Cães & Pessoas
    11.03.2026

    Entre a lei e o ladrão: o que os cães ainda podem ensinar aos homens?

    Nas redes sociais, dois vídeos chamaram a atenção por uma curiosa semelhança, embora, nos fatos, sejam opostos. Em um deles, é o policial quem se derrete diante da presença de um vira-lata; no outro, é o ladrão. Começo com um aviso direto: não gosto de ladrão. Para mim, pertencem à escória da humanidade. Ainda assim, convém reconhecer que, por trás de qualquer bandido, há um ser humano e, às vezes, pode correr em suas veias algum vestígio de piedade. Peço, então, apenas que contemplem as cenas. Há algo nelas que desarmam o olhar. Mesmo diante da lei, o ladrão não se apavora; move-se e deixa escapar um gesto simples de humanidade ao afagar o cãozinho que se aproxima. Do lado do cão, há apenas inocência. Ele não julga, não investiga, não pergunta pelos motivos da prisão. Aproxima-se como os cães sempre fizeram desde o processo evolutivo: um movimento nobre para melhor compreender o ser humano. Talvez seja justamente isso que nos apazigua, porque, diante de um cão, até um ladrão ainda pode parecer um homem. Talvez por isso esses dois vídeos, embora contrários em seus papéis, acabem revelando a mesma coisa. O policial e o ladrão estão em lados opostos …
    Contos
    11.03.2026

    Só se é de parar quando morrer

    Com dona Raimundinha não tem brincadeira. Mulher trabalhadora, venceu na vida a custo de muito suor, com o seu restaurante lá no centro. Tenho orgulho de minha mãe. Além de tudo, me ensinou a ler e a escrever, porque eu tinha certa dificuldade de decorar as letras, ou mesmo uma dislexia, algo não diagnosticado, porque nos anos oitenta não havia tratamento especial para neurodivergentes. E isso ela fazia quando chegava do trabalho, ia conferir as tarefas escolares minhas e dos meus irmãos, e levava horas, sem demonstrar cansaço. No fim do dia, já perto das 22h, ainda ia arrumar a casa, com a ajuda da Deusinha, a nossa cuidadora e faz-tudo do lar. Ela botou meu pai para correr quando soube que ele tinha um caso com uma funcionária do restaurante; daí você tira a sua dureza nas atitudes, não tinha conversa: “Escreveu, não leu, o pau comeu!”. Lógico, com a sua personalidade forte, quem mandava era ela, e sempre foi assim. Por outro lado, tinha uma delicadeza sem igual para a cozinha, era um verdadeiro milagre, ela se transformava, dedicada como era: a única pessoa que conheço com mãos de fada para a comida, muito melhor do que qualquer …
    Cinema
    10.03.2026

    ‘Rio, Zona Norte’: de Nelson Pereira dos Santos

    Retornamos com os comentários sobre filmes brasileiros nesta página, falando sobre o filme “Rio, Zona Norte”, de 1957, dirigido por Nelson Pereira dos Santos. O filme se passa na cidade do Rio de Janeiro e conta com as atuações de Grande Otelo, Jece Valadão e Paulo Goulart. Ele conta a história do sambista Espírito da Luz que, após sofrer um acidente em uma linha de trem e ter um traumatismo craniano, tem sua história revelada para o público que assiste ao filme. A trama se desenvolve em dois momentos distintos. Em um deles, são contados os momentos após o acidente sofrido pelo protagonista. No outro, os acontecimentos anteriores a esse mesmo acidente. Nelson Pereira dos Santos é, sem dúvidas, um dos grandes expoentes do cinema brasileiro, se não for o maior. Nesse filme, ele faz uma junção da abordagem da arte, por meio do samba, com problemas sociais enfrentados por uma população que, apesar de ter muito potencial e evidente talento, fica à margem da sociedade. Espírito de Luz é a representação das injustiças dessa sociedade que não olha com olhos de interesse para quem vem da periferia. Um sambista que tem uma capacidade ímpar de compor sambas, de uma …
    Crônicas
    10.03.2026

    Oi, Mazzilli

    Certas coisas na vida não vêm de graça. Se você, por exemplo, tem o hábito de ir ao cinema toda semana, de se alimentar de filmes velhos e novos, tenho certeza de que alguém o levou ao cinema pela primeira vez. Um tio, um pai apaixonado por filmes, uma mãe, um professor, uma avó. Se você é do tipo leitor apaixonado, daqueles que leem por prazer até as placas das ruas, alguém na sua casa é assim. Ou, então, alguém o levou ao museu, ao teatro, lhe mostrou um disco. Paixão assim passa de pessoa para pessoa. E, se, como eu, você não teve uma família rica, a história fica ainda mais interessante. Quando eu era um menino, descobrindo a MPB, ainda não era o tempo dos streamings. Para saciar esse vício, eu pedia que gravassem discos para mim. Marcava com um amigo para almoçar, ou tomar um café, e lá estava ele, com aqueles CDs virgens que a gente comprava nas Lojas Americanas. Voltava para casa com músicas gravadas — jazz, MPB, coisas que eu ainda nem sabia direito de onde vinham. Eu era pobre, mas ia me virando com a ajuda daquele amigo. Às vezes, num fim de …
    Contos
    09.03.2026

