
Expectar
A cadeira vazia é sinal de luto, a falta do desejo. Morreu muita coisa em mim desde que Maroca se foi. Só tínhamos a nós mesmos, porque nossa família se dispersou, e nossos parentes moram distante, em outro Estado – é uma história longa, mas vou resumir: passei num concurso para um bom cargo no DNOCS; nessa época, namorava com Maroca, e, para assumir o meu posto, logo tive de me mudar e me casar com a mulher da minha vida. Lembro, repetidamente, dos bons tempos em que a casa era cheia de filhos, primos, amigos, afilhados, e quem mais pretendesse se chegar. Maroca acolhia como uma mãe, tanto que Joelma, amiga de Daniel, nas férias, ficava dias em nossa casa, porque eles “precisavam” brincar muito, juntos. A rua toda usava a nossa casa como ponto de encontro à noite, para ficarem na calçada, e boa parte do tempo eu e Maroca ficávamos e brincávamos com os nossos vizinhos. De lá para cá, tudo mudou. Hoje, moro em um “apertamento”, porque nossos digníssimos filhos arranjaram a desculpa de que apartamento é mais seguro; mas se perde a liberdade… Finjo que não me importo em estar só, em plena quinta-feira – dia em que meu apê, em tempos áureos, estava abarrotado de filhos e netos. Transito entre o quarto e a sala, para acompanhar os noticiários, sempre ruins – o Brasil, então, vai de mal a pior. Pela manhã, três vezes por semana, tenho a companhia da Alzira, a diarista, que me faz um bem danado, com o seu jeito leve de viver, mesmo diante de tanta dificuldade, morando em uma zona perigosa da cidade; mesmo tendo perdido um filho para a marginalidade; mesmo sendo mãe solo de quatro filhos; faço questão de ajudá-la no que precisar, ela é a minha amigona do peito, que me tira da inércia de viver por viver, assim… Daniel foi para o Canadá, e se estabeleceu muito bem como músico, baterista (já mora lá há quase dez anos; daí, não sei sequer o cheiro das minhas netas). Fernando, o mais novo, primeiro foi à Inglaterra, mas, por conta do rigor das leis também, se mudou para o Canadá com a família. Não vejo os meus netos há, pelo menos, oito anos. Maroquinha faleceu há dois anos, de câncer, muito rápido; ainda estou sem entender. É uma perda irreparável, insuportável, mas tem de se viver. Meu apê, agora, é um mausoléu que me abriga, tímido e ferino. Ressoa a voz da escuridão. Meus filhos dizem que vêm me buscar para passar um bom tempo com eles. Essa é a única alegria que me mantém em pé. Não vejo a hora de beijar Sofia, Mariana e André. Todos grandes, já encaminhados na vida. Mariana é a mais apegada: liga, e passamos horas conversando. Ela afirma que arrumou o meu quarto; que em setembro tudo vai se resolver. Daniel já comprou as passagens. É questão de tempo, se ainda houver tempo para viver.























