Crônicas
15.03.2026
Saída de emergência
Trepida. Me vem, primeiro pelo barulho externo que pelo chacoalhar do corpo. Depois, o conforto de um ambiente climatizado. Estou em trânsito, como gosto, dormindo a caminho de um novo horizonte [muito embora, seja o mesmo de um momento anterior, que não é esse]. Minha quilometragem fortalece os sorrisos que virão. Quero gozar do tempo que ainda tenho. Quero me dar o sabor de estar comigo mesma. Passear comigo. Tomar sorvete no parque, como se eu estivesse de mãos dadas com outras mãos, que não as minhas. O silêncio é extremamente necessário na vida. As desilusões, saídas de emergência.
Cães & Pessoas
15.03.2026
Crônica Canina – parte 4: Uma crônica de despedida
Escrever crônicas de despedida não é uma boa experiência… Escrever crônicas de despedida, no fundo, tem o papel de confortar o coração, desabafar, cumprir um rito. No entanto, escrever uma crônica de despedida é sempre doloroso! Eu não pensei que escreveria esta crônica… Entre tantos assuntos e os assuntos que repetidamente viram crônica, não pensei que este seria o motivo… Há alguns dias, perdemos o nosso querido Todd! Um golden retriever amoroso e educadíssimo! Um gigante gentil! E tudo foi rápido demais! De maneira inesperada, num de repente que não prepara (e nunca estamos preparados mesmo)! E sempre perguntamos o porquê! Por que você se foi grandão? E agora? Quem vai ficar com os olhos grandes no pão, no tão desejado pedaço de bolo? Quem vai soltar quilos e mais quilos de pelos pra todo o lugar? Quem vai pular na água como se não houvesse amanhã? Lembro que levamos o Todd a última vez na Cachoeira dos Frades, um lugar muito bonito em Teresópolis. Todd não se fez de rogado, todo alegre, correu em direção às águas frias da montanha… Levamos a Chiara também! E não preciso dizer que ela não tinha o menor interesse em água! Aquele dia …
Crônicas
14.03.2026
Laranja Mecânica
Podemos dormir tranquilos, pois Big Daddy ‘is watching you’, direto da Casa Branca. Investido de ilimitados poderes imperiais, o supremo cowboy zela 24 horas por nossa integridade ideológica. Mr. Orange, autointitulado ‘xerife do mundo’, mentor do far west style, onde quer que as forças esquerdistas corrompedoras da moral e dos bons costumes impeçam a implantação da doutrina MAGA. Mr. Orange é um escudo inabalável contra a ação maléfica de negros, mestiços, latinos, islâmicos, abortistas, feministas, LGBT’s, ONGs e ambientalistas que ameaça a ascendência dos valores ocidentais, machistas, caucasianos e anglo-saxões que faz da América um exemplo de civilização bem sucedida, a ser alastrada pelas regiões selvagens onde a palavra de Cristo não chegou. Nos redutos tropicais brasílicos, escancarar-se-ão as portas dos casebres e barracos para que os ares insalubres do atraso sejam varridos pelo frescor dos ventos boreais do Vale do Silício. Serão abandonadas as banais referências tupiniquins, tais como o forró, o berimbau, o açaí, o afoxé e o ziriguidum para possibilitar a entrada triunfal de startups e legiões de nerds, geeks, hackers, techies e afins. Mr. Orange assegurará plena guarida aos leais bajuladores, Mileis, Bukeles e Delcys. que se mostrem convenientemente servis às instruções neoliberais e aos preceitos da …
Contos
13.03.2026
Gênese
Fui espiar o gato que miava no jardim, à noite, um miado esganiçado como se o estivessem estripando. Olhei as estrelas, a mancha branca da Via Láctea e a lua com suas manchas retorcidas. Pensei no que haveria por trás dessas estrelas, outras estrelas talvez, por trás da nossa galáxia talvez outras galáxias. Me lembro de Fernando Pessoa: “Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.” Foi Baudelaire quem falou da palavra que nomeou o mundo e que nomeou Deus. Foi Deus quem nomeou o mundo, mas foi a palavra quem nomeou Deus. Deus subjaz à palavra. Que frase, hein? Deus subjaz à palavra. Mas, como tudo começou? Com a palavra. Mas quem lançou a palavra, antes de Deus? Quem criou Deus? A palavra. Mas, quem antes da palavra? No princípio era o caos. Este é o verdadeiro princípio. O caos. Ou o nada. Impossível imaginar que antes do nada ou do caos surgisse o universo. Algo se moveu, do nada. É o que a ciência até hoje sabe. Algo se moveu. Não existia nada e algo se moveu. A explosão primordial. Há uma campânula, e o vácuo. Uma bola de papel é jogada nesse vácuo, como …
Crônicas
13.03.2026
Tem dias e mais dias
Tem dias que enxergo o sol de forma terna e agradável, como um deus antigo que nos convida a desfrutar a vida. Tem dias que a mínima palavra ouvida me aborrece. Uma pergunta trivial chega aos meus ouvidos como a expressão máxima da estupidez. Tem dias que busco rostos sérios na rua e tento acende-los com um sorriso. Nem sempre dá certo. Meu sorriso vai e volta para mim e segue enfeitando meu dia. Tem dias em que tudo o que falo não é escutado ou compreendido. Me sinto como se falasse algum idioma alienígena. Ou pior: me sinto como se não existisse. Tem dias em que o menor gesto cortês me ilumina a vida. Ele fica reverberando na minha memória e suspiro tranquilo ante a boa natureza de algumas pessoas. Tem dias que prefiro falar sozinho porque não estou com paciência de traduzir. Tem dias que atravesso a rua só porque alguma interessante chamou minha atenção. Tem dias que adoro o isolamento completo, sem som e sem mensagens escritas. Tem dias que até faço piada na rua. Tem dias que parece que moro no circo. A cada volta pelo noticiário televisivo vejo malabaristas de palavras e ideias, domadores de …
