
Desobediência
Zími tomou um ácido e saiu.
Cidinha era caixa do mercado perto da casa dele.
Ela era refém da escala 6×1 e sua gravidez estava avançada o suficiente para que o esforço e o desgaste daquele trabalho já parecessem excessivos.
Zími, que mora na Rua da Glória, chega a pé ao mercado em sete minutos.
Ele só saiu naquele horário porque os ítens que precisava comprar eram essenciais.
Duas da tarde de uma terça-feira insanamente quente, que castigava as massas sem aliviar.
Zími precisava de café, cigarro, sabão em pó e água sanitária.
Chegou a vez de Zími no caixa para pagar a compra, e Cidinha, exausta pelo calor excessivo e pela rotina destrutiva, comentou com Zími: “Eu ainda rezo toda noite, mas cada amanhecer parece ainda pior que o anterior!”
Zími respondeu: “Deus não existe. A religião é uma campanha publicitária de um produto que não existe.”
Cidinha soluçou mas não respondeu, apenas deu a Zími a nota da compra, e chamou o próximo cliente.
Zími ainda falou: “O mundo é comandado por uma elite esotérica, ocultista, que tem vínculo com as trevas.”
Então voltou para casa e se deparou com a antítese de Cidinha.
A juventude de Mila Cox não permitiu que fosse eleitora na época das cédulas de papel.
Ela foi apenas uma vez à urna eletrônica anular seu voto só para ver como era. Mesmo tendo ouvido Zimi e sua tia Lola Cox repetindo à exaustão que a única resposta viável nas urnas era não ir até elas.
“Abster-se dessa patifaria é uma manifestação legítima!” — ele dizia, sempre que uma eleição se aproximava.
Sem shows marcados e por isso sem precisarem de um guitarrista provisório, Zimi e Mila Cox surpreendiam um ao outro com a capacidade que tinham de não sentir solidão com o isolamento no apartamento no bairro da Liberdade.
Ali preparavam outro disquinho de sete polegadas com uma música de cada lado para o duo Crop Circles, que eles montaram em 2017.
Ele dizia que seria bom gravar uma canção cover para o Lado B enquanto ela era radicalmente contra covers e tributos, mas concordou apenas pelo fato da canção escolhida ser uma do Cheap Trick, que era uma das bandas preferidas de ambos, e também porque seria ele quem cantaria na faixa.
Esse formato de disco evitava as ‘filers’ que enchiam tantos Lp’s com excessos, mas que seriam bons compactos ou singles. Para esse próximo lançamento, Cox preparou para o Lado A uma canção em português que tratava de uma conversa com pequenos ex-produtores rurais que enfatizavam de forma unânime que o agro é medonho nas entranhas. Mudou um pouco sua temática, antes mais focada em intervenções alienígenas.
Mas agora que Donald postou aquela foto, ela deixou de lado momentaneamente, porque aquele cretino entregou o meme pronto.
Depois da pandemia, as pessoas não se assustam e nem se surpreendem mais com isso.
Apesar de querer chocar de alguma forma, ela vetou para o clipe da música as imagens gravadas por Zimi, em que uma vizinha amiga dele dança pelada queimando uma bíblia.
Trabalhar em casa era um sonho antigo para eles, mesmo num tempo em que já se dizia que copywriters já não servem para nada.
Zimi parecia um Jay Reatard menos prolífico que a fez entender que era importante observar como aqueles novos pseudoartistas pavorosos que eles descobriam do nada que eram famosos, e que apareciam em programas matutinos da TV aberta tinham tudo para afundar em suas aparições ocas de qualidade, enquanto ajudavam a desenvolver métodos de divulgação mesmo sem ter nada de relevante para apresentar.
Num mundo mais coerente essa gente ruim abriria caminho para artistas genuínos, que tinham vidas reais e isso aconteceria por meio de um desvio consciente da história movido pela força da emergência em rever o que realmente importa na vida e na arte.
Comeram cookies de aveia e chocolate amargo durante a visita de Lola Cox, que era tia de Mila, e que chegou sozinha dizendo que estava solteira novamente porque para ela o casamento tem validade de quatro anos e a principal causa dos divórcios são os próprios casamentos.
Ela voltou para a cidade para ver da janela a Avenida São João à noite com o asfalto molhado.
Alegou que achava que não viveria para ver isso novamente, enquanto Mila e Zimi ainda gostavam de ouvir a Voz do Brasil às sete da noite para aprender com aqueles políticos escrotos um português bem falado e NÃO aprender com eles a vender esperança às custas da ignorância das massas.
As noções de decência que os dois procuraram cultivar em suas vidas deixariam de ser tratadas como utopias.
E uma voz dizia a Zími que imperfeições podem ser vistas como virtude, pois elas a seu modo dão movimento a tudo que deve se mover.
Enquanto isso, ele pensava no porquê de Cox buscar uma sonoridade influenciada pelo Ministry se ela agora ouvia Tim Buckley e Fleetwood Mac.























