a porta, venceu dois lances de escada e seguiu a pé rumo à estação, aonde chegou após 15 minutos de caminhada resoluta. No guichê, uma pequena fila. Diante do funcionário, ficou muda por alguns instantes. Ele finalmente perguntou:

    − Para onde, senhora?

    − Para Felicidade & Paz, apenas ida. Posso pagar com cartão?

  • História de Abelha

    Voando no ar claro da manhã. Pontinho negro na luz do sol. O brilho nas asinhas céleres – alegria que só ela sabe. Gira que gira, de flor em flor, e alto, volúpias de leve música, desenho breve na mágica transparência. Um mergulho – cego? Sábio mergulho, a florzinha mais roxa, à espera, em oferta – úmida vulva, vinho do amor. Os apelos do amor, símbolos que clamam do abismo. A abelhinha sugando o néctar da florzinha roxa – embriaguez morna do verão, isto o amor. A festa, mas porém, ai, quebra-se o encanto. Plec, plec, a flor nos dedos buliçosos da menina sardenta. A abelhinha zonza no ar – “Sua enxerida”, diz, e flecha um voo, o ferrão da morte no narizinho empinado. “Tomou, sua atrevida?” Tomou também a abelhinha, as duas mãos da garota no nariz, no negro aguilhão que a feria. A bichinha cai no chão, atordoada, sufocada de dor.

    O irmão prestativo – como é prestativa a maldadezinha das crianças – prende a pobrezinha num vidro. Ela mal que se mexe, as asinhas, o corpinho moído, suspirozinho só. “Eu prendi a assassina”, diz o menino. A menina enxuga uma lágrima, um pimentão o rostinho amassado no pranto. Ainda consegue força, numa admiração: “Ela é bonitinha!” “Queria te matar, sua boba”, diz o irmão. “Coitadinha”, ela diz. “Sua burra!” “Burro é você, seu malvadão.” “Gostou da picada, é? Tonta!” Ela chora, a abelha tão engraçadinha. Doeu, pois é. Mas foi sem querer, já está passando. Não é por isso que ela merece morrer. Ela não pode morrer. Está agonizando, olha só. Pobrezinha. Como estremece, pretinha a sua dorzinha – sem consolo! O vidro na janela, o sol cintila – o sol é o deus da vida, a luz, o calor que é a vida. A abelhinha freme as asinhas – um frêmito bom. O corpinho se ergue – viver, tão bom viver. Gira sobre si mesma, cai, cai. “A danadinha”, diz o menino. “Teresinha”, diz a menina, “ela tem o jeito de Teresinha. A Teresinha que estava morta, morrendinho mortinha, e volta para a vida”. “Fênix”, diz o menino, “é Fênix o nome, o pássaro que renasce das cinzas”. “Ah, e eu quero saber de fábula besta”, diz a menina, “eu quero a minha Teresinha, estava morrendinho, mortinha no medinho, e revive – que beleza!” “Beleza! Beleza nada. E ela é minha, eu que peguei”, diz o menino. “É minha”, diz a menina, “ela me escolheu, olha o meu nariz”. O menino ri. Ela, vermelhona, chora. Os dois avançam para o vidro, lutam, a tampa se abre, a abelhinha voa tonta na luz livre, livre, ó glória. Voa, voa, e plaft – bate na vidraça, e o menino bate nela, e a menina bate nela. “Assassina!” “A minha Teresinha!” Irmão e irmã se digladiam – tanto amor desperdiçado, a sina do muito amar, sua esquisitice.

    A Teresinha não fez plaft na vidraça, nem nada. Fez puf, um isso de sonzinho, estrangulado. Um pontinho se encolhendo, volteando no vácuo, sem apoio, parafusinho, e o vazio absoluto, frio, frio. A Teresinha não fez plaft nem nada, mas porém plaft e plaft e plaft fizeram as mãozinhas dos irmãos inimigos no seu amorzinho descontrolado. “Homem que é homem tem que se vingar”, ele diz. “Quem mata tem que morrer! Seu carrasco,” ela diz, “quem não perdoa não merece viver.” E plaft e plaft, a guerrinha dos irmãos. Tantas palavras? Muito mais sentimento. Tanto orgulho ferido! E pá e pá – o jeito é morrer, pensa a abelhinha, e puf – murchinha, se esvaziando a sua vidinha. Depois, num de-repente – pá, pum! – o pezinho, o pezão do menino. Teresinha, nem sombra! Sujeirinha no soalho, nem isso. “Conheceu, papuda”, diz o irmão. “Assassino”, diz a irmã, e segura o narizinho dolorido, se lembrando de chorar, a dor, dor e mágoa, mágoa e dor.

  • Enquete

    Poucas horas após minha morte, recebi por e-mail uma mensagem que pedia minha opinião sobre o que era a vida, já que eu tinha acabado de sair dela. Quando estava vivo, costumava receber esse tipo de pesquisa eletrônica, completamente desimportante para mim. Eram perguntas sobre o último hotel onde tinha me hospedado poucos dias antes, ou sobre um restaurante que descobrira num bairro distante. Nunca me dei ao trabalho de responder, e não seria agora, já convertido em defunto e com meu corpo se decompondo lentamente, que faria isso.

    Mesmo assim, dei uma olhada rápida, aproveitando que o celular ainda estava funcionando. A pesquisa era bem completa, como era de se esperar, e perguntava sobre o meu grau de satisfação — nota de zero a cinco — sobre aspectos relacionados com minha saúde, a idade que consegui atingir, os sonhos realizados, as metas cumpridas, os objetivos alcançados, os fracassos, as decepções, as ilusões perdidas. E deixava um espaço em branco para que eu escrevesse um comentário sobre minha passagem por este mundo a fim de contribuir, de alguma forma, para melhorar as condições dos últimos dias para os futuros defuntos. Havia também, claro, a indefectível pergunta: eu recomendaria essa experiência de sair do corpo físico a meus amigos e familiares?

    Como disse anteriormente, eu não estava em situação de atender a todas essas questões, nem mesmo a troco dos valiosos prêmios aos quais, a pesquisa dizia, eu poderia concorrer ainda que estivesse morto (não entendi a que prêmios eu estaria apto). E, por mais que tivesse tentado de todas as maneiras, não consegui cancelar meu endereço de e-mail. Por isso é que agora, anos mais tarde, quando de mim não resta nem o pó de que fui feito, continuo atualizado com as últimas novidades e promoções das empresas.

  • Não tô nem aí

    Pega fogo, cabaré… Tem dias que só quero sumir, arranjar um jeito de me safar dessa vidinha. Gregório, meu colega, me diz que não vai durar muito na empresa. Cara, se Gregório sair, vai virar um mausoléu de tristeza. Ele que diverte a gente, faz o tempo passar mais rápido com as suas piadas, é um verdadeiro mágico. É assim quase sempre, dia sim, dia não. Ontem meu chefe me deu um rala de graça, sem motivo algum. Disse que eu havia feito um trabalho porco, porque não teria colocado nas fichas a expressão “correta” – para ele, do jeito que ele quer; nos moldes do absolutismo. E isso se repete incontáveis vezes. Parece que sou um menino em suas mãos. Não tenho pulso para enfrentá-lo, não só porque ele é grande, mas porque tem uma cara amarrada de botar medo; é como se em cada erro ele fosse partir para cima de mim e me esfolar vivo. O pior mesmo é que não tenho reação. Sou um fracote, que não sabe responder à altura, e vou engolindo sapo calado. E toda a questão gira em torno de dinheiro. Quando o patrão não tem dinheiro, desconta na gente, como se tivéssemos culpa. Ele faz um escarcéu se não estivermos atentos para as contas do mês, para o que deve entrar. Às vezes, fazemos papel de gerente de banco, arrumando as contas como se fôssemos, todos, contadores ou economistas. Gregório diz que, com razão, tenho medo de sair porque tenho filho e família, e um monte de conta pra pagar. Ele, por sua vez, é solteiro e declara não dever nada a ninguém. Como um excelente profissional, pode botar essa banca. Seria aceito em qualquer empresa séria. E eu também, não posso me menosprezar. Faço muito além das minhas capacidades. Passo dias na frente do computador e mal tenho tempo de ir ao banheiro. Não ganho mal, disso não posso reclamar, mas a relação trabalhista é abusiva (mesmo eu sendo contratado e tendo todas as características de CLT). O homem disse que, se as coisas não mudarem, vai ter de fechar as portas do estabelecimento. É uma ameaça que sempre faz, porque precisamos, não só eu, mas a Maria da limpeza, o Fausto contador, e a Noélia do atendimento. Todo mundo fica em polvorosa quando ele diz, claramente, que vai fechar as portas. Na verdade, ele não sabe lidar com as emoções, é impulsivo e não mede as palavras; torna-se, muitas vezes, um monstro desgovernado. Semana passada pegou Noélia para Cristo e quis que ela atualizasse duas pastas de processos – grossas –, ainda tendo, a pobre, de lidar com os clientes chatos. Estou farto, exausto e sem forças. Não sei até onde darei conta. Essa semana foi difícil, extremamente difícil, e o patrão não vê o esforço. Somos máquinas inúteis, inservíveis, que podem ser trocadas a qualquer momento. Não sei o que fazer, não tenho perspectivas no trabalho. Vou levando como dá. E o fim é só um prognóstico que me espanta.

  • Esteta

    Então ela completou dezoito anos e ia para a faculdade.

    O tempo era de guerra, Donald estava botando tudo a perder, e o que ela tinha aprendido de mais relevante sobre o que quer que fosse, foi através de sua tia, que apesar de jovem, estava muito à frente do resto da família em maturidade e cultura.

    Algumas ideias sobre música, política e amor eram os pilares sobre os quais a sobrinha se sustentava naquele momento de guinada, e agradecia por ter naquele momento alguma referência que não fossem aqueles passados pela escola, pela mídia ou pelos pais.

    Até porque os pais eram completamente teleguiados pela mídia, e reproduziam em suas vidas exatamente o que era pregado pelas peças publicitárias que eram enfiadas goela abaixo do povo.

    Mas ela tinha algum discernimento instintivo que fora alimentado pela tia, e por isso já era chamada de rebelde pelos outros parentes.

    Anos antes, na ocasião em que perguntou à tia sobre o que era o amor, teve a seguinte resposta:

    “Isso depende. Caso eu vá muito longe na divagação, peça, por favor, pra que eu volte ao foco da pergunta. 

    A maior parte do rebanho acredita que ele está em situações como aquela em que uma transação bancária é efetuada com sucesso numa propaganda de cartão de crédito. Isso naturalmente não corresponde à realidade, mas as pessoas acreditam que sim, e se frustram. Até porque aquilo que é comprado com o cartão pode ser algo que nada tem a ver com amor e pode ser algo que está muito longe de ser realmente útil pras pessoas que aparecem na cena. É apenas um mecanismo publicitário raso pra estimular o consumo e que mesmo assim, convence as massas.

