Sábado

  • O dia em que as tatuagens saíram de moda

    Foi numa sexta-feira nublada de setembro que o mundo estremeceu. Nada de tornados, terremotos ou tsunamis. Tampouco o lançamento massivo de mísseis balísticos ou ameaças de guerra nuclear iminente. Algo mais bombástico: uma postagem de um influencer de moda decretou as seguintes palavras a seus milhões de fiéis seguidores: “A tendência para a próxima estação será exibir a pele nua e crua em seu esplendor natural. Tatuagem? Sai fora dessa brega intervenção artificial, aberração invasiva utilizada pelas gerações anteriores para difundir seus ultrapassados valores.”

    Foi a senha para disparar o quiproquó. Em questão de horas, o mundo civilizado entrou em colapso estético. Na segunda-feira, as clínicas de remoção a laser exibiam filas que dobravam quarteirões e faziam dobrar os atendentes. Na terça, faltou horário. Na quarta, faltou equipamento. Na quinta, faltou esperança. E sobrou desespero.

    A queixa generalizada nos consultórios de psicologia passou a ser: “Doutor, como conviver com o trauma de ter profanado minha cútis num momento de fraqueza?”

    Criou-se até uma literatura crítica revisionista com conceitos pejorativos como ‘pele psíquica’, explicando que o que não pode ser elaborado por meio da palavra, acaba sendo externalizado no corpo. A tatuagem foi reduzida a uma tentativa de dominar por meio da agulha o complexo emocional de um passado sufocante. As figuras funcionariam como uma armadura, uma epiderme secundária, o território do ego em que o indivíduo expressa seu narcisismo e a imagem que nutre de si mesmo.

    De repente, os prosaicos véus que cobrem o corpo (e as tatuagens) ganharam status fashion com força total. As burcas das mulheres islâmicas, antes execradas, passaram a ganhar respeito e devoção, sugerindo até a possibilidade de conversão religiosa e uma mudança comportamental frente à materialidade existencial do Ocidente.   

    Assim nasceu o dilema daqueles que fizeram um pacto eterno de fidelidade com as agulhas segundo o qual o corpo foi vilipendiado e cedido aos arroubos de um impulso juvenil.

    As cabeças carecas, antes transformadas em tela foram substituídas por implantes capilares. Pior foi a amargura dos entusiastas que levaram o procedimento para zonas inimagináveis como a tatuagem no globo ocular (eyeball tattoo), interior da boca, língua, áreas genitais. Ou daqueles que não preservaram o rosto e demais partes expostas pelas vestes casuais. O que fazer agora com esse trambolho estilístico?

    A discreta borboletinha no tornozelo, na qualidade de singelo adorno, foi poupada, passando incólume ao turbilhão higienista dos novos tempos, não chegando a comprometer seu usuário. Já os imensos dragões orientais e as frases motivacionais em sânscrito tornaram-se um estorvo megalítico a seus portadores.

    Diante da nova tendência, os mais suscetíveis que haviam cravado um detalhado mosaico da cultura pop nos exíguos espaços disponíveis do corpo ficaram sem saber como agir. Enquanto não decidiam, passaram a vestir grossos sobretudos para ocultar seus exóticos rabiscos.

    Lembrei-me do filme “A Outra História Americana”, em que o protagonista interpretado por Edward Norton, ao revisar seus valores ideológicos, já não se reconhecia no espelho, confrontado pela enorme suástica que carregava no peito. ‘O que faço com ela?’

    A tatuagem parte do pressuposto de que somos seres imutáveis e as decisões tomadas são definitivas. Aqueles que a ela se submeteram acham que suas mentes jamais se modificarão e transferem o peso dessa imutabilidade para a própria pele. O problema surge quando a cabeça se submete a uma lavagem cerebral mas o resto da massa corpórea não é capaz de acompanhar a mudança.

    O sábio Raul Seixas já havia antevisto o dilema ao manifestar preferência em ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião estampada sobre tudo.

    Os usuários acreditavam, em sua santa ingenuidade, que a moda duraria até o fim de suas vidas úteis. O curioso é que a tatuagem costuma ser apresentada como uma afirmação de individualidade. “Quero ser único”, diz alguém… enquanto entra numa fila de outros cinquenta querendo exatamente o mesmo ornamento polinésio, a mesma rosa cor -de-rosa, o mesmo astrolábio, o mesmo leão de olhar filosófico e a inevitável frase em celta cujo significado permanece indecifrável.

    As tatuagens pareciam ter desvendado o segredo da imortalidade. Afinal, não bastava vestir a moda; era preciso costurá-la na própria pele. É um compromisso que nem casamento exige.

    Há também a criatividade inesgotável dos apaixonados. Juram amor eterno, tatuam o nome da pessoa amada e, seis meses depois, descobrem que o amor era eterno até o próximo fim de semana. A pele, nossa fiel companheira de jornada, infelizmente, parece não acompanhar as desventuras fugazes do coração.

    Naturalmente, a indústria de cosméticos aproveitou-se da situação para faturar alto, criando os ‘corretivos de pele’, uma base tão grossa que parecia massa corrida. Logo apareceram os alarmistas alertando sobre os perigos que tais métodos provocam ao sufocar o tecido cutâneo e provocar tumores malignos. E as fake news ajudaram a propagar pelas redes o pânico geral.

    E, quando as tatuagens previsivelmente saíram de moda — porque tudo, absolutamente tudo, um dia sai — aconteceu o inimaginável: a ousadia passou a ser desfilar com a pele completamente lisa, como quando veio ao mundo.

    Enquanto a mudança de paradigma ainda não se efetivara, eu observava curioso o hábito da humanidade de transformar o próprio corpo numa espécie de caderno de anotações. Uns escreviam poemas, outros desenhavam tigres, alguns registravam datas memoráveis. A pele virou agenda, álbum de lembranças e mural de recados.

    Instalada a nova ordem, os conformistas se resignaram, alimentando a esperança de que, como sempre acontece, os ciclos façam que na próxima geração ou talvez daqui a 50 anos, quem sabe, a tatuagem volte à moda.

  • Quem ou o quê?

    Nem só de pão vive o homem…

    Vive atrás do salário, da prestação da casa própria, do preço da gasolina, da promoção que não veio, da aposentadoria que talvez venha, da dieta que começa na segunda-feira e do boleto que, pontualíssimo, nunca se esquece dele.

    Ah, e também de notícias.

    Escândalos financeiros, guerras, feminicídios, golpes, corrupção, propaganda eleitoral. Mudam os candidatos, às vezes os partidos, raramente o modelo. Entre uma tragédia e outra, um anúncio oferece um colchão ortopédico em doze parcelas sem juros.

    O ser humano é realmente uma criatura admirável.

    Acorda, olha o celular e, antes mesmo do café, já sabe o que o aguarda. Ainda assim, escova os dentes e vai trabalhar.

    No caminho, reclama do trânsito, no trabalho do salário, no almoço do preço da comida.

    Não pensem que estou falando apenas dos pobres, dos fracos, dos desafortunados ou dos “menos favorecidos”.

    Não.

    O rico também sofre. Naturalmente, sofre com algum conforto, o que não deixa de ser uma vantagem considerável.

    Mas sofre.

    Talvez esteja aí uma das coisas mais estranhas sobre a humanidade.

    Somos capazes de assistir a uma guerra durante o jantar e, logo depois, discutir porque alguém deixou a manteiga fora da geladeira.

    Choramos por desconhecidos.

    Brigamos com quem amamos.

    Economizamos para o futuro e compramos por impulso.

    Queremos viver muito, mas passamos boa parte da vida com pressa.

    Inventamos máquinas para poupar tempo e imediatamente encontramos novas maneiras de não ter tempo algum.

    Construímos cidades, escrevemos poemas, fazemos transplantes de coração, mandamos sondas para outros planetas.

    E ainda não aprendemos a conviver direito com o vizinho.

    Quem somos afinal? 

    Porque somos?

    Não sei.

    Faço parte da espécie, o que certamente prejudica a imparcialidade da minha pergunta. 

    Só sei que, apesar de tudo, amanhã alguém vai plantar uma árvore, outra pessoa vai preparar o café para quem ama, uma criança vai aprender uma palavra nova, haverá quem estenda a mão para um desconhecido e quem ria até perder o fôlego por uma bobagem qualquer.

    Talvez seja por isso que continuamos.

    Eu, pelo menos, decidi uma coisa: não vou mais questionar

    Não por enquanto.

  • Fogos de artifício

    Era uma casa no subúrbio, e Maria acabava de preparar o jantar. Mexia as panelas e pensava que o início da reforma no telhado teria de esperar mais um pouco. Tomara que não chova forte, torcia. Naquele sábado de inverno brando, o clima no país era de tristeza e perplexidade. A eliminação do Brasil na Copa do Mundo era a responsável por essa depressão coletiva. A mulher ganhava a vida como diarista e tinha 66 anos. Aparentava mais. Vivia se queixando de dores pelo corpo e de problemas de saúde. Já não apresentava o mesmo vigor para as tarefas domésticas, mas não podia parar de trabalhar. Nunca soube o significado da expressão carteira assinada e morava sozinha, sem ter quem a sustentasse. Nas redondezas, alguns de seus filhos e netos. De vez em quando, eles se lembravam dela e a visitavam – Natal, aniversário, Dia das Mães, as datas obrigatórias. Ajudavam conforme podiam, eram quase tão necessitados quanto ela. Do ex-marido não queria nem ouvir falar. Tinha um ódio insuportável do único homem que conheceu durante toda a sua existência. Sentia-se aliviada desde que conseguiu se separar cinco anos atrás. A mágoa pelo velho Paulo não era compartilhada pelo resto da família. Ninguém jamais conseguiu compreender o motivo de tanto
    ressentimento.

    Maria não era ligada em futebol, mas, em época de campeonato mundial, tornava-se torcedora entusiasmada. Naquele dia, decidiu assistir ao jogo sozinha. Ficava nervosa e se sentia melhor sem ninguém por perto. Era também uma ótima chance de usar o bem mais precioso que mantinha em casa, agora praticamente inútil desde que se cansou de ver novelas e programas de auditório: um aparelho de TV de segunda mão ganho de uma de suas patroas. Preparava-se para botar a comida no prato quando Marilene, sua filha mais velha, chegou abatida.

    — Mas o que é isso, minha filha? Essa tristeza toda só por causa de um jogo de futebol? Onde é que nós estamos? Levanta essa cabeça, mulher!

    — Pois é, ninguém esperava, né? — disse a moça, constrangida.

    — Senta aí, come comigo, anda! Sei que você adora macarrão. Tá quentinho.

    Apesar de chateada com a derrota do Brasil, Marilene tinha um motivo muito mais grave para estar amuada. Precisava conversar com a mãe, não sabia por onde começar. Suas mãos tremiam, ela suava. Ficou calada por alguns instantes antes de revelar o motivo da visita.

    — Sabe o que é? É que… O pai acabou de morrer.

    — Como é que é? O traste empacotou? Foi isso que você disse?

    — Sim, foi agora, de repente. Coração… Depois do jogo.

    Por um segundo, Marilene achou que os olhos da mãe apresentaram um brilho cintilante demais para alguém que acabara de receber uma notícia tão grave. Notou ainda um tom de contentamento em sua voz, desses que brotam na boca de alguém que descobre ser o ganhador de um prêmio gordo na loteria, por exemplo. É claro, estava a par do que ela sentia pelo ex-marido, mas alegrar-se com o falecimento dele era demais. Maria começou então a andar agitada pela exígua cozinha. Seus movimentos descompassados lembravam alguma exótica dança tribal. Talvez significassem apenas alegria. A reação da mãe desconcertou Marilene, e ela resolveu ir embora. Não saberia o que dizer à mulher saltitante e eufórica que via diante de si.

    Novamente sozinha, Maria continuava a celebrar. Recordou-se dos fogos de artifício que havia comprado. Quando o Brasil ganhava uma partida, a vizinhança se punha à espera dos rojões e dos morteiros lançados no ar pela velha Maria. Dirigiu-se ao quintal e logo encontrou o que desejava. Em frente de casa, iniciou uma comemoração solitária e entusiasmada. Atraídos pelo barulho e pelo brilho, os vizinhos nada entendiam. Com a morte de Paulo, Maria tinha acabado de receber da vida um ansiado troféu. Seu contentamento era imenso. Sua Copa do Mundo estava ganha.

