
Sobre voar
— Desaprendeu?
— desaprendi.
— mas você era tão…
— Era! Muito tempo atrás. Não sou mais.
— Tem certeza? Isso a gente nunca esquece. Basta uma vez pra nunca mais esquecer.
— Não foi só uma vez…
— Não?! Bem, comigo… Pensei que tivesse sido apenas comigo…
— A primeira sim, mas houve outras. Tantas… Tão boas, tão lindas… O que foi?
— Nada! Quer dizer… nada! Nada não.
— Ficou com ciúmes?
— Sim.
— Não fique. A primeira nunca esquecemos.
— Não?! Então por que desaprendeu?
— Porque…
— Por quê…?
— Sei lá! Fui crescendo. Ficando mais pesada. Deixando de lado.
— Por quê?
— Você nunca parou?
— Não. Por que pararia?
— Mas você também cresceu. Também ficou mais pesado…
— Cresci.
— Então?
— O quê?
— Não ficou mais difícil?
— Não.
— …
— Não havia como.
— …
— É o meu sentido. É para o que existo.
— Como sabe?
— É lógico!
— Não entendi.
— É lógico!
— Tá! Agora me explica.
— Temos asas.
— E daí?
— Como e daí? Temos a-sas!
— Aff!
— Qual o motivo de termos asas se não for pra voar?
— … Você acha?
— Meu Deus! Tenho certeza.
— Mas também temos pés. Podemos andar.
— E a-sas!
— …
— Cadê as suas? Elas eram tão bonitas! Tão lindas, cheias de plumas…
— Não são mais as mesmas. Mas as suas estão mais bonitas, mais definidas.
— Eu voo.
— Eu cresci.
— Você cresceu e desaprendeu.
— Cresci e desaprendi a voar…
— Não! Cresceu e desaprendeu a ser.
— A ser?
— Sim.
— A ser o quê?
— Feliz.
— …























