Crônicas

  • Percepção

    Ela enxerga poesia, vê histórias em todos os lugares. Se viaja, escreve mentalmente histórias que jamais tomarão forma na tela ou no papel. Quanto mais longa a viagem, mais tempo em silêncio com seus pensamentos. Entretanto, nunca precisou de uma viagem física para sair do lugar, percorrer mundos, encontrar pessoas e ouvir e falar palavras que apenas ela conhecia, que apenas a ela eram ditas.

    Este é o ar que ela respira: há poesia no contraste de cores inesperado, na casa à beira da estrada, na flor que enfeita o jardim, na aventureira bicicleta que desafia o perigo, na placa informando que saíram de Oizeiro e entraram em Tororomba.

    Há história na venda com balança verde e uma variedade de cachaça sem fim. Há história no homem mestiço de boné que se encosta preguiçosamente na manhã abafada de sábado. Há rima nas casas caprichosamente pintadas e iguais.

    Onde a estrada vai dar?

    Já existem o tempo, o espaço, a gente.

    A história se escreve no caminho.

  • Era só uma bicicleta

    Era só uma bicicleta!

    E Cláudio Rafael não havia roubado nada! Apenas saiu com a bicicleta de sua irmã!

    Ainda que tivesse acontecido um roubo, nada justifica a cena de selvageria que ocorreu em Copacabana.

    Pior, a cena de espancamento e linchamento de Cláudio Rafael escancara o quão estamos doentes! Que sociedade é essa que mata?

    Que sociedade é esta que banaliza a morte?

    Na fúria do dia a dia, vamos perdendo um pouco de nós mesmos.

    Na fúria do dia a dia, vamos nos afastando daquilo a que ainda chamamos humanidade!

    Na fúria do dia a dia, banalizamos a própria vida…

    A sociedade do espetáculo entrega a todo momento cenas grotescas de descomposturas gratuitas, violência verbal, agressão física, feminicídio… um sem-fim de comportamentos gravados e visualizados por milhões.

    Um dos agressores de Cláudio fez questão de filmar a horrenda ação, como se fosse paladino da justiça resolvendo as misérias históricas do país.

    Era só uma bicicleta!

    E uma vida foi tirada pela ignorância, pela barbárie, pela total falta de noção!

    Cláudio Rafael saiu com a bicicleta da irmã. Sentiria o vento na orla da praia? Não se sabe… Olharia para as ruas e cenários aos quais estava acostumado e seguiria para um encontro, uma conversa?

    Não se sabe… Olharia para as singularidades de Copacabana mais uma vez e teria um bom pensamento? Não se sabe…

    O que se sabe é que a brutalidade, mais uma vez, prevaleceu sobre o bom senso.

    A bicicleta?

    O Objeto da discussão e da morte de um inocente ficou jogada na calçada, alheia à fúria dos homens…

  • Bolero de Tecalitlán

    Bolero de Tecalitlán, ao pé do ouvido em pleno 2026, soa como uma serenata de amor cantada à janela de uma casa que já não existe. Ou existe? existe: passou apenas a caber na tela de um smartphone. Informes contemporâneos.

    A linguagem sempre como logradouro de encontros.

    Disseram-nos que:

    • …a globalização tornaria o mundo uniforme;
    • …a tecnologia achataria os afetos;
    • …algoritmos substituiriam as coincidências.
    (…)

    Descubro, porém, precisamente o oposto.

    Recebo um link do Spotify como quem recebe um embrulho de papel pardo amarrado com barbante. Abro-o devagar. Em minhas mãos, deixa de ser um pacote eletrônico e transforma-se num vinil antigo. Antiquíssimo, desses que nos deixam com a respiração em sobressalto, de tão delicados. Assopro a poeira:

    — Fuuuuuuuuuuuh… — ergo, assim, o véu fino que o tempo depositou em partículas. Desnudo a capa de papelão, que reaparece inteira, intacta, intensa, como se houvesse esperado décadas por aquele exato gesto meu.

    O disco começa a girar, sem agulha alguma.

    Enquanto Mariachi Vargas de Tecalitlán invade madrugadas, planilhas, quantitativos e e-mails que insistem em não terminar, descubro o LP virtual realizando o que minhas melhores canzoni italiane não conseguiram: devolve-me um tempo que nunca deixou de existir, esquecido sob camadas e camadas de urgência.

    Não é nostalgia.

    É outra coisa.

    É leveza. (Fuuuuuuuuuuuuuuh)

    Há dias em que me sento para tomar um café com personagens capazes de encontrar delicadezas onde o resto do mundo enxerga apenas rotina. Faço isso com plantas, veja só – são excelentes ouvintes, e ainda nos dão ‘bom dia’ com o perfume de flores coloridas, não só na primavera. Acredito piamente numa arqueologia dos sentimentos, não para reanimar o passado — dar-lhe novamente anima, alma —, mas para perceber que uma ou outra beleza jamais fenece. Permanece de outra forma: silenciosa, aguardando quem a escute.

    Já com o disco agarrando, de tanto tocar boleros, baladas y bachatas, um amigo interrompe meu devaneio para perguntar se conheço determinado perfil no Instagram.

    Paro tudo.

    ***

    Abro a página.

    O retrato em miniatura que acompanha o @não me diz absolutamente nada.

    Depois de alguns segundos, recordo-me de tê-lo visto uma única vez, de passagem, num evento qualquer. Não trocamos palavras, acho que sequer olhares. Restou apenas a matemática contemporânea: seguimos um ao outro. Ou, dizendo de forma mais honesta, aumentamos mutuamente nossos seguidores (intuito subliminar de qualquer evento hoje em dia).

    Contei isso ao meu amigo.

    Ele sorriu e perguntou:

    — Então não passo apenas de mais um número?

    A pergunta me atravessou como poucas.

    Dias antes, folheando as aventuras de Arsène Lupin, me pego filosofando sobre a diferença brutal entre o mundo de ontem e o de hoje. Durante muito tempo e nem faz tanto tempo assim , apresentávamos desconhecidos por palavras.

    “É gentil.”

    “Tem os olhos curiosos.”

    “Ri com o corpo inteiro.”

    “Escreve cartas.”

    “Não sabemos de quem se trata porque não se pode ler nos documentos ausentes das vestimentas, o desmaiado infeliz”

    Hoje, apresentamo-nos por fotografias. Ou, pior, por avatares, essas ficções que criamos com filtros sobre nossos próprios reflexos. Superamos, em engenhosidade, os casamentos arranjados das aristocracias clássicas, cujos noivos tomavam por esposas pinturas guardadas em relicários.

    Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras… não consigo acreditar nisso, nem tendo escolhido, como ofício primeiro, a arquitetura (idioma gráfico em que tantas perguntas se respondem com um simples “quer que eu desenhe?”). Não; sou das letras, por meritocracia já se vão quase vinte anos só desta coluna.

    Uma fotografia congela; mil palavras ou trilhões delas continuam a respirar, a sorrir.

    — a sorrir eu pretendo levar, a vida…

    Não me lembro do aroma das coisas e gestos antigos com essas notas contemporâneas de superficialidade. Vivemos a era narcísica por excelência: basta nos depararmos com uma poça d’água para que contemplemos nossos próprios reflexos e, no mesmo instante, eternizemos nossos rostos desfigurados nos feeds de vidas cada vez menos privadas. A superfície nunca soube apresentar ninguém…

    Acredito que seja isso que falta à contemporaneidade:

    Descrições.

    letrinhas.

