Contos
18.03.2026
Posso ser escritor
O último gole de café foi tomado rápido, para satisfazer a premência do dia. No ato, num pulo, fui à sala do chefe, para atender a uma demanda (ele chamou, quase gritando, numa ânsia descomunal, como lhe é peculiar). Com a vista cansada, de passar o dia no computador, tive um pouco de turvamento. Titubeei. Um amigo percebeu e pediu para eu me sentar novamente, que ele iria no meu lugar. Logo retomei a consciência e fui ao chamado urgente, urgentíssimo. Cambaleante, tinha de seguir. Então, fui pé ante pé, devagar. O chefe, como sempre, me disse que era urgente – me alertando – o que teria de ser feito. Eu deveria olhar três grossas pastas e atualizar a movimentação dos processos – era, como é de fato, o pior serviço do mundo, em que tenho de olhar cauteloso e constrito, longe do mundo ao redor, para não perder o fio da meada. Já estava decretado, eu teria um dia difícil e pouco aprazível. Não faria minhas intimações com vontade, como o gosto de fazer. Teria, a meu ver, de me preocupar com o supérfluo. E o chefe atentou para o fato de que eu não deveria dividir as funções, …
Cinema
17.03.2026
O Céu de Suely
O “Céu de Suely” é um filme brasileiro do ano de 2006, dirigido por Karim Ainouz. Esse filme contou com as interpretações de Hermila Guedes, Marcélia Cartaxo e Zezita Matos. O filme inicia com a personagem principal, Ermila, em um campo de terra junto com o pai de seu filho. Nessa cena, a personagem dança com um ar de muita felicidade, enquanto recita as promessas que seu companheiro, Marcelo, fez dizendo que faria dela feliz por ser o grande amor da sua vida. Tudo começa prometendo ser um grande romance… No entanto, o céu que Ermila, depois Suely, materializa em torno dessa promessa de seu ex-companheiro logo cai. A personagem, então, aparece retornando a sua terra natal junto de seu filho, Marcelo Jr., com a promessa de Marcelo de em breve ir encontrá-la na cidade onde se conheceram. Daí em diante, a vida de Ermila vira um misto de decepções e… sonhos. Sim, mesmo passando pelas mais diversas crueldades da vida, Ermila jamais deixa de sonhar. Essa história espelha a de muitas mulheres no Brasil que, acreditando na paixão, são enganadas pelos seus parceiros e passam a viver a realidade cruel da maternidade solo. Essa tarefa que é cansativa, por …
Crônicas
17.03.2026
A alegria dos outros incomoda
Na Praça do Coração Eucarístico, que parece uma ilha cercada de botecos por todos os lados, eu conversava com uma amiga quando ela avistou uma conhecida. Quis cumprimentá-la, mas parou – a outra andava olhando pro chão, cara de poucos amigos, sem erguer os olhos pros outros que passavam. Só o hábito automático de espiar um lado e pro outro pra atravessar a rua. Minha amiga comentou: “É tão esquisito dar um oi pra quem não tá num bom dia”. Ao redor, os bares lotados de gente bebendo feliz da vida. O Coração Eucarístico é onde fica a PUC – o que dá ao bairro uma cara jovem: mulheres lindas, rapazes animados, sem tantas preocupações. Gente triste deveria evitar lugares assim em dias de sol. Minha amiga, naquele dia, tava no auge. Ria fácil, cantarolava umas músicas, cheia de novidades pra contar. Ninguém num dia tão bom quer esbarrar na dor alheia. E aquele medo – de chegar, soltar um “Oi, tudo bem?” e a pessoa resolver despejar tudo. Aí a gente atravessou um bar, parou e pediu uma cerveja. Ela falava do rapaz de quem tava gostando, do trabalho, de tudo. Ela tava certa. Vocês já repararam? Tem gente …
Contos
16.03.2026
Eutanásia
Um dia, Zími falou para Mila Cox: “O seu destino é criar, não cumprir.” Ela nunca esqueceu dessa frase, não esqueceu também que naquele dia Zími usava uma camiseta com a cara do Mark E. Smith, mas esqueceu das circunstâncias em que ela foi dita. Já fazia anos, foi antes da pandemia, e eles tinham acabado de montar a banda Crop Circles. Ela ainda morava com a mãe na Penha, e ele morava sozinho na Bela Vista. Agora moram juntos num apartamento na Liberdade. Mila Cox perguntou para Zími se ele já tinha algum hater. Zími respondeu: “Eu nunca tinha pensado nisso, então provavelmente não tenho. O que eles fazem? Falam merda na internet? É um pântano cheio dessas criaturas cheias de ódio. Eu tenho certeza que falho na minha promoção pessoal, falho na minha publicidade individual, porque eu cago pra isso. Já existe a publicidade sobre a banda, que você faz da maneira certa, e pra mim é o bastante. Mas se algum cretino que nem me conhece começar a falar mal de mim, a publicidade em cima de mim seria muito maior do que qualquer publicidade que eu mesmo possa fazer. Quando se trata de outra pessoa falando, …
Poesias de 1 a 99
16.03.2026
Poema #60: Poema retirado de uma lápide