    Antes da escalada nuclear

    Tuco se suicidou. Era vizinho de Zími. Encontravam-se eventualmente nu elevador do prédio em que moravam e raramente as conversas passaram do “bom dia, boa tarde, boa noite”.   Zími, no entanto, podia compará-lo a um repolho cheio de rancor.  Ou a uma balança moral com defeito. Sabia que eram ideologicamente antagônicos. Vizinhos do prédio contaram a Zími sobre a morte de Tuco pouco depois da polícia científica deixar a garagem do prédio. O que havia de consenso nas diferentes versões dos vizinhos sobre o fato era a ruína financeira de Tuco, que o atormentava. Ele jamais seguiu a lógica minimalista de Zími, que pregava viver com o suficiente e poupar quando possível.  Nem poderia, pois era divorciado com dois filhos, enquanto Zími era solteiro e sem filhos. Tuco não ostentava grandes bens ou uma vida cheia de conforto para que alguém pudesse supor que tivesse dívidas insolúveis. Talvez esse fosse o motivo de seu discreto desespero. Ele deixou duas crianças órfãs, sócios desesperados em meio a negócios escusos e um apartamento vago no prédio. Os filhos viviam com a mãe em outro lugar. Zími ouvia Tuco dizer sobre si que era um conservador capitalista convicto, em rodinhas de vizinhos na frente …
    Poesias de 1 a 99
    09.03.2026

    Poema #59: Perdas e Danos

    parece que perdio dom de sonhardepois de tantasdecepções. depois de tantasperdasparece que sonheique já não tinha o dom. acordei e era tudoverdade ou pesadelodepois eu achoque dormi de novo. O Jardim Simultâneo
    Crônicas
    08.03.2026

    Vênus sob cerco

    Diz-se, desde muito tempo, que somos de Vênus — a deusa romana do amor, da beleza, da fertilidade, da paixão. Talvez por isso tenhamos sido educadas, durante séculos, para preservar o vínculo a qualquer custo. Para compreender antes de julgar. Para acolher antes de confrontar. Para duvidar de nós mesmas antes de duvidar do outro. Essa disposição para o cuidado, que também é uma das maiores forças da experiência feminina, pode ser manipulada por quem aprende a explorá-la. O agressor raramente começa com a violência explícita. Ele começa com pequenas fissuras na realidade: uma frase que não foi dita, um fato que teria sido imaginado, uma lembrança que, segundo ele, está errada. Aos poucos, o chão da mulher vai sendo retirado sob seus próprios pés. Quando ela já não confia totalmente na própria memória, na própria percepção, na própria lucidez, torna-se mais fácil aceitar o inaceitável. Esse tipo de manipulação tem um nome: gaslighting. O termo vem do filme Gaslight (1944), estrelado por Ingrid Bergman. Na história, um marido manipula pequenos acontecimentos do cotidiano para convencer a esposa de que ela está enlouquecendo. Entre as formas de violência psicológica contra a mulher estão o isolamento, a vigilância constante, os insultos …
    Crônicas
    08.03.2026

    Ai, minhas orelhas!

    Ando com muita pena das minhas orelhas porque as pobres estão ficando de abano. Daqui a pouco vou precisar de uma plástica. Eu já havia detectado o problema por causa dos óculos que as coitadas são obrigadas a suportar e dos brincos que uso desde sempre. Mesmo tentando que ambas as coisas se tornassem cada vez mais leves, sentia que minhas orelhas se vergavam aos poucos, com uma contribuição nada desprezível da facilidade com que as cartilagens, e quase todo o resto do corpo, vêm abaixo com o passar do tempo. E a agravante de que na família há vários casos de surdez por velhice, o que torna grande a chance de no futuro acrescentar um aparelho auditivo a tudo isso. Para completar o quadro, agora as orelhas ainda têm que aguentar os elásticos e o peso das máscaras que usaremos permanentemente até sabe-se lá quando. É penduricalho demais para as frágeis orelhas. Médicos e outros profissionais de saúde vão dizer que isso não é nada comparado com a situação deles, forçados a usar máscaras durante horas. Compreendo que seja difícil, mas há uma grande diferença: tais pessoas escolheram a profissão e já sabiam das desvantagens. No nosso caso foi …
    Crônicas
    08.03.2026

