COntos

  • A vida dos outros

    Quando Januária, a empregada, entrou na sala e anunciou que a comida estava na mesa, ele, o vizinho do prédio em frente ao nosso, continuava na mesma posição e nada tinha mudado desde a manhã: só de cueca, sentado numa cadeira frente a um grande espelho, a arma apontada para o lado direito da cabeça. Não se decidia. Às vezes depositava a arma sobre a escrivaninha e dava passos nervosos na sala, a cabeça entre as mãos. Em seguida sentava-se novamente, olhava-se no espelho e apontava a arma mais uma vez para a têmpora direita. Passou assim a tarde toda, foi o que disseram meu pai e minha mãe quando voltei do trabalho e os guardei espiando a vida alheia.

    Atrás da cortina semicerrada da sala de jantar, meu pai disputava com minha mãe o melhor ângulo para observar a cena. Ela dizia que sim, que era uma questão de minutos e logo se ouviria o disparo e a polícia não tardaria a chegar. Ele apostava que não, aquele homem não teria coragem para ir até o fim.

    Depois de muitas horas de espera e, vendo que o vizinho não dava sinais de que iria resolver a questão de uma vez por todas, fecharam a cortina e foram jantar. Venha, Aparício, enquanto a comida está quente. Comida fria é um horror, disse minha mãe. Eu já tinha jantado e, à falta de algo mais interessante para fazer, liguei a televisão para ver a telenovela.

  • Mabel

    Tenho certeza de que Mabel se esqueceu de mim. Já são muitos anos sem a ver, pelo menos. Fizeram com que se esquecesse, decerto. Eu fui bem quisto na sua família, mas depois passei a ser persona non grata – e o verdadeiro motivo não sei. O momento da ruptura foi abrupto, desproporcional. Meu pai havia falecido há dois meses. Isso foi em meados de 2011. E a namorada não teve a hombridade de estar comigo. Foi um deus nos acuda, com brigas e confusões – para quem gosta de paz, é o inferno. Enfim, isso não vem ao caso. Foi um mal-estar que passou, rasante, na minha vida – arrancando pedaços, é certo –, como tantos com que tive de me virar após a morte de meu pai, meu guerreiro, meu melhor amigo. Deixa eu recontar essa história, porque me vem em momentos de grande saudade: Mabel era apenas uma menina de quase dois anos quando a conheci, por intermédio do namoro que tive com sua mãe. Também fui amigo de seu pai biológico, que me contou quando a então namorada estava grávida, ambos com dezesseis anos, por aí. A pequena nasceu, e a vi, linda e sorridente. Com a aproximação, houve a paquera e o namoro com a sua mãe, que, logicamente, estava livre e desimpedida. Com o tempo, o amor por Mabel foi crescendo, a amizade recíproca e todo o carinho que uma criança merece ter. Me doei. Depois, me doeu por muitos anos a distância. Isso já faz uns bons quinze anos, depois do término do namoro de dez anos que tive com a sua mãe. Rafael, nosso amigo em comum, relata que ela está uma moça linda, talentosa, na área do marketing, e que pretende em breve se casar. Tomei um susto quando soube que já queria se casar. Hoje ela está com vinte e um anos. Acho novinha ainda, tem muito para viver, mas entrego a Deus, que a guarde com um marido bom, porque ela é uma menina boa, merece todo o amor do mundo. Naquela época, ela me chamava de papai dois, porque tinha o avô como pai – este, superpresente. Eu a tratava como filha. Com a separação, me mantive distante, quieto, não quis interferir na sua vida. A família podia não gostar. De fato, não tinha nada a ver, porque não era o seu pai. O pai biológico havia se mudado cedo para a Austrália, logo quando a menina tinha uns dois anos, e de lá não se tinha notícia. Parece que hoje mora no Brasil, mas em outro Estado. Sobre isso, porém, não vale a pena falar. São os estorvos que nos atravessaram. O que é que se pode fazer?! O que queria dizer era que tenho uma saudade danada da pequena Mabel, do tempo em que fomos crianças. Brincávamos juntos, de boneca, de parquinho. Ela que ditava a regra. E hoje não vejo a hora de a reconhecer, abraçá-la e dizer que tudo passou e que podemos recomeçar, se não como pai e filha, mas como grandes amigos.

  • A grama do vizinho é artificial

    Donald está falando de Ovnis na mídia mainstream para desviar a atenção para coisas muito mais loucas. Quando Zími era criança, seu pai lhe mostrava um grupo de moradores de rua e dizia:

    “Você vai se juntar aos dingos se for irresponsável. Não estarei aqui para sempre, portanto, estude e trabalhe.”

    Mas Zími sabia que no apego de um homem por sua vida, há alguma coisa mais forte do que todas as misérias do mundo.

    Seu pai o estimava como aquele tipo que é jogado em lugares cercados por muros e cujo objetivo não é a cura e nem a recuperação, apenas o controle.

    Para Zími, quem precisava de cura era o rumo que a humanidade seguia, o qual não queria ser cúmplice, e isso foi mais do que provado sem que o pai tivesse clareza e longevidade para constatar, pois morreu sem se desfazer de suas convicções obtusas.

    Agora, à beira dos cinquenta anos e olhando em retrospecto, sem motivo para nostalgia ou arrependimentos, Zimi sentia um pouco de alegria quando cada dia terminava sem chateações importantes, insuficientes para estragar o momento noturno em que novamente avaliava a situação do mundo através das notícias fornecidas por fontes de geopolítica confiáveis.

    Havia para ele um certo prazer em comparar sua trajetória de até então com a média do resto das pessoas e saber que até ali havia dignidade em sua existência.

    Não era um prazer tão intenso, pois sabia que um dia morreria, e se não deixasse algum trabalho artístico autoral de qualidade, seria esquecido com facilidade rapidamente, como a esmagadora maioria das pessoas.

    Isso também pouco importava, desde que antes de morrer alcançasse sua paz individual.

    De qualquer forma, o problema está na possível agonia que antecede a morte, como alguma doença dolorosa, e não a morte em si.  

    Ela, em si, certamente traz algum tipo de descanso, independente do que aconteça depois.

    Muito se especula sobre o que vem depois, mas ninguém volta para contar.

    Sabendo que suas opiniões e sua ideologia não deveriam prevalecer sobre a face da Terra, a busca por essa paz se tornava uma prioridade de vida.

    Por muitos anos da sua juventude, dizia à sua mãe que jamais chegaria aos trinta anos.  

    Era um tempo em que tomava cuidado para não fazer ranger a tábua do corredor da casa durante a madrugada, para evitar que alguém acordasse para gralhar sobre o dever de estar dormindo naquele momento, como todos na casa, enquanto um tempo precioso da vida era desperdiçado.

    Quando era criança, nos anos setenta, suas professoras na escola estavam na faixa etária dos trinta anos e pareciam senhoras de meia idade, mas agora era possível ter cinquenta e ter alguma jovialidade sem parecer ridículo.

    Muito antes de ter contato com qualquer teoria ideológica mais definida, já tinha o desejo por um tipo de liberdade individual que não era possível no modo de vida regido pelo senso comum, e questionava o porquê de as pessoas gostarem de viver sob um patrulhamento coletivo que só as levava à uma vida castrada de sonhos e boas perspectivas.

    Havia inúmeras piadas internas entre os amigos sobre o verdadeiro nome de Zimi ser Chistopher McCohen Oliveira.

    As pesquisas na internet sobre seus homônimos geravam ainda mais piadas, a cada vez que eram feitas.

    Apesar de alguns amigos considerarem um nome expressivo foneticamente, a bebida às vezes tomava o lugar da consciência, e a zoeira virava quase um bullying, e a vingança de Zimi consistia geralmente em arrumar um jeito de lembrar que Deus não existe toda vez que os pais desses caras estivessem por perto, causando polêmicas entre aquelas famílias cristãs, mesmo que seus amigos também fossem ateus.

    Não havia qualquer parentesco de Zimi com qualquer pessoa famosa com o mesmo sobrenome.  

    Herdou do pai, um escocês pobre, apenas o sobrenome.  

    Zimi arriscou numa carreira musical tardiamente sabendo que provavelmente nunca ganharia dinheiro com ela, até porque seu desprezo pelo mainstream era visceral e ele acreditava que a arte era mais genuína se o artista tivesse que se manter com outros trabalhos.  

    Ele se imaginava artista solo, antes de entrar para a banda Crop Circles como baterista e cantando algumas das músicas, pois sabia que seria difícil encontrar alguém que compartilhasse de suas ideias de concepção musical.

    Preza poder fazer algumas viagens pelo interior para shows em praças e bares, e agora sente o peso de viajar na Belina 82 da contrabaixista Mila Cox, dormindo em sacos de dormir antes de pegar a estrada novamente, de volta para casa ou a caminho de algum outro show, feito muitas vezes apenas em troca de gasolina e cerveja.

    Dinheiro mesmo, só conseguiam com a venda de camisetas e cd’s.

    Gostavam de não serem classificados em nenhum gênero específico do rock .

    Mila Cox, quando questionada sobre o som, o descreve como ‘lúdico e psicodélico’.

    Ela era uma das poucas pessoas nascidas depois do ano 2000 com quem Zími conseguia lidar bem.

    Geralmente, por motivos diversos, a reprodução das músicas ao vivo não correspondia fielmente ao que apresentam nas gravações feitas em seu estúdio caseiro, que conta com poucos recursos além de um computador.

    Gostam de ressaltar que os Beatles em sua época tinham à disposição uma tecnologia bem inferior, mesmo sendo a melhor possível para o período.

    Ela, muito mais jovem, gostava de tocar com ele por causa de seu gosto musical irrepreensível e porque via em sua personalidade algo entre o orgulho e a sinceridade.  

    Quando não estavam fazendo música, ele não a procurava nem mesmo se estivesse desesperado, por qualquer que fosse o motivo.

    Desde criança, Zimi gostava de artistas estranhos que não apareciam na televisão ou não tocavam no rádio, e ficava intrigado sobre como essas pessoas viviam, sendo que para todos existem contas a pagar e compromissos sociais que são impossíveis de escapar.  

    Daí vinha a óbvia conclusão de que precisavam de outro trabalho para terem o que comer e onde morar, o que para ele, enobrecia o trabalho artístico.

    Apenas em segundo lugar vinha a admiração pela bizarrice de suas expressões artísticas.

    A primeira vez em que ficou chocado com uma apresentação de música ao vivo foi no meio dos anos oitenta, quando viu no Madame Satã, em meio a várias outras atrações, um sujeito de meia idade pelado que em lamúrias cantava impropérios pagãos e queimava uma bíblia, acompanhado de uma banda minimalista em que o baterista tocava de pé como Slim Jim Phantom e uma garota tocava teclado, e não havia baixista nem guitarrista.

    Alguns tabus de uma sociedade oprimida (artisticamente e também em setores fora da arte) caíram diante dele naquele momento, através de um tipo de expressão que até então ele só ouvira falar, e ainda assim, repudiada pelo ponto de vista do opressor, horrorizado com a existência desse tipo de manifestação imprópria ao horário comercial.

    Qualquer artista internacional que pudesse servir de referência naquele tempo, precisava de pelo menos uma mínima escalada no mainstream para que chegasse ao seu alcance no Brasil naquele tempo através de fitas cassete e não eram tão obscuros no cenário internacional quanto pareciam ser aqui.

    A verdade nunca é contada no horário comercial e o opressor, na melhor das hipóteses, é fã de velhos crooners canastrões de boates de cassino.

    Para esse tipo de situação, o rolo compressor da opinião pública se mantém inoperante.

    Falando em termos comportamentais, o espaço de tempo para que atitudes consideradas normais na época de sua adolescência (inclusive formas de racismo televisivo inimagináveis para os dias de hoje) se transformassem nas bizarrices que se tornaram para os dias atuais foi relativamente curto.  

    Nesse período, a qualidade humana, de um modo geral, não melhorou, mas as patrulhas ideológicas e comportamentais tomaram conta da existência social numa proporção inimaginável para tempos anteriores à internet.  

    Muitas dessas patrulhas agem a serviço do nada, capitaneadas por mentes doentias na frente de um computador e que desconhecem até mesmo uma razão decente para estar vivo.

    A limitação imposta pela ignorância os faz ter convicções rígidas.

    Ao mesmo tempo, olhar para o passado era para Zimi um exercício que passava longe de ser prazeroso.

    As patrulhas malignas já atuavam com os recursos que tinham antes, sem a mesma rapidez e propagação.

    Conseguiam roubar a brisa com muita eficiência.

    Toda a falta de planejamento para o futuro de que Zimi era acusado na juventude se justificam agora, com a possibilidade iminente de algum velho que não teve seus desejos políticos correspondidos apertar um botão e liquidar o planeta, o que desestimula qualquer sonho a longo prazo e salienta a necessidade de viver o agora, e caso haja algum futuro para a humanidade, ter algo digno para lembrar ao olhar para o passado. 

  • A cartomante do fim da rua

    1.

    A casa do fim da rua ficou vazia por anos. Sete, para informar com precisão. Dizia-se pela vizinhança que algo terrível havia ocorrido no local. As teorias eram muitas, mas ninguém nunca soube de fato o que aconteceu lá dentro. Um dia, uma caminhonete estacionou na frente do imóvel e começou a descarregar a mudança: um fogão, uma geladeira, uma cama, uma mesa, algumas cadeiras, um abajur, um ventilador, duas poltronas e uma ou outra tralha a mais. Exatamente uma semana após a chegada, a nova proprietária fincou no jardim uma placa que dizia: SULAMITA CARTOMANTE.

    2.

    Um mês depois desse dia, Laura resolveu tocar a campainha. Nem marcou consulta, mas queria muito ser atendida. Eu não liguei, resolvi arriscar, tô muito necessitada dona Sulamita, a senhora tem uma horinha pra me atender, se não tiver eu volto outro dia, moro logo ali embaixo… E ia emendando uma frase na outra, às vezes atropelando o pensamento, outras vezes nem se fazendo entender. Entra, minha filha, tô sentindo que você tá mesmo precisada.

    3.

    Dentro da casa, Laura continuava a falar, problema é que não faltava. Contou, explicou, perguntou, até que dona Sulamita disse: Chega! Já entendi. Parte o baralho. Tira uma carta, tira outra carta. Mais uma. Só mais uma. Ia dando as ordens, igual à cartomante de um filme que Laura tinha visto uma vez na televisão. Amor. Sulamita olhava as cartas e dizia lá o que achava. E acertava. Tudo. Detalhes. Trabalho. O processo se repetia: no alvo mais uma vez. Saúde. Nesse ponto é que Laura ficou impressionada. Não é que a mulher havia descoberto até sobre a cirurgia de vesícula feita no ano passado… Eta cartomante boa, pensou.

