Contos
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Só de pensar me constrange. Minha priminha vinha à minha casa para passar os finais de semana nas férias. Brincávamos muito, de pique-esconde, de pega-pega, de pião, de brincadeiras ditas de menino e de menina, sem nenhuma maldade. Nossa relação era de puro amor e afeição. Quando ela viajou para os Estados Unidos e passou quinze dias lá, morri de saudade, chorava, porque não tinha a sua presença – disso eu me lembro, a escutar músicas românticas que atiçav
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Minha juventude atravessou o pecado através do meu corpo. Ou terá sido o meu corpo que aprendeu a carregar culpas que nunca compreendeu? Quem me salvou? Deus. Quem foi enviado para me resgatar? Ológún Edé? Talvez. E, junto dele, uma outra mulher? Oyá? Talvez. Há presenças que não sei explicar, apenas pressentir, como se alguma coisa anterior às palavras tentasse me revelar aquilo que ainda não consigo nomear. Sinto em Logun Edé algo que também procuro em m
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Engravidou em uma de suas primeiras relações sexuais aos 14 anos. Até sabia que devia ter usado preservativo, mas não tinha em casa nem na bolsa. Havia o medo dos pais encontrarem quando revistassem suas coisas e descobrissem o que ela fazia. O namorado tampouco se preocupou em usar camisinha. Dizia que atrapalhava a foda. Quando não dava mais para esconder a barriga, instalou-se o caos. “Meu Deus, o que você fez… E agora?”. Os pais queriam impor um
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Era 23 de junho do ano passado. Nesse dia, mamãe completou 90 anos. Família reunida no início do inverno em Teresópolis, numa daquelas ocasiões em que o aparelho de chá que minha avó ganhou da tia Olga deixava a cristaleira. Pega com cuidado, não vai me deixar cair nada. Pelo amor de Deus, esse aparelho é francês, um presente de casamento da tia Olga pra minha mãe. Sim, acho melhor lavar, tá guardado há tanto tempo, mas muita atenção, por favor… Até
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Tem uma porca no escritório. Uma porca de verdade, uma leitoa, e parece estar grávida. Chegou de repente na agência de publicidade onde trabalho como se fosse mais um cliente querendo criar anúncios para um novo produto. Olha em volta estranhando o lugar e procurando, sem encontrar, uma maneira de cair fora dali. Fuça nas latas de lixo, mas ali só há papel. Não é violenta, não emite sons agressivos e não procura atacar ninguém. É apenas uma porca deslocada
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Tenho tanto para dizer. Engasgado. Entalado. Falei enquanto pude. Sou conhecido nacionalmente, por ser historiador e filósofo, e, principalmente, com o conhecimento que tenho, por defender a soberania, a justiça social e a democracia. Quando meu pai era vivo, tinha algum respaldo, porque ele foi do movimento estudantil, lutou contra a ditadura militar, inclusive foi preso por isso; amargou anos de sofrimento, até mudar de cidade e conhecer a minha mãe, mom
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Adelaide nunca desejou se transformar numa assassina. Achava mesmo que não apresentava tal vocação. Afinal, era discreta e vestia-se com sobriedade. Tinha uma vozinha fina e pausada, um cabelo bem cortado tingido de ruivo desde os vinte e poucos, uma pele alva salpicada de sardas, além de gestos econômicos e displicentes, que não combinavam nada com um jeito criminoso de ser. Ademais, esses programas sensacionalistas da TV, repletos de sangue, de crime e d
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Porque hoje é dia de São Sebastião, e estouram foguetes na minha janela, lembrando que é dia de festa, vou falar da sua história, Sebastião Fidélis, que você merece festa. Ninguém mais fiel que um Sebastião Fidélis, fiel até no nome, fiel à vida e seus caminhos e descaminhos. Imagino você, velho caipira mineiro de Campo do Meio, velho apesar de apenas 43 anos de idade, de cócoras entre os túmulos, se benzendo, acendendo duas velas, e cuspindo o fumo de lad
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Deixei tudo para escrever a obra da minha vida. Sou um grande escritor. Ninguém sabe disso ainda porque nunca escrevi nada, mas quando eu escrever meu livro, meu grande romance… A admiração de todos será um acontecimento, não tenho dúvida. Para levar a cabo essa minha missão, pedi desligamento do meu emprego público e… do que mais me desliguei? De nada mais, porque nunca tive amigos e os parentes há muito tempo se esqueceram da minha existência. Isso posto
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Fui arrebatado por aquele olhar. Nem sabia que sentimento algum podia me pegar. Profetizei, seguro, que não me “juntaria” com alguém até estabilizar a minha vida financeira. Depois que acabei o namoro com Daniela, com quem achava que iria casar (um namoro morno e regular), resolvi me dedicar aos estudos e à profissão. Sou recém-formado em Odontologia (faz três anos que concluí o curso) e estou fazendo das tripas coração para montar um consultório no centro