  • Vivo emoções em seu lugar ou tributo a Ariano

    Doralice ganhava a vida de um modo estranho. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar que alguém pudesse tirar o próprio sustento por meio de uma atividade como aquela. Até que vi numa revista a reportagem de título chamativo: “Vivo emoções em seu lugar”. Ela se intitulava artista performática, morava em Recife e garantia poder realizar desejos – sonhos também, por que não? – de moradores de outras cidades brasileiras e até estrangeiras, coisas como visitar um certo local, fazer um determinado programa, encontrar alguém ou tudo isso junto se a vontade do cliente assim determinasse.

    Após o estranhamento inicial, percebi que os serviços daquela mulher de comportamento inusitado me seriam bastante úteis. Na ocasião, eu morava em Teresópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro. Dias antes, havia assistido a um festival de teatro organizado pela prefeitura num clube tradicional do município. O evento era dedicado à obra de Ariano Suassuna, autor nordestino que, até então, eu desconhecia. Três filhos pequenos, viúva recente, professora em duas escolas. Não tinha tempo para bobagens como teatro. Levada por uma amiga, acabei assistindo a obras-primas como Auto da compadecida, O santo e a porca, A farsa da boa preguiça e Torturas de um coração, peças de enredos críticos e bem urdidos, habitadas por personagens simples, representantes perfeitos de parcela significativa do povo brasileiro.

    Na semana seguinte, lá estava eu, diante do computador da escola, buscando informações sobre Ariano e sua obra. Quanto mais eu lia, mais me vinha a vontade de encontrá-lo e de conversar com ele. Gostaria de conseguir lhe dizer algo a respeito do impacto que seus textos me causaram. Doralice poderia fazer isso por mim. Claro… A atriz da minha cena, a intérprete de mim mesma. Quem sabe durante um passeio de barco pelo Rio Capiberibe. O cenário deveria estar à altura do acontecimento. O rio seria perfeito. Sempre ouvi dizer que Recife é uma cidade encantadora. O texto também teria de ser caprichado. Um texto dirigido a um escritor deve ser mesmo especial. Não poderia me descuidar da iluminação. Luz natural… O pôr do sol, o luar talvez. Figurino de gala também seria imprescindível. Eu e Doralice acertamos todos os detalhes. Ela comprou minha ideia de cara. Senti que se empenharia em realizá-la da melhor maneira possível, exatamente como da vez em que, a pedido de um ardoroso torcedor do Grêmio, teve de depositar um buquê de rosas brancas no gramado do Estádio dos Aflitos. Era um agradecimento emocionado pela dramática vitória do time gaúcho sobre o Náutico durante aquela partida histórica de 2005, a famosa Batalha dos Aflitos.

    O encontro aconteceu e foi registrado. Não houve Capiberibe, pôr do sol nem luz do luar. Num café do Recife Antigo, Doralice e Ariano se reuniram. Tudo sucedeu de forma muito mais modesta do que eu havia imaginado. Ariano é assim mesmo, desligado de formalidades. Hoje, recebi pelo correio a gravação em DVD do evento. As crianças dormem. O tique-taque do relógio de pêndulo impede que o silêncio na casa seja completo. Sozinha na sala, ligo a televisão e me transporto. O Recife é logo ali… E é mesmo lindo.

  • A Bola de Neve e seus encantos

    — Mãe, abre o portão.

    É a Bárbara. Ela vem me ver às quintas-feiras.

    — Ué, você mudou os móveis?

    — Como?

    — A mesinha de café, aquele canto ali… Da última vez que estive aqui, não tinha! Andou garimpando, né? Já te falei: você não deve mais sair sozinha.

    Bom… tomei um pito. Mas vou guardar esse assunto para outro dia.

    — Falando nisso, filha, faz dois cafés. Mesmo estando calor, eu tomo meu café nesse horário. É costume.

    — Mas aí tem tomada elétrica?

    — Coloquei uma extensão.

    — Jesus! Mãe, até isso?

    Desenvolvi tantas qualidades nesta fase da vida…

    Uma delas é não retrucar na sequência de uma fala preocupada.

    Ainda mais quando é quase uma cópia das que ela ouvia quando criança.

    Entro com algo leve. Pergunto se o sapato é novo, ou o brinco, qualquer coisa que mude a energia.

    É tiro certo!

    Mas, voltando à sala, nada é novo. Nós, eu e a minha “jardineira fiel”, brincamos de decoradoras.

    Agora, com o advento da Inteligência Artificial, não há mais razão para uma sala permanecer inerte através dos anos.

    Sendo assim, não precisei andar por lojas, nem comprei nada novo. Apenas “repaginei” a minha casa.

    Ficou muito linda. Entrou um frescor, me renovou, me alegrou.

    É claro que foi a Terê que me ajudou. Ela também tem o espírito assim, meio nômade. Tanto que eu a conheço desde quando nem tinha filhos. Agora já tem netos.

    Assim como a minha casa, ela não gosta de ficar sempre ali, daquele mesmo jeito.

    Já me acostumei. Ela vai. Mas volta.

    Faz dois anos que voltou.

    De onde?

    De outras salas, outras patroas, outras vivências.

    Minha filha tomou o café, deu uma volta pela sala e parou em frente ao móvel onde havia um antigo globo de neve, com a miniatura de um trenó e Papai Noel.

    — E este enfeite? A senhora já tinha?

    — Sim! Tenho há quase cinquenta anos. Era da sua avó.

    — Hum…

    Senti que sua dureza ao me julgar, amolecia…

    Ela se afasta.

    Ofereço um pedaço de bolo, pergunto do Alfredo, das crianças. Quero a normalidade, o trivial.

    A conversa então flui, a tarde passa e nos despedimos até a próxima quinta-feira.

    Felizes e gratas .

    Mudamos os móveis, trocamos as coisas de lugar, criamos hábitos novos e conservamos outros por décadas. Terê vai e volta. Bárbara chega às quintas. Eu tomo meu café sempre no mesmo horário.

    Manias. Costumes. Rotinas.

    E, entre uma coisa e outra, nós três desenvolvemos uma habilidade que talvez só o tempo ensine: para ser feliz, é recomendável fazer “cara de paisagem,” em determinadas situações.

  • NÓS

    Sei que você não é sequer capaz de imaginar as sensações que desperta em mim. Nunca vivi nada parecido antes. Perco o sono, durmo mal. Você me excita. Muito… Penso que você é só minha. Eu exijo exclusividade. Você não tem a mais vaga ideia das coisas que eu gostaria de fazer com você. Na verdade, eu já fiz. No meu pensamento, já realizei todos os meus desejos. É tudo tão real. Eu despi você inteira. Observei de perto sua pele clara. Deslizei minhas mãos por todo seu corpo. Na frente, atrás… Que pele macia e sedosa você tem. Nenhuma mancha, nenhuma marca, nenhuma cicatriz. Você beija bem. Sim, eu beijei você várias vezes. Nossas línguas já se encontraram. Uma procurando a outra com avidez, lembra? Nossos corpos se encaixaram. Eu tenho a impressão de que você me deseja também. É claro que deseja. Sente tesão. Uma coisa forte e sincera. Da nossa última noite de amor você se recorda? Eu me lembro de cada detalhe. Você chegou usando aquele vestido vermelho decotado. Ele deixa você ainda mais sensual. Realça suas formas. Como se você precisasse desses artifícios… Eu estava ansioso, não parei de olhar o relógio até você chegar. Eu corri ao seu encontro, abri a porta do carro. Eu lhe preparei uma bebida. Sei o que você gosta de tomar. Eu sei tudo a seu respeito. Ninguém conhece você melhor do que eu. Nós bebemos juntos. A música que tocava era a nossa música. Você escolheu bem. Realmente, como você disse, ela parece ter sido inspirada em nós. É a vida imitando a arte. Ou seria o contrário? A gente dançou de rosto colado. Passei a língua na sua orelha. Mordi seu pescoço. Ficou uma marca. A sala na penumbra. Você me pediu que abaixasse a luz. O que eu não faço para contentar você? A gente subiu para o quarto. Eu carreguei você nos braços. Amantes em direção ao ninho de amor. Você sempre foi romântica. Sempre adorei as situações que você criava, suas fantasias… Que imaginação! Eu embarcava nelas. Elas se tornaram minhas fantasias também. A cama macia, lençóis de seda, uma comichão queimando nossos corpos. Você já sem o vestido. Você completamente nua. Seus mamilos rosados, seus pelos pubianos. Seu corpo… uma obra de arte. Que visão maravilhosa. Eu possuí você. Com carinho. Você teve um orgasmo. Você me abraçou e me disse que queria tanto que aquela noite não terminasse nunca. Era exatamente o que eu estava pensando quando você falou. Também adoraria que aquela noite fosse eterna, durasse para sempre. Você teve outro orgasmo. Você está percebendo a sintonia que existe entre nós? Nós temos sorte. Achamos um ao outro. A metade da laranja, a tampa da panela, almas gêmeas, seja lá o que for. Eu sou seu, e você é minha. Ou ainda vai ser um dia. Sei que vai. Tenho fé. Nós tomamos banho juntos. Nossos corpos se tocaram embaixo do chuveiro. Eu acariciei sua barriga. Eu enxuguei você carinhosamente. Passava a toalha pelo seu corpo, porcelana fina e delicada. Depois do banho, nos amamos de novo. Dessa vez no chão forrado com pétalas de rosas. Rosas brancas, suas favoritas. Em cima do tapete também, no meio das almofadas. Somos insaciáveis. Você gosta de variar, sempre rejeitou a mesmice, fugiu da rotina. Os laços que nos unem. Nós… A carta prosseguia. Alice, porém, resolveu não continuar a leitura. Desde a morte de Sandra, ocorrida três semanas atrás, aquela era a primeira vez que entrava no quarto da filha. Tudo estava exatamente como ela havia deixado. Dobrou o papel, colocou-o novamente dentro do envelope e o abandonou no criado-mudo, onde o encontrara. Apagou a luz e saiu, fechando a porta atrás de si.

  • “Zerou” a vida?

    Não. Zerar não é empatar. Quando chegamos ao fim da nossa capacidade de contagem, zeramos o jogo. “Zerar a vida” é a vanglória de um feito mágico e grandioso, uma experiência inacreditável! O ideal de fazer algo extraordinário, como se tivesse vencido o último e mais poderoso oponente e batido a meta máxima do game.

    O feed desliza repetidamente, sem pausa, sem ponto final. A moça radiante dança diante de um palco imenso e resplandecente debruçado sobre a praia de Copacabana. Leio a legenda: — Zerei a vida! Ela é ainda tão jovem, pensei.

    Não. Zerar não significa tirar nota zero. Zerar é a possibilidade de recomeço de um novo jogo e, portanto, abrem-se novamente as possibilidades de vitória, na aposta de que o sucesso esteja pleno de conquistas, e que possam ser vistas pelos outros.

    Na lógica do “corre” , desacelerar seria escolha de quem está frustrado ou de quem está esgotado, fugindo da captura algorítmica.

    Na matemática da vida real também zeramos o saldo de créditos e débitos e assim iniciamos o próximo ciclo de resultados. O circuito se repete neste jogo em que somos impelidos a “lacrar”. O entusiasmo está contido em cada possibilidade de gozo, como se assim descobríssemos o sentido da vida.

    Zerar a vida não seria secretar sentidos da própria experiência de viver? Se a coragem necessária para enfrentar a única partida para valer só se justifique com um sentido, estamos todos “lascados”! Melhor será esvaziarmos o cofre das ilusões onde esbarramos naquilo que não tem sentido.

    Entre perdas e ganhos, que o saldo seja em créditos de desejos, assim, mesmo sem prêmios ou troféus, a vida sempre valerá a pena.

  • Maldito Ipê Amerelo

    Dia desses, acordei desagradavelmente surpreendido, ao avistar pela janela um objeto estranho sublevar-se na paisagem urbana a que estou habituado a contemplar pelas manhãs. Em meio à monocórdica retitude dos edifícios cheios de sacadas, num cenário perfeitamente simétrico, ornado com veículos, postes, bueiros, muros, grades, fios elétricos, guindastes, betoneiras, tapumes, andaimes e fumaça, eis que se sobressai ao pálido grafite, uma intrusa árvore carregada de flores… amarelas.

    Que significa isso agora? Só me faltava essa… Não podemos nos assentar sossegados por um segundo na sepulcral paz matinal costumeira, apreciando o turvo panorama carregado de monóxido de carbono e dióxido de enxofre, sem sermos agredidos por grotescas manifestações festeiras desse meio-ambiente rebelde.

