Literatura

  • Voos mais altos que nós mesmos

    O piso são nuvens; entre o céu e a terra, tal qual um dito rodapé, eis o cinturão cintilante que traz a cor das bagagens, no compartimento acima da cabeça e no nível do pé: laranja e amarela. Sigo fotografando estrelas sobre o oceano, a 12km de altitude, alaranjando a escuridão que me faz perceber Avior brilhando perto da ponta da asa metálica que me atravessa a madrugada e tantos tempos.

    Após turbulências tantas em terra, céu de brigadeiro, enfim.

    Enquanto isso, sem porto, me aproximo do lugar que meu pai me guarda. Trago a alma leve; no clarear do dia, Romeu e Julieta, versão Los Hermanos, chega-me ao coração pelos ouvidos.

    Tudo se ajeita depois das tempestades. A vida é a urgência das coisas extraordinariamente simples do dia-a-dia.

  • VÂNIA está nua

    Vânia sempre sonhou morar em Santa Teresa. Tinha um monte de amigos por lá. Frequentava os bares da moda, andava de bonde e se admirava com a quantidade de centros culturais e casarões históricos, subindo e descendo pelas ladeiras de paralelepípedos e trilhos.

    Todos tinham cara de artistas ou se vestiam como artistas. O bairro respirava boemia e contracultura e isso a fascinava. Pontos de artesanato e ateliês em cada esquina.

    Conseguiu alugar um apartamento no Largo dos Guimarães, lugar icônico do bairro. Vânia teve sorte. Uma amiga voltou para sua cidade natal e passou o aluguel para ela. Não era amplo, mas charmoso e bem decorado. Na cozinha, mal cabia a geladeira. Secar a roupa era uma complicação, o sol da tarde não ajudava. O cafofo era descolado, embora úmido no inverno. O maior atrativo era a vista. Da sua janela via um casarão antigo e, mais ao lado, o ponto de parada do bondinho. Bem perto, lojas de artesanato e um mercadinho de secos e molhados.

    Vânia se sentia no paraíso.

    Na janela do casarão que dava para seu quarto, Vânia começou a notar a presença de um rapaz de cabelos longos, barba e óculos escuros, que ficava olhando fixamente para dentro do apartamento dela. A antiga moradora não havia colocado cortinas, para a claridade entrar e ela acordar cedo. Dizia ser saudável despertar com a luz do sol. Vânia reparou que o tal rapaz não era feio. Quando ela o encarava, ele olhava para o céu. E assim ficava por um bom tempo. Esquisito.

    Ela se sentia invadida, vigiada. Total desconforto com aquele homem da janela do casarão. Não podia nem andar de calcinha e sutiã. Quando saía do banho, tinha que passar enrolada com a tolha no corpo. Todo o tempo, ele lá, firme, como uma sentinela em seu posto de observação.

    Resolveu enfrentá-lo, foi até a janela e mostrou o dedo do meio. Ele pareceu não se intimidar. Permaneceu olhando o céu, com o semblante mais deslavado do mundo. Até aparentava sorrir. Além de voyeur, um debochado.

    De um amigo a quem contou o que acontecia, ouviu a dica direta: “Fica logo pelada, amiga, que ele vai terminar cansando. Tipos assim gostam do suspense, da surpresa, têm o prazer de observar as pessoas na intimidade, mas não curtem a nudez escancarada”.

    Vânia simpatizou com a ideia, ainda mais que, sem querer admitir abertamente, estava começando a se interessar pelo vizinho estranho. Quem sabe, ele se animava e fazia contato, em vez de ficar só espiando com cara de pateta.

    No início, ela ficou inibida de passar nua pela janela. Como tivesse um corpo bonito e desejo de ser notada por isso, não demorou a, não só se despir, como também ensaiar poses eróticas. Passava a mão pelos seios, virava de costas e se abaixava, jogava os cabelos para trás e repetia caras e bocas. Colocou até música e experimentou um strip-tease amador.

    E o bonitão de óculos escuros lá, impassível. Olhando tudo para depois esquecer do mundo, enebriado com o céu. Coisa mais sem sentido. O que será que esse idiota vê lá em cima? Eu aqui, nuazinha em pelo e ele com essa pose de filósofo grego. Que se foda…

    Vânia resolveu esquecer o voyeur da janela e tratou de seguir a vida. Já se acostumara com a presença dele por ali, uma costumeira
    rotina.

    Em uma festa com amigos, ela soube que aquele seu vizinho era deficiente visual. Bastante conhecido no lugar, figura querida, sempre de bom humor e falante com as pessoas. Tinha a mania de repetir que era cego, mas conseguia ver as estrelas.

  • Dores inevitáveis

    A casa do senhor Elias cheira a livros velhos, café passado e madeira encerada. Nas paredes, não há quadros retos. Uma estante inclina-se para a esquerda, resultado de uma tentativa fracassada de montagem há quarenta anos. Ele a chama de “minha Torre de Pisa particular”. No centro da sala, sobre uma mesinha manchada de círculos de copo, há um vaso colado com esmero, as rachaduras desenhando mapas dourados pela superfície. Há quem visite Elias e veja apenas desleixo: o tapete desfiado onde tropeçou e quase quebrou o tornozelo numa noite de chuva, a janela que nunca fecha direito porque ele a pintou num dia de calor excessivo, emperrando a madeira. Pedem-lhe: “Por que não conserta? Por que não troca?”. Ele balança a cabeça, serve mais café e conta histórias.

    O vaso rachado foi um presente de uma amada, num tempo em que o amor era mais urgente do que cuidadoso. Ele o derrubou numa discussão fútil, e ela partiu antes que a cola secasse. Olhar para aquelas rachaduras não lhe traz arrependimento pelo amor, nem pela raiva. Traz a textura nítida daquela tarde, o cheiro do jasmim do jardim, o gosto amargo das palavras não ditas e, depois, o cuidado paciente de unir os cacos. O vaso guarda a história inteira, não apenas a parte bonita.

    A estante torta foi montada na véspera do nascimento do primeiro filho, entre ansiedades e sonhos. As peças foram mal encaixadas, mas o tempo era curto e o coração estava cheio de um futuro que batia no peito da esposa. Ela riu quando viu o resultado. “Parece que vai dançar”, dissera. E a estante dançou, suportando enciclopédias, romances, fotos de formatura, até ficar cansada e inclinar-se para um lado. Consertá-la seria apagar a pressa sagrada daquela véspera.

    Elias abriu uma pequena oficina de restauro, que o sustentou com mais alegria do que aquele cargo público jamais o faria.

    Senhor Elias sabe que os arrependimentos são os pesos mais pesados que carregamos para a velhice. São fantasmas de caminhos não andados, de palavras engolidas, de medos que nos paralisaram. Seu avô, no leito de morte, não chorou pelos tropeções ou pelas xícaras quebradas. Chorou pelos beijos não dados, pelas viagens adiadas, pelas cartas que nunca enviou. Chorou pelo vazio, não pela bagunça. Cada lasca, cada trinca, cada coisa fora do prumo é um marco em sua geografia pessoal. A casa não é um museu de perfeições, é um diário em três dimensões. Ao anoitecer ele não sente o frio do arrependimento, mas o calor de uma vida habitada. Os erros foram portas, alguns que levaram a salas escuras, outros a jardins inesperados. O corpo já traz suas dores inevitáveis, por que carregar também o fardo pesado e inútil do “e se”? É melhor conviver com uma estante torta, que sustentar livros bem amados com a perfeição imaculada de uma prateleira vazia. Nessa falta de arrependimento, encontra uma estranha e tranquila sabedoria: a de que uma vida inteira pode caber nas rachaduras de um vaso.

  • Malhação 2003

    Leandro gostava de Kátia. Desde a quarta série. Já estava no fim do sexto ano. Leandro nunca teve coragem de cumprimentar Kátia.

    Kátia achava Leandro bonito. Achava Leandro e mais uns cinco ou seis da sexta série B bonitos. Sem contar as dezenas de garotos que deixavam Kátia com as maçãs do rosto bem firmes, quando passavam por ela sorrindo. Kátia era uma das muitas garotas cobiçadas do colégio.

    Leandro nunca soube que Kátia o achava bonito. Nem nunca imaginou essa possibilidade. Mesmo desejando tanto que isso fosse possível. Costumava acreditar em novelinhas da Malhação ou das 9 em que, no fim, o mocinho e a mocinha ficam juntos para sempre.

    O sinal toca. Último dia de aula. Kátia se despede de Larissa, Roseane, Aline, Mariane, Lucas, Daniel e Felipe. A uns três metros de distância, seus olhos castanhos e doces abraçam Leandro pela primeira e última vez.

    Naquele mesmo instante, Leandro aguardava ansiosamente o último capítulo da temporada de Malhação 2003.

  • Meu avô, o escritor

    Seguramente, este amor que nutro hoje pela Literatura se deve a meu avô Carlos, um advogado criminalista que gostava mesmo de inventar histórias. Tenho várias lembranças dele trabalhando no escritório da casa do Humaitá junto com sua inseparável Olivetti portátil. Quando não estava no escritório, podia ser visto no jardim observando as plantas, as flores e os insetos ou apenas contemplando o céu. Era a hora de se abastecer de inspiração, justificava ele, antes de se acomodar embaixo da mangueira ou de se sentar ao lado do viveiro para ler o jornal. Na sala de estar ouvindo música clássica, nos quartos meditando e olhando a paisagem ou mesmo na cozinha impregnando-se de cheiros e sabores, vivia espalhando metáforas, metonímias, sinestesias e hipérboles pelo ambiente. E sempre que estava para concluir um texto, dirigia-se ao terraço com as folhas datilografadas na mão. Então, tal qual bandeira desfraldada, estas eram sacudidas ao sabor do vento por alguns instantes. Se alguém presenciava a cena e se surpreendia com esse inusitado comportamento, ele logo explicava num tom meio professoral:

    — Trata-se de uma manobra crucial, meus caros, é só neste momento que os clichês se desprendem do texto…

  • Cuidado, Dotô!