    4.

    Foi aí que Laura tomou coragem e pediu: Agora dona Sulamita, eu preciso saber de uma coisa muito importante. Vim aqui mais por causa disso, a senhora compreende? A senhora precisa me ajudar, não sei mais a quem recorrer. E falava, falava… de um modo que irritava até mesmo dona Sulamita, pessoa mais do que preparada para lidar com o desespero alheio. Minha filha, se acalma. O negócio agora é sério. Mas tem jeito, fica tranquila. Tá vendo aquela porta ali? Então, eu quero que você entre lá. Depois, você tem de sentar numa cadeira que fica em frente a um quadro. Não tem erro, é o único quadro do quarto. Olha pra obra e pensa no seu problema que sua mente vai clarear. Depois volta aqui, e a gente completa o serviço com as cartas, entendeu?

    5.

    Acomodado num sofazinho rasgado, um gato preto e branco nem se incomodou quando Laura entrou e se sentou na tal cadeira. Ela achou o quadro meio esquisito, não conseguia identificar nada na pintura. Eram uns rabiscos, umas cores que não combinavam. Parecia que o pintor tinha jogado as tintas ali de qualquer jeito, sem muito critério. Ficou mesmo decepcionada, pois, do modo como dona Sulamita havia falado, pensou que a obra fosse alguma coisa normal, sei lá, o desenho de uma paisagem, de um bicho, de alguma pessoa.

    6.

    Laura não sabe ao certo quanto tempo se passou. Por um momento, a impressão é que haviam transcorrido meses ou mesmo anos. Ficou ali olhando o quadro e acabou dormindo. Talvez tenha entrado em transe. Quando acordou, decidiu sair do quarto e procurar dona Sulamita. Buscou pela casa inteira, nem sinal da mulher. Até o gato preto e branco não estava mais lá. Dirigiu-se então ao jardim e ouviu uma senhora de lábios grossos e voz fina perguntar diante do portão: Dona Sulamita? Preciso muito me consultar, ouvi falar tão bem da senhora… Laura não teve tempo de pensar direito. De modo automático, respondeu apenas: Sim, sou eu. E continuou após alguns instantes: Pode entrar, tô sentindo que você tá mesmo precisada. Mas tenha calma, querida, o negócio é sério, mas tem jeito.

  • A GAIVOTA

    Noite após noite, eu acordava com o grito da gaivota, lancinante, como se viesse de um abismo de loucura. Eu me debruçava no alto do farol, e via lá embaixo, estatelada numa pedra enorme, batida pelos vagalhões, a gaivota. A pedra brilhava banhada pelo sangue da gaivota.

    Eu não podia dormir com o terror que o grito e a imagem da gaivota infundiam. De manhã lavava e lavava a pedra, com uma esponja de aço, que me comia os dedos, fazia de tudo para limpar o sangue seco, incrustado entre as ranhuras negras. E nada da gaivota. Somente o sangue, ressecado, velho, incrustrado na pedra.

    Na próxima noite, novamente o grito. E era como se o sangue jorrasse do meu peito.

    Tantos dias e noites de solidão, sem nenhuma companhia a não ser o mar, e as gaivotas mortas – num baque surdo, com um grito sangrento, e longínquo, como se viesse do fundo do poço da loucura, ali na minha porta.

    Por fim, decidi pôr em pratos limpos a minha sanidade. Uma noite, rolei escada abaixo, me batendo, urrando desvairado, como um animal acuado. Queria ver a gaivota, que eu nunca encontrava, que eu via e escutava só do alto, e me enlouquecera.

    Mas o que eu encontrei foi uma mulher, banhada de sangue, sobre a pedra. Foi ela quem me chamou: “Me sepulta, maldito!” Eu fiquei paralisado de medo, de terror. Quando consegui me mover, sepultei a mulher como pude. Desde esse dia, a gaivota desapareceu.

  • Foi assim que tudo começou

    No primeiro dia, vassoura na mão, limpou a casa, caiou as paredes, pendurou as cortinas, distribuiu os móveis, arrumou os livros, pintou o número na porta, colocou o tapete, forrou o sofá e viu que tudo isso era bom.

    No segundo dia estendeu os fios elétricos, instalou interruptores novos e brilhantes e, quando os ligou, viu que a luz se fazia clara, forte, iluminando tudo, criando sombras nas paredes brancas, e viu que isso também era muito bom.

    No terceiro dia cimentou os encanamentos, trouxe água da nascente do rio e, concluído o trabalho, abriu as torneiras e a água jorrou límpida, cristalina, ainda fresca da fonte, o que o fez sorrir, pensando que isso também era bom, mais do que bom, era ótimo.

    No quarto dia comprou um aquário com peixinhos coloridos, uma gaiola com dois canários cantores e diversos vasos com flores, que distribuiu pela casa e, vendo os peixinhos, ouvindo os canários, sentindo o perfume das flores, ficou feliz, pois concluiu que tudo isso era muito bom, e como era!

    No quinto dia banhou-se na água do chuveiro recém-instalado, barbeou-se, vestiu roupas novas, olhou-se no espelho e viu-se solitário na casa que construíra com tanto capricho. Pensou que precisava de uma companheira e saiu batendo de casa em casa, até que encontrou uma moça modesta e simples que aceitou dividir com ele a casa, os canários, as flores, a água e a luz, e ele sorriu feliz, pois viu que isso era maravilhoso.

    No sexto dia acordou ao lado da companheira, desembaraçou-lhes os cabelos, deu-lhe banho, perfumou-a e a amou, e desse amor nasceram muitos filhos e esses filhos tiveram filhos, de modo que a casa ficou cheia de vida, de risos e alegrias. Todos ficaram felizes, porque viram que tudo isso era muito bom.

    No sétimo dia, cumpridas todas as tarefas, reuniu a família, dividiu o pão do celeiro e o vinho da adega, beijou um a um os filhos e netos, sorriu para a companheira e, sem outro aviso, deitou para descansar e nunca mais acordou. Quem ficou achou que isso também foi muito bom, foi boníssimo.

  • Prisão

    Fábio não é digno de ser dito nessas linhas, mas a minha psicóloga cruel pediu para contar as artimanhas do malfeitor, para eu elaborar, mais uma vez, essa situação que me inferniza. Ainda nos anos 90, Fábio era dono de uma videolocadora. Eu vivia lá por conta dos jogos de videogame, quase sempre sem dinheiro e esperando a boa vontade de um amigo abastado para jogar. Fábio, de início, não me perturbava. Ficava olhando de longe, como se eu fosse um rato. Às vezes até me enxotava de seu estabelecimento, junto com os outros meninos da rua, que se aglomeravam no local. Então, com um ano ou dois de frequência no estabelecimento, Fábio resolveu me contratar para ajudar, “porque a clientela havia aumentado”. Fiquei superfeliz com o convite e com a graninha que iria receber – podia, assim, ajudar a minha família, muito pobrezinha. Eu devia estar antes e depois de fechar o estabelecimento, para “colocar as coisas no lugar”. A primeira investida foi sigilosa, quando não havia ninguém em casa. Ele pegou nas minhas pernas e, depois, nas minhas partes íntimas. Eu estava completamente desconcertado, sem saber como agir. Quando voltei à minha casa, me tranquei no banheiro e comecei a chorar. Meus pais não poderiam ouvir, então eu tapava a boca. Tomei banho e esfreguei uma, duas, três mil vezes tudo em que ele pegou, de nojo. Eu intuía que aquilo era muito errado. Mas, ainda assim, continuei no trabalho, precisava muito. Ele passou a me tratar como se não tivesse acontecido nada. A segunda vez foi mais audaciosa. Fábio me amarrou e lambeu o meu corpo todo, inclusive meu pênis. Eu tinha nojo do seu hálito, fétido, reptiliano. Dessa vez eu gritei, e ele me soltou rapidamente, porque estava desprevenido. Corri novamente para casa e me tranquei no banheiro. Tomei banho me esfregando com mais força, a ponto de me arranhar e sangrar. Não queria nenhum resquício dele no meu corpo. Continuei a trabalhar, porque meus pais estavam desempregados, e o abusador não reagia à minha presença. Era completamente indiferente a mim. Eu era somente um objeto. O tempo passou e achei que nada disso iria acontecer de novo, mas com menos de um ano ele me prendeu outra vez, prometendo me matar se eu gritasse ou fugisse. Estávamos num quarto que era o matadouro. “Hoje eu vou te foder, seu pirralho!”. Esperei que ele encostasse mais e tirei o canivete do bolso de trás. Agarrei o seu membro e, com um golpe forte e incisivo, arranquei-o fora. Jorrou sangue, muito sangue, e eu vibrei com aquilo. O sangue esvaiu e Fábio morreu por hemorragia. Comigo, criminalmente, não aconteceu nada, porque, além de ter somente doze anos, o fiz por legítima defesa. O tormento ainda me acompanha. Fábio é uma alma penada que me aparece em pesadelos. Como vou me livrar dessa prisão?

  • Pisando na merda

    No macro, Donald parecia um garotinho que subiu numa árvore e não sabia descer.

    No micro, o erro principal de um outro idiota foi abordá-la tentando falar sobre rock. 

    Ele era um vizinho do bairro da Liberdade.

     O tiozão de churrasco que saía de moto, dizia que gostava de rock. 

    Donald era seu ídolo.

    Tinha uma família falida em todo e qualquer aspecto possível, idealizada anos antes por ele mesmo, e agora não tinha a quem recorrer, nem mesmo para lamentar a própria burrice. 

    Então saía para comprar cigarro e ia beber, voltando horas depois sem levar para casa os pães que a esposa havia pedido, causando assim mais uma crise familiar, daquelas que cortam a euforia alcoólica e antecipam a sensação de ressaca. 

    O sujeito saía de moto usando bandana, porque era careca e insistia em deixar as laterais da cabeça com fios longos e a bandana cobrindo o topo, irremediavelmente calvo. 

    Recebeu o que merecia, tão logo se manifestou.  

    Ela era Mila Cox, que com cabelo chanel azul e camiseta dos Buzzcocks.

    Título de eleitora cancelado.

    Desprezava todos os políticos.

    Bebia um drink misterioso em sua caneca personalizada, que levava onde quer que fosse, antes de um show inusitadamente marcado num ponto do Largo da Batata, muito mais conhecido pela música popularesca, gêneros contemporâneos sexistas e machistas, muito apreciados por milhões de pessoas induzidas ao erro desde o nascimento, e um público que correspondia à proposta da casa. 

    Quem marcou o show ali foi Ado, baterista da banda Hollow Clowns, que naquela noite tocaria depois da banda de Mila Cox, Crop Circles. O camarim era um banheiro desativado, mas que estava razoavelmente limpo e seco. 

    Todos já haviam chegado.  

    Os Crop Circles eram um duo, formado por Mila Cox no baixo e sintetizadores, e Zími, com um kit minimalista de bateria, tocado por ele de pé. 

    Para eles o Hollow Clowns era uma boa banda, ainda que imitassem um pouco o Husker Dü. 

    Para Ado, Crop Circles era uma mistura de Violeta de Outono com X-Ray Spex. 

    Haviam combinado que Os Crop Circles tocariam antes. Mila e Zími queriam terminar logo o show para assistir ao Breu já devidamente relaxados e podendo beber antes de ir embora. 

    Tudo isso aconteceu conforme o programado, e com a facilidade de acontecer na capital.  

    Mas a cena com o tiozão do churrasco aconteceu antes, quando nem havia anoitecido. 

    Mila Cox e Zími haviam chegado ao bar no fim da tarde, deixaram equipamentos no camarim improvisado. Zími saiu para fumar um baseado e Cox ficou para tomar uma bebida antes de tocar. 

    A banda Hollow Clowns também já estava lá para ver o show de abertura e fazer seu show em seguida. 

    Mila Cox estava no balcão e o velho tarado da moto estava sentado numa mesa na calçada. Entrou para pegar mais cerveja e puxou assunto, perguntando sobre o tipo de som que seria executado. 

    Antes de responder a essa pergunta, ela perguntou ao tiozinho qual eram as suas referências de rock, e foi então que o sujeito engasgou pela primeira vez. 

    Ao mencionar Rolling Stones e Janis Joplin sem conhecer nada a respeito, e ao travar a ponto de não se lembrar nem mesmo do nome de alguma banda de Classic Rock de FM, começou a ser massacrado. 

    Ela preferiu começar dizendo que detestava Janis Joplin e que “Mercedez Benz” era uma das cinco músicas mais chatas já gravadas. 

    Explicou que ele certamente estranharia o som das duas bandas naquela noite, pois não saberia identificar nem mesmo as referências ali apresentadas. 

    A essa altura, Zími entrou no bar e avistou a cena de um monólogo em forma de metralhadora de sua parceira musical para cima de um velho barrigudo motoqueiro e tarado, ele entendeu imediatamente do que se tratava. 

    Quando se aproximou, ela já estava terminando a parte musical do monólogo, explicando que era preciso guardar segredo sobre certas coisas que gostamos de ouvir secretamente. 

    Disse a ele que não costumava dizer que gostava da Pat Benatar, Duran Duran ou America. Ela só ouvia essas coisas escondida. 

    Atacou a indústria cultural, alegando furiosamente que ela produz idiotas aos milhões, que vão desde os artistas que são lançados até o público que os consome. 

     Então ela mudou de assunto para atacar a hipocrisia da família tradicional brasileira, e a expressão do tio do churrasco ficou ainda mais deprimida, como se um ponto nevrálgico tivesse sido atingido com precisão cirúrgica. 

    Naquele momento a expressão do sujeito era de perplexidade e de um amargo arrependimento por ter tentado uma investida.  

    Terminou enfatizando o desprezo que tinha por fascistas, racistas e machistas. 

    Quinze minutos depois, os Crop CIrcles iniciavam o show, que durou quarenta minutos. 

    A banda Hollow Clowns tocou por mais quarenta minutos, dando início à apresentação quinze minutos depois do encerramento do show de abertura. 

    Quando Zími e Mila Cox estavam assistindo o Hollow Clowns, se divertiam com as caras que o velho tarado fazia enquanto assistia embasbacado o segundo show.  

    O ápice da comédia se deu no intervalo entre um show e o outro, quando satiricamente colocaram o clipe de ‘High in high school’, do Madam X, no projetor que colocaram no fundo do pequeno palco, que era usado para as bandas apresentarem imagens aleatórias durante os shows. 

    O lugar era pequeno, e cerca de cinquenta pessoas se espremiam durante as apresentações. 

    Sara Cox, irmã de Mila, cuidava da venda de cd’s e camisetas. 