    A natureza parece não conhecer limites, não tem consciência de seu lugar. Não bastassem as vastas áreas em parques, reservas e na Amazônia em que foi devidamente alojada, ocupando espaços que deveriam ser usados para plantar soja e criar gado, agora temos que aturar resquícios florestais a invadir as calçadas das cidades com esse amarelão cafona, tão vivaz que parece saltar pra fora da imagem.

    Ao chegar essa estação, a coisa se espalha como praga por tudo quanto é canto. Num irritante ciclo que se repete anualmente, somos obrigados a conviver por dias com essas abusadas plantas floridas, afrontando a paisagem e escancarando aos olhos suas espalhafatosas tonalidades.

    Ainda por cima, atraem pássaros barulhentos e legiões de abelhas, lagartas entre outros insetos asquerosos que ameaçam nosso estéril habitat em apartamentos dedetizados e shoppings higienizados.

    Quem lhes dá o direito de subverter a paisagem construída por nossa asséptica civilização? Quem foram os imbecis que as plantaram, subtraindo preciosos metros quadrados do passeio público? E as autoridades municipais, onde estão, que não tomam as necessárias providências coercitivas?

    Ao invés de ficar poluindo visualmente nosso espaço urbano, poderiam ceder suas madeiras para as fábricas de móveis e pisos, estabilizando os preços dessa matéria-prima tão escassa em nosso mercado de construção civil. Ao invés disso, deixam-nas viver impunemente.

    Até o nome soa patético, “ipê”, expressão tupi, herança maldita do tempo em que os selvagens conspurcaram nossa sociedade com seus valores retrógrados. Que eu saiba, esse vocábulo estridente inexiste em inglês ou qualquer idioma civilizado. Língua de índio. É palavra típica desse ‘paiseco’ atrasado. Faz parte da nossa ridícula cultura terceiro-mundista, maculada com influências espúrias de africanos e silvícolas, acostumados a viver descalços e seminus no mato.

    Por sorte, esse abuso durou pouco. Após emporcalhar o concreto com suas pétalas, a árvore ficou desnuda e passou a exibir apenas galhos esquálidos, com aparência cadavérica, em harmonia com seu entorno. As coisas retomaram a normalidade. Poderei voltar a acordar sem sobressaltos apreciando o maravilhoso acinzentado que dá significado a minha insípida existência.

    Sem folhas, sem flores, sem cores, sem amores, sem indigestos ipês amarelos.

  • O fim do mundo

    Francisco saltou do metrô apressado. Estava a 300 metros do consultório, e faltavam apenas cinco minutos para o início da sessão. Não se atrasava nunca e, ao contrário de muitos, estava sempre bem-disposto às segundas-feiras. O terapeuta também raramente o atendia fora do horário. Naquele dia, tudo foi diferente. Entrou 45 minutos depois da hora marcada. Tinha muita coisa para falar, havia ensaiado um discurso na véspera. Havia feito anotações no bloco de notas do celular. Já acomodado no divã, começou:

    — Sabe qual é meu maior desejo?

    — …

    — Que o mundo acabe.

    — Mas do jeito que o homem vem tratando o meio ambiente…

    — Não é isso, você não entende! Queria que o mundo acabasse hoje. Ou no máximo na semana que vem. Será que o, deixa eu ver aqui, o Kim Jong-un não tem lá um arsenal atômico secreto… Ou o Irã, quem sabe o Irã… Alguém podia apertar um botão e bum! acabar com tudo. A Rússia está doidinha pra provocar a terceira guerra mundial. Esse Putin não regula bem, parece questão de tempo… Sem contar o Trump, esse doido é um caso à parte…

    — Bem, hoje a gente fica por aqui.

    — Nossa, tive a impressão de que o tempo passou tão rápido…

    — Mas, se você quiser, a gente volta a falar sobre o fim do mundo na próxima sessão, ok?

    Até semana que vem.

    ***

    Enquanto isso, lá em cima no firmamento, o Criador, em companhia de seus anjos, arcanjos, serafins e querubins, repassava a agenda da semana: terça-feira: atentado em universidade americana (39 mortos e 43 feridos); quarta-feira: tsunami e terremoto no Japão (987 mortos, 1264 feridos e 5 mil desaparecidos); quinta-feira: enchente na Malásia (294 mortos e 500 desparecidos); sexta-feira: inundação de lama no Nepal (175 mortos e 384 desaparecidos); sábado: incêndio em floresta da África do Sul (45 pessoas mortas, flora e fauna devastadas); domingo: FIM DO MUNDO.

  • Manifesto

    Confesso: eu era indiferente.

    Simplesmente não os notava. Não detestava, nem amava. Eles eram transparentes para mim. Daqueles de quem se diz: nem cheiram, nem fedem.

    Foi assim por dois terços dos meus dias. E nem queiram saber quantos foram. Centenas.

    Não procurei terapia, nem explicações.

    Até que aconteceu.

    Assim, sem me preparar, pensar ou conjecturar, um belo dia eu me apaixonei!

    Paixão de deixar boba. Olhar nos olhos, admirar as nuances, o chamego, o jeitinho, a esperteza. 

    E, como toda paixão, essa também me trouxe dores. Sobressaltos, temores e uma saudade preocupada sempre que precisamos nos separar por algum motivo.

    Agora, quando meus dias estão cada vez mais acumulados, eu não merecia passar por tamanho desassossego: o medo de que ela incomode, a preocupação com reclamações e essa incômoda sensação de impotência diante das regras do mundo.

    Só me resta rezar.

    Recorrer aos santos protetores da boa convivência, da tolerância e da paciência entre vizinhos.

    E pedir a Nossa Senhora dos Gatinhos que proteja a minha querida.

    Nem eu, nem ela merecemos tanta ojeriza. Beira a desprezo mesmo. 

    Deixem que ela contemple o condomínio de vez em quando, sob meus olhos atentos. Não lhe tirem a ilusão de que algum dia ainda será uma grande caçadora, embora os pardais, até hoje, continuem levando larga vantagem.

    As mordidinhas na grama são digestivas e sequer fazem diferença no desenho do jardim.

    Ela já é uma senhora. Tem suas manias, seus hábitos e uma dignidade felina que não admite discussão.

    Não a olhem como uma ameaça.

    Não transformem cada passeio numa operação de guerra.

    Tenham um pouquinho de paciência conosco.

    Eu, que passei tantos anos sem compreender o fascínio que esses bichos exercem sobre as pessoas, hoje me vejo aqui, completamente rendida.

    Portanto, faço este apelo público, sentimental e talvez um pouco exagerado:

    Por favor, amem a minha gata Felícia! 

    🌷

  • Uma história de gatos e ratos

    — Verônica! Finalmente resolveu aparecer depois de tanto tempo. Ainda se lembra do caminho de casa? Bem, acho que essa não é mais sua casa.

    — Quarenta e sete dias.

    —Você não atendia meus telefonemas…

    — Não quero falar sobre isso agora. Passei aqui porque preciso pegar umas coisas. Rafael, você tá molhado, pingando. Sai, tenho uma reunião de trabalho daqui a pouco.

    — Fiquei o dia todo na piscina. A água me faz bem, me purifica.

    Como estamos longe do mar, tenho de me virar com a piscina mesmo. Ah, eles começaram a reprisar aquela novela que você fez… Queda livre, certo?

    — Pois é, eu saio logo. Morro afogada por volta do capítulo 50. Foi horrível gravar aquela cena.

    Ao contrário de você, não tenho essa paixão toda por água. E o Tarantino tá por aí? Saudade dele…

    — Sei lá. Esse gato anda tão esquisito. Passa o dia todo enfurnado em algum buraco. E deu pra sair por aí. Às vezes, fica dias fora de casa. Comportamento estranho. Será que tá sentindo sua falta? Mas pega logo o que quer e se manda.

    — Rafael, você voltou a beber?

    — Voltei, deu pra perceber? Na verdade, nunca parei, minha querida.

    — A gente devia pensar em vender essa casa. Tem um amigo da minha mãe que é corretor…

    — Aqui é tão isolado, não é o que você vivia dizendo? O lugar não é valorizado, é tudo longe. Até pra comprar pão é preciso pegar o carro. E o que mais tem por aqui é imóvel vazio. Vamos ser realistas, Verônica.

    — Sem contrato na TV, sem trabalho no teatro. Tô filmando um curta. O fato é que preciso de grana. Minhas economias vão acabar…

    E você já arranjou alguma coisa?

    — Isso não é da sua conta.

    — Tá namorando? Arrumou alguém? Será que alguma mulher vai entrar por aquela porta a qualquer momento?

    — Isso também não é da sua conta.

    — Mas então, a gente precisa vender essa casa. Cada um pega a sua parte, vamos resolver logo essa situação.

    — Você já viu o sol que está lá fora? Não quero falar de negócios num dia como hoje.

    — Olha, Rafael, eu…

    Verônica se preparava para ir embora quando Tarantino surgiu na janela da sala. Agora tingidos de vermelho, os pelos brancos ao redor da boca do felino conferiam-lhe um aspecto soturno.

    Eriçando o corpo esguio e produzindo ruídos esganiçados, o bicho aproximou-se de Verônica e atirou aos pés dela o rato morto que trazia na boca.

  • Seria a eternidade um mineral?

    Quem sabe a imortalidade seja um mineral formado por átomos de carbono puro dispostos em uma estrutura cristalina cúbica.

    Nosso inconsciente não acredita na própria morte pois não possui nenhum registro psíquico ou representação para ela, e se comporta como se fosse imortal. Não queremos papo com a finitude, ponto e basta! É ao testemunhar a morte de alguém querido que somos forçados a confrontar a realidade da perda. Mas nem isto abala a invulnerabilidade do nosso desconhecido e destemido inconsciente.

    O pobre ego deve morrer de inveja deste ‘sujeito’ empoderado e persistente que aparece nos nossos sonhos e fantasias, nos lapsos de linguagem, nos chistes e sintomas, manifestando de forma disfarçada nossos desejos e memórias reprimidas, sendo o grande reservatório das pulsões e conflitos psíquicos que nos moldam.

    Me debruçando sobre Eros, a vida, ao invés de Tânatos, a morte, leio as manchetes virtuais. Uma notícia cativou meu interesse. Rumino entre cinzas e diamantes. Regurgito e novamente mastigo. Cogito intimamente: Será o ato de mineralizar-se (mesmo que o desejo nem seja do próprio) uma possibilidade lustrosa de eternizar-se?

    De onde virá esse desejo posto ou póstumo, de transformar-se em diamante? Esse desejo de perpetuar-se como substância sólida, apto de ser objeto de toque e posse, perfilado como adorno sobre uma bonita prateleira, trancafiado numa gaveta para não ser furtado ou até mesmo pendurado no pescoço ou enfiado nos dedos. Melhor não seria expandir-se como matéria gasosa em constante movimento aleatório, sem forma nem volume definidos? No fim das contas, já não estaria sua alma como Éter elevada a um elemento puro do céu e muito bem guardada dentro do peito?

    Não importa. Afinal desejo é de cada um. Mesmo um diamante, a substância mais dura conhecida na face da terra, possui seus pontos fracos. Sua imagem reluzente pode sofrer arranhões e uma pancada certeira te fratura em cheio. Caso tenha a rara oportunidade de tê-los em mãos, muito cuidado ao manuseá-los!

    Diamantes são formados a partir de calor e pressão e podem ser produzidos artificialmente a partir de cinzas humanas, num processo complexo e caríssimo. Para poucos! Do carbono contido nas cinzas, cria-se um simulacro de uma joia que será ofertada como um presente precioso.

    Os diamantes dobram os raios de luz que entram na pedra, refletem suas facetas internas e retornam à superfície saindo como brilho intenso, para tanto, o corte é essencial. Um diamante bruto quase não brilha, a lapidação que o transforma.

    Debruçar sobre cinzas e diamantes me fez recordar de amor e transferência, do agalma fálico (este adorno raro e precioso) que se supõe escondido dentro de uma pessoa, tornando-a desejável, que aponta para a fantasia de completude e a busca por um objeto que garanta poder e valor.

    Ao invés de diamantes poderíamos desejar nos transformar em talco, o mais macio dos minerais, num abundante quartzo ou no simples feldspato… Não importa. O que insiste é o apego humano de ‘re’ existir a qualquer preço!

