Contos

O Bito

Juca abriu a janela e olhou a noite – o cheiro úmido da noite. Aspirou fundo e sorriu: tinha que ser hoje. Puxou a cadeira, montou a cavalo na janela, num instante estava do lado de fora. Foi tateando a escuridão, até acostumar a vista. Os pés descalços afundavam na terra vermelha – uns poucos passos e estava junto à cerca.

Deitou-se no chão – cuidado o arame! – e rolou para o pasto das vacas.

Agora muita atenção, uma chifrada ia estragar tudo.

Enxergava melhor – a noite até que clara, a lua um balão amarelo, manchas de fumaça, espargindo um halo de claridade, e as estrelas brilhantes, infinitas.

Devia de haver mil estrelas no céu – Juca não sabia imaginar um número tão grande: um mil, um milhão. Abre a boca pasmado – quantas!

Nenhuma luzinha na terra – o pai apagara o lampião de querosene, a última lamparina. No céu, uma festa – as estrelas, lamparinas trêmulas de alegria.

Reconheceu as Três Marias, o Cruzeiro do Sul – Por que esses nomes? Precisava de conhecer mais nomes das estrelas? E das coisas? Não; não fazia falta.

No pasto escuro, acariciando os nós do coqueiro – nem um tiquinho de medo.

Tinha as vacas, um perigo a Mimosa, mas estava acostumado. O pai ralhava – inútil, homem não tem medo. Oito anos, calcinha curta, pé no chão – um homem.

Não distinguia a copa do coqueiro, mancha balouçando lá no alto. Bom de trepar – impossível, as perninhas desajeitadas.

Um barulho – a respiração das vacas ali perto, bufando, ruminando com prazer a cana da tardezinha.

Deu uma corrida até a paineira.

Se o touro Marrão? Fica apartado das vacas, mas – quem sabe? A casca grossa da paineira, o melado do leite dela – uma árvore bonita, florida como um jardim. E os espinhos? Se o Marrão, não dava para se proteger num galho.

Também, nunca precisou correr de um boi. Estufou o peito e foi andando devagar até um outro coqueiro.

A aragem fresca da noite, o capim molhado – uma sensação agradável. Afundou o pé num monte de bosta. Não era ruim – afundou o outro também. Diz que estrume de vaca é bom para curar frieira. Juca não tinha frieira, mas era quentinho – ele gostava. Um cheiro verde, forte, saudável.

Saiu arrastando os pés, esfregando no escuro da grama, sem pressa. Abraçou o coqueiro – mais uma paradinha.

Escutava o silêncio. Muito longe, um longe muito negro, a água clara – mal se ouve – gorgoleja. Uma rãzinha – serenata, quem sabe? – e um grilo fazendo coro. Podia que a cantiga das estrelinhas.

As vacas resfolegam. É tudo uma paz, as vozes da noite modulando o silêncio. Por que não uma coruja? As corujas vivem de noite – compenetradas, todo um ar de sabedoria. Nunca uma coruja à noite – Juca viu de dia, num mourão à distância. O bichinho tão sério, dormindo, ou fechado em si, ruminando as imagens do mundo – a aparência de velhice, tão antigo, jeito de quem conhece.

Medo nenhum. Um saci, gostaria de ver um saci. Não viu nem as tranças que o moleque faz nas éguas. Diz que ele aparece, chamando. Põe a cabeça de um lado e outro do coqueiro, se escondendo, e assobia. Duas, três vezes – saci, nada. Chama: Saci, ciriri… ci, ci!

Ah, o pito do negrinho soltando estrelinha, no escuro – umas coisas que careciam de ser verdade.

A mula-sem-cabeça – sem cabeça e abanando as orelhas no vento. O lobisomem – devia de ser bem engraçado. Da varanda se avista o telhado da casa do Tio Luís – a prima Isabel perseguida por um lobisomem, em cima da porteira e o bichão mordendo o vestido. Dia seguinte o noivo Zezão tinha fiapos de pano nos dentes? Ninguém não desconfiou – os dois noivaram demais, pularam cerca, se emaranharam nos espinheiros? Juca aprende com a mãe a duvidar – que as histórias eram bonitas, eram.

Ufa, que estou perdendo tempo – dá uma corridinha. O Bito me esperando – desabala pasto a fora. Sobe na tábua na porteira, alcança a taramela grandona – mas, e se o pai escuta? Essa porteira velha ringe nos gonzos. Melhor não. Se esgueira pelo viradouro – enfim, no piquete dos bezerros.

Qual o Bito? Só chamar, ele vem. Baixinho, que o pai – lonjão, mas o pai inventa de escutar até pensamento. Bito! Bito!

Um vulto se aproxima – é o Bito? Maior, mais magro. Os bezerros, a maioria mansinhos – Juca vai passando a mão, um por um: conhecer pelo tato.

O Bito é preto – como, no escuro? A estrela branca na testa – mas, e o escuro? O Bito é preto dum preto vivo, um preto que brilha de tão preto – perceberia o brilho?

Peludão – fácil, com o tato. E eu não ia conhecer o meu Bito? Enfia o pé num buraco de tatu – que susto! Medo de tatu? Franze a testa, empina a cabeça – tenho medo, não.

Ui! Novo susto – uma lambida na cara: Oi, Bito. Abraça o bicho – Saudade, negão. Nova lambida – Juca, um beijo na orelha, em resposta. E um tapa nas ancas, de amigo.

Preocupado, Bito – a ameaça de uma lágrima, ele que nunca chorou. As mãos na cabeça do Bito, cabeça contra cabeça se esfregando. Amigão, perder você – não quero, não. Cada ideia – ouvira a mãe, que tinham que mudar para a cidade, não podiam esperar mais. E tudo por culpa dele, o Juca – Está crescendo esse menino, assim no mato, vira bugre.