    As pequenas apresentações escritas que, durante séculos, antecederam qualquer encontro. Cartas manuscritas. Os artesanatos feitos à mão, com assinaturas.

    Somos a geração que mais produz imagens e em altíssima resolução, diga-se de passagem …, mas desaprendemos a apresentar e a ler pessoas.

    Eu sou das pessoas. Sou dos encontros sem pressa. Sou das cartas. Das serenatas. Dos recadinhos à mão. Dos cafés. Dos vinhos.

    Me toca profundamente quando alguém escolhe uma playlist em vez de um emoji. Mais profundo ainda quando se envia um disco inteiro, e não apenas uma música. Dou por mim pesquisando vinis pelos eBays da vida, lembrando meu pai sentado na sala, ouvindo os dele.

    Há uma delicadeza quase revolucionária nisso. Em resistir a ser humano na era em que tudo é automatizado.

    Enquanto escrevo, testemunho um caso de affair improvável: a bandeira italiana mistura-se, verde no branco, branco no vermelho e vermelho no verde mexicanos. Sem conflitos, só a pura e velha simbiose. Um bolero que atravessa oceanos, barreiras culturais e temporais, atraca no Rio de Janeiro através de um aplicativo sueco e, sem pedir licença, sela um encontro entre escritores ítalo-brasileiros que perseveram na crença de que as melhores coisas ainda são feitas com o coração.

    Quem sabe a verdadeira globalização não tenha sido a uniformização do mundo, mas a possibilidade de um gesto intimamente humano atravessar continentes sem perder sua brandura.

    No fim, seguimos buscando o que desejavam os que vieram antes (de nós):

    • os tons das animadas canções mexicanas
    • o ar blasé repleto de delicadezas dos escritores franceses
    • o conciso poético de arquitetos alemães
    • a sabedoria de vida dos artistas italianos
    • a paixão traduzida pelo olhar atento dos/das cronistas brasileiros/as e todos os apaixonados que vieram antes de nós

    Ansiando por uma coisa, apenas:

    Porque as palavras continuam sendo o lugar mais generoso onde um ser humano pode apresentar um outro ao mundo.

  • Token inválido

    O infarto foi fulminante.

    Quatro tentativas de reanimação.

    Nada.

    Resistiu bravamente até a última atualização.

    Merecia um fim digno.

    Logo ao chegar à recepção, um rapaz o atendeu, solícito.

    — Fique tranquilo: aqui, tudo tem solução.

    — O senhor deseja fazer a migração completa?

    Severo aceitou o pacote funerário.

    Os universitários iniciaram o ritual de reencarnação.

    Transplantada a memória.

    O outro, novo, reluzente, exibiu seu sorriso de maçã.

    Faltou a identidade.

    — Agora é só atualizar o login dos bancos.

    — Só?

    Severo entrou no aplicativo.

    Negado: Valide o token pelo Internet banking.

    Perfeito! Tentou acessar o site.

    Negado: Para iniciar o acesso valide pelo token no celular.

    Arrepiou…

    Tentou o atendimento no chat.

    Uma voz metálica de boas-vindas:

    — Estamos com muito tráfego no momento, o Sr. é o 12º na lista de espera, favor aguardar que logo mais vamos atendê-lo.

    O som aumenta para as promoções de intervalo, até que outra voz entra na linha.

    — Sou Larissa e vou prosseguir com seu atendimento. Conte em poucas palavras como podemos ajudá-lo.

    Voltou ao ponto de partida.

    — Troquei de celular. Preciso validar o token no site.

    Mas o site pede o token do celular.

    — Não entendi: Reformule sua pergunta.

    — Validar o token.

    Três pontinhos ondulantes, lá vem a resposta:

    — Para validar o token, é preciso fazer uma transferência inicial no app.

    — Obrigada pelo contato. Avalie sua satisfação com meu atendimento.

    Severo, resiliente, volta ao app.

    Acesso negado — token inválido. Necessário validar pelo Internet banking.

    Uma lágrima surgiu.

    O falecido nunca tinha duvidado que eu era eu.

  • Manifesto

    Confesso: eu era indiferente.

    Simplesmente não os notava. Não detestava, nem amava. Eles eram transparentes para mim. Daqueles de quem se diz: nem cheiram, nem fedem.

    Foi assim por dois terços dos meus dias. E nem queiram saber quantos foram. Centenas.

    Não procurei terapia, nem explicações.

    Até que aconteceu.

    Assim, sem me preparar, pensar ou conjecturar, um belo dia eu me apaixonei!

    Paixão de deixar boba. Olhar nos olhos, admirar as nuances, o chamego, o jeitinho, a esperteza. 

    E, como toda paixão, essa também me trouxe dores. Sobressaltos, temores e uma saudade preocupada sempre que precisamos nos separar por algum motivo.

    Agora, quando meus dias estão cada vez mais acumulados, eu não merecia passar por tamanho desassossego: o medo de que ela incomode, a preocupação com reclamações e essa incômoda sensação de impotência diante das regras do mundo.

    Só me resta rezar.

    Recorrer aos santos protetores da boa convivência, da tolerância e da paciência entre vizinhos.

    E pedir a Nossa Senhora dos Gatinhos que proteja a minha querida.

    Nem eu, nem ela merecemos tanta ojeriza. Beira a desprezo mesmo. 

    Deixem que ela contemple o condomínio de vez em quando, sob meus olhos atentos. Não lhe tirem a ilusão de que algum dia ainda será uma grande caçadora, embora os pardais, até hoje, continuem levando larga vantagem.

    As mordidinhas na grama são digestivas e sequer fazem diferença no desenho do jardim.

    Ela já é uma senhora. Tem suas manias, seus hábitos e uma dignidade felina que não admite discussão.

    Não a olhem como uma ameaça.

    Não transformem cada passeio numa operação de guerra.

    Tenham um pouquinho de paciência conosco.

    Eu, que passei tantos anos sem compreender o fascínio que esses bichos exercem sobre as pessoas, hoje me vejo aqui, completamente rendida.

    Portanto, faço este apelo público, sentimental e talvez um pouco exagerado:

    Por favor, amem a minha gata Felícia! 

    🌷

  • Uma história de gatos e ratos

    — Verônica! Finalmente resolveu aparecer depois de tanto tempo. Ainda se lembra do caminho de casa? Bem, acho que essa não é mais sua casa.

    — Quarenta e sete dias.

    —Você não atendia meus telefonemas…

    — Não quero falar sobre isso agora. Passei aqui porque preciso pegar umas coisas. Rafael, você tá molhado, pingando. Sai, tenho uma reunião de trabalho daqui a pouco.

    — Fiquei o dia todo na piscina. A água me faz bem, me purifica.

    Como estamos longe do mar, tenho de me virar com a piscina mesmo. Ah, eles começaram a reprisar aquela novela que você fez… Queda livre, certo?

    — Pois é, eu saio logo. Morro afogada por volta do capítulo 50. Foi horrível gravar aquela cena.

    Ao contrário de você, não tenho essa paixão toda por água. E o Tarantino tá por aí? Saudade dele…

    — Sei lá. Esse gato anda tão esquisito. Passa o dia todo enfurnado em algum buraco. E deu pra sair por aí. Às vezes, fica dias fora de casa. Comportamento estranho. Será que tá sentindo sua falta? Mas pega logo o que quer e se manda.

    — Rafael, você voltou a beber?

    — Voltei, deu pra perceber? Na verdade, nunca parei, minha querida.