    E para a nano parte da população que ri dos pobres mortais, diamantes são singelos demais, o capricho desejado será pela extravagância de tornar-se uma Jade Imperial, de mil vezes maior valor ou melhor ainda, perpetuar-se como numa gigante safira “Estrela da Terra Pura” . Alhures, estará sempre lá idealizado, o impagável, o “Diamante da Esperança”.

    Para nosso alento e para os milhões de humanos que vivem ainda abaixo da linha abissal sempre restará a alegria de ser lembrado pelas estrelinhas no céu.

  • INSTINTO

    Toquei a campainha e aguardei cerca de dois minutos até que viessem atender. A longa espera aumentou meu nervosismo. Sim, num caso desses, dois minutos constituem de fato uma longa espera. Desculpando-se pela demora, Augusto abriu a porta. Eu poderia ter interfonado antes de subir, mas, depois de refletir por alguns instantes, decidi que a atitude mais acertada seria aparecer sem avisar. Melhor que ele ouvisse o que eu tinha a lhe dizer com o espírito desarmado. Educado e protocolar, Augusto me cumprimentou com um aperto de mão. Provavelmente, deve ter estranhado o fato de me ver ali diante dele. Nossa relação se resumia aos bons-dias e boas-noites de praxe proferidos, em nome da civilidade, pelas dependências do prédio quando a casualidade fazia com que nos esbarrássemos. Já sentada no sofá, passei a examinar o ambiente. Atitude espontânea, coisa de mulher, não tive como evitar. A decoração da sala era de muito bom gosto. Nas paredes e em porta-retratos espalhados por vários lugares, fotos do dono da casa ao lado de celebridades – cantores, atores e apresentadores de TV, esportistas e até políticos, pessoas sorridentes e bem-vestidas. Prêmios, diplomas, troféus e medalhas também podiam ser vistos espalhados pelo cômodo. Você foi muito corajoso na entrevista de anteontem, comentei, tentando aparentar naturalidade. A Mariana Gonzalez é mesmo fantástica, consegue extrair revelações incríveis dos convidados. Eu sempre assisto ao programa, sabe? Desde que ela ainda trabalhava naquele outro canal, você se lembra? É curioso, somos vizinhos há tanto tempo, dez anos talvez… Mas todo mundo hoje em dia é tão ocupado… São tantas solicitações, apelos… Enquanto produzia esse discurso meio confuso, bem diferente do texto que havia ensaiado, tentava ler no rosto de Augusto alguma indicação, mesmo vaga, acerca do que ele poderia estar pensando daquilo tudo. E que parte da entrevista mais chamou sua atenção? Sem dúvida, quando você descreveu o acidente. Perder a esposa de uma maneira assim tão violenta… Eu me recordo bem de vocês dois sempre juntos, abraçados, pareciam se amar tanto. Sua vida mudou bastante, claro, não podia ser de outro modo. Parei de falar. Esperava que essa fosse a deixa para que Augusto dissesse algo. Ele apenas me encarou. Sua expressão continuava indecifrável. Após algum tempo, resolveu se aproximar. Acionou uma espécie de manivela situada perto do braço da cadeira, o que imediatamente a fez deslizar macia pela sala. Antes de parar ao meu lado, deu dois ou três giros e andou para frente e para trás tentando demonstrar o quanto era hábil no manejo daquela engenhoca. Por fim, sorriu amistoso. É difícil acreditar que você não faz sexo desde o acidente. Lá se vão cinco anos, não é? Eu tenho uma proposta a lhe fazer. Talvez você ache estranho… Eu mesma acho estranho. Você é um homem bonito, jovem, interessante. Não, não diga nada a menos que considere essa minha ideia um completo absurdo. Eu penso que isso não está certo, você com certeza continua a ter desejos. Não é porque ficou assim… Paraplégico, interrompeu ele. Não tenha medo de pronunciar a palavra. Me ajuda aqui, anda. Me põe no sofá. Obedeci. Augusto era extremamente charmoso. Um tipo italiano, com a pele muito branca, olhos castanhos amendoados, nariz grande e lábios grossos. Após o acidente havia engordado um pouco. Naquele dia, estava com a barba por fazer e usava uma camisa estampada de seda. Senti que ele queria tocar meu corpo. Consenti. A partir daí, nem eu nem ele falamos mais nada. Passamos a agir comandados pelo instinto. Eu me oferecia àquele sujeito quase desconhecido sem culpa alguma. Íamos aprendendo na hora como deveríamos nos comportar. Nossa experiência prévia valia pouco, logo constatamos. Aquilo era uma espécie de rito inaugural, de cerimônia de iniciação, sei lá. No início, mãos indecisas a respeito do rumo a tomar, embaraço. Felizmente, foram apenas três minutos de inépcia seguidos por pelo menos uma hora de destreza. Tudo aconteceu de um jeito suave e tranquilo, mais ou menos como eu havia imaginado. Ajeitando o cabelo e retocando a maquiagem num espelhinho, me preparava para ir embora quando a campainha tocou. Era Carlos, uma espécie de enfermeiro de Augusto, que voltava da rua carregado de sacolas. Esqueci a chave, anunciou meio desconsertado ao constatar minha presença. Não sei onde ando com a cabeça, completou. Notei então que os dois homens trocaram um olhar malicioso. Por um instante, me senti envergonhada. No dia seguinte, acordei com um beijo carinhoso do Marcelo me avisando que o caminhão havia chegado e que os carregadores já estavam subindo. É fato que não conseguiria ter feito o que fiz se não estivéssemos de mudança. Sem dúvida, seria muito desconfortável continuar a encontrar Augusto no elevador, na garagem e na portaria do prédio.

  • Dia dos Pais

    Um dia em que se homenageiam os meninos que se tornam homens e, um belo dia, se descobrem pais.

    Descobrem-se pais e não há nenhuma alteração fisiológica!

    Não sentem o seio intumescer segundos antes de o bebê chorar. Não têm um corpo que lhes avise, de maneira tão evidente, que chegou a hora de alimentar a cria. Não amamentam, não experimentam as mesmas transformações físicas da gestação e do nascimento.

    As mães contam com uma espécie de alarde da natureza.

    O corpo muda, os hormônios se alteram, o leite chega, o bebê chora e alguma coisa responde.

    E eles? Nove meses de espera sem que se altere em seu corpo nem um fio de cabelo?

    Os pais que lutem!

    Mas será mesmo?

    Pode ser que haja escondido em algum recanto da fisiologia masculina, um mecanismo que desperte o homem para a paternidade?

    Algo que desperte o instinto paterno?

    Ou pai é coisa que se aprende?

    Talvez alguns amanheçam pais.

    Outros entardeçam.

    Alguns, quem sabe, só escureçam pais.

    E há aqueles que vão se tornando pais devagarinho.

    No primeiro colo meio desajeitado. Na primeira fralda colocada ao contrário. Na madrugada em que caminham pela casa com um bebê que não para de chorar. Na febre que assusta. Na mão pequena que procura a sua para atravessar a rua.

    Ahhh… A natureza não lhes deu o leite, mas deu-lhes braços, inteligência, senso familiar, de proteção, de valor e de clã.

    E, depois, cabe a cada um decidir o que fará com tudo isso. Que pai será…

    Pode ser que a paternidade esteja justamente aí: menos no que desperta espontaneamente no corpo e mais no que um homem escolhe construir todos os dias.

    Sou afortunada.

    Tive um bom pai.

    O pai dos meus filhos foi um bom pai.

    Meus netos têm bons pais.

    Talvez por isso, depois de começar esta crônica desconfiando um pouco da natureza e bastante dos homens, eu chegue ao fim quase boazinha.

    Quase.

    Porque pai também não precisa de santificação. Precisa ser! 

    O olhar, a escuta, a atenção e a presença serão, com certeza, aquilo que seus filhos guardarão de você. E, um dia, talvez contem aos próprios filhos, que contarão aos seus…

    E, na beleza deste domingo de sol, 9 de agosto de 2026, quero, desejo e proclamo ao mundo:

    Feliz Dia dos Pais!

  • Dois projéteis e um amor feito em pedaços

    (Domingo de manhã, quarto de Sofia)

    O rádio havia ficado ligado a noite toda. Naquele momento, ia ao ar um debate sobre a epidemia letal que tinha começado havia mais de um ano. Infelizmente, diziam os cientistas, o fim do tormento não era esperado para breve. Uma nova variante do vírus, muito mais transmissível, havia surgido no Marrocos, perto da fronteira com a Espanha. Sofia escancarou a janela e deu de cara com uma nuvem acinzentada e espessa. Aquele borrão ostensivo ousava cobrir quase todo o céu e incomodava pela capacidade de ofuscar a bela paisagem natural da zona sul do Rio de Janeiro, cidade que essa paulista de Ribeirão Preto havia escolhido para viver dez anos atrás. Na noite anterior, havia ido dormir ouvindo gargalhadas inoportunas provenientes do apartamento vizinho. O som, mais alto do que de costume, parecia indicar uma festa. A impressão que se tinha era que os donos da casa e seus convidados não comiam, não bebiam, não dançavam, não conversavam, não se beijavam, não se drogavam, não trepavam. Enfim, não faziam nada do que se costuma fazer numa situação do gênero. Apenas gargalhavam de modo histérico e inconveniente. E ouviam música, claro. Uma salada impensável, de gosto duvidoso, cantores de que Sofia já nem se lembrava. Vários simplesmente desconhecia. Algumas poucas canções daquele eclético repertório a fizeram recordar momentos importantes de sua vida. De sua vida com Olavo inclusive, uma das coisas boas que o Rio havia lhe proporcionado. Sim, é verdade, um dia tinham sido felizes juntos. Pouco mais de meia hora tinha se passado. O panorama havia se modificado um pouco. Agora, um solzinho pálido e preguiçoso tinha conseguido furar o bloqueio da nuvem escura e invadia parcialmente o quarto. Ainda deitada na cama, Sofia ligou para Olavo. O barulho das risadas e das músicas ainda reverberava em seus ouvidos. O que tinha a lhe dizer não seria fácil, mas estava decidida a resolver a situação o mais rapidamente possível. Por ela, liquidaria a questão com apenas uma frase, de preferência algo bem curto como acabou, fim, chega, basta, já deu. Mas uma relação, mesmo uma fracassada como a que mantinha com seu colega de firma, não se termina assim, de forma tão econômica. Não é essa a praxe. Olavo mostrou-se surpreso. Pediu e até implorou nova chance. Não gostava de ser contrariado e tinha por hábito dar sempre a última palavra. Nas semanas seguintes, continuou a procurar Sofia e a tentar uma reaproximação. Ela seguia irredutível. Raramente voltava atrás quando tomava uma decisão. Era patético ver um sujeito de mais de 40 anos apresentando um comportamento tão infantil. O que estaria acontecendo com os homens, se perguntava. Por que todos pareciam sofrer de imaturidade crônica? Cerca de quatro meses depois, Olavo sumiu de repente. Na empresa, diziam que havia sido transferido para Salvador. Sofia passou a sentir falta dos telefonemas diários, das cartas melosas, dos bilhetinhos furtivos, dos e-mails caprichados e dos torpedos insistentes do ex. E do sexo também. Como era bom de cama o danado, tinha de admitir. Ficou saudosa do passado nem ela conseguia explicar bem por quê. Somos todos nós, seres humanos, um poço de contradições, havia ouvido num filme alemão na semana passada. Só pode ser isso. Queremos o que não temos e desprezamos o que conquistamos. Um dia, quando já haviam se passado mais de dois anos desde o último contato, Olavo voltou. Reassumiu seu posto e passou a encontrar a ex-namorada com frequência no ambiente de trabalho. A retomada do romance estava destinada a se tornar realidade. Foi assim que, num barzinho da Lapa, ao som de um chorinho bem tocado, selaram o acordo. Estavam namorando de novo.

    ***

    (Sábado à noite, apartamento de Sofia)

    Depois do sexo, Sofia foi até o banheiro enquanto o homem, olhar meio perdido, continuava deitado na cama. Olavo apresentava uma expressão transtornada, o corpo envolvido por uma nuvem negra de ressentimento e amargura. Assim que a mulher voltou ao quarto, ele disse com voz trêmula:

    – Você não devia ter feito o que fez. Quem vai terminar com você sou eu, sua ordinária. Olha bem… Eu tenho uma surpresa, falava, tal qual um personagem de telenovela mexicana, ao mesmo tempo que exibia uma pistola.