    E na propaganda de margarina, a família está feliz tomando café da manhã, com um tempo que só teriam se acordassem às três da manhã. Isso anularia a alegria que demostram na cena. O que acontece em qualquer família normal, por força das circunstâncias reais, é que estejam pela manhã todos completamente aloprados, já atrasados, não importando o quão cedo tivessem acordado. O banheiro está ocupado, então há mais uma treta por causa disso. A condição financeira da população em geral também é um empecilho, e pouquíssimos tem tanta comida à mesa logo cedo, e a correria matinal está diretamente ligada à necessidade de ter comida para o almoço e para o jantar. Sem contar que o jantar muitas vezes só é possível com a venda do almoço. Há também propagandas de carros sendo vendidos em prestações que parecem tentadoras e que vão enforcar o escasso orçamento dessa família. É o cúmulo da estupidez e da desumanidade pensar em status num mundo como esse, mas o poder midiático consegue controlar essas milhões de mentes fracas, estabelecendo um padrão, que embora não corresponda à maioria da população, e embora as pessoas saibam disso de alguma forma, ainda assim se sentem frustradas caso não obtenham o que a propaganda determinou como condição pra felicidade. Aliás, pra não falar só da sordidez do controle midiático sobre essa questão, vamos deixar muito claro que amor não está relacionado necessariamente à necessidade de você ter um namoradinho e ser feliz pra sempre com ele. Isso é patético, antes de mais nada, porque essas relações muitas vezes têm prazo de validade. E a sordidez vai mais longe ainda quando você lembra que é preciso ter alguma independência financeira pra não cair na cilada de se casar e se dar mal e não poder sair porque depende de um Zezinho qualquer, machista e escroto. Amor tem mais relação com a sua capacidade de controlar o seu destino, na medida do possível. Você muitas vezes não escapa do capitalismo, então tem que lidar com isso sem enlouquecer, e é por isso também que esses bancos asquerosos deitam e rolam na exploração do povo através de financiamentos que tornam as pessoas eternamente inadimplentes. E é por isso que muitas mulheres não mandam o marido às favas pra começarem outra vida. É a porra da dependência financeira. O sujeito trabalha, paga as contas e a mulher que trabalha em casa se esgota até o talo e não tem um puto furado no bolso pra nada. Essa é a tônica de muitos casamentos farsários que duram décadas e que na verdade são consequência de comodismo ou falta de opção, principalmente por parte da mulher. Nesses casos, o contrato do casamento vale muito mais do que o amor. Eu, particularmente, penso no amor, ou na falta dele, de acordo com as circunstâncias de cada dia, e o atribuo àquele momento mágico em que me sinto livre, depois do trabalho, com vinho, baseado e música decente. Com ou sem algum Zezinho da vida por perto. Até porque eles estão por toda parte e sempre tem algum disponível, especialmente nesses tempos de comunicação instantânea. A vantagem disso é que a solidão deixa de ser motivo de medo e passa a ser uma alternativa momentânea e necessária para o bem estar e para a sanidade.”

    Numa outra ocasião, a sobrinha perguntou:

    “Tia, o que leva um sujeito a ser mesário voluntário numa eleição?”

    Tia: “Você já conheceu algum?”

    Sobrinha: “Não, mas vi na televisão que isso é possível.”

    Tia: “Isso é só pro Estado testar até que ponto as ovelhas do rebanho podem chegar. Quando deveria estar sendo discutido a não obrigatoriedade do voto, e quando as pessoas deveriam estar se perguntando sobre porque não deixar de votar mesmo com o voto obrigatório, surgem propagandas como essa. Entre os mesários que conheci, não havia nenhum que não estivesse deprimido com antecedência. Mas de repente o poder midiático pode fazer mesmo fazer com que exista, porque alguém acreditou que seria jogo se sujeitar a isso. De qualquer maneira é mais fácil acreditar naquilo que vemos com os próprios olhos, como a proibição da maconha, feita por quem quer que você acredite na ressurreição de um carpinteiro, nascido de uma virgem e uma pomba e que até hoje fazem as pessoas comerem ovos de chocolate trazidos por coelhos bípedes numa data específica. O coelho bípede trazendo os ovos, você não vê. Apenas os comerciais que fazem as crianças acreditarem neles para fins comerciais. Para que haja o convencimento de adultos sobre coisas surreais, as estratégias são semelhantes. O caso do mesário voluntário trata de alguém que vai além de acreditar que o Estado existe pra servir o povo, e não que o Estado seja uma doença apresentada como cura.”

    Um dia, elas estavam ouvindo música e a sobrinha perguntou:

    “Você tem esperança no futuro da humanidade?

    A tia: “Ainda tenho alguma esperança, mas não tenho otimismo algum. Parece ser uma espécie que é movida a catástrofes pra que busque caminhos que justifiquem o que entendemos por ‘humano’. As pessoas que estão no poder são homens brancos velhos, e não se preocupam com o longo prazo. Não podemos esperar qualquer atitude positiva de mudança por parte dessa gente. São lacunas em qualquer escala evolutiva. É difícil aceitar que aparentemente só uma desgraça em grande escala pode mudar as coisas, porque nesse caso, teríamos que sobreviver a isso pra ver a mudança esperada. O que não falta é urgência para que algo seja feito, e atualmente não é por esse caminho que estamos indo. De qualquer forma, toda grande mudança é precedida pelo caos.”

    Sobrinha: “Que música é essa que está tocando? Essa moça canta bem!”

    Tia: “O nome da banda é Affinity. A música é ‘Night Flight’.  Gravaram só um disco, autointitulado, que é maravilhoso. O nome da vocalista é Linda Hoyle, que gravou dois discos solo belíssimos.”

    Sobrinha: “Por que isso nunca toca no rádio ou não se torna popular de alguma forma?”

    Tia: “Os donos das rádios convencionais não queriam que suas ovelhas tivessem acesso a vários artistas brilhantes que ficaram no anonimato. Com a internet, pode rolar um resgate de muitas coisas, mas ainda assim é preciso ter algumas referências pré-internet  para que o resultado da pesquisa seja relevante. Outro consolo é que hoje você pode ter sua rádio pela internet, compartilhando música. De qualquer forma é preciso que alguém queira saber do que se trata, mesmo que por curiosidade.”

  • Orgulho ferido

    Ivana conheceu seu grande amor na faculdade, em uma roda de samba. Adorava o seu humor com piadas rápidas e admirava seu modo simples de se vestir a agir. Também chamou a atenção dela a ousadia e o destemor de falar com desenvoltura sobre política, música e sexo. Foi paixão instantânea o que Ivana sentiu, a expectativa de uma arrebatadora paixão à primeira vista.

    Ivana era sonhadora, com a crença em almas gêmeas e com olhos que brilhavam ao imaginar sonhos impossíveis. Também não duvidava da existência de duendes. Acreditou piamente que havia encontrado a sua cara metade. Casaram-se depois de seis meses, alugaram um apartamento minúsculo em Botafogo e juraram amor para sempre.

    O tempo, como uma maré insistente, foi erodindo tudo e deixou à mostra algumas verdades. Começou com pequenas bobagens. Ivana odiava aquele jeito de deixar as toalhas úmidas no banheiro e não admitia quando o seu amor chegava tarde do trabalho, cheirando a cerveja. O pior eram as desculpas: mais uma reunião com amigos, hora extra no trabalho, uma parada no bar para fugir do trânsito… O bate-boca virou rotina. Discussões constantes e brigas por tudo e por nada.

    O apartamento que já era apertado ficou ainda menor, opressivo. Ivana passou a conviver e a se incomodar com a solidão. Mesmo com alguém dormindo a seu lado, era como se estivesse sozinha.

    As horas pesavam, os instantes de prazer ainda mais raros. Ivana mergulhava no celular, rolando feeds infinitos para fugir daquela inércia regada a desprezo e apatia.

    Uma noite, após uma briga sobre contas não pagas, Ivana estourou. “eu não aguento mais você!”. O primeiro tapa veio rápido e estalado. Ainda com a face ardendo, Ivana não acreditava. O chute na barriga, a seguir, deixou-a quase sem ar. Agachada, protegendo a cabeça, Ivana ainda ouviu ameaças: “aqui não se fala mais em separação, se não quiser tomar outra surra!”.

    Ivana pensou seriamente em terminar tudo, fugir, mas não teve coragem. O amor de sua vida não era daquele jeito. Resolveu esquecer o episódio, mas prometeu para si mesma que não haveria uma segunda vez.

    O pior era a sensação de impotência e vergonha.

    No dia seguinte, Ivana nem soube o motivo pelo qual tinha tomado aquele empurrão. Ameaçou reclamar e tomou um soco na cara. Olho direito. Ao cair, bateu com a cabeça na cadeira. Sentiu-se tonta e custou a se levantar. Mesmo com compressas de gelo, o olho logo inchou. Estava na cara, literalmente, a marca da violência. Não dava mais para ficar ali. Acabaria sendo morta.

    Decidiu nada falar, nem pedir ajuda. Foi para o quarto, pegou uma mala, algumas roupas no armário, livros, objetos pessoais e se preparou para fugir. Sairia do apartamento como uma estranha, sem um adeus, nem um olhar sequer.

    De quem seria a culpa por aquele amor ter acabado daquela maneira. Sentia-se apequenada, reduzida a um traste. Às vezes não se gostar é o primeiro passo para se achar insignificante, sem reação. Gostaria que aquilo tudo fosse um pesadelo e ela fosse despertar.

    Ivana ouviu ruídos de alguém se aproximando por trás: “onde você pensa que vai?”. Ivana tinha um canivete guardado na bolsa. Naquele instante concluiu que não tinha mais nada a perder. A única coisa que Ivana queria era se ver livre daquela prisão. E sair viva. Ivana encarou a amante, de canivete na mão. As duas se encararam. “Ivana larga isso, você não vai ter mesmo coragem de usar”. Ivana parecia decidida. Era tudo ou nada. Alguns segundos de hesitação e o golpe desferido com força e precisão inesperadas. Ivana, agora, olhava a amante, que, sem acreditar, apertava com as mãos o ferimento na altura do umbigo: “mulher maluca, o que você fez?”. Ivana guardou o canivete ainda sujo de sangue, pegou sua mala, pediu licença e saiu.

    Encontre ajuda: ligue 180.

  • Catarina

    Catarina espiava pelas frestas e agia nas sombras. Silenciosa como um peixe, furtava, dissimulava, enganava, chantageava. Ouvia atrás das portas. Envenenava animais de estimação. Matou pelo menos meia dúzia de periquitos com as próprias mãos. Algumas vezes se deitava com os donos das casas. Fez três abortos. Num deles, quase morreu. Em duas oportunidades, esteve a ponto de cometer um homicídio. Destruiu casamentos e arruinou famílias. Jamais foi punida por seus atos.

    *****

    Na sala de estar, Francisco, Teresa e Max comemoravam. O filhote de dálmata não se desgrudava da dona. A casa de classe média havia sido quitada fazia pouco tempo. Moravam perto da Praia das Pitombeiras e do Parque dos Girassóis, que o cachorro adorava frequentar. Vinte anos de casados. Apaixonados ainda. Vanessa, a filha mais velha, estava de partida para a Alemanha. Havia conseguido uma bolsa para estudar teatro com um diretor franco-argelino. Vicente, o filho mais novo, tinha acabado de ser aprovado em segundo lugar para Engenharia no vestibular mais concorrido do país. A agência de viagens administrada por Francisco começava a dar lucro após longo período de crise. Nos últimos meses, Teresa viu a microempresa de chocolates artesanais aberta com a cunhada no ano retrasado aumentar o faturamento de modo significativo.

    Na cozinha, Catarina terminava de lavar a louça do jantar enquanto assistia ao último capítulo da novela. Finalmente, Juçara Penido, a vilã, maquiavélica e pérfida como nenhuma outra, seria desmascarada.

    Agora no quarto, o casal continuava a comemorar.

    — Max, desce da cama! — Francisco ordenou.

    — Não fala assim com ele, meu bem. Não vê que ele se sente tão feliz quanto nós? E é tão limpinho…

    Os filhos não estavam em casa. Teresa e Francisco trocavam carícias quase adolescentes, bebiam um vinho chileno e falavam alto. Ao som de Laura Pausini dançavam E vorrei fuggire via E nascondermi da tutto questo Ma resto immobile qui…

    Perto das onze, Vanessa e Vicente chegaram da rua quase ao mesmo tempo. Os cinco, agora reunidos na sala, continuaram a celebração.

    Uma e meia da manhã, cama do casal.

    — Francisco, que dia é hoje?

    — Sexta-feira… Aliás, já estamos no sábado.

    — Você conferiu o resultado do jogo?

    — Jogo? Hoje não tem jogo, minha pombinha. É no domingo que vou ao estádio com o Rodolfo.