    Venderam onze cd’s e quatro camisetas, o que era mais que suficiente para bancar o rolê. 

    Naquela noite, estavam felizes por não terem que pegar estrada com o Chevette Jeans de Cox para voltar para casa. 

    Cox morava na Penha e Zími, no centro, e tocavam pouco na capital. 

    Shows no interior eram mais frequentes. 

    Gostavam de festas de quintal.

    O velho tarado da moto ainda bebia na mesma mesa, miseravelmente desamparado. 

    As duas bandas se juntaram depois do show, passaram num mercado em Pinheiros e partiram para beber na casa de Mila Cox. 

    No caminho, dentro do Chevette, os três integrantes do Hollow Clowns riam e contavam sobre os momentos SPINAL TAP que tiveram desde a véspera para que chegassem a tempo do show. 

    O baterista Ado se comprometeu a agendar mais shows conjuntos com as duas bandas, propondo também a gravação de um split. 

    Donald jogava War.

  • A aventura

    Com um sentimento de alívio pelo dever cumprido, Tarcísio depositou a última caixa na carroceria. O esforço solitário doía nos braços. Abriu a porta do lado do motorista, sentou-se ao volante e girou a chave. Passou os olhos pela lista de compras que segurava:

    — Na volta, você para lá no mercadinho do seu Vicente e me traz isso aqui. Vou fazer aquela carne assada recheada que você adora. A Rosa e o Jesuíno estão vindo almoçar amanhã e vão trazer o álbum de retratos do neto, o filho da Dorinha que nasceu no ano passado — informou Marlene, com seu jeito despachado, típico de quem sabe delegar funções.

    Distraído com a lembrança da captura dos porcos (como o menorzinho dera trabalho) e com o ronco do motor, Tarcísio esperou alguns instantes até dar a partida. Dali a pouco a caminhonete já deslizava cambaleante pela estradinha de terra batida que o levaria até o município vizinho. A viagem não seria tão longa, coisa de três quartos de hora, se tanto. Tarcísio e o veículo conheciam bem o trajeto, e isso facilitava as coisas. O rádio tocando forró ajudaria a encurtar o percurso. Quinze minutos após a saída, Tarcísio meteu a mão no bolso da camisa e não achou nada além da lista de compras preparada pela mulher. Estava sem cigarros. Por sorte, a birosca do velho Jerônimo ficava perto. Compraria os cigarros e ainda tomaria um copo de água gelada. Na porta do estabelecimento, encontrou Cícero, Chico, Zezito e Miguelzinho, os netos do proprietário, jogando bola de gude. Assim que viram Tarcísio, os garotos deixaram de lado a brincadeira e correram em sua direção, envolvendo-o numa roda barulhenta e agitada. Já dentro do bar, o homem acomodou-se próximo do antigo aparelho de TV, que exibia um sonolento programa de entrevistas. A imagem, cheia de fantasmas, vez por outra sumia por completo, tornando difícil o entendimento de grande parte da conversa. Ficou alguns minutos assistindo ao debate sem prestar muita atenção ao mesmo tempo que proseava amenidades com o velho Jerônimo. Retomado o caminho, percebeu que, daquele ponto em diante, as condições da estrada exigiriam velocidade reduzida. As chuvas da semana anterior haviam piorado a precária situação da via, e, em alguns trechos, o barro quase fazia a caminhonete atolar. Sem que Tarcísio tivesse se dado conta, Cícero e Zezito tinham se aboletado na carroceria enquanto Chico e Miguelzinho, a pé, tentavam alcançar os outros dois. Quando a velocidade diminuía, parecia que iam conseguir subir também. Então, mais uma vez, para decepção dos meninos, o veículo tomava impulso e os deixava para trás. Num trecho especialmente pantanoso, Chico cansou. De pé, estático, ficou olhando os primos seguirem adiante. Extenuado, abandonou o corpo e, num misto de lamento e decepção, caiu de joelhos, antes de se largar no solo, respiração ofegante, braços abertos em forma de cruz, corpo tingido de lama misturada com suor. Miguelzinho, por sua vez, seguiu em frente e, alguns metros depois, auxiliado por Cícero e Zezito, acabou subindo na carroceria também. Ao lado das caixas com os porcos, deitaram- se os três de barriga para cima olhando o céu. O sol do início da tarde iluminava-lhes o rosto. Os animais, a cada solavanco mais forte da caminhonete, guinchavam agitados, desejando sair do confinamento. Pouco tempo depois, a viagem se encerraria. Na fazenda do compadre Matias, Tarcísio se preparava para descarregar a encomenda quando notou a presença das crianças. Ameaçou dar uma bronca nos guris, mas, antes de abrir a boca, desistiu. Os quatro, então, puseram-se a descarregar as caixas. O último porco a ser libertado começou a se debater tão logo deixou o cativeiro. Furioso, correu atrás de Zezito com a intenção de atacá-lo. Antes que pudesse alcançar o meleque, o bicho foi atingido por dois tiros de espingarda disparados pelo compadre Matias. Morreu na mesma hora.

  • Os dois chapéus

    Os dois chapéus vinham boiando nas águas revoltas do rio; quase soçobravam nas ondas encapeladas, entre tábuas, troncos, montes de lixo e um ou outro cadáver, sob o voo indiferente dos urubus; mas vinham resolutos, altaneiros, ostentando orgulhosos as suas insígnias de classe superior; ainda pude ouvi-los, de longe, conversando:

    – Esse aí, só olhando – disse o mais velho, que eu chamei de Sílvio.

    – Tem gente que é assim, não presta para mais nada – disse o mais novo, o Joãzinho.

    Eu cocei a cabeça; que é que eles queriam que eu fizesse? Peguei algumas pedras, tentei acertá-los.

    – Idiota – disse o Sílvio.

    – Estúpido – disse o Joãozinho.

    Lancei-me ao rio, logo alegre, em lépidas braçadas; alcancei os dois, que caíam na gargalhada.

    – É idiota mesmo – disse o Sílvio.

    – Um arrematado estúpido – disse o Joãzinho.

    Peguei os dois chapéus, e afundei com eles; nadamos horas e horas, depois dias e dias, sob as águas do desconhecido, levados pelas torrentes impetuosas do universo; aportamos numa praia deserta, onde o barqueiro e seu enorme cajado nos aguardava.

    – A sua decisão, infeliz – disse.

    Espantei-me. Que decisão teria para tomar? Onde estava? Para onde iria? O céu avermelhado declinava no horizonte, onde um vulcão fumava pacientemente, tossindo de tempos em tempos. Por fim consegui perguntar:

    – Que decisão devo tomar?

    – Com qual dos chapéus vai embarcar para o outro lado, oras – disse o barqueiro sorrindo com escárnio por entre seus dentes podres, deixando claro que, não importa o chapéu que escolhesse, eu seria o mesmo idiota ou estúpido de sempre.

  • Como sempre foi

    Quando fecho os olhos, o mundo desaparece. Quando os abro, o mundo corre para se recompor no mesmo instante. Às vezes, durante o período infinitesimal dessa transição — e isso é apenas uma percepção —, acredito surpreendê-lo ultimando seu trabalho de recomposição: percebo o contorno esfumaçado das coisas ao meu redor, alguns ruídos, uma chispa, o acomodar-se das distâncias, a luz do dia buscando lentamente sua intensidade, meus filhos demorando uns milésimos de segundo para adquirir suas formas habituais, o pelo do gato parece difuso e ele ainda não tem bigodes, a vizinhança descuidada e desagradável se estabelecendo à direita e à esquerda, um grito ao longe que ainda não chegou perto o suficiente para ser identificado, a nuvem que se atrasou em sua tarefa de encobrir o sol… Tudo isso acontece até o momento em que, olhos bem abertos, vejo as coisas irromperem de novo e se reintegrarem velozmente à ordem, recobrarem sua textura, seu volume, seu nome e seu significado, e este mundo líquido e descartável voltar, mais uma vez, a ser como sempre foi: perpetuamente feio e inumano.

    🗞️

  • Lugar interno

    Há mendigos que não estendem a mão nas esquinas, nem carregam embrulhos com roupas sujas. Sua fome não é de pão, mas de palavras; sua sede é de olhares que os reconheçam. São os mendigos emocionais, aqueles que vagueiam pelos corredores das relações com uma tigela invisível, pedindo migalhas de afeto.

    Você os encontra em todos os lugares. No trabalho, aquele colega que, após cada tarefa, busca um “muito bem!” como se fosse um prêmio vital. No amigo que conta histórias de sofrimento repetidamente, não para aliviar a dor, mas para colecionar consolos. Nos corredores das festas, onde alguém ri alto demais para preencher o silêncio ao redor, ou fica grudado a outro como uma âncora em mar revolto.

    Eles não carregam cartazes, mas seus sinais são claros: a conversa que sempre retorna ao próprio umbigo, o ciúme disfarçado de cuidado, a necessidade de ocupar todos os espaços vazios com barulho ou presença. Sua tigela tem um fundo falso por mais que você deposite atenção, ela se esvazia em minutos, exigindo mais.

    Muitos de nós, em algum momento, fizemos fila com essa tigela. Às vezes, a solidão bate à porta, e saímos em busca de um pouco de calor humano. A diferença está no permanente, no ofício de mendicância afetiva transformado em identidade. O mendigo emocional profissionaliza a carência. Ele não compartilha; extrai. Não conversa; drena.

    O paradoxo é que, quanto mais mendigam, mais espantam os doadores. O olhar faminto assusta. As pessoas intuem quando estão sendo usadas como tapa-buracos, e recuam. E o mendigo, então, vaga mais, faminto, convencido de que o mundo é mesquinho.

    Talvez a verdadeira esmola que precisamos aprender a dar e receber, não seja a migalha de atenção momentânea, mas a oferta com distintas maneiras para pescar. Um “como você está?” genuíno, que escute a resposta. Um silêncio que acolhe, não que foge. Um convite para que o outro se enxergue inteiro, e não apenas carente. Eventualmente somos autênticos quando corremos risco de vida, quando a morte espreita na porta a fitar nossos movimentos.

    A questão é, passamos a vida estendendo a tigela, ou aprendemos a cozinhar nosso próprio banquete?

    Os mendigos emocionais nos lembram, no fundo, de um medo comum: o de que nosso afeto não tenha valor se não for validado por outro.

    A verdadeira abundância emocional começa quando paramos de estender a mão para o mundo em sinal de súplica e passamos a usá-la para construir, dentro de nós, um lar acolhedor. Todos carregamos feridas, porém, em momentos de fragilidade, podemos agir a partir da carência. A diferença está em reconhecer esse estado e buscar a cura, ao invéz de perpetuá-lo.

  • Não arredo pé

    Natyely se deleita com o meu fracasso. Ela é o único ser que conheço que não tem empatia. Quando éramos criança, ela ria das minhas quedas, até quando fraturei o braço. Na ida para o hospital, não parava de rir, um riso estridente e sarcástico, como se eu fosse um frouxa, e o pior, meus pais não diziam nada, não a mandaram parar com o escárnio, porque, obviamente, ela era a filhinha amada. Parece que eu era seu palhacinho de estimação. Em muitas estripulias ela me metia só para ver eu me dar mal. Inventava brincadeiras em que, no final, eu me lesionava; nada era tranquilo, nada era harmônico, como deveria ser entre dois irmãos, únicos irmãos. Meus pais a apoiavam porque a queridinha tirava notas muito boas, e para eles isso era suficiente. Natyely, para se ter uma ideia, nunca recebeu uma bronca do meu pai, enquanto eu aguentava toda a rebordosa, principalmente quando ele chegava bêbado e queria descarregar suas frustrações. Meu pai, sim, era um fracassado; dependia de minha mãe, que era concursada, e se virava com bicos. Quando não dava certo nalgum serviço, ele passava o dia bebendo, e, quando chegava em casa, daquele jeito, dava em cima da moça que trabalhava cuidando da gente. Mirian era uma meninota, pouco mais velha que nós, e teria vindo do interior para estudar – mas, na verdade, passava o dia trabalhando com serviços domésticos. Isso hoje seria crime. Meus pais diziam que a contrataram para o seu bem, para que pudesse vencer na vida, mas como? Não tinha tempo sequer de estudar em casa, e ia todas as noites para um colégio público. Mirian era meu amuleto, eu a amava, porque ela me safou de várias empreitadas. Mas, como minha irmã era endiabrada, sempre sobrava uma bronca para mim. Natyely cresceu e ousou destruir todos os meus sonhos. Sou artista e vivo da arte, mas para ela sou um vagabundo. Vendo os meus livros de porta em porta, e tenho uma vida feliz e relativamente estável, para quem não tem filhos. Nossos pais morreram. Minha família é pequena e dispersa. Poucos me entendem. Natyely é médica e não deve tratar bem seus pacientes, porque ela é raivosa – certamente se formou por status. Tenho certo medo dela, devo admitir. Brigamos na justiça pela casa de nossos pais, onde moro até hoje. Ela é farta de dinheiro e quer sempre mais. Por ela, eu não teria nenhum direito sobre os bens dos meus pais, porque sou “vagabundo”. Tenho um amigo advogado que me ajuda muito. Não quer nenhum honorário antecipado. Já fomos a duas audiências, sem acordo. É completamente estafante para mim, que, além do mais, sou autista, nível de suporte um. Mas hei de vencer e ficar, como proponho, com pelo menos uma parte da casa, que já está subdividida. Ela faça o que quiser com o restante, mas não arredo o pé daqui, do meu chão, de onde me criei. 🗞️

  • Assintomáticos

    Zími chegou em casa no domingo de manhã depois de dar um rolê  sozinho.

    Saiu do elevador às sete e trinta e cinco.

    No corredor do apartamento que dividia com Mila Cox, pairava densamente um cheiro que era misto de café, xampu e maconha.

    Mila Cox já havia acordado e estava fazendo café, que certamente estava parecendo uma tinta, de tão forte.

    No apartamento ao lado, Silvano ouvia Durutti Column, fumava maconha e provavelmente comia pizza que sobrou da noite anterior.

    Zími não esperava mesmo que nenhum dos dois estivesse dormindo.

    Era importante para ele ter pessoas que tinham entusiasmo pela vida e numa manhã de domingo já estavam a tramar algo.

    Foi por acaso que no dia anterior, um sábado comum, em que sua banda Crop Circles não tocaria em lugar nenhum, Zími soube que rolaria um show do Evan Dando, dos Lemonheads, no Sesc da Paulista. 

    Pela mesma fonte, uma garota com camiseta do Teenage Fanclub que estava no Sebo do Messias, onde Zími foi trocar livros no sábado pela manhã, soube que os ingressos foram esgotados com antecedência.