    — A gente devia pensar em vender essa casa. Tem um amigo da minha mãe que é corretor…

    — Aqui é tão isolado, não é o que você vivia dizendo? O lugar não é valorizado, é tudo longe. Até pra comprar pão é preciso pegar o carro. E o que mais tem por aqui é imóvel vazio. Vamos ser realistas, Verônica.

    — Sem contrato na TV, sem trabalho no teatro. Tô filmando um curta. O fato é que preciso de grana. Minhas economias vão acabar…

    E você já arranjou alguma coisa?

    — Isso não é da sua conta.

    — Tá namorando? Arrumou alguém? Será que alguma mulher vai entrar por aquela porta a qualquer momento?

    — Isso também não é da sua conta.

    — Mas então, a gente precisa vender essa casa. Cada um pega a sua parte, vamos resolver logo essa situação.

    — Você já viu o sol que está lá fora? Não quero falar de negócios num dia como hoje.

    — Olha, Rafael, eu…

    Verônica se preparava para ir embora quando Tarantino surgiu na janela da sala. Agora tingidos de vermelho, os pelos brancos ao redor da boca do felino conferiam-lhe um aspecto soturno.

    Eriçando o corpo esguio e produzindo ruídos esganiçados, o bicho aproximou-se de Verônica e atirou aos pés dela o rato morto que trazia na boca.

  • Seria a eternidade um mineral?

    Quem sabe a imortalidade seja um mineral formado por átomos de carbono puro dispostos em uma estrutura cristalina cúbica.

    Nosso inconsciente não acredita na própria morte pois não possui nenhum registro psíquico ou representação para ela, e se comporta como se fosse imortal. Não queremos papo com a finitude, ponto e basta! É ao testemunhar a morte de alguém querido que somos forçados a confrontar a realidade da perda. Mas nem isto abala a invulnerabilidade do nosso desconhecido e destemido inconsciente.

    O pobre ego deve morrer de inveja deste ‘sujeito’ empoderado e persistente que aparece nos nossos sonhos e fantasias, nos lapsos de linguagem, nos chistes e sintomas, manifestando de forma disfarçada nossos desejos e memórias reprimidas, sendo o grande reservatório das pulsões e conflitos psíquicos que nos moldam.

    Me debruçando sobre Eros, a vida, ao invés de Tânatos, a morte, leio as manchetes virtuais. Uma notícia cativou meu interesse. Rumino entre cinzas e diamantes. Regurgito e novamente mastigo. Cogito intimamente: Será o ato de mineralizar-se (mesmo que o desejo nem seja do próprio) uma possibilidade lustrosa de eternizar-se?

    De onde virá esse desejo posto ou póstumo, de transformar-se em diamante? Esse desejo de perpetuar-se como substância sólida, apto de ser objeto de toque e posse, perfilado como adorno sobre uma bonita prateleira, trancafiado numa gaveta para não ser furtado ou até mesmo pendurado no pescoço ou enfiado nos dedos. Melhor não seria expandir-se como matéria gasosa em constante movimento aleatório, sem forma nem volume definidos? No fim das contas, já não estaria sua alma como Éter elevada a um elemento puro do céu e muito bem guardada dentro do peito?

    Não importa. Afinal desejo é de cada um. Mesmo um diamante, a substância mais dura conhecida na face da terra, possui seus pontos fracos. Sua imagem reluzente pode sofrer arranhões e uma pancada certeira te fratura em cheio. Caso tenha a rara oportunidade de tê-los em mãos, muito cuidado ao manuseá-los!

    Diamantes são formados a partir de calor e pressão e podem ser produzidos artificialmente a partir de cinzas humanas, num processo complexo e caríssimo. Para poucos! Do carbono contido nas cinzas, cria-se um simulacro de uma joia que será ofertada como um presente precioso.

    Os diamantes dobram os raios de luz que entram na pedra, refletem suas facetas internas e retornam à superfície saindo como brilho intenso, para tanto, o corte é essencial. Um diamante bruto quase não brilha, a lapidação que o transforma.

    Debruçar sobre cinzas e diamantes me fez recordar de amor e transferência, do agalma fálico (este adorno raro e precioso) que se supõe escondido dentro de uma pessoa, tornando-a desejável, que aponta para a fantasia de completude e a busca por um objeto que garanta poder e valor.

    Ao invés de diamantes poderíamos desejar nos transformar em talco, o mais macio dos minerais, num abundante quartzo ou no simples feldspato… Não importa. O que insiste é o apego humano de ‘re’ existir a qualquer preço!

    E para a nano parte da população que ri dos pobres mortais, diamantes são singelos demais, o capricho desejado será pela extravagância de tornar-se uma Jade Imperial, de mil vezes maior valor ou melhor ainda, perpetuar-se como numa gigante safira “Estrela da Terra Pura” . Alhures, estará sempre lá idealizado, o impagável, o “Diamante da Esperança”.

    Para nosso alento e para os milhões de humanos que vivem ainda abaixo da linha abissal sempre restará a alegria de ser lembrado pelas estrelinhas no céu.

  • Tudo é Rio (menos Niterói e São Gonçalo)

    Quando me mudei para o Rio, achei que bastaria algum tempo para entender a geografia, os costumes e, por osmose, me tornar um carioca da gema. Vã ilusão. Aqui nada é tão simples quanto parece. A lógica que rege os lugares homônimos ou com nomes parecidos parece ter sido concebida por um sambista bêbado, como se a cidade já não fosse complicada o bastante com a sua coleção de túneis, morros, largos, viadutos, encruzilhadas, ruas estreitas e ladeiras. Pega a visão.

    Quem nasce no estado do Rio de Janeiro é fluminense, embora não necessariamente torça para o Fluminense. O time tem sede no bairro de Laranjeiras, cortado por uma rua de mesmo nome, na Zona Sul – não confundir com a Rua Laranjeiras, na Pavuna. Há muitas árvores por lá, mas poucas que dão laranjas. Fica perto do Largo do Machado, que não é uma homenagem a Machado de Assis. O escritor é homenageado, isso sim, no Parque Machado de Assis, no Santo Cristo, apesar de ter vivido no Cosme Velho.

    Da mesma forma, quem mora no bairro do Botafogo – ou na Rua Botafogo, em Parada de Lucas – não necessariamente torce para o Botafogo, assim como ninguém precisa ser flamenguista para morar no bairro do Flamengo, tampouco na Rua Flamengo, em Santíssimo. A sede do Flamengo fica na Gávea. A Pedra da Gávea, não. Essa fica em São Conrado.

    Laranjeiras, Flamengo e Botafogo ficam perto da Baía de Guanabara. Guanabara, aliás, já foi estado. A cidade era o Estado da Guanabara. O resto, o Estado do Rio de Janeiro.

    Mas pouco importa se você é tricolor, rubro-negro, alvinegro ou se tem a má sorte de torcer para o Vasco da Gama, cujo estádio, São Januário, não fica em São Januário, mas no bairro Vasco da Gama. Até o carioca que conhece a cidade como a palma da mão pode se atrapalhar com a barafunda de ruas batizadas com nomes de barões, condes, viscondes e marqueses, aos quais se soma uma tropa ainda mais numerosa de generais, marechais, coronéis e outras patentes.

    Aposto dez reais que todo mundo por aqui já se atrapalhou pelo menos uma vez na vida. Por exemplo, confundiu a Rua Barão de Lucena com a Rua Barão de Capanema. Ou a Praça General Glicério, em Laranjeiras, com a Praça General Osório, em Ipanema. E não pense que acabou: há Rua Ipanema em Irajá e Rua Ipanema na Barra da Tijuca. Barra da Tijuca, aliás, que não é o bairro da Tijuca, nem a Floresta da Tijuca.

