Crônicas

Um homem, um barco e um tempo

Havia um barco, um homem e um tempo.

Um barco de madeira, pequeno e velho.

Um homem cansado, derrotado e velho.

Um tempo desgastado, encrustado e velho.

A morte já era companheira do homem, o banco de areia, o destino do barco e os ponteiros quebrados o fim de um tempo.

Mas, de repente… E as histórias são sempre cheias de de repentes…

Uma tempestade e o mar agitado, mas tão agitado como jamais vira aquele homem.

Ondas enormes como jamais sentira aquele barco.

Um tempo sem tempo como o próprio tempo jamais fora.

E o medo do fim.

Do homem, do barco e do tempo.

Agitação e horror e sal e vento.

A escuridão da escuridão tomou o espaço.

O homem, o barco e o tempo.

No entanto…

E as histórias também são cheias de no entantos…

A força, que o homem supunha não existir, passou a ter.

O barco, que supunha o homem não suportar, se segurou.

O tempo, que supunha o homem não mais haver, nunca deixou de ser!

E então, surpreendido por si mesmo e pelas circunstâncias, atravessou o mar e o vento.

Seguiu firme até que o dia e o sol pudessem dar vista de coisa ou de gente.

Enfim, quando assim sucedeu, o homem já estava próximo da terra, vivo e refeito.

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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