    Na tarde do sábado, Zími acompanhou Silvano num carreto perto do Ibirapuera, e teria tempo para colar no Sesc da Paulista para ver se arrumava algum ingresso, ou pelo menos visse algo curioso acontecer no entorno do evento.

     Em show de indie rock iam sempre as mesmas pessoas.

    Na pior das hipóteses, ficaria na rua até cansar e depois voltaria para casa.

    Havia para ele também a curiosidade de ver como estaria um sujeito que era ícone do que se chamava de rock alternativo em sua fase de maior projeção, através da MTV, trinta anos antes.

    Ainda mais sendo esse sujeito alguém que passou por turbulências típicas de rock star, tinha fama de muito louco, continuava vivo, e àquela altura tinha repertório musical para fazer um bom show.

    Zími levou cd’s de sua banda, os Crop Circles, que distribuiria entre os indies que passariam na Paulista para assistirem ao show.

    Os cd’s eram geralmente usados por eles para fazer publicidade.

     Consideravam uma mídia física sem o apelo fetichista do vinil, mas o usavam para coletanear singles que lançavam na internet.

    A maior parte do que vendiam de merchandising era mesmo em vinil de sete polegadas, prensados como singles ou EP’s.

    Às cinco da tarde ele finalizou o serviço de carreto com Silvano, que o deixou vinte minutos depois na Paulista com a Brigadeiro Luís Antônio, próximo ao local do show.

    Zími conhecia muitos camelôs da Paulista, porque ali, antes da pandemia, ele também vendeu livros e discos de vinil.  Logo avistou um pintor de quadros que conhecia da Paulista havia muito tempo, e foi conversar para matar o tempo.

    Certa vez, quando Zími era camelô de discos, a polícia pediu que os recolhesse.

     Ele recolheu e voltou dias depois, e quando nem pensava mais nessa proibição, teve um lote de discos apreendido por já ter sido advertido antes.

    Mas ele gostava de vender ali.

    Para ele era um trabalho que, dependendo do dia, podia ser incrível, como também poderia ser dramático, como nos dias de chuva em que ele precisava do dinheiro das vendas para alguma necessidade imediata.

    Faltavam duas horas para o show e ele estava do outro lado da avenida, de onde podia ver um movimento bem discreto de pessoas entrando e saindo do Sesc.

    Sem ingresso, já não sabia muito bem o que estava fazendo ali.

    Já tinha visto uns clipes do Lemonheads pelo celular para lembrar melhor de algumas músicas, e apesar de achar legal, não seria nada doloroso se não pudesse entrar por falta de ingresso.

    Agora estava conversando sobre o limite entre as aspirações e a realidade com o conhecido que vendia os quadros pintava, quando foi abordado por um casal. Ambos conheciam Zími, por motivos diferentes.

    A diferença de idade entre eles era a mesma que havia entre Zími e sua parceira musical Mila Cox. 

    Pela aparência do sujeito, Zími poderia ficar por horas tentando sem sucesso lembrar de quem se tratava, e tinha certeza que nunca tinha visto a garota que o acompanhava.

    Ele parecia um pai de família focado, distante de qualquer tipo de aventura, tinha a idade aproximada à de Zími, só que mais envelhecido.

    A garota parecia uma Lydia Lunch jovem, e a falsa certeza que Zími tinha sobre nunca a ter visto antes vinha do fato de que jamais teria esquecido alguém como ela.

     Isso mesmo antes que ela começasse a falar.

    Zími não lembrava muita do show de Jaú.

    Quem a acompanhava era Tito, que tocava guitarra numa banda chamada Mugwumps, dos anos noventa, em que Zími fez parte por um curto período, fazendo três shows que estavam marcados antes da saída do baterista anterior.

    A banda já existia antes que ele entrasse, e continuou por algum tempo depois de sua saída, chegando a gravar um EP.

    Tito era o mentor da banda e sua ideia era que o som lembrasse o Social Distortion.

    Tito se tornou delegado, e na época em que tocou com Zími era estudante de Direito, vinte e cinco anos antes. 

    Ele já manifestava o desejo de ser delegado naquele tempo.

    Havia uma piada interna na banda sobre Tito ser inacreditavelmente submisso à sua namorada na época, fazer músicas contra o autoritarismo, e querer ser delegado ao mesmo tempo.

    Zími tocou com os Mugwumps em São Paulo, Santo André e em Araçatuba.

    Zími ainda era jovem e na época parecia precisar se aventurar naquela oportunidade, com uma banda sem logística para equilibrar o tempo entre ela e as outras atividades, como empregos e faculdades.

    A internet ainda estava começando a se tornar acessível, e Zími só teria acesso à rede depois de ter deixado a banda.

    Ele tinha terminado sua faculdade de Jornalismo no ano anterior, caso contrário não aceitaria o convite para ingressa na banda.

    Os outros integrantes ainda eram universitários, e seus cotidianos eram inglórios e hostis.

    Tudo era escassez, tanto em termos de dinheiro, como em tempo ou logística.

    O baixista dos Mugwumps era um sujeito conhecido por Painho.

    Ele era tecnicamente o melhor músico da banda.

    Quando a escassez anteriormente se manifestava no setor financeiro da banda, Painho acusava Tito de ser playboy e não investir na estrutura da banda, nem mesmo sob a premissa de ser ressarcido com o lucro de um eventual sucesso da banda.

    A mentalidade deles era esta, e a internet nos primórdios ainda não ajudava muito.

    As gravadoras deixaram de existir da forma como operavam, na época em que vender discos em lojas físicas era o foco.

    Certa vez os Mugwamps perderam o tempo quase inteiro de um ensaio pago e a duras penas encaixado na agenda pessoal de cada um, porque não havia cordas de guitarra reservas, e os cabos estavam remendados em diversos pontos, falhando bastante, na véspera de um show em Santo André.

    Painho estava furioso e foi trabalhoso mantê-lo sob uma distância mínima de Tito, que escapou por pouco de tomar porrada.

    Com essa lembrança, lhe ocorreu que esse momento possivelmente tornou possível a concepção dos Crop Circles, duo formado por ele na bateria e alguns vocais, e Mila Cox, no baixo e maior parte dos vocais.

    Os Mugwumps eram um quarteto com duas guitarras, baixo e uma bateria de verdade, não o kit minimalista usado por Zími atualmente.

    Um gasto exorbitante se comparado ao que os Crop Circles tinham na atualidade.

    O fator mais importante nesse aprimoramento no formato da banda é o fato de haver apenas duas pessoas para eventualmente discordarem uma da outra.

     Zími não conseguia nem se imaginar atualmente numa formação com quatro pessoas.

    O uruguaio Silvano se lançou na música ainda mais minimalista, como monobanda, ou one man band.

    Toda a década de noventa sempre foi estranha para Zími, e ele ainda lembrava do período como se fosse a década anterior a que vivia então, mesmo estando vinte e três anos avançado no século vinte e um.

    Perdeu o contato com Tito e os outros dois integrantes quando saiu da banda.

    A garota que acompanhava Tito era sua filha Sara, de vinte anos e fruto do casamento com a antiga namorada autoritária, a quem Zími nunca conheceu pessoalmente.

    Naquele tempo, Tito parecia deixar a garota num setor específico de sua vida social, que era distinto daquele em que colocava amigos de bar, de futebol e de banda.

    Pois foi a esposa de Tito quem havia comprado três ingressos para aquele show no Sesc, tão logo este fora anunciado.

    Ela acabou não indo, porque era médica e estava de plantão, de modo que havia um ingresso para Zími.

    Sara conhecia Zími porque foi a um show dos Crop Circles em Jaú, cidade onde vivia a avó da garota.

    Quando Zími saía sozinho, sem muitas pretensões e recursos, mas com a intuição de que algo curioso aconteceria, ele acertava em cerca de trinta e cinco por cento das vezes, mas esse percentual aparentemente baixo era suficiente para que ele sempre acreditasse na generosidade do acaso. Na verdade, um acaso algo induzido.

    Ele sabia que encontraria pessoas conhecidas ali, sendo amigos dele ou não.

    Naquela tarde, no entanto, surpreendeu-lhe o fato da primeira pessoa conhecida ser alguém que ele não reconheceria, caso não tivesse sido abordado.

    A filha de Tito queria comprar cerveja, então os três se despediram do vendedor de quadros e atravessaram para o outro lado da Paulista, na frente do Sesc, e não demorou para que um vendedor ambulante de bebidas passasse com seu carrinho. 

    Compraram uma cerveja para cada um, e a essa altura Tito já sabia que Zími ainda tinha a Caloi Cross laranja que já era antiga no tempo em que tocaram na mesma banda.

    Tito e Sara já haviam ganhado também os cd’s dos Crop Circles que Zími levou e estavam se atualizando sobre os últimos vinte e cinco anos sem terem quaisquer notícias um do outro.

    À essa altura, Zími já tinha visto por perto algumas pessoas com camisetas de bandas indies dos anos noventa, algumas pessoas que já tinha visto em rolês aleatórios de rock, amigos de amigos. 

    O show foi o que Zími esperava.

    Achou legal por ser despojado, sem excesso de pretensão calcado no que importava naquele momento, que era um repertório que sustentasse a apresentação.

    Ele não era muito mais velho que Zími, que estava beirando os cinquenta anos, e era curioso como mesmo havendo uma discrepância na história e na realidade de cada um, Zími se identificou com o show, não apenas a apresentação em si.

    Havia a atmosfera nostálgica do sonho indie dos anos noventa, mas toda a década de noventa sempre foi estranha para Zími, e ele ainda lembrava do período como se fosse a década anterior a que vivia agora, mesmo estando vinte e três anos avançado no século vinte e um. 

    Não era para ele um período remoto, pois no começo da década de noventa atingiu a maioridade e havia nele curiosidade e energia.

    Sara nasceu em dois mil e dois, com internet.

    Ela contou a Zími que sua mãe falou muito do Evan Dando nos dias anteriores, e que ela havia mandado mensagem avisando que ficaria no plantão até às oito horas da manhã seguinte.

    Saíram do show e foram beber num bar da Liberdade que não fecha nunca, ótimo por ser próximo ao prédio de Zími.

    Tudo que foi conversado fez parecer para Zími que ao reencontrar Tito, os últimos vinte cinco anos nunca existiram.  

    Sara despejou o discurso sobre a família ser uma instituição decadente e a manifestação do seu desejo de ir embora de casa crescia à medida em que bebia.

    Tito estava cansado e bêbado, tendo que dirigir até o Sumaré, pois a filha, além de furiosa, também estava alcoolizada.

     Os três pagaram a conta e se despediram. Eram sete e vinte da manhã.

    Zími foi a pé sem olhar para trás, enquanto Tito e Sara entraram no carro.

    Quando chegou às sete e meia na porta do prédio, Zími havia tido tempo de pensar que naquele dia seu destino foi melhor que o de Tito, principalmente quando lembrou que a esposa dele estaria em casa às oito horas.

    Zími entrou no elevador e saiu para o corredor com cheiro de xampu, maconha e café.

  • VIOLETA

    “O louco é estrangeiro em sua própria pátria”Livia Garcia-Roza

    Eu, Violeta Pinheiro do Nascimento Vasconcelos, estava lá quando ela chegou. Eu fui parte desse nascimento, ela saiu de dentro de mim. Eu a expeli. Ela nasceu antes do tempo e me surpreendeu. Eu e a médica não esperávamos que ela nascesse antes do tempo. Na maternidade, fizeram o teste do pezinho e muitos outros exames. Ela era ou parecia ser saudável. Eu a culpei pela fuga do Jerônimo. Eu a acusei de ter deixado o portão aberto.

    Eu lhe disse coisas medonhas no dia em que o Jerônimo desapareceu. Uma semana depois ela me mostrou uma reportagem no jornal sobre um cachorro que tinha voltado para casa sete meses após ter sumido.

    Ela chegou sem avisar. Tocou a campainha, eu a recebi com um sorriso artificial. Ofereci um lanche. Ela comeu com gosto a torta de nozes, sua preferida. Ela perguntou se podia pegar outra fatia. Ela deixou cair migalhas de torta no carpete. No carpete. Tapete novo. Ela nem se deu conta de que sujava o carpete enquanto comia. Ela fazia cerimônia. Aquela não era mais sua casa. Seu rosto deixava transparecer que ela não se sentia confortável. Ela não me visitava com frequência, e eu não me importava com isso. A gente se falava pouco pelo telefone. Eu pensei em pedir que ela limpasse o chão sujo de torta. De pedaços milimétricos de torta. De torta. Nozes. Eu tentei fazer de nosso encontro algo rotineiro, exatamente como os encontros entre mães e filhas deveriam ser. Eu fracassei nessa tentativa. Nós nos despedimos de modo contido. Tivemos dúvida se beijinhos no rosto seriam adequados. Dissemos apenas tchau.

    Nós chafurdamos no mesmo pântano. E tivemos a pachorra de permanecer nele mais tempo do que seria desejado. Nós ignoramos os acenos daqueles que talvez pretendessem nos tirar da lama. Nós procuramos cultivar nosso jardim. Tentamos plantar jasmineiros e roseiras. Os girassóis também sempre nos interessaram. Nosso objetivo sempre foi vencer as pragas, eliminá-las. Exterminá-las. Procuramos.
    Tentamos.

    Ela fez um aborto. Me contou que tinha feito o aborto. Disse que não queria falar, mas falou. Não entrou em detalhes. Imagino que deve ter sido algum método primitivo, tosco, incerto e perigoso. Ela deve ter corrido risco de vida. Que tipo de mãe ela seria? Ela não teria a capacidade de ser mãe. Ela não sabe o que é ser mãe, não sabe o que é ser gente. Não sabe falar francês apesar das aulas da infância e da adolescência. Não sabe nada do que precisa saber. Ela não sabe fazer cálculos elementares nem resolver palavras cruzadas…

    Eram três e meia da tarde quando a enfermeira Gilda abriu a porta pelo lado de fora despejando toda sua eficiência corpulenta dentro do quarto.

    — Violeta, querida, você está dormindo? Acorda, meu bem. Tá na hora do seu remedinho…*

  • O papagaio de Humboldt

    Em fevereiro de 1800, o barão Alexander von Humboldt inicia a exploração do rio Orinoco. Recolhe diversas espécies de plantas e animais desconhecidos, mede meticulosamente a temperatura do rio, do solo e do ar, a pressão atmosférica e a inclinação magnética. Descobre uma passagem navegável entre o Orinoco e o Amazonas. É uma pesquisa atribulada, cheia de perigos e descobertas.

