Contos
29 de maio de 2026
D. Henrique
Se ouve lá de casa, uma légua de distância – diz o Tio Abílio. Canto mais belo não há – diz Tia Adélia. E a Mocinha sorri encantada. É um passarinho mágico, dentro dela. D. Henrique, tal se soubesse, modula o trinado leve no ar do meio-dia, trinado alegre se espiralando na varanda, nos pomares, nos campos sem fim. Era
Falou e Disse
29 de maio de 2026
A beleza requer medida
As academias viraram moda. Digo “moda” porque nem sempre os que as procuram pensam na saúde; isso fica para o pessoal mais velho, que já não tem por que expandir ou tornear partes do corpo. Os novos frequentemente vão para lá em obediência ao narcisismo que impera em nossa época. Desse narcisismo faz parte o culto da i
Crônicas
29 de maio de 2026
Viver não é estar vivo
Não se pode chamar de viver o ato passivo de ver sem enxergar. Quase como um coadjuvante de si mesmo, um acessório da vida que corre aos seus olhos e você não estica a mão para encostar nela. Estar vivo nesse caso não é um ato de sobrevivência mas sim quase uma função controlada pelo Sistema Nervoso Autônomo. As coisas
Poesias de 1 a 99
28 de maio de 2026
Poema #03: na sacada do apê & um marlboro às 2 da manhã
tragoa pessoa amadaaqui dentro mas amor não se prende sendo assimsolto-oao vento
Crônicas
28 de maio de 2026
Longe de ser triste
O dia começa comum. Café passado, o jornal aberto na mesa da cozinha, o sol insistente atrás da cortina. É num intervalo banal, entre um gole e a leitura de uma manchete qualquer, que ela chega. Não é dor. É um silêncio que se instala no peito, um espaço quente e vazio que, paradoxalmente, se enche de uma presença. A s
Contos
28 de maio de 2026
Aurora e o Sujeito Sentimental
Arre, que não teve jeito! Nunca tem. Mente quem diz que tem. O chefe da Polícia Federal fala ao assistente sem tirar os olhos do cadáver esticado na cama do hospital, dentro de um saco grosso de plástico: Providencie o traslado do corpo do Pestana para Araraquara, a cidade dos pais, no interior de São Paulo. Já as
Contos
27 de maio de 2026
LAR
Gilda não me dá descanso. Diz que aposentadoria não é meio de vida. “Homem aposentado é bom para não prestar”. Raro me deixa visitar os amigos, porque preciso, prioritariamente, e diuturnamente, faxinar, lavar as roupas (até dos netos), lavar a louça e arrumar o guarda-roupa. Não acho que homem deve estar em pedestal,
Contos
26 de maio de 2026
Dente na garganta
Os garotos atravessaram a ponte de concreto em direção ao campinho. Era o trajeto de todos os dias, a única passagem que ligava os dois estados. Finalzinho de tarde, separação dos times, alarido, escolha de quem ia na linha, quem ia no gol, os melhores já saíam logo da fila, e ficavam num canto debochando dos desajeita
Crônicas
25 de maio de 2026
Visagem
A brisa da manhã invadiu seu quarto. Quase ninguém na rua. Ninguém em casa além dela. Desceu as escadas suavemente. O cheiro da manhã a entorpecia. Saiu a caminhar. Cabelos soltos, sonhos leves, pele arrepiada. Flutuando pelas ruas, não percebia os olhares atônitos. Sorvia a manhã. Andou até ter os cabelos umedecidos p




































