    “É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar” (Geraldo Vandré)

    Seu dotô, me desculpe invadir assim seu sossego. Não se avexe com meu aspecto franzino e meu jeito simplório, dotô. Não vou assaltar, nem pedir esmola, só levar uma prosinha. O assunto é breve mas muito sério.

    Vejo pela sua roupa e sua aparência que o senhor foi abençoado pelo destino. As coisas com que o senhor gasta num mês eu não tenho condições de comprar em 10 anos ralando duro. Não duvido que sua grana foi ganha honestamente. Mesmo assim, desculpe falar, ela vem da exploração. Pois deveria por justiça estar nas mãos de um número bem maior de pessoas. Ao não fazer nada a respeito dessa má distribuição, o senhor é cúmplice de um crime.

    Não alegue que não é culpa sua, dotô. Todos que vivem nesse país absurdamente desigual e lavam as mãos têm sim culpa no cartório. Mas nos mais ricos a culpa é muito maior. Não se trata de pedir um gesto de misericórdia em benefício dos menos afortunados. Os privilegiados que nem o senhor, dotô, têm OBRIGAÇÃO de fazer algo para mudar esse quadro de crueldade. Mas o que vejo é o oposto. Quanto mais abastado o sujeito se torna, mais pisa nos debaixo. Levar uma vida de ostentação e desperdício não é só uma atitude indecente. É um tapa na cara daqueles que suam para botar umas migalhas na mesa da família.

    Não falo da esmola no farol, da gorjeta pro entregador de pizza ou dos trocados para a instituição de caridade. Isso só serve para aplacar a dor na consciência mas não bota a mão na ferida das injustiças.

    Na boa, dotô: tem gente que ganha muito mais do que seria razoável pra um país miserável como o nosso. É grana demais! Não são só os donos de negócios, não. São aqueles engravatados, bacanas que tiveram uma educação de elite e conseguiram empregos que pagam bem. Também entram nesse saco políticos, juízes e esse punhado de gente que trabalha para o governo ganhando salários escorchantes mais auxílio-isso, auxílio-aquilo. Não aceitam abrir mão de um bocadinho de suas mordomias, mesmo sabendo que essa pequena fração daria para melhorar a vida de muitas famílias. É cada um por si e o resto que se lasque.

    O cara suga todo o sumo que consegue do país que lhe deu condições de prosperar mas não dá uma gotinha em troca. E ainda se recusa a enxergar a escandalosa realidade em volta.  Vive com sua prole em segurança numa ilha da fantasia, um condomínio de luxo protegido por cerca eletrificada, separado por grossos muros do inferno do país real, sem lei, sem emprego, onde as pessoas amedrontadas caminham por vielas imundas e mal iluminadas, sujeitas à ação da bandidagem.

    O senhor vai dizer que o cara trampou pesado pra chegar lá, não roubou e por isso merece o status que tem. Roubou sim! Pode não ter sacado o revólver. Seu crime pode não estar escrito nos códigos dos bambambans. Mas todo cara que goza uma vida de nababo e não mexe uma palha para minorar o sofrimento dos coitados, é um ladrão sacana. Não adianta se esconder por trás da carapuça de ‘homem de bem’.

    E ainda por cima elege os governantes safados que prometem manter tudo como está. Os que podem melhorar as condições, são tachados de ‘comunistas’. Não somos comunistas, dotô. Só queremos que todos tenham um mínimo para que possam levar comida à mesa e deem educação pros guris. O que o senhor chama de comunismo, eu chamo de dignidade.

    Eu não entendo de política, esquerda, direita… Só sei que direita a coisa não tá. E se tiver um Deus lá em cima ele vai estar de acordo comigo. Um Deus justo não vai querer que nenhum filho seu venha ao mundo em situação de desespero.

    Não aceito esse papo que todos têm as mesmas oportunidades e que quem tem talento, sobe na vida. Mentira! Concordo que tem uns poucos pés rapados que se deram bem e mudaram de lado. Tipo Neymar e outros jogadores, artistas populares, ganhadores de mega-sena, pastores pilantras, traficantes, golpistas. Gente que faturou uma grana preta em pouco tempo e agora se acham. Esses são os piores, não têm um pingo de solidariedade com os brothers. Promovem festanças de luxo, exibem carrões e roupas de grife e sentem orgulho em espezinhar os desvalidos que já foram um dia.

    Mas os que conseguiram quebrar a barreira e subir na vida, seja por que método for, são exceção. Um em um milhão. Já os que nasceram em berço de ouro, vão para as melhores escolas, com boas condições de vida e têm muito maior chance de se dar bem sem precisar contar com a sorte.

    Que porcaria de país estamos construindo em que meia dúzia vive em padrão gringo, enquanto os ferrados rastejam catando lixo? Tá tudo errado, dotô.

    Mas nada se faz impunemente. A paciência está se esgotando. Vejo os sinais. Escuto um burburinho crescente de gente reclamando nas periferias. Artistas sensíveis retratam esse inconformismo. Líderes da comunidade passam por cima dos políticos demagogos encorajando o povão a exigir seus direitos e começam a ser ouvidos. Nas escolas, professores esclarecidos ajudam a formar uma geração que entende que as coisas não precisam ser assim.

     Até quando, dotô, vocês acham que poderão impor essa exploração a uma imensa massa excluída, até aqui amansada pelos pastores charlatães, pelas mentiras da internet e pela repressão policial?

    Quem avisa, amigo é. Fique ligado, dotô, que o bicho vai pegar. A brutalidade dos brucutus e dos milicianos que humilham os mais pobres está próxima ao limite e a reação vai vir na mesma proporção.  Não se engane com essa aparente tranquilidade, dotô. Pode ser a calmaria que precede o tsunami. Essa lenda de que o brasileiro é conformado, tudo aceita, está mudando. O ódio nas redes sociais é incorporado pelo pacato cidadão e vai detonar no colo dos canalhas que o disseminam. É a lei do retorno.  Essa situação insustentável de injustiça está tornando esse país um barril de pólvora, prestes a explodir. E aqueles que não quiseram ontem dar os anéis, talvez tenham amanhã que entregar os dedos.

    Por isso, tome muito cuidado, dotô. A conta virá e não será barata.

    Recomendações à patroa.

  • Todos os meus amigos são caretas

    Todos os meus amigos são caretas. Talvez um só não seja, mas os outros, todos, são. Foi esta frase que, de repente, ao acordar — antes mesmo do café da manhã —, vim correndo aqui anotar.

    Nenhum amigo meu bebe, fuma; nenhum é notívago, folião de carnaval. Não tem, sequer, um que pense fora da caixa.

    Certa vez, uma amiga minha — que já é avó e tem filhos grandes — foi comigo a um show da Virada Cultural, na Praça 7. Tinha uma banda independente tocando blues, gente tomando cerveja, amigos, homens e mulheres paquerando.

    Até que, no meio de todo mundo, havia um casal se beijando.

    Era um beijo na boca, longo, de língua, demorado, aproveitando o embalo da canção favorita. Para mim, parecia um espetáculo belíssimo, aquele casal.

    Mas minha amiga virou pra mim e disse:

    “Que necessidade desse beijo de desentupidor de pia na frente de todo mundo?”

    Eu quis olhar pra ela e dizer:

    “Poxa, você é careta demais. Para, que tá feio.”

    Eu quis, mas não disse.

    Eu amava demais aquela querida que, além de ser uma cronista de mão cheia, inspirou as minhas primeiras. Ela tem, até hoje, crônicas manuscritas, deliciosas, que jura que um dia vai digitar e colocar num livro.

    Quando a gente marcava de se ver, há algum tempo, ela tinha uma frase que eu adorava:

    “Tô levando uma crônica aqui debaixo do sovaco.”

    Apesar de rir um pouco do jeito dela, eu sempre adorei aquela gargalhada — e a escritora que ela é.

    Outro amigo meu é músico, dá aulas de violão, tem CDs independentes e, no meu último aniversário, eu falei:

    “Você é meu cantor favorito.”

    “Depois do Agnaldo Timóteo, né?”, ele brincou.

    Ele dá tanta aula, faz tanto show, que a gente custa a se ver — mas, que cara maravilhoso, quando dá certo.

    De vez em quando, no centro, a gente marca só pra sentar e ver uma aula de capoeira, ali na Praça 7. Outras vezes, sentamos no pátio de uma igreja católica e ficamos batendo papo; já, em outras, aproveitamos shows na praça, teatro.

    Que gargalhada fascinante.

    É um cara que entende tanto de MPB que, se deixar, a conversa dura vinte e quatro horas — de tão gostosa.

    Mas é o pai da caretice.

    É do tipo que acha que a novela na TV tem “sarro demais”, que está ensinando o que não deve pras pessoas. É do tipo que vai pra cachoeira no carnaval, fica se guardando pra garota ideal, não vê necessidade de sarro, em público, de casal algum.

    Tenho um amigo da faculdade que, sempre que eu voltava de uma balada — com os olhos sonolentos e sujo de batom —, dizia coisas como:

    “Imagino a quantidade de germes e bactérias sendo transmitidos nesse tanto de gente se beijando na boca.”

    Por fim, tenho um outro amigo que, quando me acompanhou numa boate, me falou algo que, sempre que me lembro, fico me desmanchando, em lágrimas, de tanto rir.