    Numa das pausas de tantas aventuras, Humboldt ganha de presente um papagaio. Tenta entender o que o papagaio fala – afinal, seria o princípio da comunicação entre os homens e os animais. Mas as palavras, os arremedos de frases que o papagaio enuncia não são daquela tribo que o presenteara, a Caribe, mas de uma tribo já extinta, a Mapuré. Morreram todos os índios da tribo, a língua sobrevivera, e um papagaio que a falava. Non omnis moriar, não morrera de todo a língua.

    Humboldt fica fascinado. O seu sonho é aprender a língua do papagaio Mapuré. Em pouco tempo aprendeu várias palavras, consegue formar algumas frases, primárias, mas frases. Já consegue estabelecer uma ponte linguística entre ele e o papagaio. Antes de voltar à Europa, o papagaio falava desbragadamente. Humboldt o entendia e tomava nota. Iria publicar peripécias mirabolantes de um personagem fabuloso, que muito depois Mário de Andrade leria e usaria como material para criar Macunaíma.

    No entanto, quando em alto mar, o papagaio sentiu saudades da selva, adoeceu de saudades. Além disso, Humboldt calculou que ele teria quase cem anos de idade. Em pouco, a idade e a melancolia o mataram. Alexander Humboldt escreve a seu irmão Willelm, que era o primeiro grande linguista da história. Willelm lamentou profundamente tal perda. Se tivesse aprendido a língua do papagaio, se tivessem dialogado proficuamente, poderia estabelecer os princípios da Gramática Universal, feito que Noam Chomski realizaria somente daí a uns cem anos.

    Foi assim que a morte do papagaio Mapuré provocou um grande atraso para a ciência da humanidade.

  • Os olhos e o sorriso dela

    Existiu há muito tempo um homem que dedicou sua vida a estudar o sorriso mais famoso do mundo. Enigmático, indecifrável, dissimulado, insolente — ele jamais admitiu esses adjetivos para descrever o que chamava de “o mais belo ricto da história da espécie humana”. Para ele, ali havia muito mais que um simples contrair e curvar de lábios: havia um segredo, e qual seria? Estudava, estudava. Um dia chegaria a saber.

    Já velho, o homem quase abandonou suas investigações não fosse a descoberta de um fato que mudou tudo: o artista não pintara no rosto da mulher nenhum sorriso. De seu pincel brotara apenas uma face sombria, com olhos da cor de amêndoas maduras em tempo de colheita. Eram esses olhos que seduziam o observador, que, ao admirar o retrato e sentir o despertar do desejo, sorria primeiro. Ela, senhora de si, se tivesse vontade, sorria depois.

  • O chamado

    O telefone tocou. Não olhei, de primeira, porque estava preparando o café e o pão com mortadela, para o desjejum. Entre uma coisa e outra, vacilei e vi o nome de Iasmin na tela do celular. Por que fiz isso? Foi instintivo ou uma premonição? Uma coisa absolutamente inesperada e absurda aconteceu. Era ela mesma. Quem diria… Fiquei a me perguntar se estava alucinando. Passei segundos rodopiando pela cozinha, em busca de alguma explicação, sem saber o que fazer. Comi o pão quente e me queimei. A chamada foi rápida, parou, e eu me desesperei. Teria ligado por engano? Foi um vacilo programado para me desestabilizar? Iasmin, pelo que eu conhecia, poderia ser capaz de qualquer coisa para me tirar do eixo. Ela é boa nisso. Poxa, poderia ser a oportunidade para uma reconciliação ou uma despedida sincera. Não nos víamos há, pelo menos, dois anos. Iasmin se mudou, para muito longe, outra cidade, e não se despediu de mim, talvez porque achasse que eu não tivesse tanta importância. Além de ficantes, éramos, em bons tempos, amigos. De fato, tínhamos uma relação instável; eu que, bobo, idealizei o amor, depois do nosso primeiro e único beijo. Um beijo que marcou a minha história. Era como se minha boca se encaixasse perfeitamente com a dela. Um átimo, um instante, e logo o infinito. Fiquei perdidamente apaixonado; no ato. Pensei que havia achado o meu par perfeito e que seria correspondido. Iasmin não deu bola. Procurei-a alguns dias, e não quis me atender, sempre inventando uma desculpa. A prima, que morava com ela, dizia que estava com dor de barriga, que tinha saído, até que, por fim, diante da minha insistência, disse que ela havia morrido. Decerto, o beijo não foi bom o suficiente. Lógico, eu não sabia beijar, era um “bv” completo, inacabado para o amor. Ela já era mais experiente que eu – é a pura verdade –, porque já havia namorado, tido romances etc. Eu quis, ingenuamente, mostrar que era séria a minha pretensão para a nossa relação. Levei flores que a sua mãe adorou, disse que iria adornar a casa, quando, na verdade, eu queria que sua filha se felicitasse com a grande surpresa – falo grande, porque me custou o olho da cara. Como sempre, Iasmin não deu a mínima, considerou o entulho inservível, e jogou-o pela janela, onde as folhas e flores mortas, putrefatas, contrastavam com a sua beleza magnífica, celestial. Não gostou de mim, e isso é um fato, que me corrói a cada vez que lembro da tragédia do nosso encontro. Resolvi, aflito, ligar de volta, enquanto, nervoso, tomava goles de café. Tremi a xícara e derramei um pouco na roupa (já estava pronto para sair à escola; levei um esporro daqueles). Retornei e Iasmin não me atendeu. Devia estar ocupada ou desistido do contato. Desanimei. O dia foi uma porcaria, porque eu não tinha meios para ajustar a lambança que havia cometido há tempos. Queria, por tudo que é mais sagrado, ter falado com Iasmin, para despachar o meu espírito bruto, moribundo, e me liberar.

  • Do avesso

    Mila Cox achou que Zími estava enlouquecendo de verdade quando ele lhe contou sobre um de seus dilemas. 

    Estavam no banco de trás da Kombi do amigo e vizinho uruguaio Silvano.

     Era um domingo pela manhã, e voltavam de um show que fizeram com mais três bandas em Indaiatuba.

    Foi quando Zími contou que estava a escolher se seria melhor estar vivo e ver o fim do mundo (o que seria para ele glorioso, mesmo tendo a vida interrompida simultaneamente a essa visão), ou que por algum milagre, tivesse vida longa, e a humanidade durasse mais, e ele morresse bem velho, porém antes do final da história dos humanos na Terra. 

    Nesse caso, o mundo continuaria como um trem desembestado e sem trilhos, e também sem ele. 

    Mila Cox usava uma camiseta do Bob Log III, e respondeu que somente a primeira alternativa era possível.

    Ela disse que ele bebia demais a cada vez que visitavam alguma cidade do interior para fazer shows, e que possivelmente perderia o controle se um dia tivesse a chance de fazer alguma turnê maior, que era o objetivo dela. 

    Não era a quantidade de bebida forte consumida na viagem, nem o tijolo inteiro de maconha que ele havia fumado com Silvano desde a véspera. 

    Ela sabia que ele era capaz de pensar coisas estranhas mesmo estando totalmente sóbrio, como costumava estar na vida cotidiana que tinham no apartamento que dividiam em São Paulo. 

    Ela atribuía esse tipo de pensamento dele a uma falta total de esperança num futuro viável para a humanidade, e tentava extrair daí o conteúdo para as músicas que faziam juntos. 

    Ela falou:

    “Nós vivemos num cenário pós apocalíptico. O que sobrou é surreal demais, embora eu esteja vendo com meus próprios olhos.”

    Mila Cox não havia passado por nenhum trauma realmente relevante na vida.  

    Havia, sim, muita insatisfação com convenções sociais que não faziam qualquer sentido, a não ser para um diminuto grupo anônimo que suga e controla as massas. 

    Embora ela amasse a avó materna, com quem viveu até os dezenove anos, não entendia como ela pôde levar uma vida envolta de tanto machismo, sem que tivesse se rebelado de alguma maneira. 

    Parecia até mesmo que sua avó materna gostava e apoiava o sistema patriarcal em que nasceu e cresceu, depois se casou e enviuvou.  

    Não era um apoio declarado, mas havia indícios de adesão a um tipo de conservadorismo que já não tinha (e nunca deveria ter tido) razão de ser. 

    Já sua avó paterna era diferente em todos os aspectos.

     Nunca se casou no papel, bebia, fumava e estava sempre fora do país.  

    Era chamada por parte da família de velha louca. 

    Essa era a opinião dos tios de Mila Cox, que se encontravam apenas no Natal e muitas vezes já chegavam bêbados ao encontro. 

    No fim das contas, era uma avó ausente, mas generosa, cheia de cultura e bom gosto musical. 

    A mãe de Mila Cox, que também vivia com ela, estava numa posição ideológica intermediária entre as avós, o que para a jovem significava apoiar, pela inércia, o fantasma do machismo e da estrutura familiar patriarcal.  

    Parecia haver em sua mãe um conformismo diante de algo ao qual as mulheres deveriam se opor incondicionalmente. 

    A hora de sair de casa se deu no momento em que não havia mais atritos e nem consenso sobre o que pensar da vida. 

    Então ela foi morar com o amigo e parceiro musical Zími. 

    Embora tivesse um aspecto jovial, pelo seu visual e pelo pensamento libertário, era um cara de meia idade, e aproveitava o estímulo que Mila Cox lhe dava para ter também mais dinamismo em sua vida, já que ele sempre a via agindo de maneira decidida, orientada para objetivos. 

    Se não fosse por ela, ele seria apenas um copywriter que sairia de casa apenas para ir ao mercado e fazer suas atividades de livreiro, comprando, vendendo e trocando livros nos sebos do centro da cidade. 

    Assim, fatalmente cairia num ostracismo artístico. 

    Ele tinha sempre um estoque de livros para ler e depois vender pela internet, para pessoas de outras cidades, onde há poucas ou nenhuma livraria. 

    Com essa rotina, conseguia se manter longe das bebidas e das drogas. 

    Enchia a cara quando saía para tocar, fosse em São Paulo ou alguma cidade do interior. Nessas viagens para outras cidades, ele sempre bebia quantidades transatlânticas de goró, especialmente depois de conhecerem Silvano, que sempre comprava várias garrafas de aguardente de produtores locais, que ele pesquisava na internet antes de viajar. 

    Com Mila Cox (que bebia pouco e quase não usava outras drogas) ao redor, ele continuou com essas atividades cotidianas, mas com bem mais ânimo e dinamismo, pois junto dela havia para ele a aventura, completamente abandonada por muitos de seus amigos da mesma geração. 

    Ele já teve banda de rock antes, mas até que começasse a tocar com ela, passou anos sem cogitar uma volta à música, fazendo shows em troca de cerveja e do dinheiro da gasolina. 

    Mas ela fazia com que ele, mesmo num misto de saudosismo e desencanto com essa vida, retomasse o entusiasmo e, ainda que apenas por rebeldia, enxergasse que não havia motivos para não tocar. 

    Cantava apenas trinta por cento das músicas, pois tocava bateria simultaneamente, mas sua poderosa voz rouca, que contrastava com seus hilários falsetes, tornava essas canções as preferidas da banda, que tinha apenas os dois como integrantes. 

    Era ela no baixo, sintetizador e vocal, e ele na bateria e vocal. 

    A constatação dessa preferência do público pelas músicas cantadas por Zími foi feita por Mila Cox, que cuida das redes sociais do duo, chamado Crop Circles

    Zími agora podia lembrar sem rancor que seu pai dizia que caso ele não seguisse certas diretrizes de comportamento social, viraria um morador de rua. 

    Olhando em retrospecto, era claro para Zími que apesar dos altos e baixos de sua vida, até então tinha conseguido se virar e perder completamente qualquer medo de virar um mendigo destruído pelas drogas e álcool, pois antes de seu pai, a professora Maria Eugênia já havia praguejado algo similar em 1983, quando Zími estava na segunda série do primário. 

    A professora não havia gostado de uma redação que ele fez sobre fraternidade. 

    A escola era católica, e o trecho da redação que irritou a professora criticava gente que humilhava outras pessoas durante o dia e rezava à noite. 

    Nessa época, a situação em sua casa também não era boa. 

    Sua prima mais velha, que ele encontrava nos fins de semana, havia lhe mostrado vários discos de sua coleção e criticava duramente medalhões da MPB que romantizavam a pobreza e os pobres, mas viviam em mansões e dirigindo carrões. 

    Isso causou distúrbio na casa de Zími, pois seus pais achavam que ele não tinha idade para contestar o que quer que fosse, pelo menos enquanto vivesse com eles. 

    Quando perguntado sobre o porquê de não ter tido filhos, ele explicava que ao entrar no ensino médio, não sabia qual profissão queria seguir de fato, mas sabia que fosse ela qual fosse, não serviria para sustentar filhos, pois ele próprio se ressentia por seus pais o terem tido. 

    A economia feita com essa escolha o livraria do destino miserável que lhe previam, de virar um mendigo bêbado e drogado.  

    A paternidade é definitiva, irreversível e cara, algo que não combinava com sua perspectiva de ser razoavelmente livre, tanto nos momentos de agonia como nos momentos de glória. 

    Dizia que estabeleceu desde cedo que seria um adulto com diploma universitário e sem filhos. Anos depois, com o advento da internet, consolidou essa perspectiva. 

    Na mesma manhã em que voltavam do show em Indaiatuba, leram a matéria sobre os jogadores de futebol que tomaram um golpe milionário da empresa de criptomoedas que prometia muito, não entregou nada, e usava nas redes sociais o lema ‘Deus, pátria e família’. 

    Para Mila Cox e Zími, Deus se manifestava em suas próprias consciências, individualmente. 

    Era algo que estava sempre com eles, direcionando-os para um caminho de ética, decência e respeito. Não era alguém ou algo exterior, que pudesse ser encontrado numa igreja, por exemplo. 

    O dinheiro para eles não era um deus, e sim, algo criado pelos humanos.  

    Tornou-se algo sem o qual não se vive na sociedade. 

    Torna as pessoas muito mais escravas do que livres. 

    Os poucos que conseguem viver sem dinheiro e com alegria, quando descobertos, são alvos de um tipo de atenção que os torna quase desumanos, por abrirem mão de um convívio padrão com os outros, sendo considerados anomalias humanas pelo senso comum. 

    Ela queria dinheiro para comprar instrumentos melhores, ele queria dinheiro para comprar de uma vez o apartamento alugado e poder gastar sua energia com outras coisas que não fossem sofrer com aluguel atrasado. 

    A pátria não significava nada, a não ser limites fronteiriços, divisões políticas que motivam guerras. O patriotismo, uma doença infantil, o sarampo da humanidade. 

    A família eram as pessoas com quem escolhiam conviver. 

