Contos

  • Nara sacudiu a minha cabeça, de novo. Ela tem o poder de me bagunçar. Sabendo que sou autista e não me dou bem com o imprevisto, deveria me preservar. Na última semana, ela tomou sozinha uma decisão importante: disse que ia comprar um husky siberiano. Moramos num apartamento de aproximadamente 110m². Ela brinca com a minha paciência e com a minha sanidade. Passei noites em claro pensando em como demovê-la de tal decisão. Veja só, já temos três gatos. Para

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  • Aos 10 anos, Clara produziu o primeiro poema. A garota nunca se comportou como as outras de sua idade. Desde muito cedo, admirava as flores do jardim e os pequenos insetos que lá viviam. Contemplava os pássaros do bosque e conversava com eles, banhava-se de sol e de lua e regalava-se com o brilho das estrelas. Colecionava conchas e passava horas observando os movimentos delicados dos peixes no aquário. E os textos iam se avolumando numa pasta de cartolina

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  • Um encontro histórico em Washington colocou frente a frente os mandatários das duas maiores potências mundiais, EUA e China. Toda a pompa em torno dessa reunião de titãs sugeria que o evento seria um divisor de águas para a humanidade, abrindo caminho para a esperança de um futuro de entendimento e harmonia. A refinada decoração do ambiente que abrigava os dois homens mais poderosos do planeta combinava louças de prata com arranjos florais predominantement

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  • Dizem que japonês bebe muito, mas eu não imaginava que fosse tanto. Dizem que bebe, fuma e se suicida muito. O fumo não é problema; fuma quem quer, e japonês fuma uns cigarros pequenininhos, intragáveis, uns estoura-peitos de matar, que eu já provei, no tempo em que chafurdava nesse vício. O suicídio é um grande problema, mas podemos suavizar, dourar a pílula, dizendo que quem se suicida enjoou de viver, e, portanto, um enjoado a menos. Agora, a bebida é u

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  • Meus pais fizeram bodas de prata e eu dei de presente um jogo de malas de couro acastanhado. Uma bem grande, para viagens prolongadas, uma média, para pequenas ausências, e uma menorzinha, para passeios de bate e volta. “Aposentar e viajar, esses dois verbos se completam”, costumava dizer o meu agora aposentado pai. Assim que viu o regalo, os olhos do velho marejaram. Andou em volta da maior, avaliou seu tamanho e capacidade. Sem que eu conseguisse evitar,

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  • Quantos dias me separam do meu fim? É somente uma curiosidade. Não tem nada de trágico no meu pensamento. Quero saber para gozar da vida. Já pensou se eu soubesse? Marta, minha amiga da repartição, recebeu o diagnóstico de seis meses de vida, por causa de um câncer de mama que se alastrou. Foi embora rápido, antes do tempo previsto, depois de fazer uma última viagem a passeio, para Portugal, local que queria muito conhecer, terra de seus antepassados. Robé

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  • Passa das onze e o casal se prepara para dormir. Ele, já na cama, lê o jornal. Ela entra no banheiro da suíte. Ele sempre lia o jornal antes de dormir e ela tomava seu banho. O segundo do dia; o primeiro era ao acordar. Ele acaba de ler e ela ainda no banho. — Luzia, não demora, quero dormir. Ela, no chuveiro, não escuta. A água morna batendo na cabeça, por cima da toca de banho e ela pensando na vida. Mais especificamente no seu casamento. Completariam se

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  • Marcelo – marido de PatríciaAlice – 8 anos, filha de Patrícia e MarceloPatrícia – psicóloga, trabalha numa delegaciaJuvenal Cruz do Espírito Santo – pedófiloAnselmo – delegadoRosa – tia de PatríciaIone – mãe de uma das vítimas Reunião com amigas da faculdade. Quinze anos de formatura. Na saída, começa a chover. Tempestade. Esqueci a chave de casa. Reviro a bolsa. Não tá. Ensopada na varanda. Esqueci o guarda-chuva. Frio. Vento gelado assobiando. Marcelo, a

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  • A Cida foi encontrada boiando no rio Pardo, a cabeça cortada, mal grudada no corpo. Tinha exigido do namorado Zé que largasse a mulher e fosse morar com ela. O danado só mandava esperar, mas ela estava cansada de ser enrolada. Ou deixasse a mulher duma vez, e os dois filhos, ou não ia mais querer saber dele. Pior, e tinha mostrado os braços fortes, de melhor cortadeira de cana da cidade. O Zé não era de ter medo, mas estava com o facão de cortar cana na mã

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  • O escritor senta na frente do computador disposto a renovar o romance como gênero literário. Quer fazer algo inovador, ainda não identificado, de difícil classificação. A tela pisca. O escritor pensa em estratégias variadas e fuma um cigarro enquanto pensa em qual delas adotar. Contar a história ao contrário, como já fizeram no cinema, quando todo mundo saiu da sala com cara de paisagem. Ou utilizar vozes narrativas alternadas: a primeira pessoa em alguns

