Crônicas

  • Reflexo de si

    Ela o fez numa terça-feira comum, entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que tentaria encontrar a empatia. Não a palavra desgastada em discursos, não o conceito bonito das redes sociais. Mas a coisa viva, o fio de ouro que une as almas. A primeira tentativa foi com o barista. Enquanto ele entregava o copo, ela manteve o olhar fixo, buscando além do cansaço das olheiras, além do sorriso profissional. O que viu foi um reflexo. Sua própria imagem minúscula, curvada, nos olhos castanhos dele. Ela estava buscando o outro e encontrou a si mesma, pequena e distorcida, na superfície espelhada da íris. Foi um começo desanimador. No ônibus olhou para a senhora com as sacolas pesadas. Nos seus olhos azuis desbotados pelo tempo, parecia haver um céu nublado de preocupações. A senhora notou o olhar fixo e franziu a testa, puxando as sacolas para mais perto. O que a narradora buscava como empatia foi recebido como uma ameaça. O fio não se conectou; foi um fio cortado antes do ponto.

    A frustração cresceu. Ela começou a ver olhos por toda parte. Olhos apressados, vidrados em telas, fechados de sono, abertos de tédio. Cada um parecia uma fortaleza com as pontes levadiças erguidas. Como encontrar a empatia no olho do outro, se o olho é justamente a fronteira, a porta que só se abre por dentro? Foi então, já no fim do dia, desistindo da busca ativa, que algo aconteceu. No corredor do prédio, esbarrou no vizinho do andar de cima, um homem reservado que sempre carregava um peso silencioso nos ombros. Ele segurava um vaso com uma orquídea murcha. O acidente foi banal: uma batida de ombros, o vaso se espatifou no chão de cimento. Ela se abaixou ao mesmo tempo que ele, os dois juntando os cacos de barro e os pedaços da flor frágil. “Ela já estava morrendo”, disse o vizinho, com uma voz mais suave do que ela imaginava. “Minha esposa plantou. Faz três anos que ela se foi.” Ao ouvir, ela não olhou nos olhos dele imediatamente. Olhou para as mãos dele, tremulas, segurando o caule quebrado. E só então, quando ele suspirou, seus olhos se encontraram. E nos olhos dele, úmidos e sem tentar disfarçar, ela não viu um reflexo de si mesma. Viu um céu diferente, particular, de uma saudade que não era dela. E, por não ser dela, ela pôde respeitá-lo, acolhê-lo sem invadi-lo. A empatia não estava no olho do outro, estava no espaço entre o seu olhar e o olhar dele. A busca terminou onde não deveria ter começado: fora de si. A empatia não é um tesouro escondido na íris alheia. É a coragem de deixar seu próprio mundo em suspenso, para que o universo do outro, por um instante, possa brilhar com sua própria luz estranha, incompreensível e inteiramente digna de ser vista.

    Naquela noite, ao fechar os olhos, ela não viu mais imagens refletidas. Viu portas. E entendeu que a verdadeira conexão não está em arrombar essas portas com o olhar, mas em sentar-se respeitosamente na soleira, fazendo companhia à luz, ou à escuridão, que vem de dentro.

  • Voraz

    Fico observando uma lagartixa colada no vidro da janela.

    Minha mãe diria que ela não tem modos! Arreganhada desse jeito, toda exposta.

    Minha filha se arrepiaria, sentiria medo, nojo. Não olharia.

    Eu a observo. Será que ela sabe que está assim tão exposta, tão vulnerável?

    A lagartixa, no entanto, tem os olhos fitos nos insetos pululando à luz da lua. Livre  de qualquer opinião. 

    Sem vergonha nenhuma, deseja. 

    Dane-se todo o resto!

    De vez em quando me serviria ser uma lagartixa…  

    Completamente entregue aos meus desejos. 

    Grudada na tua janela despudoradamente.

  • Ontológico, hedonismo e deletério

    Nem tudo está perdido em matéria de palavras. Esta semana, em diferentes textos, encontrei ontológico, hedonismo e deletério. Uma delas, não confesso qual, me obrigou a ir ao dicionário. Não eram textos de filosofia profunda, apareceram como se fossem palavras corriqueiras. Não são. O dicionário está cheio delas, a maioria esquecidas e empoeiradas, talvez aguardando a ressurreição. Quando uma desaparece definitivamente leva consigo uma forma de ver o mundo.

    Admito que implico com algumas palavras. Se pudesse as baniria por lei. Uma delas é progenitora. Só serve para noticiário policial ou conversa com meliante. Neste último caso com a devida cautela: periga ele não entender.

    • Como vai sua progenitora?
    • Progenitora é a sua mãe.
    • Exatamente.

    Na mesma linha vai cônjuge. A única vantagem é não ter gênero definido, mas isso é vantagem recente em palavra antiga. Se o seu cônjuge apresentar você como ‘minha cônjuge’ peça divórcio. Trata-se de falsa erudição, nem sei por que casaram. Pode ser até que ele seja um adorador do gerúndio! Fuja igualmente de gente de vocabulário limitado ou deturpado tipo táuba, às vezes contagia e a cura é difícil.

    Implico com nubente, acho patíbulo triste e gáudio antiquada. Tenho sentimentos por cabotino e perspicaz. As palavras e eu somos realmente inseparáveis. Elas ajudam a moldar ideias: mais palavras, mais nuances de pensamento. Diversidade é tudo. Mas, se houver opção, prefiro as menos pretensiosas. Podem não acreditar, mas é complicado escrever simples.

    Outro dia quis descrever um árabe usando aquela túnica comprida comum entre eles. Escrevi caftan e o corretor de textos sublinhou a palavra em vermelho. Caftã também não deu certo. Tudo bem, vamos ver a tradução em português. É cafetã ou cafetão. Como? Não dá para dizer que o cara usava um cafetão! Optei pela palavra em inglês mesmo, escrevi kaftan. É claro que o corretor reclamou. Fazer o quê? Se não temos uma palavra adequada, roubamos de outra língua.

    E o que dizer quando, em conversa informal, um amigo diz valhacouto? A gente até para de respirar para aproveitar o momento porque uma coisa assim dificilmente se repetirá em nossa vida. Ouvir alguém utilizar palavras como amiúde, azêmola ou excelsa nos dá alguma esperança. Não a de que todas as palavras vão sobreviver – essa eu já perdi – mas a de que sempre existirão pessoas cuja conversa é um deleite.

  • Eu não devia me chamar BETHÂNIA

    Meus pais me deram esse nome porque se conheceram no show da cantora num teatro na Lagoa. Engraçado que nem gosto assim dela. Talvez por ter ouvido tanto minha mãe cantar. Após a morte de meu pai, então, era quase todo dia. Da Bethânia eu só gostava de “Olhos nos Olhos” do Chico Buarque. Ficou impregnada em mim, uma espécie de hino materno. Toda vez que ela ensaiava ficar melancólica, punha o disco com a música. A razão de eu gostar da canção era a letra, uma resposta feminina a um abandono. Para mim, a melhor versão de uma doce vingança.

    Pesquisei o nome. Bethânia vem do original hebraico que faz referência a uma pequena cidade no Monte das Oliveiras. Nada a ver comigo, meu sobrenome nem é Oliveira. Outra coisa irritante era, por causa do meu nome, me associarem a um determinado comportamento. Pela escolha sexual da cantora, alguns me viam como uma possível transgressora. Uma associação que nunca entendi bem. No meu caso, soava como uma antítese. Sou hetero convicta e tento disfarçar meu preconceito com lésbicas. Com gays também. Não devo ser uma pessoa razoável nesse aspecto, admito.

    Bethânia, a cantora, é feia demais. Eu sou linda, branca, loura e de olhos claros. E imodesta, claro. Cultivo a exteriorização do belo e deglutível, um mundo onde a fantasia não se oponha à realidade.

    Com o tempo, surgiram fortes crises de identidade e angústia. Muito do que eu sentia vinha do desgaste diário de esconder dos outros quem eu verdadeiramente era: uma burguesinha chata.

    Sem me esforçar, eu parecia o tipo da garota, cujo comportamento era considerado convencional. Devia ter sido chamada de Patrícia. Patricinha, em vez de Bethânia. Ao contrário do que pode sugerir o meu nome, sou vaidosa ao extremo, adepta de procedimentos estéticos e skincare. A maquiagem tem de ser impecável. Levo horas escolhendo roupa, mesmo para ir só na esquina. Coloquei silicone nos seios para aumentar o volume e botox a fim de suavizar minhas linhas de expressão. Posto fotos sensuais de biquíni no Instagram e não me importo de sexualizarem minha imagem. Não tenho orgulho disso, mas é mais forte do que eu.

    Não vou dizer a minha idade.

    Sou católica sem convicção e sem frequentar a igreja. Implico com padres, além de achar a missa um porre. Penso que Jesus foi um hippie revolucionário. Não sou ateia declarada por medo do desconhecido. Carrego bastante culpa dentro de mim.

    O corpo é minha doutrina filosófica. A existência humana é a matéria. Sigo dietas variadas, de low carb a zero lactose. Quando conveniente, alardeio veganismo, embora nunca abra mão de um churrasco se a carne for de primeira. Linguiça, coração de galinha e asa de frango fazem um estrago na pele. Evito. Já tentei jejum intermitente e não deu certo.

    Fiz análise durante um tempo e não consegui pôr para fora uma parte de quem eu era: uma pessoa vazia. Guardar dentro de mim aquilo que acreditava conseguir esconder me causou forte dependência a remédios. Ansiolíticos tarja preta. Minha analista deu a entender que eu tinha dupla personalidade. Preferi não levar a sério.

    Quando meu pai era vivo, costumava ouvir música erudita com ele. Se estou sozinha, gosto de escutar a Sinfonia Surpresa, de Haydn ou o Concerto para Piano em Lá Menor, de Schumann. Pouca gente sabe disso. Na minha playlist, Dylan, The Cure e Beto Guedes. Ecletismo musical é comigo.

    Quando posso, vou ao cinema. Herdei o gosto dos meus pais. Wim Wenders, Goddard, Pasolini e Bergman. Não perco os filmes do Woody Allen e do Almodóvar. Assisti umas cinco vezes ao Fitzcarraldo, do Herzog. Amo a cena em que Klaus Kinski cruza de barco o Amazonas ao som da ária “A Te, o Cara”, de Vincenzo Bellini. Minhas amigas temem tubarões assassinos, aliens e sextas-feiras treze, já meus medos têm mais a ver com o jogo de xadrez com a morte, no “Sétimo Selo”. Quando quero, sou um bocado cult.

    Vivo na Internet. Curto uma relação parassocial. Amar pessoalmente dá trabalho e causa desilusões. Evito interações profundas que me causem tédio imediato.

    Não posso ver um mendigo na rua que logo me enterneço. Empatia absoluta com a miséria alheia. Às vezes posso parecer até ingênua ou demagoga. Nem ligo.

    Sou contra as drogas. De alucinada, basta a vida. Prefiro estar consciente, embora deteste o concreto, o tangível. Fumo cigarros eletrônicos e, vez em quando, bebo gim tônica ou dry martini. Tomo creatina, malho na academia e faço bronzeamento artificial. Detesto ir à praia. Já peguei micose na areia. Piscina de clube nem pensar. Confesso que sofro com essa pressão social e midiática que impõe certos padrões estéticos. Ainda bem que sou bonita e magra.

