Sábado

  • Amigos

    Saí de casa por volta das 8 e meia da manhã como fazia todas as segundas, quartas e sextas, andei alguns passos e cheguei à praça. O jogo ainda não havia começado. Arnaldo, Alfredo e Ranulfo já estavam lá conversando sobre a vida alheia, um esporte praticado com afinco na nossa cidade. Aquelas reuniões com os amigos de uma vida inteira ainda eram bastante agradáveis, apesar de o carteado ter perdido um pouco da graça desde que deixamos de jogar valendo dinheiro. Foi o Alcindo, que morreu de tristeza quatro meses atrás, quem sugeriu. Essa grana faz falta pros nossos remédios, argumentou com certa razão. Afinal, somos todos aposentados e clientes preferenciais do Antônio Careca, o dono da única farmácia da região. Digo que o Alcindo morreu de tristeza porque pra ele foi um choque tremendo quando a Arlete teve um ataque cardíaco fatal enquanto via o último capítulo da novela. Convivência de 61 anos — 63 se considerarmos também o período de namoro e noivado — definitivamente não é pra qualquer um. É tempo demais vivendo junto, o que torna a coisa sempre dolorosa quando termina. Se não é pelo amor propriamente dito, é pelo hábito. Claro, costume e preguiça também são capazes de manter muito casamento por aí, mesmo nos dias hoje, marcados por tanto progresso e emancipação feminina. O fato é que exatamente 19 dias depois do enterro da patroa, coube ao Alcindo fazer a passagem, como costuma dizer o Arnaldo, frequentador convicto do centro espírita do bairro onde moramos.

    — Sempre o último a chegar, hein, Hildebrando — falou Arnaldo assim que me viu.

    — É o trânsito — tentei ser engraçado.

    — Pois eu estava só esperando você aparecer pra dar uma notícia importante pros três — prosseguiu ele.

    — Notícia? Que mistério é esse? Fala logo, homem! — impacientou-se Alfredo, o mais agitado do grupo.

    — Ontem eu estive lá no centro…

    — Xiiii, aí vem coisa — interrompeu Ranulfo.

    — … e a dona Isaura psicografou uma mensagem do Alcindo — informou enquanto tirava um papel do bolso.

    — Como é que é? O Alcindo baixou no centro ontem? — perguntei ainda sem compreender direito o que se passava.

    — E pra quem é a mensagem?

    — Pra nós quatro, Ranulfo. Pra mim, pra você, pro Hildebrando e pro Alfredo.

    — E o que ele diz? Vai nos contar ou não? Pra que tanto suspense?

    — Calma, Hildebrando. O troço tá meio em código, linguagem telegráfica, sei lá. Mas, pelo que entendi, acho que houve um erro.

    — Erro, que espécie de erro?

    — Parece que a hora do Alcindo ainda não tinha chegado, Alfredo. Tá escrito aqui, deixa eu ver… “mais cedo que o programado… era a vez de um amigo… amigo da praça e das cartas… falha no controle… a melancolia ia passar… Arlete ainda não tava pronta pra me receber…”. Resumindo: um de nós quatro é que devia ter morrido.

    — Quem? — os três, quase ao mesmo tempo.

    — Não dá pra saber, mas o fim da mensagem deixa claro que o pessoal lá de cima está disposto a corrigir essa falha de alguma maneira.

    — Ressuscitando o Alcindo? — indaguei.

    — Não, isso não se pode fazer. Eles pretendem vir buscar o sujeito certo.

    — Quando? — continuei.

    — Pelo que diz aqui “antes que o oito vire nove”, ou seja, antes que agosto termine.

    — Hoje é dia 25 — anunciei consultando meu relógio de pulso.

    — E agosto tem 30 ou 31? — quis saber Alfredo, ao mesmo tempo que, mais trêmulo do que o habitual, tentava obter a resposta fazendo o teste no dorso da mão.

    — Calma, Alfredo, tá achando que você vai ser o premiado? — provocou Arnaldo.

    Naquele dia, não houve jogo. Cabisbaixos e pensativos, fomos tomando o rumo de casa. Em frente ao portão, ouvi os latidos do Max vindos do lado de dentro. Meti a chave na fechadura com certa dificuldade. Antes de entrar, ainda olhei pra trás e pude ver, na praça, nossa mesa habitual deserta. Aliás, contrariando o costume, a praça inteira se encontrava completamente vazia naquele momento.

    ***

    Bem, o 11 já virou 12, e hoje é véspera de Natal. Nós quatro continuamos vivos e resolvemos celebrar a data aqui em casa. A dona Isaura não dá mais expediente no centro. Há três meses foi internada numa clínica psiquiátrica de uma cidade vizinha à nossa, e, infelizmente, o caso é grave. São quase 9 horas, e eles devem estar chegando. Pelo menos hoje não vou ter de ouvir o Arnaldo dizer que estou sempre atrasado. Nosso amigo ausente não mandou mais notícias, e nunca mais tocamos no assunto. É bem provável, porém, que, na hora da ceia, a gente faça um brinde em homenagem ao Alcindo.

  • O gordinho do STF

    Quando Flávio Dino tomou posse como ministro do STF, o que nele se sobressaiu não foi o currículo, a trajetória política ou as ideias jurídicas. Foi o tamanho.

    Julgar os indivíduos pela primeira impressão é um defeito do ser humano, especialmente do brasileiro, que, com sua índole zombeteira, adora rotular os indivíduos por alguma característica que lhe chama a atenção – careca, dentuço, narigudo, balofo, baixinho, gago, crioulo, japa, baiano, gay, geninho, coroa. O apelido vem antes da pessoa e não raro em tom desabonador. Quem se atreve a criticar essa postura corre o risco de ser tachado de ‘woke’, patrulheiro dos costumes, censor do humor alheio.

    Pessoas com sobrepeso carregam um fardo que vai além da massa corporal: além de preocupações com a saúde e limitações práticas, convivem com preconceitos que lhes são impostos antes mesmo de serem devidamente conhecidos.

    Quando foi indicado por Lula para uma cadeira no STF, Dino despertou desconfiança entre os adversários. Além da hostilidade da balança, pesava contra o fato de ser egresso do antigo PCdoB, partido tido como radical. Além de gordo, comunista!

    Confesso que quando o vi chegar ao STF, carregava certa prevenção contra ele (e não pelos quilos a mais). Não esperava grande coisa do homem. Seria mais um político a usurpar uma das suntuosas cadeiras da Corte. Alguém cercado de ‘aspones’ e vantagens remuneratórias, onerando a nós, contribuintes, que não entendemos bem qual utilidade nos proporciona para justificar as mordomias que usufrui.

    Apesar disso, havia algo nele que me inspirava simpatia. Talvez porque homens ‘corpulentos’ transmitam frequentemente um sentimento de afabilidade, alguns até chamados carinhosamente de ‘fofos’. Lembrava-me ele o Stay Puft Marshmallow Man, o gigantesco boneco de marshmallow evocado pelos Caça-Fantasmas. Um personagem improvável de aparência inofensiva e bonachona capaz de provocar tumultos monumentais em Nova York.

    Dino (não vou mais citar sua condição corporal para não estigmatizar o coitado), tendo ocupado o posto de governador do Maranhão, notabilizou-se por uma gestão bem avaliada. Seu jeito professoral de se expressar ajudou. Em vez de mais um integrante do Supremo a se expressar com excesso de rebuscados malabarismos léxicos, tínhamos alguém que fala a língua que os analfabetos em ‘juridiquês’, como eu, entendem. O fato de ter sido um bem sucedido político (foi também senador e deputado), facilitou, uma vez que, para ser eleito, teve de aprender a arte de se comunicar com o cidadão comum.

    O fato é que Dino tem se saído (muito) melhor do que a encomenda. Quanto a minhas objeções, fui obrigado a admitir que estava (com perdão da expressão) ‘redondamente’ enganado. Até mesmo os mais extremados opositores tiveram que se render a suas evidentes qualidades.

    Dino não hesitou em mexer em vespeiros nem desafiar dogmas firmemente estabelecidos. Orçamento secreto, penduricalhos, supersalários e aposentadoria compulsória a magistrados (vista como prêmio a condutas desviadas) são alguns espinhosos temas que o homem encarou, batendo de frente com poderosos interesses corporativos. Digno Dino voltou sua atenção não apenas a malfeitores de organizações criminosas, mas aos que estão encastelados nas diversas esferas do poder, mamando nas tetas do Estado.

    Protegido pela estabilidade do cargo, poderia simplesmente acomodar-se com as benesses que a função lhe assegura, cumprindo diariamente o ritual de despachar, analisar processos e proferir longos e sonolentos votos. Preferiu, no entanto, usar de suas prerrogativas para sair da mesmice e moralizar o serviço público.

    Se na silhueta carrega algo de Sancho Pança, é de Don Quixote que herdou o espírito guerreiro, enfrentando os moinhos da burocracia, dos privilégios e da inércia estatal.

    Lamento apenas que muitas dessas iniciativas não tenham tido a devida repercussão no polarizado debate público, incapaz de enxergar, para além de ideologias, o valor das ações em benefício da coletividade.

    Por tudo isso, penitencio-me por ter começado essa crônica preso às características físicas de Dino. Perdi um tempão falando do peso do sujeito quando o que deveria importar é o peso de suas ações.

  • O ocaso do macho

    A onda de feminicídios e a misoginia escancarada nas redes sociais costumam ser atribuídas à ação de influenciadores da machosfera e aos algoritmos raivosos da extrema direita. A explicação procede, mas pode ser ampliada.

    Numa abordagem, digamos, ‘psicossocial’, diria que se trata de uma reação de desespero do macho da espécie diante de um mundo que já não gira exclusivamente ao seu redor. Um último suspiro do velho sistema patriarcal que vem derretendo frente à crescente participação feminina na vida política e social.

    Freud explica: o comportamento hostil ante o sexo oposto decorre da ferida narcísica que vitimou o rapagão magoado, que exercia o papel de provedor, centro da casa, autoridade inquestionável. Com o ego machucado pela perda dessas prerrogativas, sente-se como um reizinho destronado e se volta com agressividade contra as ex-vassalas.

    Jung também daria seu pitaco: a cultura patriarcal superestimou valores associados ao masculino, como dureza e racionalidade, enquanto escondia sob o tapete dimensões ligadas à ‘anima’: intuição, sensibilidade, acolhimento. Sem saber lidar com a ‘porção feminina’ presente em si mesmo, o brutamontes partiu pra porrada.

    Psicologismos à parte, o fato é que o Clube do Bolinha entrou em estado de insolvência.

    As mudanças vêm em ritmo de tartaruga. Considere-se, por exemplo, o Congresso brasileiro: as mulheres ali reunidas não teriam quórum sequer para conter as bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia (redutos amplamente masculinos). Luta desigual: Barbie x Conan o Bárbaro.

    No STF, a pobre Carmen Lúcia segura as pontas do ‘bloco do eu sozinha’, no julgamento das pautas de interesse da parcela de 51% da população brasileira. Até o presidente ‘progressista’, ao tirar uma carta da manga para a nova vaga aberta na Corte, descarta a dama de copas e prefere o evangélico de confiança.

    Ainda assim, já houve progresso. Afinal, não há muito tempo, a discussão girava em torno de decidir se quem veste saia e soutien poderia ter direito a voto.

    Com o tempo, elas timidamente começaram a ocupar algumas cadeiras nas universidades. Depois chegaram aos escritórios, aos postos de chefia e aos concursos públicos. Quando se deram conta, estavam assinando contratos, coordenando equipes e ornamentando com plantas e objetos decorativos o ambiente cinza de trabalho.

    Se o fanfarrão tem a força, a dama tem a resiliência. Suporta em silêncio a dor do parto para cumprir o indispensável desígnio de gerar a vida que biologicamente lhe cabe. Já o bebezão beberrão choraminga por parir um novo mundo, no qual tem de partilhar decisões com a parceira, antes ignorada. Reclama, tadinho, do orgulho ferido. Mas minimiza a situação opressiva de quem dá à luz sem sequer poder abortar pois seu corpo é tratado como propriedade do Estado religioso varonil.

    Mas não adianta espernear, Zé Mané. Seu reino está sucumbindo em meio às garrafas de cerveja que você vira nas madrugadas de bar, falando de futebol e putaria, enquanto a patroa, sem receber um puto, rala pra não deixar desestruturar o lar e não desencaminhar os filhos que você botou no mundo ao dar vazão a seu instinto carnal.

    A força bruta já teve seus dias de glória quando era necessário colocar um sujeito parrudo portando um tacape na entrada da caverna para impedir o assalto de inimigos ou de feras que espreitavam ao redor.

    Mas não dá para reproduzir esse padrão paleolítico depois da invenção da vacina, da internet e do vaso sanitário. O que pode sustentar a estabilidade da sociedade do futuro não é a largura do bíceps nem o comprimento do pênis, mas a colaboração, a solidariedade, a preservação ambiental. E nesses quesitos o bicho-homem já mostrou historicamente sua inabilidade.

    Não seria justo generalizar: nem todos os varões sufocaram em si os aspectos sensíveis da personalidade. Não me refiro apenas aos gays, mas aos emotivos, os suscetíveis ao martírio dos necessitados que se mobilizam para melhorar o mundo, preferencialmente sem recorrer à violência.

    Na outra ponta, também há mulheres com posturas mão-de-ferro. Margaret Thatcher é o exemplo mais citado. Uma machona que tratou demandas sociais com cacetete. Modelo de mulher, segundo o manual dos homens.

    Há também aquelas acomodadas que obtêm benesses por sua apropriada condição de submissão. São as que só votam em homens pois os julgam mais capacitados para tomar decisões.

    Mas de uma maneira geral, recortes eleitorais comprovam diferenças de comportamento político entre os gêneros, com maior sensibilidade feminina a pautas sociais e humanitárias, enquanto o eleitorado masculino tende a se inclinar a discursos de ordem e segurança.

    Computando apenas votos femininos, teríamos nos livrado do estorvo trumpista, e os EUA teriam pela primeira vez uma presidente mulher (algo que teria um impacto mais disruptivo do que a eleição de um presidente negro, trauma já superado com Obama). De fato, a sociedade americana, mais do que o racismo, escancarou seu machismo.

    Escolha seu time. De um lado, os vilões que envergonham a raça humana: Nero, Calígula, Átila, Gengis Khan, Pizarro, Robespierre, Hitler, Mussolini, Stalin, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Franco, Salazar, Idi Amin, Pinochet, Garrastazu Médici, Kim Jong-Un, Bin Laden, Bashar Al Assad, Netanyahu, Putin. Só marmanjo.

    Do outro lado: Joana d’Arc, Teresa de Calcutá, Simone de Beauvoir, Hanna Arendt, Angela Merkel, Greta Thunberg, Malala, Claudia Sheinbaum, Julia Gillard, Michelle Bachelet, Mãe Stella de Oxóssi, Sônia Guajajara, Marina Silva, Djamila Ribeiro. Aquelas que, a partir de trajetórias distintas, ajudaram a construir um mundo mais justo, equitativo… e feminino. Para homens e mulheres.

  • O que sei de futebol?

    De futebol mesmo, sei apenas que a bola é redonda e que, se ela entrar na trave do adversário, é gol.

    Agora, de Copa do Mundo eu sei. Sei muito. E sinto saudades; quantas saudades!

    A vida era coletiva, colorida, exibida, assumida e feliz. Muito feliz.

    A Copa do Mundo daqueles tempos era um acontecimento inigualável. Não existia outro evento capaz de ofuscá-la.

    Imagine um bairro simples, na periferia de alguma cidade do interior do país, onde nunca faltava um campinho de terra e toda a gurizada era da seleção brasileira.

    Camisetas variadas, calções curtos, pés descalços, rostos vermelhos, suor misturado à poeira. Meninos jogando com a mesma paixão dos craques que, dali a poucos dias, entrariam em campo representando o Brasil.

    E a data da Copa se aproximando cada vez mais.

    Os locutores das rádios falavam animados, contagiando os ouvintes para a abertura do “maior espetáculo da Terra”.

    Bilhões de pessoas estariam diante das televisões, onde pretos e brancos se igualavam na transmissão ainda sem cores dos primeiros campeonatos.