    Eram temas que já tinham sido explorados à exaustão nas músicas que faziam, mas que pareciam inesgotáveis diante do que viam nas ruas e nos noticiários. 

    O prédio em que viviam era também uma fonte de inspiração, pois abrigava uma classe média há anos empobrecida, mas sempre orgulhosa e sedenta não por direitos, mas por privilégios, custe os direitos de quem custar. 

    Gente que precisa de um líder, e segue coachs messiânicos picaretas, e vivem sem entender que estão muito mais próximos da favela do que da mansão. 

    Uma soberba que desce ao patético. 

    Desde que se mudaram para o novo apartamento e conheceram Silvano, as viagens para tocarem em outras cidades ganharam mais estrutura, embora a força motriz do rolê ainda fosse gerida por uma paixão que eles só poderiam ter no amadorismo. 

    Um contrato, por exemplo, poderia fazer daquilo uma profissão chata e desgastante, especialmente no que diz respeito à autonomia artística. 

    Os vizinhos tinham curiosidade ao vê-los chegando ou saindo, enchendo ou esvaziando a Kombi.  

    Era uma curiosidade grande, inversamente proporcional à empatia que sentiam, pois viviam de outra forma, passando por cima das diferenças individuais e seguindo os velhos padrões de comportamento de burguês mal remunerado, querendo ser o que nunca serão, e querendo ter o que nunca terão. 

    Chegaram a São Paulo, depois de duas horas, com trânsito em pleno domingo de manhã, e a perspectiva de futuro naquele momento era uma semana trabalhando como copywriters, e fazendo uma música nova para ser lançada como single na internet, além de um show no sábado seguinte em Cosmópolis. 

    A essa altura, Donald debilmente fazia de tudo para antecipar o final.

  • Um trem sem destino

    Dora acordou cedo, decidida a embarcar no primeiro trem que partisse. Não havia destino no horizonte, apenas a necessidade de distância. Tomou banho, comeu, sem muita vontade, um sanduíche de queijo e presunto no pão francês do dia anterior e se arrumou. O vestido bege de zibeline, usado nas bodas de ouro dos pais dois anos antes, estava agora um pouco largo. A mala, pronta desde a véspera, a esperava ao lado do sofá. Em cima do piano, um bilhete escrito à mão depositado num envelope meio amassado. Parou um momento e mirou entorno, sentindo que poderia hesitar. Fixou o olhar em Valentina pela última vez enquanto a gata rodopiava pela sala antes de se instalar na poltrona preferida. Com um gesto brusco, fechou a porta, venceu dois lances de escada e seguiu a pé rumo à estação, aonde chegou após 15 minutos de caminhada resoluta. No guichê, uma pequena fila. Diante do funcionário, ficou muda por alguns instantes. Ele finalmente perguntou:

    − Para onde, senhora?

    − Para Felicidade & Paz, apenas ida. Posso pagar com cartão?

  • História de Abelha

    Voando no ar claro da manhã. Pontinho negro na luz do sol. O brilho nas asinhas céleres – alegria que só ela sabe. Gira que gira, de flor em flor, e alto, volúpias de leve música, desenho breve na mágica transparência. Um mergulho – cego? Sábio mergulho, a florzinha mais roxa, à espera, em oferta – úmida vulva, vinho do amor. Os apelos do amor, símbolos que clamam do abismo. A abelhinha sugando o néctar da florzinha roxa – embriaguez morna do verão, isto o amor. A festa, mas porém, ai, quebra-se o encanto. Plec, plec, a flor nos dedos buliçosos da menina sardenta. A abelhinha zonza no ar – “Sua enxerida”, diz, e flecha um voo, o ferrão da morte no narizinho empinado. “Tomou, sua atrevida?” Tomou também a abelhinha, as duas mãos da garota no nariz, no negro aguilhão que a feria. A bichinha cai no chão, atordoada, sufocada de dor.

    O irmão prestativo – como é prestativa a maldadezinha das crianças – prende a pobrezinha num vidro. Ela mal que se mexe, as asinhas, o corpinho moído, suspirozinho só. “Eu prendi a assassina”, diz o menino. A menina enxuga uma lágrima, um pimentão o rostinho amassado no pranto. Ainda consegue força, numa admiração: “Ela é bonitinha!” “Queria te matar, sua boba”, diz o irmão. “Coitadinha”, ela diz. “Sua burra!” “Burro é você, seu malvadão.” “Gostou da picada, é? Tonta!” Ela chora, a abelha tão engraçadinha. Doeu, pois é. Mas foi sem querer, já está passando. Não é por isso que ela merece morrer. Ela não pode morrer. Está agonizando, olha só. Pobrezinha. Como estremece, pretinha a sua dorzinha – sem consolo! O vidro na janela, o sol cintila – o sol é o deus da vida, a luz, o calor que é a vida. A abelhinha freme as asinhas – um frêmito bom. O corpinho se ergue – viver, tão bom viver. Gira sobre si mesma, cai, cai. “A danadinha”, diz o menino. “Teresinha”, diz a menina, “ela tem o jeito de Teresinha. A Teresinha que estava morta, morrendinho mortinha, e volta para a vida”. “Fênix”, diz o menino, “é Fênix o nome, o pássaro que renasce das cinzas”. “Ah, e eu quero saber de fábula besta”, diz a menina, “eu quero a minha Teresinha, estava morrendinho, mortinha no medinho, e revive – que beleza!” “Beleza! Beleza nada. E ela é minha, eu que peguei”, diz o menino. “É minha”, diz a menina, “ela me escolheu, olha o meu nariz”. O menino ri. Ela, vermelhona, chora. Os dois avançam para o vidro, lutam, a tampa se abre, a abelhinha voa tonta na luz livre, livre, ó glória. Voa, voa, e plaft – bate na vidraça, e o menino bate nela, e a menina bate nela. “Assassina!” “A minha Teresinha!” Irmão e irmã se digladiam – tanto amor desperdiçado, a sina do muito amar, sua esquisitice.

    A Teresinha não fez plaft na vidraça, nem nada. Fez puf, um isso de sonzinho, estrangulado. Um pontinho se encolhendo, volteando no vácuo, sem apoio, parafusinho, e o vazio absoluto, frio, frio. A Teresinha não fez plaft nem nada, mas porém plaft e plaft e plaft fizeram as mãozinhas dos irmãos inimigos no seu amorzinho descontrolado. “Homem que é homem tem que se vingar”, ele diz. “Quem mata tem que morrer! Seu carrasco,” ela diz, “quem não perdoa não merece viver.” E plaft e plaft, a guerrinha dos irmãos. Tantas palavras? Muito mais sentimento. Tanto orgulho ferido! E pá e pá – o jeito é morrer, pensa a abelhinha, e puf – murchinha, se esvaziando a sua vidinha. Depois, num de-repente – pá, pum! – o pezinho, o pezão do menino. Teresinha, nem sombra! Sujeirinha no soalho, nem isso. “Conheceu, papuda”, diz o irmão. “Assassino”, diz a irmã, e segura o narizinho dolorido, se lembrando de chorar, a dor, dor e mágoa, mágoa e dor.

  • Enquete

    Poucas horas após minha morte, recebi por e-mail uma mensagem que pedia minha opinião sobre o que era a vida, já que eu tinha acabado de sair dela. Quando estava vivo, costumava receber esse tipo de pesquisa eletrônica, completamente desimportante para mim. Eram perguntas sobre o último hotel onde tinha me hospedado poucos dias antes, ou sobre um restaurante que descobrira num bairro distante. Nunca me dei ao trabalho de responder, e não seria agora, já convertido em defunto e com meu corpo se decompondo lentamente, que faria isso.

    Mesmo assim, dei uma olhada rápida, aproveitando que o celular ainda estava funcionando. A pesquisa era bem completa, como era de se esperar, e perguntava sobre o meu grau de satisfação — nota de zero a cinco — sobre aspectos relacionados com minha saúde, a idade que consegui atingir, os sonhos realizados, as metas cumpridas, os objetivos alcançados, os fracassos, as decepções, as ilusões perdidas. E deixava um espaço em branco para que eu escrevesse um comentário sobre minha passagem por este mundo a fim de contribuir, de alguma forma, para melhorar as condições dos últimos dias para os futuros defuntos. Havia também, claro, a indefectível pergunta: eu recomendaria essa experiência de sair do corpo físico a meus amigos e familiares?

    Como disse anteriormente, eu não estava em situação de atender a todas essas questões, nem mesmo a troco dos valiosos prêmios aos quais, a pesquisa dizia, eu poderia concorrer ainda que estivesse morto (não entendi a que prêmios eu estaria apto). E, por mais que tivesse tentado de todas as maneiras, não consegui cancelar meu endereço de e-mail. Por isso é que agora, anos mais tarde, quando de mim não resta nem o pó de que fui feito, continuo atualizado com as últimas novidades e promoções das empresas.

  • Não tô nem aí

    Pega fogo, cabaré… Tem dias que só quero sumir, arranjar um jeito de me safar dessa vidinha. Gregório, meu colega, me diz que não vai durar muito na empresa. Cara, se Gregório sair, vai virar um mausoléu de tristeza. Ele que diverte a gente, faz o tempo passar mais rápido com as suas piadas, é um verdadeiro mágico. É assim quase sempre, dia sim, dia não. Ontem meu chefe me deu um rala de graça, sem motivo algum. Disse que eu havia feito um trabalho porco, porque não teria colocado nas fichas a expressão “correta” – para ele, do jeito que ele quer; nos moldes do absolutismo. E isso se repete incontáveis vezes. Parece que sou um menino em suas mãos. Não tenho pulso para enfrentá-lo, não só porque ele é grande, mas porque tem uma cara amarrada de botar medo; é como se em cada erro ele fosse partir para cima de mim e me esfolar vivo. O pior mesmo é que não tenho reação. Sou um fracote, que não sabe responder à altura, e vou engolindo sapo calado. E toda a questão gira em torno de dinheiro. Quando o patrão não tem dinheiro, desconta na gente, como se tivéssemos culpa. Ele faz um escarcéu se não estivermos atentos para as contas do mês, para o que deve entrar. Às vezes, fazemos papel de gerente de banco, arrumando as contas como se fôssemos, todos, contadores ou economistas. Gregório diz que, com razão, tenho medo de sair porque tenho filho e família, e um monte de conta pra pagar. Ele, por sua vez, é solteiro e declara não dever nada a ninguém. Como um excelente profissional, pode botar essa banca. Seria aceito em qualquer empresa séria. E eu também, não posso me menosprezar. Faço muito além das minhas capacidades. Passo dias na frente do computador e mal tenho tempo de ir ao banheiro. Não ganho mal, disso não posso reclamar, mas a relação trabalhista é abusiva (mesmo eu sendo contratado e tendo todas as características de CLT). O homem disse que, se as coisas não mudarem, vai ter de fechar as portas do estabelecimento. É uma ameaça que sempre faz, porque precisamos, não só eu, mas a Maria da limpeza, o Fausto contador, e a Noélia do atendimento. Todo mundo fica em polvorosa quando ele diz, claramente, que vai fechar as portas. Na verdade, ele não sabe lidar com as emoções, é impulsivo e não mede as palavras; torna-se, muitas vezes, um monstro desgovernado. Semana passada pegou Noélia para Cristo e quis que ela atualizasse duas pastas de processos – grossas –, ainda tendo, a pobre, de lidar com os clientes chatos. Estou farto, exausto e sem forças. Não sei até onde darei conta. Essa semana foi difícil, extremamente difícil, e o patrão não vê o esforço. Somos máquinas inúteis, inservíveis, que podem ser trocadas a qualquer momento. Não sei o que fazer, não tenho perspectivas no trabalho. Vou levando como dá. E o fim é só um prognóstico que me espanta.

  • Esteta

    Então ela completou dezoito anos e ia para a faculdade.

    O tempo era de guerra, Donald estava botando tudo a perder, e o que ela tinha aprendido de mais relevante sobre o que quer que fosse, foi através de sua tia, que apesar de jovem, estava muito à frente do resto da família em maturidade e cultura.

    Algumas ideias sobre música, política e amor eram os pilares sobre os quais a sobrinha se sustentava naquele momento de guinada, e agradecia por ter naquele momento alguma referência que não fossem aqueles passados pela escola, pela mídia ou pelos pais.

    Até porque os pais eram completamente teleguiados pela mídia, e reproduziam em suas vidas exatamente o que era pregado pelas peças publicitárias que eram enfiadas goela abaixo do povo.

    Mas ela tinha algum discernimento instintivo que fora alimentado pela tia, e por isso já era chamada de rebelde pelos outros parentes.

    Anos antes, na ocasião em que perguntou à tia sobre o que era o amor, teve a seguinte resposta:

    “Isso depende. Caso eu vá muito longe na divagação, peça, por favor, pra que eu volte ao foco da pergunta. 

    A maior parte do rebanho acredita que ele está em situações como aquela em que uma transação bancária é efetuada com sucesso numa propaganda de cartão de crédito. Isso naturalmente não corresponde à realidade, mas as pessoas acreditam que sim, e se frustram. Até porque aquilo que é comprado com o cartão pode ser algo que nada tem a ver com amor e pode ser algo que está muito longe de ser realmente útil pras pessoas que aparecem na cena. É apenas um mecanismo publicitário raso pra estimular o consumo e que mesmo assim, convence as massas.