    Esquisito íntimo

    Esquisito: Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels preto e branco dançantes. Uma quase hipnose. Quando não sabemos o significado de certas palavras, é fácil abstrair-nos de seus valores agregados e nos prendermos aos seus odores. Esquisito quase fede. Esquisito, em si, é um quase. É preconceito, em primeira instância. Algo que, à primeira vista — ou ao primeiro ouvido — soa ruim. Pode, entretanto, o esquisito ser apenas diferente; e o diferente é condição sine qua non para sairmos de nossos rótulos e padrões, muitas vezes nem sequer nossos. Esquisito, no final das contas, sempre é bom. Como é boa toda primeira vez — depois que vira memória. A primeira vez é esquisita por ser território novo: gotas de suor descendo pelas têmporas, respiração em ritmo de taquicardia, suspensão do tempo que, congelado, torna-se projeto à luz da recordação. Esquisita e sempre inesquecível: a primeira vez que saímos sozinhos, a primeira escolinha; o primeiro beijo, o primeiro emprego — e, consequentemente, o …

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    Entrevistas

      Entrevistas
      16.12.2024

      Entrevista com Angel Ferreira

      O monólogo Sidarta marca o primeiro projeto solo no teatro do ator e diretor Angel Ferreira. Desenvolvido ao longo de quatro anos, o espetáculo aborda temas existenciais, explorando a ambiguidade entre extremos como sagrado e profano, sucesso e fracasso, prazer e privação, solidão e pertencimento. Ambientada na Índia, durante a época do Buda histórico, a peça é livremente inspirada no livro homônimo de Hermann Hesse, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Embora Angel Ferreira seja um artista experiente, muitos talvez o reconheçam melhor pelo nome de batismo Igor Angelkorte. Recentemente, o ator revelou ter mudado de nome por sentir a necessidade de se transformar, um gesto que reflete sua busca por autenticidade. O artista usou suas redes sociais para comentar que uma das apresentações contou com apenas 12 espectadores, destacando os desafios de divulgação e alcance do público no teatro contemporâneo. O post gerou um grande interesse pela peça o que resultou numa lotação para as últimas apresentações. A seguir, leia a entrevista que o autor concedeu com exclusividade para o Crônicas Cariocas: Francci Lunguinho — Você está no teatro com o espetáculo Sidarta, uma adaptação da peça de Hermann Hesse. O que você espera desta última semana em cartaz? Angel Ferreira — O que espero desta última semana …
      Entrevistas
      10.12.2022

      A Paraíba no horizonte da poesia: uma entrevista com Lau Siqueira

      Lau Siqueira é um velho conhecido da poesia paraibana, da brasileira e deste portal. Gaúcho de nascimento, é, desde 1985, também um tanto paraibano. Nascido em Jaguarão, integra, como legítimo representante, o cenário da poesia paraibana. Entre outros livros, é autor de: O inventário do pêssego (2020), A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas (2017), Livro arbítrio (2015) e Poesia sem pele (2011). No dia 27 de novembro, em João Pessoa, Lau Siqueira lançou Horizonte mirado na lupa: cem poemas contemporâneos da Paraíba (Casa Verde, 2022), livro organizado por ele. Com 50 autores, a obra – que ainda conta com ilustrações de Flávio Tavares – apresenta uma amostra do que de melhor vem sendo produzido na Paraíba em matéria de poesia. A partir de 12 perguntas, batemos um papo com ele acerca dessa antologia e da poesia paraibana. 1 – Primeiramente, gostaria de saber como surgiu a ideia de organizar uma antologia da poesia paraibana e quando se iniciou o trabalho de pesquisa que resultou nesse livro. Há uns dois anos estou pesquisando para um projeto que eu chamo de Beraderos. Poetas que nasceram na Paraíba e que por diversos motivos foram morar e fizeram …
      Entrevistas
      10.08.2006

      Simplesmente Thogun!

      Morador da Zona Norte do Rio e boa-praça assumido, Thogun ganhou projeção nacional com o documentário Fala Tu (2003), de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery, que acompanhava o cotidiano de rappers cariocas em busca do sonho de viver da música. Ex-vendedor ambulante, dono de voz marcante e apaixonado por jornalismo, ele reconhece que o filme mudou sua trajetória: “Se não fosse o mano Thales, produtor do filme e companheiro de militância há mais de 20 anos no hip-hop carioca, eu não teria conseguido”, afirma. A relação com o cinema não parou aí. No mesmo período, participou também de Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, documentário que retrata a violência urbana e o papel do tráfico nas favelas. “Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João”, diz, citando os documentaristas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles como referências. Nesta entrevista exclusiva, concedida por e-mail, Thogun conta um pouco de sua trajetória. Crônicas Cariocas: Você foi um dos quatro cariocas participantes do documentário Fala Tu (de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery), que mostra o dia a dia dos rappers e seus sonhos de ganhar a vida cantando. Como você avalia a sua …

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