Crônicas

“Coisa teimosa”

O falo é uma coisa teimosa! Esse valente que desaba de um desfiladeiro de significados, exigindo da sua plateia coro, palmas e repetição. Com um sorriso maroto no canto de lábios cascudos, como um menino perverso que tem pavor da castração, arranca o véu na sua cena infantil.

O falo é uma coisa teimosa! Na sua lógica de ter ou não ter, expõe a sua fragilidade. Na demanda desenfreada de amor, exibe envergonhado, o excesso de desamparo. Com pavor do desconhecido, assume um compromisso com seus sintomas, mesmo pagando um preço caro.

Capturado pelo sucesso, desconhece as entrelinhas pelas quais é encurralado no seu fiasco. Teimoso, repete mais uma vez. Prefere o embaraço a fazer o novo. Faz de novo. Será que é o tal do prazer masoquista ou do fulano sádico que extrai do gatilho um gozo? Um não vive sem o outro.

“Cara ou coroa”? Vacilantes, somos presas fáceis. Incertos, como os dois lados da mesma moeda. Indefesos, fantasiamos um falo destemido para chamar de seu, carregado de condecorações: força, coragem, bravura, poder.

Coisa teimosa! Não falha nem fracassa. Não escapa nem derrapa. Àquele que na fantasia, lhe protegerá contra todo o mal. Iludidos, pegamos o barco. Em mar aberto, navegamos na tempestade, perseguimos os engodos, e somos enfim fisgados,
entorpecidos pelo canto da sereia.

O falo é uma coisa teimosa! Ele é garboso. Sopra aos ventos. Cochicha ao pé do ouvido um sonho de consumo — Podemos ser completos! Sussurra tão perto, que sentimos seu bafo quente e fétido, de quem atiça o fogo.

São 10:20 h, logo cruzarei a Ponte Rio- Niterói. O marcador de combustível no painel do carro indica que estou na reserva. Avisto ao longe um imenso boneco biruta inflável se movimentando com o vento gerado por um motor. Ufa!!! Expiro aliviado. Ali tem
um posto, onde encherei meu tanque quase vazio.

E lá estava o menino maroto saindo de fininho do lado do boneco titânico do posto. Seu sorriso de canto de boca, não deixou dúvidas. Com um simples furinho de agulha, tombou murcho no asfalto o gigante.

Aliviado, agora com o tanque cheio, chego ao Rio pontualmente ao encontro marcado pelo iLoveyou.

Oxalá hoje eu não fracasse no meu destino de povoar o mundo.

Mostrar mais

Lorena Coutinho Berbert

Lorena Coutinho Berbert é psicanalista, escritora e empresária dos segmentos de Arte e Turismo. Atuou como executiva na área de Recursos Humanos durante 20 anos, tendo exercido o cargo de Diretora de Capital Humano da Rede Globo, onde foi responsável pela Central Globo de Produção (Projac). É pós-graduada em Teoria Psicanalítica pelo IBMR e possui especialização em Gestão Estratégica de Pessoas pela INSEAD, na França. Idiomas: inglês e francês. Em 2019, publicou o livro Por que trabalhar? Como resolver o mal-estar na carreira. É participante da Letra Freudiana e sócia da Modernistas Galeria.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar