Contos
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Doze horas em ponto, os sinos da igreja de Santo Antônio de Pádua anunciavam. No dia em que completava 50 anos, Joel saiu apressado do escritório do advogado e, ainda dentro do elevador, passou a organizar mentalmente as tarefas da tarde. Memória privilegiada, sua melhor agenda sempre foi a própria cabeça. Era quinta-feira, e apenas no sábado uma celebração ocorreria. Reunião modesta, só para os mais íntimos, como se costuma dizer. Afinal, nunca gostou mes
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Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam. Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar. Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse. Passavam os dias, passavam as noi
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Ele desceu do trem numa estação qualquer, numa cidade desconhecida, e esperou por ela. Depois, entrou nas criptas das catedrais, onde o silêncio pulsa de tão denso, e esperou por ela. Empoleirou-se em árvores, em pontes, em terraços, em torres, em montanhas, em aviões, nas nuvens dos sonhos e, talvez, nas asas de algum anjo. Esperou por ela na dureza do inverno mais impiedoso, tremendo não de frio, mas de esperança. Também esperou por ela na chuva, até que
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Os laços de Maria me enfeitiçavam. Eles me atraíam como uma medusa. Não era possível olhar diretamente nos seus olhos. Havia, de minha parte, uma tremenda vergonha. Ainda tinha um atrativo peculiar, o aparelho ortodôntico, com uma linha de aço que ficava para fora da boca, como um ser especial, de outro mundo. Conhecemo- nos desde a infância, mais especificamente no quarto ano, quando ela veio estudar na minha sala. A sua imagem me paralisou, ao entrar atr
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Estranho ver você aí deitado, fisionomia serena. Por que você não era assim a maior parte do tempo, Samuel? Tenho a impressão de que você vai se levantar a qualquer momento e começar a falar aquelas coisas sem sentido que costumava dizer. Você não percebia que seus argumentos eram frágeis, sem coerência? Suas cenas de ciúme bobas. Samuel, aquilo era apenas meu trabalho, era tudo profissional. Sério. Nunca houve nada. Nada mesmo. Olha em volta, não veio qua
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No ponto mais alto do andaime lateral, aonde chegou depois de subir 42 degraus com ar de vitória e vestindo a calça apertada de malha branca, o trapezista faz uma reverência ao público, que aplaude mais por medo do que por entusiasmo, com a emoção presa na garganta. “É muito alto, ele não vai conseguir”, sussurravam os espectadores, a boca seca de tanta aflição. Era o número final do espetáculo, o mais aguardado, o fecho perfeito para uma noite de encantam
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A cadeira vazia é sinal de luto, a falta do desejo. Morreu muita coisa em mim desde que Maroca se foi. Só tínhamos a nós mesmos, porque nossa família se dispersou, e nossos parentes moram distante, em outro Estado – é uma história longa, mas vou resumir: passei num concurso para um bom cargo no DNOCS; nessa época, namorava com Maroca, e, para assumir o meu posto, logo tive de me mudar e me casar com a mulher da minha vida. Lembro, repetidamente, dos bons t
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O dia ainda não havia amanhecido quando o rádio anunciou neve no mês de novembro pela primeira vez no Brasil. Naquela mesma noite, por volta das 7 e 30, Fubá apareceu sozinho e inquieto, ostentando uma ferida no dorso. Amália logo pensou no mau pressentimento sofrido pela manhã. Sentiu-se culpada, achou que deveria ter tentado me impedir. Denise e Isabel ainda dormiam. Me levantei às 6, tomei banho, comi uma banana e um pedaço de pão, me servi do café prep
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Encontraram o tio Pedro perdido na estrada, perto da cidade vizinha. Estava velhinho, meio caduco; as pernas trôpegas, mal se aguentava em pé; ninguém entendia como tinha chegado até ali, arrastando na poeira da estrada os chinelinhos gastos. Morava com a Maria, no asilo; não porque fosse um asilado: Maria era a filha; ela e o marido trabalhavam no asilo; moravam numa casinha bem na entrada. – Por que, pai? – ela perguntou, sabendo que ele não saberia resp
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Construí minha casa sob a copa generosa da maior árvore do terreno, bem junto ao tronco. Saboreei por antecipação a sombra refrescante que teria nos dias de calor e isso me deu grande alegria. Nivelei o chão, ergui as paredes, pintei tudo de branco. Estava muito bonita a minha casa, mas desde que me mudei não faço outra coisa a não ser varrer as folhas secas do assoalho. Esta é a lembrança mais antiga que tenho a partir do momento em que passei a habitar l