    Tenho pavor da rejeição. De qualquer tipo.

    Sei que não combina com meu estilo de vida, mas gosto de ler. Tenho uma queda por escritores da contracultura que rejeitam os valores tradicionais. Talvez atração do que é contrário. Li Kerouac, tenho livros sobre a vida de Ginsberg e curto a poesia marginal de Leminski e alguma coisa do Bukowski. Para impressionar, levo sempre comigo um livro para ler no metrô. Nem leio, fico vendo se estão me notando. Gosto de passar essa imagem intelectual. Jovem socialite, colunável e cerebral. Repito, sou o próprio contrassenso. Adoro incongruências, a começar pelo meu nome. Bethânia. Não tem nada a ver comigo.

  • O homem que ouvia estrelas

    Pois só quem ama pode ter ouvido
    Capaz de ouvir e de entender estrelas.
    Olavo Bilac

    Havia um homem naquela cidade que buscava sempre os lugares mais altos e afastados. Depois de um dia cheio de trabalho, distrações e malcriações, ele subia morros, montanhas e prédios. Fosse onde fosse. Fosse como fosse…

    Depois de um tempo, um menino miudinho, mas vivo no olhar e nas ideias, decidiu acompanhá-lo.

    E, a partir daí, homem e menino subiam morros, montanhas e prédios toda noite.

    Espia! Ouve com atenção… Sempre dizia o homem!

    O menino, falante e curioso, também sempre perguntava o que é que as estrelas diziam!

    Com o tempo, aprendendo com o velho homem, o menino passou a ouvir e entender.

    E entendia de sonhos e memórias de outros tempos.

    E entendia de pessoas, sentimentos e sensações.

    E foi entendendo o porquê daquele homem, até então, viver só.

    A gente precisa fugir do barulho e da confusão pra poder ouvir certas coisas que não dá pra ouvir lá embaixo.

    E dizia sussurrando, quase que em uma oração.

    E dias e noites e tempos distintos levaram o homem para lugares ainda mais longínquos. E o menino o seguia e crescia.

    Até que o tempo, mandatário das coisas e das gentes, levou de forma definitiva o homem.

    O menino estava só, mas não estava.

    Dentro dele, as palavras do homem ressoavam, brilhavam, ressignificavam…

    O menino aprendeu que só precisava ficar em silêncio pra pode ouvir estrelas.

    E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo quando se tinha fome ou quando se sentia frio.

    E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo para um homem que voltava a ser menino…

  • O ocaso do macho

    A onda de feminicídios e a misoginia escancarada nas redes sociais costumam ser atribuídas à ação de influenciadores da machosfera e aos algoritmos raivosos da extrema direita. A explicação procede, mas pode ser ampliada.

    Numa abordagem, digamos, ‘psicossocial’, diria que se trata de uma reação de desespero do macho da espécie diante de um mundo que já não gira exclusivamente ao seu redor. Um último suspiro do velho sistema patriarcal que vem derretendo frente à crescente participação feminina na vida política e social.

    Freud explica: o comportamento hostil ante o sexo oposto decorre da ferida narcísica que vitimou o rapagão magoado, que exercia o papel de provedor, centro da casa, autoridade inquestionável. Com o ego machucado pela perda dessas prerrogativas, sente-se como um reizinho destronado e se volta com agressividade contra as ex-vassalas.

    Jung também daria seu pitaco: a cultura patriarcal superestimou valores associados ao masculino, como dureza e racionalidade, enquanto escondia sob o tapete dimensões ligadas à ‘anima’: intuição, sensibilidade, acolhimento. Sem saber lidar com a ‘porção feminina’ presente em si mesmo, o brutamontes partiu pra porrada.

    Psicologismos à parte, o fato é que o Clube do Bolinha entrou em estado de insolvência.

    As mudanças vêm em ritmo de tartaruga. Considere-se, por exemplo, o Congresso brasileiro: as mulheres ali reunidas não teriam quórum sequer para conter as bancadas da Bala, do Boi e da Bíblia (redutos amplamente masculinos). Luta desigual: Barbie x Conan o Bárbaro.

    No STF, a pobre Carmen Lúcia segura as pontas do ‘bloco do eu sozinha’, no julgamento das pautas de interesse da parcela de 51% da população brasileira. Até o presidente ‘progressista’, ao tirar uma carta da manga para a nova vaga aberta na Corte, descarta a dama de copas e prefere o evangélico de confiança.

    Ainda assim, já houve progresso. Afinal, não há muito tempo, a discussão girava em torno de decidir se quem veste saia e soutien poderia ter direito a voto.

    Com o tempo, elas timidamente começaram a ocupar algumas cadeiras nas universidades. Depois chegaram aos escritórios, aos postos de chefia e aos concursos públicos. Quando se deram conta, estavam assinando contratos, coordenando equipes e ornamentando com plantas e objetos decorativos o ambiente cinza de trabalho.

    Se o fanfarrão tem a força, a dama tem a resiliência. Suporta em silêncio a dor do parto para cumprir o indispensável desígnio de gerar a vida que biologicamente lhe cabe. Já o bebezão beberrão choraminga por parir um novo mundo, no qual tem de partilhar decisões com a parceira, antes ignorada. Reclama, tadinho, do orgulho ferido. Mas minimiza a situação opressiva de quem dá à luz sem sequer poder abortar pois seu corpo é tratado como propriedade do Estado religioso varonil.

    Mas não adianta espernear, Zé Mané. Seu reino está sucumbindo em meio às garrafas de cerveja que você vira nas madrugadas de bar, falando de futebol e putaria, enquanto a patroa, sem receber um puto, rala pra não deixar desestruturar o lar e não desencaminhar os filhos que você botou no mundo ao dar vazão a seu instinto carnal.

    A força bruta já teve seus dias de glória quando era necessário colocar um sujeito parrudo portando um tacape na entrada da caverna para impedir o assalto de inimigos ou de feras que espreitavam ao redor.

    Mas não dá para reproduzir esse padrão paleolítico depois da invenção da vacina, da internet e do vaso sanitário. O que pode sustentar a estabilidade da sociedade do futuro não é a largura do bíceps nem o comprimento do pênis, mas a colaboração, a solidariedade, a preservação ambiental. E nesses quesitos o bicho-homem já mostrou historicamente sua inabilidade.

    Não seria justo generalizar: nem todos os varões sufocaram em si os aspectos sensíveis da personalidade. Não me refiro apenas aos gays, mas aos emotivos, os suscetíveis ao martírio dos necessitados que se mobilizam para melhorar o mundo, preferencialmente sem recorrer à violência.

    Na outra ponta, também há mulheres com posturas mão-de-ferro. Margaret Thatcher é o exemplo mais citado. Uma machona que tratou demandas sociais com cacetete. Modelo de mulher, segundo o manual dos homens.

    Há também aquelas acomodadas que obtêm benesses por sua apropriada condição de submissão. São as que só votam em homens pois os julgam mais capacitados para tomar decisões.

    Mas de uma maneira geral, recortes eleitorais comprovam diferenças de comportamento político entre os gêneros, com maior sensibilidade feminina a pautas sociais e humanitárias, enquanto o eleitorado masculino tende a se inclinar a discursos de ordem e segurança.

    Computando apenas votos femininos, teríamos nos livrado do estorvo trumpista, e os EUA teriam pela primeira vez uma presidente mulher (algo que teria um impacto mais disruptivo do que a eleição de um presidente negro, trauma já superado com Obama). De fato, a sociedade americana, mais do que o racismo, escancarou seu machismo.

    Escolha seu time. De um lado, os vilões que envergonham a raça humana: Nero, Calígula, Átila, Gengis Khan, Pizarro, Robespierre, Hitler, Mussolini, Stalin, Pol Pot, Mao Tsé-Tung, Franco, Salazar, Idi Amin, Pinochet, Garrastazu Médici, Kim Jong-Un, Bin Laden, Bashar Al Assad, Netanyahu, Putin. Só marmanjo.

    Do outro lado: Joana d’Arc, Teresa de Calcutá, Simone de Beauvoir, Hanna Arendt, Angela Merkel, Greta Thunberg, Malala, Claudia Sheinbaum, Julia Gillard, Michelle Bachelet, Mãe Stella de Oxóssi, Sônia Guajajara, Marina Silva, Djamila Ribeiro. Aquelas que, a partir de trajetórias distintas, ajudaram a construir um mundo mais justo, equitativo… e feminino. Para homens e mulheres.

  • Viver não é estar vivo

    Não se pode chamar de viver o ato passivo de ver sem enxergar. Quase como um coadjuvante de si mesmo, um acessório da vida que corre aos seus olhos e você não estica a mão para encostar nela.

    Estar vivo nesse caso não é um ato de sobrevivência mas sim quase uma função controlada pelo Sistema Nervoso Autônomo. As coisas funcionam sem que você tome decisão alguma. Simplesmente você respira, seu sangue corre e seus intestinos, bem, fazem o que tem que fazer. Você, um ser passivo por completo. Está ali e mais nada, sem maior esforço.

    Viver é diferente. Exige decisão, esforço, visão. Escolhas certas e erradas, viver certezas e tremer com as incertezas.

    Viver é achar um livro de autora que não conhecia somente porque, sei lá, deu na sua telha. É ver um filme que parece ruim e de fato é uma droga, mas tudo bem.

    Viver é ficar calado e não revelar um mico desses pela Internet.

    Viver também é confessar as bolas-foras da vida. É bater boca por besteira, entrar em conversa non-sense pelo prazer de criar ideias que se engajam nas dos amigos formando um trem retórico desgovernado mas bem divertido.

    Viver é lembrar e é propor.

    É também passar seu olhar pelas pessoas e achar alguem interessante. Interessante não, muito interessante. Mas ficar quieto, observando, apreciando a paisagem humana.

    Assim como também é viver ser escaneado por algum olhar de desejo por você, mesmo que na maioria das vezes você não faça a mais pálida ideia porque atraiu a atenção daquele par de olhos. Talvez belos, talvez não. Profundos ou rasos. Mas certamente olhos bem atentos.

    Quem vive, aprecia. Quem vive, busca. Quem vive, se surpreende.

    E se decepciona, se volta e revolta e volteia na mesma proporção que a quantidade de sorrisos que deu menos a raiz quadrada das caras-amarradas seguidas de rosnado que soltou pela vida. Equação difícil de entender? Então esquece, vai viver que é melhor.

    Guimarães Rosa escreveu que viver é muito perigoso. Eu acrescentaria com minha pena atrevida: viver é muito perigoso mas mesmo assim pode ser bem divertido.

    Viver vai muito além de estar vivo.

  • Longe de ser triste

    O dia começa comum. Café passado, o jornal aberto na mesa da cozinha, o sol insistente atrás da cortina. É num intervalo banal, entre um gole e a leitura de uma manchete qualquer, que ela chega. Não é dor. É um silêncio que se instala no peito, um espaço quente e vazio que, paradoxalmente, se enche de uma presença.