    E a Linha Vermelha? É a que liga a Baixada Fluminense ao Rio, passa pelo Galeão e chega à região do Centro, certo? De carro, sim. De metrô, há também uma linha de cor vermelha, que sai da Tijuca e vai até a Barra de Guaratiba. Perdão, me enganei. Da Tijuca. Se por engano for parar São Cristóvão quando deveria ir para São Conrado, tenho uma má noticia: está longe pra c****! E não desça na Estação Uruguai se o seu destino é a Uruguaiana!

    Jardim Botânico é bairro e jardim botânico. Lagoa é lagoa e bairro. Maracanã é bairro, estádio e estação de metrô. Tijuca é bairro e floresta. O Maciço é da Tijuca. A Barra também. O Largo é de muitos, como do Machado, da Glória e do Carioca. A Ilha pode ser de Paquetá, do Fundão, das Cobras ou até do Governador. Só não pense em procurá-lo por lá. Quem é e como chegou ao governo, é uma longa história.

    Botafogo e Flamengo são times, bairros, praias e estações de metrô. E ainda existe a estação Acari/Fazenda Botafogo, em Acari. Fluminense é time, gentílico de quem nasce no estado do Rio e também nome de rua em Nova Iguaçu. E há ainda o Parque Fluminense, que é bairro em Duque de Caxias, não parque.

    Se ficar confuso e for pedir informações, cuidado. “Parada” pode ser qualquer coisa: ponto de ônibus, drogas, uma festa muito louca ou uma crise existencial profunda. “Caraca” pode significar tanto “que beleza” quanto “que desgraça”. “Confia” pode ser justamente o momento em que você deveria começar a desconfiar.

    Não demorei para perceber que, dependendo da situação, “bora marcar” pode perfeitamente significar “espero nunca mais ter que olhar para a sua cara.” E, atenção: se você é trabalhador e planeja ir ao Samba do Trabalhador, no Andaraí, no fim de semana, planeje de novo. O samba acontece às segundas-feiras. E costuma lotar.

  • Vida nova mas o mesmo eu, ou não?

    Vida nova para mim mesmo teve início nesse mês de agosto. Do casulo do home office para o palco do magistério. Direto , sem escalas e muito desejado.

    O silêncio perdeu seu espaço privilegiado em minha rotina. Antes, era soberano, só cedia seu lugar sagrado para as eventuais intervenções de minhas filhas. Agora precisa se contentar com as horas que sobra, como as horas mortas de Garcia Marques.

    Ruim? Nem tanto. A tudo, ou quase, se acostuma. Em lugar do silêncio, meus ouvidos agora captam novas vozes, todas antes desconhecidas para mim e muito, mas muito mais jovens do que eu. É a vida.

    No palco do magistério não atuam mímicos. Gestos sem palavras nada significam. É preciso representar por inteiro, corpo e voz conectados para o desempenho cênico perfeito.

    É necessário criar uma imagem que atraia a atenção, modulando-a a cada apresentação, sem superar o seu discurso. Porque o roteiro do espetáculo muda e com ele a expectativa da audiência. Levo, dou, troco, misturo, gero. Malabarista sem rede de proteção ou cordas de segurança, voando no espaço aos olhos do público. Me reconhecerei após experiência tão intensa? Provavelmente, sim. Não sou mutante de hoje. Ninguém é.

    Durante a encenação, as palavras ganharão mais força à medida que escorrerem da língua formando ideias, propondo desafios, inserindo dúvidas, desatando nós, sugerindo caminhos. Porque não há quarta parede, ator e público se mesclam, trocando de papéis momentaneamente à conveniência do espetáculo.

    Ao final, as cortinas se fecharão e todos irão embora.

    Mas muito longe de continuarem sendo os mesmos. Serão todos outros. Seremos todos outros. Seres metamorfoseados, refletindo o embate entre as opiniões e argumentos proferidos ao longo do espetáculo.

    Híbridos, por fim. A cada subida ao palco, a cada cerrar de cortinas.

    Subo híbrido, desço híbrido. Por isso vivo.

  • Nossa nave

    Há pouco mais de quarenta anos, a sonda Voyager 1, já distante mais de 6 bilhões de quilômetros de casa, recebeu uma ordem inusitada: virar-se e, com sua câmera já cansada, fotografar o ponto de onde viera. Carl Sagan chamou a imagem de “Pálido Ponto Azul”.

    Nessa fotografia, a Terra ocupa menos de um pixel. É um grão de poeira suspenso num raio de luz solar. Dalí Nenhum mapa, nenhuma fronteira, nenhum presidente, nenhuma guerra, nenhum amor ou despedida é visível. Apenas um pontinho azul-pálido flutuando na imensa escuridão.

    Os astrônomos nos ensinaram que, se colocássemos todas as estrelas conhecidas numa única imagem, elas ainda seriam menos numerosas que os grãos de areia de todas as praias da Terra. E, no entanto, entre essas estrelas, o silêncio é ensurdecedor. Enviamos sinais de rádio há mais de um século, e o cosmo nos responde com o mais absoluto silêncio. Somos, ao que tudo indica, uma anomalia no universo, um breve lampejo de consciência num universo que prefere o vazio e a indiferença.

    Na recente expedição da espaço nave ArtemisII, a astronauta Christina Koch, retorna do passeio noturno e deixa uma mensagem humanista inesperada:

    — Nosso planeta azul, esse bote salva vidas, se perde no universo escuro. E nós, somos a tripulação que pode mantê-lo navegando, e deveríamos nos concentrar na mesma missão. Nos ajudar sobre o mesmo propósito, nos sacrificar por isso, e cuidar dessa nave. Vivemos concentrados no pequeno universo de nosso espelho, engajados com nossas coisas presentes no micro universo, particular, da existência de um grupo pequeno que nos cerca.

    A solidão da Terra não é trágica. É, paradoxalmente, o que nos torna preciosos. Somos a única festa no quarteirão, e ninguém mais foi convidado. Cada nascer do sol, cada xícara de café compartilhada, cada abraço de despedida, cada risada que escapa antes que a gente possa conter, tudo isso acontece nesse frágil grão azul que flutua no nada. Você, neste exato momento, é o universo tentando entender a si mesmo. É um pedaço de matéria estelar que aprendeu a sentir frio, a amar, a ter saudade. É o único lugar no cosmo conhecido onde perguntas como “o que estou fazendo aqui?” fazem algum sentido. Carl Sagan disse naquele mesmo texto, que o Pálido Ponto Azul é “nosso lar, nossa nave mãe, tudo o que já conhecemos em termos de amor, sofrimento e guerras”. E completou: “não há nenhuma outra espécie em nenhum outro lugar que possa nos salvar, apenas nós mesmos”. Na próxima vez que estiver preso num congestionamento, ou preocupado com o boleto que vence amanhã, irritado com a política, frustrado por não ter recebido aquele like, pense melhor antes de explodir em raiva. “A estrada é sua, e somente sua. Outros podem andar ao seu lado, mas ninguém pode andar com você”. (Cora Coralina).

  • Bubbaloo tutti-frutti

    Reunião de pais e mestres.

    — Mãe, o Anderson é um bom menino, educado, gentil, quietinho, não dá trabalho. No entanto, precisa prestar mais atenção nas aulas. Tem horas que ele parece viver no mundo da lua.

    A mãe olha o boletim, que segue com notas regulares, sem nenhum vermelho. Mais tarde em casa, ela parabeniza seu filho por ter recebido elogios da professora, e por não ter ficado abaixo da média. Perfeito, não iria perder o videogame aos finais de semana.

