Contos

Prisão

Fábio não é digno de ser dito nessas linhas, mas a minha psicóloga cruel pediu para contar as artimanhas do malfeitor, para eu elaborar, mais uma vez, essa situação que me inferniza. Ainda nos anos 90, Fábio era dono de uma videolocadora. Eu vivia lá por conta dos jogos de videogame, quase sempre sem dinheiro e esperando a boa vontade de um amigo abastado para jogar. Fábio, de início, não me perturbava. Ficava olhando de longe, como se eu fosse um rato. Às vezes até me enxotava de seu estabelecimento, junto com os outros meninos da rua, que se aglomeravam no local. Então, com um ano ou dois de frequência no estabelecimento, Fábio resolveu me contratar para ajudar, “porque a clientela havia aumentado”. Fiquei superfeliz com o convite e com a graninha que iria receber – podia, assim, ajudar a minha família, muito pobrezinha. Eu devia estar antes e depois de fechar o estabelecimento, para “colocar as coisas no lugar”. A primeira investida foi sigilosa, quando não havia ninguém em casa. Ele pegou nas minhas pernas e, depois, nas minhas partes íntimas. Eu estava completamente desconcertado, sem saber como agir. Quando voltei à minha casa, me tranquei no banheiro e comecei a chorar. Meus pais não poderiam ouvir, então eu tapava a boca. Tomei banho e esfreguei uma, duas, três mil vezes tudo em que ele pegou, de nojo. Eu intuía que aquilo era muito errado. Mas, ainda assim, continuei no trabalho, precisava muito. Ele passou a me tratar como se não tivesse acontecido nada. A segunda vez foi mais audaciosa. Fábio me amarrou e lambeu o meu corpo todo, inclusive meu pênis. Eu tinha nojo do seu hálito, fétido, reptiliano. Dessa vez eu gritei, e ele me soltou rapidamente, porque estava desprevenido. Corri novamente para casa e me tranquei no banheiro. Tomei banho me esfregando com mais força, a ponto de me arranhar e sangrar. Não queria nenhum resquício dele no meu corpo. Continuei a trabalhar, porque meus pais estavam desempregados, e o abusador não reagia à minha presença. Era completamente indiferente a mim. Eu era somente um objeto. O tempo passou e achei que nada disso iria acontecer de novo, mas com menos de um ano ele me prendeu outra vez, prometendo me matar se eu gritasse ou fugisse. Estávamos num quarto que era o matadouro. “Hoje eu vou te foder, seu pirralho!”. Esperei que ele encostasse mais e tirei o canivete do bolso de trás. Agarrei o seu membro e, com um golpe forte e incisivo, arranquei-o fora. Jorrou sangue, muito sangue, e eu vibrei com aquilo. O sangue esvaiu e Fábio morreu por hemorragia. Comigo, criminalmente, não aconteceu nada, porque, além de ter somente doze anos, o fiz por legítima defesa. O tormento ainda me acompanha. Fábio é uma alma penada que me aparece em pesadelos. Como vou me livrar dessa prisão?

Adriano Espíndola Santos

Adriano Espíndola Santos é autor de “O sussurro cálido da negação”, “Flor no caos”, “Contículos de dores refratárias”, “o ano em que tudo começou”, “Em mim, a clausura e o motim”, “Não há de quê”, “Amparo secreto”, “Viver morrendo” e “Arraia-ralé”. Advogado. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram.com/adrianobespindolasantos/ e escreve no Crônicas Cariocas às sextas-feiras.

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