O pai ria, não fazendo caso. Mas tinha mais alguma coisa no ar: o sítio não produzia como antes, outra colheita perdida – não iam agüentar.

O Juca não entendia desses assuntos – e não morar mais ali, ideia tão remota, invencionice, onde se viu?

Mas porém uma outra preocupação começa a bailar na sua cabecinha: estava crescendo, o

Bito cresce mais rápido ainda – breve, breve, ia perder o Bito. Breve, breve o Bito ia ser um garrote, um boi, um tourão. Já se viu um touro se chamar Bito? Até o nome – Bito, era uma vez.

E se matassem, carneassem o Bito? Isso não – ali um tourão, o maioral, capaz de dar conta de todas as vacas do mundo.

Mas tudo acontece. E ninguém podia impedir o Bito de crescer – cresceu, babau! Adeus, Bito. Nunca mais o seu bezerrinho.

Por isso que tinha vindo essa noite. Não carecia, as coisas não iam ser assim de uma hora pra outra – mas se viu tão agoniado, um aperto no peito, desinfeliz como a morte.

Pulou a janela do quarto – esqueceu tudo. Se sentia livre, sozinho dentro da noite, e fazendo coisa proibida, que bom.

A noite e seus mistérios – Juca nem conhecia a palavra mistério, mas era todo envolvido de seu fascínio, solto na noite. Um molequinho desenxabido, carinha de bobo – que importante, reinando com esse brinquedo encantado, diferente de tudo, a noite.

E aproveitar! Bito, amigão, você me leva? Só uma voltinha!

Se gruda no bezerro, joga a perna direita pra cima, uma, duas vezes – de bunda no chão, embaixo do Bito. Que anda, devagar – Espera, Bito, espera. Bicho inteligente! – para junto de um tronco seco. O Juca – upa! – pula na garupa do Bito. Deita pra frente, se ajeitando. Upa, cavalinho. Upa, upa!

Bito a passos bambos até a porteira – não vão sair? Volta a contragosto, depois de uma carreira – para na beirada do pasto, se encosta no pé-de-goiaba.

Quietinho, Bito. Quietinho! O Juca – no cai, não-cai – fica em pé, em cima do Bito. Segura no galho da goiabeira, procura, esse escuro – olha que uma taturana!

O Bito dá uma corcoveadinha, um passo de lado e – ai, o Juca pendurado na goiabeira.

Tenta firmar o pé no lombo do Bito, que nada – o jeito é descer pelo tronco. Ah, não queria goiaba mesmo!

O Bito procura os companheiros, o Juca atrás – Aqui, Bito, aqui. Bé – a resposta do Bito.

Um bé preguiçoso, de sono – espojando-se ao lado dos outros bezerros.

O Juca ofegando – Faz isso comigo, Bito! Cansado, deita-se também.

Você sempre será o meu bezerrinho. A lembrança – Não quero que você cresça nunca! Eu não quero crescer nunca! Nem nunca que eu quero ir embora daqui.

Aconchega-se abraçando o pescoço do bezerro – hum, tão bom!

Friozinho, o sereno da noite – abraça bem apertadinho o pescoço do Bito. Quentinho!

As estrelas lá no céu, que mundão de estrelas! Dorme, dorme, Bito.

Os vagalumes aqui na terra, um mundão de vagalumes. Abre e fecha os olhos, apalpa o capim – uma coceguinha úmida.

Gozado – como se estivesse no quarto, a janela aberta, os vagalumes sobre a cama, pousando no travesseiro. Corria fechar a janela, acender a lamparina – você aperta a bundinha do vagalume, trec! ele dá um pulo pro ar. Cinco, dez vezes – cuidado não matar o pobrezinho. Guardar numa caixa de fósforos, amanhã você brinca mais.

Às vezes era daqueles pequenininhos, molinhos, chamado de um nome dos mais feinhos: luz-cu.

Pirilampo tem-tem! Seu pai tá aqui, sua mãe também! Pirilampo tem-tem! Não, não estava com vontade de brincar. Dorme, dorme, Bito. Só nós dois, sozinhos no mundo. Já pensou – não existisse mais ninguém, só nós dois?

O Bito olhando com uns olhões deste tamanho – assopra pelas ventas, esfrega a fuça no chão, de cá pra lá, de lá pra cá.

Os vagalumes, estrelinhas – o Juca nem notara os vagalumes, custou. Foi notar – lembrou de casa. Ah, deixa a casa lá: a mãe está dormindo, o pai está dormindo – Vamos dormir também, Bito! Quentinho, que bom nós dois, a gente juntinho.

A escuridão, que preto o mundo! Monstros? Assombração? Algum bicho – onça? cobra? O Juca fecha os olhos, aperta bem o Bito, peludão. Não tenho medo, não – um homem.

Encolhe as perninhas, se aninha bem encostadinho no Bito – Não quero nunca ser um homem grande.

As estrelinhas, esse pirilampo – sentar na ponta do meu nariz? Juca enterra o nariz nos pelos do Bito – Você é tão mansinho! Você sempre que vai ser o meu bezerrinho! E espera – o sono, o sono que logo, logo vem chegando.

José Carlos Mendes Brandão

José Carlos Brandão nasceu em Dois Córregos, SP, em 28 de janeiro de 1947. Mora em Bauru. Em 2025 publicou “Matéria e memória”, que reúne sua poesia de 1975 a 2025, 9 livros publicados, mais 3 inéditos. Publicou também 2 livros de crônicas. Escreveu um romance, que permanece inédito, apesar de ter ganhado o Prêmio Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 2000. Tem uma dezena de contos premiados em concursos e publicados em antologias. Escreveu ainda microcontos.

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