    — Mas, filho, a professora disse que dá pra melhorar as notas se você prestar mais atenção nas aulas. Que tem horas que parece que você vive no mundo da lua.

    A mãe disse que, se ele não melhorasse as notas, iria proibir o videogame. Ela ouviu outro dia que esse aparelho anda tirando a atenção da garotada. “Um mal do século”, disse a vizinha. “Isso vicia”, disseram os tios do garoto à mãe dele. Era o assunto da semana. Anderson ficou puto da vida com esse negócio. Nunca gostou de estudar, tampouco ficar sem videogame.

    Era mais um dia de aula e faltavam poucas semanas para uma nova reunião. Anderson sentava na quarta fileira, à esquerda da parede. Números difusos se espalhavam pela lousa, a voz da professora ecoava ao fundo junto com as hélices dos ventiladores. Seus olhos de azeitona, longe, brilhavam com o reflexo do centro de uma luz lunar. Era Raquel na primeira carteira. Enquanto, naquele momento, os sábados e domingos se projetavam para um destino amargo e relutante, ele tirava mais um chiclete de sua boca, colocando-o debaixo da carteira. Havia dezenas de aulas matadas por ali. De segunda a sexta, Raquel costumava ter um intenso e sutil sabor de Bubbaloo tutti-frutti, nas manhãs de lua nova, crescente, cheia e minguante.

  • A Nora, o cachorro da Nora, os namorados da Nora e o adestrador

    A Nora tinha um cachorro. A Nora também tinha um namorado. O cachorro não gostava do namorado da Nora. A Nora contratou um adestrador pra fazer o cachorro acostumar-se com o namorado. Já que ainda não existe adestrador de namorado.

    Pouco tempo depois, quando o cachorro já estava amiguinho do namorado, o namorado caiu fora.

    A Nora tinha dotes físicos e intelectuais exuberantes e logo trouxe outro namorado.

    Pro outro namorado também foi preciso o adestrador, pra estreitar laços de amizade dele, o namorado, com o cachorro que o estranhava.

    A nova paixão também não durou. Foi, como disse um dia o Geraldo Vandré, breve como a perdida flor. E ele, o namorado, se foi.

    Logo a Nora se deixou cair por outro, um carioca que morava na Rua Vasco da Gama, 507, no Brás, e que se disse louco por cachorros só pra seduzí-la.

    Mas como o cachorro não era louco por namorados da Nora, a história se repetiu. E toca o adestrador entrar em cena de novo e aproximar os dois.

    Só não foi o bastante, a aproximação, pra mantê-los, ela e o namorado, aproximados por muito tempo. O caso foi breve também, dessa vez breve como banho num dia frio de 7 graus.

    Assim se sucedeu 3, 4, 5, 6 vezes: entra namorado, cachorro estranha, entra adestrador, sela acordo de paz, sai namorado. 

    Maldito cachorro, malditos namorados.

    Belo dia, quando o último namorado vazou, a Nora teve um lampejo perfeito pra um final feliz.

    Em vez de procurar outro namorado, sabem o que ela fez? Deu jeito de namorar o adestrador.

  • Um aniversário diferentemente especial

    Algumas pessoas não costumam dar muita importância a datas comemorativas. Conheço pessoas que parecem fazer questão de esquecer até o dia de seu aniversário. Datas que marcam o dia de uma profissão, de um santo padroeiro, de um clube de futebol, de um município e de uma batalha vencida. São tantas as datas a serem lembradas, que se torna difícil até mesmo ao mais organizado dos mortais saber o que será comemorado nesta ou na próxima semana. Mas, para mim, existe uma grande exceção: o meu aniversário.

    O dia 12 de janeiro, desde que me conheço por gente, é uma data a ser comemorada por representar o início de tudo. Claro que antes de minha chegada a este mundo no distante ano de 1988, o planeta Terra já seguia os seus contínuos movimentos de rotação e de translação, as pessoas já tinham os seus problemas a serem resolvidos, outras datas eram comemoradas e muitos povos já haviam guerreado entre si. Mas, defendendo-me de possíveis acusações de demasiado egocentrismo, esclareço de antemão que esses e outros acontecimentos passaram a existir em minha consciência somente depois daquele dia 12 de janeiro. É apenas nesse sentido que costumo, com uma pitada de humorismo duvidoso adicionado a sobras de requentada presunção, proclamar o meu aniversário como a gênese de tudo.

    Foi com esse tipo de pensamento que aguardei, ansiosa e diligentemente, a chegada de mais um dos meus aniversários. Já que, por um capricho do destino, a data cairia numa segunda-feira, a festa teria de ser transferida para o sábado seguinte. Apesar da importância da efeméride, começar uma semana com os prazeres de uma pequena tertúlia demandaria um tempo que a maioria dos convidados não teria naquele dia. Obviamente, essa incompatibilidade entre os compromissos laborais e a grande data festiva não agradaria a nenhum ortodoxo seguidor de protocolos. Afinal, a exclusividade de um aniversário requer que a comemoração seja feita em sua data precisa. Algumas adaptações são, porém, necessárias e até as convenções mais tradicionais costumam ser quebradas com frequência. Para que todos nós pudéssemos encerrar os árduos trabalhos daquela semana, brindando mais um ano de minha não tão destacada existência, o rega-bofe ficou, então, para o primeiro sábado posterior. Mas aquele importante dia 12 não passaria, de forma alguma, despercebido. Como um filho que se sente ignorado por seu pai, aquele dia faria de tudo para chamar a minha atenção. Mesmo que da pior maneira possível, recorrendo a birras e a desobediências, a segunda-feira em questão seria, indelevelmente, registrada em minha memória. Logo às 5h, antes mesmo do sol começar a aquecer aquela manhã, fui despertado por uma vexatória queda de minha cama. Não estava em quarto desconhecido tampouco sobre uma cama nova. Entretanto, o improvável aconteceu! E, para que não pudesse ousar em dormir novamente, caí sobre o ventilador que havia deixado no chão. Se a noite já havia sido tremendamente abafada, o começo daquela manhã superou toda e qualquer expectativa tragicômica.

    Com o ventilador quebrado, o abafamento já me parabenizava pelo jubileu. Não adiantava insistir, pois o sono já estava perdido. Decidido a não esmorecer perante a primeira dificuldade de um dia especial, tratei de ir à loja de eletrodomésticos mais próxima para comprar um ventilador novo. Mais do que por gosto, um presente por necessidade! Mas quem disse que a compra seria fácil e rápida? Por algum motivo desconhecido, as maquininhas de cartão pareciam ter entrado em greve por tempo indeterminado. Após algumas tentativas frustradas e muitos olhares impacientes, precisei recorrer ao caixa eletrônico. Com o dinheiro em mãos, não poderia resolver a grande saga do ventilador sem o vexame de um escorregão na saída da loja.

    Resignado com as agruras de uma manhã singular, encaminhava-me de volta a minha casa, quando Tupã, a todo-poderosa entidade indígena, resolveu prestar as suas homenagens com os primeiros trovões daquele dia tão promissor. A pouca distância entre a loja e a minha casa não foi suficiente para evitar um reparador, mas pouco desejado banho de chuva. Se a resistência do chuveiro funcionou a contento, o mesmo não pode ser dito a respeito deste desajeitado cozinheiro que tentava fazer uma simples refeição para seu almoço. Um telefonema que se estendeu por alguns longos minutos, e a panela de arroz acusou meu esquecimento com aquele desagradável e inconfundível cheiro de queimado.