    Segundo ele, antes da boate abrir, “um grupo de aidéticos espetou uns alfinetes no banco, pra espetar a gente e contaminar de propósito”. Eu fico imaginando a cena: a boate abrindo mais cedo, não pros frequentadores, mas pra esse suposto grupo entrar primeiro e deixar tudo preparado pra espetar a bunda dos frequentadores quando eles chegassem.

    Ele se assusta um pouco com a noite, se assusta um pouco com a boemia — mas, pelo menos, vai. Pelo menos, me acompanha.

    Este, apesar de falar umas coisas bizarras, de vez em quando, é uma das melhores companhias pra uma boate, um bloco de carnaval.

    Convivo, o tempo todo, com gente que fala que “os poemas de Drummond são machistas”, que “Vinícius de Moraes tem gatilhos”, que dorme cedo, vive fazendo regime, censura quando vou beber, dançar a noite inteira ou comer doce depois do almoço.

    Mas, quer saber?

    Sempre achei fascinante quando duas pessoas, de personalidades opostas, se tornam amigas.

    Não sei quem criou a ideia de que, pra serem amigas, duas pessoas precisam gostar do mesmo tipo de música, votar no mesmo candidato, serem religiosas ou serem dois amigos notívagos.

    Às vezes, o que me atrai numa pessoa é, justamente, aquilo que eu não sou.

    Então, é bom quando alguém, de certa forma, nos leva a enxergar o mundo de um jeito diferente.

    Um dos meus cronistas preferidos da vida se chama Carlos Herculano Lopes e, numa entrevista, ele disse uma frase que me marcou. Era assim: “Por mais simples que uma pessoa seja — ou por mais diferente que ela seja de você —, todo mundo sempre sabe alguma coisa a mais do que você.”

    E eu, ao frequentar a noite e gostar de bloquinhos de carnaval, sei alguma coisa a mais do que o meu amigo músico, que toca na missa; mas o meu amigo, certamente, sabe uma infinidade de coisas a mais do que eu, a minha amiga cronista, avó e com filhos criados, certamente sabe uma infinidade de coisas a mais do que eu, e o meu amigo da faculdade, certamente, conhece coisas e tem saberes que eu, sinceramente, não tenho — e, talvez, nunca terei.

    Por isso, talvez, seja assim que a gente se torne tão amigo.

    Porque ter alguém que discorda da gente e vê o mundo de outra forma mostra que a Terra não gira ao nosso redor.

    Por isso, uma das coisas mais fascinantes que eu já vivi é sentar com um amigo, pra tomar um café, e dividir histórias de vida completamente diferentes entre si.

    Talvez, por isso, eu ache a amizade uma das coisas mais bonitas da vida.

  • Poema #65: Rio Grande

    O Rio Grande não é apenas
    grande, ele é também
    referencial de um sonho
    (ponte de água clara
    interligando abismos).

    Dreno com meus olhos líquidos
    a sua enseada como quem não
    drena nada, exceto a visão da água.

    E como a viagem não permite
    que se fique sempre às margens
    do Rio Grande, instalo uma sonda
    em suas águas e a outra ponta da
    sonda eu a trago encravada na alma.

    Inventário de Sombras

  • Poema #63: Reivindicações

    Eu sei que eu mereço
    (embora talvez eu não venha a
    ter) o meu nome num nome de rua.

    Eu sei que eu mereço
    uma estátua de bronze
    na praça de Ervália.

    Eu sei que eu mereço
    denominar a Casa da
    Cultura como o poeta que sou.

    Eu sei que eu mereço
    casar com uma mulher
    negra, que é o meu sonho
    de consumo.

    Eu sei que eu mereço
    ter um aumento de salário
    para poder sobreviver.

    Eu sei que eu mereço
    ganhar um prêmio literário
    para pagar as dívidas.

    Eu sei que eu mereço
    pescar um peixe grande
    nas águas do tanque.

    Eu sei que eu mereço
    nadar como quem voa
    pelos céus de outro país.

    Eu sei que eu mereço
    cavalgar uma égua
    enfiando o dedo no seu cu,
    para ela andar depressa.

    Eu sei que eu mereço
    empinar uma pipa gigante
    que nunca será alcançada.

    Eu sei que eu mereço
    formar uma banda de rock
    e fazer muito sucesso.

    Eu sei que eu mereço
    ser aclamado e lido como
    nunca antes na história
    deste país.

    Eu sei que eu mereço
    receber uma homenagem
    de adeus e logo ser esquecido.

    Eu sei que eu mereço
    uma catacumba digna
    para descansar os meus ossos.

    Eu sei que eu mereço
    tudo isso, mas desconfio
    que não terei nada.

    O Jardim Simultâneo

  • AUGÚRIO

    Durante grande parte de sua vida, Suely dava expediente lendo as linhas das mãos, jogando búzios e ainda posando como astróloga. Madame Suely. Sua especialidade era o tarô. Manejava as cartas e seus arcanos por instinto e fazia suas reflexões livremente, orientando seus clientes sobre situações de vida, amor e trabalho. Na maioria das vezes dava certo e Suely persistia.

    Madame Suely interpretava alguns acontecimentos, pressentia sinais de problemas futuros, sabia olhar nas pessoas e adivinhar-lhes as aflições e sonhos. Seu carisma era natural, da mesma forma que sua crença espontânea em si mesma. Rara autocrítica e coragem de sobra. Além de alguma sorte, é claro.

    Como futuróloga respeitada, Madame Suely ganhou o suficiente para criar as duas filhas. Seu marido, no começo avesso a essas coisas místicas, via com simpatia a grana que ajudava nas despesas.

    As filhas mal conseguiam disfarçar a vergonha da função da mãe, mas sempre deram valor ao dinheiro que lhes possibilitou estudo e a formação universitária. A mais velha formou-se em Comunicação, e a caçula, em Odontologia, fato aliás previsto por Suely nas cartas, embora as filhas nunca tenham acreditado.

    Verdade que suas previsões não se concretizavam sempre. Humanamente não era infalível. Quando ocorriam presságios ruins, jogava de novo as cartas até que o oráculo mudasse. Aos consulentes evitava as profecias trágicas e somente repassava aquelas que pudessem trazer algum alento ou consolo. No fundo, Suely era uma otimista.

    Com a morte do marido (que não foi previsto por ela), Suely decidiu parar com suas consultas. O tarô, agora, só em ocasiões emergenciais.

    Mesmo que procurasse evitar, tinha ainda suas premonições. Esforçava-se para que elas não se realizassem. Ao menos, completamente.

    Com o tempo foi aprendendo a se desligar desse mundo de vaticínios cheio de mistérios e falcatruas. Jogou no lixo seu baralho de tarô e aposentou-se, merecidamente.

    As filhas celebraram. Há muito aguardavam por isso. Sentiram-se aliviadas.

    Libertação e descanso era também o que Suely sentia no íntimo. Alguns poucos clientes que ainda insistiam em procurá-la, Madame Suely explicava que dali para a frente ela só poderia conviver com o presente e antever passados.

  • A fuga

    Um caminhão passou por cima de mim, depois da notícia dada por Flávia, minha filha. Ela veio bem cedo à minha casa, enquanto preparava o café, e disse que Murilinho tinha desaparecido. Minhas pernas tremeram, mal pude ficar em pé – fui colocada na cadeira, segura pelos braços, como uma velha coroca. Sentei-me por alguns segundos, recobrei as energias e corremos para sua casa, logo acima da minha. Como Murilinho poderia escapar, de uma residência toda gradeada e telada? Alguém teria feito essa maldade? Saímos pelas ruas gritando. Seu Nonato, nosso vizinho, que estava na porta varrendo, perguntou que alvoroço era esse: “não estou entendendo nada”. Logo ele também se pôs a buscar o Murilinho como podia, com as suas avarias nas costas. Na verdade alardeava mais do que buscava o menino, com o seu jeito expansivo, ou mesmo amalucado. Certo é que não ajudou em coisíssima nenhuma. Murilinho, preciso dizer, é muito querido por todos, por ser educado e comunicativo; um menino de ouro. Flávia já estava exausta de subir e descer as ruas. Eu não tinha o seu pique, e fiquei caminhando pelas ruas laterais. Dona Enedina disse que viu um menino brincando com um gato. Ora, Murilinho é apaixonado por bichos, só podia ser ele. Dona Enedina disse não ter vislumbrado muito bem se era Murilinho, mas sabia que não era menino de rua. Murilinho fora educado para ficar nas quatro linhas da casa. Nunca saiu sozinho, com seus seis anos de idade. Vale dizer que Murilinho era um menino que vivia de casa para a escola, e em poucos momentos curtia a rua, sempre ligado à mãe ou à avó. Por isso todos estavam apavorados. Seu Francis, o dono do bar, homem de poucas palavras, disse que tinha visto um menino correndo atrás de um gato ou um cachorro. As informações se encontravam, e davam conta de que Murilinho não estava muito longe. Talvez alguém tenha tentado chamar a sua atenção, mas o menino, portador de autismo nível um de suporte, não dava muita bola às pessoas desconhecidas. O certo é que Flávia e outros moradores chamaram os bombeiros. O risco é de que o menino tivesse se embrenhado numa mata que fica perto de onde moramos. Os bombeiros foram muito diligentes. Primeiro perguntaram como eram as características do menino – que mal Flávia conseguia responder, chorando; então tive de intervir –; se ele era acostumado com o local; se brincava sempre ali; se tinha amigos etc. Os bombeiros fizeram a ronda, durante seis horas, entrando na mata densa. Depois de um longo período, voltaram com um menino no colo. Era Murilinho, chorando muito! Ele trazia um gatinho nas mãos. Não tivemos coragem de jogá-lo fora, já que o bichano parecia muito afeiçoado ao menino. Hoje criamos o bichano fujão, mas ficamos alertas quanto aos passos de Murilinho, que, pelo visto, tem medo de sair de casa – a experiência não foi muito boa.