    Outra maravilha daquele tempo era a cumplicidade. O desejo de estar junto. A casa cheia, cheiro de fritura vindo da cozinha, torresminho, cerveja, um olho no churrasco e outro na televisão.

    As bandeirolas verdes e amarelas atravessando as salas, ou o vizinho com a enorme bandeira espetada num cabo de vassoura, tremulando orgulhosa na janela.

    E o silêncio absoluto no instante do pênalti?

    A sinceridade do choro de homens, mulheres e crianças diante da perda de um gol ou da derrota do time.

    O grito único das pessoas explodindo na hora do gol. Depois, as carreatas, os buzinaços, as bandeiras se tocando pelas janelas dos automóveis.

    Que maravilha foram as Copas do Mundo daquele tempo.

    Que saudade tenho delas.

    Eu falharia se precisasse contar tudo isso aos meus netos; tamanha emoção não cabe em palavras…

    Meus amigos jogadores, não me deixem falhar.

    🌷

  • O Teste

    — Quantos quilos você tem?

    — Uns cento e dez.

    — Próxima! Mais rápido, minha filha. Anda um pouco. Desfila. Imagina que tem uma plateia aqui só pra te ver. Vamos logo, meu amor, não tenho o dia todo. Chega, pode sair. A gente entra em contato. Próxima! Próóóóxima! Quantos quilos você tem?

    — Cento e vinte e um.

    — Próxima! Uau, acho que você vai servir. Como se chama?

    — Zulmira.

    — Então, Zulmira, você tem problemas com nudez? Ainda estou pensando, não é nada certo, mas talvez alguma nudez venha a ser necessária. Só peitos, não se preocupe, tudo de muito bom gosto. E vai ser rápido. Na hora devo colocar uma luz fraca em cima de você… Seria um empecilho?

    — Não, tudo bem. Eu…

    — Agora anda um pouco, como se estivesse desfilando. Meio Gisele, entende? Meio Gisele, eu disse! Mais disposição, atitude de mulher empoderada. Solta o cabelo. Balança a cabeça. Plínio, joga o ventilador em cima dela. Pega aquele lençol e enrola no corpo. Bem sensual, não seja tímida. Anda, Zulmira, tá esperando o quê? Não precisa ficar com vergonha. Parece bom. Quantos quilos você tem?

    — Cento e trinta e sete, acho. Não fico me pesando toda hora.

    — Perfeito. Você não é muito alta, né? Um metro e… Idade?

    — Quarenta e nove.

    — Onde você mora?

    — Quintino.

    — Cruzes, onde fica isso? É longe, né? Você vai conseguir chegar na hora? Eu não tolero atrasos é bom que você saiba. Plínio, mais alguma?

    — Não, Daniel, essa aí é a última.

    — Você tá com sorte, Zulmira, vamos fechar com você. Alguém já te disse que você tem muito potencial? Contente, querida?

    — Claro. Sempre foi meu sonho. Olha, eu decoro rápido, tenho muita facilidade. E os ensaios quando começam?

    — Relaxa, Zulmira. Você não tem texto, não precisa decorar nada. Também não tem que participar de nenhum ensaio. Uns dois dias antes da estreia você passa aqui, a gente conversa sobre marcação, mas é tudo muito simples. Você fica uns trinta segundos em cena e sai. Vai dar tudo certo. Os caras querem ver as garotas, as gostosonas. A sua parte é mais um alívio cômico, entende?

    — Mas é só isso? E o contrato?

    — Não tem contrato, é cachê. Cinquenta reais por sessão, recebe no domingo.

    — Mas eu pensei que…

    — O que foi, Zulmira? Não tá satisfeita eu chamo outra.

    — Não é isso, é que eu pensei…

    — Pensou o quê? Meu bem, você não viu o anúncio? Tá claro no anúncio.

    — Eu não li o anúncio. Nem sabia que tinha um anúncio.

    — Veio pela agência?

    — Não, tava passando aqui na porta…

    — Então é isso, minha filha, já expliquei tudo. Conversa com o Plínio se tiver dúvida, mas o negócio é esse mesmo que eu falei. Plínio, tô atrasado, preciso correr. Liga pro elenco e avisa que os ensaios começam amanhã, tudo bem?

    — Pode deixar, Daniel.

    — Acho que lá pelas seis tá bom. Ah, e fecha o teatro pra mim, ok?

  • Meu avô, o escritor

    Seguramente, este amor que nutro hoje pela Literatura se deve a meu avô Carlos, um advogado criminalista que gostava mesmo de inventar histórias. Tenho várias lembranças dele trabalhando no escritório da casa do Humaitá junto com sua inseparável Olivetti portátil. Quando não estava no escritório, podia ser visto no jardim observando as plantas, as flores e os insetos ou apenas contemplando o céu. Era a hora de se abastecer de inspiração, justificava ele, antes de se acomodar embaixo da mangueira ou de se sentar ao lado do viveiro para ler o jornal. Na sala de estar ouvindo música clássica, nos quartos meditando e olhando a paisagem ou mesmo na cozinha impregnando-se de cheiros e sabores, vivia espalhando metáforas, metonímias, sinestesias e hipérboles pelo ambiente. E sempre que estava para concluir um texto, dirigia-se ao terraço com as folhas datilografadas na mão. Então, tal qual bandeira desfraldada, estas eram sacudidas ao sabor do vento por alguns instantes. Se alguém presenciava a cena e se surpreendia com esse inusitado comportamento, ele logo explicava num tom meio professoral:

    — Trata-se de uma manobra crucial, meus caros, é só neste momento que os clichês se desprendem do texto…

  • O Bito

    Juca abriu a janela e olhou a noite – o cheiro úmido da noite. Aspirou fundo e sorriu: tinha que ser hoje. Puxou a cadeira, montou a cavalo na janela, num instante estava do lado de fora. Foi tateando a escuridão, até acostumar a vista. Os pés descalços afundavam na terra vermelha – uns poucos passos e estava junto à cerca.

    Deitou-se no chão – cuidado o arame! – e rolou para o pasto das vacas.

    Agora muita atenção, uma chifrada ia estragar tudo.

    Enxergava melhor – a noite até que clara, a lua um balão amarelo, manchas de fumaça, espargindo um halo de claridade, e as estrelas brilhantes, infinitas.

    Devia de haver mil estrelas no céu – Juca não sabia imaginar um número tão grande: um mil, um milhão. Abre a boca pasmado – quantas!

    Nenhuma luzinha na terra – o pai apagara o lampião de querosene, a última lamparina. No céu, uma festa – as estrelas, lamparinas trêmulas de alegria.

    Reconheceu as Três Marias, o Cruzeiro do Sul – Por que esses nomes? Precisava de conhecer mais nomes das estrelas? E das coisas? Não; não fazia falta.

    No pasto escuro, acariciando os nós do coqueiro – nem um tiquinho de medo.

    Tinha as vacas, um perigo a Mimosa, mas estava acostumado. O pai ralhava – inútil, homem não tem medo. Oito anos, calcinha curta, pé no chão – um homem.

    Não distinguia a copa do coqueiro, mancha balouçando lá no alto. Bom de trepar – impossível, as perninhas desajeitadas.

    Um barulho – a respiração das vacas ali perto, bufando, ruminando com prazer a cana da tardezinha.

    Deu uma corrida até a paineira.

    Se o touro Marrão? Fica apartado das vacas, mas – quem sabe? A casca grossa da paineira, o melado do leite dela – uma árvore bonita, florida como um jardim. E os espinhos? Se o Marrão, não dava para se proteger num galho.

    Também, nunca precisou correr de um boi. Estufou o peito e foi andando devagar até um outro coqueiro.

    A aragem fresca da noite, o capim molhado – uma sensação agradável. Afundou o pé num monte de bosta. Não era ruim – afundou o outro também. Diz que estrume de vaca é bom para curar frieira. Juca não tinha frieira, mas era quentinho – ele gostava. Um cheiro verde, forte, saudável.

    Saiu arrastando os pés, esfregando no escuro da grama, sem pressa. Abraçou o coqueiro – mais uma paradinha.

    Escutava o silêncio. Muito longe, um longe muito negro, a água clara – mal se ouve – gorgoleja. Uma rãzinha – serenata, quem sabe? – e um grilo fazendo coro. Podia que a cantiga das estrelinhas.

    As vacas resfolegam. É tudo uma paz, as vozes da noite modulando o silêncio. Por que não uma coruja? As corujas vivem de noite – compenetradas, todo um ar de sabedoria. Nunca uma coruja à noite – Juca viu de dia, num mourão à distância. O bichinho tão sério, dormindo, ou fechado em si, ruminando as imagens do mundo – a aparência de velhice, tão antigo, jeito de quem conhece.

    Medo nenhum. Um saci, gostaria de ver um saci. Não viu nem as tranças que o moleque faz nas éguas. Diz que ele aparece, chamando. Põe a cabeça de um lado e outro do coqueiro, se escondendo, e assobia. Duas, três vezes – saci, nada. Chama: Saci, ciriri… ci, ci!

    Ah, o pito do negrinho soltando estrelinha, no escuro – umas coisas que careciam de ser verdade.

    A mula-sem-cabeça – sem cabeça e abanando as orelhas no vento. O lobisomem – devia de ser bem engraçado. Da varanda se avista o telhado da casa do Tio Luís – a prima Isabel perseguida por um lobisomem, em cima da porteira e o bichão mordendo o vestido. Dia seguinte o noivo Zezão tinha fiapos de pano nos dentes? Ninguém não desconfiou – os dois noivaram demais, pularam cerca, se emaranharam nos espinheiros? Juca aprende com a mãe a duvidar – que as histórias eram bonitas, eram.

    Ufa, que estou perdendo tempo – dá uma corridinha. O Bito me esperando – desabala pasto a fora. Sobe na tábua na porteira, alcança a taramela grandona – mas, e se o pai escuta? Essa porteira velha ringe nos gonzos. Melhor não. Se esgueira pelo viradouro – enfim, no piquete dos bezerros.

    Qual o Bito? Só chamar, ele vem. Baixinho, que o pai – lonjão, mas o pai inventa de escutar até pensamento. Bito! Bito!

    Um vulto se aproxima – é o Bito? Maior, mais magro. Os bezerros, a maioria mansinhos – Juca vai passando a mão, um por um: conhecer pelo tato.

    O Bito é preto – como, no escuro? A estrela branca na testa – mas, e o escuro? O Bito é preto dum preto vivo, um preto que brilha de tão preto – perceberia o brilho?

    Peludão – fácil, com o tato. E eu não ia conhecer o meu Bito? Enfia o pé num buraco de tatu – que susto! Medo de tatu? Franze a testa, empina a cabeça – tenho medo, não.

    Ui! Novo susto – uma lambida na cara: Oi, Bito. Abraça o bicho – Saudade, negão. Nova lambida – Juca, um beijo na orelha, em resposta. E um tapa nas ancas, de amigo.

    Preocupado, Bito – a ameaça de uma lágrima, ele que nunca chorou. As mãos na cabeça do Bito, cabeça contra cabeça se esfregando. Amigão, perder você – não quero, não. Cada ideia – ouvira a mãe, que tinham que mudar para a cidade, não podiam esperar mais. E tudo por culpa dele, o Juca – Está crescendo esse menino, assim no mato, vira bugre.

    O pai ria, não fazendo caso. Mas tinha mais alguma coisa no ar: o sítio não produzia como antes, outra colheita perdida – não iam agüentar.

    O Juca não entendia desses assuntos – e não morar mais ali, ideia tão remota, invencionice, onde se viu?

    Mas porém uma outra preocupação começa a bailar na sua cabecinha: estava crescendo, o

    Bito cresce mais rápido ainda – breve, breve, ia perder o Bito. Breve, breve o Bito ia ser um garrote, um boi, um tourão. Já se viu um touro se chamar Bito? Até o nome – Bito, era uma vez.

    E se matassem, carneassem o Bito? Isso não – ali um tourão, o maioral, capaz de dar conta de todas as vacas do mundo.

    Mas tudo acontece. E ninguém podia impedir o Bito de crescer – cresceu, babau! Adeus, Bito. Nunca mais o seu bezerrinho.

    Por isso que tinha vindo essa noite. Não carecia, as coisas não iam ser assim de uma hora pra outra – mas se viu tão agoniado, um aperto no peito, desinfeliz como a morte.

    Pulou a janela do quarto – esqueceu tudo. Se sentia livre, sozinho dentro da noite, e fazendo coisa proibida, que bom.

    A noite e seus mistérios – Juca nem conhecia a palavra mistério, mas era todo envolvido de seu fascínio, solto na noite. Um molequinho desenxabido, carinha de bobo – que importante, reinando com esse brinquedo encantado, diferente de tudo, a noite.

    E aproveitar! Bito, amigão, você me leva? Só uma voltinha!

    Se gruda no bezerro, joga a perna direita pra cima, uma, duas vezes – de bunda no chão, embaixo do Bito. Que anda, devagar – Espera, Bito, espera. Bicho inteligente! – para junto de um tronco seco. O Juca – upa! – pula na garupa do Bito. Deita pra frente, se ajeitando. Upa, cavalinho. Upa, upa!

    Bito a passos bambos até a porteira – não vão sair? Volta a contragosto, depois de uma carreira – para na beirada do pasto, se encosta no pé-de-goiaba.

    Quietinho, Bito. Quietinho! O Juca – no cai, não-cai – fica em pé, em cima do Bito. Segura no galho da goiabeira, procura, esse escuro – olha que uma taturana!

    O Bito dá uma corcoveadinha, um passo de lado e – ai, o Juca pendurado na goiabeira.

    Tenta firmar o pé no lombo do Bito, que nada – o jeito é descer pelo tronco. Ah, não queria goiaba mesmo!

    O Bito procura os companheiros, o Juca atrás – Aqui, Bito, aqui. Bé – a resposta do Bito.

    Um bé preguiçoso, de sono – espojando-se ao lado dos outros bezerros.

    O Juca ofegando – Faz isso comigo, Bito! Cansado, deita-se também.

    Você sempre será o meu bezerrinho. A lembrança – Não quero que você cresça nunca! Eu não quero crescer nunca! Nem nunca que eu quero ir embora daqui.

    Aconchega-se abraçando o pescoço do bezerro – hum, tão bom!

    Friozinho, o sereno da noite – abraça bem apertadinho o pescoço do Bito. Quentinho!

    As estrelas lá no céu, que mundão de estrelas! Dorme, dorme, Bito.

    Os vagalumes aqui na terra, um mundão de vagalumes. Abre e fecha os olhos, apalpa o capim – uma coceguinha úmida.

    Gozado – como se estivesse no quarto, a janela aberta, os vagalumes sobre a cama, pousando no travesseiro. Corria fechar a janela, acender a lamparina – você aperta a bundinha do vagalume, trec! ele dá um pulo pro ar. Cinco, dez vezes – cuidado não matar o pobrezinho. Guardar numa caixa de fósforos, amanhã você brinca mais.

    Às vezes era daqueles pequenininhos, molinhos, chamado de um nome dos mais feinhos: luz-cu.

    Pirilampo tem-tem! Seu pai tá aqui, sua mãe também! Pirilampo tem-tem! Não, não estava com vontade de brincar. Dorme, dorme, Bito. Só nós dois, sozinhos no mundo. Já pensou – não existisse mais ninguém, só nós dois?

    O Bito olhando com uns olhões deste tamanho – assopra pelas ventas, esfrega a fuça no chão, de cá pra lá, de lá pra cá.

    Os vagalumes, estrelinhas – o Juca nem notara os vagalumes, custou. Foi notar – lembrou de casa. Ah, deixa a casa lá: a mãe está dormindo, o pai está dormindo – Vamos dormir também, Bito! Quentinho, que bom nós dois, a gente juntinho.

    A escuridão, que preto o mundo! Monstros? Assombração? Algum bicho – onça? cobra? O Juca fecha os olhos, aperta bem o Bito, peludão. Não tenho medo, não – um homem.

    Encolhe as perninhas, se aninha bem encostadinho no Bito – Não quero nunca ser um homem grande.

    As estrelinhas, esse pirilampo – sentar na ponta do meu nariz? Juca enterra o nariz nos pelos do Bito – Você é tão mansinho! Você sempre que vai ser o meu bezerrinho! E espera – o sono, o sono que logo, logo vem chegando.

