Contos
09.03.2026
Antes da escalada nuclear
Tuco se suicidou. Era vizinho de Zími. Encontravam-se eventualmente nu elevador do prédio em que moravam e raramente as conversas passaram do “bom dia, boa tarde, boa noite”. Zími, no entanto, podia compará-lo a um repolho cheio de rancor. Ou a uma balança moral com defeito. Sabia que eram ideologicamente antagônicos. Vizinhos do prédio contaram a Zími sobre a morte de Tuco pouco depois da
Poesias de 1 a 99
09.03.2026
Poema #59: Perdas e Danos
parece que perdio dom de sonhardepois de tantasdecepções. depois de tantasperdasparece que sonheique já não tinha o dom. acordei e era tudoverdade ou pesadelodepois eu achoque dormi de novo. O Jardim Simultâneo
Crônicas
08.03.2026
Vênus sob cerco
Diz-se, desde muito tempo, que somos de Vênus — a deusa romana do amor, da beleza, da fertilidade, da paixão. Talvez por isso tenhamos sido educadas, durante séculos, para preservar o vínculo a qualquer custo. Para compreender antes de julgar. Para acolher antes de confrontar. Para duvidar de nós mesmas antes de duvidar do outro. Essa disposição para o cuidado, que também é uma das maiores forças
Crônicas
08.03.2026
Ai, minhas orelhas!
Ando com muita pena das minhas orelhas porque as pobres estão ficando de abano. Daqui a pouco vou precisar de uma plástica. Eu já havia detectado o problema por causa dos óculos que as coitadas são obrigadas a suportar e dos brincos que uso desde sempre. Mesmo tentando que ambas as coisas se tornassem cada vez mais leves, sentia que minhas orelhas se vergavam aos poucos, com uma contribuição nada
Crônicas
08.03.2026
Esquisito íntimo
Esquisito: Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels preto e branco dançantes. Uma quase hipnose. Quando não sabemos o significado de certas palavras, é fácil abstrair-nos de seus val
Crônicas
08.03.2026
Tempos modernos
Eu procuro entender um pouco sobre as máquinas. Procuro mesmo. É verdade! Não sou muito simpático a elas não! Sabe qual o problema? É o apertar de botões! Aperta aqui, aperta ali! Imagino Carlitos em Tempos Modernos, enlouquecido entre as engrenagens. Aperta aqui, aperta ali e as imagens vão se acumulando na tela do computador, uma após outra, sucessivamente. Não reparo muito em imagem alguma. O q
Crônicas
08.03.2026
Marta ainda não está morta
Marta acordou e foi logo verificando sua respiração. Tudo em ordem, estava viva. O que fazer? Levantou-se resignada, bocejou, deu uns muxoxos e foi ao banheiro. Ultimamente esse ritual de despertar e continuar respirando se repetia. Perguntava-se por que não morria de vez. Sua memória fraquejava, as pernas doíam, as articulações tinham deixado de articular e o joelho esquerdo parecia fora do lugar
Crônicas
07.03.2026
Genival Lacerda
Não se sabe se ‘forró’ deriva de ‘forrobodó’ (festança) como dizem alguns etimólogos ou se é uma corruptela da expressão em inglês ‘for all’ como sustenta outra ala, em que se inclui, por exemplo, Geraldo Azevedo. O que é certo, no forró, é que, como diz a canção de Dominguinhos, “quem tá fora quer entrar mas quem tá dentro não sai”. Controvérsias à parte, o forró é consensualmente uma autê
Crônicas
07.03.2026
Conversar ou “zapear”?
Alguém ainda tem comadres? Conheceu algumas? Elas eram parte do cotidiano das famílias. Eram respeitadas, ouvidas, esperadas. “Vamos cortar o bolo quando a comadre chegar.” Tinha também as enxeridas, aquelas que sempre sabiam mais ou fariam melhor. Com um detalhe: entre comadres perdoa-se tudo! Mas o principal atributo delas era conversar. Lembro-me de que, quando criança, ao final da tarde









































































