  • Afinal, quem serve quem?

    Ninguém está aqui para nos servir. As empresas de ônibus, os garçons de restaurantes, o moço do guichê do metrô, o barman — todos parecem estampar nos olhos a mensagem: “você trabalha para mim”.

    Por esses dias, um grande amigo veio a BH passar uns dias. Depois dos compromissos que tinha por essas plagas mineiras, fomos a um shopping tomar um café. Meu amigo, assim como eu, não se furta ao prazer de, junto de um cafezinho quente e fumegante, comer uma saborosíssima torta alemã — ou holandesa — com direito aos biscoitinhos, que geralmente vêm de brinde.

    Fomos ao primeiro piso, onde há uma famosa loja de chocolates, ambiente convidativo, mesas e — claro — o mais importante: a torta. Foi quando, ao chegarmos lá, vimos uma variedade imensa de tortas, cujo preço não era nada em conta. Mas, ao perceber que precisava fazer o pedido naquelas máquinas de autoatendimento, meu amigo perdeu a calma:

    “Ah, agora sou eu que trabalho pra eles.”

    E fomos embora.

    Alguns dias, penso que o mundo ficou mais fácil em muita coisa. Ninguém passa, hoje, pelo perrengue de chegar ao restaurante e a garçonete não ter troco — ou, em alguns casos, ter que tirar do próprio bolso o dinheiro que um freguês levou a mais. O Pix, o cartão de crédito ou débito resolvem tudo. Agora, uma verdade preciso reconhecer: ninguém mais quer servir ninguém.

    Você vai até o balcão, faz seu pedido, o pager vibra, você retira o pedido. Em alguns casos, depois de comer, um garçom recolhe a bandeja, os pratos, a xícara; em outros, você mesmo faz isso. Em situações assim, o bandejão e a cafeteria se igualam — com a diferença de que, na cafeteria, você paga o triplo do preço, trabalha pra eles e ainda sai se sentindo chique.

    Ao que me parece, comer fora de casa perdeu um pouco do prazer, do gosto.

    Certo dia, ali na região da Savassi, fui a uma loja de cookies — desses que, dizem, a gente come rezando. A empresária era jovem, uns trinta anos, mais ou menos, fazia cookies de todos os sabores. Ao perguntar se ela entregava em casa, respondeu:

    “Entregar a gente não entrega, sabe? Mas deixa disponível, caso o cliente queira contratar um motoboy.”

    Ou seja, o freguês ainda tem que contratar um motoboy.

    Sim, eles querem que a gente trabalhe pra eles. E, em alguns casos, a gente aceita.

    Ao sair de casa, tudo o que quero é o prazer de comer em boa companhia, dar boas risadas, ter uma conversa sem me preocupar com pager vibrando, buscar bandeja, recolher louça.

    Sem contar que idosos e gente simples nem sempre se viram bem com máquinas de autoatendimento. Dá vontade de gritar:

    “Tirem esses monstrengos do caminho. Minha vida precisa de mais sabor.”

    O sabor de uma boa companhia, de um papo olho no olho. Afinal, se a pessoa quisesse se autoatender, comeria em casa: fritaria biscoitos, faria uma broa, passaria um café quentinho.

    Mas, naquele dia, a gente não quis. Saiu pra bater perna, subiu para o piso seguinte e — adivinhem — encontrou um quiosque, uma cafeteria com garçons e garçonetes servindo todo mundo, com um sorriso e muita gentileza.

    Peguei uma torta holandesa, ele pegou outra. Pedimos uns cafezinhos quentes. E os biscoitinhos de brinde, claro.

    Aí, finalmente, pudemos colocar a conversa em dia, matar a saudade — tudo o que dois amigos querem.

    Quando a gente vence a preguiça, anda mais um pouco e encontra um lugar melhor, descobre que ainda é possível desfrutar a vida com muito mais prazer.

  • Tempos modernos

    Eu procuro entender um pouco sobre as máquinas. Procuro mesmo. É verdade! Não sou muito simpático a elas não! Sabe qual o problema? É o apertar de botões! Aperta aqui, aperta ali! Imagino Carlitos em Tempos Modernos, enlouquecido entre as engrenagens.

    Aperta aqui, aperta ali e as imagens vão se acumulando na tela do computador, uma após outra, sucessivamente. Não reparo muito em imagem alguma. O que importa nesse jogo não é o conteúdo, mas a velocidade. Minha cabeça parece enlouquecer! Mas a pergunta que me faço e que repasso a cada um de vocês é: qual será o futuro disso tudo?

    Estamos comprometendo uma parcela importante do nosso tempo e de nossas vidas ao maquinário, à tecnologia. Deixamos de viver, de beber, de comer, de sorrir, enfim, deixamos tudo de lado para olharmos fixamente o monitor.

    Seremos deletados porque nosso programa possui falhas! Adquirimos vírus! É absurdo, patético e irônico: as máquinas têm vírus! E como sofrem! Sofrem como nós! E nós, sofremos ainda? Não! Não mais. Estamos muito ocupados com o computador para pensarmos nisso!

    Quando o sistema cai o mundo inteiro também cai: não há banco, não há dinheiro, não há negócio, não há emprego, não há sonho. Ficamos à espera da manutenção! E esperamos horas e horas! Muitas horas!

    Há pessoas que não vivem sem verificar religiosamente os e-mails (caso não o façam há a possibilidade de entrarem em depressão). Há aqueles que deixam a vida toda registrada (fatos e fotos íntimos demais para serem compartilhados com qualquer um) nos sites de relacionamento para que o planeta todo veja e pense qualquer coisa a respeito. Ou não pense absolutamente nada. Há, ainda, os que se apaixonam e se encantam por namorados virtuais. Nada contra isso. Mas existe muito exagero!

    Eu realmente procuro entender um pouco sobre as máquinas. Escrevendo esta crônica agora vou levando os meus dedos sobre o teclado (e que diferença para a máquina de escrever) e pensando nas comodidades e na praticidade da vida moderna. Você pode acessar (olha aí, na linguagem também) qualquer informação sobre qualquer assunto na Internet. Pode, aliás, conversar com o mundo todo, literalmente. Mas há que se ter um cuidado, um cuidado apenas: não ser escravo desse aparato tecnológico.

    Posso andar despreocupado sem o fone no ouvido, sem o MP3 (e já inventaram o MP4 e, com certeza virão 5, 6, 7…), sem o iphone, sem a câmera digital, sem o notebook, sem o GPS, sem… Opa! Peraí! Acho que perdi… Perdi…

    Deixei tanta coisa pelo caminho que não sei mais o que é humano…

    A minha identidade. Aquilo que me marcava como ser único e pensante se perdeu. Em algum lugar entre o mouse e a webcam

  • A bateria

    Semana passada a bateria do meu carro pifou. Como eu estava no subsolo de uma agência bancária, tive que ligar para o seguro a fim de solicitar um mecânico. Uns 30 minutos depois o rapaz veio, examinou o artefato avariado e o condenou.

    — Aqui só outra.

    — E agora? Onde posso mandar buscar uma?

    — O senhor liga para a loja Tal e me passou o telefone. Quando eu lhe pedi uma sugestão de marca, ele me perguntou se eu pretendia vender o carro.

    — Não. Por quê?

    — Se for vender compre esta, que é mais barata (e me indicou o nome). Agora, se for ficar com o carro por mais um tempo, leve esta (citou outro nome). É um pouco cara, porém bem mais econômica e difícil de quebrar. Duvido que deixe o senhor no prego.

    Escolhi a segunda, pois não pretendia tão cedo vender o automóvel. Bateria instalada, voltei para casa pensando na alternativa que o mecânico tinha me apresentado. A escolha fora fácil pois, como disse, o carro ainda iria ficar comigo por um bom tempo. Mas… e se eu fosse me desfazer dele? Qual das marcas teria escolhido?

    Comecei a pensar nisso e senti um arrepio. A pergunta do rapaz tinha implicações profundas; envolvia um dilema moral. Pensei em Kant, que fundamenta sua ética na máxima: “Não faças a outrem o que não queres que te façam.” Se eu escolhesse a bateria mais barata e dispendiosa, que além disso podia quebrar, estaria fazendo a outrem (o eventual comprador do meu carro) o que não queria que me fizessem.

    O curioso foi a maneira objetiva, prática, direta, com que o mecânico me fizera a pergunta. Não havia hesitação nem escrúpulo, como se a proposta fosse muito natural. Ele sempre devia apresentar essa opção aos clientes. Alguns até lhe dariam uma gorjeta pela dica, mesmo que isso reduzisse a vantagem obtida com a escolha do produto ruim. O importante era o pequeno lucro imediato, acrescido do indizível prazer de enganar o outro. Pois esse tipo de escolha não vale só pelo dinheiro; vale também (ou sobretudo) pela sensação de ter sido esperto.

    Já chegando em casa, me dei conta de que a sugestão do rapaz diz muito de nós. No trabalho, no comércio, na política e mesmo nas relações interpessoais, nos comportamos como o sujeito que passa a bateria ruim sem considerar o que isso pode trazer para o outro.

    Tudo fica ótimo até o momento em que somos nós esse outro. E quando nosso carro quebra no meio de uma viagem noturna e ficamos com a família ao relento, protestamos contra o egoísmo do ser humano e lamentamos pertencer a espécie tão mesquinha. Esquecemo-nos de que dela fazemos parte e não raro somos nós a protagonizar a trapaça.