    Foram dois tiros no peito antes de a mulher cair diante do armário. Já não respirava. Olavo ainda continuava sendo alguém que não admitia ser contrariado e que mantinha o hábito de sempre dar a última palavra. Sofia nunca poderia imaginar que sua vida chegaria a termo assim, de forma tão cafonamente melodramática.

  • A Papiloscopista

    Papilo o quê? Expectorei na tosse esta pergunta para minha filha Violeta, liberando as vias áreas de um agente irritante. Nunca entendi o seu sonho de ser uma papiloscopista. Quando meninas sonhavam em ser princesas, a minha desejava ser papiloscopista. Hoje fico aliviada dela não ter brincado de cadáveres ao invés de bonecas. Quando ela me falou pela primeira vez da profissão tão sonhada, confesso que não entendi. Naquela manhã ensolarada, ela desembuchou na lata, com voz grave e semblante decidido: “Mãe, quando crescer eu quero ser papiloscopista”.

    Será que seria uma criança de aura índigo? ou eu estaria confundindo a palavra papiloscopia com parapsicologia? Violeta me desorientava com seu ar fatídico, parece ter nascido de fora para dentro.

    Quando menina, ela passava horas a fio trancada no quarto desenhando papiros. O talo do papiro chega a medir seis metros de comprimento, a flor da planta lembra os raios de sol, uma planta sagrada para os povos antigos. Assim divaguei pelos papiros:

    — Será que a profissão de papiloscopista poderia ter a ver com aqueles vibrantes papiros? Ou seriam pupilas? Afinal, ela era a minha menina dos olhos. A pupila fica no centro da íris, também pode ser um botãozinho ou um mamilo. Violeta era minha pupila, que também apreciava os fósseis. Seria então paleontologia a tal da profissão? Quem sabe minha pupila seria uma cientista que estudaria as formas de vida existentes no passado. Ao menos, para uma mãe, parecia mais palatar esta opção.

    Ela adorava carimbar. Carimbava as mãos, dedos e pés , com tinta ou carvão. Carimbava até o rosto na areia da praia. As visitas na nossa casa já sabiam do passe de entrada: seriam carimbadas por Violeta, que construía um cadastro de gente de forma obsessiva. Até que ela começou a desenhar papilas dérmicas, desenhava com perfeição as digitais, que além de exclusivas, nos fazem companhia até a morte.

    A ameaça desta bizarra profissão me eriçava os pelos dos braços, provocando-me um estranho acovardamento. Hoje acordei desassombrada e decidi perguntar direto a Violeta, mas vacilei e desisti, porque sei que me responderia curta e grossa, com língua
    afiada de pirarucu, com sua lixa que esfola. Digitei mais de vezes para perguntar a IA, e dei de cara com a morte. Não tinha como fugir. É verdade, nós somos todos mortais. Adeus à doce ilusão de eternidade. Isso sim deve ser o nosso fantasma.

    Duro mesmo era saber que minha flor Violeta tinha o desejo de convívio intenso com defuntos. Ela labutaria com corpos mortos, para na superfície de suas peles descobrir a profundidade da sua alma, revelada nas suas identidades fragmentadas, matadas,
    acidentadas, afogadas, carbonizadas. A descoberta me causou horror, o de quem tenta encobrir com o véu do silêncio a palavra morta, como se ela, a morte, fosse um destino inevitável apenas para o outro. Melhor restar-me como espectadora, enquanto violeta testemunharia o nirvana, esse estado inorgânico de seres humanos destituídos ou libertados de qualquer tensão ou pressão de vida.

    — Mãe! O que queres aí?

    Assim atirada, interrompeu a minha pesquisa. Entravei, mas já acalmada por destramar a possível causa do seu desejo papiloscópico! Matei a charada: ela foi atiçada pela síndrome de Nagali. Eis aí a resposta deflagrada. Os portadores da síndrome de Nagali não tem nenhuma impressão digital, um defeito genético raríssimo que impede a formação das digitais no feto. Violeta foi um destes bebês. Antes tivesse perdido suas digitais por acidente. Sem cristas na epiderme das mãos e dos pés, a menina das pontas dos dedos lisas, seria um dia identificada por suas pétalas de margarida.

    Agarrada ao edital do concurso para a função de papiloscopista da polícia federal, Violeta se trancou no seu casulo onde chocava seu desejo fálico. Que insígnia portaria ali no seu distintivo? Talvez conseguisse enfim abrir sua guarda e sairia cheia de marras e nóias à caça dos pobres mortais. Mas não foi fácil como pensava. Tirou de letra as matérias teóricas, aprofundada no direito criminal como se fosse o próprio algoz. Mas como uma mula empacou num pulo.

    A pedra no caminho era um salto para frente, um teste de impulsão horizontal. Se sustentava em barras, mas não conseguia pular com impulso para frente. Eu assistia comovida ao esforço de minha filha, que pulava sem parar. Ficava com dores nos joelhos e articulações, mas não abdicou. Às vezes ela mesma caia de risada, quando nem conseguia sair do lugar. Seria mais uma vez avacalhada! Saltar para frente com propulsão e coragem devem ser um privilégio de poucos, por isso estancamos diante das pedras, olhando desesperados para trás. Mas naquele ano ela pulou, cravando a distância máxima para as mulheres e aterrou na areia do estádio do Maracanã, sob os aplausos da plateia de avaliadores. Desta vez não foi vencida pelo teste de aptidão física, que elimina de cara quase metade dos candidatos. Violeta começou aos 25 anos e só teve êxito aos 33 anos. A mais velha papiloscopista daquele ano, uma façanha só possível pelo impulso louco do desejo. A sua obstinação era rastilho de pólvora.

  • No dia seguinte

    O Zé balançou a cabeça, recostou-se no sofá, acariciando os cabelos, a cara, as orelhas, o nariz. Quando chegou no nariz, ele acordou. Olhou a Cida do lado, sardentinha, de olhos claros.

    Eram mais de três horas da tarde, e ele dormindo. Um gosto de cabo de guarda-chuva na boca! A Cida falava que tudo bem, ele ficou meio alegre ontem à noite, mas quem é que não ficou?

    Todo mundo achou o Zé engraçado, só o Boi que ficou meio contrariado. O Boi é assim, é só alguém chegar muito perto da Zefa. E a Zefa até que estava gostando da conversa, só ficou chateada quando o Zé derramou molho de macarrão nas costas dela.

    Todo mundo adorou o Zé no jantar. O dono do restaurante é que ficou preocupado, mas bem que ele estava gostando. O Zé cantava bonito, o dono do restaurante só tinha medo de que os vizinhos chamassem a polícia com tanto barulho.

    O Zé cantou sem parar, por mais de uma hora. Quando cantou aquela dos políticos fazendo strip-tease no bordel, todos exigiram silêncio, aos gritos. Ninguém queria perder nada. Quando os protestos acabavam, o Zé recomeçava.

    A Cida insistia para o Zé jantar, mas quem diz dele comer alguma coisa! Quando o garçom se aproximava, o Zé repetia e repetia que era irmão dele, que a mãe tinha separado os dois porque eram muito feios. O garçom ficou puto da vida.

    Mais puto ficou o cara no fundo do salão, aquele da gravata vermelha e amarela que o Zé queria arrumar, e quase enforcou o homem! Ainda bem que a Cida conseguiu levar o Zé embora, trançando as pernas e tudo. O Zé dava dois passos e caía, e queria
    cumprimentar cada poste, cada árvore do caminho.

    Pior quando o Zé ergueu a perna, querendo mijar, como um cachorrinho num poste.

    Depois abraçou uma árvore, disse que a copa, os galhos, as folhas brilhavam ao luar.

    Disse que a árvore tinha uma aura, que ele podia ver a alma da árvore.

    A Cida acabou ficando encantada com o Zé. Achava que aquela noite tinha sido a mais importante da vida deles. Agora à tarde ela acariciava o Zé com uma ternura imensa.

    Até lhe serviu mais um gole de conhaque, para rebater.

    O Zé bebeu e ficou olhando a Cida, com um olhar alheado – quem era a Cida?

  • A loja do Joca

    — Oi! Vó do Digo, Vó do Digo! Eu tenho uma loja. Você quer comprar o que eu vendo?

    — Mas onde fica essa loja? Eu pergunto, com a maior naturalidade.

    — Peraí. Vou lá buscar.

    E saiu saltitando, feliz da vida com a possibilidade de fazer mais uma venda.

    Essa é a segunda empreitada comercial do Joca.

    Antes disso, foi caubói. Tinha cavalo, chapéu preto e colete de franjas.

    Depois virou dono de um caminhão de gado.

    Também foi tratorista.

    Mais tarde resolveu abandonar, por algum tempo, as atividades ligadas ao campo e entrou para a área da tecnologia.

    Nessa época quase desapareceu. Já não era visto com a mesma frequência de sempre.

    Acho que descobriu rapidamente que telas não conversam.

    E o Joca gosta é de gente.

    Gosta de contar novidades, perguntar da vida dos outros, dar notícias, ouvir histórias.

    Logo abandonou a carreira tecnológica e voltou ao convívio humano.

    Mas, se depender da herança, tanto da genética quanto da financeira, ainda acredito que acabará no setor rural.

    Foi então que ouvi:

    — Mãe, o que você está fazendo aí? Venha. Nós já vamos almoçar.

    — Já vou. Estou esperando o Joca.

    Lá vinha ele, carregando sua loja.

    — Tia, você também quer comprar?

    — Quero. O que você vende?

    Ele respondeu com toda a naturalidade do mundo:

    — Eu vendo lápis… ou melhorias.

    Eu esperava qualquer coisa. Mas desta vez, confesso que fugiu ao meu alcance! O que ele queria dizer com “lápis e melhorias”?

    Abriu uma caixa de papelão, colocou-a sobre a cadeira e levantou a tampa.

    Lá dentro havia três ou quatro lápis.

    Olhei para a caixa e perguntei:

    — E as melhorias? O que são?

    Sem dizer uma palavra, pegou um apontador.

    Ergueu-o diante de mim, como quem apresenta uma grande invenção.

    — Se você já tiver um lápis, eu vendo só a melhoria.

    Fez uma pequena pausa.

    — Mas, se você não tiver, eu vendo o lápis… e dou a melhoria de graça.

    Na lógica dos adultos, aquilo talvez nem fizesse sentido.

    Na lógica do Joca, fazia todo.

    Porque, para ele, um lápis nunca é apenas um lápis.

    Sempre pode melhorar.

    E talvez seja justamente isso que a infância saiba fazer como ninguém: enxergar melhorias onde nós só vemos um apontador.