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  • Faz tempo que falo com Renata sobre a situação do Marcelo. O menino está impossível. Não cumpre regras. Não respeita as professoras. Renata me diz que ele é somente um menino “normal”, saudável e brincalhão. “São coisas da idade, meu bem, não há nada de errado”. Como não? Na semana passada, no dia de banho de piscina na escola, o Marcelo, por puro impulso, furou a piscina inflável. O diretor veio falar comigo, que ele simplesmente, do nada, sem confusão al

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  • Ana Paula nunca teve sorte no amor. Abusada na infância diversas vezes por um primo, calou-se sobre o ocorrido. Seu primeiro namorado era gay e ela demorou a descobrir. Achou que o problema era dela. Depois ficou noiva de um piloto de helicóptero que viajava muito e quase não ficava com ela. O noivado se arrastou com promessas de casamento. Um dia recebeu do noivo uma carta terminando tudo. Custou a se recuperar. Na faculdade conheceu um professor e se apa

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  • Era uma casa no subúrbio, e Maria acabava de preparar o jantar. Mexia as panelas e pensava que o início da reforma no telhado teria de esperar mais um pouco. Tomara que não chova forte, torcia. Naquele sábado de inverno brando, o clima no país era de tristeza e perplexidade. A eliminação do Brasil na Copa do Mundo era a responsável por essa depressão coletiva. A mulher ganhava a vida como diarista e tinha 66 anos. Aparentava mais. Vivia se queixando de dor

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  • Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam. Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar. Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse. Passavam os dias, passavam as noi

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  • Acho que o vovô estava triste. Ele pôs as duas mãos no peito e fechou os olhos, parecia que falava com alguém que só ele sabia quem era. Chamaram uma ambulância e ele foi com minha mãe e meu pai para o hospital. Os tios que ficaram em casa conversavam em voz baixa e bebiam cafezinho da garrafa térmica. Me mandaram brincar com o Chino. O Chino é mais crescido do que eu e é meu amigo. Somos colegas na escola. Ele sempre me defende quando o Orelha ameaça me b

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  • Olho à frente. Como um marinheiro cheio de expectativas de aportar. Às vezes a visão me sabota. Quero ir com muita sede ao pote e me deparo com um paredão. E volto ao estado inicial, de principiante; um novo aprendiz de mim. Pequeno, desprotegido, parto para um possível recomeço. Tenho de olhar em volta e buscar um remanso; a vida está muito dura. Logicamente, emaranhei-me em tentativas de felicidades; ou o que julgava ser felicidade. Quantas vezes me arri

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  • Ela era toda estranha. Branca, rubicunda, judia, tinha nascido na Argentina e se chamava Benedita. Logo ao nascer seus pais desconfiaram: a recém-nascida não chorou, esboçou um leve sorriso. A bebê Benedita adorava o escuro. Qualquer facho de luz ou um abajur aceso era o bastante para ela não dormir. Sua mãe jurava que a filha dormia com um dos olhos abertos. Ora o direito, ora o esquerdo. Revezando. Benedita colecionava baratas, joaninhas e pequenos besou

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  • Doralice ganhava a vida de um modo estranho. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar que alguém pudesse tirar o próprio sustento por meio de uma atividade como aquela. Até que vi numa revista a reportagem de título chamativo: “Vivo emoções em seu lugar”. Ela se intitulava artista performática, morava em Recife e garantia poder realizar desejos – sonhos também, por que não? – de moradores de outras cidades brasileiras e até estrangeiras, coisas como visitar

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  • O vô Júlio tinha umas ideias esquisitas. Uma tarde ele estava cortando cavacos – uma pilha de cavacos, todos iguais: um palmo, e um palmo tinha que ter vinte e dois centímetros. Encostou o pequeno machado no cepo onde realizava a delicada operação, enxugou o suor com o lenço do pescoço, e ficou olhando o horizonte. – O que é que tem para lá do horizonte, vô? – eu perguntei. – Ara, nada – ele disse. Eu fiquei matutando um tempo, o sol se pondo no alto do mo

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  • Ele sabe e por isso se cala. Ela sabe e por isso fala. Ele bebe o seu café com creme. Fica com um pouco de espuma no lábio superior. Ela se incomoda com isso, mas não diz nada. Não vai pronunciar a palavra lábio, porque é uma palavra perigosa. Suscita ideias, desejos, vontades. O silêncio a protege, ela imagina, assim como o ruído ao redor: naquele momento, o burburinho do entorno é seu melhor aliado porque preenche o vazio entre os dois. Muito ruído