    — O jogo, homem! Da loteria. A gente não ganha nunca. Mas dessa vez eu sonhei. Vamos conhecer a Itália. Sonhei com Florença, gôndolas…

    — Gôndolas são de Veneza, esqueceu?

    — No meu sonho, havia gôndolas em Florença. Navegando pelo Arno… Vai lá na sala, anda, pega o bilhete!

    — Ah, depois, deixa eu dormir…

    Pela manhã, Teresa, logo após acordar, dirige-se à sala. Estranha o silêncio na casa. Àquela hora, Catarina já deveria estar preparando o café na cozinha. Abre uma das gavetas da estante. No local onde os bilhetes e comprovantes da loteria eram guardados, apenas um pedaço de papel amassado e sujo. Nele, com uma caligrafia firme, estava escrito: Caros patrões, a última faxina é sempre a melhor…

  • Os anos de chumbo

    Fui adolescente nos anos de chumbo. Eu não sabia do que acontecia no Brasil, tudo era escondido como se fosse vergonhoso. Nosso comportamento também era controlado, tudo em nome da moral e dos bons costumes.

    Fui expulso do seminário, perdi a fé, depois descobri que meus novos amigos também não tinham fé. Mas a minha falta de fé não era pacífica.

    Por algum tempo, muito pouco, dormi num pequeno quarto, quase uma despensa. Eu rolava, rolava sem parar, estatelava-me no chão e, exausto, fungava, fungava. Os olhos nas paredes, armários, no teto, sobretudo no teto, suas frases escritas a giz.

    “É proibido proibir.”

    “Apareça lá em casa, viu?!”

    “Pois é, falaram tanto.”

    “Make warm not love.”

    “Dê um chute no patrão.”

    “Adivinha quem vem para o jantar!”

    Algumas frases com a indicação da autoria:

    “E vendo o barco se afastar de Amaralina desesperadamente linda e soluçando lentamente.” (Caetano Veloso).

    “O amor move o sol e as estrelas.” (Dante)

    “É preciso respeitar o homem… não ter piedade dele.” (Gorki)

    “Pierrot le fou… lindo!”

    “Estavas tão linda assim no dia dos quarenta e três pores-do-sol!

    “Vivemos na melhor cidade da América do Sul.”

    “Vamos passear na floresta escondida, meu amor.” “É superbacana.” “São Paulo mon amour.”

    “Yes, nós temos” e o desenho de duas bananas.

    E tudo isso eram coisas. Faltaria uma frase de Gorki? “Ninguém deve ser condenado por coisa alguma porque somos todos iguais: bichos.” Bichos? Então não éramos coisas? E um bicho é algo mais? Em alguma parte do mundo, uma criança, em alguma parte do meu coração, chorando. Silêncio em mim. Quem seria eu? Ninguém?

    Urra! Abre os olhos, abre os olhos, bicho! Oscilações, confiança, extremos. Sangue, dor, angústia. A criança chorando, em alguma parte, sem o pequeníssimo barulho enorme da gota de remédio caindo da invisível colher. Cusparada na face do destino.

    Mas o destino tem face? Mas existe destino?

    “…estendes os braços perfumados de giestas pedindo tempo quando não há tempo.” (Dalton Trevisan)

    Meus amigos, não há amigos. Eu sentia a precisão de uma companheira.

    Silêncio. Mas o que era o amor? Talvez uma neurose. “Se queres aprender a amar, esquece a tua alma.” (Manuel Bandeira)

    Eu teria deixado muitas almas por aí, ah, as almas histericamente berrando canções de afugentar as almas.

    “Os corpos se entendem, as almas não.” (ainda Manuel Bandeira.)

    E meu corpo estava vazio. Se eu cria em Deus, qual então a causa da minha angústia? Viver é um paradoxo. Eu estava ali numa cadeira, numa mesa, num quarto/despensa escrevendo não sabia o quê como se isso resultasse alguma coisa.

    Então a mocinha dizia ao pai consternado: “Minha vocação é pra prostituta.”

    O mundo seria salvo, talvez, pelos insubmissos. Mas o que quer que eu fizesse seria uma submissão – ou ao corpo ou ao espírito. Seria preciso muita virtude para se conseguir um estado de completo, perfeito, sumo ateísmo ou teísmo.

    “Deus é virtude.” (Quem teria dito?)

    “Pensarei provisoriamente que a virtude é o que o indivíduo possa obter de melhor de si.” (Gide)

    A criação artística é um ato de embriaguez. Eu procurava a fé, um cristianismo de vida. Problema da fé sustentada no amor? Crer mais importante que ser? Amor, comunhão, conciliação com Deus e os homens? Destino humano, desejo de permanência – a salvação do homem? Quando a volta do homem desiludido? Deus não existia para mim se eu não o aceitasse e não podia aceitá-lo enquanto não emergisse do mal. Haveria salvação para mim?

    Eu continuaria fazendo o meu caminho nem que fosse por falta de alternativa.

    Depois parece que me esqueci de tudo isso, continuei caminhando sem esperar por respostas. Deveria ser o início da maturidade.

  • O instante

    No balcão do bar, à minha direita, com trinta e oito anos, um metro e oitenta de altura e aproximadamente noventa quilos, Júlio Andrade, engenheiro, toma um café com leite. Está sozinho. Foi um pai exemplar até às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem, quando sua única filha, Marita, de doze anos, foi atropelada por um caminhão quando atravessava a avenida a caminho da escola. Ele acabou de enterrar sua menina e agora não tem mais filha. Não é mais pai de ninguém.

    À minha esquerda, com cinquenta e quatro anos, um metro e setenta de altura e sessenta e oito quilos aproximadamente, Cirilo dos Santos, servente de pedreiro desempregado, bebe em silêncio um copo de cerveja. Está sozinho. Ainda guarda no bolso traseiro da calça o bilhete de loteria premiado, cujo resultado ele conferiu na manhã de ontem pela televisão, às oito horas e vinte e três minutos. Está fazendo hora até o banco abrir, quando resgatará o prêmio e colocará fim à vida de privações que ele e sua família levavam até esse momento. Está milionário.

    Um deles pensa naquele instante de ontem como o pior de sua vida; o outro, como o maravilhoso início de uma nova existência. Eu sou aquele instante. Às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem eu fui amaldiçoado e enaltecido ao mesmo tempo.

    Um instante é uma viagem sem roteiro e planejamento, cujo destino final será um simulacro, uma faísca de vida e suas consequências. Faça-se uma fotografia de Júlio e Cirilo no instante compartido no balcão do bar: um deles mal contém a tristeza, o outro, mal disfarça a sensação de pisar em nuvens. O retrato mostrará o que passa em cada cabeça?

    Júlio e Cirilo são a prova de que pode haver horror e alegria num só instante. No mesmo instante. A vida é cheia deles. A vida é cheia de mim.

  • Pais de filhos mortos

    Não sei o porquê de tanta encrenca na vida. Aliás, é muito mais que encrenca, é uma calamidade familiar. Onde foi que eu errei? Dei um duro danado para educar os meus filhos, e de retorno só recebo ingratidão. Morro de desgosto, e, inclusive, minha saúde tem se debilitado progressivamente. Malu não sabe também o que fazer. Será que demos amor demais? Ou será que não foi suficiente? Paulinho, nosso primogênito, cedo caiu nas drogas, por influência dos colegas. Ele foi, quando menor, muito dado, alegre e educado. Foi catapultado para a vida marginal. “Por que, meu Deus? Por que?”. Logo passou a fazer pequenos roubos, porque não admitíamos a sua condição, degradante. Pensávamos que dar dinheiro facilitava a vida dele para buscar os seus abusos. Mas, ainda assim, o fiz incontáveis vezes – por pena, por dor. Ele parou de estudar logo em seguida, e isso foi uma punhalada no meu coração – eu que tanto estudei, fiz duas faculdades, para dar uma vida melhor para meus filhos, levei uma rasteira, mais uma vez, da vida. O guri dizia que escola era coisa para trouxa. Mandei que trabalhasse, então, de qualquer coisa. Ele me mandou à merda. “Vai trabalhar tu, velho lazarento! Não pedi para nascer, e tu é obrigado a me sustentar!”. Quando me lembro dos momentos felizes de sua infância, que ele era grudado comigo, choro de emoção. Paulinho, como disse, foi um menino meigo e superinteligente; brincávamos muito, íamos aos jogos do Internacional, tínhamos uma vida “normal”. Tudo mudou para pior – bem pior. Agora está amasiado com uma qualquer, que sequer sabemos quem é. Malu não concebe não conhecer a própria nora. Já chegou a brigar com o Paulinho, quando ele, pontualmente, apareceu em casa – para pedir dinheiro. Soubemos, por acaso, que está esperando o nosso primeiro neto. Paulinho, talvez por isso, é entregador. Diminuiu as farras. Quiçá melhorou – não para os pais; ele ignora a nossa existência. Não sei como uma pessoa assim não pode ter sentimentos. Será que ele não tem lembranças boas de mim? Choro de saudade do que vivi e do que não vivi. Não dá atenção aos pais. Somos meras fontes de dinheiro. Vivo esperando o dia em que ele vai voltar, como homem, me abraçar como homem, e se mostrar uma pessoa digna… Flavinha, nossa menina rebelde, não partiu para o mesmo caminho, mas, vendo a influência do irmão, resolveu parar de estudar – não tive pulso para segurá-la na escola. Uma psicóloga amiga sugeriu que ela poderia ser psicopata, pelo seu estilo atrevido e por não demonstrar nenhum tipo de emoção. É uma menina bonita, então, absurdamente, inventou de abrir uma conta no OnlyFans, e ganha o seu dinheirinho. A princípio, relutei – sentia uma vergonha monstra. Mas, depois, vi que o corpo é dela, e, já adulta, pode fazer o que quiser. Malu suspeita que faça programa, porque às vezes sai muito arrumada, cheirosa, e não diz pra onde vai – sim, ela e ele não nos dão nenhuma satisfação. E Flavinha sempre está bem financeiramente, sem “trabalhar”. A verdade é que, com relação ao dinheiro, já me arrastaram tudo. Vivo da minha aposentadoria mirrada, de funcionário público estadual. O dinheiro que juntei por uma vida serviu para comprar um carro para o Paulinho e outro para a Flavinha. Carros do ano. Dei de coração, para começarem a vida. Queria que, com isso, nossa relação mudasse, mas vejo, hoje, que é praticamente impossível, que foi a pior coisa que fiz – bem, para Deus nada é impossível. Malu quase morre de um princípio de infarto, de tanto problema que carrega. Eu sou diabético e hipertenso, tenho que regular a alimentação à risca. Somos dois velhos pais de filhos mortos. E isso não convém a uma boa velhice. Somos mais velhos do que queríamos.

  • A cana na moenda

    Os caixas do supermercado entraram em colapso, e eram sete horas da noite de um sábado em São Paulo.

    A escala seis por um a devorar a sanidade dos funcionários. Filas com famílias inteiras com carrinhos cheios de caixas de leite e cerveja, misturadas a pessoas que queriam pagar apenas por um ou dois produtos e desaparecer dali o mais rápido possível.

    Crianças gritando porque pediam aos pais pelos produtos açucarados estrategicamente colocados próximos aos caixas, superexpostos ali exatamente para momentos como aquele.

    Essas crianças certamente já ouviam a palavra ‘crise’, pelo menos em algumas de suas modalidades, mas ainda não tinham consciência do desfalque monetário que aquelas caixas de leite e sacos de feijão fariam no orçamento de seus pais., impossibilitando gastos com excessos nada saudáveis.

    Um casal que olhava para aquele pandemônio à espera de pagar por frutas e pacotes de aveia, começou a conversar sobre o tempo de vida perdido nessas ocasiões.

