Contos

Foi assim que tudo começou

No primeiro dia, vassoura na mão, limpou a casa, caiou as paredes, pendurou as cortinas, distribuiu os móveis, arrumou os livros, pintou o número na porta, colocou o tapete, forrou o sofá e viu que tudo isso era bom.

No segundo dia estendeu os fios elétricos, instalou interruptores novos e brilhantes e, quando os ligou, viu que a luz se fazia clara, forte, iluminando tudo, criando sombras nas paredes brancas, e viu que isso também era muito bom.

No terceiro dia cimentou os encanamentos, trouxe água da nascente do rio e, concluído o trabalho, abriu as torneiras e a água jorrou límpida, cristalina, ainda fresca da fonte, o que o fez sorrir, pensando que isso também era bom, mais do que bom, era ótimo.

No quarto dia comprou um aquário com peixinhos coloridos, uma gaiola com dois canários cantores e diversos vasos com flores, que distribuiu pela casa e, vendo os peixinhos, ouvindo os canários, sentindo o perfume das flores, ficou feliz, pois concluiu que tudo isso era muito bom, e como era!

No quinto dia banhou-se na água do chuveiro recém-instalado, barbeou-se, vestiu roupas novas, olhou-se no espelho e viu-se solitário na casa que construíra com tanto capricho. Pensou que precisava de uma companheira e saiu batendo de casa em casa, até que encontrou uma moça modesta e simples que aceitou dividir com ele a casa, os canários, as flores, a água e a luz, e ele sorriu feliz, pois viu que isso era maravilhoso.

No sexto dia acordou ao lado da companheira, desembaraçou-lhes os cabelos, deu-lhe banho, perfumou-a e a amou, e desse amor nasceram muitos filhos e esses filhos tiveram filhos, de modo que a casa ficou cheia de vida, de risos e alegrias. Todos ficaram felizes, porque viram que tudo isso era muito bom.

No sétimo dia, cumpridas todas as tarefas, reuniu a família, dividiu o pão do celeiro e o vinho da adega, beijou um a um os filhos e netos, sorriu para a companheira e, sem outro aviso, deitou para descansar e nunca mais acordou. Quem ficou achou que isso também foi muito bom, foi boníssimo.

Mário Baggio

Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP desde os anos 70. Tem 7 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020), “Antes de cair o pano” (2022), “A vida é uma palavra muito curta” (2024) e “Vozes para tímpanos mortos” (2025). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras). Escreve semanalmente na revista Crônicas Cariocas. Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021), “Brevemente Infinito” (2024) e Antologia de Contos da UBE-União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).

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