  • A FUGA E A FESTA

    Pensa bem, Marcelo, você acha que vale a pena? Você pode se arrepender. Acabar com tudo assim, por uma bobagem. Você precisa concordar comigo que se trata de uma bobagem, poderia ter acontecido com qualquer um. Me dá a impressão de que está procurando uma desculpa. Você sente prazer em me ver implorando. Eu não me importo, eu me ajoelho se você quiser. É isso que você quer, Marcelo? Marcelo, olha pra mim, presta atenção, alguém como eu não se encontra em qualquer lugar. Lembra o dia em que a gente se conheceu? Você me pediu um cigarro, hein, você se lembra, Marcelo? Você tinha o que, uns vinte anos? Na época a gente ainda fazia coisas tolas como se envenenar aos poucos e ainda pagar por isso. Você ali sentado, no intervalo da aula de italiano… Você é tão italiano, essa pele branca, leitosa, macia, esses olhos amendoados, esse nariz grande. Não mudou nada, continua o mesmo tipo charmoso de sempre. Não precisa responder, isso, não fala nada, não estou te pressionando. Eu sei que você é bom, no íntimo você é bom. Só está meio perdido, não tá raciocinando direito. Uma pessoa com trinta anos ainda tem esse privilégio. Só que o tempo passa rápido… E o Bob, com quem vai ficar? Vocês são tão apegados. Ele não dorme enquanto você não chega. Ouve um barulhinho na porta, corre pra te receber. Não esquece que a casa é minha, e daqui você não leva ele de jeito nenhum. Pra falar a verdade, nem sei se você gosta dele tanto assim. Às vezes penso que você não tem a capacidade de amar ninguém. Nem o Bob nem a mim. Mas eu… Bob, cala a boca! A gente ainda tem tempo. Bob, merda! Cala a boca! Ainda podemos construir uma família de verdade. E aquelas visitas que a gente fez aos orfanatos? Alguns eram tão distantes, gastamos litros de gasolina. Nem o GPS conhecia aqueles lugares. Foi tudo inútil, perda de tempo? Diversão talvez? Passeio… Estávamos entediados, resolvemos pegar o carro e explorar locais desconhecidos. Foi isso, Marcelo? Aqueles dois irmãos gêmeos, não, não são gêmeos, mas são muito parecidos… Aqueles dois irmãos, nós gostamos tanto deles. O que eu digo pra eles? Chego lá e falo Pedro e João, ah sim, Antônio e Pedro, a família de vocês acabou, o Marcelo decidiu acabar com tudo. De repente, de uma hora pra outra. Puf! Sem explicação nem motivo. Não, Marcelo, aquelas crianças inocentes não merecem isso, você não pode fazer uma trapaça dessas com elas. E a Marlene? Ela já se acostumou com você, tem prazer em satisfazer seus caprichos. Os seus dois ovos de gema mole todo dia no café da manhã, a sua limonada suíça, o seu pudim de nata. A Marlene está na família há quarenta e cinco anos. Hoje posso afirmar: ela gosta mais de você, que ela conheceu outro dia, do que de mim. Acho que você não está preparado pra viver sozinho. Você não sabe se cuidar. As tarefas domésticas: lavar, passar, arrumar a casa, fazer comida… A não ser que… Marcelo, me diz, você já tem outra pessoa? Me fala a verdade, eu aguento, sou forte, mais forte do que você imagina. Não, não acredito nisso. Marlene, agora não, diz que não estou, hoje não tô pra ninguém, compreendeu? Nem pro Papa! Solta essa mala. Não vou deixar você sair. Marcelo, me escuta. Você vai se arrepender. Pensa na sua mãe. É, na sua mãe. Ela nos apoiou desde o início, a Iolanda me adora. A gente se entendeu logo de cara. Tivemos de enfrentar muitos obstáculos, mas sua mãe sempre esteve do nosso lado. Marceeeeelo, fecha essa porta. Marlene, me ajuda aqui, segura o Marcelo, pelo amor de Deus. Marlene, chama o Jair. Manda ele vir aqui. Que limpando piscina, mulher… É urgente! Manda o Jair furar os pneus do carro do Marcelo. Jair, não deixa o Marcelo ir embora! Marlene, o Marcelo tá fugindo… Socorro! Polícia… Alguém me acode! Ai, meu Deus!


    Três meses depois da partida de Marcelo, Renata já estava refeita. Seu aniversário seria dali a duas semanas, e os preparativos para a comemoração seguiam em ritmo veloz. Sim, ela fazia questão de festa. Afinal, não é todo dia que alguém completa 70 anos de idade.

  • Cuidado, Dotô!

    “É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar” (Geraldo Vandré)

    Seu dotô, me desculpe invadir assim seu sossego. Não se avexe com meu aspecto franzino e meu jeito simplório, dotô. Não vou assaltar, nem pedir esmola, só levar uma prosinha. O assunto é breve mas muito sério.

    Vejo pela sua roupa e sua aparência que o senhor foi abençoado pelo destino. As coisas com que o senhor gasta num mês eu não tenho condições de comprar em 10 anos ralando duro. Não duvido que sua grana foi ganha honestamente. Mesmo assim, desculpe falar, ela vem da exploração. Pois deveria por justiça estar nas mãos de um número bem maior de pessoas. Ao não fazer nada a respeito dessa má distribuição, o senhor é cúmplice de um crime.

    Não alegue que não é culpa sua, dotô. Todos que vivem nesse país absurdamente desigual e lavam as mãos têm sim culpa no cartório. Mas nos mais ricos a culpa é muito maior. Não se trata de pedir um gesto de misericórdia em benefício dos menos afortunados. Os privilegiados que nem o senhor, dotô, têm OBRIGAÇÃO de fazer algo para mudar esse quadro de crueldade. Mas o que vejo é o oposto. Quanto mais abastado o sujeito se torna, mais pisa nos debaixo. Levar uma vida de ostentação e desperdício não é só uma atitude indecente. É um tapa na cara daqueles que suam para botar umas migalhas na mesa da família.

    Não falo da esmola no farol, da gorjeta pro entregador de pizza ou dos trocados para a instituição de caridade. Isso só serve para aplacar a dor na consciência mas não bota a mão na ferida das injustiças.

    Na boa, dotô: tem gente que ganha muito mais do que seria razoável pra um país miserável como o nosso. É grana demais! Não são só os donos de negócios, não. São aqueles engravatados, bacanas que tiveram uma educação de elite e conseguiram empregos que pagam bem. Também entram nesse saco políticos, juízes e esse punhado de gente que trabalha para o governo ganhando salários escorchantes mais auxílio-isso, auxílio-aquilo. Não aceitam abrir mão de um bocadinho de suas mordomias, mesmo sabendo que essa pequena fração daria para melhorar a vida de muitas famílias. É cada um por si e o resto que se lasque.

    O cara suga todo o sumo que consegue do país que lhe deu condições de prosperar mas não dá uma gotinha em troca. E ainda se recusa a enxergar a escandalosa realidade em volta.  Vive com sua prole em segurança numa ilha da fantasia, um condomínio de luxo protegido por cerca eletrificada, separado por grossos muros do inferno do país real, sem lei, sem emprego, onde as pessoas amedrontadas caminham por vielas imundas e mal iluminadas, sujeitas à ação da bandidagem.

    O senhor vai dizer que o cara trampou pesado pra chegar lá, não roubou e por isso merece o status que tem. Roubou sim! Pode não ter sacado o revólver. Seu crime pode não estar escrito nos códigos dos bambambans. Mas todo cara que goza uma vida de nababo e não mexe uma palha para minorar o sofrimento dos coitados, é um ladrão sacana. Não adianta se esconder por trás da carapuça de ‘homem de bem’.

    E ainda por cima elege os governantes safados que prometem manter tudo como está. Os que podem melhorar as condições, são tachados de ‘comunistas’. Não somos comunistas, dotô. Só queremos que todos tenham um mínimo para que possam levar comida à mesa e deem educação pros guris. O que o senhor chama de comunismo, eu chamo de dignidade.

    Eu não entendo de política, esquerda, direita… Só sei que direita a coisa não tá. E se tiver um Deus lá em cima ele vai estar de acordo comigo. Um Deus justo não vai querer que nenhum filho seu venha ao mundo em situação de desespero.

    Não aceito esse papo que todos têm as mesmas oportunidades e que quem tem talento, sobe na vida. Mentira! Concordo que tem uns poucos pés rapados que se deram bem e mudaram de lado. Tipo Neymar e outros jogadores, artistas populares, ganhadores de mega-sena, pastores pilantras, traficantes, golpistas. Gente que faturou uma grana preta em pouco tempo e agora se acham. Esses são os piores, não têm um pingo de solidariedade com os brothers. Promovem festanças de luxo, exibem carrões e roupas de grife e sentem orgulho em espezinhar os desvalidos que já foram um dia.

    Mas os que conseguiram quebrar a barreira e subir na vida, seja por que método for, são exceção. Um em um milhão. Já os que nasceram em berço de ouro, vão para as melhores escolas, com boas condições de vida e têm muito maior chance de se dar bem sem precisar contar com a sorte.

    Que porcaria de país estamos construindo em que meia dúzia vive em padrão gringo, enquanto os ferrados rastejam catando lixo? Tá tudo errado, dotô.

    Mas nada se faz impunemente. A paciência está se esgotando. Vejo os sinais. Escuto um burburinho crescente de gente reclamando nas periferias. Artistas sensíveis retratam esse inconformismo. Líderes da comunidade passam por cima dos políticos demagogos encorajando o povão a exigir seus direitos e começam a ser ouvidos. Nas escolas, professores esclarecidos ajudam a formar uma geração que entende que as coisas não precisam ser assim.

     Até quando, dotô, vocês acham que poderão impor essa exploração a uma imensa massa excluída, até aqui amansada pelos pastores charlatães, pelas mentiras da internet e pela repressão policial?

    Quem avisa, amigo é. Fique ligado, dotô, que o bicho vai pegar. A brutalidade dos brucutus e dos milicianos que humilham os mais pobres está próxima ao limite e a reação vai vir na mesma proporção.  Não se engane com essa aparente tranquilidade, dotô. Pode ser a calmaria que precede o tsunami. Essa lenda de que o brasileiro é conformado, tudo aceita, está mudando. O ódio nas redes sociais é incorporado pelo pacato cidadão e vai detonar no colo dos canalhas que o disseminam. É a lei do retorno.  Essa situação insustentável de injustiça está tornando esse país um barril de pólvora, prestes a explodir. E aqueles que não quiseram ontem dar os anéis, talvez tenham amanhã que entregar os dedos.

    Por isso, tome muito cuidado, dotô. A conta virá e não será barata.

    Recomendações à patroa.

  • Entre páginas e anos

    Desde pequena, sempre gostei de escrever frases soltas, inspiradas ao olhar uma cena comum do cotidiano ou ideias que surgiam assim, sem aviso. Meus cadernos de escola não tinham páginas vazias. Eu fazia meus diários ou anotações onde houvesse um espacinho limpo.

    Ao final do ano, meu tesouro era guardado. Tudo preenchido com minha letra de menina tímida na vida real, mas confiante nos pensamentos, nas dúvidas e nas certezas com que eu olhava o mundo. O estudo misturado aos devaneios.

    Quando adulta, já trabalhando, ao final de cada ano, os clientes nos presenteavam com agendas, sempre bonitas, variadas. Um presente esperado por mim, não pelo objeto em si, mas pelo uso que eu dava a ele.

    Eu folheava aquelas páginas organizadas, cheias de categorias que nunca foram do meu universo. Condomínio, CNH, passaporte, consórcio. Bastavam-me três ou quatro linhas. O restante ficava em branco, à espera de uma utilidade que não me pertencia.

    E assim, aquelas agendas viravam diários. No ano seguinte, eu começava outra, nova, como o próprio tempo que se abria diante de mim.

    Anos depois, ao folhear uma agenda antiga, às vezes eu não me reconhecia. O tempo e a idade são implacáveis. Aqueles sentimentos, ideias e planos já não tinham o mesmo peso. A vida é dinâmica, ainda mais aos vinte e poucos anos.

    Hoje, faço dessas lembranças um exercício de fim de ano, quase uma autoanálise. Escrevo contos, reminiscências, crônicas, muitas delas saudosistas. Liberei um lado meu que esteve por muito tempo guardado e passei a escrever também sobre o amor, sobre o desejo. E assim vou seguindo.

    Acredito que escrever é uma necessidade que nasce no coração. A mente apenas traduz. E então, escrevemos.

    Depois, lemos. Refletimos. Às vezes nos reconhecemos, às vezes não. Mas, naquele instante, aquilo foi verdadeiro.

    Se um texto desses se transforma em conto, em crônica, se desenha um sorriso ou arranca um suspiro de quem lê, então já cumpriu seu destino.

    E se um dia termina numa fogueira, como eu fazia, ou no descarte silencioso de papéis antigos, é porque cumpriu o seu papel.

    Literalmente.  

    🌷
  • A cartomante do fim da rua

    1.

    A casa do fim da rua ficou vazia por anos. Sete, para informar com precisão. Dizia-se pela vizinhança que algo terrível havia ocorrido no local. As teorias eram muitas, mas ninguém nunca soube de fato o que aconteceu lá dentro. Um dia, uma caminhonete estacionou na frente do imóvel e começou a descarregar a mudança: um fogão, uma geladeira, uma cama, uma mesa, algumas cadeiras, um abajur, um ventilador, duas poltronas e uma ou outra tralha a mais. Exatamente uma semana após a chegada, a nova proprietária fincou no jardim uma placa que dizia: SULAMITA CARTOMANTE.

    2.

    Um mês depois desse dia, Laura resolveu tocar a campainha. Nem marcou consulta, mas queria muito ser atendida. Eu não liguei, resolvi arriscar, tô muito necessitada dona Sulamita, a senhora tem uma horinha pra me atender, se não tiver eu volto outro dia, moro logo ali embaixo… E ia emendando uma frase na outra, às vezes atropelando o pensamento, outras vezes nem se fazendo entender. Entra, minha filha, tô sentindo que você tá mesmo precisada.

    3.

    Dentro da casa, Laura continuava a falar, problema é que não faltava. Contou, explicou, perguntou, até que dona Sulamita disse: Chega! Já entendi. Parte o baralho. Tira uma carta, tira outra carta. Mais uma. Só mais uma. Ia dando as ordens, igual à cartomante de um filme que Laura tinha visto uma vez na televisão. Amor. Sulamita olhava as cartas e dizia lá o que achava. E acertava. Tudo. Detalhes. Trabalho. O processo se repetia: no alvo mais uma vez. Saúde. Nesse ponto é que Laura ficou impressionada. Não é que a mulher havia descoberto até sobre a cirurgia de vesícula feita no ano passado… Eta cartomante boa, pensou.

    4.

    Foi aí que Laura tomou coragem e pediu: Agora dona Sulamita, eu preciso saber de uma coisa muito importante. Vim aqui mais por causa disso, a senhora compreende? A senhora precisa me ajudar, não sei mais a quem recorrer. E falava, falava… de um modo que irritava até mesmo dona Sulamita, pessoa mais do que preparada para lidar com o desespero alheio. Minha filha, se acalma. O negócio agora é sério. Mas tem jeito, fica tranquila. Tá vendo aquela porta ali? Então, eu quero que você entre lá. Depois, você tem de sentar numa cadeira que fica em frente a um quadro. Não tem erro, é o único quadro do quarto. Olha pra obra e pensa no seu problema que sua mente vai clarear. Depois volta aqui, e a gente completa o serviço com as cartas, entendeu?

    5.

    Acomodado num sofazinho rasgado, um gato preto e branco nem se incomodou quando Laura entrou e se sentou na tal cadeira. Ela achou o quadro meio esquisito, não conseguia identificar nada na pintura. Eram uns rabiscos, umas cores que não combinavam. Parecia que o pintor tinha jogado as tintas ali de qualquer jeito, sem muito critério. Ficou mesmo decepcionada, pois, do modo como dona Sulamita havia falado, pensou que a obra fosse alguma coisa normal, sei lá, o desenho de uma paisagem, de um bicho, de alguma pessoa.

    6.