  • O dia do aniversário

    Doze horas em ponto, os sinos da igreja de Santo Antônio de Pádua anunciavam. No dia em que completava 50 anos, Joel saiu apressado do escritório do advogado e, ainda dentro do elevador, passou a organizar mentalmente as tarefas da tarde. Memória privilegiada, sua melhor agenda sempre foi a própria cabeça. Era quinta-feira, e apenas no sábado uma celebração ocorreria. Reunião modesta, só para os mais íntimos, como se costuma dizer. Afinal, nunca gostou mesmo de comemorar aniversários. Ficar mais velho não é fato que mereça ser festejado, caramba. Mas a filha insistiu: data redonda, meio século, não se pode ignorar uma ocasião como essa. Em frente ao prédio do advogado, uma rua de grande movimento. Teria de atravessá-la antes de alcançar o metrô. Um pouco mais adiante, uma passarela de pedestres. Consultou o relógio e decidiu que não valia a pena utilizá-la. Perderia tempo e, além disso, jamais se sentiu confortável caminhando em cima delas. Os carros passando em alta velocidade lá embaixo causavam-lhe certa aflição, além de taquicardia, pernas bambas e suor nas mãos. Um automóvel vermelho vindo ao seu encontro é a última imagem de que se recorda. Veículo grande, desses projetados para uso em terrenos acidentados. Estendido ali, no meio da pista, julgou que talvez tivesse sido atropelado. Em torno de si, ouvia vozes, muitas; porém, não conseguia entender o que estavam dizendo. Homens e mulheres falando alto, mas era como se aqueles indivíduos se comunicassem numa língua estrangeira e pouco familiar, algo assim como basco, japonês ou turco. Pensou então na filha única e na festa que não aconteceria. Pensou também na pilha de livros a sua espera na estante do escritório, livros que não leria nunca. Pensou na esposa e se deu conta de que ela ficaria viúva. Bem, ao menos não seria mais necessário levar adiante toda aquela burocracia do divórcio. Pensou nos poucos amigos que tinha. Sempre fora um homem introvertido, reservado. Um ou outro talvez sentisse sua falta. Pensou na chefe. Pensou, sem conseguir evitar uma ponta de orgulho, que seria difícil para ela encontrar alguém capaz de substituí-lo com a mesma eficiência. Pensou nas fantasias sexuais que não teria chance de realizar. Sempre fora tão travado… Logo agora que se sentia mais solto, pronto para experimentar novas sensações… Paciência! Pensou nos pais velhinhos, companheiros de uma vida inteira, morando sozinhos no casarão de Vila Esperança. O casarão que se recusavam a abandonar, onde ele e a irmã Jane passaram a infância e a adolescência, local de descobertas e brincadeiras em companhia de primos e vizinhos, de uma vida ao ar livre que já não existe. Pensou nas galinhas, criadas com esmero e dedicação pela mãe no quintal. Nos ovos saborosos de gema escura e nos pintinhos que elas produziam. Nas brigas com a irmã pelo direito de nomeá-los. Nos castelos imponentes, construídos no jardim com terra, água, pazinhas de plástico e competência. Sua vocação para a arquitetura havia nascido ali, não tinha dúvida. Pensou ainda nas flores cultivadas pelo pai. Viçosas e coloridas, faziam os passantes pararem diante dos canteiros a fim de admirá-las. Nos pássaros de vários tipos que, sem pedir autorização, faziam morada nas árvores da propriedade. Pensou na horta atrás da casa, onde Rosalina ia buscar a salada do almoço. Por fim, pensou em Rex, bolinha de pelos preta e saltitante, companheiro fiel e amoroso. Todo esse esforço de recordação o exauriu. Por que todas essas imagens se faziam presentes justo naquele momento? Eram muitas as lembranças a tumultuar-lhe o cérebro. Elas chegavam sem que ele pudesse evitar. Simplesmente brotavam, como a água limpa brota às vezes das pedras. Tentou esvaziar a mente, não pensar em mais nada. Sim, essa era a coisa certa a fazer. Será que depois de velho estava ficando piegas? De onde todo esse sentimentalismo havia surgido? Com a morte dos pais, a casa provavelmente seria vendida pela irmã. Seu maior desejo se tornaria realidade. Não teria dificuldades em convencer a sobrinha. Obstinada, Jane sempre acabava conseguindo tudo o que queria. No local, é possível que um edifício de 49 andares, batizado com algum nome estrangeiro, despontasse. Quem sabe um prédio comercial, com lojas e escritórios… Junto com a casa, toda a história da família iria ao chão. Em torno de si, Joel continuava a ouvir vozes e barulhos diversos. Pessoas de branco pareciam tentar socorrê-lo. Ele louvava o empenho delas, embora tivesse quase certeza de que este resultaria inútil. Inútil seria também a tentativa de impedir a irmã de vender o casarão. Talvez ela nem sequer esperasse a morte dos pais. Talvez os pusesse num asilo — ou casa de repouso, lar geriátrico, pousada ou recanto para idosos, eufemismos que designam tão somente o local onde filhos desalmados abandonam os pais. Nossa, que exagero, agora estava sendo cruel demais com a única irmã. Ela não era nenhuma bruxa, ora bolas, com toda a certeza amava os pais. Só era da opinião de que eles deveriam deixar a casa, isso sempre achou mesmo e nunca escondeu de ninguém. Era tudo muito amplo, argumentava. Nada justificava que continuasse a viver ali um casal de idosos dependentes e de saúde frágil. Sentia-se cada vez mais fraco e experimentava dores terríveis pelo corpo inteiro. Com as últimas forças que lhe restavam pensou finalmente que deveria ter utilizado a passarela, que teria sido muito bom poder reunir aqueles que o amavam em sua festa de aniversário e que uma decisão irresponsável pode transformar uma existência de forma definitiva.

  • Habite-se!

    Habitar é um estado de bem-aventurança. Nômades ou sedentários, sempre procuramos o nosso lugar. Talvez a casa seja a palavra mais valiosa do mundo, ao lado do amor.

    Vai muito além de um conjunto de paredes, cômodos e teto. O corpo também é casa, a pele que habita a superfície da sua cor, sente frio e calor; a alma que habita a profundidade, sente no exílio, falta e saudade.

    Polvos, moreias, tubarões, passarinhos, também têm seu ninho, sua toca. A casa é o destino da rua, para onde levamos nossas conquistas e feridas e de onde podemos sonhar.

    Como num casulo, nela, abrigamos nossos ovos de ouro. Seja própria, não própria ou até mesmo imprópria.

    A casa desde sempre fez parte do nosso mundo imaginário. A da infância nem se fala, fica marcada tal qual prensada por um ferrete em brasas. Perseguimos numa corrida de obstáculos, o ideal do doce lar, àquele lá de trás, perdido desde sempre, cujo endereço era a barriga de mãe.

    Habitados pelo inconsciente, passamos a vida desejando retornar a este estado de puro prazer e assim emprenhamos de significantes a nossa casa edificada, como se a sua posse nos servisse como uma insígnia fálica.

    De repente e por assombro, metem os pés nos nossos peitos, arrombando as portas. Escancara-se assim o nosso templo sagrado. A casa invadida, outrora pensada tão protegida, cai. Mas içada, remonta-se um novo castelo e assim deixamos a nostalgia ao relento, no sereno de um tempo que já passou.

    Habite-se! Na sua própria construção, nesse lugar de afeto que poderá ser habitado com segurança. Conceder-se a propriedade do seu desejo, pode ser o maior de todos os bens. Aproprie-se do seu nome próprio, este que lhes foi dado com tantas marcas e histórias. Autorize-se das suas palavras e narrativas, essa pode ser sim, a chave tão desejada. Mas antes de destravar a engenhosa fechadura, e adentrar na casa idealizada, assegure-se que a escavação foi profunda e que a esculpiu com delicadeza. Sem esquecer de despejar os restos e as sobras. Despeje-se! Do gozo, que por natureza, carrega em si, prazer e dor. Despeje-se! Do eu cheio de si, que se desborda pela porta.

  • A Despedida

    Estranho ver você aí deitado, fisionomia serena. Por que você não era assim a maior parte do tempo, Samuel? Tenho a impressão de que você vai se levantar a qualquer momento e começar a falar aquelas coisas sem sentido que costumava dizer. Você não percebia que seus argumentos eram frágeis, sem coerência? Suas cenas de ciúme bobas. Samuel, aquilo era apenas meu trabalho, era tudo profissional. Sério. Nunca houve nada. Nada mesmo. Olha em volta, não veio quase ninguém. Sua mãe, seu irmão e sua cunhada mal me cumprimentaram. Nem parecem tão tristes. Ficaram surpresos com a minha presença. Não vejo nenhuma senhora Samuel Arantes. Pra falar a verdade, nunca soube se existiu alguma depois de mim. Claro que você deve ter tido seus casinhos por aí. Presta atenção, vou fazer uma coisa. Quero que você leve minha aliança com você. Sim, eu ainda guardo. Poderíamos ter sido felizes juntos, ter construído uma relação sólida. Mas você era imaturo, queria as coisas sempre do seu jeito. Acabou que não tivemos filhos. Não passamos nossa herança adiante, não deixamos na terra nossa semente. Ainda bem, nunca tive vocação pra maternidade. Acho que você também não teria sido um bom pai. Pra onde será que você foi? Tomara que para um bom lugar. Apesar de tudo, você não merece sofrer. Sua alma já está por aí, flutuando no ar, observando as pessoas de modo furtivo, será que já deu tempo pra isso? Samuel, você já sabe que morreu? A gente ouve dizer que muitas pessoas demoram a descobrir. Bem, meu lado espiritual não é tão desenvolvido, não posso falar com propriedade sobre esses assuntos. Pensei que conseguiria refazer minha vida depois da nossa separação. Não foi isso que aconteceu. Mas sempre é tempo, né? Trouxe uma coroa. É a mais bonita de todas. São apenas duas, ainda assim é a mais bonita. Fiz questão de colocar meu nome na faixa pra todo mundo saber. Ainda não tô acreditando. Nem consegui chorar, embora ache que devesse. Não, não, não. Não vou usar técnica de atriz pra isso. Ou aconteceespontaneamente ou nada feito. Samuel… Eu te perdoo. Você me perdoa?

  • O coração negro do futebol

    Àqueles que acompanharam a Copa do Mundo não deve ter passado despercebida a presença maciça de jogadores negros nas partidas. Não me refiro obviamente às equipes da África Subsaariana (Cabo Verde, Costa do Marfim, Congo…) que, por sinal, a cada edição vêm melhorando seu desempenho, enfrentando de igual para igual seleções consagradas do Primeiro Mundo. E sim às poderosas esquadras europeias, que, apesar do sobe/desce dos últimos anos, permanecem na linha de frente do futebol.

    Em outro extremo, chama a atenção uma notável exceção: a Argentina, em cuja seleção não há sequer um único jogador negro. Resultado de uma política de ‘embranquecimento’ levada a cabo durante o século XIX, derivada do projeto colonialista praticado. O Estado portenho incentivou fortemente a imigração europeia e executou um recrutamento discricionário de negros para as frentes de batalha. Sem falar da incidência de epidemias que atingiu severamente os segmentos mais pobres. Tais fatores contribuíram em encolher drasticamente a presença da etnia no país. Esses movimentos fizeram com que a população negra fosse reduzida ao longo da história, ao que se estima, de 30% para menos de 1%, nível que se mantém até hoje. O resultado desse processo de exclusão racial é percebido dentro e fora dos estádios e ajuda a compreender as lamentáveis cenas de racismo expressas pela torcida celeste e… branca.

    A situação de nosso vizinho sul-americano é intrigante. Separados apenas por uma fronteira de 1200 km, partilhamos com nossos hermanos um passado colonial marcado pela escravidão e muitos pontos em comum em nossas culturas, incluindo uma paixão quase religiosa pelo futebol. No entanto, enquanto o Brasil construiu uma sociedade miscigenada (ainda que marcada por desigualdades e racismo estrutural), no país ao lado os negros foram praticamente banidos da vida política e social.   

    A Europa percorreu caminho inverso. Nas últimas décadas, o continente recebeu grandes levas de imigrantes africanos que se tornaram cidadãos franceses, ingleses, holandeses, belgas, alemães. Muitos deles, claro, tornaram-se craques de bola.

    Antes da virada do século, o padrão dos jogadores europeus era bem diferente: atletas brancos leitosos, quase róseos, robustos, bem nutridos, disciplinados e impecavelmente preparados que praticavam um jogo quadradinho, previsível e altamente técnico, frio como os Alpes austríacos, preciso como os relógios suíços. Conservando esses atributos, o futebol europeu acumulou admiráveis conquistas.

    Até que sua hegemonia foi quebrada em 1958 por um grupo de garotos morenos franzinos, bons em driblar e improvisar, provindos de um país tropical do Hemisfério Sul. Entre eles, um ‘negrinho’ camisa 10 que aos 17 anos cativou o mundo com seu toque genial, sendo entronado ‘rei do futebol’.

    A partir daí, para manter sua relevância, o futebol europeu resolveu mudar de tonalidade. Essa transformação ficou particularmente evidenciada na seleção francesa 70% black de 2026, cuja formação escancarou ao mundo um país de cidadãos com características físicas diferentes daquela que o mundo se acostumara a assistir. Alguns conferiam a esse fenômeno um tom de deboche, insinuando, numa expressão escamoteada de racismo, que a seleção da França não era integrada por autênticos franceses, como se um dos critérios necessários para definir a nacionalidade fosse a cor da pele.

    Não se tratava, é bom que se ressalte, de jogadores estrangeiros naturalizados e sim, em sua maioria, filhos ou netos de imigrantes nascidos ou criados na mesma terra de Charles De Gaulle, Edith Piaf, Monet e Simone de Beauvoir. Pessoas que participaram da construção da sociedade gaulesa contemporânea, mais plural e heterogênea. Que entoavam ‘A Marselhesa’ com o mesmo fervor dos demais e que ali estavam para dar seu sangue (igualmente vermelho) pela nação que os acolheu e exaltou com pioneirismo os ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade.

    Nobres valores que parecem vir sendo deixados de lado nesses tempos em que os fantasmas do racismo e da xenofobia têm aflorado, ameaçando até os campos presumivelmente neutros do esporte, ambiente em que o princípio da equanimidade de condições deveria prevalecer. Derivados da mesma lógica que inspirou o mito da superioridade ariana, desmontado quando Jesse Owens cruzou a linha de chegada bem à frente dos atletas que Hitler colocou na raia para se tornarem imbatíveis.