Falou e Disse
13.03.2026
Beber só
A expressão “beber socialmente” tem um quê da correção política tão propagada hoje. Designa uma forma civilizada de beber (embora haja algum paradoxo nisso, pois bebemos para fugir à força coercitiva da civilização). Quando alguém diz que bebe socialmente, está querendo dizer que se controla, se policia, enfim, não se deixa dominar pelo “vício”. Mas há outro sentido nessa dimensão social da bebida. Beber socialmente é também (e lá vai o óbvio) não beber só. É aproveitar o ensejo para conversar, rir com os outros, trocar impressões (e sobretudo imprecações) sobre a vida e o mundo. Beber socialmente não exclui a possibilidade de alguém ser alcoólatra, assim como beber só não significa que a pessoa seja viciada. Existem alcoólatras que sempre procuram parceiros com quem beber (e quando não os encontram, se frustram, e bebem com mais intensidade ainda). E existem “bebedores sociais” que vez por outra não querem que ninguém lhes perturbe a comunhão que estabelecem com a bebida. Para mim, uma das imagens mais dolorosas da solidão é a de alguém bebendo sozinho. Beber só – sem ter com quem brindar, a quem fazer confidências ou mesmo sobre quem entornar o copo – é pior do que comer …
Crônicas
13.03.2026
Livraria do Luiz: espaço de cultura
O que é uma livraria? Os incautos dirão que é onde se vendem livros. Não deixa de ser uma resposta verdadeira. Se recorrermos ao dicionário, é isso que estará lá, Aurélio e Caldas Aulete até a classificam como loja. Porém, como a vida não cabe nas definições lexicais e, do mesmo modo que os livros não se resumem à sua materialidade objetal, uma livraria é muito mais do que um estabelecimento comercial. Quem, após andar entre os negócios e os negociantes do centro de João Pessoa, adentra na Galeria Augusto dos Anjos e, nela, na Livraria do Luiz, facilmente constata o que acima afirmei. Cruzando a porta, já se apercebe que está em um universo próprio, dotado de uma aura especial, que inspira e expira cultura. Se as livrarias são mais do que meras casas de comércio, há as que conseguem ser mais do que livrarias. É o caso da Livraria do Luiz, como foi, em certa época, da José Olympio. E é isso que faz o encanto do lugar. Muito mais do que o café ou os exemplares à venda, é o ambiente, o que ele representa e o que traz. É aquela aura que se instaurou no número …
Crônicas
12.03.2026
Avidez e honra no tempo!
Em épocas muito passadas, os abastados entediados, não aproveitavam suas vidas ocas, por que não existiam ofertas de lazer e compras atraentes aos olhos exigentes dessas criaturas bem nutridas. A massa de gente, seguia rumos cotidianos sem graça no viver e rotineiramente contavam suas desventuras aos olhos de todos, que em sua companhia vagavam pela próxima busca de motivação diária, surgida nas mãos de alguém mais genial. Os dias de plenitude de alguns séculos atrás, tornaram-se quase pó, mesmo tendo já sido uma deslumbrante idade de ouro. Nosso tempo se caracteriza por uma presunção estranha de ser mais que qualquer outro passado. Apesar das ofertas de compras e novas tecnologias, disponíveis a carteira de qualquer humanoide a solta no planeta azul. Mas a performance intelectual média, se aproximou de uma decadência rasa, passível de ser omitida pela envergadura descomunal do ter, em detrimento ao ser. Na verdade vivemos num tempo muito capaz de realizar, mas não se sabe o que, pois domina tantas coisas que se torna incapaz de ser dono de si mesmo, e se perde em sua própria abundância. Isso tudo é um pouco do mesmo pensamento escrito no livro “A Rebelião das Massas”, escrito pelo genial José Ortega Y Gasset, considerado de grande importância para o século XX, como foi Carl Marx para o século XIX. …
Contos
12.03.2026
Os labirintos da noite
Com o tempo, minha mulher se acostumou com meu sonambulismo. A convivência tem dessas coisas, entre elas o dom de converter nossos atos mais estranhos em aborrecida rotina e agora, quando me levanto no meio da madrugada, ela não mais se incomoda e continua dormindo. Há algumas noites uma novidade se incorporou à minha mania de caminhar de olhos abertos, embora estivesse dormindo: o alcance da minha ronda. Antes restritos ao espaço da sala, cozinha e área de serviço, meus passos agora me levam para lugares um pouco mais distantes. Acontece assim: pego a chave, abro a porta da frente, cruzo o jardim e entro na casa vizinha. É uma casa exatamente igual à minha, por dentro e por fora. Na entrada, há o mesmo cabideiro onde costumo pendurar o casaco de inverno; na sala, o televisor ocupa lugar idêntico e na frente dele há a mesma poltrona de veludo marrom. Na parede da direita, a mesma reprodução de um quadro de Volpi e, sobre a mesa de jantar, idêntico vaso de gerânios vermelhos. Igual tapete cobre o chão do corredor. Na cozinha, os armários e utensílios como se fosse cópia. No dormitório, reconheço a mesma cabeceira da cama, em …



























































