Falou e Disse
20.03.2026
A armadilha do lugar-comum
Língua é como roupa ou sapato – desgasta-se com o uso. Precisa ser continuamente renovada para não perder o vigor. A tendência dos falantes e escreventes, às vezes por preguiça mental, é lançar mão de clichês e modismos que debilitam a expressão, reproduzindo chavões cuja obviedade torna o texto raquítico e previsível. Usá-los é como se servir de um estoque já pronto, que dispensa o pensamento. Segundo Alcir Pécora, em “Problemas de Redação” (Martins Fontes), eles são “o túmulo do estilo”; evitá-los é condição fundamental para se pensar e escrever bem. É comum alertar os redatores contra o vício das gírias, que na linguagem formal devem ser evitadas, mas por vezes se esquece de adverti-los sobre um inimigo bem mais perigoso e sorrateiro – o lugar-comum. Prevenir-se contra a gíria é fácil. Bem orientado, o redator evitará palavras como “bacana”, “maneiro”, “barato”. Ou construções do tipo “A polícia levou em cana o traficante”, “O presidente não está nem aí para o aumento dos juros”, “A prova foi beleza”. Mais difícil é escapar dos clichês. Eles são frequentes, por exemplo, no vocabulário dos comentadores esportivos. Quantas vezes não lemos que um time conseguiu o empate “ao apagar das luzes”? Ou …
Contos
20.03.2026
A menina e a caixa de sapato
A menina encontrou uma caixa de sapato na soleira da porta de casa. Era uma caixa enorme – devia ser um homenzarrão, pensou a menina. Dentro um bebê, com um gatinho recém-nascido no meio das pernas. O bebê era minúsculo, peladinho, a pele quase transparente, esticadinha. O gatinho era molinho, parecia que a gente ia esmigalhar, só de pegar. A mãe gritou lá da cozinha: – Que é, Cidinha? – Nada, mãe. – Essa menina, disse o pai. E a menina – só a menina, sem nome mesmo; essa menina! –, a menina toda ansiosa correu esconder a caixa de sapato. Apertava no peito – é minha! Queria esconder nas costas, debaixo do vestido, dentro da boca, dos olhos enormes. Escondeu embaixo da cama, até que o pai e a mãe fossem trabalhar. – Cuida da porra da casa, disse o pai. – É só uma criança, disse a mãe. – A casa é a porra da casa, disse o pai. E bateram a porta. Enfim sós. O coraçãozinho apertado – ver meus bichinhos, uh! Pegou a mamadeirinha da boneca, encheu de leite, tomou um pouquinho – um golinho só, para experimentar. Ficou olhando para os dois bichinhos na caixa …
Crônicas
19.03.2026
A mágica aparece!
Às vezes a vontade de desistir não é só uma ideia passageira, porque já acordamos cansados, sem saber o porquê. Tudo parece inútil e cada passo é arrastado, cada dia, um fardo. As pessoas falam, o mundo gira, mas dentro de você tudo está parado, escuro e frio. É como se ninguém visse, é como se ninguém soubesse que por trás do “Tá tudo bem”, existe um grito preso na garganta, implorando para ser ouvido. Mas aí, mesmo, no fundo do poço, algo pequeno ainda pulsa, quase imperceptível, uma lembrança, um rosto, uma promessa, e por um triz você se segura, não por força, mas por instinto, porque por mais-que-tudo esteja desmoronando, ainda existe uma parte de você que recusa a morrer, uma parte que não entende o caminho, mas sente que precisa continuar. Com tanta dúvida e indisposição eventual, fica fácil entender que não somos normais para decidir quem aceitamos em nosso mundo social, e quem rejeitamos. É hora de reconhecermos que o normal é uma ilusão prejudicial, como escreveu Roy Richard Grinker, PH.D em antropologia social, em seu livro “Ninguém é Normal”. Ele desmonta os mecanismos de exclusão e as práticas de silenciamento psicológico que, em diferentes épocas, …
Contos
19.03.2026
A peça mais preciosa
A senhorita Mariquinha Penaleve era tão pequena que nem se dava ao trabalho de usar salto alto; sabia que nem assim seria notada. Quando caminhava pela calçada todos a confundiam com uma menina. Nem sequer pensavam: “Mas que mulher pequena!” Era só uma menina o que todos viam. Se, por um lado, ser confundida com uma menina compensava seu complexo de estatura, por outro trazia um problema: nenhum homem a olhava como possível namorada ou esposa. Como formar uma família com uma mulher tão pequena? Tampouco o senhor Arturo, o dono da loja de antiguidades, dava atenção a ela, mais ocupado em limpar e lustrar as peças de metal dourado que adornavam sua vitrine. A senhorita Mariquinha passava horas na frente da loja observando como o senhor Arturo mimava os objetos, com que delicadeza os acariciava! Uma manhã, Mariquinha acordou decidida: era hora de empurrar o destino e mudar sua sorte. Marcou hora no cabeleireiro, na manicure e na maquiadora. Saiu do salão de beleza com os cabelos parecendo fios de ouro e os olhos como duas bolinhas azuis de gude. Foi para casa e tirou do armário o vestido rosa de tule. As sapatilhas de bailarina e um pequeno …
Contos
18.03.2026
Posso ser escritor