    A saudade boa é isso: a certeza suave de uma falta que conforta. Ela não surge com o estardalhaço da tragédia, não rasga. Aparece como um visitante familiar que, sem bater, se acomoda no sofá da alma. E traz consigo o cheiro que era dele. Não um cheiro físico de loção ou de roupa passada, mas a essência da atmosfera. O jeito como a luz da tarde ficava mais amarela quando ele ria. O som seco da página de um livro sendo virada por seus dedos. O peso seguro de sua mão no meu ombro, em um momento de dúvida.

    Penso que a saudade é o contorno que o amor deixa quando a pessoa se vai. É o molde, em gesso macio, de uma estátua que não está mais na sala, mas cujo formato perfeito conhecemos de cor. E ao correr os dedos mentais por esse contorno, não sentimos o gesso frio. Sentimos o calor da memória do bronze que ali esteve.

    Lembro-me do seu todo. Não de gestos isolados, mas da sinfonia que ele era. A risada que começava nos olhos antes de chegar aos lábios. A paciência de ouvir até o fim. A teimosia gentil com que defendia um ponto de vista. A maneira como cortava um pão, com uma serenidade ritual. Cada fragmento, insignificante por si só, se encaixava num mosaico de humanidade tão completo, tão singular, que hoje entendo: não mais verei ninguém igual a ele.

    E eis o conforto secreto desse reconhecimento. A saudade que dói é a que lamenta o que poderia ter sido, as palavras não ditas, os abraços sonegados. A saudade que conforta é a que celebra o que foi. Foi completo. Foi único. Foi dado e recebido. Ela é a prova, guardada a sete chaves no coração, de que não se trata de idealização, mas de um fato: houve, na minha vida, uma obra-prima.

    Não quero ele de volta como era, pois isso seria roubar-lhe a paz e traí-lo com a nostalgia. Quero, sim, carregar esse contorno leve. Ele me ensina que a ausência não é um buraco, mas um vaso. E que esse vaso, moldado pela saudade boa, está sempre cheio do mel de que vivemos.

    O dia continua comum. Levanto-me, levo a xícara à pia. E eu sorrio, levemente. Porque a saudade boa não prende no passado. Ela é um abraço de longe, que aquece o presente e me sussurra, sem palavras: foste amado de uma maneira que nunca se repetirá. E isso, longe de ser triste, é o mais belo dos legados. É uma exclusividade afetiva para toda a vida. A certeza de que, em algum lugar do tempo, existiu um ser insubstituível que eu tive a sorte de conhecê-lo.

  • LAR

    Gilda não me dá descanso. Diz que aposentadoria não é meio de vida. “Homem aposentado é bom para não prestar”. Raro me deixa visitar os amigos, porque preciso, prioritariamente, e diuturnamente, faxinar, lavar as roupas (até dos netos), lavar a louça e arrumar o guarda-roupa. Não acho que homem deve estar em pedestal, imune aos trabalhos domésticos. Mas parece que ela quer me penalizar, por ter sido a vida inteira dona de casa profissional. Às vezes acho que ela não sabe o que fazer com um homem dentro de casa (nunca passei tanto tempo assim). Na pandemia, também, ela me botava moral, para fazer comida e o escambau. Além do medo insuportável da doença fatal, eu tinha de lidar com os melindres de Gilda. Foi, sem dúvida, a pior fase da minha vida, e a suportei porque tinha a mulher amada ao lado, apesar dos pesares. Sei que ela está farta da vida doméstica. Passa o tempo a reclamar das roupas “mal” lavadas, das mal-arrumações. “Que servicinho porco é esse, Sr. Genival?”. São quarenta anos de casados, dos quais noventa por cento ela se dedicou à casa e ao cuidado com as crianças. Gilda é um trator, mas da década de sessenta, já surrado, perto de virar sucata, quem sabe. Ela é mandona, mas não me incomodo com isso, porque aprendeu, com as adversidades, a ser assim, não é por mal. Trabalhou duro com o pai na lavoura, em Santa Quitéria. Eu a vi aí, linda, e esplêndida, e resolvi roubá-la, para, inclusive, lhe dar uma vida melhor. Ela cuida de casa, mas sempre teve o apoio de Lourdes, que ajuda nas tarefas domésticas – mas Gilda quer que eu faça isso e aquilo, para não “enferrujar”, não ficar “tantã”. Sou apaixonado por Gilda, e desde que me entendo por gente vivi com ela, nos casamos muito jovens. Logo arrumei um trabalho na metalúrgica e fiquei por longos trinta e cinco anos. Criamos três lindos filhos, educados, estudiosos. Marcílio, o mais velho, é médico cardiologista. Ludmila é arquiteta. Ferdinando é cirurgião-dentista. Gilda botou quente na criação. Até achei, por muitas vezes, que ela exagerava na dose. Devo a ela o rigor e a postura. Sempre fui um pai ameno, talvez tenha atrapalhado mais do que ajudado. Mas, enfim, tudo se resolveu. A minha queixa, para terminar, é somente ter um dia inteiro de descanso. Gilda não permite. Não pode me ver deitado na rede, depois do almoço, que logo arranja um serviço. Até curso de “marido de aluguel” fui forçado a fazer, com todas as limitações da idade. Ela não quer saber, deseja um trator velho de companhia. Vai ver que isso vem de algum trauma, dos tempos da brutalidade na roça, cuidando de mãe doente e tudo mais. Tenho orgulho da minha guerreira. Não vou mais tentar me livrar ou explicar os fatos. Se eu a amo, tem de ser assim. Que seja, para o bem dos que se amam.

  • Dente na garganta

    Os garotos atravessaram a ponte de concreto em direção ao campinho. Era o trajeto de todos os dias, a única passagem que ligava os dois estados. Finalzinho de tarde, separação dos times, alarido, escolha de quem ia na linha, quem ia no gol, os melhores já saíam logo da fila, e ficavam num canto debochando dos desajeitados e ansiosos ruins de bola, pernas-de-pau, o gordinho, o magrinho, o esquisito, o que não fala, o manco, o preto, o ferrugem, o sem pai, o filho da puta, puta mesmo, de um pardieiro antigo do outro lado do rio. Deu a saída, gol na primeira jogada, o garoto na lateral levou no meio das pernas, os parceiros de time abaixaram a cabeça inconformados, ele era um desastre, ruim para um caralho, diziam no particular quando ele não estava por perto, mas ali, era tudo meio disfarçado, ninguém tinha peito pra reclamar alto, ninguém tocava nele, era o dono da bola, do terreno onde ficava o campinho, dos barcos ancorados ao longo do rio, das áreas de concessão na beira da estrada dos dois lados, alugados para construção de postos de gasolina e outros serviços, era dono da metade da cidade, era dono de parte do estado junto com outros sócios, era quem pagava o lanche depois do jogo, comprava a simpatia dos amigos, ninguém bolia com o menino.

    A reunião fora nos fundos do galpão, todo mundo sem camisa, celulares do lado de fora dentro da tampa de um tambor, sem secretárias, sem auxiliares, só os donos do negócio, o prefeito, o vice, o secretário de obras do município e o do estado representando o governador, o dono da empreiteira vencedora da licitação, edital arranjado, único qualificado capaz de cumprir as regras impossíveis, um cala-a-boca pro resto, todo mundo teria sua vez nas próximas, pacto de silencio, fundão do Brasil, inalcançável, leis próprias, gente de Brasília no bolso, desembargador do estado no bolso, oposição no bolso, suados, caldinho escorrendo pelas dobras do pescoço, mãos feito garras, unhas sujas de sangue, olhos vermelhos, saliva, baba, dente na garganta, a gente dona da engrenagem, da massa do cimento, das ferragens, tudo de segunda e que ergueria a nova ponte para ligar os dois
    estados.

    Numa clareira entre arvores altas, mato cerrado, três urdiam um plano. Ele morre amanhã, é o único jeito. Mas já vamos pedir o dinheiro hoje, a gente mata ele depois, vamos ter que sumir, não podemos mais voltar pra este lugar, e quem quer isto aqui? Vamos pra São Paulo, lá a gente desaparece, vira um traço, a gente é traço aqui, não é por isto que estamos matando? Eles riem, fazemos justiça social, e riem de novo mais e mais. Teu neto tá com a gente, dizia o bilhete. O prefeito urrou, ergueu-se e ergueu com ele a mesa, tombou-a com os braços gordos e fortes, chama o Jeremias, descobre quem escreveu isto, vai atrás do garoto, que não posso agora, tenho reunião, vai na casa dele, o celular da maldita não responde, deve tá metendo, é só o que aqueles dois fazem o dia inteiro, vê se tá no campinho, essa hora eles tão lá, é todo dia de tarde lá, descobre isso aí, mata todo mundo e joga no rio, mas quero os nomes, varre a cidade, ameaça todo mundo, quero esses caras no chão, mas me chama antes, quero ver a cara desses filho da puta, deve ser gente querendo mudar as coisas, algum desgarrado, algum comunista querendo fazer arruaça, vai e me chama, vai, vai.

    Três motos seguiam os garotos. Voltavam do jogo, algazarra, risos, deboche uns dos outros, o neto do prefeito na frente, sempre ele na frente, a bola embaixo do braço, os outros já ansiosos, já sentiam o gostinho do sanduíche, do copão de coca, era no McDonalds, o único da cidade, presente do prefeito para o filho do presidente da Câmara, amigo velho, amigo do peito, irmão. Três carretas, quatro carros, cinco motocicletas e os garotos atravessavam a ponte, um tremor, dos dois lados do rio abriram-se duas rachaduras, que se alargaram e balançaram a ponte, e tudo se desgarrou, um segundo e era o vazio, o estrondo na água, o reboliço das ondas levantando os barcos nas margens, o espanto, os gritos, a correria, o estupor, o topo dos caminhões sumindo nas águas, o resto já era nas profundezas, nem sinal dos meninos. No ar, um oco, Jeremias chegou na ponte, gritou para o outro lado, era de lá que vinham os garotos? Alguém respondeu. Foram todos, o menino também? Todos, o menino também. Jeremias abaixou a cabeça, sorriu levemente sem que ninguém percebesse, a vida é um sopro, pensou.

  • O futebol de hoje

    Bola na trave, bola na rede, bola no ar. Lençol, trivela, drible de calcanhar… Bola no canto e falta marcada esperando o juiz apitar…

    Bola ao alto, jogada aérea, empurra-empurra e mudança no placar… Os olhos vidrados do menino e do moço e do senhor sentado no sofá acompanham a bola. É o ser e o estar. O sorriso da menina e da moça e da senhora com o rosto colado na tevê é para a bola. É o querer e o ficar. Os aplausos, os gritos, os vivas, os xingamentos, a euforia e o contágio: futebol. Simplesmente amar ou odiar.

    Deixando de lado os interesses escusos, as artimanhas do poder e os escândalos da política, o fato é que brasileiro e futebol se parecem com feijão e arroz, café com leite, queijo e goiabada, praia e samba. Estereótipo? Figuração? Muitos detestam o jogo bretão.

    Alegam que o esporte é o ópio do povo. Ou como também se costuma dizer, o pão e o circo! Outros, entretanto, adoram. Adoram com paixão. Adoram com desespero. Desesperadamente torcem!

    Em tempos de copa do mundo, as camisas amarelas saem dos armários: cornetas, enfeites, bandeiras e muitas outras coisas. Em tempos de copa do mundo, a letra do hino nacional é cantada com vontade e com firmeza. Verso após verso vê-se o Brasil brasileiro e toda a sua poesia. Em tempos de copa do mundo, unhas são pintadas de verde e amarelo, ruas inteiras recebem desenhos coloridos e carros desfilam com pequenas bandeiras.