    Talvez seja por isso que este carrão chamado Brasil não anda – ou anda muito desigual. Falta em sua “bateria” a corrente do interesse pelo bem comum. Somos antikantianos por atavismo e convicção, fazendo sempre que possível aos outros o que nunca desejamos para nós.

  • Consciência econômica

    Não tenho mais medo do futuro. Minha mulher sempre me falou para curtir o presente, que “a vida é o agora!”. Mas, filho de um pai escrupuloso, tive a tendência de seguir os seus passos seguros. Criado por ele, devia ter uma “consciência econômica” – esta frase ecoa ainda hoje – quanto aos gastos, inclusive com a alimentação. Não se podia tomar mais de dois copos de café por dia.

    Não se podia comer mais de um pão francês. Tudo era racionado, fracionado, e nos regalávamos de migalhas. Havia momentos, claro, em que ele não estava em casa, e eu comia um pouco mais de açúcar, com o maior prazer do mundo, porque um adolescente em crescimento, hoje eu sei, precisa se alimentar muito bem – e fui privado disso, pela bendita consciência econômica de um pai contador, alucinado por números.

    Meu pobre pai faleceu na pandemia, aos setenta e cinco anos, e mal aproveitou a aposentadoria. Um fato inusitado é que encontrei, um dia depois de sua morte, ao arrumar a casa com a Gerusa, a antiga empregada, embaixo de sua cama, um monte de dinheiro vivo, inclusive dinheiro que nem valia mais, como cruzeiros-novos. Era absurdamente uma cena que só se ouve falar ou se vê em filme.

    Nessa brincadeira, ele deixou uma herança monstruosa de quase meio milhão – havia, ainda, seis contas em bancos, e eu não imagino o porquê; perguntei a alguns gerentes se ele movimentava, e a resposta era quase óbvia: “Não!”. Poderia ter usufruído. Poderia ter viajado, comprado um carro bom, mas tudo para ele era seguir a régua da “simplicidade”.

    Tinha um carro velhinho, bem cuidado, é verdade, mas muito fora de moda, com pelo menos vinte anos de uso. Seguir a trilha do meu pai me fez, por muito tempo, um homem nervoso, preocupado e irritadiço. Lembro-me, por exemplo, de jantar muitas vezes banana na faculdade, com medo de acabar o reles dinheiro que meu pai me dava todos os dias, como se fossem dez reais. Lanna, minha esposa, foi quem me tirou desse perrengue eterno. Ela não suporta avareza. E eu, apaixonado, tive de segui-la – de início foi muito doloroso. Fui abraçando (e sendo abraçado) e me libertando.

    A imagem de meu amado pai passou a ficar escassa, jamais esquecida. Até os vinte e sete anos, data em que conheci a minha mulher, me sentia extremamente reprimido – exatamente quando foi lançada aquela música homônima dos Menudos. Nós ríamos disso; ainda hoje ela canta quando dou sinais de pão-durismo. Hoje, com a pequena bolada do meu pai, ao invés de investir em imóveis, como boa parte das pessoas faz, invisto no meu tempo de qualidade, com meus filhos e minha esposa.

    Amamos Buenos Aires, então viajamos regularmente para passarmos as “vacaciones”. Quem dera pudesse ter levado meu pai a Buenos Aires. Ele amava Carlos Gardel. Queria ter proporcionado a ele uma vida de alforria – embora, é bem verdade, ele pudesse tê-lo feito por si próprio.

  • Somos filhos da rua e da noite

    O Zé Preto se acomodou, ajeitando o cobertor. O Espanhol deu um puxão:

    — Esse cobertor é meu.

    O Zé Preto empurrou o outro com a bunda. Riram.

    — Vai tomar no “cu” — um disse para o outro. E riram.

    Passou um carro numa poça e jogou água nos dois.

    — Vai se foder — o Espanhol gritou, se levantou e ficou esbracejando contra o carro, que já tinha virado a esquina da rua Brás Cubas. O Zé Preto correu pegar uma pedra. O Espanhol avançou contra ele com uma barra de concreto na mão.

    — Esse carro —, explicou o Zé Preto.

    — Ia me dar uma pedrada? — disse o Espanhol.

    Saiu uma leva de gente da boate Estrela do Oriente para ver os dois amigos se estranhando.

    — Nós somos filhos da rua e da noite — disse o Espanhol, que era preto como o Zé Preto. Por isso os dois se voltaram para os homens e as mulheres do cais, e sorriram.

    Mas, quando o Espanhol se virou para deitar, o Zé Preto viu aquele porrete na mão dele e pegou outro para se defender.

    — Calma, cara, nós somos irmãos — disse o Espanhol.

    Nisso, a Cida Vermelha saiu da boate correndo atrás de um cliente, que entrou no carro e acendeu a luz.

    O Zé Preto, cego, brandiu o porrete. Acertou o ombro do Espanhol, que correu de encontro ao Zé Preto, abraçando-o. Os dois caíram no chão abraçados.

    — Apaga a porra dessa luz, gritou o Zé Preto. A Cida Vermelha ainda viu o Espanhol erguer o porrete com as mãos ensanguentadas.

    — Meu sangue — disse o Zé Preto.

    — Meu sangue — disse o Espanhol, e deu uma porretada.

    As barras de cimento se ergueram e abaixaram sete vezes. A Cida vermelha viu a cabeça do Espanhol aberta ao meio. Sangue e pus na calçada. O Zé Preto geme ao lado: ainda não está morto.

    — Meus amores — disse a Cida Vermelha, olhando o Zé Preto agonizando abraçado ao amigo morto.

  • Morrer pela segunda vez

    Orfeu chorou tudo o que pôde quando Eurídice desceu ao mundo dos mortos. Suas lágrimas encheram oceanos até seus olhos ficarem secos. Vendo que o pranto havia desaparecido, e como forma de manter viva a memória da esposa a quem amava sobre todas as coisas vivas, passou a cantar. E viu que cantar era bom e que todos os que o ouviam se deleitavam. Os passantes, antes de tomarem o metrô, jogavam moedas e um sorriso para o músico maltrapilho sentado no chão na entrada da estação. Aplaudiam, pediam bis e ele cantava mais. A tristeza de Orfeu não tinha fim e sua voz não conhecia cansaço. Cantava dia e noite a ausência da mulher adorada.

    Com a força de sua canção, Orfeu decidiu buscar Eurídice no mundo das trevas. Manifestou o seu amor com todas as canções que conhecia, o peito repleto de agonia, tristeza e saudade. Hades, o poderoso deus do Reino dos Mortos, se comoveu:

    — Eu devolvo sua esposa ao mundo dos vivos com uma condição: que ela o siga pelos caminhos de volta à vida e você não olhe, nunca, para trás, até que ela esteja inteiramente sob a luz do sol. E também, sob hipótese alguma, nunca mais cante uma canção. Nenhuma canção. Jamais uma nota musical deverá sair de sua garganta enquanto houver sinal de alma em seu corpo. Caso contrário, você a perderá para sempre.

    Orfeu aceitou a condição. Tomou Eurídice pela mão e deram início à jornada de regresso ao mundo dos vivos, ele olhando para a frente, ela seguindo seus passos.

    (Não olhe para mim, Orfeu. Ouça minha voz, escute os meus passos, sinta as batidas do meu coração. Estou bem aqui, perto de você. Não olhe para trás. Não permita que eu morra pela segunda vez — suplicou Eurídice).

    Enquanto andavam, e já próximos da saída, iluminados por uma réstia do sol que brilhava lá fora, Orfeu se recordou de suas canções e do quanto elas agradavam a quem as ouvia. Lembrou-se dos aplausos e das esmolas que lhe davam. Sentiu saudade desse tempo. Percebeu que seria impossível viver sem cantar e sem plateia. E então, como quem sabe que tristeza não tem fim, com o coração doído e apertado, girou a cabeça para trás e olhou para Eurídice.

  • Mirar no espelho!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonho, que descrevem experiências que vivi. 

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, e que eu gostaria de rever, trocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui a escola pela primeira vez, senti vontade de ficar mais tempo por lá com os amigos, porque aquela, era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão a parte, haviam presentes, e toda garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram, mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar para realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se avalie um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena sentir-se mal ao mirar no espelho.

  • 12ª Escola a Desfilar: Salgueiro – A Delirante Jornada Carnavalesca da Professora Que Não Tinha Medo de Bruxa, de Bacalhau e Nem do Pirata da Perna-de-Pau

    “Mestra, você me fez amar a festa / E eu virei carnavalesco / Sonhei ser Rosa / Te faço enredo’’. Enfim, chegamos à escola que será responsável por fechar os desfiles de 2026 na Sapucaí. A Acadêmicos do Salgueiro. Ela vem fazendo uma homenagem mais que merecida a uma das maiores personalidades no que diz respeito a fazer desfiles de escolas de samba. Sabem de quem se trata?

    Quem conhece carnaval vai achar essa pergunta totalmente desnecessária, pois Rosa Magalhães dispensa apresentações. Maior campeã da história dos desfiles das escolas de samba, com 7 títulos, ela não se resume aos títulos que conquistou. Artista plástica graduada em pintura, indumentária e cenografia, até mesmo depois de sua partida, continua contribuindo na construção da arte que sempre amou.

    Isso porque, Rosa não só será enredo, mas também é referência para uma série de carnavalescos que marcaram essa nova geração e, ano a ano, vem ajudando a reinventar o carnaval sem esquecer de suas origens. Um desses, declaradamente fã da mestra, brilha em uma escola onde ela fez história, trata-se de Leandro Vieira que, sem sombra de dúvidas, não é o único grande fã de Rosa.

    Para falar dessa grande figura, o Salgueiro vem com um enredo que vai exaltar os carnavais feitos pela carnavalesca nas diversas escolas que passou. Para isso, Rosa se tornara uma heroína que vai viver as histórias dos enredos que levou a avenida. O desfile do Salgueiro promete.

