Crônicas
    17.03.2026

    A alegria dos outros incomoda

    Na Praça do Coração Eucarístico, que parece uma ilha cercada de botecos por todos os lados, eu conversava com uma amiga quando ela avistou uma conhecida. Quis cumprimentá-la, mas parou – a outra andava olhando pro chão, cara de poucos amigos, sem erguer os olhos pros outros que passavam. Só o hábito automático de espiar um lado e pro outro pra atravessar a rua. Minha amiga comentou: “É tão esquisito dar um oi pra quem não tá num bom dia”. Ao redor, os bares lotados de gente bebendo feliz da vida. O Coração Eucarístico é onde fica a PUC – o que dá ao bairro uma cara jovem: mulheres lindas, rapazes animados, sem tantas preocupações. Gente triste deveria evitar lugares assim em dias de sol. Minha amiga, naquele dia, tava no auge. Ria fácil, cantarolava umas músicas, cheia de novidades pra contar. Ninguém num dia tão bom quer esbarrar na dor alheia. E aquele medo – de chegar, soltar um “Oi, tudo bem?” e a pessoa resolver despejar tudo. Aí a gente atravessou um bar, parou e pediu uma cerveja. Ela falava do rapaz de quem tava gostando, do trabalho, de tudo. Ela tava certa. Vocês já repararam? Tem gente …
    Contos
    16.03.2026

    Eutanásia

    Um dia, Zími falou para Mila Cox: “O seu destino é criar, não cumprir.” Ela nunca esqueceu dessa frase, não esqueceu também que naquele dia Zími usava uma camiseta com a cara do Mark E. Smith, mas esqueceu das circunstâncias em que ela foi dita. Já fazia anos, foi antes da pandemia, e eles tinham acabado de montar a banda Crop Circles. Ela ainda morava com a mãe na Penha, e ele morava sozinho na Bela Vista. Agora moram juntos num apartamento na Liberdade. Mila Cox perguntou para Zími se ele já tinha algum hater.  Zími respondeu: “Eu nunca tinha pensado nisso, então provavelmente não tenho. O que eles fazem? Falam merda na internet? É um pântano cheio dessas criaturas cheias de ódio. Eu tenho certeza que falho na minha promoção pessoal, falho na minha publicidade individual, porque eu cago pra isso. Já existe a publicidade sobre a banda, que você faz da maneira certa, e pra mim é o bastante. Mas se algum cretino que nem me conhece começar a falar mal de mim, a publicidade em cima de mim seria muito maior do que qualquer publicidade que eu mesmo possa fazer. Quando se trata de outra pessoa falando, …
    Poesias de 1 a 99
    16.03.2026

    Poema #60: Poema retirado de uma lápide

    No cemitério de PerdõesLaura Alvarenga descansa.Moça bonita de 19 anos,falecida em 1920.Sentada numa cadeira,com um grande laçode fita nos cabelose uns braços que talveznem mesmo Machadosonharia descrever emseus contos de Assis.Laura Alvarengade 19 anos de idadee seus olhos de Capitu.Uma fisionomia pensativae meio triste de quem nãoantevia a sua própria morte,que chegaria tão cedo.Na sua lápide está escrito:“Saudade eterna de seus Paese irmãos”. 87 anos depoiseu contemplo sua fotografianum livro de pesquisa e pensoque gostaria de tê-la conhecido.O que sabemos nós da vida? Uma Escada que Deságua no Silêncio
    Crônicas
    15.03.2026

    Tudo começa com “veja bem…”

    Nada me irrita mais do que fazer uma pergunta simples e não receber uma resposta simples. Não estou falando de questões filosóficas ou existenciais. Falo de coisas objetivas mesmo. O mais comum é a pessoa simplesmente olhar para você e repassar a sua pergunta. É o típico eco humano: P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? R: O que achei da trama desse filme que ganhou o Oscar? Tem também o contador de causos genealógicos, que sente uma necessidade irresistível de demonstrar sua prodigiosa memória — que começa em Adão e Eva e termina em lugar nenhum. P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? R: Bem… ele me fez lembrar de uma tia minha, sabe, tia Cotinha? Então, ela tinha uma funcionária que fazia uns bolinhos de chuva deliciosos. Eram de comer rezando! Ao final da tarde, bla, bla, bla…Mas, voltando ao que achei dessa trama, infelizmente, enquanto comia os bolinhos de chuva não prestei muita atenção. E ainda existe o professor involuntário. Fácil identificar: Se começar com “Veja bem…”, pode se sentar e esperar. P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? …
    Crônicas
    15.03.2026