    Há um milagre, um movimento, uma catarse! Patriotismo de chuteiras? Há uma aclamação, um mistério, difícil análise! Complexidades e besteiras… Mas o futebol é isso! Exatamente isso: falar mais do mesmo, falar o que todos veem, falar o que todos sabem. O jogo está ruim. O zagueiro é um cabeça de bagre (expressão antiga, mas muito apropriada). O meio-campo não ata nem desata. A culpa é do técnico! O pênalti não foi marcado. A culpa é do juiz!

    Mas a seleção não está jogando bem! E o Brasil, por sua vez, também não está! O país mudou! Está mais dividido, agressivo, poluído com os seus ismos. O futebol também mudou! E como mudou! Meu Deus! O que fizeram com o futebol brasileiro? Brasileiro mesmo! Cadê esse infeliz de futebol?

    Jogo marcado daqui e marcado de lá! Marca-se tanto que, às vezes, a gente nem vê a bola! É um jogo robótico, pegado, malhado. Às vezes nem parece futebol!

    E ainda tem o tal de VAR, o chamado árbitro de vídeo! Este árbitro virtual revê cada jogada polêmica e conseguiu fazer a alegria do gol virar um suspense, uma novela, uma frustração!

    Imagina! O seu time marcou um gol e a torcida comemorou com todo o entusiasmo. Então… Para-se a partida! Alguns minutos de análise e o juiz anula o gol! Mas e o grito genuíno de gol? E a razão de ser do torcedor? A espontaneidade do momento único do gol? Não importa! Importa é que o vídeo mostrou um impedimento de 0,2 cm!

    Tempos pós-modernos!

    Que saudade do jogo bonito, do lance certeiro, do drible desconcertante!

    Que saudade da poesia no futebol!

    Que saudade do olé, do chapéu e chuveirinho!

    Saudade de acompanhar a seleção e torcer! Torcer de verdade!

    Nem as ruas são enfeitadas como antigamente!

    Depois do terrível 7×1 pra Alemanha, as coisas só pioraram!

    Jogadores saem muito cedo do Brasil e vão brilhar (ou não) em outro lugar. Ásia, Europa, África, enfim, em todo o lugar em que se paga muito bem para jogar!

    Perder faz parte eu sei! Chorar também. Jogou feio ou jogou bonito. Vitórias e derrotas nos ensinam e fazem bem. Às vezes, como dizem alguns, não era a hora. Às vezes, dizem outros, isso já era de se esperar. O problema é quando você desconfia do próprio time!

    Melhor dizendo, desconfia do futebol brasileiro como um todo!

    A performance vale mais que o gol! A dancinha vale mais que a vitória! Os cabelos e os cortes precisam estar bombando nas redes sociais, caso contrário, já viu!

    E as polêmicas então? Valem um campeonato inteiro! Dão engajamento na internet!

    Hoje tem jogador simulando cartão pra ganhar dinheiro nos sites de apostas! O cartão amarelo ou o vermelho foram combinados! Que jogo é esse?

    Até a camisa da seleção, a famosa amarelinha, não é mais a mesma, sequestrada, coitada, por uma seita de malucos, passou a significar outra coisa que não futebol! Uma pena!

    A camisa, as boas jogadas e o craque de verdade ficaram em algum lugar…

    Em que lugar ficou o nosso futebol? Eu, sinceramente, não sei!

    Vamos pra essa copa com a certeza de que não temos um bom time, mas somos brasileiros! Como se costuma dizer, brasileiro não desiste nunca! E não desistimos!

    Que Deus nos ajude (e Ele vai precisar ajudar muito)!

    Que saudade do Pelé, do Garrincha, do Didi, do Romário (como jogador) e dos Ronaldos!

    Mas fazer o que? Bora Brasil!!!!

  • Habitar o intervalo é preciso

    “(…) Depois da chegada vem sempre a partida”

    Essa lógica, que Vinícius e Toquinho traduziram em música, pode nos ajudar a compreender melhor os pesares da vida.

    A dimensão de tempo entre a chegada e a partida, em alguns casos, é algo que podemos controlar, programar; está em nossas mãos decidir quando vamos iniciar uma viagem, por exemplo, e quando pretendemos voltar. Assim, nos sentimos donos do nosso tempo, do nosso percurso.

    Para outras idas e vindas não estamos no controle, mas existe um intervalo previsível, como é o caso dos fenômenos naturais. Vemos com naturalidade o alvorecer e o entardecer, as idas e vindas das marés, o prenúncio de mudança na estação do ano. Seu fluxo é esperado e a repetição dos ciclos dá uma sensação de continuidade, traz sentido a esse movimento.

    Já no caso da vida, o tempo entre a chegada e a partida foge totalmente ao nosso controle e não é previsível. Especialmente na cultura ocidental, tendemos a ver a chegada como o polo positivo e a partida, o negativo. Recebemos com júbilo o que chega, pois é o novo, o que traz expectativa, e com angústia ou tristeza a partida, que é a despedida, a separação.

    A ideia de um novo ciclo depende da crença de cada um, mas existe uma lei maior que a natureza nos ensina e que foi captada pelo poeta.

    “(…) nada renasce antes que se acabe, e o sol que desponta tem que anoitecer”.

    Entre a chegada e a partida, resta-nos aprender a habitar o intervalo.

  • INCONVENIÊNCIAS

    Um homem para no posto de gasolina e entra na loja de conveniências para comprar cigarros. A menina que o atende chama atenção. É loura, bonita e tem um sorriso angelical. Ele olha para o crachá: Claudette. Tenta puxar assunto.

    — Não nos conhecemos de algum lugar?

    — Acho difícil.

    — Difícil, por quê?

    — Eu me lembraria de você.

    — É?

    — É.

    — Sou tão notável assim?

    — Ô…

    — Você também chama a atenção, de tão bonita.

    — Preferia que não.

    — Por timidez?

    — Por conveniência mesmo.

    — Não entendi.

    — Não estamos numa loja de conveniências, então…

    — Você tem ótimo humor, Claudette.

    — Como você sabe meu nome?

    — No crachá. Claudette com dois “t”.

    — Ah, é mesmo, tinha esquecido…

    — Claudette, bonito nome. Vem cá, que horas você sai do serviço?

    — Pra que quer saber?

    — Queria te convidar para uma cervejinha.

    — Não costumo beber com estranhos.

    — Posso me apresentar a você.

    — Estou falando de caras estranhos, esquisitos.

    — Como você é difícil, Claudette.

    — Só não gosto de enrolação.

    — Como assim?

    — Você está a fim de me comer, né?

    O hom em faz cara de espanto. Olha ao redor para se certificar de que ninguém está ouvindo. A loja está vazia. Melhor assim.

    — Se quer me comer, por que não fala logo?

    — Papo reto, Claudette?

    — Isso, não curto enrolação.

    — Ok. Quero te comer, sim.

    — E quem disse que eu quero?

    — Mas não foi você quem propôs?

    — O fato de propor não quer dizer que estou a fim.

    — E você está a fim, Claudette?

    — Sei lá, nem te conheço direito.

    — Foi você que disse que a gente tem de ser direto.

    — Sou assim. Mudo rápido de opinião.

    — O que você sugere, então?

    — Não sei, acho que tem de rolar uma conexão primeiro.

    — Ok. Podemos tentar. Vem cá, Claudette, nós não nos conhecemos de algum lugar?

  • Tristeza enrolada em lamento

    A conversa, afinal, foi breve. Ela chegou, falou, escutou, falou de novo, despediu-se e foi embora. Ficou ele ali, diante daquela inútil e maravilhosa paisagem, a belíssima curva da praia de Copacabana. O mar batendo mansamente na areia da praia e nas pedras abaixo dele e mais nada. Em silêncio, ali na mesa, agora sozinho, rememorou a conversa.

    Não havia mesmo mais alternativa para eles. “Nós” acabou. Eles quis ser presença no lugar de lembrança. Mas ela não deixou. Preferiu diferente. Ele escutou calado que sempre estaria em sua memória com muito afeto.

    Doeu. Mas ele manteve-se calmo apesar de tudo. Não se briga com quem pensa em nós com afeto mesmo que isso não nos baste. Procurar motivos para justificar uma ação irada carrega em si o perigo de resvalar em coisas mesquinhas. Maldade com a memória a dois.

    O certo é que ninguém é obrigado a nada além do que possa dar. Nessas horas o querer e o conseguir se submetem ao poder. Não posso mais do que consigo ou quero, foi o que ele entendeu do que ela disse.

    Então era mesmo o fim. Daí em diante, quem sabe? A terra é redonda e as vezes os caminhos se cruzam acidentalmente. Ou não. Quem sabe o que virá?

    Não iria reprimir um sorriso quando a visse. Quem sabe de onde viria esse gesto? Qual impulso fará ele brotar? Qual emoção parada em uma curva da memória? Uma saudade, um momento feliz a dois? Aquela canção sussurrada?

    Mas será só um sorriso, que será difícil de reprimir, e nada além. Sem sonhar, sem imaginar, sem pensar, sem cogitar. Sem nada adiante. Nada mais de expectativas. Nada de “e se…dessa vez…”

    Não. Chega. Basta.

    Mas também sem querer mal. Isso não se faz porque ofende o amor em si. “Sem me vingar que a vingança não tem valor”, ensinam Pixinguinha e Paulo Cesar Pinheiro em “Ingênuo”. No depois, por mais que se faça uma faxina sentimental sempre permanecerá alguma lembrança da pessoa que se foi. Talvez doa, talvez chame um sorriso solitário, até uma lágrima. Quem sabe?

    Não há tempo certo de duração no durante. Para uns se foi no tempo certo, porque nada mais havia a ser dito ou trocado. Para outros caiu cedo demais, porque muito ainda havia a ser vivido a dois, compartilhado e sentido. Para ele quanto tempo terá durado? Não importa porque não há mais, agora é passado.

    Enfim. Se a vontade de um se vai, a determinação do outro fica sem sentido. Perde força. No fim, sempre restará algo. Entre palavras ditas, expressões feitas e memórias vivenciadas, sempre haverá lá no fundo um pouco de tristeza enrolada em lamento.

  • Esquinas da alma

    A casa não é mais minha, mas a esquina sim. Não a esquina de concreto e calçada, mas aquela feita de tempo e memória, que se ergue no mesmo lugar, invisível a todos, menos a mim.

    Tudo começa no ponto exato onde o poste da luz, um pouco mais inclinado agora, desenha sua sombra alongada ao entardecer. Era ali que minha mãe esperava as tardes, com o cheiro de pão fresco ainda grudado no avental. Sua sombra se fundia com a do poste, e eu, voltando da escola, sabia que casa era onde aquelas duas sombras se encontravam.

    Hoje, um poste mais moderno substituiu o antigo, mas se fecho os olhos, vejo a mancha de ferrugem em forma de flor que marcava sua base: “Vivo na casa da esquina com o poste da flor de ferro”. Ninguém mais via a flor. Só eu.