    A tarde não seria mais discreta, visto que a cadeira na qual me sentava não suportou meu sobrepeso. Apesar do sedentarismo e do gosto por comidas gordurosas, acreditava não estar sobrecarregando aquela velha companheira de trabalho. Mas nem sempre a verdade é sutil, e os sustos também nos servem para rever antigos estilos de vida. Enquanto ainda planejava a melhor forma de romper o ciclo nada virtuoso de guloseimas e bebidas açucaradas, a natureza parecia compadecer-se com minhas aflições, ao me presentear com uma bela noite estrelada. O destino, todavia, continuava impaciente e, como quem finaliza seu pobre e infeliz oponente no tatame, desferiu um inexplicável apagão elétrico por quase uma hora. Assim, a famigerada segunda-feira encerrava suas traquinadas com um belo e solitário jantar à luz de velas.

    Apesar de todos esses incidentes, os primeiros dias de cada ano continuam fazendo parte de uma espécie de contagem regressiva. Caindo da cama ou tropeçando na rua, queimando o almoço ou jantando às escuras, mal posso esperar por meu próximo aniversário. Que seja, no entanto, uma data marcada por circunstâncias menos desastrosas! Sem recusar os presentes que, porventura, queiram dar, um dia menos desafortunado é, pois, tudo o que posso desejar para uma data tão pessoalmente especial.

  • Mortos, vivos, morcegos e frutas | pausa (in)disponível

    Uma mesa impossível: um tampo que não é firme (minha cama); três cadeiras – eu, que me sento com as pernas esticadas e sobrepostas. Uma única taça de vidro (a que comprei no mercado, porque na minha casa de areia temporal em quase formato pirâmide não tinha nenhuma) com o vinho (o que dividi há duas semanas, hoje esvaziado com outros – é preciso beber do mesmo lugar, a cama).

    De maneira quase indecente, Hilda Hilst e Victor Heringer se juntam a mim nesse ménage a trois de escritores, dois mortos. Um ménage literário com os vermes, os últimos íntimos de suas carnes: memento mori. Bebemos da mesma taça; espero em vão roubar seus segredos – eles, um pouco do meu sangue latente, latindo.

    Desejo de um maracujá azedo. As papilas da minha boca incendeiam-me os circuitos internos com água e um cheiro que vem, não sei bem de onde. Um sibilo ressoa acima de tantas cabeças errantes em frente à calçada escura, sem poste de luz; mendigos na encolha do recuo da arquitetura, motoboys a postos. Tudo, em sua pequinês, grande o suficiente para tornar a cena estranha e noturna. Sem querer, o morcego pausa meu caminhar, já há três meses no automático.

    “Pausa indisponível”.

    Hilda, com um vestido ficcional, segura a minha taça como se dela fosse íntima, conhecendo-a inteira. Victor, em uma camisa de linho desalinhada, olhos verdes que guardo em minhas próprias retinas, olha como quem já viu demais das entranhas e das superfícies do (meu) mundo; toma a taça. Passa a língua sobre os lábios, sem levar o vidro a eles, e fala o que não sai da sua boca, mas da minha atrevida invencionice noturna:

    — O que você quer roubar dos segredos que levamos, hein, mocinha?

    — Propriamente os inteiros que se encerraram em vocês — respondo. Ele me entrega a taça; a borda fria, suas mãos vaporosas, quase estilhaços, não fosse eu me ancorar à realidade no último segundo. O peso da hipótese não cabe mais em perguntas.

    — E o que nos propõe, em troca? — Hilda toma-me a taça e quase a esvazia de um gole imenso.

    — Minha centelha — e não sei se o que soa é o sorvo do vinho, um arroto interno em forma de desespero ou simplesmente o silêncio que me cutuca o pensamento.

    — A centelha é quase nada — Hilst ecoa um riso que pode ser mar ou a ponta de uma faca.

    — Não queremos a centelha; queremos o incêndio que ainda não aconteceu.

    Os dois tomam a taça das minhas mãos. Por um instante que parece durar mais do que toda a minha vida, sinto os lábios dos dois se encontrarem no mesmo vidro que o meu. Bebem do meu tempo, do que ainda não escrevi, do que não vivi direito. A luz sobre a cama pisca; num reflexo, ambos se foram. Deixam, para além da superfície brilhante, um gole seco de palavras, como o vinho que ali figurava minutos antes.

    Ainda não nasceram.

    A cama já tem menos colchão vazio do que nunca; penso em mandar uma SMS para Lewis, só porque ele está deliciosamente disponível no cômodo ao lado. Deixemos o Diabo no outro quarto.

    Lá me vem o Prime Vídeo com uma dessas, passadas 22h de uma noite que exauriu o dia — ou foi o dia que, estendido, invadira a noite anterior? Sabe Sísifo, empurrando a pedra? Sou eu com as noites, dias adentro.

    Assisti a “The Drama”, uma tragédia sinistra que, não sei bem o porquê — ou sei —, sentou-se ao lado do último livro que li, “A menina que não sabia ler”. O que pode caber dentro de uma pergunta despretensiosa – ou nem tão assim – sobre o que você já fez de pior na vida? E o que acontece quando alguém que nos ama sabe o que foi isso?

    Charlie enlouqueceu. Theo morreu, de susto, medo e asma.

    O morcego, ao passar, me fez perceber as duas pistas que cruzo diariamente.

    São apenas e as mesmas duas. Para vir de casa para o trabalho é rápido: minha face desarma os portões e me lança ao passeio público. Olho para a esquerda; logo em seguida, é possível atravessar.

    A segunda pista, contígua — seria parte da primeira não fosse um salpicado de grama esturricada pelo sol da zona Norte —, é mais complexa. Os carros vêm da direita, em alto fluxo. Demanda tempo.

    A grama chinfrim é minha pausa cotidiana, e, mesmo assim, toda a travessia me demanda menos de cinco minutos.

    Aí, leio Hilst:

    Um parágrafo rotineiro desses colóquios de dois que são um pelas convenções, pela intimidade e pelo tédio ordinário da vida. Não sei por que caminhos da minha mente-floresta-tropical ele me leva a redigir estas linhas:

    “É lindo completar com vida uma outra vida. Isso é a beleza Cda gravidez; tudo síntese, tudo caos, paz, expectativas e não. Ausculto o coração incipiente.

    Nada.

    Em quantos dias se forma o coração? O que se forma primeiro, após a fecundação do óvulo? Por que a mulher se perde nesse molho feito a dois, de si?”

    Do aparelho televisivo de LED, fixo à parede em frente à cama, me dizem que o cérebro se forma somente após os 25 anos.

    Coração, então, quando é que se firma?

    Não quis pesquisar. Há certas coisas na vida que não demandam respostas; caem mais leves como a falta de letramento dos que apenas vivem.

    — Ignorar uma pergunta também é falta de respeito.

    — Aquiete a língua, morto. Termine o vinho.

    — Acabou.

    Cusparada póstuma.

    Levantaram a cabeça, tensionados. Silêncios de toda uma vida num hífen; cospem o vinho numa gargalhada. Filhos da mãe… — Será que a mancha no lençol de elástico é um desses resquícios?

    A oração não fecha. Algumas orações subordinam; outras, dirigimos aos mortos: mãos unidas, dedos para o céu.

    A palavra não ama. O amar talvez não caiba no sucinto grafo de concordâncias humanas para ninguém.