    Torciam com pouca esperança para que  aquelas crianças não crescessem acreditando que todos os caminhos para a felicidade fossem através de compras.

    Ele falou: “Agora com a guerra torando, tudo vai ficar ainda mais tosco.”

    Ela respondeu: “Pelo menos, não estamos na pele laranja de Donald.”

    E olharam novamente ao redor, a cena geral horrenda, em que o protagonista é o lugar, e não alguma pessoa em especial.

    Onde o dinheiro e a falta dele faz um grande salão hospedar o pior do ser humano.

    E ela com uma camiseta do Yo La Tengo e ele com uma do The Saints.

    Pessoas ao redor, também esperando na fila, às vezes faziam menção de entrar na conversa, mas se continham quando percebiam que o teor do que era dito por eles podia ser direcionado a elas próprias e aos constrangimentos por elas causados.

    A conversa evoluiu da chateação de uma fila de supermercado para problemas sociais crônicos.

    Eles partiam do princípio de que se a pessoa dependesse de um emprego formal, em que dorme pouco, sai pela manhã mal alimentado, sempre correndo e atrasado, sempre com problemas no transporte público, ou mesmo num carro confortável, porém preso por horas no trânsito, só para chegar ao local de trabalho, então a pessoa não apenas está absurdamente longe de pertencer a qualquer tipo de elite, como deveria reclamar dessa péssima qualidade de vida.

    Uma minoria consciente de fato reclama, enquanto a absoluta maioria agradece, alguns inclusive tentando ostentar o que nunca teve, tem ou terá.

    Foi mencionado no início apenas o começo do dia desse cidadão médio, que tem emprego e casa.

    Ele terá ainda que lidar com a falta de dinheiro para contas básicas, tendo que reinventar o conceito de lazer, uma vez que esse setor é automaticamente eliminado de sua existência por falta de tempo, energia e dinheiro.

    Possivelmente não teria nem mesmo vontade, pois teria desenvolvido depressão, no caso de realmente pensar sobre o tempo de vida perdido a caminho do trabalho, e depois executando o trabalho que geralmente enriquece mais alguém que já é rico, doando seu tempo e energia.

    O tempo que sobra para os que tem família é curto e imerso em tensão, devido a problemas financeiros e de estresse pelo cotidiano penoso.

    Um cotidiano tão cruel que condiciona a massa a pensar que essa vida padrão é plenamente natural, de tanto que o povo está acostumado a sofrer.

    Ali havia tempo para que o desespero social pela precária situação econômica do país se manifestasse.

    Pais de família abordando clientes na fila, com uma cesta pronta, com produtos alimentícios básicos, pedindo a eles que façam o pagamento.

    Era algo sobre fome, apelidada de ‘insegurança alimentar’.

    Havia o tiozão do churrasco, com camiseta da CBF, comprando cerveja e carne congelada, pais com carrinhos com dezenas de litros de leite, morador de rua comprando corrosivos corotes coloridos e o sistema ineficaz de estrutura da bilionária rede de supermercados para aglomerar toda aquela gente ali.

    Isso fazia o casal falar ainda mais, pois tinham ideia do que significava aquele desespero.

    Tinham o dinheiro para a sua compra contados em moedas pequenas.

    Algumas das pessoas na frente e atrás deles na fila levavam carrinhos repletos de mantimentos diversos, a um custo fora de qualquer possibilidade para os dois.

    Era um casal para o qual o depois de amanhã já era uma perspectiva de longo prazo, mas acima de tudo, uma perspectiva otimista, de que o depois de amanhã chegará com a humanidade ainda sobre a crosta terrestre.

    Naquele momento em que todos ali eram iguais, presos numa capsula de desolação e ansiedade, o casal podia jurar que aproveitaria cada segundo da vida de uma maneira mais cuidadosa, a partir do instante em que deixassem aquele lugar.

    E nem estavam exatamente mal-humorados. O que havia era um tipo de perplexidade que se dá justamente quando a cena é repetida.

    O homem que alegava ser pai de família e pedia pelo pagamento de seu cesto de compras se aproximou do casal e ficou constrangido de pedir algo a eles, depois de uma recusa fria do tio do churrasco.

    Não apenas por ter visto o modesto conteúdo vegano do cesto do casal, mas também por ter ouvido parte da conversa durante suas tentativas de pedir ajuda.

    Já sabia até mesmo que os dois iriam vender canetas no dia seguinte, nas proximidades de um local que aplicaria a prova do ENEM.

    Já haviam feito isso várias vezes. Ajudaria na receita doméstica e renderia um rolê no domingo.

    Tanto o cara com camiseta do The Saints como a garota com camiseta do Yo La Tengo eram graduados.

     Eles olhariam para aqueles estudantes cheios de medo, ansiedade e majoritariamente sob a mais profunda falta de preparo.  

    Sentiriam mais uma vez todo o desprezo por políticos que deixaram de herança essa situação vergonhosa.

    Sentiriam também alívio por estarem ali sem serem um daqueles estudantes, mas sabendo exatamente o perrengue que aquilo representa.

    Os portões se fechariam, eles olhariam o desespero dos que ficaram de fora e depois se deitariam na grama, já com dinheiro para ir novamente ao mercado, à noite. I

    Para aquele domingo, estaria ótimo.

    A soma da renda de ambos, os classificava como classe média. Antifascistas desde antes de nascerem, de acordo com eles.  

    Diziam sofrer de vergonha alheia a cada vez que se agrupavam por motivo alheio à vontade.

    Mas ainda era sábado, e com a classe média ali misturada aos mais pobres e geralmente sem qualquer empatia com eles.

    A classe média que está tão longe de ser rica, parece ainda mais desolada e vulnerável.

    O medo de empobrecer mais é perene, e atinge o ápice naquela hora da verdade capitalista.

    O pavor de atingir um nível de dificuldade financeira que já é tão concebível nos pesadelos que preenchem as poucas horas de sono semanais castiga milhares de pessoas ainda associados a esta camada social.

    A parcela consciente desse grupo, naturalmente em número muito menor, tem vergonha e constrangimento, desesperando-se diante do fato de o rebanho ser completamente cego.

    Quando finalmente chegou a hora de pagar e sair, a garota do caixa, enquanto passava os produtos, perguntou a eles o que eram um do outro. 

  • Simulações

    Ninguém sabe de quem foi a ideia, que ganhou força quando chegou aos ouvidos do meu avô Nélson. Ele logo organizou as coisas e dividiu as tarefas. Os responsáveis pela criação do primeiro episódio seriam meu pai e meu tio Mário. Estavam todos lá na segunda reunião, realizada no casarão do Cosme Velho, que, ao longo das últimas oito décadas, assistiu a incontáveis momentos importantes na vida dos Bandeira de Assis. Abertos os trabalhos, meu pai fez uso da palavra. Explicou que havia pensado em algo impactante. Uma moça, por volta dos 20 anos, andando sozinha na praia do Flamengo seria assaltada e em seguida estuprada por dois marginais. Alta madrugada, iluminação deficiente e local deserto ajudariam a compor a cena. Minha tia Clarice adorou a ideia e sugeriu um tom explícito. Completou que as imagens nada deveriam ficar devendo à realidade. Minha prima Cecília acrescentou que, já no final da ação, a polícia deveria chegar sem nada conseguir resolver. Aliás, seria ótimo se os policiais terminassem mortos pelos bandidos, opinou ela, levantando da cadeira e agitando os braços finos com entusiasmo. Meu tio Mário, calado até aquele instante, foi enfático: Muito sangue! É preciso que haja muito sangue! Os presentes agitaram-se, um burburinho tomou conta da sala. A reunião seguia, o contentamento era geral, e uma excitação perversa contaminava o ambiente. Meu avô ia aprovando tudo com discretos acenos de cabeça. Na sequência, pediu que meu primo João e minha irmã Lígia falassem a respeito do segundo episódio. Pelo que pude perceber, a ideia partiu dela. Algo bem semelhante havia acontecido com a bisavó de uma amiga sua. Uma senhora nonagenária saindo de uma agência bancária. O cenário era o Méier, tradicional subúrbio carioca, habitado por uma classe média falida. Dia claro e ensolarado, uma gangue de pivetes surgiria de repente, derrubaria a velhinha no chão e roubaria todos os seus pertences. Ela gritaria desesperada, sua voz fraca e rouca, quase inaudível, não lhe seria de muita serventia. A fim de tornar tudo mais dramático, seria importante que a protagonista acabasse morta. Mais uma vez, alguém — acho que meu primo Murilo — propôs que a polícia se mostrasse inepta, incapaz e inábil. A essa altura, todos estavam ansiosos para ouvir a terceira sugestão, esta a cargo de minha avó Raquel e do meu primo Carlos. Linchamento! Linchamento! Foi assim, gritando juntos, que os dois começaram a expor a proposta. Mercadinho de bairro em Bangu, na zona oeste. Jovem maltrapilho, um típico morador de rua, seria a figura central nesse caso. Faminto, o adolescente roubaria dois pacotes de biscoito. O segurança da casa comercial, atento, se apressaria em cumprir sua função. O meliante sairia correndo. No entorno da loja, transeuntes começariam a gritar Ladrão! Pega ladrão! Meu tio Rubem se preparava para fazer comentários quando tiros foram ouvidos em frente à nossa casa. De forma instintiva, muitos dos presentes se levantaram, atravessaram correndo o jardim e alcançaram o portão. Estendidos na rua, emoldurados por poças de sangue, os corpos de quatro homens. A polícia apareceu alguns minutos depois.

  • O aniversário

    Cinquenta anos de idade. Meu presente mais-que-perfeito. O presente que estou me dando. Meio século de vida. Por que comemorar meu aniversário? Estou um século mais velho. O que é que eu tenho para comemorar? Cinquenta anos ou apenas um ano? Faz menos de um ano que eu nasci. Faz mesmo?

    Crescem as dores nas juntas, as rugas, os cabelos brancos. Os dentes apodrecem, o espírito apodrece. A idade pesa nos ombros, a idade tem o peso de um túmulo. Que quero eu da vida? Nada. Dizem que nasci ontem. Mas nasci velho. De repente me descobri velho.

    Quando eu era mais jovem, um homem de cinquenta anos era um velho. Quando cheguei aos quarenta, me senti jovem: a vida começava aos quarenta. Envelheci de repente. Envelheci, sem mais nem menos.

    Nasci ontem? Renasci, depois de um acidente besta. Voltei velho. Voltei estranho. Sou um estranho no ninho. Vegeto ou pouco mais que isso. Me importa o prazer. Boa mesa, boa cama. Sem grandes sonhos. Sem sonhos, existo. Não tenho planos. Quero existir enquanto existo. Não temo o futuro. O futuro não existe. Quero o aqui e o agora. Sem muita determinação.

    Ficam abolidas todas as frustrações. Ser e não ser se dão as mãos. Quais os problemas a resolver? Nenhuns. La nave va. Não tenho problemas. Não vou a lugar nenhum. Não conheço a verdade. Não estou interessado em verdade nenhuma. Quem é o dono da verdade? Matem-no. Ou não o matem. Dá na mesma.

    Olho no espelho e não me encontro. Quebro o espelho. Pelo prazer de não me encontrar em caco de vidro nenhum. Talvez as estrelas se reflitam nos cacos de vidro. Os homens quando morrem, morrem. Tanta gente morta, tantas cruzes à beira do caminho, cruzes anônimas. Tantos amigos, conhecidos, parentes: esquecidos. Vira a página e esquece. A vida é isto: esquecimento. Nenhum dia a mais senão o olvido. Põe uma pedra sobre tudo que passou. Se passou, já não é. Escreve na areia as ofensas, as dores, os prazeres da vida. Tudo passa. Scripta manent: não escreva nada. Por que escrevo? Tantos despropósitos na vida. Quero viver este momento inútil. Escrevo por desfaçatez. Talvez eu deva isso a alguém. Mas não quero pagar dívida nenhuma. Escrevo por escrever.