    Hoje, a presença marcante de negros no ‘rude esporte bretão’ já não causa estranheza. Se o futebol é branco de nascimento, carrega em sua face nova coloração. Parodiando Vinícius de Moraes, se hoje ele é branco na estratégia, é negro demais no coração.

    E essa metamorfose foi além do futebol. Basta ver a Corrida de São Silvestre, em que a reiterada superioridade dos filhos da Mama África tornou a competição desinteressante. Não é diferente no boxe, no basquete, no atletismo e em outras categorias olímpicas em que os negros têm monopolizado as grandes conquistas. Ao contrário do que ocorre em modalidades elitistas como tênis, golfe e fórmula 1, em que o domínio de branquelos bem formados permanece. 

    Fenômeno semelhante acontece na música popular. Do jazz ao blues, do rock’n’roll ao soul, do mambo ao reggae, do samba ao maracatu, é difícil imaginar a trilha sonora do mundo sem a contribuição decisiva de artistas como Chuck Berry, Jimi Hendrix, Miles Davis, Duke Ellington, Louis Armstrong, Billie Holiday, Bob Marley, Stevie Wonder, Aretha Franklin, Michael Jackson, Ray Charles, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Cartola, Pixinguinha e tantos outros.

    Não se trata de talento natural, inato, como se poderia erroneamente deduzir. Mas da capacidade humana que demonstraram de transmutar aflição em criação, exclusão em expressão, resistência em excelência.

    A situação no campo das ciências merece reflexão. A predominância de cientistas e pensadores brancos não pode ser dissociada das condições que favoreceram acesso à educação, instituições de pesquisa e financiamento. A menor participação de negros nesses espaços está relacionada a barreiras econômicas, sociais e políticas, jamais à limitação de capacidade.

    O mesmo ocorre em manifestações artísticas tradicionalmente associadas às elites. A música clássica, o balé, as artes plásticas e mesmo certos circuitos literários, continuam refletindo um padrão menos diverso. Essas expressões dependem de um capital cultural difícil de acumular: aulas precoces, instrumentos caros, escolas especializadas e acesso a instituições pouco permeáveis à segregada população negra.

    Durante séculos, os padrões de valorização cultural privilegiaram referências europeias, enquanto as contribuições africanas e afrodescendentes foram sistematicamente marginalizadas. O reconhecimento de sua importância na música, no esporte e em outras manifestações culturais representa, antes de tudo, a reparação por uma injustiça histórica.

    Assim, a mesma força que molda o coração negro do futebol e dita o ritmo das pistas de dança e dos palcos reluzentes precisa romper as barreiras intransponíveis das universidades e dos centros inacessíveis de poder. O talento e a resiliência que transformaram o esporte nascido inglês em espetáculo mundial de pluralidade são os mesmos que têm potencial para revolucionar a ciência e o pensamento global. Desde que as condições de largada sejam as mesmas. A história mostra que o protagonismo negro já não pede licença. Ele se impõe pelo mérito, provando que, se a tática do mundo insiste em ser monocromática, em seu peito pulsa um coração multicor.

  • O que fica?

    Ganhar é sempre bom?

    Depende.

    Pergunte a quem subiu na balança após um fim de semana prolongado:

    — Ganhei dois quilos.

    Nesse caso, “ganhar” não soa como vitória.

    Também se perde um compromisso, a paciência, o medo, uma oportunidade ou alguns quilos. A palavra é a mesma, mas o sentido muda conforme o que vai ou fica.

    As palavras têm faces.

    Como moedas, pessoas e quase tudo. 

    Outro dia ouvi alguém dizer:

    — Passou.

    Passou o quê?

    A Copa? A esperança da Argentina? Metade do ano?

    A dor? A vontade? Uma moda? A oportunidade? A festa?

    Tudo passa.

    E, quase sempre, isso é bom.

    O problema nem sempre está no que se foi, mas no que insiste em ficar.

    As vezes, a lembrança que fica dói. A dúvida corrói.

    E pior

    Fica a frase incômoda: “Eu poderia ter feito diferente.”

    Talvez sim. Ou não! 

    É fácil julgar depois. Do lado de cá, todos parecem saber mais. Analisamos gestos, palavras e silêncios como se tivéssemos todas as respostas.

    Não tínhamos.

    Fizemos o possível com o que éramos: consciência, experiência, medo e coragem.

    Ainda assim, quando algo não sai como esperado, não nos contentamos com a frustração. Acrescentamos peso.

    Não consegui.

    Logo, não sou capaz.

    Perdi.

    Logo, não merecia.

    Errei.

    Logo, sou um fracasso.

    Não.

    Uma coisa não define a outra.

    Não alcançar algo não torna ninguém incapaz. Um resultado é só um acontecimento, não uma sentença. Uma perda não mede valor. Um erro não apaga acertos.

    Como se não bastasse o desconforto, ainda nos condenamos.

    Eu me recuso.

    Recuso a ideia de que todo ganho seja vitória.

    E também a ideia de que toda perda seja derrota.

    Há ganhos que pesam, e perdas libertadoras. 

    Há portas que não se abrem porque não eram nossas. Caminhos interrompidos que revelam outros. Conquistas que brilham por fora, mas cobram por dentro.

    Toda moeda tem dois lados.

    Não um bom e outro ruim.

    Isso seria simples demais. Ambos pertencem à mesma moeda e têm valor. É preciso virá-la, observá-la, entender o que cada face revela.

    Talvez o verdadeiro otimismo não seja acreditar que tudo dará certo.

    E sim entender que, mesmo quando não dá, nem tudo está perdido.

    Que não fique, depois de tudo, uma injustiça contra nós mesmos.

    Passou.

    Tudo passa… 

  • Quem falou?

    Há palavras e frases que, de tanto serem repetidas, acabam se esvaziando. Ou talvez já nasçam assim: sem sustentação.

    Uma delas sempre me intriga.

    — Descansou.

    Não falo do descanso de um fim de semana, do fim do expediente ou das férias.

    Falo daquele outro.

    Morreu?

    Coitado… descansou.

    Morreu e descansou.

    Sempre me pergunto: quem decidiu isso?

    Quem garante que aquela pessoa estava cansada?

    Talvez ainda tivesse planos, uma viagem marcada, um livro aberto sobre a mesa, alguém para reencontrar.

    É claro que pode acontecer.

    Há quem enfrente uma longa doença, um sofrimento sem alívio, um corpo exausto.

    Mas também pode não ser assim.

    Talvez estivesse cheia de vida, de projetos e de sonhos.

    Ainda assim, dizemos que descansou.

    Há muitas frases assim, que circulam de boca em boca sem jamais serem interrogadas.

    “Foi Deus quem quis.”

    “Era a hora.”

    “Tudo acontece por uma razão.”

    Expressões herdadas, repetidas quase por reflexo, apenas porque nos acostumamos a elas, chegando antes mesmo do pensamento.

    Diante do que não sabemos explicar, criamos  atalhos. 

    Ao não sabermos  lidar com a perda, recorremos a fórmulas prontas e entregamos frases feitas, como se pudessem preencher o espaço que a ausência deixou.

    Isso pode acontecer porque estamos assustados, porque a dor do outro também nos afeta ou simplesmente porque repetir é mais fácil do que refletir.

    Em momentos difíceis, buscamos apoio nas palavras.

    Ainda assim, surpreende que certas expressões atravessem gerações sem que nos perguntemos se ainda fazem sentido. Ou se fizeram um dia!

    Podemos adotar despedidas mais verdadeiras.

    Simplesmente um abraço.

    Um olhar demorado.

    Ou palavras simples, mas cheias de significado.

    “Vou sentir falta dele.”

    “Ela fará muita falta.”

    “Não sei o que dizer.”

    O abraço, o olhar, a companhia, o cuidado dizem muito mais do que as palavras conseguem dizer.

    Alguém que prepare um café, ofereça um copo d’água, sente-se ao lado sem a obrigação de preencher o silêncio.

    Gestos simples, quase invisíveis, mas que dizem: eu estou aqui.

    Talvez o desejo de encontrar uma frase para suavizar a despedida não devesse superar a disposição de cuidar de quem ficou.

    Diante da morte, o que consola raramente é o que dizemos.

    É o que fazemos.

  • Era só uma brincadeira

    Cara, na moral, foi só uma zoação. Olha o tamanho da confusão que armaram pra cima da gente, mano! Não dá pra entender esse povo fazendo essa zoeira toda. Dá um tempo! Parece que nunca tiveram 14 anos.

    Era só para tirar um sarro da tia na sala de aula, meu. Essa chata que vive querendo enfiar um monte de caretice na cabeça da gente, uns papos de cidadania, respeito, sociedade, essas coisas. Uns troços nada a ver, que não dão futuro, não rolam grana, não dão engajamento nas redes.

    A ideia bizarra surgiu do nada no recreio. Alguém lançou o desafio maneiro pra ver quem encarava botar os vidrinhos na garrafa de água da tia. O mais doidão assumiu a missão. Bora dar umas risadas.

    A gente puxou o celular pra filmar e botar no Tik Tok. O vídeo ia bombar: sangue, gritaria, esse tipo de coisa sempre viraliza. Mais seguidores, mais visualizações, mais compartilhamentos. Os algoritmos iam pirar, kkkkk.

    Pena que alguns deram pra trás e falaram pra ela que era melhor não beber da água abençoada. Arregaram bonito os traíras. A verdade é que ninguém tava nem aí no que ia dar pro lado da tia. Quando muito ela podia engasgar, sei lá, sangrava um pouco, nenhum drama. Tomava um belo susto pra ficar esperta e parar de encher o saco.

    Podia dar coisa pior? Podia. Vai que a coroa empacotasse de vez. Azar dela. Fazer o quê? A gente não é coveiro.

    Com o piti que a bruxa armou ao descobrir o lance, deixei cair o iPhone. Ainda bem que não detonou a filmagem. Quem ia pagar o preju, isso ninguém fala.

    E ainda puseram a infeliz pra choramingar na internet, dizendo que não queria mais lecionar, ia precisar de tratamento, viajou na maionese. Esse lenga-lenga de vitimismo que a gente já tá por aqui. Vê se te enxerga, mulher! Vai cuidar de teu homem e para de bancar a coitada.

    De qualquer jeito, não ia dar em nada. No máximo, um sermão sacal do diretor, uma suspensãozinha de uns dias, legal pra gente tirar uma folga em casa. E ficava por isso mesmo. No Brasil, ninguém fica na cadeia. Pra nós, menores então, a lei protege de qualquer punição.

    Os otários falam como se a gente fosse bandido. Menos, né. E outra: o professor não é esse santo que vocês pintam. O cara que se mete a dar aula é um fracassado que não conseguiu trampo que dá grana, vive estressado, ganha um salário de merda e passa a sua vidinha miserável em cima de livros, achando que vai mudar o mundo. É um frustrado que só enche a gente de tarefa chata, manda guardar celular e ainda quer se meter em dar lição de moral.

    O que não dá pra engolir é esse monte de trouxa fazendo discurso e caindo em cima. Do nada apareceu polícia, imprensa, quiseram envolver até nossos pais que não tão nem aí. Não tem a menor graça, meu. A gente ia lá saber que vidro cortava garganta e podia matar? Vamos dar um fim nessa tragédia, gente. Chega de mimimi!

    E ainda tiraram do ar o vídeo antes de viralizar. Sacanagem…

    Cadê a liberdade de expressão?