    Do lado oposto, a mercearia do seu Manuel, não existe mais. Transformou-se em uma loja de celulares com luzes azuis que piscam sem calor. Mas na minha esquina particular, seu Manuel ainda arruma as latas de goiabada na vitrine, e o sino da porta ainda tilinta quando entro para comprar bala de café com um tostão suado na mão.

    Às vezes, paro o carro ali, no ponto proibido agora, e olho. Os tijolos da casa foram pintados de um cinza frio. Mas na minha memória, as parreiras de maracujá ainda se enroscam no muro baixo, e o desenho que fiz com carvão, um sol com olhos de botão, ainda sorri de um tijolo perto da porta.

    O menino que fui não se foi. Ele está congelado naquele espaço-tempo. Está subindo no muro para pegar a bola que caiu no quintal do vizinho. Está sentado na calçada ainda quente, contando as estrelas que surgem timidamente entre os fios dos postes. Está esperando, com o coração batendo no pescoço, a primeira namorada que vinha encontrar com ele “na esquina”, ainda escondida dos pais.

    O passado não vive dentro das paredes que habitamos. Ele fica retido nos espaços de transição, nos limiares. Lugares onde se fica entre o dentro e o fora, entre o partir e o ficar.

    A nova dona da casa deve achar estranho quando, às vezes, vê um homem de quarenta anos parado em frente ao portão, imóvel, olhando para o nada. Não vê que ele está olhando para tudo. Para o fantasma da bicicleta com rodinhas laterais que faz uma curva desengonçada. Para o eco das risadas escondidas noturnas. Minha vida atual acontece em outros lugares, com outros códigos postais. Mas meu passado, teimoso, não quis se mudar. Para lembrar que, antes de ser quem sou, fui aquele menino que acreditava que o mundo começava e terminava no ponto onde a rua fazia curva.

    A cidade muda, as casas mudam de donos, as ruas se modernizam. Mas as esquinas da alma permanecem intocadas.

  • Turbulência

    Queria escrever um texto calmo que saísse de mim e pousasse languidamente na virtual folha de papel. Não sou assim! Meus textos são ansiosos, temem não alcançar a luz. Temem alcançar a luz. 

    Tenho muita inveja de quem consegue ruminar seus escritos, escolher para eles o melhor tempo e lugar; a melhor palavra. 

    Não sou assim. Meus textos são ansiosos! Vomitam verdades e mentiras com medo do arrependimento. Saem pela fresta da porta espremidos, em fuga, porque não podem mais habitar apenas em mim. Querem vozes outras, olhares díspares para não morrerem sufocados. Saem, porque precisam de ar! 

    Há paz quando na folha de papel. Descanso merecido da turbulência em mim. 

  • Não fale com estranhos

    Natália percebeu a ausência logo ao acordar.
    Não soube dizer exatamente o que faltava — apenas sentiu o vazio.

    O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, a luz da rua filtrando pelos galhos da árvore, desenhando sombras no teto, o ventilador rodando preguiçoso.

    Mesmo assim, algo tinha desaparecido.

    Sentou-se na cama, ainda confusa. Durante anos acordara com aquela presença discreta ao lado: um companheiro silencioso que cochichava cautelas, lembrava perigos, puxava-a pelo braço antes de decisões precipitadas.

    Agora o quarto estava vazio.
    — Estranho — murmurou.

    Levantou-se devagar, como quem testa o chão de uma casa onde algo mudou.Ao sair de casa, Natália levou a mão ao bolso para conferir a carteira.

    Parou no meio do gesto. Dessa vez não conferiu.

    Era curioso: sempre conferia duas vezes — às vezes três — como se ouvisse aquela voz, advertindo que ela poderia ter sido roubada entre a porta e o portão.

    Só ouviu o burburinho das pessoas indo em direção ao ponto de ônibus.

    Como sempre, a condução estava lotada.
    Ao seu lado alguém fez um comentário inconveniente.
    Normalmente ela ficaria em silêncio.
    Dessa vez responde.
    E nada acontece.

    O telefone vibra, com a mensagem do chefe – sem aviso prévio, ele tinha mudado seu compromisso da manhã para outro endereço.

    Respondeu de pronto com um emoji de indignação — e nem ouviu aquela voz costumeira: jamais responda ao chefe.

    Cada vez mais intrigada com a ausência de seu companheiro, Natália pediu uma informação na rua, pois não conhecia o caminho para esse novo compromisso.

    Durante anos a voz teria dito:
    não fale com estranhos.

    Mas o homem apenas ajuda.

    Algo simples como:
    — A estação fica duas quadras para lá.
    Nada ameaçador.

    No fim do dia, no caminho de volta para casa, Natália percebeu que estava diante da rua que sempre evitara.

    Durante anos aquela voz repetira a mesma coisa:
    — Não passe por aí.
    — É perigoso.
    Mas a voz continuava em silêncio.

    Então atravessa.
    E encontra apenas:

    – Uma padaria
    – crianças brincando
    – um senhor regando plantas

    Já em casa, sobe as escadas saltando de dois em dois os degraus, como fazia quando criança. O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, o ventilador rodando preguiçoso no teto, à sua espera.

    Mas algo havia mudado. Pela veneziana entrava um raio de sol que iluminava o seu lado na cama. No teto, a sombra dos galhos dançava devagar.

    Natália sorriu.

    Algumas sombras existem.
    Outras a gente inventa.

  • Lisboa revisitada

    Em Lisboa aparentemente há mais igrejas do que fiéis porque algumas deixaram de ser usadas para fins religiosos. Não é um fenômeno português, pelo mundo há vários casos de igrejas que se transformaram em museus e casas. Foi assim com a Igreja de São Julião: transformou-se no Museu do Dinheiro.

    Cada vez que vou a Lisboa escolho visitar algum museu menos divulgado no circuito turístico. Há muitos. Alguns são boas surpresas, outros nem tanto, mas é sempre agradável explorar os cantos dessa cidade tão vibrante. O Museu do Dinheiro recomendo. Além do lindo prédio-igreja a coleção é impressionante e exposta de forma primorosa. De brinde, para quem gosta de arqueologia, no subsolo podem ser vistos restos de uma muralha do século XIII.

    O museu está em um local bem central, cheio de atrações e restaurantes. Tanto se pode almoçar no badalado Mercado da Ribeira como seguir na direção oposta e ir para a Praça do Comércio onde, entre inúmeras opções, está o Martinho da Arcada, restaurante de 1782 que diz ser o mais antigo de Portugal.

    Ainda no rol de atrações um pouco menos conhecidas, os admiradores de José Saramago podem ir à Casa dos Bicos, sede da Fundação Saramago. As cinzas do escritor foram depositadas na frente dessa casa, à sombra de uma oliveira centenária trazida de sua terra natal.

    É impossível visitar Portugal e escapar das sardinhas. Você deve ter notado as de cerâmica ornamentadas com os mais diversos motivos. As originais são da fábrica Vista Alegre e a decoração é do Estúdio Bordallo Pinheiro. Esse artista falecido em 1905 é pouco conhecido fora de Portugal e morou uns quatro anos no Brasil. Em Lisboa existe um museu dedicado a ele, coisa pequena, afastada do centro, só para fãs.

    Falamos de sardinhas, vamos falar de bacalhau. Também ele tem direito a um museu em Lisboa, mas é muito fraquinho. Melhor encontrá-lo cozido ou assado no Martinho da Arcada que fica quase ao lado.

  • Cuidado, Dotô!

    “É a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar” (Geraldo Vandré)

    Seu dotô, me desculpe invadir assim seu sossego. Não se avexe com meu aspecto franzino e meu jeito simplório, dotô. Não vou assaltar, nem pedir esmola, só levar uma prosinha. O assunto é breve mas muito sério.

    Vejo pela sua roupa e sua aparência que o senhor foi abençoado pelo destino. As coisas com que o senhor gasta num mês eu não tenho condições de comprar em 10 anos ralando duro. Não duvido que sua grana foi ganha honestamente. Mesmo assim, desculpe falar, ela vem da exploração. Pois deveria por justiça estar nas mãos de um número bem maior de pessoas. Ao não fazer nada a respeito dessa má distribuição, o senhor é cúmplice de um crime.

    Não alegue que não é culpa sua, dotô. Todos que vivem nesse país absurdamente desigual e lavam as mãos têm sim culpa no cartório. Mas nos mais ricos a culpa é muito maior. Não se trata de pedir um gesto de misericórdia em benefício dos menos afortunados. Os privilegiados que nem o senhor, dotô, têm OBRIGAÇÃO de fazer algo para mudar esse quadro de crueldade. Mas o que vejo é o oposto. Quanto mais abastado o sujeito se torna, mais pisa nos debaixo. Levar uma vida de ostentação e desperdício não é só uma atitude indecente. É um tapa na cara daqueles que suam para botar umas migalhas na mesa da família.

    Não falo da esmola no farol, da gorjeta pro entregador de pizza ou dos trocados para a instituição de caridade. Isso só serve para aplacar a dor na consciência mas não bota a mão na ferida das injustiças.

    Na boa, dotô: tem gente que ganha muito mais do que seria razoável pra um país miserável como o nosso. É grana demais! Não são só os donos de negócios, não. São aqueles engravatados, bacanas que tiveram uma educação de elite e conseguiram empregos que pagam bem. Também entram nesse saco políticos, juízes e esse punhado de gente que trabalha para o governo ganhando salários escorchantes mais auxílio-isso, auxílio-aquilo. Não aceitam abrir mão de um bocadinho de suas mordomias, mesmo sabendo que essa pequena fração daria para melhorar a vida de muitas famílias. É cada um por si e o resto que se lasque.

    O cara suga todo o sumo que consegue do país que lhe deu condições de prosperar mas não dá uma gotinha em troca. E ainda se recusa a enxergar a escandalosa realidade em volta.  Vive com sua prole em segurança numa ilha da fantasia, um condomínio de luxo protegido por cerca eletrificada, separado por grossos muros do inferno do país real, sem lei, sem emprego, onde as pessoas amedrontadas caminham por vielas imundas e mal iluminadas, sujeitas à ação da bandidagem.

    O senhor vai dizer que o cara trampou pesado pra chegar lá, não roubou e por isso merece o status que tem. Roubou sim! Pode não ter sacado o revólver. Seu crime pode não estar escrito nos códigos dos bambambans. Mas todo cara que goza uma vida de nababo e não mexe uma palha para minorar o sofrimento dos coitados, é um ladrão sacana. Não adianta se esconder por trás da carapuça de ‘homem de bem’.

    E ainda por cima elege os governantes safados que prometem manter tudo como está. Os que podem melhorar as condições, são tachados de ‘comunistas’. Não somos comunistas, dotô. Só queremos que todos tenham um mínimo para que possam levar comida à mesa e deem educação pros guris. O que o senhor chama de comunismo, eu chamo de dignidade.

    Eu não entendo de política, esquerda, direita… Só sei que direita a coisa não tá. E se tiver um Deus lá em cima ele vai estar de acordo comigo. Um Deus justo não vai querer que nenhum filho seu venha ao mundo em situação de desespero.