    E na propaganda de margarina, a família está feliz tomando café da manhã, com um tempo que só teriam se acordassem às três da manhã. Isso anularia a alegria que demostram na cena. O que acontece em qualquer família normal, por força das circunstâncias reais, é que estejam pela manhã todos completamente aloprados, já atrasados, não importando o quão cedo tivessem acordado. O banheiro está ocupado, então há mais uma treta por causa disso. A condição financeira da população em geral também é um empecilho, e pouquíssimos tem tanta comida à mesa logo cedo, e a correria matinal está diretamente ligada à necessidade de ter comida para o almoço e para o jantar. Sem contar que o jantar muitas vezes só é possível com a venda do almoço. Há também propagandas de carros sendo vendidos em prestações que parecem tentadoras e que vão enforcar o escasso orçamento dessa família. É o cúmulo da estupidez e da desumanidade pensar em status num mundo como esse, mas o poder midiático consegue controlar essas milhões de mentes fracas, estabelecendo um padrão, que embora não corresponda à maioria da população, e embora as pessoas saibam disso de alguma forma, ainda assim se sentem frustradas caso não obtenham o que a propaganda determinou como condição pra felicidade. Aliás, pra não falar só da sordidez do controle midiático sobre essa questão, vamos deixar muito claro que amor não está relacionado necessariamente à necessidade de você ter um namoradinho e ser feliz pra sempre com ele. Isso é patético, antes de mais nada, porque essas relações muitas vezes têm prazo de validade. E a sordidez vai mais longe ainda quando você lembra que é preciso ter alguma independência financeira pra não cair na cilada de se casar e se dar mal e não poder sair porque depende de um Zezinho qualquer, machista e escroto. Amor tem mais relação com a sua capacidade de controlar o seu destino, na medida do possível. Você muitas vezes não escapa do capitalismo, então tem que lidar com isso sem enlouquecer, e é por isso também que esses bancos asquerosos deitam e rolam na exploração do povo através de financiamentos que tornam as pessoas eternamente inadimplentes. E é por isso que muitas mulheres não mandam o marido às favas pra começarem outra vida. É a porra da dependência financeira. O sujeito trabalha, paga as contas e a mulher que trabalha em casa se esgota até o talo e não tem um puto furado no bolso pra nada. Essa é a tônica de muitos casamentos farsários que duram décadas e que na verdade são consequência de comodismo ou falta de opção, principalmente por parte da mulher. Nesses casos, o contrato do casamento vale muito mais do que o amor. Eu, particularmente, penso no amor, ou na falta dele, de acordo com as circunstâncias de cada dia, e o atribuo àquele momento mágico em que me sinto livre, depois do trabalho, com vinho, baseado e música decente. Com ou sem algum Zezinho da vida por perto. Até porque eles estão por toda parte e sempre tem algum disponível, especialmente nesses tempos de comunicação instantânea. A vantagem disso é que a solidão deixa de ser motivo de medo e passa a ser uma alternativa momentânea e necessária para o bem estar e para a sanidade.”

    Numa outra ocasião, a sobrinha perguntou:

    “Tia, o que leva um sujeito a ser mesário voluntário numa eleição?”

    Tia: “Você já conheceu algum?”

    Sobrinha: “Não, mas vi na televisão que isso é possível.”

    Tia: “Isso é só pro Estado testar até que ponto as ovelhas do rebanho podem chegar. Quando deveria estar sendo discutido a não obrigatoriedade do voto, e quando as pessoas deveriam estar se perguntando sobre porque não deixar de votar mesmo com o voto obrigatório, surgem propagandas como essa. Entre os mesários que conheci, não havia nenhum que não estivesse deprimido com antecedência. Mas de repente o poder midiático pode fazer mesmo fazer com que exista, porque alguém acreditou que seria jogo se sujeitar a isso. De qualquer maneira é mais fácil acreditar naquilo que vemos com os próprios olhos, como a proibição da maconha, feita por quem quer que você acredite na ressurreição de um carpinteiro, nascido de uma virgem e uma pomba e que até hoje fazem as pessoas comerem ovos de chocolate trazidos por coelhos bípedes numa data específica. O coelho bípede trazendo os ovos, você não vê. Apenas os comerciais que fazem as crianças acreditarem neles para fins comerciais. Para que haja o convencimento de adultos sobre coisas surreais, as estratégias são semelhantes. O caso do mesário voluntário trata de alguém que vai além de acreditar que o Estado existe pra servir o povo, e não que o Estado seja uma doença apresentada como cura.”

    Um dia, elas estavam ouvindo música e a sobrinha perguntou:

    “Você tem esperança no futuro da humanidade?

    A tia: “Ainda tenho alguma esperança, mas não tenho otimismo algum. Parece ser uma espécie que é movida a catástrofes pra que busque caminhos que justifiquem o que entendemos por ‘humano’. As pessoas que estão no poder são homens brancos velhos, e não se preocupam com o longo prazo. Não podemos esperar qualquer atitude positiva de mudança por parte dessa gente. São lacunas em qualquer escala evolutiva. É difícil aceitar que aparentemente só uma desgraça em grande escala pode mudar as coisas, porque nesse caso, teríamos que sobreviver a isso pra ver a mudança esperada. O que não falta é urgência para que algo seja feito, e atualmente não é por esse caminho que estamos indo. De qualquer forma, toda grande mudança é precedida pelo caos.”

    Sobrinha: “Que música é essa que está tocando? Essa moça canta bem!”

    Tia: “O nome da banda é Affinity. A música é ‘Night Flight’.  Gravaram só um disco, autointitulado, que é maravilhoso. O nome da vocalista é Linda Hoyle, que gravou dois discos solo belíssimos.”

    Sobrinha: “Por que isso nunca toca no rádio ou não se torna popular de alguma forma?”

    Tia: “Os donos das rádios convencionais não queriam que suas ovelhas tivessem acesso a vários artistas brilhantes que ficaram no anonimato. Com a internet, pode rolar um resgate de muitas coisas, mas ainda assim é preciso ter algumas referências pré-internet  para que o resultado da pesquisa seja relevante. Outro consolo é que hoje você pode ter sua rádio pela internet, compartilhando música. De qualquer forma é preciso que alguém queira saber do que se trata, mesmo que por curiosidade.”

  • Orgulho ferido

    Ivana conheceu seu grande amor na faculdade, em uma roda de samba. Adorava o seu humor com piadas rápidas e admirava seu modo simples de se vestir a agir. Também chamou a atenção dela a ousadia e o destemor de falar com desenvoltura sobre política, música e sexo. Foi paixão instantânea o que Ivana sentiu, a expectativa de uma arrebatadora paixão à primeira vista.

    Ivana era sonhadora, com a crença em almas gêmeas e com olhos que brilhavam ao imaginar sonhos impossíveis. Também não duvidava da existência de duendes. Acreditou piamente que havia encontrado a sua cara metade. Casaram-se depois de seis meses, alugaram um apartamento minúsculo em Botafogo e juraram amor para sempre.

    O tempo, como uma maré insistente, foi erodindo tudo e deixou à mostra algumas verdades. Começou com pequenas bobagens. Ivana odiava aquele jeito de deixar as toalhas úmidas no banheiro e não admitia quando o seu amor chegava tarde do trabalho, cheirando a cerveja. O pior eram as desculpas: mais uma reunião com amigos, hora extra no trabalho, uma parada no bar para fugir do trânsito… O bate-boca virou rotina. Discussões constantes e brigas por tudo e por nada.

    O apartamento que já era apertado ficou ainda menor, opressivo. Ivana passou a conviver e a se incomodar com a solidão. Mesmo com alguém dormindo a seu lado, era como se estivesse sozinha.

    As horas pesavam, os instantes de prazer ainda mais raros. Ivana mergulhava no celular, rolando feeds infinitos para fugir daquela inércia regada a desprezo e apatia.

    Uma noite, após uma briga sobre contas não pagas, Ivana estourou. “eu não aguento mais você!”. O primeiro tapa veio rápido e estalado. Ainda com a face ardendo, Ivana não acreditava. O chute na barriga, a seguir, deixou-a quase sem ar. Agachada, protegendo a cabeça, Ivana ainda ouviu ameaças: “aqui não se fala mais em separação, se não quiser tomar outra surra!”.

    Ivana pensou seriamente em terminar tudo, fugir, mas não teve coragem. O amor de sua vida não era daquele jeito. Resolveu esquecer o episódio, mas prometeu para si mesma que não haveria uma segunda vez.

    O pior era a sensação de impotência e vergonha.

    No dia seguinte, Ivana nem soube o motivo pelo qual tinha tomado aquele empurrão. Ameaçou reclamar e tomou um soco na cara. Olho direito. Ao cair, bateu com a cabeça na cadeira. Sentiu-se tonta e custou a se levantar. Mesmo com compressas de gelo, o olho logo inchou. Estava na cara, literalmente, a marca da violência. Não dava mais para ficar ali. Acabaria sendo morta.

    Decidiu nada falar, nem pedir ajuda. Foi para o quarto, pegou uma mala, algumas roupas no armário, livros, objetos pessoais e se preparou para fugir. Sairia do apartamento como uma estranha, sem um adeus, nem um olhar sequer.

    De quem seria a culpa por aquele amor ter acabado daquela maneira. Sentia-se apequenada, reduzida a um traste. Às vezes não se gostar é o primeiro passo para se achar insignificante, sem reação. Gostaria que aquilo tudo fosse um pesadelo e ela fosse despertar.

    Ivana ouviu ruídos de alguém se aproximando por trás: “onde você pensa que vai?”. Ivana tinha um canivete guardado na bolsa. Naquele instante concluiu que não tinha mais nada a perder. A única coisa que Ivana queria era se ver livre daquela prisão. E sair viva. Ivana encarou a amante, de canivete na mão. As duas se encararam. “Ivana larga isso, você não vai ter mesmo coragem de usar”. Ivana parecia decidida. Era tudo ou nada. Alguns segundos de hesitação e o golpe desferido com força e precisão inesperadas. Ivana, agora, olhava a amante, que, sem acreditar, apertava com as mãos o ferimento na altura do umbigo: “mulher maluca, o que você fez?”. Ivana guardou o canivete ainda sujo de sangue, pegou sua mala, pediu licença e saiu.

    Encontre ajuda: ligue 180.

  • Catarina

    Catarina espiava pelas frestas e agia nas sombras. Silenciosa como um peixe, furtava, dissimulava, enganava, chantageava. Ouvia atrás das portas. Envenenava animais de estimação. Matou pelo menos meia dúzia de periquitos com as próprias mãos. Algumas vezes se deitava com os donos das casas. Fez três abortos. Num deles, quase morreu. Em duas oportunidades, esteve a ponto de cometer um homicídio. Destruiu casamentos e arruinou famílias. Jamais foi punida por seus atos.

    *****

    Na sala de estar, Francisco, Teresa e Max comemoravam. O filhote de dálmata não se desgrudava da dona. A casa de classe média havia sido quitada fazia pouco tempo. Moravam perto da Praia das Pitombeiras e do Parque dos Girassóis, que o cachorro adorava frequentar. Vinte anos de casados. Apaixonados ainda. Vanessa, a filha mais velha, estava de partida para a Alemanha. Havia conseguido uma bolsa para estudar teatro com um diretor franco-argelino. Vicente, o filho mais novo, tinha acabado de ser aprovado em segundo lugar para Engenharia no vestibular mais concorrido do país. A agência de viagens administrada por Francisco começava a dar lucro após longo período de crise. Nos últimos meses, Teresa viu a microempresa de chocolates artesanais aberta com a cunhada no ano retrasado aumentar o faturamento de modo significativo.

    Na cozinha, Catarina terminava de lavar a louça do jantar enquanto assistia ao último capítulo da novela. Finalmente, Juçara Penido, a vilã, maquiavélica e pérfida como nenhuma outra, seria desmascarada.

    Agora no quarto, o casal continuava a comemorar.

    — Max, desce da cama! — Francisco ordenou.

    — Não fala assim com ele, meu bem. Não vê que ele se sente tão feliz quanto nós? E é tão limpinho…

    Os filhos não estavam em casa. Teresa e Francisco trocavam carícias quase adolescentes, bebiam um vinho chileno e falavam alto. Ao som de Laura Pausini dançavam E vorrei fuggire via E nascondermi da tutto questo Ma resto immobile qui…

    Perto das onze, Vanessa e Vicente chegaram da rua quase ao mesmo tempo. Os cinco, agora reunidos na sala, continuaram a celebração.

    Uma e meia da manhã, cama do casal.

    — Francisco, que dia é hoje?

    — Sexta-feira… Aliás, já estamos no sábado.

    — Você conferiu o resultado do jogo?

    — Jogo? Hoje não tem jogo, minha pombinha. É no domingo que vou ao estádio com o Rodolfo.

    — O jogo, homem! Da loteria. A gente não ganha nunca. Mas dessa vez eu sonhei. Vamos conhecer a Itália. Sonhei com Florença, gôndolas…

    — Gôndolas são de Veneza, esqueceu?

    — No meu sonho, havia gôndolas em Florença. Navegando pelo Arno… Vai lá na sala, anda, pega o bilhete!

    — Ah, depois, deixa eu dormir…

    Pela manhã, Teresa, logo após acordar, dirige-se à sala. Estranha o silêncio na casa. Àquela hora, Catarina já deveria estar preparando o café na cozinha. Abre uma das gavetas da estante. No local onde os bilhetes e comprovantes da loteria eram guardados, apenas um pedaço de papel amassado e sujo. Nele, com uma caligrafia firme, estava escrito: Caros patrões, a última faxina é sempre a melhor…

  • Os anos de chumbo

    Fui adolescente nos anos de chumbo. Eu não sabia do que acontecia no Brasil, tudo era escondido como se fosse vergonhoso. Nosso comportamento também era controlado, tudo em nome da moral e dos bons costumes.

    Fui expulso do seminário, perdi a fé, depois descobri que meus novos amigos também não tinham fé. Mas a minha falta de fé não era pacífica.

    Por algum tempo, muito pouco, dormi num pequeno quarto, quase uma despensa. Eu rolava, rolava sem parar, estatelava-me no chão e, exausto, fungava, fungava. Os olhos nas paredes, armários, no teto, sobretudo no teto, suas frases escritas a giz.

    “É proibido proibir.”

    “Apareça lá em casa, viu?!”

    “Pois é, falaram tanto.”

    “Make warm not love.”

    “Dê um chute no patrão.”

    “Adivinha quem vem para o jantar!”

    Algumas frases com a indicação da autoria:

    “E vendo o barco se afastar de Amaralina desesperadamente linda e soluçando lentamente.” (Caetano Veloso).

    “O amor move o sol e as estrelas.” (Dante)

    “É preciso respeitar o homem… não ter piedade dele.” (Gorki)

    “Pierrot le fou… lindo!”

    “Estavas tão linda assim no dia dos quarenta e três pores-do-sol!

    “Vivemos na melhor cidade da América do Sul.”

    “Vamos passear na floresta escondida, meu amor.” “É superbacana.” “São Paulo mon amour.”

    “Yes, nós temos” e o desenho de duas bananas.

    E tudo isso eram coisas. Faltaria uma frase de Gorki? “Ninguém deve ser condenado por coisa alguma porque somos todos iguais: bichos.” Bichos? Então não éramos coisas? E um bicho é algo mais? Em alguma parte do mundo, uma criança, em alguma parte do meu coração, chorando. Silêncio em mim. Quem seria eu? Ninguém?

    Urra! Abre os olhos, abre os olhos, bicho! Oscilações, confiança, extremos. Sangue, dor, angústia. A criança chorando, em alguma parte, sem o pequeníssimo barulho enorme da gota de remédio caindo da invisível colher. Cusparada na face do destino.

    Mas o destino tem face? Mas existe destino?

    “…estendes os braços perfumados de giestas pedindo tempo quando não há tempo.” (Dalton Trevisan)

    Meus amigos, não há amigos. Eu sentia a precisão de uma companheira.