  • O último dia

    O dia ainda não havia amanhecido quando o rádio anunciou neve no mês de novembro pela primeira vez no Brasil. Naquela mesma noite, por volta das 7 e 30, Fubá apareceu sozinho e inquieto, ostentando uma ferida no dorso. Amália logo pensou no mau pressentimento sofrido pela manhã. Sentiu-se culpada, achou que deveria ter tentado me impedir. Denise e Isabel ainda dormiam. Me levantei às 6, tomei banho, comi uma banana e um pedaço de pão, me servi do café preparado por Amália, dei um beijo nela e saí na companhia do meu fiel companheiro. As últimas semanas estavam sendo desanimadoras. Dragas passariam a ser usadas na busca por ouro e diamantes nos trechos mais inacessíveis. O fato é que eu não vinha conseguindo achar nada realmente valioso, capaz de compensar o sacrifício de trabalhar em condições tão desfavoráveis. Alguns dos meus colegas já haviam abandonado aquela parte do rio. Outros estavam prestes a fazer o mesmo. Consumido por dívidas, Ronaldo se matou, Salustiano se afundou na cachaça e vivia vagando pelas ruas sem propósito, enquanto Jorge e Pedro decidiram perseguir a sorte numa cidade vizinha. Eu ainda insistia. Essa situação adversa está por terminar, acreditava. Por volta do meio-dia, resolvi parar para almoçar. Na bolsa, a marmita com feijão, arroz, ovo e um bife, além de pedaços de carne para Fubá. Pus-me a repousar embaixo de uma aroeira. O raciocínio remoía os acontecimentos, e o descanso não durou muito. Minhas costas doíam, a cabeça pesava… A certa distância, via Belmiro, peneira na mão, exercitando seu ofício enquanto cantarolava um samba antigo. Deixe-me ir Preciso andar Vou por aí a procurar Rir pra não chorar… Fubá começou a latir e a agitar-se em círculos. Demorou ao menos uma semana para que os fatos se esclarecessem. Meu corpo, processo de decomposição avançado, foi encontrado encoberto pelo mato por uns moleques que soltavam pipa. Eu havia sido atacado por um tamanduá. As garras do bicho golpearam-me o tórax, causando uma hemorragia fatal.

  • UM DIA DE VERÃO

    Eunice saiu da rede e se instalou na cadeira de palha da varanda. Cruzou as pernas e substituiu os óculos de leitura por outros com lentes escuras. Pôs de lado o livro sobre questões ligadas aos direitos das pessoas com deficiência que vinha lendo nos últimos dias e contemplou o panorama à sua frente. Sorveu dois goles de suco de limão gelado, pousando em seguida o copo sobre a mesinha de centro. Retocou o batom discreto com o auxílio de um espelhinho. Procurou uma posição confortável e começou a meditar. Aos 67 anos, ainda trabalhava como advogada. Quando ingressou na faculdade, quase meio século atrás, julgava ser aquele o caminho ideal para alguém dotado de um senso de justiça tão exacerbado quanto o seu. O exercício profissional bem cedo se encarregou de demonstrar a falácia desse raciocínio. Ao longo da carreira, foram muitas as decepções. A sensação de impotência e de inutilidade era por vezes tão palpável… Atualmente, gostava de escapar da agitação da cidade fugindo rumo ao sítio da serra. No jardim, sua neta de 5 anos, companheira eventual dessas aventuras bucólicas, brincava. Em sua pureza infantil, mexia na terra, rolava na grama viçosa, colhia flores e observava o comportamento dos insetos. A avó estreante se comovia. Em cima do muro de tijolos ao lado do portão de entrada, a menina abria os braços com convicção e gritava: Eu sou o Cristo Redentor! De tempos em tempos, olhava para trás e acenava. E sorria. O sol forte do início da tarde iluminava-lhe o rosto. Como é lindo o sorriso de uma criança. De qualquer criança. Depois que ficou viúva, Eunice passou a não ver graça no apartamento amplo de Copacabana, onde hoje vivia sozinha. Tudo muito repentino, exatamente como costumam ser as tragédias. Uma bala disparada à luz do dia, não se sabe por quem, conseguiu, com a rapidez de um instante, pôr fim à vida de um homem produtivo, competente, amoroso e responsável. Olhando Camila, Eunice se preocupava. Que mundo lhe estaria destinado? Por um momento, desejou ter o poder de congelar o tempo. Ficaria ali, eternamente a olhar a menina, desligada do resto do Universo, convencida de conseguir assim resguardar e proteger aquele ser inocente. De quê? Nem ela mesma sabia ao certo. Em diversas ocasiões, a própria Eunice se sentia abandonada e perdida, carente de um ombro aconchegante. Um beija-flor inesperado e arisco distraiu-a por alguns segundos. Em seu voo assimétrico, a ave negra e minúscula quase se chocou com uma das pilastras da varanda. As duas garrafinhas penduradas no alto representavam um convite a esses pássaros adoráveis. Solitários, em duplas, lá vinham eles. Parados no ar, batiam as asas com avidez, sugando o néctar a eles destinado. Camila circulava agora entre as estatuetas que enfeitavam o jardim, transformando-as, com sua imaginação prodigiosa, em príncipes, heróis, fadas, duendes, seres alados, bichos falantes… De repente, o tempo começou a se fechar. O sol, até então radioso, de vez em quando sumia por trás de nuvens espessas e acinzentadas, formadas sem que Eunice tivesse se dado conta. Um ambiente opaco surgiu. Um vento assobiando fino começou a ser ouvido. Balançava as folhas das árvores, levantava a poeira da estradinha de terra batida diante da casa e desalinhava os cabelos castanhos de Camila. Arrancava dos galhos mangas maduras que salpicavam o solo com um amarelo vivo e gostoso. A ameaça de chuva e as insistentes lufadas de vento fizeram Eunice convocar a neta até a varanda. Ficaram as duas ali, quietas e pensativas, concentradas apenas naquela realidade. De mãos dadas, exercitavam uma cumplicidade que deveria ser natural entre avós e netas. Meia hora depois, com a volta da claridade e de uma tranquilidade aparente, a pequena dirigiu-se de novo ao jardim. Perto de uma roseira ramosa, um marimbondo picou sua testa. Camila gritou de dor. E chorou.

  • GRITO DE GOL

    Um grito de gol não sai de uma superfície plano inclinada: a garganta. Ele irrompe de um outro lugar. Vem do fundo , sinuoso e labiríntico. Vem da pátria, seja verde e amarela, rubro-negra, tricolor…

    Pulsional, berra com a força e velocidade maiores que da própria bola, que estremece a rede, transferindo sua energia cinética para as suas malhas, resvalando no peito e retumbando nas batidas do coração do tocedor.

    Nos traçados da bola, que dribla num tempo lógico, nos projetamos nos talentos dos pés e na alma de quem chuta a bola, que sorri e chora. Transferimos para os jogadores em campo, o nosso ambicioso ideal, desejosos de sermos nós mesmos os campeões e assim teríamos uma constelação cravada nos peitos nus, com astros e estrelas formando figuras imaginárias.

    Nesse jogo renovamos a aposta na improvável vitória. Damos partida no motor do desejo que se realiza quando a bola cobre o goleiro adversário. O grito de gol pula da boca, faz tremer o corpo , como a paixão . Segundos depois do “gozo catártico”,
    retesamos os músculos, atentos, prendemos a respiração.

    Se apaixonar-se é a diminuição do Eu e a hipervalorização do Outro, o gol cai como uma luva nesta fantasia. — Gol! É do Brasil!!!A sexta estrela seria nossa, nos completaria como um álbum de figurinhas e melhor ainda, sem igual no mundo.

    O gol é como o amor. Ambos têm a mesma criativa tática para preencher a falta.

    Mas, se o grito se cala, deixando mais frágeis as solas dos pés, calejamos. A derrota também é nossa, carentes que somos de grandes vitórias. Do lado de fora dos estádios, nos traçados do jogo da vida real, nossas identificações entram em campo.

    Qual é a sua atuação nesta área? Atacante, meio-campista, defensor ou o que espera para agarrar as bolas chutadas?

    Mas as frustrações prorrogam o desejo. “Da próxima vez vai dar certo”.

    A vitória destrói a ilusão ao confrontar o sujeito com o vazio. Esvazia-se a fantasia, revelando que a completude não existe. O que fazer quando os planos tão bem calculados são provocados pelas emoções?

    Em choque, caímos na real: o adversário imbatível é o inesperado. A bola está com o outro e oscila sem concreta explicação.

    O avião da seleção pousou numa outra América, encoberto por um grandioso arco-íris. Estreou no dia de Santo Antônio, o segundo jogo no São João, e depois São Pedro. Sinais de bom augúrio. Mas não houve santo que desse jeito!

    Ciao!

  • Historias antigas…

    Nossa avó morava com a gente.

    Aliás, morava é modo de dizer. Ela fazia parte da casa. Era como a mesa da cozinha, o quintal, o cheiro do café e aquele relógio escurecido  na parede da cozinha, com o antigo passarinho saindo sem pedir licença, para dizer: cuco-cuco.

    Era a nossa melhor amiga.

    Minha, da Laura, dos maiores, dos pequenos, dos primos que apareciam, dos vizinhos e até do cachorro, que, se pudesse escolher, dormia só aos pés dela.

    Todo dia chegava a hora das histórias.

    E histórias não faltavam. A gente nunca sabia o que tinha acontecido de verdade e o que ela aumentava só para deixar o causo melhor. Mas isso pouco importava. O bom era ficar ali ouvindo, enquanto ela mudava a voz para cada personagem, imitava homem bravo, galo cantando e até o cuco do relógio.

    — Vocês lembram do Neguinho do Pastoreio?

    — Aquele que ajuda a encontrar coisa perdida? — alguém respondia.

    — Esse mesmo. Pronto. Bastava isso. A gente se aquietava. Ela ajeitava os óculos, cruzava as mãos no colo e começava.

    — Pois uma vez ele ajudou a encontrar um menino.

    E lá vinha o causo.

    O menino gostava de ver as comitivas passando pela estrada. Quando ouvia o berrante, largava o que estivesse fazendo e corria para a porteira da fazenda.

    Naquele dia, subiu na cerca. Depois no mourão. E acabou sentado lá em cima, todo importante, como se fosse dono da estrada.

    A boiada vinha bonita.

    Gado que não acabava mais.       Peões firmes nos cavalos.               Tudo seguindo devagar, naquele passo de procissão do campo.

    Até que veio um redemoinho de areia.

    — E aí, vó?

    — Aí quase deu o estouro da boiada.

    Ela falava isso arregalando os olhos, e pronto, todo mundo já sentia que a coisa era séria.

    A poeira subiu, os bois se agitaram, os peões perderam a visão por alguns instantes. Quando a ventania passou, a boiada estava ali, mais ou menos nos eixos.

    Mas o menino tinha sumido.

    Chamaram. Procuraram de um lado. Procuraram do outro.

    Nada.

    O chefe da comitiva desceu do cavalo, tirou o chapéu, ajoelhou-se no chão e fez uma oração ao Neguinho do Pastoreio.

    Mal terminou o pedido, ouviu-se um choro.

    O menino estava caído atrás da placa grande da fazenda, coberto de poeira, assustado, mas inteiro.

    Tinha despencado do mourão durante a ventania.

    — Foi o Neguinho que salvou ele, vó?

    — Foi quem ajudou a achar.

    E ela encerrava assim.

    Sem jurar.

    Sem duvidar.

    Deixando a gente acreditar no tanto que quisesse.

    Hoje, quando penso nisso, fico imaginando que história minha avó contaria do mundo atual.

    Talvez eu chegasse aflita, com a bolsa revirada, dizendo:

    — Vó, perdi meu celular.

    Ela nem levantaria muito os olhos.

    — Já procurou direito?

    — Já.

    — Na gaveta?

    — Foi onde procurei primeiro.

    — Debaixo da almofada?

    — Também.

    Aí ela suspiraria, com aquela paciência antiga que só avó tem, e diria:

    — Então pede ajuda ao Neguinho do Pastoreio.

    — Mas, vó, como ele vai achar celular?

    E ela, muito séria:

    — Minha filha, hoje em dia até santo deve usar GPS.

  • O VÔ ZÉ

    Quando o vô Zé estava para morrer, pediu para sair de casa. Fraquinho, não parava em pé, mas quis por força sair no pomar.

    – Eu quero abraçar as minhas árvores – disse.

    Mal balbuciava as palavras, mas insistia:

    – Eu plantei essas árvores. Vi crescer que nem minhas filhas. Eu quero abraçar minhas filhas pela última vez.

    Tive que carregá-lo nos braços. Não aguentou abraçar mais que três árvores. Fez questão de abraçar a mangueira de manga-espada, no centro do pomar, a jaqueira e uma jabuticabeira do mato, enormes.

    – Agora posso morrer quase feliz – disse, com os olhos marejados de lágrimas.

    Não pudera sair até o pasto, abraçar a grande figueira e as paineiras com seus espinhos.

    Pequenininho nos meus braços, segurando no meu pescoço, olhou o cafezal ao longe:

    – Eu plantei cada uma dessas mudinhas. Elas falam comigo, me pedem a bênção.

    Enxugando as lágrimas com a manga da camisa, ergueu o braço direito.

    – Um pai que é pai conhece os seus filhos – concluiu, abençoando.

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