    Laura não sabe ao certo quanto tempo se passou. Por um momento, a impressão é que haviam transcorrido meses ou mesmo anos. Ficou ali olhando o quadro e acabou dormindo. Talvez tenha entrado em transe. Quando acordou, decidiu sair do quarto e procurar dona Sulamita. Buscou pela casa inteira, nem sinal da mulher. Até o gato preto e branco não estava mais lá. Dirigiu-se então ao jardim e ouviu uma senhora de lábios grossos e voz fina perguntar diante do portão: Dona Sulamita? Preciso muito me consultar, ouvi falar tão bem da senhora… Laura não teve tempo de pensar direito. De modo automático, respondeu apenas: Sim, sou eu. E continuou após alguns instantes: Pode entrar, tô sentindo que você tá mesmo precisada. Mas tenha calma, querida, o negócio é sério, mas tem jeito.

  • Mundos Paralelos

    As pessoas se levantam cedo, tomam seu café e vão trabalhar.

    Trabalhos variados, perto de onde moram ou longe talvez; trabalhos fáceis, difíceis e até penosos.

    Existe um ditado muito popular que diz: “O trabalho dignifica o homem.”

    Não sei ao certo quem primeiro disse isso. A frase atravessou o tempo, ganhou força, repetição e certo prestígio moral. Embora, em alguns momentos, também pareça servir para romantizar excessos e medir a dignidade humana apenas pela produtividade.

    Mas não é exatamente sobre esse trabalhador que penso agora. Nem sobre o trabalho honesto que sustenta famílias, constrói empresas, alimenta sonhos e atravessa gerações.

    Penso nos trabalhadores do mal.

    Os que aplicam golpes, criam perfis falsos de vendas, driblam mecanismos sofisticados de bancos e enganam pessoas.

    Eles também acordam cedo, tomam café e vão para os seus trabalhos.

    Como são essas pessoas que se afastam da verdade, se dispersam nas próprias paixões e, com impressionante naturalidade, executam diariamente os seus ofícios?

    Elas são aparentemente comuns.
    Dessas pessoas que passam por nós na padaria, reclamam do calor, aguardam atendimento em consultórios e perguntam o preço do tomate na feira. Talvez conversem sobre futebol, tenham dores na coluna, paguem boletos atrasados e levem os filhos à escola antes de começar o expediente.

    O expediente.

    Essa talvez seja a parte que mais me inquieta.
    Porque o mal, quando imaginado, costuma surgir grandioso, quase teatral. Entretanto, a vida real parece preferir os gestos pequenos, repetidos e discretos. Há pessoas que organizam cuidadosamente o próprio dia para enganar desconhecidos. Criam métodos, estudam abordagens, aperfeiçoam narrativas. Aprendem a falar com delicadeza, a parecer confiáveis, a reconhecer solidão, ingenuidade, carência ou desespero do outro lado da tela.

    Existe quase um profissionalismo nisso.

    E essa constatação produz um desconforto difícil de explicar.
    Não falo aqui do criminoso impulsivo, do rompante de raiva ou do erro desesperado. Penso nos que transformam o engano em rotina. Nos que acordam já sabendo exatamente quantas pessoas tentarão lesar naquele dia, como quem estabelece metas silenciosas para si mesmo.

    Será que sentem culpa?

    Ou será que a consciência humana possui uma espantosa capacidade de adaptação?
    Talvez ninguém acorde, de repente, completamente deformado. Imagino que exista um caminho lento. Pequenas concessões interiores. Uma mentira tolerada hoje, uma vantagem injusta amanhã, até que a própria consciência passe a funcionar de maneira diferente, como um relógio que continua marcando as horas, embora já esteja desregulado.

    E então o absurdo se normaliza.

    O sujeito toma café, responde mensagens, organiza contatos, liga o computador e vai trabalhar.

    Trabalhar no erro.

    Curioso como até o mal exige disciplina. Alguns desses homens talvez sejam pontuais, organizados e persistentes. Talvez façam pausas para almoço, conversem sobre assuntos banais e encerrem o expediente cansados, com a sensação íntima de “mais um dia cumprido”.

    Isso me causa um espanto silencioso.
    Porque, no fundo, não é difícil compreender grandes monstros históricos. O horror explícito se apresenta sozinho. Difícil mesmo é compreender o homem comum que aprendeu a conviver pacificamente com a própria fraude.

    Talvez o mais assustador nos trabalhadores do mal seja justamente isso: eles não parecem habitar um mundo separado do nosso. O que nos separa é a verdade deformada em que eles vivem.

    No mesmo mundo.

    🌷
  • CARAS E COROAS

    “Esse cara sou eu” (Roberto Carlos)

    Esse texto vai para aqueles que, como eu, já foram caras e, sem aviso prévio, foram remanejados para a turma dos coroas. Devo ter faltado à assembleia deliberativa que cravou essa arbitrária realocação, à revelia dos afetados.

    Acho que criaram as regras desse jogo para me infligir essa fatalidade metafísica em que o resultado do arremesso da moeda do destino estabelece ‘cara’ para a fase ascendente da existência e ‘coroa’ para seu ocaso.

    Apesar disso, tento me conservar em formol no modo ‘cara’, contrariando a certidão, a lombar e o espelho. Sou um cara duro na queda. Se me chamam de vovô, mando um: “vovô é o cacete, seu fedelho!”

    Não nego certa dificuldade em encarar os caras de hoje, aqueles que são caras de fato, com as características pertinentes. Ser cara no mundo de hoje é bem diferente de ser cara quando eu era cara. Vivem tais seres numa rotação diferente da época em que não havia celular nem internet nem pix nem Netflix. Mas tinha Asterix e Obelix.

    Mas, caramba, não sou saudosista. Ser cara é um estado de espírito e diante das objeções dou um reset e me coloco na parte legal de ser cara: disposição de mudar, fome em aprender, esperança, curiosidade, inconformismo, rebeldia.

    Às vezes me sinto pregando no deserto. Um velho lobo, desgarrado da matilha, cujo uivo rouco ainda ecoa por aí. E incomoda os rebanhos de ovelhas.

    O que me deprime é ver a transformação dos meus companheiros de estrada. Caras que nasceram na mesma época que eu, atravessaram os mesmos anos, encararam as mesmas revoluções, rebeliões, repressões. Fomos cúmplices nesses momentos de resistência. Para, no fim das contas, chegar à conclusão, com cara de tacho, de que, como dizia o Belchior, continuamos vivendo “como nossos pais”. O fato é que muitos caras – pessoas que nos foram caras – por divergências políticas, nos viraram a cara. Que tristeza, cara! Babacas que glorificam as chineladas enquadradoras de que foram vítimas. Descarados.

    Tornaram-se eminentes gagás. Não pelo detalhe da pele franzida, mas pelas rugas de desumanidade que se calcificaram por dentro, imunes a aplicações de botox. As mesmas que nos acomodaram na poltrona da resignação, assistindo a vida escoar pela TV. Lendo Caras.

    Pior são os caras que, na maior cara dura, deixaram-se virar caretas. Gente com corpo jovial que a vida desafia a transgredir, com cabeça de matusalém, exaltando o conformismo e barrando avanços civilizatórios. São aqueles boyzinhos sarados e tatuados, cheios de pose que, na flor da idade, enaltecem patriotismo, militarismo, machismo, racismo. Têm ideias e preconceitos mais arraigados do que os de seus avós. São caras de duas caras. E, desculpe, nenhum caráter.

    Para quando dermos de cara com o dia final, estirados e cercados por coroas a coroar falsamente nossa impoluta figura – com direito a coroa de flores e tudo – chegarmos à constatação de não haverá mágica – por mais cara que seja – capaz de nos fazer voltar a ser caras de novo.

  • A GAIVOTA

    Noite após noite, eu acordava com o grito da gaivota, lancinante, como se viesse de um abismo de loucura. Eu me debruçava no alto do farol, e via lá embaixo, estatelada numa pedra enorme, batida pelos vagalhões, a gaivota. A pedra brilhava banhada pelo sangue da gaivota.

    Eu não podia dormir com o terror que o grito e a imagem da gaivota infundiam. De manhã lavava e lavava a pedra, com uma esponja de aço, que me comia os dedos, fazia de tudo para limpar o sangue seco, incrustado entre as ranhuras negras. E nada da gaivota. Somente o sangue, ressecado, velho, incrustrado na pedra.

    Na próxima noite, novamente o grito. E era como se o sangue jorrasse do meu peito.

    Tantos dias e noites de solidão, sem nenhuma companhia a não ser o mar, e as gaivotas mortas – num baque surdo, com um grito sangrento, e longínquo, como se viesse do fundo do poço da loucura, ali na minha porta.

    Por fim, decidi pôr em pratos limpos a minha sanidade. Uma noite, rolei escada abaixo, me batendo, urrando desvairado, como um animal acuado. Queria ver a gaivota, que eu nunca encontrava, que eu via e escutava só do alto, e me enlouquecera.

    Mas o que eu encontrei foi uma mulher, banhada de sangue, sobre a pedra. Foi ela quem me chamou: “Me sepulta, maldito!” Eu fiquei paralisado de medo, de terror. Quando consegui me mover, sepultei a mulher como pude. Desde esse dia, a gaivota desapareceu.

  • Sertanejo Universitário

    “Ô saudade que eu tava da vida de cachorrada, da vida de putaria” — (Gusttavo Lima)

    Quando ouvi pela primeira falar em ‘sertanejo universitário’, a ideia que me passou pela cabeça é que se tratava de uma versão mais elaborada do sertanejo ‘mainstream’ que dominava o mercado, também conhecido como ‘sertanejo romântico’, de duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano. O adjetivo ‘universitário’ sugeria, um refinamento estético, algo que teve precedentes com outros estilos musicais populares – como o antigo ‘brega’ e a ‘jovem guarda’ – que, ao dialogarem com públicos mais exigentes e escolarizados, sofreram releituras. Exemplos: Caetano interpretando Peninha e Adriana Calcanhotto reinventando Leno & Lílian.

    Fiz uma associação (que se mostrou indevida) com o chamado “forró universitário” dos anos 90, uma derivação do forró ‘pé de serra’ de nomes lendários como os de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, conferindo ao ritmo um toque mais pop e urbano, porém sem causar uma ruptura em sua base rítmica, centrada no trio sanfona/zabumba/triângulo e sem romper com seu contexto simbólico, ligado ao cotidiano nordestino.

    Para entender melhor esse processo, é preciso recuar um pouco. O sertanejo original (rebatizado de ‘sertanejo raiz’) estava ligado à figura do homem simples do interior (estigmatizado na figura do Jeca Tatu) e à sonoridade da viola caipira. Duplas como Cascatinha & Inhana, Tião Carreiro & Pardinho e Pena Branca & Xavantinho são frutos dessa linhagem que manteve os traços da cultura pura do campo.

    A partir dos anos 80/90, o gênero passou por uma transmutação significativa, incorporando a guitarra elétrica, sofrendo influência do pop internacional e adotando padrões inspirados no country norte-americano como o uso de chapéu e figurino de cowboy A ênfase a temas românticos, propiciou-lhe grande sucesso de vendas. Canções como “É o Amor” (Zezé & Luciano) e “Evidências” (Ch & X) marcaram essa fase.

    Foi nos anos 2000 que desponta o tal sertanejo universitário que, diferentemente do forró universitário, renegou a essência do ritmo que lhe deu à luz. Nada tem a ver com o estereótipo do homem do interior, sua religiosidade, seus valores simplórios, sua aparência humilde. Em seu lugar, surge o machão individualista, endinheirado, trajado com roupas de grife, jaquetas de couro e penteados estilosos. Visava atingir um público mais ‘descolado’, conectado em novos padrões de comportamento. Para tanto, lançou mão de teclados, sintetizadores e estruturas rítmicas mais dançáveis para seduzir frequentadores de baladas.

    O termo ‘universitário’ revela-se ambíguo. Ao contrário do que poderia sugerir, não indica um salto de sofisticação estética, apenas uma estratégia de marketing, um rótulo para fascinar um público mais jovem, urbano e ambicioso em ascender socialmente, inclusive através de formação acadêmica. A explosão do número de faculdades, sobretudo privadas, gerou uma enxurrada de formandos, orientados mais pela lógica de mercado do que pelo rigor acadêmico. Essa mudança de perfil ocasionou um reducionismo de repertório e um menor senso crítico. Esse crescente contingente ‘universitário’ foi capturado pelos neosertanejos que lhes ofereciam produtos de fácil assimilação, compatíveis com suas demandas.

    Os representantes do estilo gostam de embalar sua trajetória exitosa na retórica da meritocracia, atribuindo a ‘bênção’ do sucesso a seu pretenso talento. Com isso, constroem a imagem de quem ‘venceu na vida’, desfilando envaidecidos nos palcos como nova elite econômica do entretenimento. Amparados por uma presença digital massiva, convertem a popularidade em negócio, diversificando as receitas com marcas próprias e publicidade, incluindo apostas esportivas (bets), sem contar os cachês milionários.

    Em termos artísticos, o sertanejo universitário, apesar do título pretensioso, deu um passo atrás em relação ao sertanejo romântico. As melodias tornaram-se ainda mais previsíveis e sem inspiração, as letras frívolas tratam de relações afetivas descartáveis, exaltação à farra e à bebedeira, reservando à mulher o papel de objeto sexual.

    Apesar de exibir invejáveis números no streaming, o subgênero não adquiriu relevância. Os críticos torcem o nariz para ele. São canções banais, sem criatividade, com prazo curto de validade, que não permanecem na memória afetiva. Para aqueles que concebem música como manifestação artística, o sertanejo universitário representa uma completa decepção para um país que possui diversidade rítmica e riqueza melódica que se tornou referência internacional.

    Sua expansão, ao contrário do que se imagina, não brotou espontaneamente do gosto popular, mas de uma portentosa engrenagem de impulsionamento financiada pelo agronegócio que ganhou peso com a crescente importância dessa atividade da economia do país. Isso explica a hegemonia do ritmo na programação das emissoras de rádio, sobretudo do interior. Shows, feiras agropecuárias e rodeios bancados por pequenas prefeituras, controladas por políticos vinculados ao agro, ajudaram a bombar o gênero.

    A forte ligação com o agro traduz-se na esfera política a alinhamento a valores conservadores. Diferentemente de outros segmentos artísticos, parte expressiva do sertanejo está fortemente vinculada ao bolsonarismo, não raro manifestado em suas preferências políticas. Embora acusem astros como Anitta, Pabllo Vittar, Caetano e Gil por pretensamente usarem recursos da Lei Rouanet, levantamentos demonstram que os 10 maiores beneficiários de recursos públicos provêm todos do mundo sertanejo, liderados por Gusttavo Lima, e Bruno & Marrone.

    Dominante no cenário nacional, o gênero encontra resistências como em capitais do Norte/Nordeste como Recife e Belém, onde prevalecem ritmos regionais, e sobretudo no Rio de Janeiro, território livre do sertanejo, onde o ritmo ocupa um modesto 6º lugar na escala de preferência, atrás de MPB, samba/pagode, gospel, rock e funk. Também no exterior, mesmo em países vizinhos, o estilo não pegou. Os gringos que se renderam à bossa nova e ao samba, não se deixaram encantar pelo lenga-lenga sertanejo e sua parafernália tecnológica.

    É comum também a comparação com o funk carioca. Ambos são populares, comerciais e criticados pelo teor sexual presente em suas letras. Mas há diferenças marcantes. O sertanejo, por trás de uma postura aparentemente pudica, promove condutas amorais e obscenas, enquanto o funk é premeditadamente chulo e insolente, refletindo o comportamento transgressor das periferias, ambiente de desigualdade e exclusão, tornando-se forma de expressão e pertencimento nesses territórios. Ademais, o funk não tem o suporte financeiro institucional de que dispõe o sertanejo. Sua ascensão nas plataformas de streaming incomoda o sertanejo que usa diversos expedientes para barrá-lo e desacreditá-lo. Apesar de o funk se sobressair nos rankings digitais, foi bloqueado nas emissoras de rádio por pressões econômicas (jabás). Os sertanejos ficaram mordidos com o crescimento do funk, com seu apelo sensorial que conquistou boa parte da juventude pela batida e pela dança.