    É dessa forma que terminam os resumos dos enredos das escolas do Rio de Janeiro, com a frase: “nem melhor, nem pior, Salgueiro”. Essa frase resume o espírito do carnaval em que a competição existe, mas que o mais belo é a materialização do maior espetáculo da terra que acontece na avenida. Nesse sentido, independente de quem venha a ser campeã, todos as escolas já o são.

    Viva o Salgueiro e viva Rosa Magalhães!

  • Poema #02: Sem alarde

    Não era o primeiro a chegar
    também não era o último
    ficava no meio.

    Lugar pouco disputado,
    onde ninguém posa
    e quase ninguém repara.

    Enquanto alguns se apressavam em brilhar
    e outros reclamavam da falta de luz
    ele aguardava.

    Não parecia esperar nada específico
    talvez só o tempo exato em que algo se revela
    sem fazer alarde.

    Foi assim que aprendi:
    nem toda claridade quer vencer a noite
    algumas só querem caber dentro dela
    por um instante e depois seguir

    vagalumeando

  • Ser surpreendido

    Não tenho vergonha alguma em ser surpreendido. Já superei faz muitos anos aquela necessidade de ter que mostrar que sabia de tudo antes de todos.

    Desprezo a sensação de poder que a clarividência traz.

    A verdade é que adoro não saber das coisas antes que elas aconteçam.

    Toda vez que eu converso com alguém que me diz “eu já sabia” eu me alegro por nada saber antecipadamente. Sou curioso, como todo mundo, mas não perco meu tempo tentando adivinhar.

    Por dever de oficio de escrita sinto prazer em imaginar situações, futuros alternativos, caminhos diferentes. E se ao invés de entrar naquela pizzaria às moscas eu tivesse ido embora para casa? E se ela tivesse jogado fora meu bilhete ao invés de ler o pedacinho de papel, sorrindo com a ousadia? Pois é, esse exercício é legal porque não antecipa algo na sua linha do tempo mas propõe alternativas para o que já passou.

    Voltando.

    Não quero ser adivinho. Não desejo ser blasé ou falar com tom morno e fazer aquele ar superior que acompanha as três palavrinhas “eu já sabia”. Dispenso o pedantismo expresso nessas palavras.

    Antecipar o trivial, o cotidiano é perder a oportunidade de voltar a se portar como criança. Sim, criança mesmo, rindo do novo porque é novo, é inédito. Com aquele riso frouxo carregado de esperança porque a novidade veio para nos alegrar.

    Por isso repudio a soberba dos que olham altaneiramente a vida, com eterno ar de deja vu.

    Quero ser testemunha da estréia.

    Quero participar dos fatos.

    Quero me emocionar com as novidades.

    Quero sorrir ante a surpresa.

    Quero deixar o coração saltar alegre pelo inesperado.

    Quero porque quero nada saber e tudo descobrir.

  • Alô, alô, seu Chacrinha – aquele abraço!

    Fevereiro começa no domingo, como quem abre as alegorias do descanso — esse mesmo que sonha com samba no pé e os zirigundús dos foliões. Janeiro já anunciava as entradas da folia, com blocos em teste espalhados pelas ruas do Rio de Janeiro

    Tive a oportunidade de presenciar um deles na feira da Glória, quando assumi a tarefa de vender artigos culinários japoneses de primeiríssima linha, na barraca do meu grande amigo Shizuto e de sua família. Vale a pena conferir as comidas de rua do Japão — barraca 71, próxima ao portão da Lapa, na Praça Paris.

    Outra ocasião foi num domingo em que me lancei à capital para celebrar o aniversário da minha afilhada Lulu, quatro aninhos. Unindo encontros familiares a agendas profissionais, estiquei meus dias no meu Rio de Janeiro. No domingo passado, encontrei a Marcela no Flamengo, onde, no Planalto, nos unimos às palmas de um parabéns com glitter, estandarte, sorrisos largos e corpos carnavalescos espalhados pelas calçadas.

    Antes de retornar à minha serra, tomei café da manhã no quiosque Ginga, na praia do Leme — um ponto aberto 24 horas por dia. Algo inacreditavelmente maravilhoso para alguém cosmopolita e do mundo como eu, que se acostumou a não encontrar nada aberto depois das dez da noite, durante a semana. Domingo, então…

    No aguardo de uma carona prevista para as nove, caminhei pelas areias de calça jeans, cruzando os limites com Copacabana. Ah, a princesinha do mar — que hoje verei novamente. E novamente a Glória, os agitos da Praça Paris, os corredores da maratona no Aterro, o bloco da Ivete no centro e a rotina dos moradores que circulam pelas redondezas: o cotidiano de quem sai cedo para montar barracas e vender até o fim da tarde.

    Em meio ao percurso ainda escurecido da partida, me espanta o amanhecer da serra: a troca de azuis, o passar espaçado dos carros, a felicidade solta na voz dos amigos no carro. Nasceres e pores do sol sempre mexeram comigo de forma arrebatadora.

    São sete da manhã. Vejo o Cristo da janela.

    Da janela do carona, sobre a ponte Rio–Niterói, fecho esta primeira crônica brindando ao Rio de Janeiro, a fevereiro e a março. Algo do Rio ainda pulsa em mim — um pulsar que antecede o retorno e já carrega a saudade. Como se o caminho não fosse uma linha, mas um estado.

    Talvez eu viva assim — é bem provável, eu diria: chegando ao que sou agora, partindo sempre de algo que me ensinou a ficar.

    Bom dia, caro leitor!

  • O Encontro

    O encontro durou dias, e mesmo assim teve gosto de quero mais…

    Não teve atrasos, cada um chegou no seu tempo…

    Tinha tema, mas não script. O comando era a vontade e a alegria em participar.

    O sorriso feliz de cada participante ao chegar ao local do encontro e mais ainda ao sair, dá a certeza de que as memórias dos dias felizes vividos vai ser um oásis guardado no fundo da alma e, durará para sempre, pois será contado entre pais, filhos, primos, parceiros e amigos desta e até os das próximas gerações!

    Tivemos:

    Sonhos, quimeras, desejos.

    Preguiças, perguntas, sabores.

    Alegrias, sonecas, caretas, sorrisos.

    Canecas, risadas, maletas, moquecas.

    Vontades, pinheiros, passagens, passeios.

    Saudades, verdades, bananas, pudins.

    Lasanhas, picanhas, pizzas, quindins.

    Estudos, esperanças, futuros, glórias.

    Sorrisos, banhos, vestidos e afins.

    Missas, orações, esteiras e gansos.

    Lambretas, corvetas, ovos e cuscuz

    Piadas, desafios, piscina, cafés.

    Brindes, conversas, sorvetes, mergulhos e sóis…

    Futebol, charadas, séries, piadas, engraçadas, repetidas, criadas…

    Namoros, promessas, chamegos — enfim.

    Ar, mar, brilhos, texturas, areia.

    Sabores, odores, valores.

    Graça, beleza, amor.

    Idosos, peixes, pessoas.

    Areia, azul, queijos, crustáceos.

    Jovens, pets, jogos e luzes.

    Macacos, gatos, guirlandas, enfeites.

    Imagens, saudades, lembranças, afetos.

    Amigos, irmãos, caminhos, jornadas.

    Plenitude.

    Bênçãos.

    Afeto.

    Amor.

  • Para entender aquarela – ou não

    É assim, quando você pinta aquarela você se põe diante de uma situação que beira a ficção. No momento em que você coloca as tintas sobre o papel tem início uma relação estranha, quase surreal, entre artista e cores.

    Veja bem, você sabe o que você quer pintar mas depende da colaboração da tinta.

    Você não comanda as cores, elas são surdas aos seus apelos desesperados quando se espalham à vontade e aleatoriamente pelo papel.

    Se a superfície estiver seca, elas vão reagir de uma forma. Se o papel estiver úmido, a estória é outra e, claro, vai sempre depender do grau de umidade da superfície. E, por falar nela, a umidade, há outra muito importante, a do ar, que interfere decisivamente na consistência das tintas à medida que deixam os tubos onde jaziam no escuro, compactas e imóveis. Pintar aquarela no deserto do Thar não deve ser a mesma coisa que pintar em Belém do Pará, pode estar certo.

    Assim, quando o artista aperta o tubo tem início uma reação que dificilmente ele terá controle completo. Não há diálogo possível com substâncias que se movem ao seu bel prazer. As tintas são manhosas, caprichosas, donas de suas efêmeras vidas. Se espalham da forma que querem e na direção que decidem, independente da vontade da pintora ou do pintor. Ao artista cabe somente tentar corrigir o curso que as cores tomam à sua frente.

    Alguns conseguem, outros não. Na fúria de não ver seu talento expresso pelas tintas, muitos rasgam o papel e o atiram a lixeira, encerrando o que as tintas decidiram fazer, se obra de arte ou esboço colorido. Como saber? Não há, e por vezes é um teste supremo de paciência. Mas uma coisa eu tenho certeza é que as melhores aquarelistas do mundo, como a Gemma Capdevila ou a Anna Mason, com certeza sabem conversar com as cores. Elas, assim como os demais expoentes dessa bela arte, seguramente falam a língua das cores, elas falam tintês.

    E, você, minha amiga, já aprendeu esse idioma misterioso?

    Ainda não, mas me disseram que tem um aplicativo de tradução universal que é uma coisa!

    Tá bom, vou querer mais desse seu chá, por favor.

  • SUB VIDA

    A sobrinha perguntou para o tio no churrasco da família: ‘Quando você percebeu que estava fodido e não tinha mais volta?’