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Xênia estava a ponto de desistir de tudo. Vinha tendo problemas com o marido e os filhos. Ele, gordo, careca, sempre doente e reclamando da próstata que aumentara, do café frio, da chuva, do custo de vida e do governo. E, principalmente, dela. O filho mais velho, vagabundo, demente e drogado, sonhando ser cantor de rock. E não gostava de banho. A menina, uma amoral rebelde e chata, tinha o corpo coberto de tatuagens e piercings. Havia feito três abortos e
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Eu quero que você saiba que ainda não decidi se vou mesmo fazer. Não sei se quero levar essa coisa adiante, se preciso mesmo. Claro, sou ansiosa, mas acho que todo mundo é um pouco hoje em dia. É, depressão também. Levantar da cama às vezes é tão difícil… Esse mundo tá um caos. Depois que a pandemia acabou, acho que ficou até pior. Sabe, me assusta um pouco a ideia de ter de dividir com alguém meus segredos, meus pensamentos mais íntimos. Eu sou atri
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Pouca coisa é mais estimulante que a alegria de uma criança no início de suas férias. A expectativa desperta a imaginação que permanecia adormecida dentro das paredes da realidade. As coisas se tornam pessoas e objetos que não são tornam-se coisas. Os sonhos tocam a matéria que, por sua vez, devolve em cores e movimentos. Mas como a tese não se torna síntese sozinha, ainda há uma antítese (que não torna a experiência menos interessante, pelo contrário). As
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O carro do professor foi guinchado até ao Plantão Policial de Franca para registrar um boletim de ocorrência de acidente na estrada. Sobre o porta-malas, com as patas para cima, uma vaca morta. O que é isso, professor? Uma vaca em cima do carro? E com as pernas para cima? Que desconfortável! Mas está rindo do quê? Ah, já passou o susto! E que susto, hein?! Ele voltava de Franca para São Joaquim da Barra, quando viu três vacas no meio da estrada. Desviou da
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Os livros começaram a se infiltrar de novo. Fazem isso de madrugada, quando os sonhos se confundem com a realidade. Eram discretos antes, descarados agora. Hoje apareceram três ao lado do espelho do banheiro. Perdi a conta dos que se amontoaram sob a minha cama. Um livro velho sobre cidades fantasmas é particularmente teimoso. Achei que não gostava dos seus vizinhos de estante, então o coloquei sozinho na mesinha de cabeceira. Acordei com ele em cima do me
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Nara sacudiu a minha cabeça, de novo. Ela tem o poder de me bagunçar. Sabendo que sou autista e não me dou bem com o imprevisto, deveria me preservar. Na última semana, ela tomou sozinha uma decisão importante: disse que ia comprar um husky siberiano. Moramos num apartamento de aproximadamente 110m². Ela brinca com a minha paciência e com a minha sanidade. Passei noites em claro pensando em como demovê-la de tal decisão. Veja só, já temos três gatos. Para
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Aos 10 anos, Clara produziu o primeiro poema. A garota nunca se comportou como as outras de sua idade. Desde muito cedo, admirava as flores do jardim e os pequenos insetos que lá viviam. Contemplava os pássaros do bosque e conversava com eles, banhava-se de sol e de lua e regalava-se com o brilho das estrelas. Colecionava conchas e passava horas observando os movimentos delicados dos peixes no aquário. E os textos iam se avolumando numa pasta de cartolina
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Um encontro histórico em Washington colocou frente a frente os mandatários das duas maiores potências mundiais, EUA e China. Toda a pompa em torno dessa reunião de titãs sugeria que o evento seria um divisor de águas para a humanidade, abrindo caminho para a esperança de um futuro de entendimento e harmonia. A refinada decoração do ambiente que abrigava os dois homens mais poderosos do planeta combinava louças de prata com arranjos florais predominantement
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Dizem que japonês bebe muito, mas eu não imaginava que fosse tanto. Dizem que bebe, fuma e se suicida muito. O fumo não é problema; fuma quem quer, e japonês fuma uns cigarros pequenininhos, intragáveis, uns estoura-peitos de matar, que eu já provei, no tempo em que chafurdava nesse vício. O suicídio é um grande problema, mas podemos suavizar, dourar a pílula, dizendo que quem se suicida enjoou de viver, e, portanto, um enjoado a menos. Agora, a bebida é u
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Meus pais fizeram bodas de prata e eu dei de presente um jogo de malas de couro acastanhado. Uma bem grande, para viagens prolongadas, uma média, para pequenas ausências, e uma menorzinha, para passeios de bate e volta. “Aposentar e viajar, esses dois verbos se completam”, costumava dizer o meu agora aposentado pai. Assim que viu o regalo, os olhos do velho marejaram. Andou em volta da maior, avaliou seu tamanho e capacidade. Sem que eu conseguisse evitar,