O último gole de café foi tomado rápido, para satisfazer a premência do dia. No ato, num pulo, fui à sala do chefe, para atender a uma demanda (ele chamou, quase gritando, numa ânsia descomunal, como lhe é peculiar). Com a vista cansada, de passar o dia no computador, tive um pouco de turvamento. Titubeei. Um amigo percebeu e pediu para eu me sentar novamente, que ele iria no meu lugar. Logo retomei a consciência e fui ao chamado urgente, urgentíssimo. Cambaleante, tinha de seguir. Então, fui pé ante pé, devagar. O chefe, como sempre, me disse que era urgente – me alertando – o que teria de ser feito. Eu deveria olhar três grossas pastas e atualizar a movimentação dos processos – era, como é de fato, o pior serviço do mundo, em que tenho de olhar cauteloso e constrito, longe do mundo ao redor, para não perder o fio da meada. Já estava decretado, eu teria um dia difícil e pouco aprazível. Não faria minhas intimações com vontade, como o gosto de fazer. Teria, a meu ver, de me preocupar com o supérfluo. E o chefe atentou para o fato de que eu não deveria dividir as funções, …
Cinema
17.03.2026
O Céu de Suely
O “Céu de Suely” é um filme brasileiro do ano de 2006, dirigido por Karim Ainouz. Esse filme contou com as interpretações de Hermila Guedes, Marcélia Cartaxo e Zezita Matos. O filme inicia com a personagem principal, Ermila, em um campo de terra junto com o pai de seu filho. Nessa cena, a personagem dança com um ar de muita felicidade, enquanto recita as promessas que seu companheiro, Marcelo, fez dizendo que faria dela feliz por ser o grande amor da sua vida. Tudo começa prometendo ser um grande romance… No entanto, o céu que Ermila, depois Suely, materializa em torno dessa promessa de seu ex-companheiro logo cai. A personagem, então, aparece retornando a sua terra natal junto de seu filho, Marcelo Jr., com a promessa de Marcelo de em breve ir encontrá-la na cidade onde se conheceram. Daí em diante, a vida de Ermila vira um misto de decepções e… sonhos. Sim, mesmo passando pelas mais diversas crueldades da vida, Ermila jamais deixa de sonhar. Essa história espelha a de muitas mulheres no Brasil que, acreditando na paixão, são enganadas pelos seus parceiros e passam a viver a realidade cruel da maternidade solo. Essa tarefa que é cansativa, por …
Crônicas
17.03.2026
A alegria dos outros incomoda
Na Praça do Coração Eucarístico, que parece uma ilha cercada de botecos por todos os lados, eu conversava com uma amiga quando ela avistou uma conhecida. Quis cumprimentá-la, mas parou – a outra andava olhando pro chão, cara de poucos amigos, sem erguer os olhos pros outros que passavam. Só o hábito automático de espiar um lado e pro outro pra atravessar a rua. Minha amiga comentou: “É tão esquisito dar um oi pra quem não tá num bom dia”. Ao redor, os bares lotados de gente bebendo feliz da vida. O Coração Eucarístico é onde fica a PUC – o que dá ao bairro uma cara jovem: mulheres lindas, rapazes animados, sem tantas preocupações. Gente triste deveria evitar lugares assim em dias de sol. Minha amiga, naquele dia, tava no auge. Ria fácil, cantarolava umas músicas, cheia de novidades pra contar. Ninguém num dia tão bom quer esbarrar na dor alheia. E aquele medo – de chegar, soltar um “Oi, tudo bem?” e a pessoa resolver despejar tudo. Aí a gente atravessou um bar, parou e pediu uma cerveja. Ela falava do rapaz de quem tava gostando, do trabalho, de tudo. Ela tava certa. Vocês já repararam? Tem gente …
Contos
16.03.2026
Eutanásia
Um dia, Zími falou para Mila Cox: “O seu destino é criar, não cumprir.” Ela nunca esqueceu dessa frase, não esqueceu também que naquele dia Zími usava uma camiseta com a cara do Mark E. Smith, mas esqueceu das circunstâncias em que ela foi dita. Já fazia anos, foi antes da pandemia, e eles tinham acabado de montar a banda Crop Circles. Ela ainda morava com a mãe na Penha, e ele morava sozinho na Bela Vista. Agora moram juntos num apartamento na Liberdade. Mila Cox perguntou para Zími se ele já tinha algum hater. Zími respondeu: “Eu nunca tinha pensado nisso, então provavelmente não tenho. O que eles fazem? Falam merda na internet? É um pântano cheio dessas criaturas cheias de ódio. Eu tenho certeza que falho na minha promoção pessoal, falho na minha publicidade individual, porque eu cago pra isso. Já existe a publicidade sobre a banda, que você faz da maneira certa, e pra mim é o bastante. Mas se algum cretino que nem me conhece começar a falar mal de mim, a publicidade em cima de mim seria muito maior do que qualquer publicidade que eu mesmo possa fazer. Quando se trata de outra pessoa falando, …
Poesias de 1 a 99
16.03.2026
Poema #60: Poema retirado de uma lápide
No cemitério de PerdõesLaura Alvarenga descansa.Moça bonita de 19 anos,falecida em 1920.Sentada numa cadeira,com um grande laçode fita nos cabelose uns braços que talveznem mesmo Machadosonharia descrever emseus contos de Assis.Laura Alvarengade 19 anos de idadee seus olhos de Capitu.Uma fisionomia pensativae meio triste de quem nãoantevia a sua própria morte,que chegaria tão cedo.Na sua lápide está escrito:“Saudade eterna de seus Paese irmãos”. 87 anos depoiseu contemplo sua fotografianum livro de pesquisa e pensoque gostaria de tê-la conhecido.O que sabemos nós da vida? Uma Escada que Deságua no Silêncio



























