    Quero viver todos os momentos inúteis que me forem dados. Morrer quando me for dado morrer e desta vez que seja para sempre. Não sou melhor nem pior por isso. O mundo não é nem melhor nem pior por isso. Não sou mais feliz ou infeliz. Ou talvez seja. Talvez eu procure alguma coisa, talvez eu tenha encontrado. O vento me dá na cara neste momento e eu sinto prazer. Os valores estão mudados: sinto prazer. Sinto prazeres mínimos e enormes e me sinto bem.

    Talvez seja necessário dizer isso, para mim mesmo. O resto do mundo? Que se dane. Não posso salvar a humanidade. Não sei se a humanidade quer ser salva. Não sei o que é salvar a humanidade. Existo, mais nada. As dores do mundo? Não posso mais sofrer. Todas as dores humanas, toda a grandeza e miséria humana já não me pertencem. Peço desculpas. Ou não peço, saio de fininho como quem já morreu. Talvez eu já tenha morrido.

  • A alternativa

    É uma cena que há tempos se repete, desde o dia em que meu pai anunciou que tinha perdido o emprego e minha mãe o abraçou dizendo: “Nós havemos de encontrar uma alternativa”  toda sexta-feira, no meio da tarde, o homem de chapéu, terno e gravata toca a campainha e eu abro a porta. Ele sorri, passa a mão no meu cabelo e me entrega o chapéu, que coloco no cabideiro com cuidado. Nas primeiras vezes minha mãe fazia um sinal com a cabeça e eu saía da sala. Agora, com o hábito, não preciso mais do sinal. Vou para meu quarto sozinho e fico lá em silêncio. Faço os deveres da escola, brinco no videogame e coloco peças novas no quebra-cabeça. Duas horas depois, escuto quando o homem se despede e em seguida o barulho da porta da frente se fechando. É quando saio do meu quarto e vejo minha mãe indo para o banheiro tirar o batom e lavar o rosto com sabonete. Ela passa por mim e diz que vai fazer meu lanche.

    Na cozinha, minha mãe canta uma música junto com o rádio enquanto prepara meu chocolate quente e me pergunta se fiz a lição. Vejo que ela esconde o dinheiro no meio do livro de receitas. Logo depois chega meu pai, cansado de andar o dia todo à procura de emprego. Ele me dá um beijo e pergunta se já terminei os deveres. Também beija a minha mãe no rosto e ela avisa que o jantar ficará pronto em dez minutos. E em dez minutos a família está reunida em volta da mesa. Conversamos sobre qualquer coisa, sobre coisa nenhuma, sobre o tempo, sobre como está gostosa a comida, sobre a nota que tirei em matemática, sobre os preços que não param de subir, sobre o desemprego que a cada dia aumenta mais, sobre a necessidade de se arranjar alternativa para ganhar dinheiro nesse tempo de crise.

    Amanhã é sábado e meu pai vai ficar em casa o dia todo. Talvez ele me ajude a terminar o quebra-cabeça. E sei que minha mãe vai continuar tricotando o meu pulôver novo de lã, porque o inverno está chegando e o único agasalho que tenho já está esgarçado.

  • A fuga

    Um caminhão passou por cima de mim, depois da notícia dada por Flávia, minha filha. Ela veio bem cedo à minha casa, enquanto preparava o café, e disse que Murilinho tinha desaparecido. Minhas pernas tremeram, mal pude ficar em pé – fui colocada na cadeira, segura pelos braços, como uma velha coroca. Sentei-me por alguns segundos, recobrei as energias e corremos para sua casa, logo acima da minha. Como Murilinho poderia escapar, de uma residência toda gradeada e telada? Alguém teria feito essa maldade? Saímos pelas ruas gritando. Seu Nonato, nosso vizinho, que estava na porta varrendo, perguntou que alvoroço era esse: “não estou entendendo nada”. Logo ele também se pôs a buscar o Murilinho como podia, com as suas avarias nas costas. Na verdade alardeava mais do que buscava o menino, com o seu jeito expansivo, ou mesmo amalucado. Certo é que não ajudou em coisíssima nenhuma. Murilinho, preciso dizer, é muito querido por todos, por ser educado e comunicativo; um menino de ouro. Flávia já estava exausta de subir e descer as ruas. Eu não tinha o seu pique, e fiquei caminhando pelas ruas laterais. Dona Enedina disse que viu um menino brincando com um gato. Ora, Murilinho é apaixonado por bichos, só podia ser ele. Dona Enedina disse não ter vislumbrado muito bem se era Murilinho, mas sabia que não era menino de rua. Murilinho fora educado para ficar nas quatro linhas da casa. Nunca saiu sozinho, com seus seis anos de idade. Vale dizer que Murilinho era um menino que vivia de casa para a escola, e em poucos momentos curtia a rua, sempre ligado à mãe ou à avó. Por isso todos estavam apavorados. Seu Francis, o dono do bar, homem de poucas palavras, disse que tinha visto um menino correndo atrás de um gato ou um cachorro. As informações se encontravam, e davam conta de que Murilinho não estava muito longe. Talvez alguém tenha tentado chamar a sua atenção, mas o menino, portador de autismo nível um de suporte, não dava muita bola às pessoas desconhecidas. O certo é que Flávia e outros moradores chamaram os bombeiros. O risco é de que o menino tivesse se embrenhado numa mata que fica perto de onde moramos. Os bombeiros foram muito diligentes. Primeiro perguntaram como eram as características do menino – que mal Flávia conseguia responder, chorando; então tive de intervir –; se ele era acostumado com o local; se brincava sempre ali; se tinha amigos etc. Os bombeiros fizeram a ronda, durante seis horas, entrando na mata densa. Depois de um longo período, voltaram com um menino no colo. Era Murilinho, chorando muito! Ele trazia um gatinho nas mãos. Não tivemos coragem de jogá-lo fora, já que o bichano parecia muito afeiçoado ao menino. Hoje criamos o bichano fujão, mas ficamos alertas quanto aos passos de Murilinho, que, pelo visto, tem medo de sair de casa – a experiência não foi muito boa.

  • Crop Circles

    Tinham show às dezessete horas em Hortolândia.

     Chegaram cedo na cidade, apesar do trânsito caótico dentro do Complexo Metropolitano expandido.  

    Era uma festa particular, uma espécie de quermesse organizada por jovens locais, amigos de Mila Cox.

    O local era uma casa com pouca área construída em um terreno bem grande em meio a um grande descampado.  

    A proprietária era uma agitadora cultural de Sumaré, que usava aquele imóvel para promover festas com apresentações musicais.

    Era o primeiro show dos Crop Circles que o novo amigo Silvano acompanharia de perto. Ele nunca tinha visto ao vivo uma banda sem guitarrista.

    Abririam para a banda Random Clowns, que iria estrear o novo baterista.  

    Eram amigos de MIla Cox e Zími, e faziam em seu trabalho uma poderosa sátira social, retratando a sociedade como um circo mambembe de horrores. O som era um hardcore que não fugia do comum, mas eram bons ao vivo.

    Muita coisa aconteceu naquela tarde para Silvano, antes que Mila Cox, ao subir ao pequeno palco e depois de avistar alguns curiós com camiseta da CBF na plateia, estimada em cento e vinte pessoas, abrisse o show avisando que ele e Zími não tocariam “Simple Man” e nem “Hotel California”.  

    A figura daquela garota que parecia ainda mais jovem por empunhar um imponente Fender Jazz Bass azul, parecia impressionar boa parte do público.  

    Dali em diante, pelo menos para Silvano, começava o segundo tempo do rolê.

    Durante uma hora e dez minutos de show, os dois pareciam ser outras pessoas que não aquelas que o uruguaio Silvano conheceu como vizinhos de prédio no centro de São Paulo.

     Uma hora de um esporro sonoro tão estridente, que era difícil acreditar que era produzido por um tiozinho de meia idade tocando um kit minimalista homenageando Slim Jim Phantom e uma jovem de dezenove anos tocando baixo e um teclado de churrascaria e um monte de pedais.. E sem guitarra.  

    Era um alívio para eles quando o show terminava e ainda havia outra banda para tocar.

    O momento em que se juntavam ao público depois de tocarem, podendo assistir à outra banda, fumando e bebendo, proporcionava um sentimento difícil de explicar, algo que envolvia sensação de missão cumprida e de fazer parte de uma iniciativa que mobiliza jovens para ficar, pelo menos por algumas horas, longe do popularesco acintosamente imposto a todos eles.

    Os episódios bizarros envolvendo gente deselegante eram um risco tão iminente quanto um pneu furado ao longo do rolê.

    Depois de um show em Americana, no fim de semana anterior, um sujeito com chapéu e camiseta da CBF, bêbado, perguntou a Mila Cox se o sintetizador que ela usava tinha vindo gratuitamente com a compra de um pirulito.

    Ela logo descobriu que ele era conhecido no lugar, porque era um playboy local, que tomava muito bullying porque na infância teve babá e motorista.

    Dessa vez, Silvano podia ver da lateral do palco que Zími havia superado o pavor diante da possibilidade de dormir a próxima madrugada no carro, no caso de agendarem ali mesmo, após o show, uma nova apresentação para o dia seguinte, em outra cidade nos arredores.

    O dia seguinte era domingo, e quando havia show, era marcado para a tarde, então havia pouco tempo para repetir o esporro estridente.

    Zími explicava para Mila Cox que ele aguenta o rolê da mesma maneira que ela, mas que por ter trinta anos a mais, a recuperação é mais lenta. Ele jamais a decepcionaria nesse ponto.

    Àquela altura da vida, ele procurava ficar longe de drogas e álcool sempre que possível, mas ele bebia muito nessas gigs.  

    Pouco antes de chegarem a Hortolândia naquele dia, passaram num alambique local, descoberto por Silvano, na internet, na noite anterior.

    Então lá estavam às oito da manhã. Havia cachaças de muitas cores, e determinado a experimentar todas, Zími começou a tomar amostras oferecidas pelo proprietário, feliz pela satisfação do cliente, mas espantado com o fato de Zími ter um show naquele dia.

    À essa altura, Silvano só faltou chorar para que ele parasse de beber. Zími tomou onze copos de pinga, uma de cada cor, e apenas dormiu no carro por duas horas, levantando a seguir e tomando uma lata de cerveja comprada numa padaria de Hortolândia.

    O preço era atrativo, e compraram seis garrafas de aguardente, de cores diferentes.

    Pelo menos, o fato de serem um duo ajudava na logística desses rolês em que há pouco a perder. Sabiam que não haveria grandeza onde não houvesse simplicidade.

    Costumavam viajar no Chevette Jeans 79 de Mila Cox, mas dessa vez foram na Kombi de Silvano, com ele dirigindo. Ele tinha uma Kombi porque fazia carretos para complementar sua renda de investidor.

    No percurso, muitas piadas sobre a banda estar se estruturando, sendo que Zími perpetua um sentimento especial pelo amadorismo. Para ele, aquilo era uma forma de estar vivo e distinto de seus amigos que beiram ou que chegaram aos cinquenta anos e que, por múltiplas razões, não podem mais se lançar nesse tipo de atividade.

    Para Mila Cox, de dezenove anos, um show marcado no fim de semana era uma necessidade vital urgente. Planejava entrar na faculdade apenas depois de começar a consolidar seu projeto musical, no sentido de trazer ao seu som uma identidade que ela vê em artistas como Jane’s Addiction e Peter Gabriel, em seus três primeiros álbuns solo.

    Haveria inúmeros outros artistas que poderiam ser citados por ela, por conseguiram, da forma que ela deseja, imprimir identidade própria à música, mas esses mencionados foram mais ouvidos na semana que antecedeu o show de Hortolândia.