    Psicose

    Helenice costumava sonhar. Dormindo ou acordada. Desde mocinha. Seus pais contavam que ela adorava narrar seus sonhos, bons ou ruins. Os pesadelos mesmo começaram a partir dos vinte e poucos anos. Clássicos, como cair em buracos, despencar de prédios, ficar presa em recintos escuros, afogar-se ou assombrada entre fantasmas. No início não se deu tanta importância, Helenice era assim mesmo, pessoa ansiosa e com muita imaginação. Com o passar dos sonhos, um pesadelo se tornava recorrente: era possuída por um homem sem face que lhe morria em cima. Sem conseguir se desvencilhar do corpo, aflita, quase sem respirar, acordava coberta de suor e medo. Procurou ajuda na terapia. Havia teorias diversas sobre os sonhos, expressão do inconsciente e de experiências mal ou bem resolvidas. A terapeuta ouvia o relato dos seus pesadelos, procedendo com algumas anotações num bloco. — Talvez eu tenha medo do invisível, quem sabe bloqueio sexual, ansiedade ou algum tipo de sufocamento psíquico. A terapeuta ouvia calada e, quando comentava algo, era sucinta. — Os sonhos podem traduzir insatisfações e memórias de fatos ocorridos. Helenice aceitava as insatisfações, embora discordasse do “memória de fatos ocorridos”. Nunca ninguém morrera em cima dela. Ainda mais, durante uma relação sexual. …
    Crônicas
    15.03.2026

    Saída de emergência

    Trepida. Me vem, primeiro pelo barulho externo que pelo chacoalhar do corpo. Depois, o conforto de um ambiente climatizado. Estou em trânsito, como gosto, dormindo a caminho de um novo horizonte [muito embora, seja o mesmo de um momento anterior, que não é esse]. Minha quilometragem fortalece os sorrisos que virão. Quero gozar do tempo que ainda tenho. Quero me dar o sabor de estar comigo mesma. Passear comigo. Tomar sorvete no parque, como se eu estivesse de mãos dadas com outras mãos, que não as minhas. O silêncio é extremamente necessário na vida. As desilusões, saídas de emergência.
    Cães & Pessoas
    15.03.2026

    Crônica Canina – parte 5: Uma crônica de despedida

    Escrever crônicas de despedida não é uma boa experiência… Escrever crônicas de despedida, no fundo, tem o papel de confortar o coração, desabafar, cumprir um rito. No entanto, escrever uma crônica de despedida é sempre doloroso! Eu não pensei que escreveria esta crônica… Entre tantos assuntos e os assuntos que repetidamente viram crônica, não pensei que este seria o motivo… Há alguns dias, perdemos o nosso querido Todd! Um golden retriever amoroso e educadíssimo! Um gigante gentil! E tudo foi rápido demais! De maneira inesperada, num de repente que não prepara (e nunca estamos preparados mesmo)! E sempre perguntamos o porquê! Por que você se foi grandão? E agora? Quem vai ficar com os olhos grandes no pão, no tão desejado pedaço de bolo? Quem vai soltar quilos e mais quilos de pelos pra todo o lugar? Quem vai pular na água como se não houvesse amanhã? Lembro que levamos o Todd a última vez na Cachoeira dos Frades, um lugar muito bonito em Teresópolis. Todd não se fez de rogado, todo alegre, correu em direção às águas frias da montanha… Levamos a Chiara também! E não preciso dizer que ela não tinha o menor interesse em água! Aquele dia …
    Crônicas
    14.03.2026

    Laranja Mecânica

    Podemos dormir tranquilos, pois Big Daddy ‘is watching you’, direto da Casa Branca. Investido de ilimitados poderes imperiais, o supremo cowboy zela 24 horas por nossa integridade ideológica. Mr. Orange, autointitulado ‘xerife do mundo’, mentor do far west style, onde quer que as forças esquerdistas corrompedoras da moral e dos bons costumes impeçam a implantação da doutrina MAGA. Mr. Orange é um escudo inabalável contra a ação maléfica de negros, mestiços, latinos, islâmicos, abortistas, feministas, LGBT’s, ONGs e ambientalistas que ameaça a ascendência dos valores ocidentais, machistas, caucasianos e anglo-saxões que faz da América um exemplo de civilização bem sucedida, a ser alastrada pelas regiões selvagens onde a palavra de Cristo não chegou. Nos redutos tropicais brasílicos, escancarar-se-ão as portas dos casebres e barracos para que os ares insalubres do atraso sejam varridos pelo frescor dos ventos boreais do Vale do Silício. Serão abandonadas as banais referências tupiniquins, tais como o forró, o berimbau, o açaí, o afoxé e o ziriguidum para possibilitar a entrada triunfal de startups e legiões de nerds, geeks, hackers, techies e afins. Mr. Orange assegurará plena guarida aos leais bajuladores, Mileis, Bukeles e Delcys. que se mostrem convenientemente servis às instruções neoliberais e aos preceitos da …
    Contos
    13.03.2026