    Não aceito esse papo que todos têm as mesmas oportunidades e que quem tem talento, sobe na vida. Mentira! Concordo que tem uns poucos pés rapados que se deram bem e mudaram de lado. Tipo Neymar e outros jogadores, artistas populares, ganhadores de mega-sena, pastores pilantras, traficantes, golpistas. Gente que faturou uma grana preta em pouco tempo e agora se acham. Esses são os piores, não têm um pingo de solidariedade com os brothers. Promovem festanças de luxo, exibem carrões e roupas de grife e sentem orgulho em espezinhar os desvalidos que já foram um dia.

    Mas os que conseguiram quebrar a barreira e subir na vida, seja por que método for, são exceção. Um em um milhão. Já os que nasceram em berço de ouro, vão para as melhores escolas, com boas condições de vida e têm muito maior chance de se dar bem sem precisar contar com a sorte.

    Que porcaria de país estamos construindo em que meia dúzia vive em padrão gringo, enquanto os ferrados rastejam catando lixo? Tá tudo errado, dotô.

    Mas nada se faz impunemente. A paciência está se esgotando. Vejo os sinais. Escuto um burburinho crescente de gente reclamando nas periferias. Artistas sensíveis retratam esse inconformismo. Líderes da comunidade passam por cima dos políticos demagogos encorajando o povão a exigir seus direitos e começam a ser ouvidos. Nas escolas, professores esclarecidos ajudam a formar uma geração que entende que as coisas não precisam ser assim.

     Até quando, dotô, vocês acham que poderão impor essa exploração a uma imensa massa excluída, até aqui amansada pelos pastores charlatães, pelas mentiras da internet e pela repressão policial?

    Quem avisa, amigo é. Fique ligado, dotô, que o bicho vai pegar. A brutalidade dos brucutus e dos milicianos que humilham os mais pobres está próxima ao limite e a reação vai vir na mesma proporção.  Não se engane com essa aparente tranquilidade, dotô. Pode ser a calmaria que precede o tsunami. Essa lenda de que o brasileiro é conformado, tudo aceita, está mudando. O ódio nas redes sociais é incorporado pelo pacato cidadão e vai detonar no colo dos canalhas que o disseminam. É a lei do retorno.  Essa situação insustentável de injustiça está tornando esse país um barril de pólvora, prestes a explodir. E aqueles que não quiseram ontem dar os anéis, talvez tenham amanhã que entregar os dedos.

    Por isso, tome muito cuidado, dotô. A conta virá e não será barata.

    Recomendações à patroa.

  • Entre páginas e anos

    Desde pequena, sempre gostei de escrever frases soltas, inspiradas ao olhar uma cena comum do cotidiano ou ideias que surgiam assim, sem aviso. Meus cadernos de escola não tinham páginas vazias. Eu fazia meus diários ou anotações onde houvesse um espacinho limpo.

    Ao final do ano, meu tesouro era guardado. Tudo preenchido com minha letra de menina tímida na vida real, mas confiante nos pensamentos, nas dúvidas e nas certezas com que eu olhava o mundo. O estudo misturado aos devaneios.

    Quando adulta, já trabalhando, ao final de cada ano, os clientes nos presenteavam com agendas, sempre bonitas, variadas. Um presente esperado por mim, não pelo objeto em si, mas pelo uso que eu dava a ele.

    Eu folheava aquelas páginas organizadas, cheias de categorias que nunca foram do meu universo. Condomínio, CNH, passaporte, consórcio. Bastavam-me três ou quatro linhas. O restante ficava em branco, à espera de uma utilidade que não me pertencia.

    E assim, aquelas agendas viravam diários. No ano seguinte, eu começava outra, nova, como o próprio tempo que se abria diante de mim.

    Anos depois, ao folhear uma agenda antiga, às vezes eu não me reconhecia. O tempo e a idade são implacáveis. Aqueles sentimentos, ideias e planos já não tinham o mesmo peso. A vida é dinâmica, ainda mais aos vinte e poucos anos.

    Hoje, faço dessas lembranças um exercício de fim de ano, quase uma autoanálise. Escrevo contos, reminiscências, crônicas, muitas delas saudosistas. Liberei um lado meu que esteve por muito tempo guardado e passei a escrever também sobre o amor, sobre o desejo. E assim vou seguindo.

    Acredito que escrever é uma necessidade que nasce no coração. A mente apenas traduz. E então, escrevemos.

    Depois, lemos. Refletimos. Às vezes nos reconhecemos, às vezes não. Mas, naquele instante, aquilo foi verdadeiro.

    Se um texto desses se transforma em conto, em crônica, se desenha um sorriso ou arranca um suspiro de quem lê, então já cumpriu seu destino.

    E se um dia termina numa fogueira, como eu fazia, ou no descarte silencioso de papéis antigos, é porque cumpriu o seu papel.

    Literalmente.  

    🌷
  • A metafísica do corpo

    Não tenho papas na língua, falo palavras gordas de ouro ou bosta. Não quero brumas, essência incognoscível. Qual é a verdade? Quem sou eu? Que Deus, que sonho me move? Falo do que posso, a minha história é clara e suja como os olhos do homem. Vi claramente o mundo dos mortos. Voltei molhado do limo primitivo, trouxe a baba da inocência nos dentes. Derramei o meu sangue sujo no mundo dos mortos.

    Não tenho papas na língua, falo do sol e da noite como quem sabe e não sabe. Como quem não deve, falo da morte com as palavras que conheço. Como explicar o não dito? Como dizer o sempre visto no mito? Ah, é preciso arrancar a língua da boca velha. Furei os meus olhos para ver de novo. Para a tropa do trapo vazo a tripa, dizia Gregório de Matos e eu digo estou me cagando para essa merda toda.

    Isto é a metafísica da palavra. Uma cachopa de marimbondos no saco me fez homem aos sete anos de idade. Volto a ser esse homem: estar vivo é ser filho da vida natural. Isto é a metafísica do corpo. Arranquei a minha língua, arranquei os meus olhos, arranquei os meus colhões, sou o homem que volta a ser homem. Toda a metafísica está no veneno do escorpião. Tudo mais são imagens, quando o ser não é senão sob a máscara.

    A linguagem é pura e suja como a gordura de um porco frigindo. A palavra que não frege é morta. Eu vim dos campos da morte, eu posso me dizer da palavra morta. Como um sapo morto que faz chover. Eu sou o morto, eu estou chovendo. Eu tenho todo o sol do mundo no meu corpo e estou chovendo.

    Não tenho papas na língua, falo palavras espumando veneno verde. As panelas na cozinha, as verrugas da vizinha, os colhões verdes do escorpião, tudo fervendo no corpo. O corpo é a metafísica do corpo.

  • O derradeiro encontro

    A manhã começou triste para ele. Era o dia em que finalmente se encontraria com ela. Não seria um compromisso qualquer nem trivial, até porque demorara um pouco para conseguir marcar a data. A moça se mostrara relutante em ceder ao seu pedido até que pela constante insistência dele sua resistência foi vencida.

    Este seria um dia diferente dos outros. Um dia marcante em sua vida porque finalmente teria a conversa pedida por ele há muito tempo e adiada por ela sem qualquer explicação. Ainda deitado em sua cama suspirou olhando o teto ante a perspectiva daquela conversa. Não tinha certeza de como se desenrolaria o encontro mas acreditava que provavelmente selaria a vida dos dois em definitivo. A partir de hoje seguiriam a vida juntos ou se tornariam dois seres espalhados em outras direções.

    Sentou-se na cama. Sentiu um peso enorme no estômago e os olhos quase se encheram de lágrimas. Respirou fundo, fez uma expressão séria para si mesmo e disse: é melhor resolver de uma vez porque a indefinição estraga a vida. Espantou o choro e se concentrou. Hora de levantar e enfrentar a vida e o que tiver de ser, será.

    Há semanas, melhor dizendo, já quase quatro meses, que a eloquente convivência deles se transformara em silêncio. Um silêncio frio que abria em sua imaginação as portas para as piores suposições. Ele sabia que não havia nada mais intenso que o silêncio do desencontro. Não falar era um dos momentos mais mortais em uma relação com problemas. E ai estava o primeiro deles: não fazia ideia porque ela se calara da noite para o dia. Qual seria afinal o problema que motivara ela a privar os seus ouvidos das palavras dela?

    Imaginava qual motivo o havia condenado ao mutismo gélido dela mas não chegava a nenhuma conclusão. Qual gesto? Qual palavra? O que provocara o silêncio dela? Ele pedira mais de uma vez para escutar dela palavras que fizessem sentido e que o ajudassem a entender a situação. Mas elas não vieram. Nem ela nem suas palavras. Até o dia de hoje, quando finalmente ela falaria com ele.

    Saiu da cama e foi ao banheiro. Sua cabeça não parava de pensar em sua situação. Todo desconforto, aflição e tristeza que passara nos últimos meses por conta desse misterioso silêncio dela. Tentara levar a vida normalmente mas foi impossível. Pensava nela em um dia e no outro também. Conseguia disfarçar bem perante os amigos e no trabalho mas por dentro se remoía.

    Ninguém fica imune a essa eloquência silenciosa e logo a ansiedade nascida da distância imposta por ela se transformou em angústia. Reuniu forças não sabia de onde e ao invés de transbordar em perguntas preferiu ser cauteloso. Ao longo desse tempo gelado questionou somente duas vezes a atitude dela. Usou palavras cuidadosamente escolhidas para não piorar a situação. Formulou perguntas envoltas na mais fina cortesia, temperadas por afeto mas que traziam em si toda sua ansiedade nascida da incerteza do tratamento que estava recebendo dela.

    As vezes se perguntava, por que logo ela o tratava daquela forma? Por que tanto descaso com ele? Onde se metera toda paixão que ela disse ter por ele? Era seu amor mais profundo e sincero e sempre deixara claro isso. Até antes do dia fatídico, um domingo para sempre nublado em sua lembrança, tudo entre eles eram amores. Mas sem excessos. Sabiam como temperar o amor, evitando as melosidades. Fantasiavam juntos, conviviam, chegavam ao ponto de por pura diversão compor prosa poética no ar: cada um dizia uma frase que completasse a do outro. Todo dia trocavam algo bonito e amoroso, falavam dos respectivos cotidianos e se apoiavam mutuamente.

    Por isso o choque com a atitude repentina dela. Sem aviso, sem alguma briga ou desentendimento preliminar. No sábado, era amorzinho. No domingo, nada. Difícil de acreditar mas era o que ela tinha feito com ele.

    Uns poucos dias depois ele decidiu tocar no assunto dizendo que ela havia se afastado dele. Impressionantemente ela negou o óbvio, falando coisas vagas e sem sentido ou conexão com o que ele questionara. Ele ficou perplexo e sem reação. Era algo inédito, estranho à proximidade e intimidade deles não admitir algo tão cristalino. A conversa não evoluiu, trocaram poucas palavras uns tons pouco acima do vazio do silêncio. Ficou sem chão e sem coragem para questiona-la. E fim.

    Dali em diante sua vida nunca mais foi a mesma. A poesia que eles tinham em comum mudou-se para bem longe e cedeu lugar a aridez das frases rasas, comuns e distantes. Clichês em cima de clichês na tentativa de manter alguma proximidade e preencher o vazio do silêncio. Esforço inútil. Aos poucos até o repertório de superficialidades foi se esgotando. Em pouco mais de duas semanas cessaram as mensagens de parte a parte. E nasceu a agonia nele.