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Ricardinho viajou para a China e vai ficar, pelo menos, uns seis meses lá. Foi a estudo. Ele é um menino que gosta de se atualizar, para atender melhor os seus pacientes, com técnicas modernas. É médico, e faz cirurgia de mão, sua especialidade. Disse a mim e à sua mãe que vai trabalhar/estudar no melhor centro de pesquisa do mundo, no que diz respeito à tecnologia e à medicina. Ele sempre teve uma inclinação para cuidar de gente. Quando menino, fazia “mas
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Quanto mais ando, mais penso que há um mistério na existência das cidades, a maneira como tudo se funde nos entremeios desse emaranhado humano, um caso de estudo de como o caos aparentemente inevitável se transmuta em algum tipo de desastre organizado, em que tudo se encaixa e se desagrega ao mesmo tempo num moto contínuo, envolto por alguma energia invisível que nos conecta uns aos outros sem que percebamos, como as partículas solares que nos trespassam o
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Eunice saiu da rede e se instalou na cadeira de palha da varanda. Cruzou as pernas e substituiu os óculos de leitura por outros com lentes escuras. Pôs de lado o livro sobre questões ligadas aos direitos das pessoas com deficiência que vinha lendo nos últimos dias e contemplou o panorama à sua frente. Sorveu dois goles de suco de limão gelado, pousando em seguida o copo sobre a mesinha de centro. Retocou o batom discreto com o auxílio de um espelhinho. Pro
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Quando o vô Zé estava para morrer, pediu para sair de casa. Fraquinho, não parava em pé, mas quis por força sair no pomar. – Eu quero abraçar as minhas árvores – disse. Mal balbuciava as palavras, mas insistia: – Eu plantei essas árvores. Vi crescer que nem minhas filhas. Eu quero abraçar minhas filhas pela última vez. Tive que carregá-lo nos braços. Não aguentou abraçar mais que três árvores. Fez questão de abraçar a mangueira de manga-espada, no centro d
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É… Perdemos o jogo… E o Brasil foi embora! Foi-se embora a copa e o sonho… Mas qual sonho? Não saímos da copa no jogo contra a Noruega! Tínhamos saído bem antes, quando perdemos de 7x 1 para a Alemanha. Quando quase ficamos fora do torneio com uma péssima campanha nas eliminatórias. Não temos mais um futebol ofensivo e vistoso. O futebol brasileiro não contagia mais! O futebol brasileiro não empolga! Foi-se há muito tempo o que chamávamos de futebol brasil
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Todas as manhãs o menino verifica, desolado, que seu castelo foi destruído pelas ondas. Quando chega à praia, vê que nada existe além de um monte de areia sem forma. O trabalho que teve no dia anterior desapareceu. Sua arte foi tragada pelo mar e deve estar agora em algum fundo escuro e frio daquela imensidão azul. Com paciência e dedicação, recomeça a tarefa de reconstruir o edifício onde colocará sua fantasia de morar ao lado de reis e princesas. Antes,
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Mainha prepara o café da manhã todos os dias, às 5h, rigorosamente assim. Acorda e canta com os galos, porque é feliz. Nunca reclamou da vida, desatinou ou embruteceu, apesar da dureza que passou. Teve de criar sozinha dois filhos, revezando com a minha tia, também bondosa, que vinha ficar com a gente em casa. Tia Laura, solteirona, ainda continua adulando os “filhos postiços”, como ela nos chama, só que repugnamos o seu cuidado excessivo, tratando-nos com
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Cruzei o portão e logo avistei uma rolinha morta. A grama alta e malcuidada competia com o mato. Do lado de fora da casa, uma pintura pálida, descascada e algumas pichações que protestavam contra o governo anterior. Tive vontade de chamar por minha mãe. Quase consigo vê-la em pé diante da porta, postura altiva, robe de seda esvoaçante, cabelos compridos e levemente desalinhados, rosto maquiado… Depois de sua morte, era a primeira vez que eu retornava. Um s
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O adjunto de promotor público, representando contra o cabra José Joaquim Faustino, conclui que no dia 26 do mês de Nossa Senhora Aparecida, quando a mulher do João Cruz ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de tocaia em uma moita de mato, saiu dela de supetão e fez proposta à dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ela se recusasse, o dito cabra apoderou-se dela, deitou-a no chão, deixando as e
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Celina abre os olhos e vê que está na cozinha. A louça é de porcelana e as panelas são todas novas. Em cima do fogão há um frango assado na travessa, pronto para ser servido. Demora alguns segundos para perceber que esta é a sua outra casa. Feliz, prepara-se para receber o marido, que volta do trabalho, e os filhos, da escola. Os meninos, quando chegam, dão-lhe beijos no rosto. Atrás deles, o marido a abraça e a levanta no ar como se não se vissem há meses