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Quantos dias me separam do meu fim? É somente uma curiosidade. Não tem nada de trágico no meu pensamento. Quero saber para gozar da vida. Já pensou se eu soubesse? Marta, minha amiga da repartição, recebeu o diagnóstico de seis meses de vida, por causa de um câncer de mama que se alastrou. Foi embora rápido, antes do tempo previsto, depois de fazer uma última viagem a passeio, para Portugal, local que queria muito conhecer, terra de seus antepassados. Robé
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Passa das onze e o casal se prepara para dormir. Ele, já na cama, lê o jornal. Ela entra no banheiro da suíte. Ele sempre lia o jornal antes de dormir e ela tomava seu banho. O segundo do dia; o primeiro era ao acordar. Ele acaba de ler e ela ainda no banho. — Luzia, não demora, quero dormir. Ela, no chuveiro, não escuta. A água morna batendo na cabeça, por cima da toca de banho e ela pensando na vida. Mais especificamente no seu casamento. Completariam se
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Marcelo – marido de PatríciaAlice – 8 anos, filha de Patrícia e MarceloPatrícia – psicóloga, trabalha numa delegaciaJuvenal Cruz do Espírito Santo – pedófiloAnselmo – delegadoRosa – tia de PatríciaIone – mãe de uma das vítimas Reunião com amigas da faculdade. Quinze anos de formatura. Na saída, começa a chover. Tempestade. Esqueci a chave de casa. Reviro a bolsa. Não tá. Ensopada na varanda. Esqueci o guarda-chuva. Frio. Vento gelado assobiando. Marcelo, a
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A Cida foi encontrada boiando no rio Pardo, a cabeça cortada, mal grudada no corpo. Tinha exigido do namorado Zé que largasse a mulher e fosse morar com ela. O danado só mandava esperar, mas ela estava cansada de ser enrolada. Ou deixasse a mulher duma vez, e os dois filhos, ou não ia mais querer saber dele. Pior, e tinha mostrado os braços fortes, de melhor cortadeira de cana da cidade. O Zé não era de ter medo, mas estava com o facão de cortar cana na mã
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O escritor senta na frente do computador disposto a renovar o romance como gênero literário. Quer fazer algo inovador, ainda não identificado, de difícil classificação. A tela pisca. O escritor pensa em estratégias variadas e fuma um cigarro enquanto pensa em qual delas adotar. Contar a história ao contrário, como já fizeram no cinema, quando todo mundo saiu da sala com cara de paisagem. Ou utilizar vozes narrativas alternadas: a primeira pessoa em alguns
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Faz tempo que falo com Renata sobre a situação do Marcelo. O menino está impossível. Não cumpre regras. Não respeita as professoras. Renata me diz que ele é somente um menino “normal”, saudável e brincalhão. “São coisas da idade, meu bem, não há nada de errado”. Como não? Na semana passada, no dia de banho de piscina na escola, o Marcelo, por puro impulso, furou a piscina inflável. O diretor veio falar comigo, que ele simplesmente, do nada, sem confusão al
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Ana Paula nunca teve sorte no amor. Abusada na infância diversas vezes por um primo, calou-se sobre o ocorrido. Seu primeiro namorado era gay e ela demorou a descobrir. Achou que o problema era dela. Depois ficou noiva de um piloto de helicóptero que viajava muito e quase não ficava com ela. O noivado se arrastou com promessas de casamento. Um dia recebeu do noivo uma carta terminando tudo. Custou a se recuperar. Na faculdade conheceu um professor e se apa
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Era uma casa no subúrbio, e Maria acabava de preparar o jantar. Mexia as panelas e pensava que o início da reforma no telhado teria de esperar mais um pouco. Tomara que não chova forte, torcia. Naquele sábado de inverno brando, o clima no país era de tristeza e perplexidade. A eliminação do Brasil na Copa do Mundo era a responsável por essa depressão coletiva. A mulher ganhava a vida como diarista e tinha 66 anos. Aparentava mais. Vivia se queixando de dor
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Eram três meninos vendo os pais derrubar uma árvore. Quando a peroba foi derrubada, um dos meninos se apagou no sopro – o enorme deslocamento de ar que ela provocou. Parecia que tinha morrido, era o que os outros dois pensavam. Na cidade, o médico disse que estava em coma. Não tinha nenhum tratamento, o jeito era esperar. Ficou em coma por um tempo imenso. Os outros dois morriam de preocupação, esperando que ele acordasse. Passavam os dias, passavam as noi
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Acho que o vovô estava triste. Ele pôs as duas mãos no peito e fechou os olhos, parecia que falava com alguém que só ele sabia quem era. Chamaram uma ambulância e ele foi com minha mãe e meu pai para o hospital. Os tios que ficaram em casa conversavam em voz baixa e bebiam cafezinho da garrafa térmica. Me mandaram brincar com o Chino. O Chino é mais crescido do que eu e é meu amigo. Somos colegas na escola. Ele sempre me defende quando o Orelha ameaça me b
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