    No fim das contas, o ‘universitário’ do sertanejo diz menos sobre universidade e mais sobre mercado. Representa, na prática, um flagrante empobrecimento artístico, levando os críticos, preocupados com a pauperização musical, a se perguntarem até onde vai o fundo do poço. 🗞️

  • Metamorfose

    A lagarta vira borboleta.
          Mas a borboleta não volta a                  ser lagarta. 

    Existem as boas mudanças e aquelas diante das quais exclamamos: eu achei que não podia piorar!

    Quando mais jovem ouvi a expressão:

    A mudança é a única constante da vida.

    Adquirimos novos gostos, costumes, amores, desafetos, casas, amigos, opiniões e o que mais quisermos, ao longo da nossa vida.

    Sem perceber… mudamos.

    É bom?

    Depende do ponto de vista.

    Os pais acham ótimo ver os filhos tendo alterações tanto físicas quanto intelectuais.

    Os filhos nem sempre simpatizam com a mudança dos pais. Percebem quando se tornam mais exigentes, mais críticos, e até mais audaciosos no modo de viver.

    Com o tempo, passamos a notar melhor esse movimento, às vezes discreto, às vezes inevitável.

    Embora não haja um instante exato em que algo se desloca.

    Mesmo quando se diz ser apenas um ajuste às novas realidades.

    Essas chegam sem alardes, e se estabelecem.

    A pouca conversa dos jovens, o entrar e sair dos cômodos com os olhos presos ao celular, o “oi” dito por hábito. O que vivemos hoje é resultado de mudanças, pelo menos sob o olhar dos mais velhos. Para os jovens, nada está fora de lugar. Eles não mudaram.

    O mundo agora é outro.

    O tempo daquela adolescência barulhenta, risadas que animavam a casa inteira, a expectativa com os bailes, piqueniques, sessões de cinema, não existem mais. Em algum momento, se transformou. Sem alardes, nem anúncios. Apenas deixou de ser.

    Mudou.

    Para os jovens pais e seus filhos adolescentes, assistir a filmes sozinhos, conversar em grupos invisíveis, acompanhar vidas que cabem na palma da mão é muito natural. Saber o que veste e come determinado artista, ou alguém da mídia, pessoas que não fazem e nem farão parte das suas rotinas, das suas risadas, dos seus sonhos.

    Não é mudança, é o normal. E não incomoda. Não se sente saudade do que não existiu.

    Cada tempo entrega o que tem. Aos poucos, as pessoas vivem de outras formas, dançam outros ritmos, vivem novas distâncias.

    Nada se perde por completo. Mas também não permanece igual.

    E talvez seja isso o mais surpreendente: não é a vida que muda diante de nós, é o nosso olhar que se transforma dentro dela.

    Somos nós que mudamos, vamos nos tornando outros, enquanto ela segue.

    🌷
  • A aventura

    Com um sentimento de alívio pelo dever cumprido, Tarcísio depositou a última caixa na carroceria. O esforço solitário doía nos braços. Abriu a porta do lado do motorista, sentou-se ao volante e girou a chave. Passou os olhos pela lista de compras que segurava:

    — Na volta, você para lá no mercadinho do seu Vicente e me traz isso aqui. Vou fazer aquela carne assada recheada que você adora. A Rosa e o Jesuíno estão vindo almoçar amanhã e vão trazer o álbum de retratos do neto, o filho da Dorinha que nasceu no ano passado — informou Marlene, com seu jeito despachado, típico de quem sabe delegar funções.

    Distraído com a lembrança da captura dos porcos (como o menorzinho dera trabalho) e com o ronco do motor, Tarcísio esperou alguns instantes até dar a partida. Dali a pouco a caminhonete já deslizava cambaleante pela estradinha de terra batida que o levaria até o município vizinho. A viagem não seria tão longa, coisa de três quartos de hora, se tanto. Tarcísio e o veículo conheciam bem o trajeto, e isso facilitava as coisas. O rádio tocando forró ajudaria a encurtar o percurso. Quinze minutos após a saída, Tarcísio meteu a mão no bolso da camisa e não achou nada além da lista de compras preparada pela mulher. Estava sem cigarros. Por sorte, a birosca do velho Jerônimo ficava perto. Compraria os cigarros e ainda tomaria um copo de água gelada. Na porta do estabelecimento, encontrou Cícero, Chico, Zezito e Miguelzinho, os netos do proprietário, jogando bola de gude. Assim que viram Tarcísio, os garotos deixaram de lado a brincadeira e correram em sua direção, envolvendo-o numa roda barulhenta e agitada. Já dentro do bar, o homem acomodou-se próximo do antigo aparelho de TV, que exibia um sonolento programa de entrevistas. A imagem, cheia de fantasmas, vez por outra sumia por completo, tornando difícil o entendimento de grande parte da conversa. Ficou alguns minutos assistindo ao debate sem prestar muita atenção ao mesmo tempo que proseava amenidades com o velho Jerônimo. Retomado o caminho, percebeu que, daquele ponto em diante, as condições da estrada exigiriam velocidade reduzida. As chuvas da semana anterior haviam piorado a precária situação da via, e, em alguns trechos, o barro quase fazia a caminhonete atolar. Sem que Tarcísio tivesse se dado conta, Cícero e Zezito tinham se aboletado na carroceria enquanto Chico e Miguelzinho, a pé, tentavam alcançar os outros dois. Quando a velocidade diminuía, parecia que iam conseguir subir também. Então, mais uma vez, para decepção dos meninos, o veículo tomava impulso e os deixava para trás. Num trecho especialmente pantanoso, Chico cansou. De pé, estático, ficou olhando os primos seguirem adiante. Extenuado, abandonou o corpo e, num misto de lamento e decepção, caiu de joelhos, antes de se largar no solo, respiração ofegante, braços abertos em forma de cruz, corpo tingido de lama misturada com suor. Miguelzinho, por sua vez, seguiu em frente e, alguns metros depois, auxiliado por Cícero e Zezito, acabou subindo na carroceria também. Ao lado das caixas com os porcos, deitaram- se os três de barriga para cima olhando o céu. O sol do início da tarde iluminava-lhes o rosto. Os animais, a cada solavanco mais forte da caminhonete, guinchavam agitados, desejando sair do confinamento. Pouco tempo depois, a viagem se encerraria. Na fazenda do compadre Matias, Tarcísio se preparava para descarregar a encomenda quando notou a presença das crianças. Ameaçou dar uma bronca nos guris, mas, antes de abrir a boca, desistiu. Os quatro, então, puseram-se a descarregar as caixas. O último porco a ser libertado começou a se debater tão logo deixou o cativeiro. Furioso, correu atrás de Zezito com a intenção de atacá-lo. Antes que pudesse alcançar o meleque, o bicho foi atingido por dois tiros de espingarda disparados pelo compadre Matias. Morreu na mesma hora.

  • Detesto o meu novo amigo!

    Ele sempre me corrige, acha que sabe mais do que eu, e pior, quer empurrar a ideia dele, na força das argumentações.

    Sim, pois nisso ele é bom! Me põe como sonsa, fútil e até ignorante.

    Destila o seu suposto saber, com exemplos, ideias atravessadas, tudo em nome de me ajudar!

    Não o abandonei ainda, porque às vezes, ele me atende em dúvidas pontuais, concretas.

    Nesse contexto, quando eu o oriento, ele é um bom parceiro.

    Outra coisa que me deixa aborrecida é a crítica contumaz de achar que conto as coisas de forma coloquial, e assim não sou elegante.

    E quem disse que eu quero ser elegante! Se quisesse eu seria uma modista e não uma escritora. Ou contadora de histórias como eu gosto de me definir.

    Outro dos seus defeitos é ser volúvel. Vai com quem o chamar. E nem tem como esconder, porque deixa rastros.

    Nas expressões, cortes, ou espaços, ao expor o ponto de vista de pessoas a quem eu admiro, de pronto eu o identifico. E isso tira toda a graça ou surpresa do inusitado.

    E o vocabulário do meu amigo, agora quase inimigo: palavras usadas milhões de vezes e agora elevadas a categorias literárias, como se fossem o baluarte dos acadêmicos: presença/ potência/excerto/recorte…entre muitas outras.

    Isso sem falar nos espaços vazios entre uma frase e outra. Nunca conversei assim, não será agora que vou falar como um robô. Êle que me perdoe.

    Pois então…

    Vou ignorá-lo, deixá-lo na geladeira.

    Mesmo que ele se mostre indispensável, e tenha aquele fluxo de idéias esnobe e contínuo, neste momento eu declaro: não renovo o seu contrato, pode procurar a sua turma.

    Por enquanto.

    Se eu precisar sei exatamente onde encontrá-lo.

    🌷
  • É difício

    “Da força da grana que ergue e destrói coisas belas” (Caetano Veloso, Sampa)

    Quem tem, como eu, a desventura de residir em São Paulo, já se deu conta, angustiado, da incontrolável proliferação de novos prédios que vêm pipocando pela metrópole, em especial nos bairros mais valorizados (e cobiçados). São torres que abrigam escritórios e apartamentos para todos os tamanhos e gostos que brotam como ervas daninhas por todos os cantos, à revelia de qualquer projeto de ordenação urbana. Atendem menos às carências da cidade do que à voracidade da especulação imobiliária e dos interesses imediatistas das incorporadoras, sem que o poder público imponha restrições com base nos impactos sobre a malha viária e a já combalida infraestrutura (saneamento, abastecimento de água, energia elétrica, transporte, etc.).

    Nessa toada, diariamente, somos abordados nas ruas por vendedores bem trajados que tentam nos passar a lábia para investir nossas parcas economias em empreendimentos imobiliários que sequer saíram do papel. Prometem-nos um novo conceito de habitação para nossos filhos e bichinhos, um futuro dourado com sustentabilidade, proximidade à natureza, mobilidade e bem estar, o mesmo que seu projeto está no caminho de inviabilizar. Tentam nos convencer a nos encaixotar em estúdios de luxo cercados por muros e dispositivos de segurança que nos abriguem do assédio de assaltantes e pedintes sem-teto, marginalizados pelo mesmo processo que este modelo de habitação ajuda a perpetuar.

    São milhares de edifícios em construção, que nos dão a sensação de que vivemos sob um eterno e inacabado canteiro de obras e nos infernizam dia e noite com ruídos incessantes de guindastes, bate-estacas, britadeiras e caminhões.

    Cada edifício que se ergue em uma zona excessivamente adensada promete despejar pelas vias estreitas do entorno dezenas (talvez centenas) de novos veículos motorizados que já não se locomovem, apenas existem, fazendo do hábito de transitar um exercício de paciência e resignação.

    Esse desvairado furor construtivo abarrota os cofres das incorporadoras e abastece as propinas de agentes públicos omissos. O único propósito que não cumpre é o de atender à necessidade de moradias, voltado que está a nichos específicos e lucrativos, distantes das reais necessidades da maioria da população que continua habitando casebres insalubres, ocupando margens de represas e engordando favelas.

    Segue a cartilha do neoliberalismo extremo que obedece exclusivamente aos ditames do mercado, enriquece uns poucos empresários e investidores, empobrece a população e a urbe em sua vocação de núcleo de integração das atividades de moradia, trabalho e lazer dos cidadãos.

    A capital paulista, um dos maiores polos econômicos e culturais da América Latina, não teve seu crescimento acompanhado por gestões compatíveis com sua pujança. Seus habitantes, apesar de afetados por essas mazelas, não elegeram governantes capazes de lhes proporcionar benefícios duradouros, já que prezam apenas iniciativas com prazo de validade inferior a seu mandato de quatro anos.

    Esse processo perverso originou-se com o prefeito Faria Lima, que conferiu prioridade a grandes obras viárias que, além de consumirem grande parte do orçamento municipal, possibilitaram malversação das verbas. Isso ocorreu durante a gestão Maluf que torrou os escassos recursos drenados da arrecadação de impostos em túneis e viadutos, incluindo o monstrengo Minhocão, um monumento ao mau gosto que ajudou a degradar o centro da cidade e tornou-se um elefante branco encravado entre tradicionais e históricas vias existentes, hoje sucateadas. Essas obras faraônicas de necessidade questionável ajudaram também a legitimar a cultura do ‘rouba mas faz’ encampada pelos eleitores que não se importam em ver parte do dinheiro público apropriado por políticos desonestos, desde que sejam realizadas obras de visibilidade.

    O resultado dessas escolhas equivocadas está no que a cidade hoje se transformou: excesso de concreto, escassez de áreas verdes, parques e espaços de socialização e convivência. Consagrou-se a prevalência da cultura do automóvel poluidor e consumidor de combustível fóssil. Ficaram relegados a segundo plano calçadas, pedestres, ciclistas e transporte coletivo. Isso tornou a metrópole paulistana que já não prima pela beleza, ainda mais hostil para seus moradores.

    A desgraça da vez é a excessiva permissividade atual para o erguimento de prédios, sem qualquer controle. Nosso atual prefeito e seu desvirtuado Plano Diretor foram em grande parte responsáveis por permitir essa verticalização desenfreada. Mas, verdade seja dita, contou com a preciosa colaboração de uma das piores câmaras municipais da história, composta em sua maioria por vereadores mais preocupados com pautas de costumes ou ideológicas do que com o planejamento urbano, dando as costas para a melhoria de vida da população que deveriam representar.

    Nossa tão maltratada Sampa, já vitimada por infortúnios como violência, assaltos, barulho, falta de escolas, postos de saúde e, paradoxalmente, falta de habitação, vai assim aos poucos se degradando, com a perspectiva de tornar-se inabitável em algumas décadas. O erguimento desordenado de edifícios é o mais novo ingrediente para compor esse cenário distópico.

    E pensar que os imponentes edifícios já foram um símbolo de progresso que tanto nos orgulhava…

  • Uma imagem ou mil palavras?

    Sou de uma época em que se acreditava que uma imagem era a mais perfeita expressão da realidade. Aquilo, cuja existência era testemunhada por esses olhos que a terra há de comer, estava lá de verdade. A tarefa de descrever retoricamente tal imagem era uma vã tentativa de convertê-la, através de símbolos (denominados palavras) em algo compreensível, para os que não a presenciavam. Por mais habilidoso que fosse o narrador no manejo dos vocábulos, jamais alcançaria o grau de fidelidade proporcionado pela imagem propriamente dita. No máximo, poderia revestir o discurso com ornamentos poéticos, conferindo-lhe uma versão mais formosa. Seria como esmiuçar com a fala (ou o braile) a plenitude da cena a alguém privado da visão. Porém, era consenso de que nada contribui melhor para a compreensão de algo do que a experiência direta proporcionada pela imagem. Não por acaso, dizia-se que “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

    Com o advento da Inteligência Artificial, essa relação entre sujeito observador e objeto observado que parecia ser inquestionável, desfez-se como um castelo de cartas. Pelo menos no que diz respeito àquilo cuja visualização é mediada por telas – computador, celular, televisão, cinema etc. Os milhões de pixels perfilados eletronicamente talvez possibilitem uma resolução impressionante de seus contornos, mas não garantem que o objeto que se nos apresenta naquele espaço luminoso, plano e retangular seja de fato o que julgamos enxergar.

    Uma maçã, recém-caída do pé, que se oferece ao vivo e em cores ao tato, ao olfato, ao gosto e ao olhar, em toda sua exuberância rubra, quando capturada pela lente de celulares – mesmo os de última geração -, perde sua essência original, reduzindo-se a um simulacro de maçã, não mais uma fruta em si, mas uma versão espúria, ‘virtual’ que, a rigor, não poderia ser classificada como fruto pomáceo, mas uma reles representação alegórica do espécime vegetal. Vale ela menos que uma maçã podre ou mesmo que um suco Del Valle de maçã.

    O avanço dos recursos computacionais permitiu que fossem geradas imagens com um grau de nitidez e realismo capaz de desafiar o discernimento humano. O espetáculo que assistimos deslumbrados através do display nos impressiona pela sofisticação técnica e estética, porém não inspira a mesma confiança. Falta-lhe a essência, a ‘alma’. É como se fosse uma quimera sedutora, etérea, provinda do inconsciente.  A verdade evaporou-se, deixando em seu rastro os vestígios da incerteza, fragmentados no monitor. O objeto de uma imagem visto através de um celular equivale a um Monet estampado numa camiseta de poliéster.