No cemitério de PerdõesLaura Alvarenga descansa.Moça bonita de 19 anos,falecida em 1920.Sentada numa cadeira,com um grande laçode fita nos cabelose uns braços que talveznem mesmo Machadosonharia descrever emseus contos de Assis.Laura Alvarengade 19 anos de idadee seus olhos de Capitu.Uma fisionomia pensativae meio triste de quem nãoantevia a sua própria morte,que chegaria tão cedo.Na sua lápide está escrito:“Saudade eterna de seus Paese irmãos”. 87 anos depoiseu contemplo sua fotografianum livro de pesquisa e pensoque gostaria de tê-la conhecido.O que sabemos nós da vida? Uma Escada que Deságua no Silêncio
Crônicas
15.03.2026
Tudo começa com “veja bem…”
Nada me irrita mais do que fazer uma pergunta simples e não receber uma resposta simples. Não estou falando de questões filosóficas ou existenciais. Falo de coisas objetivas mesmo. O mais comum é a pessoa simplesmente olhar para você e repassar a sua pergunta. É o típico eco humano: P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? R: O que achei da trama desse filme que ganhou o Oscar? Tem também o contador de causos genealógicos, que sente uma necessidade irresistível de demonstrar sua prodigiosa memória — que começa em Adão e Eva e termina em lugar nenhum. P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? R: Bem… ele me fez lembrar de uma tia minha, sabe, tia Cotinha? Então, ela tinha uma funcionária que fazia uns bolinhos de chuva deliciosos. Eram de comer rezando! Ao final da tarde, bla, bla, bla…Mas, voltando ao que achei dessa trama, infelizmente, enquanto comia os bolinhos de chuva não prestei muita atenção. E ainda existe o professor involuntário. Fácil identificar: Se começar com “Veja bem…”, pode se sentar e esperar. P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? …
Crônicas
15.03.2026
Psicose
Helenice costumava sonhar. Dormindo ou acordada. Desde mocinha. Seus pais contavam que ela adorava narrar seus sonhos, bons ou ruins. Os pesadelos mesmo começaram a partir dos vinte e poucos anos. Clássicos, como cair em buracos, despencar de prédios, ficar presa em recintos escuros, afogar-se ou assombrada entre fantasmas. No início não se deu tanta importância, Helenice era assim mesmo, pessoa ansiosa e com muita imaginação. Com o passar dos sonhos, um pesadelo se tornava recorrente: era possuída por um homem sem face que lhe morria em cima. Sem conseguir se desvencilhar do corpo, aflita, quase sem respirar, acordava coberta de suor e medo. Procurou ajuda na terapia. Havia teorias diversas sobre os sonhos, expressão do inconsciente e de experiências mal ou bem resolvidas. A terapeuta ouvia o relato dos seus pesadelos, procedendo com algumas anotações num bloco. — Talvez eu tenha medo do invisível, quem sabe bloqueio sexual, ansiedade ou algum tipo de sufocamento psíquico. A terapeuta ouvia calada e, quando comentava algo, era sucinta. — Os sonhos podem traduzir insatisfações e memórias de fatos ocorridos. Helenice aceitava as insatisfações, embora discordasse do “memória de fatos ocorridos”. Nunca ninguém morrera em cima dela. Ainda mais, durante uma relação sexual. …
Crônicas
15.03.2026
Saída de emergência
Trepida. Me vem, primeiro pelo barulho externo que pelo chacoalhar do corpo. Depois, o conforto de um ambiente climatizado. Estou em trânsito, como gosto, dormindo a caminho de um novo horizonte [muito embora, seja o mesmo de um momento anterior, que não é esse]. Minha quilometragem fortalece os sorrisos que virão. Quero gozar do tempo que ainda tenho. Quero me dar o sabor de estar comigo mesma. Passear comigo. Tomar sorvete no parque, como se eu estivesse de mãos dadas com outras mãos, que não as minhas. O silêncio é extremamente necessário na vida. As desilusões, saídas de emergência.
Cães & Pessoas
15.03.2026
Crônica Canina – parte 5: Uma crônica de despedida
Escrever crônicas de despedida não é uma boa experiência… Escrever crônicas de despedida, no fundo, tem o papel de confortar o coração, desabafar, cumprir um rito. No entanto, escrever uma crônica de despedida é sempre doloroso! Eu não pensei que escreveria esta crônica… Entre tantos assuntos e os assuntos que repetidamente viram crônica, não pensei que este seria o motivo… Há alguns dias, perdemos o nosso querido Todd! Um golden retriever amoroso e educadíssimo! Um gigante gentil! E tudo foi rápido demais! De maneira inesperada, num de repente que não prepara (e nunca estamos preparados mesmo)! E sempre perguntamos o porquê! Por que você se foi grandão? E agora? Quem vai ficar com os olhos grandes no pão, no tão desejado pedaço de bolo? Quem vai soltar quilos e mais quilos de pelos pra todo o lugar? Quem vai pular na água como se não houvesse amanhã? Lembro que levamos o Todd a última vez na Cachoeira dos Frades, um lugar muito bonito em Teresópolis. Todd não se fez de rogado, todo alegre, correu em direção às águas frias da montanha… Levamos a Chiara também! E não preciso dizer que ela não tinha o menor interesse em água! Aquele dia …



























































