Contos
    19 de junho de 2026

    O rouxinol

    O tio Argemiro gostava tanto de lendas, que tudo era pretexto para tirar uma do fundo do baú da memória, nem que fosse inventada – que a memória é assim, uma boceta de Pandora que tudo guarda, tudo inventa, tudo cria. Eis que numa tarde linda um beija-flor azul, tchibum!, mergulha de repente nas águas limpas de seus ol
    Falou e Disse
    19 de junho de 2026

    A volta

    Estavam bem velhinhos, ela já doente, ele lhe fazendo companhia. Tudo que tinham eram as lembranças dos velhos tempos, que pareciam cada vez mais indistintas. Como não tinham tido filhos, encheram a vida com passeios, viagens e uma rotina silenciosa. Pareciam se entender sobre quase tudo e sentiam pouca necessidade de
    Crônicas
    19 de junho de 2026

    Amor

    Movimento I – Primeiros passos. Uma noite, à beira mar em um bar numa cidade no vasto litoral brasileiro… Ele disse: um centavo por seus pensamentos. Ela disse: valem menos do que isso. Ele disse: um verso por seus pensamentos. Ela disse: de quem? Ele disse: meu. Ela disse rindo: passo. Ele disse sorrindo: de um
    Crônicas
    18 de junho de 2026

    Dores inevitáveis

    A casa do senhor Elias cheira a livros velhos, café passado e madeira encerada. Nas paredes, não há quadros retos. Uma estante inclina-se para a esquerda, resultado de uma tentativa fracassada de montagem há quarenta anos. Ele a chama de “minha Torre de Pisa particular”. No centro da sala, sobre uma mesinha manchada de
    Contos
    18 de junho de 2026

    Malhação 2003

    Leandro gostava de Kátia. Desde a quarta série. Já estava no fim do sexto ano. Leandro nunca teve coragem de cumprimentar Kátia. Kátia achava Leandro bonito. Achava Leandro e mais uns cinco ou seis da sexta série B bonitos. Sem contar as dezenas de garotos que deixavam Kátia com as maçãs do rosto bem firmes, quando pas
    Contos
    18 de junho de 2026

    INSTANTÂNEO

    A velha de lenço preto na cabeça não se incomoda de ficar horas dando voltas na casa feita destroços. Era a sua casa. Tenta reconhecer, sem conseguir, a parede do quarto, onde era o banheiro, a sala em que fazia crochê, a cozinha que, nos fins de tarde, parecia um paraíso com cheiro de comida. Traz num dos braços um co
    Contos
    17 de junho de 2026

    Sunshine

    Fui surpreendido com a doença do Sunshine. Ele sempre foi tão esperto; um gato para além dos limites. Agitado, inquieto. Veja, já passou três dias fora de casa e apareceu como se não tivesse acontecido nada, magro, arranhado de briga etc. Fez aventuras de todos os tipos, como subir na minha antiga casa e pular de telha
    Contos
    16 de junho de 2026

    INSTANTÂNEOS

    No meio da rua um veio d’água, a luz amarela da madrugada, um homem capengando junto ao muro longo, o som da camisa fina raspando no chapisco de quando em quando. Incertos dias, estes. Em que não somos nem sombra do que pensávamos ser. O sorriso lacônico e de entrega, como se sorri diante da derrota concreta. Um ônibus
    Poesias de 1 a 99
    15 de junho de 2026

    Poema #73: Valpurgis

    A inquietação daquela noitelevou-me ao extremo de deixar a camaem pleno delírio da febre sem causaque me acometia desde há muito. Nunca em meus transportes noturnos,que eram então muito frequentes,eu havia experimentado essa ânsia de fugaque só se compara à de uma suicida na ponte. Corri como que alucinado fantasmaaté

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    Entrevistas

      Entrevistas
      16 de dezembro de 2024

      Entrevista com Angel Ferreira

      O monólogo Sidarta marca o primeiro projeto solo no teatro do ator e diretor Angel Ferreira. Desenvolvido ao longo de quatro anos, o espetáculo aborda temas existenciais, explorando a ambiguidade entre extremos como sagrado e profano, sucesso e fracasso, prazer e privação, solidão e pertencimento. Ambientada na Índia, durante a época do Buda h
      Entrevistas
      10 de dezembro de 2022

      A Paraíba no horizonte da poesia: uma entrevista com Lau Siqueira

      Lau Siqueira é um velho conhecido da poesia paraibana, da brasileira e deste portal. Gaúcho de nascimento, é, desde 1985, também um tanto paraibano. Nascido em Jaguarão, integra, como legítimo representante, o cenário da poesia paraibana. Entre outros livros, é autor de: O inventário do pêssego (2020), A memória é uma espécie de cravo ferrando a estranheza d
      Entrevistas
      10 de agosto de 2006

      Simplesmente Thogun!

      Morador da Zona Norte do Rio e boa-praça assumido, Thogun ganhou projeção nacional com o documentário Fala Tu (2003), de Guilherme Coelho e Nathaniel Leclery, que acompanhava o cotidiano de rappers cariocas em busca do sonho de viver da música. Ex-vendedor ambulante, dono de voz marcante e apaixonado por jornalismo, ele reconhece que o filme mudou sua trajet

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