    Ao segurar as alças da minha mochila, que já se agarram aos meus ombros para o caminho de casa, a travessia entra no segundo tempo; os lados do campo se invertem. A direita agora é à esquerda e vice-versa?

    Parece que todo mundo quer ir, agora. Mas quase ninguém quer verdadeiramente voltar, ainda que a calçada do meu destino esteja repleta de mesas com quatro esperas de cadeira em cada.

    Tomei, no provador de uma loja de varejo concorrente, o café que fiz para a obra e esqueci de beber. Experimentava uma calça jeans com margaridas. Não a comprei. O aroma do café chegou às cabines limítrofes. Ri e bebi da ousadia.

    Mãe natureza, Hilda Hilst, Kristoffer Borgli, Victor Heringer, John Harding e Bia Mies resolveram comer pipoca enquanto as unhas pintadas do vermelho “padrãozinho para quem” secam na liberdade de extravasar as unhas para as cutículas, sem limpeza.

    Vida longa às crônicas crônicas, que não têm remédio além da melancólica e estonteante poesia!

    Abro a porta da geladeira e lá está, a saliva na ponta da língua, o lustroso da forma amarelamente arredondada a se oferecer para mim, assim, sem pudor algum. E, ao invés de querê-lo mais, percebo a ruguinha escondida na curva que dá para as suas costas.

    — Será que o maracujá todo murcho se acha desajeitado? Avulso? Fora da fruteira? Old school & fashioned , propriamente falando? E será que o liso, no refletir da energia interna, percebe que não dá um bom suco, ainda?

    Eu, que não quero pensar no avançar do tempo, dei com ele, há parcos dias, nos primeiros três cabelos brancos que apareceram assim, unidos | um corte à navalha na realidade. Sinais dos trigêmeos à vista que tanto desejo? | Acabo por me encarar no espelho e repetir aquilo com que toda a minha geração de millennials se ilude:

    — Eu só tenho 27, todo mundo concorda.

    Desafio as madeixas, que resolveram brincar de esconde-esconde na nem tão mais vasta cabeleira de outrora. Outrora, nada. E quem nada é a mobelha negra num mar hilstiano. Recolho os remos.

    O morcego ronda as minhas janelas. O sibilo ressoa novamente. A ave preta e fashion, em algum canto, solta sua risada demoníaca. Thoreau entenderia – espero.

    Theo, Florence e Giles estarão seguros, brincando de pique-esconde e beijo roubado entre as páginas, antes que o próximo leitor chegue ao seu fim. O final do drama é a outra face da máscara.

    Tudo vai bem.

    O coração, (s)em idade; cérebro, louco aos 22. Numerologia lunática. Meus três fios prateados são um charme que ainda espero rever no espelho. Mesmo que tudo isso aqui não passe de um sonho interrompido. “Pausa indisponível”.

    — Encapsulei a vida?

    A taça está rasa das palavras, que se foram todas neste correr da tela; só me resta a Fanta preta, comprada nas Lojas Americanas. Pura curiosidade mórbida; blasfêmia a todos os santos.

    Estalo o lacre. Preencho a taça.

    (derrubo um pouco na varanda para algum com sede).

    Mais um líquido vermelho-sangue-escuro, agora borbulhante. Carmesim.

    Gosto de batom. As borbulhas ressoam entre os dentes, bocca chiusa. O sabor encontra o sólido da boca e marca o carmim na taça. Pela primeira vez, por fim, alguma evidência da noite.

  • As tentativas de WALDINEIDE

    A primeira vez que tentou se matar, tinha dezoito anos. Entrou no mar de São Conrado e nadou até cansar e perder as forças. Foi resgatada pelo helicóptero dos bombeiros. Aos salva-vidas, envergonhada, não revelou a tentativa malfadada de suicídio. Ironicamente, ainda agradeceu por ter sido salva.

    Waldineide amaldiçoava o pai pelo nome recebido. Seu Waldir era porteiro de um prédio na Barra da Tijuca. Ele, a mulher, Neide, e a filha moravam num barraco na Rocinha. Waldineide preferia chamar de comunidade.

    Talvez nem quisesse de fato morrer, apenas momentaneamente aplacar sua dor. Sentia a pior das dores, as desconhecidas, as que vinham da alma. Nada valia a pena nesta vida. Para seu Waldir, a filha era só meio maluca.

    Na segunda tentativa, ela subiu no parapeito do terraço de um edifício. O vento frio batendo em seu rosto pareceu querer empurrá-la para trás. Olhou para baixo, medindo a altura da queda. Nesse momento, descobriu que tinha vertigem de altura. Desistiu.

    A frustração foi enorme e ela começou a se achar incapaz até para se matar. Sentia-se ridícula. Não merecia permanecer viva.

    Seguiu tentando.

    Planejou enfiar sua cabeça no fogão e se envenenar com o gás. O cheiro forte, no entanto, alertou sua mãe que a retirou à força. Seu Waldir, quando soube, disse que a filha estava precisando de uma boa surra. Dona Neide impediu, a menina era sensível e devia estar passando por algum problema sério. Na verdade, eram incontáveis problemas. O atual era não conseguir se matar com competência.

    Uma amiga que soube das tentativas dela, falou sobre a existência de um serviço pela Internet de valorização da vida, que oferecia apoio emocional a quem tentava o suicídio. Waldineide desconfiava desse tipo de ajuda virtual e não se interessou. Além do que, estava decidida. Na próxima vez não iria falhar.

    No seu íntimo, temia por novo fracasso. Foi quando optou por matar-se com roleta russa. Havia algo lúdico que a atraía: o acaso definiria o seu futuro. Pegou o revólver do pai na gaveta, retirou as balas, deixando apenas uma na agulha e rolou o tambor.

    Colocou a arma no canto da testa e apertou o gatilho. Para sua sorte, ou azar, nada. Waldineide tentou mais uma vez. Como não tivesse morrido, suspeitou que não era para ela morrer com um tiro na cabeça. O destino decidira.

    Tinha gente que morria engasgada com azeitona, gente que morria de susto, de bala perdida ou atropelada por bicicleta, por que ela não conseguia? Sentia-se um ser mais risível do que já era.

    Não tomaria veneno para ratos, queria morrer com mínima dignidade, não como uma roedora de esgoto. Ainda havia a possibilidade do tradicional expediente de cortar os pulsos, mas ela não podia ver sangue, que desmaiava.

    Waldineide começou a se desesperar. Escolheu uma forma mais randômica: andaria, de madrugada, por lugares ermos e sinistros. Algum bendito marginal da favela completaria o trabalho. Depois de alguns dias perambulando por vielas e becos, finalmente, um assaltante a abordou. Ela ansiava pelo corriqueiro “a bolsa ou a vida” para, de forma categórica, devolver: “a bolsa, idiota. Atira logo”. Entretanto, escutou o habitual “perdeu”. Segurou com as duas mãos a bolsa e encarou-o: “pode me matar!”. O meliante, pego de surpresa, olhou-a de cima a baixo. Ela concluiu que, enfim, sua hora havia chegado e aguardou, de olhos fechados, o desfecho. O assaltante puxou-a pelo braço, levou-a para trás de um tapume e começou a rasgar suas roupas. Waldineide pretendia morrer, não ser estuprada. Enfrentou-o como pôde. Depois de muita luta, já exausta, com o maldito sobre seu corpo, conseguiu pegar no chão sua bolsa com o revólver da roleta russa. Tinha só uma bala. Apertou o gatilho no pescoço do bandido e ouviu o estampido. Em choque, desvencilhou-se do corpo ensanguentado dele, arrumou-se com o que havia restado de roupa e saiu correndo em disparada. Só queria fugir dali. Desaparecer, sumir do mundo.