    Ela também era muito adepta do ‘faça você mesmo’, e contava com o vigor da juventude para tomar iniciativas que Zími deixaria de lado facilmente, como conversar em redes sociais para divulgar a banda e ir atrás de lugares em que pudessem tocar.  

    Eram tão fascinados pela loucura um do outro que o surgimento de Silvano parecia dar equilíbrio, ao admirá-los sem necessariamente entendê-los o tempo todo.

    A ideia primordial era que mesmo com os gastos com gasolina e comida, eles tivessem algum retorno financeiro, para que ao menos não tivessem que pagar para tocar.

    Naquele dia em Hortolândia, Silvano era responsável pela venda do merchandise, que daquela vez se tratava de um pacote com vinte e cinco cd’s que compilavam todos os singles que eles lançaram na internet até então.

    Conseguiu vender todos, e segundo ele, sem tanta demora. Teriam dinheiro pra comer e encher o tanque para voltar a São Paulo.

    Mas Silvano estava tão bêbado logo após o show dos Ramdom Clowns, que Mila Cox sabia que teriam que encontrar um posto de gasolina para estacionarem e dormirem.

    Depois de seu show, ela tomou dois copos de uma cachaça de abacaxi que compraram no alambique e aquilo foi o bastante para embriagar seus cinquenta quilos de corpo e então não tinha qualquer condição de dirigir na estrada, principalmente num carro que não era o dela. E ainda mais sendo uma Kombi.

    Quando metade das pessoas já tinha ido embora, ela viu Zími Sentado na caçamba de uma caminhonete, conversando com Jarbas, o vocalista dos Ramdom Clowns.

    Cada um segurava uma garrafa de cachaça colorida que compraram no alambique na manhã daquele dia. A garrafa de Zími era uma cachaça com menta e a de Jarbas era de coco queimado.

    Estavam apostando quem aguentava beber mais. A caminhonete estava a duzentos metros de Mila Cox quando ela os avistou. Até que se aproximasse, Jarbas já estava em péssimo estado, entregue, encostado na lateral do veículo.  

    Zími parecia bem, considerando o dia que ele teve.

    Falava que Vargas Llosa era gênio das letras, mas que fracassou miseravelmente como revolucionário.  

    Estavam na rua em frente à casa da festa, e ali pairava a certeza de que nada, exceto a falta de um banheiro, atrapalharia uma noite de sono na Kombi de Silvano, que estava a cinquenta metros de distância deles

    Apesar da festa estar no fim, ainda havia cerca de quarenta pessoas na casa, e um estoque de cerveja sem fim.

     Mila Cox ficou amiga de uma garota que havia levado sanduíches naturais para vender, o que sanou o problema da alimentação.

    Dormiram na Kombi, mas dessa vez acordaram sem ter show marcado para aquele dia. 

     Foram até uma pequena padaria, especialmente por causa do banheiro limpo que havia ali, e beberam muito café com bolo de fubá até onze da manhã.

    Silvano parecia recomposto para dirigir de volta para casa, mas teve que ouvir uma breve e seca repreensão de Mila Cox por causa do jeito que olhou para a garrafa de cachaça de amora que Zími tinha na mão, mas ainda não havia aberto.  

    Entraram na Kombi e partiram de volta a São Paulo.

    Silvano foi dirigindo e estava sozinho na frente, fumando maconha e falando sem parar.

    A Kombi tinha toca fitas e ele colocou uma fita dos Los Shakers, que tocou até que chegassem na garagem do prédio.

    Zimi bebia a cachaça de amora e Mila Cox olhava pela janela.

    Os deuses em que acreditavam eram suas próprias consciências, e nada era pior do que ser tarde demais.

  • O retorno

    No outro lado não havia nada. O outro lado era apenas o outro lado. Voltei branco para casa. Como se já não fosse. Eu estava branco como se nunca tivesse sido. Naveguei pelo Lete como num passeio de domingo. Atravessei o Lete e era como se não tivesse ido a lugar nenhum. Conheci que a morte não é nada, uma hora em que tudo está consumado. Os dentes estavam podres, o passarinho seco no armário. Não havia mais nenhum poema a escrever, não havia unha a cortar, não havia barba a fazer. Havia bolor na manteiga, no pão sobre a mesa. Meu cachorro não me reconhece. Sou um estranho em minha própria casa. Sou um estranho no espelho. Sou uma ausência do lado de fora do espelho. Meu gato perdeu o caminho de casa, geme no horizonte sob a lua. As luzes se apagaram. Um nó nos fios que me ligam a parte nenhuma.

    Você me pergunta se foi bom. Eu respondo que o sonho acaba como quisermos. Há lixo nas ruas, em casa, nos bueiros. Em todo lugar há moscas e ratos e baratas. Deixar de ser é um ato de extrema pureza. Não porque última, mas uma essencial pureza. Os olhos estão nublados, a doçura da cegueira. O universo me ilumina no escuro. Não caminho em linha reta. Não sinto os meus pés, ou estão em brasa, pouco importa. O arame farpado fere as minhas mãos, o peito, o sexo. Eu sorrio como se não fosse comigo, alheio ao ser que em mim pensa e sente. O tempo me devora. E eu estou no sótão me contemplando. Ou no porão com água até a garganta. Bebendo a água do tempo. Teço o ríctus e o sorriso da inocência. Tenho cinza nas mãos. Eu já fui esse punhado de cinza. Ser pó era tudo que almejava. Antes e depois se confundem no pó. Quisera a loucura e toda a sua beleza. Agora todos os desejos se apagaram. O futuro não é mais que uma linha de giz. Ser é uma linha de giz.

    Quero soltar os meus demônios. Já voaram comigo sobre os abismos. Hoje são moscas tontas ao redor de uma lâmpada. As moscas morrem comigo presas no mel. A felicidade é o ser que esgota o seu tempo. Tudo é fluir. E parede, parede, parede. Mas a própria parede é fluir. Criar um corpo é ignorar o corpo. Já não somos donos de nada. Fluímos. O rio é vermelho de tanto fluir. O homem flui através de si mesmo. Fluir nega o ser. Somente a náusea é bela. O vômito é um poema de luz. Eu estou fora do livro. As minhas letras caíram à beira da estrada. Nada é bastante para a minha falta de sede senão que a falta de sede ainda é sede. Essa mulher me quer. Essa mulher, o corpo da mulher me justifica. Estou confuso e luto contra o anjo. Quem me garante que a ficção acabou? Quem me sonha, sonha duas vezes o mesmo sonho? Estou vazio de mim. Sexo é o corpo do ser. Estou suando em agonia dentro da mulher. Estou vivo e não sonhar ainda é conhecer. Não sei o preço da vida. O abandono é a minha herança. O sexo é o tempo e os pomos dourados do outono caem. Não há mais respostas porque não há mais perguntas. Onde estou não é um lugar, domicílio ou prisão. Meu compromisso é não ter compromisso nenhum. Sofro a ingenuidade de ser. O jogo acabou. Uma mulher me espera. O reconhecimento do ser vem da cama.

    Você era, não é. Volta a ser ou não. Eu exalei o último suspiro, um gemido fundo como se buscasse o fundo do fundo da alma. O mundo acabou. Bastava o meu sorriso de bobo. Eu era um idiota com todos os dentes à mostra e nenhuma história mais a contar. Sem nenhum estrondo, sem aviso prévio, o mundo acabou. Um balão sem nada dentro. Mas tenho que me render: a angústia ainda me vira o estômago.

  • Memória para último uso

    No dia de seu aniversário de oitenta e cinco anos, ele saiu de casa pela primeira vez depois do longo período em que seus passos só conheceram o caminho entre o quarto, o banheiro e a cozinha. Era outono e fazia frio, e sua garganta rascava. Com esforço, chegou até o banco costumeiro, na avenida diante do mar. Por sorte estava vazio e era disso que precisava: ninguém por perto, nenhuma presença que o incomodasse, nenhum olhar curioso sobre a sua pessoa. Soltou o corpo sobre o assento e tirou o chapéu. Estava cansado. Tossiu e levou a mão à garganta, identificando o incômodo. Passou os dedos pelas tábuas do banco, acariciou os nós da madeira e depois perdeu o olhar na imensidão que tinha à frente. “Este banco é mais confortável que o anterior, de pedra. Mas o mar continua o mesmo de sempre, traiçoeiro.” Olhou as ondas e sua mesmice. Fechou os olhos e respirou devagarinho.

    Quando levantou as pálpebras instantes depois, viu-se com dez anos sentado na areia, fazendo castelos com dois amigos. Em seguida tinha vinte anos e sentiu nos lábios sabores novos: a primeira taça de vinho tinto, o beijo de Marilda, o sangue que a bofetada de seu pai produziu.

    Continuou olhando o mar e apreciando as imagens que passavam diante de seus olhos: a trincheira durante a guerra, a dor, o companheiro que pisou numa mina e perdeu uma perna, a fome, o rádio, as cartas de Marilda, o frio, o cheiro de pão fresco, as fotografias, o casamento, o sorriso de Marilda, o trigo queimado, os filhos, a cidade, a televisão, o trem, o trabalho, a casa que tinha construído à custa de dinheiro poupado por anos, a ausência de Marilda, a solidão, o abandono, o esquecimento, o banco de madeira que antes era de pedra, o mar, a areia, uma lágrima, um sorriso — tudo o que acreditava perdido, até aquele momento, nalgum escaninho da memória. Aprendeu, sentado naquele banco, a abrir os olhos sem medo, a fechá-los sem culpa e a tranquilamente dizer adeus a tudo.

    Certas memórias doem e não cicatrizam. Em vez de obscurecerem com o passar do tempo, como acontece com lembranças desimportantes, elas, pelo contrário, permanecem, fazendo apenas as outras desaparecerem. Essas memórias escurecem como lampadinhas enfileiradas que se apagam uma a uma, lentamente, desafiando a capacidade humana de lembrar. Gritam para continuarem vivas.

    Ciente de que não sabia nadar, caminhou devagarinho na direção da água.

  • Não sei se isso faz sentido

    Cheguei ao fim da linha. Não basta seguir por seguir, sem propósito. A vida me impôs barreiras e superei quase todas. Agora, depois dos sessenta, estou endividado, falido e exausto. Tudo por causa da minha consciência franca, para acreditar nas pessoas. “Celso, tu tem condições de comprar isso! Tu pode viajar, espairecer”. E fui entrando numa bola de neve, apesar de ganhar bem. Trabalhando na iniciativa privada, é hoje, não é amanhã. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mudou, para pior. Descartável – como suponho –, fui posto para fora do trabalho. Soube que ocupa o meu lugar hoje um rapazinho de seus dezoito anos. Tem mais gás – é verdade –, mas não tem a minha experiência em analisar planilhas, escrever os relatórios etc. e tal. Por isso a minha falta de ânimo e de crença no amanhã. Não fosse uma reserva que guardei, passaria fome. Digo que só sou eu no mundo. Meus pais morreram, e apenas sobrou uma tia-avó endinheirada, mas mão-de-vaca. Não posso, nunca, contar com ela. A fortuna dela provavelmente ficará comigo, caso não tenha feito um testamento para doar ao clube de terceira idade, onde participa, ativamente, das atividades, como o bingo. A única alegria que tenho é o Biloro, o meu cachorrinho. Não me cobra nada, a não ser carinho. É um bichinho inteligente pacas. Sabe quando estou mal e passa o dia deitado perto da minha cama, para me fazer companhia. Ligo para titia, para trocar umas palavras, e ela logo desliga, dizendo que não tem tempo. É durona, aos noventa e três anos. E é intragável (esqueçamos dela)… Tenho algo como mais seis meses para gastar as minhas reservas. Algo de bom tem de acontecer. Entrego meus currículos em várias empresas – sem aquela loucura de ser manual; é tudo virtual –, inclusive internacionais. Posso trabalhar como jornalista e redator, já que tenho curso superior em ambas as áreas. Paula diz que conseguirei dar a volta por cima. Ela é minha amiga e ignora o estado em que me encontro. Na verdade, é um pouco infantil e fantasiosa. Quer que eu faça algum exercício para não entrar em depressão. Mas a maldita já me ataca há anos. Falei a ela e a coitada disse que não se lembrava: “Perdão pelo lapso!”. Como vou conseguir superá-la? É algo sério que venho tentando há anos lutar contra, e fracassando arrasadoramente. Os médicos também me cobram alguma atividade física. Terei de fazer, a contragosto. É isso. Não tenho muito mais a dizer. Recomecei a psicanálise, e o analista pediu para eu escrever este relato, para que pudesse “elaborar” os meus problemas. Fábio, o tal psicanalista, é um tanto romântico, imagino, porque tem muitas ideias felizes. “Faça um passeio no parque e leve o cachorro. Vocês terão um dia muito agradável!”. Gosto do Fábio, ele realmente sabe me convencer, com jeito e cuidado. Tenho pouco a quem recorrer. E às vezes sou convencido de que há saída. Mas as minhas emoções são voláteis; tenho dias bons e ruins. Hoje, acho que devo continuar, lutar pelos meus sonhos. Um deles é escrever o meu primeiro livro. Será uma realização. Nunca tive tempo para coisas assim, agora aproveito para escrever. Escrevendo viverei. Oxalá esteja certo desta vez.