    Silêncio. Mas o que era o amor? Talvez uma neurose. “Se queres aprender a amar, esquece a tua alma.” (Manuel Bandeira)

    Eu teria deixado muitas almas por aí, ah, as almas histericamente berrando canções de afugentar as almas.

    “Os corpos se entendem, as almas não.” (ainda Manuel Bandeira.)

    E meu corpo estava vazio. Se eu cria em Deus, qual então a causa da minha angústia? Viver é um paradoxo. Eu estava ali numa cadeira, numa mesa, num quarto/despensa escrevendo não sabia o quê como se isso resultasse alguma coisa.

    Então a mocinha dizia ao pai consternado: “Minha vocação é pra prostituta.”

    O mundo seria salvo, talvez, pelos insubmissos. Mas o que quer que eu fizesse seria uma submissão – ou ao corpo ou ao espírito. Seria preciso muita virtude para se conseguir um estado de completo, perfeito, sumo ateísmo ou teísmo.

    “Deus é virtude.” (Quem teria dito?)

    “Pensarei provisoriamente que a virtude é o que o indivíduo possa obter de melhor de si.” (Gide)

    A criação artística é um ato de embriaguez. Eu procurava a fé, um cristianismo de vida. Problema da fé sustentada no amor? Crer mais importante que ser? Amor, comunhão, conciliação com Deus e os homens? Destino humano, desejo de permanência – a salvação do homem? Quando a volta do homem desiludido? Deus não existia para mim se eu não o aceitasse e não podia aceitá-lo enquanto não emergisse do mal. Haveria salvação para mim?

    Eu continuaria fazendo o meu caminho nem que fosse por falta de alternativa.

    Depois parece que me esqueci de tudo isso, continuei caminhando sem esperar por respostas. Deveria ser o início da maturidade.

  • O instante

    No balcão do bar, à minha direita, com trinta e oito anos, um metro e oitenta de altura e aproximadamente noventa quilos, Júlio Andrade, engenheiro, toma um café com leite. Está sozinho. Foi um pai exemplar até às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem, quando sua única filha, Marita, de doze anos, foi atropelada por um caminhão quando atravessava a avenida a caminho da escola. Ele acabou de enterrar sua menina e agora não tem mais filha. Não é mais pai de ninguém.

    À minha esquerda, com cinquenta e quatro anos, um metro e setenta de altura e sessenta e oito quilos aproximadamente, Cirilo dos Santos, servente de pedreiro desempregado, bebe em silêncio um copo de cerveja. Está sozinho. Ainda guarda no bolso traseiro da calça o bilhete de loteria premiado, cujo resultado ele conferiu na manhã de ontem pela televisão, às oito horas e vinte e três minutos. Está fazendo hora até o banco abrir, quando resgatará o prêmio e colocará fim à vida de privações que ele e sua família levavam até esse momento. Está milionário.

    Um deles pensa naquele instante de ontem como o pior de sua vida; o outro, como o maravilhoso início de uma nova existência. Eu sou aquele instante. Às oito horas e vinte e três minutos da manhã de ontem eu fui amaldiçoado e enaltecido ao mesmo tempo.

    Um instante é uma viagem sem roteiro e planejamento, cujo destino final será um simulacro, uma faísca de vida e suas consequências. Faça-se uma fotografia de Júlio e Cirilo no instante compartido no balcão do bar: um deles mal contém a tristeza, o outro, mal disfarça a sensação de pisar em nuvens. O retrato mostrará o que passa em cada cabeça?

    Júlio e Cirilo são a prova de que pode haver horror e alegria num só instante. No mesmo instante. A vida é cheia deles. A vida é cheia de mim.

  • Pais de filhos mortos

    Não sei o porquê de tanta encrenca na vida. Aliás, é muito mais que encrenca, é uma calamidade familiar. Onde foi que eu errei? Dei um duro danado para educar os meus filhos, e de retorno só recebo ingratidão. Morro de desgosto, e, inclusive, minha saúde tem se debilitado progressivamente. Malu não sabe também o que fazer. Será que demos amor demais? Ou será que não foi suficiente? Paulinho, nosso primogênito, cedo caiu nas drogas, por influência dos colegas. Ele foi, quando menor, muito dado, alegre e educado. Foi catapultado para a vida marginal. “Por que, meu Deus? Por que?”. Logo passou a fazer pequenos roubos, porque não admitíamos a sua condição, degradante. Pensávamos que dar dinheiro facilitava a vida dele para buscar os seus abusos. Mas, ainda assim, o fiz incontáveis vezes – por pena, por dor. Ele parou de estudar logo em seguida, e isso foi uma punhalada no meu coração – eu que tanto estudei, fiz duas faculdades, para dar uma vida melhor para meus filhos, levei uma rasteira, mais uma vez, da vida. O guri dizia que escola era coisa para trouxa. Mandei que trabalhasse, então, de qualquer coisa. Ele me mandou à merda. “Vai trabalhar tu, velho lazarento! Não pedi para nascer, e tu é obrigado a me sustentar!”. Quando me lembro dos momentos felizes de sua infância, que ele era grudado comigo, choro de emoção. Paulinho, como disse, foi um menino meigo e superinteligente; brincávamos muito, íamos aos jogos do Internacional, tínhamos uma vida “normal”. Tudo mudou para pior – bem pior. Agora está amasiado com uma qualquer, que sequer sabemos quem é. Malu não concebe não conhecer a própria nora. Já chegou a brigar com o Paulinho, quando ele, pontualmente, apareceu em casa – para pedir dinheiro. Soubemos, por acaso, que está esperando o nosso primeiro neto. Paulinho, talvez por isso, é entregador. Diminuiu as farras. Quiçá melhorou – não para os pais; ele ignora a nossa existência. Não sei como uma pessoa assim não pode ter sentimentos. Será que ele não tem lembranças boas de mim? Choro de saudade do que vivi e do que não vivi. Não dá atenção aos pais. Somos meras fontes de dinheiro. Vivo esperando o dia em que ele vai voltar, como homem, me abraçar como homem, e se mostrar uma pessoa digna… Flavinha, nossa menina rebelde, não partiu para o mesmo caminho, mas, vendo a influência do irmão, resolveu parar de estudar – não tive pulso para segurá-la na escola. Uma psicóloga amiga sugeriu que ela poderia ser psicopata, pelo seu estilo atrevido e por não demonstrar nenhum tipo de emoção. É uma menina bonita, então, absurdamente, inventou de abrir uma conta no OnlyFans, e ganha o seu dinheirinho. A princípio, relutei – sentia uma vergonha monstra. Mas, depois, vi que o corpo é dela, e, já adulta, pode fazer o que quiser. Malu suspeita que faça programa, porque às vezes sai muito arrumada, cheirosa, e não diz pra onde vai – sim, ela e ele não nos dão nenhuma satisfação. E Flavinha sempre está bem financeiramente, sem “trabalhar”. A verdade é que, com relação ao dinheiro, já me arrastaram tudo. Vivo da minha aposentadoria mirrada, de funcionário público estadual. O dinheiro que juntei por uma vida serviu para comprar um carro para o Paulinho e outro para a Flavinha. Carros do ano. Dei de coração, para começarem a vida. Queria que, com isso, nossa relação mudasse, mas vejo, hoje, que é praticamente impossível, que foi a pior coisa que fiz – bem, para Deus nada é impossível. Malu quase morre de um princípio de infarto, de tanto problema que carrega. Eu sou diabético e hipertenso, tenho que regular a alimentação à risca. Somos dois velhos pais de filhos mortos. E isso não convém a uma boa velhice. Somos mais velhos do que queríamos.

  • A cana na moenda

    Os caixas do supermercado entraram em colapso, e eram sete horas da noite de um sábado em São Paulo.

    A escala seis por um a devorar a sanidade dos funcionários. Filas com famílias inteiras com carrinhos cheios de caixas de leite e cerveja, misturadas a pessoas que queriam pagar apenas por um ou dois produtos e desaparecer dali o mais rápido possível.

    Crianças gritando porque pediam aos pais pelos produtos açucarados estrategicamente colocados próximos aos caixas, superexpostos ali exatamente para momentos como aquele.

    Essas crianças certamente já ouviam a palavra ‘crise’, pelo menos em algumas de suas modalidades, mas ainda não tinham consciência do desfalque monetário que aquelas caixas de leite e sacos de feijão fariam no orçamento de seus pais., impossibilitando gastos com excessos nada saudáveis.

    Um casal que olhava para aquele pandemônio à espera de pagar por frutas e pacotes de aveia, começou a conversar sobre o tempo de vida perdido nessas ocasiões.

    Torciam com pouca esperança para que  aquelas crianças não crescessem acreditando que todos os caminhos para a felicidade fossem através de compras.

    Ele falou: “Agora com a guerra torando, tudo vai ficar ainda mais tosco.”

    Ela respondeu: “Pelo menos, não estamos na pele laranja de Donald.”

    E olharam novamente ao redor, a cena geral horrenda, em que o protagonista é o lugar, e não alguma pessoa em especial.

    Onde o dinheiro e a falta dele faz um grande salão hospedar o pior do ser humano.

    E ela com uma camiseta do Yo La Tengo e ele com uma do The Saints.

    Pessoas ao redor, também esperando na fila, às vezes faziam menção de entrar na conversa, mas se continham quando percebiam que o teor do que era dito por eles podia ser direcionado a elas próprias e aos constrangimentos por elas causados.

    A conversa evoluiu da chateação de uma fila de supermercado para problemas sociais crônicos.

    Eles partiam do princípio de que se a pessoa dependesse de um emprego formal, em que dorme pouco, sai pela manhã mal alimentado, sempre correndo e atrasado, sempre com problemas no transporte público, ou mesmo num carro confortável, porém preso por horas no trânsito, só para chegar ao local de trabalho, então a pessoa não apenas está absurdamente longe de pertencer a qualquer tipo de elite, como deveria reclamar dessa péssima qualidade de vida.

    Uma minoria consciente de fato reclama, enquanto a absoluta maioria agradece, alguns inclusive tentando ostentar o que nunca teve, tem ou terá.

    Foi mencionado no início apenas o começo do dia desse cidadão médio, que tem emprego e casa.

    Ele terá ainda que lidar com a falta de dinheiro para contas básicas, tendo que reinventar o conceito de lazer, uma vez que esse setor é automaticamente eliminado de sua existência por falta de tempo, energia e dinheiro.

    Possivelmente não teria nem mesmo vontade, pois teria desenvolvido depressão, no caso de realmente pensar sobre o tempo de vida perdido a caminho do trabalho, e depois executando o trabalho que geralmente enriquece mais alguém que já é rico, doando seu tempo e energia.

    O tempo que sobra para os que tem família é curto e imerso em tensão, devido a problemas financeiros e de estresse pelo cotidiano penoso.

    Um cotidiano tão cruel que condiciona a massa a pensar que essa vida padrão é plenamente natural, de tanto que o povo está acostumado a sofrer.

    Ali havia tempo para que o desespero social pela precária situação econômica do país se manifestasse.

    Pais de família abordando clientes na fila, com uma cesta pronta, com produtos alimentícios básicos, pedindo a eles que façam o pagamento.

    Era algo sobre fome, apelidada de ‘insegurança alimentar’.

    Havia o tiozão do churrasco, com camiseta da CBF, comprando cerveja e carne congelada, pais com carrinhos com dezenas de litros de leite, morador de rua comprando corrosivos corotes coloridos e o sistema ineficaz de estrutura da bilionária rede de supermercados para aglomerar toda aquela gente ali.

    Isso fazia o casal falar ainda mais, pois tinham ideia do que significava aquele desespero.

    Tinham o dinheiro para a sua compra contados em moedas pequenas.

    Algumas das pessoas na frente e atrás deles na fila levavam carrinhos repletos de mantimentos diversos, a um custo fora de qualquer possibilidade para os dois.

    Era um casal para o qual o depois de amanhã já era uma perspectiva de longo prazo, mas acima de tudo, uma perspectiva otimista, de que o depois de amanhã chegará com a humanidade ainda sobre a crosta terrestre.

    Naquele momento em que todos ali eram iguais, presos numa capsula de desolação e ansiedade, o casal podia jurar que aproveitaria cada segundo da vida de uma maneira mais cuidadosa, a partir do instante em que deixassem aquele lugar.

    E nem estavam exatamente mal-humorados. O que havia era um tipo de perplexidade que se dá justamente quando a cena é repetida.

    O homem que alegava ser pai de família e pedia pelo pagamento de seu cesto de compras se aproximou do casal e ficou constrangido de pedir algo a eles, depois de uma recusa fria do tio do churrasco.

    Não apenas por ter visto o modesto conteúdo vegano do cesto do casal, mas também por ter ouvido parte da conversa durante suas tentativas de pedir ajuda.

    Já sabia até mesmo que os dois iriam vender canetas no dia seguinte, nas proximidades de um local que aplicaria a prova do ENEM.

    Já haviam feito isso várias vezes. Ajudaria na receita doméstica e renderia um rolê no domingo.

    Tanto o cara com camiseta do The Saints como a garota com camiseta do Yo La Tengo eram graduados.

     Eles olhariam para aqueles estudantes cheios de medo, ansiedade e majoritariamente sob a mais profunda falta de preparo.  

    Sentiriam mais uma vez todo o desprezo por políticos que deixaram de herança essa situação vergonhosa.

    Sentiriam também alívio por estarem ali sem serem um daqueles estudantes, mas sabendo exatamente o perrengue que aquilo representa.

    Os portões se fechariam, eles olhariam o desespero dos que ficaram de fora e depois se deitariam na grama, já com dinheiro para ir novamente ao mercado, à noite. I

    Para aquele domingo, estaria ótimo.

    A soma da renda de ambos, os classificava como classe média. Antifascistas desde antes de nascerem, de acordo com eles.  

    Diziam sofrer de vergonha alheia a cada vez que se agrupavam por motivo alheio à vontade.

    Mas ainda era sábado, e com a classe média ali misturada aos mais pobres e geralmente sem qualquer empatia com eles.

    A classe média que está tão longe de ser rica, parece ainda mais desolada e vulnerável.

    O medo de empobrecer mais é perene, e atinge o ápice naquela hora da verdade capitalista.

    O pavor de atingir um nível de dificuldade financeira que já é tão concebível nos pesadelos que preenchem as poucas horas de sono semanais castiga milhares de pessoas ainda associados a esta camada social.

    A parcela consciente desse grupo, naturalmente em número muito menor, tem vergonha e constrangimento, desesperando-se diante do fato de o rebanho ser completamente cego.

    Quando finalmente chegou a hora de pagar e sair, a garota do caixa, enquanto passava os produtos, perguntou a eles o que eram um do outro. 

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