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Já amanheceu. São cinco da manhã e não preguei os olhos. O sol não tem um pingo de pudor, atiça a minha visão e o meu corpo. Tento me levantar, mas o corpo pesa uma tonelada. Passo mais cinco minutos deitado, esperando as engrenagens do corpo funcionarem. É pavorosa a sensação de enfrentar o dia. Fico mais cinco, dez minutos olhando para o nada – naturalmente, para as nuvens escassas, que teimam em se afastar, porque podem se movimentar a esmo; eu, pobre d
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Ele achava que o mundo estava diminuindo. Disse isto num churrasco com os amigos naquele encontro habitual do condomínio. Foi para casa. Deitado, olhando o teto que lhe parecia mais baixo, ele ainda ouvia as gargalhadas do pessoal. “Tá diminuindo teu cérebro, isto sim”. Acordou cansado, algo recorrente nos últimos meses, como se algo estivesse lhe sugando as energias durante o sono. Olhou a mancha no travesseiro. Aumentava dia a dia, um líquido escuro que
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O ano é 2061, não se esqueça disso. Foram essas as últimas palavras do meu chefe depois de ele ter me explicado todo o projeto. Parece que a solicitação tinha partido lá de cima (ele reforçou a informação com o dedo indicador da mão direita apontado para o alto quando me passou a tarefa). O novo dono da revista cismou que queria uma matéria sobre como estaria o mundo daqui a 35 anos. Bem, eu sou o mais novo da redação (em tempo de casa) e não podia recusar
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E o Zé deu de olhar as estrelas. Foi subir no telhado uma vez, e não acabou mais. Tinha descoberto a América. O Zé ficou encantado com as estrelas que ele viu no céu. Como se nunca tivesse visto. E olha que eu vivo com o Zé há quase cinqüenta anos. Ele sempre foi uma pessoa normal. Até que deu de olhar as estrelas. Não dorme mais na cama, o esquisito. “Faz tempo que eu quase não dormia, Cida”, ele diz. E é verdade: ele só dormia de dia. De noite ficava fut
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Ele tinha um trabalho a ser feito pelo seu primeiro ano de faculdade de jornalismo. Aliás, o segundo em sua segunda semana de aula. O assunto era: escrever uma história curta sobre algum acontecimento marcante de sua vida, em terceira pessoa. Mal sabia por onde começar, coitado. Viveu tantas coisas em seus 34 anos, mas há muito tempo, apenas lutava pela sua sobrevivência, feito um leão na selva cercado por uma alcateia de hienas. Pensou em escrever sobre u
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Ao entardecer, quando o estranho passou, meu irmão e eu abrimos-lhe o crânio com o grosso ramo de videira que usamos para ocasiões semelhantes. Um único golpe, preciso e sem fúria, nada mais. O chapéu que o estranho usava empoleirado na cabeça rolou alguns metros adiante. Meu irmão o apanhou do barro vermelho e o pôs na sua própria cabeça. Será um ano bom, produtivo e faremos um bom dinheiro — isso foi o que concluímos, meu irmão e eu, apenas com uma troca
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Serena entrou no meu mundo por acaso – se é que posso acreditar em acaso; não estou tão seguro assim. Eu não pretendia adotar, essa era uma máxima que construía na minha cabeça pelo fato de ter um primo adotado que sofreu com vários transtornos por não o aceitar. Wilson, o nome dele, tentou se matar umas duas vezes, mesmo recebendo o apoio dos meus tios para tudo. Ele era depressivo em grau máximo e bipolar. Mas isso agora não vem ao caso… Voltemos: desde
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Os dois esqueletos de um condomínio em construção, voltados para o oeste, acolhem o vento de inverno que rasga as redes de proteção, agora de um laranja desbotado que denuncia o esgotamento de todos os prazos. Assovia por suas entranhas de tijolos cinzentos, cor de sem vida, e ecoa pelos corredores e escadarias e as futuras dependências de 5000 m2 e 800 quartos, o básico de que precisam para viver os que chegarão flutuando sobre tudo e todos, qualquer dia
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Um frango feliz, estampado numa caixa de nuggets. Era o que Zími pensava sobre quase todas as pessoas que conhecia. E essa imagem bizarra virou uma camiseta usada por sua parceira musical Mila Cox. A sensação de certa segurança e conforto que vivia nesse ano ainda não era familiar o suficiente, A sua paranóia consistia no medo que tinha de voltar às condições precárias em que vivia até o ano anterior. Zími beirava os cinquenta anos, e entendia que atualmen
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– (Leitor 1) Tá grande essa fila, hein. – (Leitor 2) Mas vale o sacrifício. Esse tipo de fila eu enfrento com prazer. Não seria muito pior se fosse uma fila de hospital? Ou pra comprar comida racionada? Minha mãe sempre falava que no tempo da guerra… – (Leitor 3, para leitor 2) Você é fã dele há muito tempo? – (Leitor 2) Muito… Eu sempre gostei do pai dele. Quando ele começou a escrever também, resolvi conferir. Foi paixão à primeira vista. E digo mais: el
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