  • A escova de dente que não era de ninguém

    Os atritos começaram quando ela, aos dezesseis anos, se recusou a tirar o título de eleitora.

    Vestia uma camiseta desbotada dos Bad Brains e disse que teria o título apenas quando fosse obrigada, aos dezoito anos.

    Dizia sempre que jamais votaria, em quem quer que fosse.

    Desprezava todos os políticos.

    Dizia para quem perguntasse: “Tanto a direita quanto a esquerda cheiram a merda, e são as duas pernas de um esqueleto moribundo.”

    Seu tio estava em campanha para vereador e vinha se sujeitando a todas as presepadas que só um político profissional é capaz, e naquele momento, não contar com o apoio irrestrito da família era para ele uma derrota e um insulto.

    Muito antes das questões relativas à sustentabilidade virem à tona, impulsionadas pelas catástrofes ambientais agora visíveis até pelos mais desprezíveis defensores de falsos conceitos de desenvolvimento, que envolvem lucro sujo e imediato, ela criticava o descaso por consequências de médio e longo prazo para que se mantenha a possibilidade de vida humana no planeta.

    Ela vivia questionando também se a vida humana no planeta de fato valia a pena.

    Sabendo que a máquina estatal é um moedor de sonhos populares e sucumbindo às vaidades do poder e às suas ambições materiais, o tio finalmente foi eleito vereador.

    Temia o repúdio eterno da sobrinha, mas aquele propósito era um projeto de vida que para ele visava a garantia de um futuro sem preocupações materiais, uma aposentadoria precoce e o resto de sua vida contabilizando dividendos que fariam a preocupação com os temidos boletos da vida se transformarem numa lembrança pálida e distante.

    Quando viu seu adesivo de propaganda eleitoral com sua cara retrabalhado pela sobrinha fazendo de sua imagem um meme para o avacalhar diante de todos, e fazendo dele um motivo de chacota para a família, soube como nunca que seu caminho não tinha volta.

    O escárnio por parte da família ainda era discreto e corria às suas costas, exceto por parte da sobrinha, cuja opinião sobre políticos em geral ele conhecia bem.

    Os outros parentes ainda sustentavam resquícios de reconhecimento pelos seus esforços para atingir aquele objetivo, que uma vez atingido, se revelou ser menos relevante, sobretudo do ponto de vista ético.

    Agora eleito e cumprindo protocolos que garantiam seu salário vantajoso, podia desfrutar acima de tudo do esquecimento de seu eleitorado, que desesperado a cada dia na luta pela sobrevivência, não cobrava por promessas eleitorais feitas enquanto ele cinicamente comia pastel na quebrada dizendo que a vida do povo iria melhorar.

    Esse distanciamento vantajoso era contrastado com o vazio familiar antes anestesiado pela sede de poder que o acompanhava ao longo da vida e que durou até pouco depois da eleição.

    A sobrinha era o pivô dessa sua nova inquietude existencial, já que era impossível fugir dos noticiários que, mesmo mostrando de forma parcial e editada toda a vergonha que representa a máquina estatal, ainda assim apunhalava agora a sua consciência.

    Isso passou a atormentá-lo cada vez mais à medida em que o tão desejado objetivo foi se mostrando oco e opaco diante de um cotidiano permeado por relações corruptas que invariavelmente se sobrepunham a qualquer fagulha de boas intenções inerentes à sua essência humana.

    O carro luxuoso, a dispensa cheia de importados e o terno cortado sob medida eram agora tão cotidianos, que a tão sonhada aposentadoria precoce e sem problemas financeiros logo se tornaram uma confusa perspectiva, uma névoa sobre qual seria seu legado deixado quando sua finitude natural começasse a se aproximar e pesar muito mais que seu poderio financeiro.

    A sobrinha ingressou na faculdade, mudou-se para o interior e seu distanciamento com o tio era apenas uma molécula de desprezo se comparada ao sentimento que ela tinha pela classe política como um todo. 

    As conversas sobre política que ela ouvia quando entrava em qualquer padaria faziam tanto sentido quanto a existência dos envolvidos.

  • Altruísmo

    Magda era o seu nome. Juliette, o de guerra.

    Sempre chamara a atenção, desde pequena, com seu corpo bem feito e precoce. Na adolescência dera problemas. Tinha as pernas da Virgínia Lane, a avó comentava. A mãe não sabia quem era Virgínia Lane. Magda gostava de ser comparada a uma vedete. Ainda mais uma vedete que arrebatara o coração de um presidente.

    Molestada por um tio, agarrada no elevador por um vizinho taradão, sem freios e ingênua, não demorou para perder a virgindade com um colega do colégio. Sem dor, sem sangue, sem prazer. Com a inexperiência e o mau jeito do tal colega, tinha sido ela quem, quase todo o tempo, conduzira a relação. Puro instinto. Magda parecia talhada para o sexo.

    Filha única e com o pai ausente, não tivera nenhum irmão a tomar-lhe conta e nem um pai para lhe encher o saco. A mãe dava-lhe toda a liberdade, mais preocupada com ela própria. A avó, a essa altura, já dava sinais de demência.

    Agora, o corpo de Magda se destacava ainda mais. Quase um acinte. Sua beleza saltava aos olhos. E ela nem era assim tão vaidosa. Quase sem maquiagem, cabelos escorridos após o banho, blusa com decote e uma calça jeans, e ela angariava cada vez mais fãs e olhares de cobiça.

    A mãe a acusava de vulgar e de fazer de propósito para virar a cabeça dos homens; a avó não via nada demais; e Magda não ligava para o que as duas pensavam.

    Não concluiu o segundo grau. Magda não gostava de estudar. Colecionava namorados e admiradores. Não fazia questão de resistir às cantadas e, com um ou dois drinques, topava logo ir para cama.

    Com um deles, engravidou. Optou pelo aborto clandestino e as consequências de uma infecção uterina custaram-lhe a impossibilidade de ter filhos. Além das sequelas físicas, um trauma: nunca pensara em se casar, mas sonhava um dia ser mãe. No mínimo, dois filhos.

    Com a morte da avó e o descaso da mãe, Magda começou a busca por emprego. Não foi difícil. A cada entrevista, uma saia mais curta e alguns sorrisos bastavam. O currículo ficava para depois. Inúmeras promessas, sexo interesseiro e nada de emprego na prática.

    Foi quando uma amiga sugeriu que ela fizesse alguns programas com gringos. Pagavam em dólar. Dinheiro fácil. Já estava dando mesmo, por que não cobrar? Daí para se organizar e passar a ganhar a vida vendendo o corpo foi um pulo.

    Como Juliette, cobrava alto e não ficava sem clientes. A vida melhorou rapidamente e ela chegou a dar entrada num carro novo.

    Até a mãe, que havia cortado relações com ela, voltou a se aproximar. Tudo parecia estar indo bem.

    Um detalhe, no entanto, intrigava Juliette: por mais que tentasse evitar, quando estava trabalhando gozava quase multiplamente. Um contrassenso clássico.

    Os clientes desconfiavam que ela estivesse atuando. E exagerando na dose. Alguns chegavam até a reclamar que aquela farsa incomodava e que ela não ia conseguir enganar ninguém. Desfaçatez tinha limite.

    Mas Juliette não conseguia se controlar. E o pior, os orgasmos mais intensos vinham com aqueles mais improváveis.

    Eram senhores caquéticos, com barrigas enormes, carecas (alguns com peruca), e lá ia Juliette com seus orgasmos escandalosos. Quanto mais desprovidos fisicamente e com aparência desagradável, mais Juliette se sentia atraída.

    Ela, então, decidiu que aquilo tinha de parar. Precisava ser profissional. De agora em diante, se gozasse não ia demonstrar. Ninguém iria saber de suas sensações, preferências ou manias.

    No íntimo Juliette amava o que fazia. Podia ser sua vontade de ajudar o próximo, incontrolável atração pelo oposto, teratologia ou alguma consciência social. Não sabia explicar. O certo era que Magda havia nascido para ser puta.

  • A menina e a caixa de sapato

    A menina encontrou uma caixa de sapato na soleira da porta de casa. Era uma caixa enorme – devia ser um homenzarrão, pensou a menina. Dentro um bebê, com um gatinho recém-nascido no meio das pernas. O bebê era minúsculo, peladinho, a pele quase transparente, esticadinha. O gatinho era molinho, parecia que a gente ia esmigalhar, só de pegar.

    A mãe gritou lá da cozinha:

    – Que é, Cidinha?

    – Nada, mãe.

    – Essa menina, disse o pai.

    E a menina – só a menina, sem nome mesmo; essa menina! –, a menina toda ansiosa correu esconder a caixa de sapato. Apertava no peito – é minha! Queria esconder nas costas, debaixo do vestido, dentro da boca, dos olhos enormes. Escondeu embaixo da cama, até que o pai e a mãe fossem trabalhar.

    – Cuida da porra da casa, disse o pai. – É só uma criança, disse a mãe. – A casa é a porra da casa, disse o pai. E bateram a porta.

    Enfim sós. O coraçãozinho apertado – ver meus bichinhos, uh!

    Pegou a mamadeirinha da boneca, encheu de leite, tomou um pouquinho – um golinho só, para experimentar. Ficou olhando para os dois bichinhos na caixa de sapato – para qual primeiro? O gatinho, está chorando mais alto. E enfiou a chupetinha entre os dentes do gatinho, que virava os olhinhos pingando remela. O nenezinho só soltava um gemido, fino, fraquinho, nem se ouvia.

    Logo é a sua vez, disse a menina. E olhou bem: – Você é macho ou mulher? Não tinha nada no meio das pernas – xi, será…? Vai que não nasceu ainda o pintinho dele. Enfiou a mamadeira na boca do coitado – bebe, tonto! E o tontinho não bebia. Nem chorar não chorava – será que morreu, essa porcaria?

    O gatinho se virava de lado, miu, miu, soltava um miadinho sem graça. O nenezinho, nada! A menina fez beicinho – e agora? Fez cosquinha na barriga do gatinho. Depois fez a mesma coisa no nenezinho; ergueu, escutou o peitinho, depois o nariz – encostou o nariz no nariz dele. Pô, jogou o nenezinho na caixa de sapato. Ai, logo se arrependeu – e se cai em cima do gatinho?

    Arranhou o dedinho – esse ainda está vivo. Mas como está lambuzado! Pegou o pano de prato e esfrega, esfrega, quase mata o gatinho – ou será que não está morto não? Aperta bem – nem um gemido! Está mortinho da silva, ela disse. E foi apertar o nenezinho, mais mortinho ainda. Aperta que aperta, bem no pescocinho – se não estava morto, agora está!