    A Inteligência Artificial proporciona uma profusão de visões que vão de cachorros que cozinham como chefs a mandalas animadas com efeitos lisérgicos. De cidades engolfadas por tsunamis devastadores a pinturas que abandonam sua placidez centenária, libertas das molduras onde foram enquadradas. Figuras extasiantes que tornam enfadonha e maçante nossa mundana realidade concreta de boletos e louça empilhada sobre a pia.

    Mas se as imagens, frutos de adulteração, não valem meia pataca, tampouco as palavras ganharam pontos no mercado, onde as Big Techs e seus algoritmos tenebrosos determinam o comportamento das pessoas. Mas esse assunto vasto é matéria para outra ocasião.

    Seja como for, entre imagens que não garantem a realidade e palavras que não asseguram a verdade, resta um território incerto, onde ver não é conhecer e dizer não significa compreender.

    No ambiente tecnológico ao qual nossa existência está se restringindo, o verdadeiro valor deixa de estar na imagem e na palavra e passa a pousar na desconfiança e na dúvida. Pois se uma imagem já não vale mil palavras e mil palavras não sustentam a verdade, o que resta é o silêncio entre ambas, onde deixamos de consumir as aparências e começamos enfim a perceber, contestar e deixar de ser massa de manobra para monetização de influencers, pastores midiáticos, coaches da prosperidade, pilantras digitais e ciber-picaretas. A humanidade que tanto avançou no progresso técnico, em termos éticos, permanece na idade da pedra lascada.

    Chegamos a um ponto em que a tecnologia, de aliada na busca pelo conhecimento e na construção de um mundo melhor, passou à condição de inimiga do pensamento, algoz da verdade, coveira da democracia.

    Some-se a isso a vulnerabilidade das pessoas crédulas que não desenvolveram discernimento suficiente ou muniram-se de análise crítica, o que as torna presas fáceis para discursos sedutores. E teremos o prato feito para a distopia desoladora que se avizinha, onde nosso papel será o de observadores passivos de nossa própria degeneração.

    Ao ampliar suas potencialidades – e reduzir as nossas -, a informática tende a nos tornar mais idiotas do que já somos.

  • Um trem sem destino

    Dora acordou cedo, decidida a embarcar no primeiro trem que partisse. Não havia destino no horizonte, apenas a necessidade de distância. Tomou banho, comeu, sem muita vontade, um sanduíche de queijo e presunto no pão francês do dia anterior e se arrumou. O vestido bege de zibeline, usado nas bodas de ouro dos pais dois anos antes, estava agora um pouco largo. A mala, pronta desde a véspera, a esperava ao lado do sofá. Em cima do piano, um bilhete escrito à mão depositado num envelope meio amassado. Parou um momento e mirou entorno, sentindo que poderia hesitar. Fixou o olhar em Valentina pela última vez enquanto a gata rodopiava pela sala antes de se instalar na poltrona preferida. Com um gesto brusco, fechou a porta, venceu dois lances de escada e seguiu a pé rumo à estação, aonde chegou após 15 minutos de caminhada resoluta. No guichê, uma pequena fila. Diante do funcionário, ficou muda por alguns instantes. Ele finalmente perguntou:

    − Para onde, senhora?

    − Para Felicidade & Paz, apenas ida. Posso pagar com cartão?

  • Catarina

    Catarina espiava pelas frestas e agia nas sombras. Silenciosa como um peixe, furtava, dissimulava, enganava, chantageava. Ouvia atrás das portas. Envenenava animais de estimação. Matou pelo menos meia dúzia de periquitos com as próprias mãos. Algumas vezes se deitava com os donos das casas. Fez três abortos. Num deles, quase morreu. Em duas oportunidades, esteve a ponto de cometer um homicídio. Destruiu casamentos e arruinou famílias. Jamais foi punida por seus atos.

    *****

    Na sala de estar, Francisco, Teresa e Max comemoravam. O filhote de dálmata não se desgrudava da dona. A casa de classe média havia sido quitada fazia pouco tempo. Moravam perto da Praia das Pitombeiras e do Parque dos Girassóis, que o cachorro adorava frequentar. Vinte anos de casados. Apaixonados ainda. Vanessa, a filha mais velha, estava de partida para a Alemanha. Havia conseguido uma bolsa para estudar teatro com um diretor franco-argelino. Vicente, o filho mais novo, tinha acabado de ser aprovado em segundo lugar para Engenharia no vestibular mais concorrido do país. A agência de viagens administrada por Francisco começava a dar lucro após longo período de crise. Nos últimos meses, Teresa viu a microempresa de chocolates artesanais aberta com a cunhada no ano retrasado aumentar o faturamento de modo significativo.

    Na cozinha, Catarina terminava de lavar a louça do jantar enquanto assistia ao último capítulo da novela. Finalmente, Juçara Penido, a vilã, maquiavélica e pérfida como nenhuma outra, seria desmascarada.

    Agora no quarto, o casal continuava a comemorar.

    — Max, desce da cama! — Francisco ordenou.

    — Não fala assim com ele, meu bem. Não vê que ele se sente tão feliz quanto nós? E é tão limpinho…

    Os filhos não estavam em casa. Teresa e Francisco trocavam carícias quase adolescentes, bebiam um vinho chileno e falavam alto. Ao som de Laura Pausini dançavam E vorrei fuggire via E nascondermi da tutto questo Ma resto immobile qui…

    Perto das onze, Vanessa e Vicente chegaram da rua quase ao mesmo tempo. Os cinco, agora reunidos na sala, continuaram a celebração.

    Uma e meia da manhã, cama do casal.

    — Francisco, que dia é hoje?

    — Sexta-feira… Aliás, já estamos no sábado.

    — Você conferiu o resultado do jogo?

    — Jogo? Hoje não tem jogo, minha pombinha. É no domingo que vou ao estádio com o Rodolfo.

    — O jogo, homem! Da loteria. A gente não ganha nunca. Mas dessa vez eu sonhei. Vamos conhecer a Itália. Sonhei com Florença, gôndolas…

    — Gôndolas são de Veneza, esqueceu?

    — No meu sonho, havia gôndolas em Florença. Navegando pelo Arno… Vai lá na sala, anda, pega o bilhete!

    — Ah, depois, deixa eu dormir…

    Pela manhã, Teresa, logo após acordar, dirige-se à sala. Estranha o silêncio na casa. Àquela hora, Catarina já deveria estar preparando o café na cozinha. Abre uma das gavetas da estante. No local onde os bilhetes e comprovantes da loteria eram guardados, apenas um pedaço de papel amassado e sujo. Nele, com uma caligrafia firme, estava escrito: Caros patrões, a última faxina é sempre a melhor…

  • O Circo

    Vinha de vez em quando. Talvez uma ou duas vezes ao ano. Mas mudava os ares da cidade toda. Meu irmão que andava lá para o centro da cidade chegava gritando:

    — Anita, Anita! Você não acredita o que eu vi?

    — O que você viu, guri? Conta logo!

    — Eu vi uns três ou quatro caminhão chegando e entrando lá onde ficava o circo!

    — Verdade?

    — Eu juro, ele falava beijando os dedos em cruz.

    Pronto! Era verdade sim!

    Criava um frenesi. Tudo começava com o carro de som. Nesse belo dia, passava em frente de casa a charanga com alto-falantes gritando a novidade. E todos corriam para a frente de casa a fim de ver e ouvir aquele que anunciaria a chegada da magia e da alegria, para toda a cidade!

    — Breve nesta cidade, o Gran Circo das Américas! Malabaristas, palhaços, globo da morte, e o inconfundível homem-faca.

    — Venham todos, teremos várias atrações: a mulher barbada, macacos, elefantes, tigres, girafas e os pequenos macaquinhos jogadores de futebol! Teremos também os desfiles dos pôneis e dos cavalos dançantes! Venham! Venham todos!

    A expectativa era criada na cidade, os ares mudavam, pelo menos para nós que queríamos ir ao espetáculo, mesmo sabendo que não tínhamos dinheiro!

    Meus irmãos, assim como outros garotos, caprichavam nas engraxadas de sapatos. Iam para a frente dos hotéis, lojas de fazendeiros e faziam seu merchandising.

    Homens com botas brilhantes e sapatos limpos e cuidados voltavam a ser vistos circulando pelas calçadas, porque todos estavam no clima bom do circo! Nossa mãe fazia seus milagres também, porque as meninas tinham que ver as bailarinas, os palhaços, os trapezistas, e ela iria junto, claro!

    O circo da minha infância se instalava num terreno pertencente à Companhia de Rodagem CER-3. Então, esse lado da cidade, onde se concentrava a praça, o coreto, a Prefeitura, o Clube Municipal, a Igreja Matriz, o Cinema, o Ginásio e a sede da Companhia, era o lugar mais cheio dessa época.

    Nós chegávamos para a sessão da tarde do circo. As bandeirolas coloridas enfeitavam o pátio. Carrinhos de pipocas, vendedores de balões, aviõezinhos feitos de latinhas brilhosas, pirulitos puxa-puxa, algodão-doce, sonhos; se o circo fosse dos completos, teria atrações pelo lado de fora, como pescarias, tiro ao alvo, trens fantasmas. Em filas, com uma alegria só, íamos adentrando e nos posicionando, mas sem deixar de cutucar uns aos outros com nossos saquinhos de balas ou pipocas. Os mais abastados sentavam-se em semicírculos de cadeiras, os ingressos populares iam para arquibancadas de madeira chamadas de “poleiros”.

    Mas o que interessava era que estávamos lá. Dentro do circo! A música? Constante! Alegre! Apropriada! O frenesi? Aumentando! E o palhaço? Andando pelo meio do público, fazendo suas graças, se tornando criança de novo. As bailarinas lindíssimas testando as cordas de malabarismos, e lá ao fundo o globo da morte só esperando para ser trazido ao centro do palco. Acima de nossas cabeças, os cabos dos trapézios com a corda bem esticada e a rede embaixo. Eram tantos e tão variados os mistérios coloridos de um circo, que quando tocava a terceira sirene, as luzes diminuíam, e retumbava a voz:

    “RESPEITÁVEL PÚBLICO, BOA TARDE! EIS AQUI O GRAN CIRCO DAS AMÉRICAS”, o povo explodia em gritos e palmas! Pronto: estava criada a MAGIA DO CIRCO! A magia que me acompanha por toda a minha vida!

  • Líbano libre

    Sou descendente de libaneses. Com muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe.

    Mesmo sendo um país tão pequetito, enviou para o Brasil, ao longo do século XX, tanta gente que hoje há mais descendentes libaneses no Brasil do que no próprio Líbano! Um em cada 20 brasileiros. São por volta de 10 milhões de ‘turcos’, como erroneamente costumavam ser chamados no tempo em que eu era criança. Certamente, a maior comunidade libanesa do mundo.

    A oportunidade de desenvolver seus pequenos negócios foi um atrativo para os libaneses se aventurarem para essas distantes terras tropicais. E, diferentemente dos italianos, portugueses e japoneses, espalharam-se demográfica e democraticamente por todos os estados de Norte a Sul. E deram-se muito bem em todos. Começaram cuidando de “lojínias” e se expandiram para outras áreas de atuação.

    No campo da política, os ‘patrícios’ tiveram uma participação notável. Encontramos exemplares em todos campos do espectro ideológico, da direita à extrema esquerda. Nomes de relevo como: Paulo Maluf, Paulo Skaf, Anthony Garotinho, Espiridião Amin, ACM Neto, Gabriel Chalita, Adib Jatene, Guilherme Afif, Michel Temer, Gilberto Kassab, Tasso Jeraissati, Beto Richa, Pedro Simon, Omar Aziz, Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Patrus Ananias, Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Jandira Feghali.

    Musicalmente, os ‘brimos’ se destacaram, especialmente na MPB e no pop nacional: Ivon Cury, Tito Madi, Pedrinho Mattar, João Bosco, Fagner, Almir Sater, Egberto Gismonti, Duo Assad, Badi Assad, Mariana Aydar, Bruna Karam, Nonato Buzar, Tunai, André Abujamra, Evandro Mesquita, Frejat, Chorão, Fauzi Beydoum, Wanderléa, Alok e por aí vai. Parece que só não entraram na seara do sertanejo, do gospel e do pagode romântico. Que bom!

    Em outras áreas da cultura, corre o sangue libanês em gente como Beto Carrero, Luciana Gimenez, Sabrina Sato, Sônia Abrão, Leda Nagle, William Bonner, Roberto Duailibi, Antônio Abujamra, Monark,  Amyr Klink, Juca Kfouri, Jamil Chade, Davi Nasser, Ibraim Sued, Ivaldo Bertazzo, Fauzi Arap, Betty Milan, José Simão, Janete Clair, Malu Mader, Maurício Mattar, Armando Bogus, Felipe Carone, Arnaldo Jabor, Walter Hugo Khouri, Fernando Gabeira, Andréia Sadi, Guga Chacra, Júlia Duailibi, Marina Person, Emerson Kapaz, Luís Nassif, Tárik de Souza, Almir Chediak, Aziz Ab’Saber, Emir Sader, Edmar Bacha, Pérsio Arida, Antônio Houaiss, Mário Chamie, Milton Hatoum dentre tantos.

    A culinária é capítulo à parte. Provindos de um país onde alimentar-se é parte de um cerimonial de cordialidade e compartilhamento, os caprichados quitutes árabes caíram no gosto do brasileiro: esfiha, kibe, homus…

    Embora tenha-me convertido ao vegetarianismo, abro exceções para ingresso em meu restritivo cardápio verde do quibe cru, do charutinho de uva e da kousa (abobrinha), recheados com carne bovina, concessão que faço em nome da relevância afetivo-cultural. Mas o tabule, compatível com meus recentes hábitos alimentares, ainda reina como manjar dos deuses. Não o bastardo, empapado com trigo como servido em restaurantes de quilo, mas o autêntico com pouco trigo, bastante salsinha, hortelã e um leve toque de pimenta síria. Hummm!

    Antigo lar dos fenícios (desenvolvida civilização que, dentre outros legados, criou um sistema de sinais que deu origem ao nosso alfabeto), o Líbano é um país singularíssimo. Embora faça parte do mundo árabe, distingue-se por gozar de uma situação única, onde muçulmanos xiitas e sunitas, cristãos maronitas, melquitas, armênios, ortodoxos, drusos etc. convivem pacificamente.

    É o único país do mundo, que eu saiba, administrado por um arranjo institucional com participação das principais religiões, garantindo tolerância no exercício dos diferentes credos. Bem diferente de outros da região.

    A capital Beirute, a “Paris do Oriente Médio”, é uma metrópole com vida cultural pulsante, com relevantes traços arquitetônicos e históricos, onde o moderno coexiste com a tradição.

    Estrategicamente localizado, às margens do Mediterrâneo, ladeado pelo gigantismo da Síria e pelo expansionismo de Israel, o espremido Líbano acabou tendo o setor Sul de seu território ocupado pelas milícias do Hezbollah, que lá se instalaram como resistência à ocupação israelense de 1982 e se tornaram mais poderosas que o próprio exército oficial.

    Com o pretexto de combatê-las, as forças de Israel apoiadas pelos EUA têm promovido ataques impiedosos e indiscriminados, massacrando a população civil de índole pacífica, sem envolvimento com atividades belicosas, que apenas deseja continuar tocando seu inofensivo dia a dia.

    Como consequência, esse pacífico país, exemplo para o mundo de convivência entre diversas culturas e religiões vem sendo dizimado, sob o olhar conivente do mundo, inclusive da numerosa, mas alienada colônia libanesa no Brasil, que de tal modo se acomodou por aqui que parece ter-se desconectado de suas origens.

    Minha maior frustação é não ter podido conhecer pessoalmente, em seus áureos tempos, a sagrada terra dos meus antepassados, usufruindo in loco a célebre hospitalidade de seu povo e ter ouvido da boca dos meus conterrâneos um afetuoso “ahlan wa sahlan” (seja bem-vindo!)

    Textos assinados não representam necessariamente a opinião do Crônicas Cariocas.

