Contos

  • Olho à frente. Como um marinheiro cheio de expectativas de aportar. Às vezes a visão me sabota. Quero ir com muita sede ao pote e me deparo com um paredão. E volto ao estado inicial, de principiante; um novo aprendiz de mim. Pequeno, desprotegido, parto para um possível recomeço. Tenho de olhar em volta e buscar um remanso; a vida está muito dura. Logicamente, emaranhei-me em tentativas de felicidades; ou o que julgava ser felicidade. Quantas vezes me arri

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  • Ela era toda estranha. Branca, rubicunda, judia, tinha nascido na Argentina e se chamava Benedita. Logo ao nascer seus pais desconfiaram: a recém-nascida não chorou, esboçou um leve sorriso. A bebê Benedita adorava o escuro. Qualquer facho de luz ou um abajur aceso era o bastante para ela não dormir. Sua mãe jurava que a filha dormia com um dos olhos abertos. Ora o direito, ora o esquerdo. Revezando. Benedita colecionava baratas, joaninhas e pequenos besou

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  • Doralice ganhava a vida de um modo estranho. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar que alguém pudesse tirar o próprio sustento por meio de uma atividade como aquela. Até que vi numa revista a reportagem de título chamativo: “Vivo emoções em seu lugar”. Ela se intitulava artista performática, morava em Recife e garantia poder realizar desejos – sonhos também, por que não? – de moradores de outras cidades brasileiras e até estrangeiras, coisas como visitar

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  • O vô Júlio tinha umas ideias esquisitas. Uma tarde ele estava cortando cavacos – uma pilha de cavacos, todos iguais: um palmo, e um palmo tinha que ter vinte e dois centímetros. Encostou o pequeno machado no cepo onde realizava a delicada operação, enxugou o suor com o lenço do pescoço, e ficou olhando o horizonte. – O que é que tem para lá do horizonte, vô? – eu perguntei. – Ara, nada – ele disse. Eu fiquei matutando um tempo, o sol se pondo no alto do mo

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  • Ele sabe e por isso se cala. Ela sabe e por isso fala. Ele bebe o seu café com creme. Fica com um pouco de espuma no lábio superior. Ela se incomoda com isso, mas não diz nada. Não vai pronunciar a palavra lábio, porque é uma palavra perigosa. Suscita ideias, desejos, vontades. O silêncio a protege, ela imagina, assim como o ruído ao redor: naquele momento, o burburinho do entorno é seu melhor aliado porque preenche o vazio entre os dois. Muito ruído

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  • Uma dose de amargura espreita os meus dias. Posso deixar-me cair, mas posso, inclusive, não permitir que isso aconteça. A dor é um karma que me segue há longas datas, desde que meu pai se foi (essa é a minha forte lembrança) – ou bem antes disso, pois fui afeito ao gosto de sal que saía dos meus olhos e inundavam a minha boca. Sou sagitariano, de poucas palavras, de perseguições absurdas pelo conhecimento, e é isso que me salva – ainda. Sim, há tempo para

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  • Eduarda e Rafaela. No centro, um tabuleiro de xadrez. Eduarda com as pretas e Rafaela com as brancas. Eduarda gosta de ficar segurando o queixo enquanto pensa, e Rafaela adora um uísque durante o jogo. — Peão quatro do rei. Rafaela morre de inveja do corpo de Eduarda: pernas perfeitas, pele branca de quase nunca ir à praia, seios que cabiam na mão, pontudos, empinados. Eduarda não se acha tão bonita e despreza a objetificação. — Cavalo três do bispo do rei

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  • NÓS

    Sei que você não é sequer capaz de imaginar as sensações que desperta em mim. Nunca vivi nada parecido antes. Perco o sono, durmo mal. Você me excita. Muito… Penso que você é só minha. Eu exijo exclusividade. Você não tem a mais vaga ideia das coisas que eu gostaria de fazer com você. Na verdade, eu já fiz. No meu pensamento, já realizei todos os meus desejos. É tudo tão real. Eu despi você inteira. Observei de perto sua pele clara. Deslizei minhas m

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  • A galinha atravessa vagarosamente o terreiro. Cada passo é quase uma queda. A galinha é torta, tem uma perna mais curta que a outra. É uma galinha manca. Atravessa o terreiro compenetrada como se estivesse calculando cada movimento. O terreiro é largo, clareado aqui e ali por algumas réstias de sol. O chão é coberto de terra vermelha, uma ou outra pedra preta, folhas, penas e dor. A galinha é um bicho só. Procura algum grão de milho, uma minhoca, procura a

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  • A terapeuta disse à mamãe que procurasse sair do quarto e fazer alguma atividade simples que lhe desse alegria. Sugeriu que cuidasse do jardim. Mexer com a terra é o melhor remédio contra a depressão. Plantar flores ou fazer uma horta traria enormes benefícios à saúde mental de todos. “Aproveitem a primavera precoce que já está no ar”, disse ela. A família toda concordou. Aquele pedaço do terreno atrás da casa estava mesmo inútil, tornara-se uma floresta e