    E agora? Que é que eu faço com essas duas coisinhas? Enfiou na caixa de sapato, socou bem – pareciam maiores agora – e foi botar na porta da vizinha. Pensou em chorar, só um pouquinho – estavam mortos mesmo, disse, e foi varrer a casa.

  • A peça mais preciosa

    A senhorita Mariquinha Penaleve era tão pequena que nem se dava ao trabalho de usar salto alto; sabia que nem assim seria notada. Quando caminhava pela calçada todos a confundiam com uma menina. Nem sequer pensavam: “Mas que mulher pequena!” Era só uma menina o que todos viam.

    Se, por um lado, ser confundida com uma menina compensava seu complexo de estatura, por outro trazia um problema: nenhum homem a olhava como possível namorada ou esposa. Como formar uma família com uma mulher tão pequena? Tampouco o senhor Arturo, o dono da loja de antiguidades, dava atenção a ela, mais ocupado em limpar e lustrar as peças de metal dourado que adornavam sua vitrine. A senhorita Mariquinha passava horas na frente da loja observando como o senhor Arturo mimava os objetos, com que delicadeza os acariciava!

    Uma manhã, Mariquinha acordou decidida: era hora de empurrar o destino e mudar sua sorte. Marcou hora no cabeleireiro, na manicure e na maquiadora. Saiu do salão de beleza com os cabelos parecendo fios de ouro e os olhos como duas bolinhas azuis de gude. Foi para casa e tirou do armário o vestido rosa de tule. As sapatilhas de bailarina e um pequeno chapéu com fita lilás completaram o efeito que desejava: agora ninguém mais a confundiria com uma menina, nem o senhor Arturo. Todos teriam certeza de que se tratava de uma boneca, dessas de fina porcelana. Hoje o antiquário dedica horas de cuidado e carinho para a senhorita Mariquinha e a expõe na vitrine como a peça mais preciosa de sua loja.

  • Posso ser escritor

    O último gole de café foi tomado rápido, para satisfazer a premência do dia. No ato, num pulo, fui à sala do chefe, para atender a uma demanda (ele chamou, quase gritando, numa ânsia descomunal, como lhe é peculiar). Com a vista cansada, de passar o dia no computador, tive um pouco de turvamento. Titubeei. Um amigo percebeu e pediu para eu me sentar novamente, que ele iria no meu lugar. Logo retomei a consciência e fui ao chamado urgente, urgentíssimo. Cambaleante, tinha de seguir. Então, fui pé ante pé, devagar. O chefe, como sempre, me disse que era urgente – me alertando – o que teria de ser feito. Eu deveria olhar três grossas pastas e atualizar a movimentação dos processos – era, como é de fato, o pior serviço do mundo, em que tenho de olhar cauteloso e constrito, longe do mundo ao redor, para não perder o fio da meada. Já estava decretado, eu teria um dia difícil e pouco aprazível. Não faria minhas intimações com vontade, como o gosto de fazer. Teria, a meu ver, de me preocupar com o supérfluo. E o chefe atentou para o fato de que eu não deveria dividir as funções, porque eu era o responsável por aquele tipo de ação. Voltei ao computador, já com as pastas em mãos, deixei-as no birô e peguei a xícara vazia – sempre que há algo de que eu não gosto no trabalho, tento me desviar um pouco, vou ao banheiro, vou à copa para pegar um café, mas não fico parado; isso serve para recobrar as forças. Fui rapidamente à copa, para pegar mais café – a verdade é que preciso de café constantemente, para viver, para ficar alerta durante o dia. Ali, me detive um instante-eternidade, para recuperar as forças – é o que faço independente do gosto do chefe, que fica resmungando à sua mesa porque não comecei a trabalhar. Já não podia mais, de cansaço desmedido – de uma noite mal dormida, para completar –, e a tarde se arrastava. Maurinho, meu filho, tinha vomitado a madrugada toda, estava enjoado e mal. Não foi ao colégio e ficou com a avó. A todo instante pensava nele, e que por ele me submeteria a qualquer abuso – ainda que não pudesse chamar o meu trabalho de abusivo, era somente chato e repetitivo. Peguei o café e bebi desalentado. Minha mãe ligou, dizendo que Maurinho não tinha melhorado e que iria ao hospital com ele. Tive pena e medo do que pudesse acontecer ao meu filho. É justo ficar pensando no filho e não poder fazer nada para ajudá-lo? Pensei: “os dias parecem ser todos iguais; mas uns piores que os outros”. Levemente, na minha mesa, baixei a cabeça e, por um descuido, tirei um leve cochilo. Sonhei, furtivamente, que estava na Bulgária, tomando um vinho e escrevendo. Paulo, meu colega, me deu uma leve tapa no rosto e tornei à realidade, pensando em ler Viktor Frankl – um livro que me agradara muito – e o sentido da vida, além de pagar boletos e coisas comezinhas. Viktor Frankl, por um dia, me salvou, porque sei que, nalguma adversidade, posso ser escritor.

  • Eutanásia

    Um dia, Zími falou para Mila Cox:

    “O seu destino é criar, não cumprir.”

    Ela nunca esqueceu dessa frase, não esqueceu também que naquele dia Zími usava uma camiseta com a cara do Mark E. Smith, mas esqueceu das circunstâncias em que ela foi dita.

    Já fazia anos, foi antes da pandemia, e eles tinham acabado de montar a banda Crop Circles.

    Ela ainda morava com a mãe na Penha, e ele morava sozinho na Bela Vista.

    Agora moram juntos num apartamento na Liberdade. Mila Cox perguntou para Zími se ele já tinha algum hater. 

    Zími respondeu:

    “Eu nunca tinha pensado nisso, então provavelmente não tenho. O que eles fazem? Falam merda na internet? É um pântano cheio dessas criaturas cheias de ódio. Eu tenho certeza que falho na minha promoção pessoal, falho na minha publicidade individual, porque eu cago pra isso. Já existe a publicidade sobre a banda, que você faz da maneira certa, e pra mim é o bastante. Mas se algum cretino que nem me conhece começar a falar mal de mim, a publicidade em cima de mim seria muito maior do que qualquer publicidade que eu mesmo possa fazer. Quando se trata de outra pessoa falando, ganha mais peso, por mais contraditório que possa parecer. Na música, nos manifestamos contra a barbárie e o fascismo, e quem está no sentido contrário terá problemas com o mundo e com a vida, não será comigo. Mas nunca recebi mensagem de ninguém que se declarasse hater. De qualquer forma, se existirem, quero que se fodam.”

    Mila Cox respondeu: 

    “Perguntei só pra ouvir o que você responderia. Eu sei que você não tem haters, eu saberia se tivesse.”

    Zími falou:

    “Quando esse tipo de coisa surgiu, de ter haters ou ter seguidores, eu já tinha idade pra não levar essa merda a sério. Antes da internet já havia a noção geral de que não devemos nos animar com elogios e nem desmoronar com críticas. Mas ao longo desse tempo, o que mais me choca é que existem os “influenciadores”. A pretensão de quem se autodenomina influenciador é algo  que até hoje eu não sei nem mesmo se quero entender. E se formos falar do influenciados, estaremos revisitando as músicas que fazemos, sobre como as massas são teleguiadas e precisam desesperadamente de um líder, que surge em alguém que simplesmente se autoproclama líder. Qualquer picareta com certa audácia é capaz de fazer enormes estragos sociais.”

    Cox foi a primeira garota vista por Zími a usar uma camiseta do Van Der Graaf Generator. Agora ela reclama da domesticação do rock e tripudia a absorção do gênero pelo corporativismo. Critica a auto censura, o silêncio e a conformidade da cidadania diante de escândalos bizarros da elite. Tem vinte e um anos e seu combustível é literatura beat, rock obscuro e tensão urbana. Mas ela nunca saberá como era o mundo antes da internet, e não se importa com isso.

    Ela diz:

    “Isso foi no século passado. Agora é tempo de tentar impedir a agonia da esperança de que estejamos não apenas em um novo século, mas também em uma nova era. Infelizmente estamos em meio à terceira guerra mundial. Pelo menos não falta assunto para novas músicas.”

    Estava com um caderno aberto escrevendo sobre como a sociedade é mais desagradável do que uma noite dormida num terminal de ônibus. Zími dizia que Cox parece a mistura de Lydia Lunch com Harriet Wheeler.

    Ela diz que Zími é a mistura de Slim Jim Phantom com Jello Biafra.

  • Gênese

    Fui espiar o gato que miava no jardim, à noite, um miado esganiçado como se o estivessem estripando. Olhei as estrelas, a mancha branca da Via Láctea e a lua com suas manchas retorcidas. Pensei no que haveria por trás dessas estrelas, outras estrelas talvez, por trás da nossa galáxia talvez outras galáxias. Me lembro de Fernando Pessoa: “Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.”

    Foi Baudelaire quem falou da palavra que nomeou o mundo e que nomeou Deus. Foi Deus quem nomeou o mundo, mas foi a palavra quem nomeou Deus. Deus subjaz à palavra. Que frase, hein? Deus subjaz à palavra. Mas, como tudo começou? Com a palavra. Mas quem lançou a palavra, antes de Deus? Quem criou Deus? A palavra. Mas, quem antes da palavra?

    No princípio era o caos. Este é o verdadeiro princípio. O caos. Ou o nada. Impossível imaginar que antes do nada ou do caos surgisse o universo. Algo se moveu, do nada. É o que a ciência até hoje sabe. Algo se moveu. Não existia nada e algo se moveu. A explosão primordial. Há uma campânula, e o vácuo. Uma bola de papel é jogada nesse vácuo, como numa sala vazia. E é criado o universo. Uma explosão que quebra o caos ou o nada, e é criado o universo. Deus deu o petardo na bola de papel. Dizem que Deus é inteligente. Um belo jogador de futebol. Falam na ordem do universo. Um belo petardo nos colhões do universo. E instaurou-se o caos, se é que caos já não havia.

    Caos é o que sempre houve. Ingenuidade falar-se em ordem. Prova da existência de Deus. A ordem ou o caos? A ordem ou o caos, antes ou depois de Deus? Haverá um antes de Deus? Deus há porque há a ordem, mas se não há a ordem, se o que eu vejo é sempre caos?

    Olhe para as estrelas, a harmonia eterna das estrelas. Mas a astronomia nos ensina que não existe harmonia eterna. Existe o caos dos corpos celestes. O universo vive numa harmonia periclitante. Por um triz, e zás!, não existimos mais. Zás!, e nem deveríamos existir.

    Quem somos? Partículas ao acaso, dançando no vácuo. Um dia cairemos. Um dia? Não estamos já no vácuo? E estar no vácuo não é já não existir?

    Querer compreender quem sou, que infantilidade! Querer compreender qualquer coisa é infantilidade. Quem somos? E ainda mais, quem somos quando crianças.

    Quem seremos quando adultos. Crianças, somos obrigados a ser, no futuro. O homem é uma eterna criança.

    O futuro a Deus pertence, diz o ditado popular. Pois fiquemos com o ditado popular. O futuro a Deus pertence. Não às crianças. Deixem-nos a nós, crianças, em paz. Mesmo que já sejamos adultos. O homem é uma eterna criança.

    Eu não quero ser mais nada. Eu sou, ainda, uma criança. E eu, criança, já sou. Eu existo, e pronto.

    Lá fora o meu gato continua miando para a lua, a minha mulher suja os pés na
    lama do jardim para buscá-lo, entra com ele nos braços, resmungando. Olha para mim, como se eu fosse o responsável por tudo: o gato, a lama, a noite, as estrelas. É como se me dissesse: O que você conclui disso?

    Não me venham com conclusões. A única conclusão é morrer, disse o poeta.

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