  • Digníssimo canalha

    Pelo presente instrumento, venho desrespeitosamente dirigir-me a vossa excelência, em minúsculas, na dimensão da pequenez moral que encarnas. Refiro-me a ti, nobre calhorda, investido que estás da augusta prerrogativa, intransferível e vitalícia, de decidir o destino dos que habitam o mundo dos vivos, já que o dos mortos foge à tua jurisdição, embora almejes equiparar-te ao Ser Supremo que, inobstante os acórdãos do teu STF, exerce deliberações irrevogáveis no reino celestial.

    A ti, que acolhes a reverência do povo que, passivo, aguarda tuas soberanas e irretocáveis decisões peremptórias. A ti, que te vales das prerrogativas que te elevam acima dos simples mortais, relegados à sua insignificância, quando de tua boca ouvem o famigerado “sabe com quem estás falando?”. A ti, ente indigno que, indignado, bradas por direitos inalienáveis enquanto vives na intimidade inescrutável da tua vida privada de práticas inconfessáveis. A ti, que por exercer o ofício de julgar os outros, julgas-te acima dos outros.

    Venho oficiar-te, honorável patife, que encontro maior retidão e honra na palavra sincera que brota do coração de um pobre inculto do que nos alfarrábios que sustêm tuas áridas sentenças intermináveis. As mesmas que ambicionas inscrever nos anais da imortalidade, onde ostentas para as gerações futuras tua soberba grandiloquência farisaica e tua rocambolesca sapiência estéril.

    Os recursos do erário público que faltam no amparo aos desprovidos, amealhas sem cerimônia ou parcimônia para manter intacto esse intrincado e indecifrável sistema, tão inócuo quanto iníquo, que cinicamente intitulas como ‘Justiça’. Revestes com aura de magnificência e infalibilidade essa espetaculosa pantomima patética e embusteira sob a qual se vergam as vidas dos que se submetem ao jugo do teu julgar.

    Esgueiras-te por esse emaranhado de leis, decretos, normas, códigos, regimentos, resoluções, regulamentos que se presta como barreira ao acesso dos neófitos, vedando-lhe o acesso ao teu território demarcado. Atribuis a ti mesmo o monopólio do saber e das práticas legitimadas ‘por lei’. Para que, na mesma medida em que expandes a doutrina do DIREITO, reduzes o primado da JUSTIÇA.

    A chave de tua inoperância tem nome: PRAZO. Permites que os julgamentos se arrastem indefinidamente, sob a cínica presunção de que a justiça necessita de décadas para abarcar os infinitos meandros legais. E assim vais multiplicando as instâncias para alargar tanto os períodos de apreciação quanto o tamanho do teu patrimônio pessoal.

     Adias, protelas, procrastinas, prorrogas, retardas, demoras, diferes, pospões, alongas, espichas, espacejas, alastras, dilatas, encompridas, acresces, expandes, empurras com a barriga até ver coroada a prescrição do crime. Conside­raste, eminente pulha, que, após décadas de espera, a sentença já foi proferida, independentemente do trânsito em julgado? Devo informar-te, distinto safardana, que quem aguarda por anos, seja amargando a privação de um direito ou usufruindo do gáudio de uma pena descumprida, já é repositório do veredito, seja o que venha constar no papel. Todo esse ritual inesgotável serve apenas para tornar a justiça uma peça utópica, inatingível para quem dela necessita.  

    Sai da tocaia, egrégio velhaco. Desce do palácio de capítulos, parágrafos, alíneas, incisos, caputs e cláusulas em que te enclausuras. Cumpre salientar, excelentíssimo pústula, que as ruas, distantes dos terraços dos palácios erguidos para te apartares da realidade de fato (e de direito), já não pertencem àqueles que nelas deveriam transitar, dominadas pelos malfeitores que libertaste das masmorras por artifícios legais e expedientes processuais, devolvidos à liberdade para continuar delinquindo, convictos de que os braços da lei jamais os alcançarão. Facínoras de toda espécie a quem remiste de pena, zombam daqueles que se pautam por princípios e honradez, sem armas, armações ou respaldo advocatício.

    Pessoas corretas vivem ao arrepio das formalidades legais que utilizas para agrilhoar os cidadãos, emparelhados pelo mesmo nível de calhordice que estabeleces tendo por referência teu espúrio padrão de valores. Com o intuito de que venham necessitar de tua mediação remunerada segundo a tabela do OAB.

    Sob o manto de teu propalado ‘estado de direito’, corruptos e ladrões escapam ilesos de suas falcatruas. Contam não apenas com tua plácida condescendência, mas com tua cruel cumplicidade. São para esses que aplicas a máxima leniência, amparando-os com a força irrefutável das brechas da lei, concedendo-lhes draconiana indulgência. Cobrindo com o verniz legalista da imunidade a irrestrita impunidade. “Por falta de provas”, provas.

    Quando se erguem vozes contra tua ineficácia, a estratégia de defesa já está traçada: eximir-te de responsabilidade. Culpas os legisladores, a polícia, a escassez de juízes, seus salários insuficientes e o excesso de carga horária, a inexistência de vagas no sistema prisional, a carência de investimentos, os problemas sociais, a ausência de políticas públicas, a colonização portuguesa. Assim, absolves-te ‘in totum’.

    Todo teu empenho converge para um único objetivo: não punir. Inocentes ou culpados, pouco importa, prevalece sempre o princípio ‘in dubio pro reo’. Desde que teus honorários sejam quitados com precisão, integralidade e… justiça.

    Quando um crime hediondo mobiliza a opinião pública, tens à mão um arsenal para abrandar o rigor da pena: tornozeleira eletrônica, prisão domiciliar, bom comportamento, atenuantes, progressão do regime, indulto, ‘saidinha’ de Natal, superlotação carcerária, penas alternativas, remissão, sursis, audiências de custódia. Tudo preparado para abrandar ou extinguir a punição. E criar novas possibilidades de utilizar teus serviços e criar vagas para a leva de recém-formados pelas faculdades de direito que abrem em cada esquina.

    Por todos os pretextos, vais libertando das grades os poderosos e seu séquito de advogados, reservando os horrores dos calabouços aos despossuídos das posses que bancariam teus emolumentos. Os que não colaboram com o pecúlio que sustenta a devassidão moral que apadrinhas e consagra esse país como o paraíso da impunidade.

    Deixa de hipocrisia. A quem pretendes enganar ao afirmar que personificas a Justiça? Teu ofício é apenas advogar em prol de vermes, retribuindo-lhes com pérfidos serviços o dinheiro que garante o suntuoso padrão de vida que ostentas. Incluindo os penduricalhos incorporados a teu holerite, como ‘direito adquirido’.

    Quem te sustenta, respeitável biltre, são os safados. Crápulas que, desprovidos de considerações éticas, estudam teus intrincados preceitos e se formam doutores para assimilar os meios legais, penais, constitucionais e amorais de permanecer impunes, qualificando-se a ingressar em tuas ro­dinhas infames. Partilharem do cafezinho do fórum, onde, por trás de indevassáveis paredes, ro­lam torpezas inimagináveis. Tornam-se teus colegas e cupinchas, uma associação fechada de rábulas parasitas.

    A verdadeira justiça é o oposto de ti. Consiste em tornar o mundo digno, prescindindo de teus sórdidos préstimos. Os princípios de retidão e civilidade, carregamo-los em nós. Num mundo de justos, tua ‘justiça’ não se ajusta. Que papel teriam juristas numa sociedade sem delitos? Os íntegros coexistem com harmonia, dispensando tua protocolar intermediação. Quem carece de lei são aqueles que dela vivem à margem.

    Data vênia, ilustríssimo, vai à p* que te pariu.

    (Adaptação de texto originalmente publicado em 2013 no livro O QUE DE MIM SOU EU)

  • Simulações

    Ninguém sabe de quem foi a ideia, que ganhou força quando chegou aos ouvidos do meu avô Nélson. Ele logo organizou as coisas e dividiu as tarefas. Os responsáveis pela criação do primeiro episódio seriam meu pai e meu tio Mário. Estavam todos lá na segunda reunião, realizada no casarão do Cosme Velho, que, ao longo das últimas oito décadas, assistiu a incontáveis momentos importantes na vida dos Bandeira de Assis. Abertos os trabalhos, meu pai fez uso da palavra. Explicou que havia pensado em algo impactante. Uma moça, por volta dos 20 anos, andando sozinha na praia do Flamengo seria assaltada e em seguida estuprada por dois marginais. Alta madrugada, iluminação deficiente e local deserto ajudariam a compor a cena. Minha tia Clarice adorou a ideia e sugeriu um tom explícito. Completou que as imagens nada deveriam ficar devendo à realidade. Minha prima Cecília acrescentou que, já no final da ação, a polícia deveria chegar sem nada conseguir resolver. Aliás, seria ótimo se os policiais terminassem mortos pelos bandidos, opinou ela, levantando da cadeira e agitando os braços finos com entusiasmo. Meu tio Mário, calado até aquele instante, foi enfático: Muito sangue! É preciso que haja muito sangue! Os presentes agitaram-se, um burburinho tomou conta da sala. A reunião seguia, o contentamento era geral, e uma excitação perversa contaminava o ambiente. Meu avô ia aprovando tudo com discretos acenos de cabeça. Na sequência, pediu que meu primo João e minha irmã Lígia falassem a respeito do segundo episódio. Pelo que pude perceber, a ideia partiu dela. Algo bem semelhante havia acontecido com a bisavó de uma amiga sua. Uma senhora nonagenária saindo de uma agência bancária. O cenário era o Méier, tradicional subúrbio carioca, habitado por uma classe média falida. Dia claro e ensolarado, uma gangue de pivetes surgiria de repente, derrubaria a velhinha no chão e roubaria todos os seus pertences. Ela gritaria desesperada, sua voz fraca e rouca, quase inaudível, não lhe seria de muita serventia. A fim de tornar tudo mais dramático, seria importante que a protagonista acabasse morta. Mais uma vez, alguém — acho que meu primo Murilo — propôs que a polícia se mostrasse inepta, incapaz e inábil. A essa altura, todos estavam ansiosos para ouvir a terceira sugestão, esta a cargo de minha avó Raquel e do meu primo Carlos. Linchamento! Linchamento! Foi assim, gritando juntos, que os dois começaram a expor a proposta. Mercadinho de bairro em Bangu, na zona oeste. Jovem maltrapilho, um típico morador de rua, seria a figura central nesse caso. Faminto, o adolescente roubaria dois pacotes de biscoito. O segurança da casa comercial, atento, se apressaria em cumprir sua função. O meliante sairia correndo. No entorno da loja, transeuntes começariam a gritar Ladrão! Pega ladrão! Meu tio Rubem se preparava para fazer comentários quando tiros foram ouvidos em frente à nossa casa. De forma instintiva, muitos dos presentes se levantaram, atravessaram correndo o jardim e alcançaram o portão. Estendidos na rua, emoldurados por poças de sangue, os corpos de quatro homens. A polícia apareceu alguns minutos depois.

  • O que eles dizem

    Eles dizem que tudo vai às mil maravilhas, que nunca estivemos tão bem e que a tecnologia chegou para melhorar nossas vidas. “O que seria de nós – perguntam eles – sem a internet”? Nem dá para imaginar… Como poderíamos nos munir de fake news e organizar o cotidiano sem a enxurrada de opiniões alheias? E a saúde, como cuidar dela sem recorrer ao Dr. Google, especialista em diagnósticos instantâneos e automedicação virtual? Enfim, caminhamos para um futuro onde tudo será entregue pronto e mastigado. Nosso papel na formação de nossa própria vida será o de um mero espectador, um acessório de segunda.

    E as operações bancárias então? Antes, carregávamos dinheiro vivo em bolsos e bolsas vulneráveis, espreitados por gatunos. Agora que migramos para cartões e aplicativos, os gatunos migraram para o ciberespaço. Podemos nos fartar em gastos por 29 dias, antes que a chegada da fatura no 30º acabe com a festa. Tudo a um módico custo anual, diluído em doze parcelas e juros ligeiramente escorchantes.

    Games, tem para todos os gostos, para nos entreter (e nos viciar) nas brechas de tempo, destinadas a reflexão ou contemplação de árvores, mesmo que elas (as brechas e as árvores) não existam mais. Passatempos sobre pornografia, violência e ódio que nos engajam e dão sentido a nossa vida carente de emoção e transgressão, tornam-nos monstros cruéis, tarados, abusadores. Porém exímios em informática.

    E as compras? Como viver sem o opulento cardápio de inutilidades da Amazon? Tudo pelo prazer de nos autopresentear com quinquilharias primorosamente embaladas, sem precisar levantar do trono de onde governamos nossa vida, espremida nas polegadas de uma tela.

    Quanto ao saber, “que progresso!” Já não precisamos de faculdades e mestres para nos entulhar com seu inútil conhecimento acadêmico que no fim só nos rendem inteligência, um diploma e nenhum bitcoin. “Certificando-nos como sábios pobretões”, argumentam eles.

    E quanto às fotos que disparamos freneticamente feito metralhadoras giratórias para descartar 99 de cada 100, sem nos preocupar com a liturgia dos negativos e revelações da Kodak? Tanta foto que registra lugares de que mal lembramos, cuja beleza inerente permanecerá guardada em sua essência intangível. Paisagens e semblantes que atravessaram fugazmente nossa existência sem deixar vestígios. Mas as fotos estão lá! Redundantes, tediosas, iguais, testemunhas silenciosas de aventuras nunca experimentadas. Dissolvidas nos infinitos gigabytes, que deixaremos de herança para que nossos filhos nunca acessem.

    As músicas que apreciamos entulhamos em playlists para descartar como resíduos digitais, após uma semana, quando delas não mais nos recordarmos. Um rolo compressor de bytes, catalogados por ordem de insignificância. E pensar que houve um tempo em que músicos e artistas se dedicavam a criar arte em discos com capas, encartes, fichas técnicas, destinados a enriquecer as prateleiras de nossas salas? “Pra quê tudo isso”, perguntam eles? O que importa nessa efêmera existência é criar seleções no Spotify com os hits reciclados do momento. A própria plataforma, que parece nos conhecer melhor do que nós mesmos, decide o que gostamos, sem nos consultar.

    E os filmes que a Netflix renova a cada semana? Um dilúvio de blockbusters sem inspiração em que nos afogamos, sem saber com qual deles desperdiçaremos nosso balde de pipocas. O essencial, claro, ali não está. Os clássicos, os cults que passaram na Mostra. Aqueles que deixaram marcas profundas e armazenamos em nossa memória RAM afetiva. “Nem tudo é perfeito”, apressam-se em nos lembrar.

    Podemos apreciar nossa comidinha impessoal, pedida pelo iFood há 10 minutos. Basta um toque na tela e o objeto de nosso desejo se materializa à porta. Às vezes bate uma saudade (“saudosismo”, contrapõem eles) do prazer de preparar quitutes com o toque caseiro que a avó nos ensinou, aquele temperinho especial, saído quentinho do forno. “Mas a vida corrida de hoje não comporta essas pueris extravagâncias afetivas. Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar tais minutos em sentimentalismo culinário.” É o que eles dizem.

    Se quisermos quebrar a rotina e ir a um restaurante ou ao teatro, uma chamadinha e o UBER providencia, num passe de mágica, um motorista robotizado com sorriso ensaiado para nos conduzir a nosso destino, teletransportados pelos mapas do GPS, onde não figuram parques, ipês, monumentos, casarões, pássaros, cães e crianças brincando… Sem preocupação com taxímetro, combustível e sem recorrer ao tumultuado transporte de massas.

    Podemos ainda usar e abusar das mensagens disparadas pela conta gratuita que o Gmail nos disponibilizou, condicionada, claro, aos ininteligíveis termos de uso que lhes permitem, com nossa anuência, manipular nossa vida, dela espremendo o que lhes interessa. Sem precisar recorrer ao velho Correio (lembra-se dele?) com aquele cerimonial de redigir, dobrar, selar, enviar e aguardar o recebimento incerto. “Atraso de vida”, proclamam eles.

    Tampouco precisamos memorizar os aniversários de amigos e familiares; o Facebook se incumbe dessa chatice. Podemos enviar felicitações via whatsapp por mensagem de texto (ou de áudio para mostrar que nos restou a voz humana). Nada de telefonemas, tendo que rebuscar palavras enfadonhas que traduzem emoções há muito esquecidas. O único esforço é encontrar o emoji adequado e… pronto, missão cumprida! Sem o calor de um abraço ou as sutilezas que o tempo estampa na expressão. Sem bolo, sem velas, sem beijinhos, essas cerimônias que o pessoal das antigas valorizava. E, convenhamos, quem precisa de amigos de carne e osso quando no Face temos milhares, com retratos, perfis, stories, a ficha completa. Se incluíssemos os crimes, teríamos um dossiê policial.