    Gênese

    Fui espiar o gato que miava no jardim, à noite, um miado esganiçado como se o estivessem estripando. Olhei as estrelas, a mancha branca da Via Láctea e a lua com suas manchas retorcidas. Pensei no que haveria por trás dessas estrelas, outras estrelas talvez, por trás da nossa galáxia talvez outras galáxias. Me lembro de Fernando Pessoa: “Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.” Foi Baudelaire quem falou da palavra que nomeou o mundo e que nomeou Deus. Foi Deus quem nomeou o mundo, mas foi a palavra quem nomeou Deus. Deus subjaz à palavra. Que frase, hein? Deus subjaz à palavra. Mas, como tudo começou? Com a palavra. Mas quem lançou a palavra, antes de Deus? Quem criou Deus? A palavra. Mas, quem antes da palavra? No princípio era o caos. Este é o verdadeiro princípio. O caos. Ou o nada. Impossível imaginar que antes do nada ou do caos surgisse o universo. Algo se moveu, do nada. É o que a ciência até hoje sabe. Algo se moveu. Não existia nada e algo se moveu. A explosão primordial. Há uma campânula, e o vácuo. Uma bola de papel é jogada nesse vácuo, como …

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    Entrevistas

      Entrevistas
      16.12.2024

      Entrevista com Angel Ferreira

      O monólogo Sidarta marca o primeiro projeto solo no teatro do ator e diretor Angel Ferreira. Desenvolvido ao longo de quatro anos, o espetáculo aborda temas existenciais, explorando a ambiguidade entre extremos como sagrado e profano, sucesso e fracasso, prazer e privação, solidão e pertencimento. Ambientada na Índia, durante a época do Buda histórico, a peça é livremente inspirada no livro homônimo de Hermann Hesse, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. Embora Angel Ferreira seja um artista experiente, muitos talvez o reconheçam melhor pelo nome de batismo Igor Angelkorte. Recentemente, o ator revelou ter mudado de nome por sentir a necessidade de se transformar, um gesto que reflete sua busca por autenticidade. O artista usou suas redes sociais para comentar que uma das apresentações contou com apenas 12 espectadores, destacando os desafios de divulgação e alcance do público no teatro contemporâneo. O post gerou um grande interesse pela peça o que resultou numa lotação para as últimas apresentações. A seguir, leia a entrevista que o autor concedeu com exclusividade para o Crônicas Cariocas: Francci Lunguinho — Você está no teatro com o espetáculo Sidarta, uma adaptação da peça de Hermann Hesse. O que você espera desta última semana em cartaz? Angel Ferreira — O que espero desta última semana …
      Entrevistas
      10.12.2022

      A Paraíba no horizonte da poesia: uma entrevista com Lau Siqueira

      Lau Siqueira é um velho conhecido da poesia paraibana, da brasileira e deste portal. Gaúcho de nascimento, é, desde 1985, também um tanto paraibano. Nascido em Jaguarão, integra, como legítimo representante, o cenário da poesia paraibana. Entre outros livros, é autor de: O inventário do pêssego (2020), A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza das coisas (2017), Livro arbítrio (2015) e Poesia sem pele (2011). No dia 27 de novembro, em João Pessoa, Lau Siqueira lançou Horizonte mirado na lupa: cem poemas contemporâneos da Paraíba (Casa Verde, 2022), livro organizado por ele. Com 50 autores, a obra – que ainda conta com ilustrações de Flávio Tavares – apresenta uma amostra do que de melhor vem sendo produzido na Paraíba em matéria de poesia. A partir de 12 perguntas, batemos um papo com ele acerca dessa antologia e da poesia paraibana. 1 – Primeiramente, gostaria de saber como surgiu a ideia de organizar uma antologia da poesia paraibana e quando se iniciou o trabalho de pesquisa que resultou nesse livro. Há uns dois anos estou pesquisando para um projeto que eu chamo de Beraderos. Poetas que nasceram na Paraíba e que por diversos motivos foram morar e fizeram …
      Entrevistas
      10.08.2006

      Simplesmente Thogun!

      Morador da Zona Norte do Rio e boa-praça assumido, Thogun ganhou projeção nacional com o documentário Fala Tu (2003), de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery, que acompanhava o cotidiano de rappers cariocas em busca do sonho de viver da música. Ex-vendedor ambulante, dono de voz marcante e apaixonado por jornalismo, ele reconhece que o filme mudou sua trajetória: “Se não fosse o mano Thales, produtor do filme e companheiro de militância há mais de 20 anos no hip-hop carioca, eu não teria conseguido”, afirma. A relação com o cinema não parou aí. No mesmo período, participou também de Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, documentário que retrata a violência urbana e o papel do tráfico nas favelas. “Se a influência do Fala Tu tem esse formato, deve-se ao Coutinho e ao João”, diz, citando os documentaristas Eduardo Coutinho e João Moreira Salles como referências. Nesta entrevista exclusiva, concedida por e-mail, Thogun conta um pouco de sua trajetória. Crônicas Cariocas: Você foi um dos quatro cariocas participantes do documentário Fala Tu (de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery), que mostra o dia a dia dos rappers e seus sonhos de ganhar a vida cantando. Como você avalia a sua …

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