    O tio respondeu: ‘Desde cedo, nos anos 70, no primeiro dia na escola, aos quatro anos. Eu apenas não sabia expressar em palavras o que sentia, mas sabia que a jornada seria terrível desde aquele momento.’

    Sobrinha: ‘Qual era o sentimento?’

    Tio: ‘Era o sentimento de que a vida, da forma como era vivida pelas pessoas que eu conhecia, e pelo que via na televisão, não fazia sentido.’

    Sobrinha: ‘Por quê?’

    Tio: ‘Porque somos escravos e a maioria das pessoas é cega em relação a isso, e por medo e para defender uma falsa segurança, defendem a própria condição de escravos a qualquer custo.’
    Sobrinha: ‘Você já pensou em se suicidar?’

    Tio: ‘Sempre pensei que fosse melhor ir até o fim, só pra ver o que acontecia, porque de qualquer forma todo mundo morre no fim.’

    Sobrinha: ‘Eu penso a mesma coisa, só que na juventude já convivo com pandemia e guerra, e na sua juventude não havia nada disso.’

    Tio: ‘Mas você já nasceu com a internet, ela serve como escapismo. Na minha juventude a bizarrice era tanta que você pode imaginar apenas remotamente. Não havia nem mesmo o sentimento pela falta de algo que não existia, como a internet. Na minha juventude havia o medo da AIDS, o racismo era considerado normal, a guerra era em casa mesmo, pra decidir quem escolhia o canal de televisão a ser assistido. Na escola havia bullying, que nem tinha esse nome e era considerado normal, e as crianças eram deixadas ali para se matarem. Esses atos eram praticados sem que os autores sequer temessem o repúdio. Na minha juventude brasileira houve a ditadura, e depois o que se convencionou chamar de fim da ditadura, o que é uma falácia tão cretina quanto todas as mentiras que ouvimos de políticos até hoje. Mas hoje vocês tem a internet e ficam cada um na sua bolha, o que é terrível, mas antes não havia nem mesmo essa possibilidade. Na minha infância e juventude, os mais velhos ora diziam que a juventude deles era melhor, ora diziam que era pior. Isso variava de acordo com os interessem momentâneos dessas pessoas, que na maioria morreram. Os que sobraram estão aí pra você tirar suas próprias conclusões’.

    Sobrinha: ‘Por que você não tem filhos?’

    Tio: ‘Porque tenho uma mágoa enorme por ter nascido, e não faria o mesmo com outra pessoa. E também porque não tenho condições financeiras para isso. E sobretudo porque tenho essa convicção desde cedo, desde um tempo em que as pessoas mais velhas diziam que com o tempo, eu mudaria de idéia. E também porque seria questionado sobre coisas para as quais não tenho as respostas.’

    Sobrinha: ‘Mas eu gosto das respostas que você me dá!’

    Tio: ‘Mas é porque isso só nos encontramos de vez em quando.’

    Sobrinha: ‘Mas meu pai é obtuso e nem fala desses assuntos comigo!’

    Tio: ‘Não sei o que responder sobre isso. Ele deve achar que é errado falar sobre essas coisas.’
    Sobrinha: ‘Você tem fama de pegador. Por que nunca casou?’

    Tio: ‘As mulheres que mais me intrigavam eram as que me rejeitavam e desprezavam. Mas com a internet pude ver o que elas se tornaram, e se há algo pelo qual sou agradecido na vida, é o fato dessas pessoas terem me desprezado.’

    Sobrinha: ‘A sua namorada nem tinha nascido quando você fazia faculdade. Nunca vai casar com ela?’

    Tio: ‘A única razão pela qual ela me suporta é o fato de que ela pensa como eu em vários aspectos. Cada um na sua casa é melhor para nós.’

    Sobrinha: ‘Ela é rica, bonita e jovem. Por que você reclama tanto?’

    Tio: ‘Antes de conhece-la, eu já tinha décadas de uma bagagem que até hoje não sei ao certo como usar. Quando ela nasceu, eu era bem mais revoltado. Hoje em dia eu continuo odiando certas coisas, mas sei que nunca vou poder mudá-las. Continuarão existindo políticos, as pessoas continuarão saindo de casa em dia de eleição, e não apenas votarão nesses políticos, como farão propaganda não remunerada pra eles. Esse foi o primeiro exemplo que me ocorreu sobre coisas que continuo desprezando, mas que provavelmente não vão mudar enquanto houver humanidade.’

    Sobrinha: ‘Quais são as cinco melhores bandas de rock?’

    Tio: ‘Se você me perguntar a mesma coisa amanhã, ou se tivesse perguntado ontem, a resposta talvez fosse diferente. ‘

    Sobrinha: ‘Essa é a parte legal disso. Responda sem pensar muito!’

    Tio: ‘Kinks, Husker Dü, X Ray Spex, Jesus and Mary Chain e Big Star. Menções honrosas para Teenage Fanclub e Replecements.

    Então olharam ao redor. Um outro tio estava bêbado e escolhia só músicas ruins.

    Eles nem pediam mais para escolher as músicas.

     Só havia vergonha e constrangimento.

  • Um conto de Natal

    Não faltam tipos iguais a ele no mundo: cabelo longo e embranquecido como o de um hippie fora de época, o rosto com uma sombra de tristeza, o olhar atônito. Não tem família. Faltam-lhe dentes. Roupas também não tem muitas, só as que veste e uma blusa de lã para o inverno, que, nos dias quentes, fica amarrada à cintura. Perambula, desocupado. Pede algo para comer a quem passa ao lado dele na rua e na porta dos restaurantes. Às vezes dão, às vezes não dão, então ele só come às vezes. Tivesse Jesus chegado aos sessenta anos, certamente seria parecido com ele. Em dias de sorte, um dos rapazes, um de seus iguais, lhe arranja um copo de vinho só para puxar conversa e ouvi-lo falar em aramaico, língua que aprendeu quando criança com um tio que tinha vindo lá do Oriente.

    Na noite de Natal, costuma se esconder para não ser cumprimentado pelo aniversário nem passar pelo incômodo de posar para fotos, coisa que detesta. Os turistas que nesses dias invadem a cidade são insistentes — Tu é a cara dele, posso tirar uma selfie? — e ele fica cansado de tanto recusar. Prefere se isolar e esquecer a data. Na hora em que todos trocam presentes e soltam rojões, fica bem quieto nalgum canto de um bairro distante do centro, matutando sobre a vida, conversando com seu estômago e vendo o brilho dos fogos no céu. Assim, aparta-se da comemoração ruidosa de seu nascimento — “Mas que droga, mais um ano” —, embora não fique a salvo de uma hora dessas ser crucificado por aí, como acontece todos os dias com outros sujeitos tão miseráveis quanto ele. Respira fundo e solta o ar devagarinho: “Aqueles sortudos”.

  • De bichos exuviáveis

    O verão e as mulheres. Mestre Rubem Braga tratou longa e exaustivamente do assunto, mas quem seria capaz de esgotá-lo? Renova-se o verão e renovam-se as mulheres, sendo preciso que haja cronistas de fôlego novo para dar conta dessas explosões cíclicas. O que o Braga escreveu é definitivo, como definitivo era o que Camões registrava das navegações portuguesas – mas a época dos descobrimentos passou. Vivemos agora outro verão e nos cumpre assinalar, por dever de um ofício docemente autoimposto, o quadro que se nos depara. Com menos talento, certamente, mas não com menor empenho. E com o Braga em surdina.

    O verão e as mulheres. Para senti-los bem, é preciso imergir numa espécie de quarentena cívica e moral. Ficar de férias da vida ou, mais exatamente, de certa feição dela: a que envolve os ritos de sobriedade e rotina. Remeter-se a uma adolescência que se imaginava enterrada na vala dos compromissos roazes, voltando a existir antes de tudo em corpo. Pois o verão, sendo a mais poética das estações, vive primeiro da forma. É todo um aceno ao prazer. Daí, nele, a prevalência da cor e do tato, medidas de uma apreensão de vida basicamente sensual. O espírito se esvai, langue, e se funde com a carne. Reinstaura-se então a unidade. Na praia somos edênicos, sem pecado e sem culpa, agindo sob o império quase absoluto do sol.

    As mulheres no verão. Ei-las que saem de casa, sós ou aos bandos, como se atendessem a um chamado misterioso. O que as faz procurar a praia? Talvez a simples vaidade de esplender ao sol, afirmar com exuberância os atributos do sexo. Talvez o gosto íntimo, animal, de ativar humores, compensando a estase a que ficam submetidas no inverno e em nossa incipiente, parca primavera. Talvez a necessidade de se ensolarar e mudar de pele, como certos pássaros que precisam renovar periodicamente a plumagem.

    O verão é sensual mas não é pecaminoso; não se confunda viço com vício. Na praia as mulheres se desnudam com adequação. Pois tudo ali é explícito, não havendo o que o sol não ilumine, o mar não lave e o vento não leve. A nudez não tem a explicitude alardeada pelos filmes pornográficos, que embutem na mensagem uma intenção cafajeste. A musa da praia é a antiatriz dos filmes pornôs. Ali a nudez se amplia noutras nudezes, e a ênfase se desloca do indivíduo para o grupo. Fala-se em mulheres, no plural, e não numa certa mulher. Em desejo, abstratamente, não num objeto específico do desejo.

    O verão e as mulheres. Bichos exuviáveis, elas cambiam de pele num processo que percorre todas as gradações do dourado. Uma delas conheço que está na terceira muda e, falando francamente, penso que não deve prosseguir. Deve se recolher, moderar a febricitação interior. Sob pena de arruinar a tez, dando-lhe o aspecto fosco e dessecado que se encontra nas que perderam a medida do sol. Pois esse é o perigo no verão. O ideal seria colocá-la numa redoma térmica ou retirá-la da praia impreterivelmente às dez e quarenta e cinco da manhã – enquanto há tempo.