    Sim, a tecnologia nos abarrotou com trivialidades para transformar uma vida insossa numa insossa vida. Mas não há motivo para desespero. Chegou a Inteligência Artificial, prometendo solucionar os problemas com seus algoritmos infalíveis. “Fique frio que tudo ficará bem”. É o que eles dizem.

  • Feliz no simples!

    A frase acima vem sendo usada, não sei se por deboche ou pelo sentimento que alguém expressou, de encontrar felicidade, nas coisas cotidianas e simples da vida.

    Um papel e uma caneta, o aplicativo de notas, a tela com o word.

    A observação despretensiosa, um conto relido, uma cena ou dialogo interessante, um espanto, uma frase solta, enfim. Me sinto motivada a escrever, narrar, contar os fatos como a minha imaginação propõe. 

    A vida mostrada com diálogos que prendam o leitor, que o coloca como se fosse o protagonista, que o incomoda ou alegra, pode ser considerado simples. Mas não deve envergonhar o escritor, uma vez que ele nao se prenda a modismos, nem tenha a pretensão de fazer literatura esnobe e muitas vezes vazia.

    A simplicidade não é um defeito, mas sim uma forma de narrar usando os instrumentos de que a escrita se utilizou e utiliza ao longo dos tempos.

    O simples é lindo, e está sempre a nossa disposição, como um dia de domingo.

    Sol quente, areia queimando os pés, algazarra, sucos, cervejas, caranguejos sendo quebrados e socados com um martelinho de madeira, num quase ritual pela busca da carne branca e rija dos crustáceos.

    Na mesa, umas oito pessoas falavam e riam. Era uma família alegre, típica, que viera aproveitar um domingo à beira-mar.

    “Queijo coalho!”, ouviam-se ao longe os gritos dos vendedores que caminhavam pela areia com fogareiros acesos, garrafinhas de melaço e saquinhos de orégano, levando a iguaria justamente onde sabiam reconhecer seus prováveis clientes. Onde há crianças, a venda é quase certa. Paravam, balançavam o fogareiro, as fagulhas se avivavam com o vento. Com destreza, giravam o palito entre os dedos e, num instante, o cheiro do queijo assado tomava conta daquele pedaço de praia.

    “Olha o amendoim!”, gritava outro, passando a xicarazinha com três ou quatro amostras de amendoim torrado ou a castanha de caju, docinha de tão boa, servida num fundinho de copo plástico. Vai querer? O saquinho de papel pardo mudava de mãos, o garoto recebia o pagamento e seguia adiante.

    “Olha o picolé!”, repetia mais um, aproximando-se e juntando a gurizada em volta do carrinho.

    Além das guloseimas, surgiam vendedores de bijuterias, cangas, tatuagens de henna, camisetas e brinquedos que fariam sucesso apenas naquele verão, mas que, ali, eram tesouros indispensáveis.

    Quase onze horas. Lá vinha o menino com o peixe vermelho cru, temperado e vistoso, oferecendo aqui e ali. O almoço desfilava entre os banhistas: “Num instantinho estará assado acompanha farofa e vinagrete. Tamanho? Dá para até seis pessoas. Se a madame quiser trazemos uma porção de batatas fritas enquanto o peixe fica pronto.” O garoto passava com a sua cantilena, na certeza que na volta a venda seria certa. Faro de vendedor…

    O desfile de ofertas não tinha fim.

    — Esse menino não passou aqui agorinha?

    — perguntou a senhora à sobrinha.

    — Não, não era esse. Aquele já foi, esse está vindo. Tia, quantas cervejas a senhora já tomou?

    — Ah, mas é praia. E só uma vez ao ano — interveio o tio.

    — Que é isso, menina? Me respeite!

    Domingo na praia.

    O mar em seu balanço constante, no ir e vir das ondas, ora chegando junto das pessoas, ora recolhendo-se à própria imensidão.

    Parecia participar da festa, da comilança, da gritaria, da lambuzeira de óleo de bronzear, do gurizinho ranhento, da mocinha orgulhosa do biquíni novo, da senhora feliz com a cerveja na mão e a folga da cozinha, os pés afundados na areia fofa ao lado do marido, dos netos e da sobrinha.

    E ele assistindo tudo. Alegrava-se com os garotos que plantavam bananeiras, com os rapazes que improvisavam um futebol, com os senhores que caminhavam carregando os tênis nas mãos. Naquele vai e vem paciente, era o astro do grande cenário que sustentava o espetáculo.

    O domingo foi indo. Guarda-sóis se fecharam, cadeiras se dobraram, sacolas foram recolhidas até que não sobrou mais ninguém e o mar ficou sozinho.

    A lua subiu no céu e prateou a imensidão da água, que tomou um tom de chumbo iluminado. As ondas murmuravam baixo, deixando trilhas de espuma branca sobre a areia ainda morna.

    No vai e vem tranquilo, pareciam guardar ecos do dia. Um resto de riso espalhado no vento, passos descalços marcados e logo apagados, cheiro de queijo assado que já não estava ali.

    O mar ali… Sereno.

    Como quem sabe que amanhã haverá outra família, outras vozes, outro domingo inteiro para acontecer. Qualquer que seja o dia, estarão “Felizes no simples”

  • A ira do Irã

    O esporte sempre manteve a tradição e a virtude de se posicionar acima das picuinhas políticas. Nas arenas, as únicas regras que valem são as estabelecidas pelas federações esportivas.

    Do mesmo modo, quando um país sedia uma grande competição tipo Olimpíadas, Copa de Futebol, Fórmula 1, deve demonstrar que possui disposição e infraestrutura que garantam que o certame transcorra com lisura e imparcialidade, sem intercorrências que comprometam seu êxito.

     A iniciativa de sediar um evento esportivo de grande magnitude serve também para exibir internacionalmente as qualidades do anfitrião no atendimento aos requisitos de organização e logística.

    Mesmo em tempos de Guerra Fria ou situações de conflitos, as competições esportivas trascorreram com normalidade, como campo não contaminado, onde se pode exercer com civilidade a prática desportiva, a mesma que desde a Grécia antiga cumpre relevante papel em termos de desenvolvimento pessoal, promoção da saúde, socialização e integração.

    Alguns casos vêm à memória como as Olimpíadas de 1936 na Alemanha sob o nazismo. Nesse período de alguns meses, Hitler afrouxou seu autoritarismo, interrompeu a perseguição a judeus, negros e opositores e adotou providências para garantir condições para que visitantes de todas as pátrias pudessem se sentir à vontade em terras germânicas, apreciando a excelência que o regime queria demonstrar.

    Outro exemplo é o do campeonato mundial de futebol realizado na Argentina em 1978, sob uma feroz ditadura, quando o clima nos estádios não se deixou contaminar pela repressão das ruas. O técnico portenho à ocasião, César Luís Menotti, que levou sua seleção ao título, tinha inclinações socialistas e nem por isso foi coagido em seu trabalho.

    Caso semelhante ocorreu por aqui durante os anos de chumbo do governo Médici, quando João Saldanha, simpático ao ‘Partidão’, comandou a seleção canarinho que classificou o Brasil nas eliminatórias para a Copa de 1970, da qual sairia tricampeã. Em resposta ao general ditador, que fizera pressão para a convocação de um atleta, o ‘João Sem Medo’ (como era conhecido) retrucou com ombridade: “o presidente escala o ministério, eu escalo a seleção”.

    De fato, o esporte pode se orgulhar de ter atravessado muitas décadas sendo ‘território livre’, imune a ingerências, um espaço de congraçamento, onde todos se respeitam,  o jogo sujo é chutado para escanteio e a trambicagem recebe cartão vermelho.

    Essa virtude infelizmente vem sendo dilapidada nesses tempos em que a intolerância passou a reger as relações interpessoais.

    A seleção futebolística do Irã teve um desempenho brilhante nas eliminatórias e se classificou com louvor para disputar a copa na América do Norte de 2026. No entanto, a ofensiva de forças americanas ao país persa resultou na incerteza de o time participar da competição com partidas programadas para o território do país que perpetrou o ataque.

    Em relação à nação dos aiatolás, por mais que não a apreciemos, essa hesitação é justificável, partindo de quem foi vítima de ataque. O que é inaceitável é a posição oficial do governo americano que, nas palavras de seu mandatário mor, afirmou que não podia garantir a segurança dos atletas do país islâmico de modo que não seria ‘apropriada’ a vinda da delegação. Ora, isso significa que os EUA deveriam ser desqualificados a sediar o evento já que se declararam incapacitados de garantir a segurança dos jogadores de uma das seleções habilitadas a participar.

    É ainda mais absurdo o fato de gabando-se de ser a nação mais poderosa e pujante do planeta, os ianques declararem não ter condições de assegurar que suas exímias forças de segurança ofereçam proteção a atletas, de que nacionalidade forem, que compareceriam não para soltar mísseis, mas para jogar bola. Tal evasiva parece tratar-se de mais uma ‘trumpice’.

    Esse comportamento antidesportivo não é exclusividade dos EUA de Trump. A arquirrival Rússia é governada há 27 anos por um ex-membro da KGB, reconhecido por adotar atitudes pouco ortodoxas como a de injetar substâncias químicas proibidas nos competidores para aumentar a chance de conduzi-los ao pódio, levando as autoridades esportivas a banir os comandados de Putin de competições esportivas. Tal prática combina com outra, habitual do mandatário cossaco, de envenenar bebidas de desafetos políticos.

    Atitudes como essas partindo de 2 dos maiores líderes mundiais que deveriam ser pessoas impolutas, além de colocar em xeque o esplendor do esporte, demonstram a degeneração moral daqueles que, por sua posição de destaque deveriam baluartes de integridade.

    Estamos voltando aos tempos da barbárie, em que uma tribo mantém em relação à outra, uma atitude hostil permanente, pondo abaixo séculos de avanço civilizatório e de aprimoramento das relações diplomáticas. Que mundo estamos deixando para nossos filhos em que os grandes líderes comportam-se como trogloditas?

    A atitude de Trump é parte de seu perfil arrogante. O presidente republicano já havia rompido outro hábito secular, ao se recusar a cumprimentar o vencedor das eleições de 2020, ato de grandeza que reforçaria os primados do regime democrático que pressupõe aceitar o resultado eleitoral e quem perde reconhece a derrota e parte para a próxima.

    No Brasil, essa conduta deplorável foi copiada em 2022 quando o perdedor nas urnas, discípulo de Trump, recusou-se a cumprimentar o candidato eleito legitimamente. Preferiu fugir para Orlando para não demonstrar cordialidade nem se ‘rebaixar’ de sua condição de ‘mito’, apertando a mão de 4 dedos do adversário político, gesto que ajudaria a pacificar o país e desarmar os espíritos. Birrento, manteve sua base raivosa preparada para o enfrentamento.

    A prática de cumprimentar o oponente (diferente do ‘inimigo’) tem origem no espírito esportivo, em que, ao fim da contenda, vencedor e perdedor dão-se as mãos civilizadamente, mostrando que o embate que ocorreu na arena foi encerrado com o apito final, voltando os competidores a ser apenas indivíduos normais, merecedores de respeito e consideração.

    Essas atitudes de confronto permanente são produtos do radicalismo que tem formado a índole das pessoas que naturalizam o ódio e as tornam incapazes de enxergar o outro como um ser humano que, mesmo pensando diferente, é digno de gentileza. São frutos de uma época de deterioração social, onde a internet substituiu a comunicação tête-à-tête, olho no olho, na qual as pessoas tinham maior chance de se entender e havia maior empatia. Mas isso é assunto para uma outra crônica.

  • Laranja Mecânica

    Podemos dormir tranquilos, pois Big Daddy ‘is watching you’, direto da Casa Branca. Investido de ilimitados poderes imperiais, o supremo cowboy zela 24 horas por nossa integridade ideológica. Mr. Orange, autointitulado ‘xerife do mundo’, mentor do far west style, onde quer que as forças esquerdistas corrompedoras da moral e dos bons costumes impeçam a implantação da doutrina MAGA.

    Mr. Orange é um escudo inabalável contra a ação maléfica de negros, mestiços, latinos, islâmicos, abortistas, feministas, LGBT’s, ONGs e ambientalistas que ameaça a ascendência dos valores ocidentais, machistas, caucasianos e anglo-saxões que faz da América um exemplo de civilização bem sucedida, a ser alastrada pelas regiões selvagens onde a palavra de Cristo não chegou.

    Nos redutos tropicais brasílicos, escancarar-se-ão as portas dos casebres e barracos para que os ares insalubres do atraso sejam varridos pelo frescor dos ventos boreais do Vale do Silício. Serão abandonadas as banais referências tupiniquins, tais como o forró, o berimbau, o açaí, o afoxé e o ziriguidum para possibilitar a entrada triunfal de startups e legiões de nerds, geeks, hackers, techies e afins.

    Mr. Orange assegurará plena guarida aos leais bajuladores, Mileis, Bukeles e Delcys. que se mostrem convenientemente servis às instruções neoliberais e aos preceitos da propriedade privada, guiado em sua cruzada pela palavra da Bíblia, pelo mapa dos poços de petróleo e pela cotação das terras raras na bolsa Nasdaq.

    A abertura da Caixa de Pandora dos arquivos Epstein revelou uma indesejável faceta pecaminosa, convertida rapidamente pelos devotos em abençoada libidinagem, regada a água benta. Mr. Orange, travestido de representante pedófilo santificado da família tradicional protestante pôde então estender seus tentáculos implacáveis para nos salvar de nós mesmos em nossos próprios quintais. Enviando seus drones kamikaze, mísseis hipersônicos, caças de quinta geração e sistemas cibernéticos integrados em nosso socorro para impor aos ímpios, ateus e seres pensantes a moral pregada pelos neopentecostais do Alabama. Ainda que, nesse processo, escolas de meninas tivessem que ser explodidas.

    De onde quer que venha o perigo, democratas, jornalistas, estudantes, sociólogos, comunistas, imigrantes, aiatolás, e todos os que insistirem em se opor à expansão da microsoft, do big mac cheddar e do combustível fóssil, depuradores da raça humana, degenerada por teorias globalistas.

    Seja na Venezuela, no Irã, em Cuba, na Groenlândia, no Canadá, no Líbano, no México, na California, na faixa de Gaza, no estreito de Ormuz e onde mais for, cuida ele da segurança dos investimentos ianques em todo o planeta Terra. E no espaço sideral! Projetos espaciais financiados por Sir Musk e Sir Bezzos são direcionados a fincar a bandeira confederada neonazista e providenciar acesso ilimitado de wifi em todas as unidades do sistema solar, antes que desaforados asiáticos o façam com o Huawei 5G, a rede Tik Tok e o detestável dístico “made in china”.

    O ‘laranja mecânica’ não para. Diariamente inventa um inimigo imaginário num país aleatório para mobilizar sua indústria bélica e sua base de haters, ansiosa por inundar as redes sociais com fake news repugnantes referentes aos desafetos da vez. Façam suas apostas e deixem girar a roleta. Qual será o próximo alvo dos caprichos intervencionistas do Gengis Khan do século XXI?  Burundi? Liechtenstein? Bélgica? Turcomenistão? Uruguai? Quixeramobim? Rocinha? Em todos os cantos dessa Terra plana que Deus-Pai abençoou com o sistema capitalista e o dízimo sagrado.  

    Não tentem os detratores se ocultar nos ambientes furtivos de embaixadas, mesquitas, universidades ou aldeias yanomamis, pois poderosos algoritmos rastrearão as vozes dissonantes em todos os rincões onde houver uma tela de celular e uma torre provedora de internet.

    Autorizado pela prerrogativa de apertar o privativo botão vermelho do Juízo Final que o voto texano lhe conferiu, Mr. Orange busca pela força de seu arsenal nuclear e pelo vazio de suas ideias tirar leite das pedras, conquistar a liberdade das tiranias e a paz dos cemitérios.

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