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  • Procuro acalmar Luana. Ela está em polvorosa, com medo de ser demitida. O nosso chefe é de veneta, a cada minuto podemos esperar um vendaval ou um refresco brando de mar. Ele é uma boa pessoa, já demonstrou diversas vezes quando quer nos ajudar, mas pode pegar no meu pé ou no pé de qualquer colega por semanas, e isso nos aflige. Nas reuniões, somos chamados a falar: sempre me saio mal, por conta da minha timidez excessiva, mais especificamente por conta do

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  • Jandira teve uma infância de indigente. Criada com mais seis irmãos numa cidade pequena no interior, enquanto seu pai trabalhava na roça, ela ajudava a mãe a cuidar da casa e das crianças. Na tapera em que moravam, a miséria acompanhava de perto a família. Não havia comida todos os dias, faltava luz elétrica e, no caso de Jandira, lhe faltavam todos os dentes da frente. Era pobre, raquítica e banguela. Com dez anos, foi entregue aos cuidados de uma senhora

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  • Francisco saltou do metrô apressado. Estava a 300 metros do consultório, e faltavam apenas cinco minutos para o início da sessão. Não se atrasava nunca e, ao contrário de muitos, estava sempre bem-disposto às segundas-feiras. O terapeuta também raramente o atendia fora do horário. Naquele dia, tudo foi diferente. Entrou 45 minutos depois da hora marcada. Tinha muita coisa para falar, havia ensaiado um discurso na véspera. Havia feito anotações no bloco de

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  • O nenê era como um pardal palpitando na palma da mão. Estava morto? Não sei o que vou fazer. Depósito com cuidado na covinha, aberta no jardim, cercada de flores. Aí ele pára de se mexer. Dá uma respirada comprida, dá que nem uma tossinha engasgada, dá outra respirada já meio sumida, e pronto: agora está morto. A Cida ainda está chorando. Mulher chora por qualquer coisa. Era o filho dela? Também era o meu filho. Nunca mais vou-me esquecer daquele montinho

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  • Meu primo Alfredo chegou correndo e me entregou um pacote pequeno. Disse: “É pra entregar pra vó.” Entrei em casa e falei: “O Alfredo mandou entregar isso pra vovó.” Paty, minha irmã menor, fazia a lição da escola na mesa da copa e gritou na direção da cozinha: “Manhê, o Juca falou que o Alfredinho mandou uma coisa pra vó.” Minha mãe, sem parar de mexer nas panelas, virou o rosto e alterou a voz: “Então fala pro Juca levar logo isso pra sua avó.” Juquinha

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  • Me vi no fundo do copo. É aterrorizante se ver distorcido, confuso, sem se entender bem. Vi também todos os meus achaques ali, quando me sentei e pensei em Ludmila. Ela me deixou, há anos, sem chão. Não porque quisesse. Ela me foi arrancada, a fórceps, como num nascimento complicado. E olhe que Ludmila se cuidava. Não fumava nem bebia, como eu. Aliás, todas as minhas doenças advêm disso, da minha vida tresloucada, irresponsável, principalmente depois da pa

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  • Junto à porta entreaberta, olhou para o fundo da sala. No Sofá, o pai aguardava o início da transmissão pelo Première. Vestia a tradicional camisa verde, branca e grená. Atrás, o número dez e o nome eterno: Rivelino. Não quis colocar o próprio nome, como faziam por aí. Era o de Rivelino, e não o dele, que vararia os tempos. O rapaz fitava o pai, antes de afinal sair. “Boa sorte pra vocês”, e acenou para o velho, que retribuiu a nobreza do gesto. Eram adver

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  • — Verônica! Finalmente resolveu aparecer depois de tanto tempo. Ainda se lembra do caminho de casa? Bem, acho que essa não é mais sua casa. — Quarenta e sete dias. —Você não atendia meus telefonemas… — Não quero falar sobre isso agora. Passei aqui porque preciso pegar umas coisas. Rafael, você tá molhado, pingando. Sai, tenho uma reunião de trabalho daqui a pouco. — Fiquei o dia todo na piscina. A água me faz bem, me purifica. Como estamos longe do m

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  • Quando o tio Luís encontrava alguns meninos brincando com pião, logo se oferecia para demonstrar a sua habilidade. Escolhia o pião mais gordinho, que era o de que mais gostava, e mais liso, de tanto uso. Enrolava a fieira no pião com um capricho minucioso de filósofo. Escolhia a área de terra mais limpa, que não tivesse nenhum empecilho para quando o pião girasse sobre si mesmo. E então o lançava, não para a terra, como seria de se esperar, mas para a fren

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  • “Sempre diremos tudo um ao outro, inclusive o que não for bom. Mesmo o que for desagradável deverá ser dito. Porque calar é perigoso. Não nos separe o silêncio, nunca.” Assim foi o pacto que fizeram Carlos e Isabel, tão logo se descobriram apaixonados e dispostos a viver juntos vida afora. “Tem a minha palavra”, disse Carlos. “Tem a minha palavra”, respondeu Isabel. Casaram-se poucos dias depois. Ao cabo de dez anos, com a paixão um tanto esgarçada e froux