  • O peregrino

    Levanta-te e anda!, disse aquele visionário de barba crespa e suja e olhos que anunciavam divindade. Lázaro, farto de mentiras sobre a vida e a morte, levantou-se e começou a caminhar. No meio da tarde estava já longe de tudo, do povoado coalhado de casebres, das hortas envelhecidas, de suas duas irmãs confusas e atônitas. Estava longe de si mesmo, e isso lhe deu algum alívio.

    No meio do caminho, parou e olhou para trás. De boa vontade teria dado graças e até beijado os pés daquele visionário maltrapilho, mas não tinha retrovisor em sua memória poeirenta. Além disso, o barbudo, àquela altura, estava ocupado em suster nos ombros um pesadíssimo pedaço de madeira e não poderia lhe dar atenção.

    Bebeu um gole d’água do cantil amarrado à cintura e contemplou o horizonte estendido como um tapete diante de seus pés. Chegou a novas terras, conheceu novas gentes. Ninguém o conhecia, porém. O tempo de quando estava morto e usava sudário já havia passado e não havia naquelas paragens ser vivente que tivesse ouvido falar dele. Para os outros, ele era só um viajante que tinha aparecido por lá. Percebeu que nunca se sentira tão leve como agora. Atravessou a nova terra e continuou a andar, seguindo seu destino e a ordem do visionário barbudo: Levanta-te e anda!

  • Palavras insólitas, insólitas palavras

    Viajava de ônibus outra vez pelo interior do estado. Na época, isso me era tão rotineiro quanto a atual preocupação com os seguidos e rechonchudos boletos, que parecem ter um prazer mórbido em aparecer sem avisar no meu e-mail, ou, de quando em vez, aqueles mais austeros e resolutos, na minha caixa de correio. Saímos de Porto Alegre com vinte minutos de atraso por conta de algum problema no trânsito próximo à rodoviária. Chovia torrencialmente desde a madrugada.

    O ônibus lotado bufava um ar quente que nos tragava a cada curva. O incômodo era grande também pelas estradas sofríveis e esburacadas que pegamos assim que saímos da região metropolitana. O asfalto picotado do interior havia se tornado uma marca registrada. Como atestado de bravura ou conquista pessoal, os viajantes se vangloriavam por atravessar o estado naquelas condições, tal qual tivessem escalado o Everest ou corrido uma maratona. Nem todos caíam nesse papinho, entretanto. A chuva, por exemplo, não quis nos acompanhar.

    Na noite anterior eu tinha ido a um show do Vera Loca e, quando tirei da mochila um dos livros que havia comprado na feira, minha cabeça ainda rebobinava o refrão de Meu toca-discos se matou. O autor era português, Jorge Reis Sá, o livro: O Dom. Comprei-o na esperança de uma agradável surpresa, afinal, sempre estimei os portugueses. O valor compensava: dez reais.

    Não fosse o seguido flerte com o horizonte, terminaria a leitura ainda no ônibus. O pampa é um convite ao deslumbramento estético/paisagístico, mesmo com o sistemático e antagônico solavanco das estradas. No bagageiro, a minha mala dançava espremida dentre tantas outras com uma dezena de livros e uma muda de roupa suja. Em verdade, não sei por que escolhi O Dom para a viagem.

    Após alguns sacolejantes capítulos, fechei-o um tanto enfastiado. Ao meu lado estava um homem que não parecia interessado em nada além dos próprios devaneios. Me olhou com certa curiosidade e, com um aceno de cabeça, indagou o motivo da minha reação. Disse-lhe que não estava gostando. O Dom parecia uma cópia fajuta e sem escrúpulos do Ensaio sobre a cegueira, do Saramago. Só não reprovava mais aquele livro porque o autor tinha muita coragem em propor aquilo e, de certa forma, a editora também demonstrava coragem ao publicá-lo. O mercado editorial, por sua vez, é uma eterna incógnita. Livros de colorir para adultos são mais vendidos do que o Érico Veríssimo, a Nélida Piñon, o João Ubaldo Ribeiro, vai entender.

    Meu colega sequer respondeu, apenas fechou o cenho. Eu continuei a leitura na certeza de que incrementaria o meu veredito. Em certo momento pedi licença para ir ao banheiro. Tradicionalmente, escolho o banco da janela por conta da claridade, mesmo que em alguns casos dependa da complacência do viajante ao lado. Demorei um pouco para retornar porque um ônibus cambaleante é sempre um desafio para as bexigas inflamadas.

    Quando voltei, o horizonte fisgou minha atenção até entrarmos numa pequena cidade. Pensei ter deixado uma impressão ruim ao me queixar tão acintosamente. Aquele homem não conhecia o Saramago, nem o Érico, a Nélida e o João Ubaldo. O mercado editorial talvez tenha lhe soado grego. E eu não passava de um reclamão excêntrico com o qual estava disposto a não gastar uma frase. Cogitei puxar um assunto qualquer a fim de melhorar minha reputação, mas enquanto elegia alguma banalidade, o ônibus parou na rodoviária e, novamente com um aceno de cabeça, me cumprimentou e saiu. Ainda o assisti andar de maneira solene e ereta até o táxi ali próximo. Sem uma única palavra, sujeito estranho, pensei.

    No bar da rodoviária tocava a música do momento: Borracho y loco, do Vera Loca. Justo quando os zunidos veralouquianos pareciam ter abandonado minhas têmporas. Outro passageiro acompanhava a música aos sussurros. Se havia mais um remanescente do show por ali ou se era apenas um ouvinte aleatório, jamais saberei. Coincidência ou não, agora não importa. O ônibus saía da cidadezinha quando abri novamente o livro e encontrei na primeira página uma dedicatória breve, num português gentil, agradecendo a crítica sincera. Havia também uma assinatura em rabiscos.

    Não consegui terminar a leitura na viagem. Demorei, na verdade, uns três ou quatro dias para digerir aquela cena e ler os capítulos finais. Até hoje acho um tanto ilógico encontrar um escritor português num ônibus pinga-pinga, vagando por horas e horas e entrando em qualquer biboca no interior do Rio Grande do Sul. O seu nome não estava na programação oficial da Feira do Livro de Porto Alegre e na internet também não havia nenhuma evidência de que tivesse viajado ao Brasil naquele período.

    Não me impressiono tão facilmente, às vezes sofro com a alcunha de ranzinza e mal-humorado, mas isso não condiz com a verdade. O fato é o seguinte: mudei de ideia quando terminei a leitura. Sendo franco, o livro é muito bom. E o pior é que depois também gostei de mais uns dois ou três livros dele. Desconfio um pouco dessa minha opinião porque ela talvez se ancore mais nesse encontro insólito do que nas próprias narrativas e, analisando bem, isso demonstraria um lapso de personalidade para o qual jamais me dobraria. Então, hoje só lido com certezas. Isso tudo foi uma brincadeira esdrúxula de um sujeito com senso de humor questionável. E ponto.

  • O mundo nunca será só virtual

    Quando inventaram o DVD, mataram o VHS.

    Pelo menos era essa a intenção — empurrar todo mundo para o novo aparelho brilhando no rack da sala.

    Depois o vinil virou CD. O CD virou arquivo. O arquivo virou link perdido no YouTube, no Spotify e em mais uma dúzia de plataformas que juram guardar toda a música do mundo, mas nunca têm aquela faixa que você procura.

    O cinema, coitado, saiu da tela grande para cair no streaming. Cada filme numa prateleira diferente. Uma assinatura pra cá, outra pra lá. E a gente gastando mais pra assistir em casa do que gastava no multiplex.

    Mas sabe de uma coisa?

    O mundo não topa ser só virtual.

    O dono da mercearia aqui do bairro — esse mesmo que pesa o tomate olhando para o céu — tem um clube do vinil. A turma combina tudo pelo WhatsApp e aparece uma vez por mês, com LPs debaixo do braço. A cena é tão resistente quanto o café passado no coador de pano.

    Moro em Belo Horizonte. Em Minas, sabe como é: o passado gosta de passear devagar. Nos sebos do Maleta, meninos e meninas folheiam discos como quem acaricia um gato. Um por um. Com aquele coraçãozinho retrô batendo no peito.

    Na Galeria do Othon ainda vendem vitrolas antigas. Aparelhos de DVD. Toca-fitas.

    Raridades? Sim.

    Extintas? Nunca.

    Quando a internet chegou, decretaram a morte do livro físico. Kindle seria o caixão elegante do papel. Pois bem: entro numa livraria e ela continua lá, firme, vendendo páginas de verdade. O que mudou foi o alcance — se não acho o livro na esquina, compro em qualquer canto do planeta.

    Se o PDF virasse moda definitiva, aí sim os sebos fechariam as portas. Mas basta uma visita rápida pra ver que o papel resiste mais que muito casamento.

    E, no meio disso tudo, descobri uma BH dentro da outra. Um Brasil dentro do outro. Camadas de vida: umas analógicas, outras digitais. Nenhuma se exclui.

    Eu mesmo. Prefiro a passagem comprada pelo celular a enfrentar fila de guichê. Prefiro receber meu pagamento por pix a encarar uma segunda-feira no banco.

    Mas ainda prefiro chope com amigo a conversa por WhatsApp. Livro no parque a tablet refletindo o sol. Filme clássico achado por acaso a caça desesperada no streaming.

    Ninguém existe sozinho.

    Ninguém existe só no on-line.

    Nem só no off-line.

    Há vários jeitos de viver dentro do mundo — uns do passado, outros do presente.

    E, sinceramente, não tem por que não ser tudo junto.

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