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  • Uma dose de amargura espreita os meus dias. Posso deixar-me cair, mas posso, inclusive, não permitir que isso aconteça. A dor é um karma que me segue há longas datas, desde que meu pai se foi (essa é a minha forte lembrança) – ou bem antes disso, pois fui afeito ao gosto de sal que saía dos meus olhos e inundavam a minha boca. Sou sagitariano, de poucas palavras, de perseguições absurdas pelo conhecimento, e é isso que me salva – ainda. Sim, há tempo para

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  • Eduarda e Rafaela. No centro, um tabuleiro de xadrez. Eduarda com as pretas e Rafaela com as brancas. Eduarda gosta de ficar segurando o queixo enquanto pensa, e Rafaela adora um uísque durante o jogo. — Peão quatro do rei. Rafaela morre de inveja do corpo de Eduarda: pernas perfeitas, pele branca de quase nunca ir à praia, seios que cabiam na mão, pontudos, empinados. Eduarda não se acha tão bonita e despreza a objetificação. — Cavalo três do bispo do rei

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  • NÓS

    Sei que você não é sequer capaz de imaginar as sensações que desperta em mim. Nunca vivi nada parecido antes. Perco o sono, durmo mal. Você me excita. Muito… Penso que você é só minha. Eu exijo exclusividade. Você não tem a mais vaga ideia das coisas que eu gostaria de fazer com você. Na verdade, eu já fiz. No meu pensamento, já realizei todos os meus desejos. É tudo tão real. Eu despi você inteira. Observei de perto sua pele clara. Deslizei minhas m

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  • A galinha atravessa vagarosamente o terreiro. Cada passo é quase uma queda. A galinha é torta, tem uma perna mais curta que a outra. É uma galinha manca. Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse calculando cada movimento. O terreiro é largo, clareado aqui e ali por algumas réstias de sol. O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra preta, folhas, penas e dor. A galinha é um bicho só. Procura algum grão de milho, uma minhoca, procura a

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  • A terapeuta disse à mamãe que procurasse sair do quarto e fazer alguma atividade simples que lhe desse alegria. Sugeriu que cuidasse do jardim. Mexer com a terra é o melhor remédio contra a depressão. Plantar flores ou fazer uma horta traria enormes benefícios à saúde mental de todos. “Aproveitem a primavera precoce que já está no ar”, disse ela. A família toda concordou. Aquele pedaço do terreno atrás da casa estava mesmo inútil, tornara-se uma floresta e

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  • Procuro acalmar Luana. Ela está em polvorosa, com medo de ser demitida. O nosso chefe é de veneta, a cada minuto podemos esperar um vendaval ou um refresco brando de mar. Ele é uma boa pessoa, já demonstrou diversas vezes quando quer nos ajudar, mas pode pegar no meu pé ou no pé de qualquer colega por semanas, e isso nos aflige. Nas reuniões, somos chamados a falar: sempre me saio mal, por conta da minha timidez excessiva, mais especificamente por conta do

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  • Jandira teve uma infância de indigente. Criada com mais seis irmãos numa cidade pequena no interior, enquanto seu pai trabalhava na roça, ela ajudava a mãe a cuidar da casa e das crianças. Na tapera em que moravam, a miséria acompanhava de perto a família. Não havia comida todos os dias, faltava luz elétrica e, no caso de Jandira, lhe faltavam todos os dentes da frente. Era pobre, raquítica e banguela. Com dez anos, foi entregue aos cuidados de uma senhora

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  • Francisco saltou do metrô apressado. Estava a 300 metros do consultório, e faltavam apenas cinco minutos para o início da sessão. Não se atrasava nunca e, ao contrário de muitos, estava sempre bem-disposto às segundas-feiras. O terapeuta também raramente o atendia fora do horário. Naquele dia, tudo foi diferente. Entrou 45 minutos depois da hora marcada. Tinha muita coisa para falar, havia ensaiado um discurso na véspera. Havia feito anotações no bloco de

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  • O nenê era como um pardal palpitando na palma da mão. Estava morto? Não sei o que vou fazer. Depósito com cuidado na covinha, aberta no jardim, cercada de flores. Aí ele pára de se mexer. Dá uma respirada comprida, dá que nem uma tossinha engasgada, dá outra respirada já meio sumida, e pronto: agora está morto. A Cida ainda está chorando. Mulher chora por qualquer coisa. Era o filho dela? Também era o meu filho. Nunca mais vou-me esquecer daquele montinho

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  • Meu primo Alfredo chegou correndo e me entregou um pacote pequeno. Disse: “É pra entregar pra vó.” Entrei em casa e falei: “O Alfredo mandou entregar isso pra vovó.” Paty, minha irmã menor, fazia a lição da escola na mesa da copa e gritou na direção da cozinha: “Manhê, o Juca falou que o Alfredinho mandou uma coisa pra vó.” Minha mãe, sem parar de mexer nas panelas, virou o rosto e alterou a voz: “Então fala pro Juca levar logo isso pra sua avó.” Juquinha

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