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  • Reunião de pais e mestres. — Mãe, o Anderson é um bom menino, educado, gentil, quietinho, não dá trabalho. No entanto, precisa prestar mais atenção nas aulas. Tem horas que ele parece viver no mundo da lua. A mãe olha o boletim, que segue com notas regulares, sem nenhum vermelho. Mais tarde em casa, ela parabeniza seu filho por ter recebido elogios da professora, e por não ter ficado abaixo da média. Perfeito, não iria perder o videogame aos finais de sema

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  • Dandara tinha uma casa espetacular. Sendo minha melhor amiga, me chamava várias vezes para visitá-la. Brincávamos e esquecíamos do tempo. Dormi algumas vezes lá durante as férias. Sua mãe gostava de mim porque eu era educada e estudiosa, talvez pensasse que eu seria uma boa companhia para a filha. Seu pai era arquiteto de “mão cheia”, como dizia mamãe. Era uma família endinheirada, diferente da minha, que não chegava à classe média. Nunca percebi qualquer

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  • Toquei a campainha e aguardei cerca de dois minutos até que viessem atender. A longa espera aumentou meu nervosismo. Sim, num caso desses, dois minutos constituem de fato uma longa espera. Desculpando-se pela demora, Augusto abriu a porta. Eu poderia ter interfonado antes de subir, mas, depois de refletir por alguns instantes, decidi que a atitude mais acertada seria aparecer sem avisar. Melhor que ele ouvisse o que eu tinha a lhe dizer com o espírito desa

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  • No centro da cidade ergue-se um estranho morro. Verde e coberto de flores o ano inteiro, lar de pássaros e vários animais, mas estranho: ninguém o escalou até hoje. Contam os antigos que muitos tentaram, mas nenhum retornou; redobraram as tentativas, a subida não oferecia perigo algum; julgou-se que eles haviam se perdido, mas onde? Não se conseguiu saber por que não regressavam. Contra todas as recomendações, João e Manuel resolveram subir o morro. Fui co

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  • Minha avó Penélope perdeu o marido na guerra. Isso é o que ela costumava dizer, embora algumas vizinhas, maledicentes que só, digam que ele saiu por aí a viajar pelo mundo sem pensar em voltar para casa. Não se falava muito sobre isso na família. A verdade é que quase não conversávamos sobre nada. Nos contentávamos em ouvir. Um homem deixou casa e família e não deu mais notícias: para nós, essa informação era suficiente, bastava. Quem perde maridos ou pais

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  • A sala de estar da casa da minha avó era o ponto de encontro da família aos sábados. Chegávamos cedo, no começo da tarde, e saímos de madrugada. Era uma festança danada. Os mais velhos sentavam-se e contavam piadas e lorotas, enquanto jogavam cartas e tomavam cerveja, fumando – de quebra, também, inundando a sala de fumaça (naquela época era assim; até cheguei a tomar uns goles de cerveja, dados por meu pai, sem cerimônia). Esporadicamente, a reunião se es

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  • Encostado ao trailer, pedi a última cerveja. Proença disse que para ele estava bom. Pagou sua parte. “O ônibus é às nove. Tu tá ligado, né?”, me lembrou, já saindo e me dando as costas, percebendo que eu ficaria por ali ainda um pouco mais. Fiz que sim com um gesto rápido de cabeça para o lembrete do horário do ônibus. Passavam das sete da noite. Ainda havia um resquício violeta de luz do dia no horizonte, sumindo no mar naquele anoitecer de domingo de qua

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  • (Domingo de manhã, quarto de Sofia) O rádio havia ficado ligado a noite toda. Naquele momento, ia ao ar um debate sobre a epidemia letal que tinha começado havia mais de um ano. Infelizmente, diziam os cientistas, o fim do tormento não era esperado para breve. Uma nova variante do vírus, muito mais transmissível, havia surgido no Marrocos, perto da fronteira com a Espanha. Sofia escancarou a janela e deu de cara com uma nuvem acinzentada e espessa. Aquele

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  • Papilo o quê? Expectorei na tosse esta pergunta para minha filha Violeta, liberando as vias áreas de um agente irritante. Nunca entendi o seu sonho de ser uma papiloscopista. Quando meninas sonhavam em ser princesas, a minha desejava ser papiloscopista. Hoje fico aliviada dela não ter brincado de cadáveres ao invés de bonecas. Quando ela me falou pela primeira vez da profissão tão sonhada, confesso que não entendi. Naquela manhã ensolarada, ela desembuchou

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  • O Zé balançou a cabeça, recostou-se no sofá, acariciando os cabelos, a cara, as orelhas, o nariz. Quando chegou no nariz, ele acordou. Olhou a Cida do lado, sardentinha, de olhos claros. Eram mais de três horas da tarde, e ele dormindo. Um gosto de cabo de guarda-chuva na boca! A Cida falava que tudo bem, ele ficou meio alegre ontem à noite, mas quem é que não ficou? Todo mundo achou o Zé engraçado, só o Boi que ficou meio contrariado. O Boi é assim, é só

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