    No meio do caminho, uma data de comemoração íntima, a memória de uma viagem juntos, a primeira deles. Achou que poderia ser o momento de uma retomada no tom amoroso das conversas. Quem sabe esse mutismo, essa frieza, não teria sido um período curto de reflexão dela? Não queria ser invasivo e se manteve respeitador, apesar da ansiedade enorme que corroía seus pensamentos.

    Ledo engano. A data amorosa veio e foi embora sem nada mudar. Ouviu dela somente frases-feitas, bobagens açucaradas e superficiais e se despediram no mesmo tom e forma que fazem os amigos e pronto. Tudo permaneceu frio para quem esteve acostumado ao calor daquele coração bem conhecido e amoroso.

    Suspirou sozinho em casa rememorando sua triste trajetória de afastamento. A lembrança veio forte e aproveitou que estava longe das vistas dela e chorou baixinho de profunda tristeza.

  • Duas eternidades de escuridão

    O mais belo dos arcanjos mostrou o risco da valorização da beleza, ao se tornar um ser que insistiu com a ideia do eu, em detrimento de nós, desenvolvendo a vaidade pela primeira vez. O nome dele é Lúcifer. Ao se olhar no espelho, se achou bonito, e como portador da Luz, se achou mais bonito que os outros. Sentindo-se individuado chegando ao ponto de dizer eu, quebrou o ritmo da criação, que havia sido concebida como nós. Porque todos seres criados eram nós, e esse demônio se achou melhor que os outros, e se tornou tão pesado, que caiu, segundo uma tradição, no golfo de Nápoles. Ele entrou em combate com dois terços dos anjos restantes, liderados pelo anjo Miguel, que vem do ebraico Micha’el, que significa, “aquele que é similar a Deus”. E o demônio caiu no inferno, vencido por Miguel, e de lá disse ao seu auxiliar:

    — Prefiro ser Senhor do Inferno a ser escravo do céu.

    A partir desse pecado de Lúcifer, surge a vaidade universal. E essa mudança de pensamento lembra aquele soldado Russo artilheiro, que retornou da guerra do Afeganistão nos anos 1980, cuja narrativa está escrita no livro “Os meninos de Zinco” de Svetlana Aleksiévitch: 

    — Aquela pessoa que você amava, se foi. Sou outro. Eu sou outro. Mesmo assim, eu gosto daquele homem de antes… Sinto saudade dele… Lembro dele…. Mas agora sou outro. 

    É claro que esse guerreiro mudou sua mente por causa de sua imensa ruína interior vivida no pós guerra, muito diferente da batalha vaidosa de Lúcifer.

    Olhar o sofrimento do outro é imaginar essa dor segundo nossos valores e referenciais. Enfrentar uma limitação quando somos adultos, é olhar a ameaça de não poder mais experimentar todos os prazeres vividos até então. Seria possível viver privado dos prazeres alimentados pela vaidade? Não seria melhor morrer? 

    O escritor japonês, Kenzaburo Oe pensou nisso, quando teve um filho que nasceu com má formação cerebral. Quis rejeitá-lo, mas após muitas cirurgias o menino Hikari, que significa “Luz”, passou a sofrer de epilepsia e vive num mundo silencioso. Durante anos ouvindo música clássica, Hikari aprendeu tocar piano sozinho, tornando-se rapidamente em best-seller da música.

    Nesse limiar do fio de nylon, afiado e transparente está nossa jornada desde a infância, por vezes acolhida e recebida à uma linda caminhada. Como escreveu Vladimir Nabokov, “Nossa existência não é mais do que um curto-circuito de luz entre duas eternidades de escuridão”.

    Alguns desabrocham talentosos tardiamente, e acabam por sofrer a falta de uma ajuda peculiar, que poderia ter servido de berço, a esse indivíduo esperançoso. Você não quer estar sozinho nesse meio, por isso avance em suas proposições e viagens emocionantes, outros aguardam por indivíduos inspiradores e que façam brilhar suas próprias caminhadas lentas e sem sentido. Andar em círculos atrás de sua própria sombra, não dá eco, se o resultado de seus esforços não aparecer a seus olhos, deixe ir, leve para além de você o que não vingou, assim não corre o risco de sentir saudades.

  • A bolita, o conflito e o mundial vendido pelo Guarany de Bagé

    Fora da província, poucos conhecem a história. Nos jornais soltam abobrinhas, cogitam motivações econômicas e até levantam causos das antigas sociedades secretas que, segundo eles, ainda dominam o mundo. Na verdade, não é bem assim. As coisas são mais simples do que parecem. Os noticiários inventam essas bobagens para atiçar a curiosidade do povo, para vender assinaturas e para cobrar cada vez mais caro pelos espaços reservados aos anunciantes. No fim das contas, não deixa de ser uma questão de dinheiro, com pouca ou nenhuma relação com os fatos e com a verdade.

    Aqui, no entanto, essa história de conflito entre Estados Unidos e Rússia não pega ninguém desprevenido. Para alguns, pode ser novidade, mas é preciso esclarecer: a verdadeira nacionalidade de Donald Trump é argentina. O seu pai vinha pescar no rio Uruguai, era um açougueiro conhecido e, por aqui, chamado de velho Trapo. Ninguém entendia bem aquele sobrenome, estavam mais acostumados com os López, os González e os Fernández.

    Vez ou outra, o velho Trump vinha com um amigo, um tal de Milei, avô do atual presidente. Esse sim, um baita encrenqueiro. Quando Milei aparecia, era difícil retornarem à Argentina sem um quebra-pau ou um tiroteio. Pegou mal também para Trump, claro. Naquela época, até o açougue começou a definhar. De fato, maus ventos vêm com maus amigos. O problema só terminou quando o próprio Erico Veríssimo interviu. Todo diplomata, chamou o velho Trapo para uma conversa e explicou a situação: — Pois então, nada contra você, sabe como é, mas o seu amigo ali é meio difícil, daqui a pouco vai acontecer uma tragédia, somos um povo pacífico… —. Isso foi em fevereiro de 62, pouco antes do velho Trump vender o açougue em Tapebicuá e partir de mala e cuia, sem contar nada a ninguém.

    O ano de 1962, aliás, foi mágico para o esporte gaúcho. Poucos comentam, é verdade, mas o antigo continental teve nas semifinais: Ypiranga de Erechim contra o Club Atlético Peñarol, e Guarany de Bagé contra o Racing Club. Dos quatro jogos, contando ida e volta, foram registradas apenas oito confusões, duas brigas de faca e um morto por bala perdida. Era um torcedor do Internacional. A final foi entre Ypiranga e Guarany, em jogo único, marcado em campo neutro, no estádio do Esporte Clube 24 de Maio, em Itaqui.

    A mobilização foi enorme. Veio gente da Argentina, do Uruguai e do Rio Grande todo. Conta-se, inclusive, que uma caravana partiu diretamente de Assunção, no Paraguai, mas foi interceptada pela polícia e não concluiu o trajeto porque no ônibus havia mais peso em cocaína do que em seres humanos. O Guarany de Bagé tinha contratado um famoso ponta-direita uruguaio e por isso, muitos dos seus conterrâneos apareceram, inclusive o olheiro da seleção, Armândio Putin.

    Foi lá, durante a final do continental, num terreno baldio, ao lado do bar, que o filho de Putin ganhou do filho de Trump num jogo de bolita. Trump-filho, uma criança mimada e problemática, não aceitou a derrota. Putin-filho zombou fervorosamente do adversário. E o Guarany de Bagé se sagrou campeão com um gol do uruguaio Ghiggia. Quem capturou a história foi Paulo Santana, um jovem estagiário do Jornal Zero Hora, que bebia um refrigerante no bar enquanto as crianças brincavam. Dois dias depois, publicou um pequeno texto sobre o jogo, enaltecendo o Guarany e lembrando da breve e engraçada confusão gerada por uma partida de bolita. A reportagem teve o título: “Entre bolas e bolitas: Guarany de Bagé é campeão do continental”.

    Logo depois, Ghiggia se tornou um astro do futebol uruguaio, o olheiro Putin foi recrutado pela seleção da União Soviética, o açougueiro Trump se mudou para a América e o Guarany de Bagé, como é sabido por essas bandas, vendeu o título mundial para o Real Madrid. O resto é história.

  • Poema #01: Incondicional

    Entre tantas vozes
    Tantos abraços
    Entre tantos conselhos
    Em meio ao cansaço

    Quando sorrio
    Ou quando choro
    Se me surpreendo
    Ou me apavoro

    Se a alegria é tanta
    Ou a decepção é muita,
    Importa ter o teu colo, Mãe,
    Pra valer a pena continuar.

  • Inopinadamente, flores

    — para minha mãe, Lucia.

    Terra fria e emudecida. Inopinadamente, fibras rompem o ventre silencioso, como unhas recém-nascidas. Entre o solo e a grama, um ponto vibrante.

    De um botão, eclode uma cor; formas e aromas a batizam ‘flor’. Surgem os rótulos, retalhos únicos entre tantos iguais, infinitas espécies distintas. Todas, entretanto, flores. Do inesperado, brotam. Despontam singulares. Soam vida. Encantam.

    Por um breve, quase memorável período, flores são flores pré queda:

    — murcham.

    E assim abubam solos com próximas florações. Semeiam, na compacta existência, motivos para seguirmos, talos tensos, pétalas abertas em busca constante do sol.

    Botões como ovários: dilatam-se até romperem em humanidade.

    Das entranhas de todo data-base concebido, da terra revirada do jardim do vizinho, misturam-se memórias, adubo, formas e cores. Vidas.

    Da paciência surge a atenção,
    Da atenção brota o entusiasmo
    Deste, o encantamento

    Aplausos na praia do Arpoador; reverência.

    Ecoa a obra maior da natureza divina:

    MÃES

    Feliz dia a todas as cores que moldam e perfumam todas as existências.

    Bom domingo a todas vocês!

  • Dia das Mães

    Mãe. Palavra pequena que significa tanta coisa! Abraço, afago, aconchego mesmo no cansaço, presença, cuidado…

    Mãe. A matemática de contar feijão! Um a um na palma da mão…

    Mãe. Saber a palavra certa ou não ter palavra alguma e mesmo assim, falar com os olhos.

    Mãe. Toda mãe tem seus silêncios! E os silêncios continuam a dizer coisas, só que como um sussurro…

    Há coisas que não precisam ser ditas com palavras, não é?

    Há coisas que chegam assim, num sussurro…

    Não dá pra colocar em um único texto tudo o que uma mãe representa pra cada ser vivente!

    E é muita coisa! É a dor da vida, é a dor de dente! É o medo do escuro, é o medo de gente! Mesmo diante do improvável e do impossível ela fica contente!

    Ela dá força e ela é a própria força!

    Mãe!

    Queria que essa crônica pudesse capturar por um breve momento o seu abraço, o seu sorriso e a sua proteção!

    Queria que cada palavra aqui representasse um pouco da sua sabedoria.

    Mas a crônica não é mãe, é crônica! E, como se diz, mãe é mãe!

    E não, a crônica não vai dar conta disso!

    É muita coisa pra dar conta! Só mãe mesmo!

    Por isso, mesmo sem jeito, a crônica deste dia coloca sobre a mesa uma toalha, os talheres, os copos e os pratos.

    A comida que chega quentinha, como lembrança gostosa de almoços em família, lembra de novo o cuidado, o cuidado de fazer sempre o melhor.

    E vão chegando à mesa os filhos, que já não são crianças, mas retornam ao tempo em que os sonhos tinham um contorno especial.

    Na mesa, conversas, risadas, mãos que se ajudam com este ou aquele prato ou uma bebida… O tempo para.

    Mãe… obrigado por acreditar nos nossos sonhos!

    O menino que escrevia versos já não é mais um menino, mas guarda e guardará pra sempre as contas feitas com feijão na velha mesa de madeira.

    O cronista, homem feito, agradece a oportunidade de poder estar presente em mais um dia das mães!

    E a crônica termina assim, nessa cena de almoço, tão simples, mas tão certa!

  • O outro pé da meia

    Noite fria, escura.
    Abre a portinhola. A roda gira.
    De cabeça coberta, estica os olhos para os dois lados sem virar o rosto.
    Ninguém à vista. Por um momento titubeia. Mas já está feito. Não há volta.
    Segue em passadas trôpegas seu caminho.

    ****

    Sentindo um ardor na boca do estômago, Stefano serviu-se de uma caneca grande de café, entrou no quarto e fechou a porta. Permaneceu alguns minutos diante da janela, até que o calor da bebida agasalhasse um pouco o coração encaramujado.

    Era hora de arrumar a mala. Organizar o que levar e o que deixar para trás. Partiria em busca de um elo capaz de aproximar passado, presente e futuro — distante das referências e afetos acumulados ao longo dos vinte anos de existência.

    Sentou-se diante da escrivaninha e abriu uma gaveta há muito esquecida. Foi retirando os guardados, um a um: fotografias do primeiro dia de aula, do campeonato de futebol, dos pais cantando parabéns em seu aniversário de dez anos.

    Cartões-postais da primeira viagem com os amigos. O recorte de jornal com seu nome grifado entre os aprovados no vestibular. Sorriu ao encontrar as bolas de gude, tesouro absoluto das disputas de caçapinha.

    O primeiro exemplar do Achados e Perdidos, que colecionava avidamente.

    Folheou também o álbum da Copa de dois mil e quatorze, completo graças à generosidade dos pais, que lhe compravam pacotes e mais pacotes de figurinhas.

    Foi tomado por uma ternura funda ao pensar nos dois.

    Continuando a escavação, encontrou no fundo da gaveta uma meinha azul-clara de bebê. Ficou olhando para ela, tentando entender como fora parar ali.

    Nunca a tinha visto antes. Um pé só. Aquilo parecia guardar um recado. Por instinto, colocou a meinha na mala.

    Algo lhe dizia que aquele pequeno pedaço de pano tinha relação com sua chegada ao mundo — e com o pouco que conseguira compreender da revelação feita pelos pais adotivos. Depois do acidente que lhes tirara a vida, tudo acontecera rápido demais. Restaram apenas fragmentos: Itália, Finestra, esperança.

    Decidira partir em busca dessa Finestra. As perguntas martelavam em sua cabeça exausta pela noite em claro: onde, como, por quem procurar?

    Ainda aturdido, deitou-se na tentativa inútil de descansar antes da jornada que começaria na manhã seguinte.

    ****

    Tarde ensolarada em Milão.

    Sentada na varanda do apartamento, absorta em pensamentos, Angela não percebeu a chegada do marido. Havia tomado uma decisão e precisava compartilhá-la com aquele que, havia dez anos, a acolhera sem perguntas, cuidara de suas feridas e amara até os silêncios.

    Chamou Domenico para o café recém-passado, ritual das tardes de sábado.

    Procurou abrigo em seus braços e deixou que a memória vagasse pelo tempo.

    A cabeça escondida no casaco de lã abafava os soluços e turvava a lembrança daquela noite distante em que se virou e partiu.

    No abraço do marido afogava a própria história: a miséria do corpo desnutrido, os seios secos, a penúria do abandono familiar. O remorso que nunca cicatrizou. A ausência que permanecia acesa, silenciosa, à espreita dos dias.

    Assim ficaram por algum tempo, quietos, até que as palavras finalmente transbordassem.

    Contou-lhe que decidira voltar a Milão, à Finestra da Esperança. Lá deixaria seu nome, o endereço onde agora vivia e um pé da meinha azul.

    Roda a roda da esperança: que algum dia o outro pé daquela meinha encontrasse o caminho de volta.

  • Rosane desistiu

    Meu nome é Rosane. Detesto quando me chamam de Rosana. Friso sempre o “e” no final. Não sou uma mulher exigente. E a carência está me fazendo ficar ainda menos. Sinto falta de transar, sinto falta de romance, sinto falta de um homem a quem possa admirar.

    A questão é que não me encanto com facilidade. Não será um abdômen definido, um bíceps malhado ou um rostinho perfeito que me fará ficar animada. Homens com barriga, pouco cabelo, aceito desde que
    mostrem vida inteligente. Sou daquelas que curte quem pensa e se expressa bem. Não precisa ser um gênio nem um pesquisador científico.

    Basta não me envergonhar na frente dos outros.

    Se é adepto do fisiculturismo, joga futebol americano ou ouve rap ou sertanejo, ligo o sinal de alerta, estou fora. Para mim, o tesão é o intelecto. Um entendimento mínimo de quem sabe a diferença entre meio advérbio e meia para sapato. Um simples erro de concordância já me dá um nó na garganta e calafrios. “É nóis” ou “a gente vamos” é a senha para o portal do inferno.

    Pode ser praga ou justamente por só buscar homens com certa cultura, mas todos aqueles de quem me aproximo, mostram-se uns tapados congênitos. Parece proposital, uma trama urdida para me tirar do sério.

    É só eu me interessar por alguém e lá vêm os barbarismos.

    Outro dia, no metrô, avistei um homem elegante e com ótima aparência. Usava óculos, estava em pé, lendo um livro. Puxei conversa e perguntei qual o livro que lia. Era um manual desses para ansiedade.

    Autoajuda clássico. O indício foi claro, mas ainda insisti. Perguntei para onde ele estava indo. O golpe veio avassalador: vou a um bazar “beneficiente”. Brochei. Nem com toda a boa intenção e filantropia.

    Num bar, um rapaz veio pedir se podia me fazer “compania”. Respondi que “compania” não seria possível. Companhia, sim. Ela pareceu não ter entendido. “Posso me sentar com você, “menas” se estiver esperando alguém. Ainda frisou o “menas”. Emudeci. Fiz cara de ódio. Ele desistiu a tempo, acho que finalmente havia entendido.

    A fim de evitar esse tipo de encontros tóxicos, passei a frequentar lugares mais de acordo com minhas perspectivas: museus, bibliotecas, lançamentos, vernissages. Num sábado, Centro Cultural, parada na porta aguardando uma amiga, um carinha lindo se aproximou e me disse: pode entrar que é tudo “gratuíto”. Cheguei a me arrepiar.

    É um tal de “soltar” do ônibus, “resistros” de chuveiros, vamos “tudo” na praia, “seje” em vez de seja, mulheres “estrupadas”, “mindingos” pelas ruas e “imbigos” à mostra. Uma desgraça.

    Prestes a desistir, encontrei um tipo especial. Lia Proust no original, conhecia astrologia e mapas astrais, ia a festivais de cinema e tinha um papo ótimo. Era gay. Quis cortar os pulsos.

    Quem sabe um dia, ache um companheiro que combine atração física e intelecto. Sem gostar de “mortandela”, sem “cardaço” no tênis, que não tenha “ramela” no olho, não more numa casa “germinada” nem tenha medo de chuva de “granito”.

    Talvez desista. Pode ser uma grande “perca” de tempo.

  • Mundos Paralelos

    As pessoas se levantam cedo, tomam seu café e vão trabalhar.

    Trabalhos variados, perto de onde moram ou longe talvez; trabalhos fáceis, difíceis e até penosos.

    Existe um ditado muito popular que diz: “O trabalho dignifica o homem.”

    Não sei ao certo quem primeiro disse isso. A frase atravessou o tempo, ganhou força, repetição e certo prestígio moral. Embora, em alguns momentos, também pareça servir para romantizar excessos e medir a dignidade humana apenas pela produtividade.

    Mas não é exatamente sobre esse trabalhador que penso agora. Nem sobre o trabalho honesto que sustenta famílias, constrói empresas, alimenta sonhos e atravessa gerações.

    Penso nos trabalhadores do mal.

    Os que aplicam golpes, criam perfis falsos de vendas, driblam mecanismos sofisticados de bancos e enganam pessoas.

    Eles também acordam cedo, tomam café e vão para os seus trabalhos.

    Como são essas pessoas que se afastam da verdade, se dispersam nas próprias paixões e, com impressionante naturalidade, executam diariamente os seus ofícios?

    Elas são aparentemente comuns.
    Dessas pessoas que passam por nós na padaria, reclamam do calor, aguardam atendimento em consultórios e perguntam o preço do tomate na feira. Talvez conversem sobre futebol, tenham dores na coluna, paguem boletos atrasados e levem os filhos à escola antes de começar o expediente.

    O expediente.

    Essa talvez seja a parte que mais me inquieta.
    Porque o mal, quando imaginado, costuma surgir grandioso, quase teatral. Entretanto, a vida real parece preferir os gestos pequenos, repetidos e discretos. Há pessoas que organizam cuidadosamente o próprio dia para enganar desconhecidos. Criam métodos, estudam abordagens, aperfeiçoam narrativas. Aprendem a falar com delicadeza, a parecer confiáveis, a reconhecer solidão, ingenuidade, carência ou desespero do outro lado da tela.

    Existe quase um profissionalismo nisso.

    E essa constatação produz um desconforto difícil de explicar.
    Não falo aqui do criminoso impulsivo, do rompante de raiva ou do erro desesperado. Penso nos que transformam o engano em rotina. Nos que acordam já sabendo exatamente quantas pessoas tentarão lesar naquele dia, como quem estabelece metas silenciosas para si mesmo.

    Será que sentem culpa?

    Ou será que a consciência humana possui uma espantosa capacidade de adaptação?
    Talvez ninguém acorde, de repente, completamente deformado. Imagino que exista um caminho lento. Pequenas concessões interiores. Uma mentira tolerada hoje, uma vantagem injusta amanhã, até que a própria consciência passe a funcionar de maneira diferente, como um relógio que continua marcando as horas, embora já esteja desregulado.

    E então o absurdo se normaliza.

    O sujeito toma café, responde mensagens, organiza contatos, liga o computador e vai trabalhar.

    Trabalhar no erro.

    Curioso como até o mal exige disciplina. Alguns desses homens talvez sejam pontuais, organizados e persistentes. Talvez façam pausas para almoço, conversem sobre assuntos banais e encerrem o expediente cansados, com a sensação íntima de “mais um dia cumprido”.

    Isso me causa um espanto silencioso.
    Porque, no fundo, não é difícil compreender grandes monstros históricos. O horror explícito se apresenta sozinho. Difícil mesmo é compreender o homem comum que aprendeu a conviver pacificamente com a própria fraude.

    Talvez o mais assustador nos trabalhadores do mal seja justamente isso: eles não parecem habitar um mundo separado do nosso. O que nos separa é a verdade deformada em que eles vivem.

    No mesmo mundo.

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