    Soube depois pelos jornais que o tal rapaz fora encontrado vivo. Era tudo que ela queria, que ele sobrevivesse. A morte era dela, ele não tinha nada a ver com isso.

    Waldineide havia tomado uma decisão. A melhor maneira de realmente se conhecer era fazer o contrário. Numa manhã como outra qualquer, levantou da cama, escovou os dentes e foi até a cozinha. Pegou uma faca e a afiou, pacientemente. Dessa vez não ia vacilar. Enquanto cortava em fatias o filé de frango para o almoço, pensava na vida que teria pela frente.

  • A Vida em Bullet Points

    Dizem que “a fila anda”. Talvez ande nos relacionamentos. Já na minha lista de tarefas, ela parece ter criado raízes.

    Ela nos persegue pelo celular, mandando alertas sonoros de tudo o que ainda não foi completado. Para quem prefere o caderninho, nem isso resolve: as tarefas não riscadas ficam ali, silenciosas, aguardando o momento de despertar a culpa.

    Tenho a impressão de que as listas de tarefas se reproduzem durante a madrugada. Vou dormir com oito itens e acordo com quinze.

    Cumprir uma To Do List é como correr na esteira vendo uma paisagem virtual: a trilha avança, mas quem continua parado somos nós.

    Outro dia risquei “trocar a lâmpada da cozinha” e, quando voltei à lista, ela já tinha gerado “limpar o lustre”, “organizar a área de serviço” e “pesquisar iluminação para ambientes pequenos”.

    Às vezes tento me lembrar quem colocou tudo aquilo na lista. Não encontro outra explicação senão a de que as listas ganharam vida própria e passaram a escrever novos itens quando ninguém está olhando.

    Suspeito que exista um aplicativo clandestino frequentado exclusivamente por tarefas. Lá, num ambiente chamado Todobook, elas trocam informações e combinam estratégias para nunca desaparecer completamente. Até flagrei uma luz acesa suspeita uma noite dessas no meu celular.

    Talvez eu devesse anotar “não fazer nada” no topo da lista. O problema é que, conhecendo seu gosto pela provocação, ela logo acrescentaria três subtarefas, dois lembretes e um prazo final.

    E ainda me enviaria uma notificação perguntando por que a tarefa está atrasada.

  • Mitos

    O mito é uma criação fantasiosa que procura explicar aspectos da natureza ou da condição humana. Nossos antepassados os cultivavam para dar sentido ao mundo. Esse reinado da imaginação durou séculos, até ser destronado primeiro pela filosofia, depois pela ciência.

    Isso não significa que nos livramos dos mitos. Com outras roupagens, eles continuam orientando nossas crenças. Cultivamo-los como um vício da imaginação, ou melhor, como um suporte a nossas precárias certezas racionais.

    Há vários tipos de mitos: políticos econômicos, sociais. Há também os pessoais, domésticos, que engendramos visando à saúde ou à boa convivência.   

    O cultivo de um deles me fez sofrer cerca de quinze anos com uma dor de cabeça quase diária. Eu não podia ler de manhã, que começava o latejamento na têmpora direita. Com ele vinham náuseas e, por vezes, vômito. A exemplo de João Cabral, transformei-me num cativo da aspirina – o “sol branco” que lhe apaziguava a dolorosa contorção dos vasos sanguíneos.  

    Procurei um médico, que me sugeriu tirar o leite e derivados. 

    Aí começou o drama, pois se revelou a força do mito. Como viver sem leite? Tentei, mas sem ele me sentia desnutrido. Mais do que isso: desamparado. Nenhum alimento tem tanto valor simbólico. Ao leite associa-se o seio materno, o crescimento, a solidificação do corpo e da mente.

    O jeito era mentir para Dra. Moyra, que não conseguia entender a persistência da dor de cabeça:

    – Tirei tudo, doutora. Leite, queijo, chocolate – dizia eu, constrangido. No fundo, não acreditava que eram esses alimentos os responsáveis pelo problema. 

    Até que um dia comi um “chocolate ao leite” gorduroso. Na manhã seguinte, tive uma dessas enxaquecas que os acadêmicos de Medicina chamam “de livro”. Com direito a cefaleia, vômito e coriscos espoucando nos olhos.

    Comecei, então, a ligar uma coisa à outra. Pouco a pouco a luz da razão foi expulsando as trevas do mito. O vilão era mesmo o leite. Ou melhor, a lactose. À medida que me convencia disso, foi ficando fácil trocá-lo pela soja.

    Ainda hoje, lamento não ter dito a verdade a Dra. Moyra. Ela desde o início estava certa. Consola-me, no entanto, ver que meu pecado foi pequeno – uma simples e piedosa mentira. Quantas pessoas, por apego aos mitos, não perseguem, torturam e matam o ser humano?

  • Rebuliço no Cãodomínio

    Lugar de peripécias acaloradas é condomínio. Histórias inimagináveis. Não importa o número de apartamentos. Condomínio surpreende até aos Anjos da Guarda preparados para os fortuitos. Edifício de 11 apartamentos. Alguns adultos, muitos idosos, cinco jovens, um bebê e nove cães. Mesmo comedido, valem contos prazerosos.

    Convivência pacífica, polida e amigável entre alguns condôminos. O rol está sempre bem decorado pela moradora-design. A síndica é pulso firme e às vezes vira ursa na resolução de conflitos, defendendo o prédio com zelo e meticulosidade. O zelador parece um polvo-faz-tudo. Sabe tudo, vê tudo, ouve tudo. Tem a senhorinha educadíssima, o homem quase não visto, os casais de jovens adultos bonitos, as jovens que sempre passeiam com os cães, a neném recém-nascida que é uma fofura, o casal intelectual e nós.

    Aqui estamos há mais de uma década e o edifício nunca foi abundante em crianças. Talvez seja reflexo dos novos tempos ou por não termos área de lazer ou os dois. Não sei. A verdade é que não há crianças pelos corredores.

    Morar aqui é silencioso, fresquinho e ensolarado. Corredores cheirosos e portas branquinhas com maçanetas variadas, das que fazem reconhecimento facial às antigas, que engolem as chaves, emperram e não querem devolvê-las.

    Mas a pouco tempo tivemos uma moradora subversiva expulsa do apartamento. Um Oficial de Justiça apreendeu o carro alugado que ela também não pagava. Aliás, acho que esse apartamento precisa de exorcismo. Até hoje, nele só vieram morar transgressores, desobedientes, esquisitos, baderneiros. Uma moradora logo que chegou, montou um brechó na recepção. Foi um auê…

    Por isso, sempre que alguém se muda, proclamo o ditado japonês: Boa sorte e tenha bons vizinhos. Afinal, vizinho está do seu ladinho.

    Mas, dia desse, já noite, ouvimos latidos, gritos. Mafalda e o Capitão começaram a rosnar na fresta, embaixo da porta. Deitada, iniciando a leitura do ritual do sono, meu telefone toca, a síndica: Vocês estão com outro cachorro, um preto? Respondi negativamente. Tem um cachorro preto solto nos corredores. Minha filha não consegue sair com nossos cães para passear. Percebi temor na voz. Acordei meu marido que foi ver o furdunço no prédio. Caos generalizado em plena quarta-feira.

    Ele saiu com uma vassoura e enorme bacia de plástico, daquelas que se põe roupas brancas de molho no bicarbonato. Portas entreabertas com olhinhos nas frestas espiando o fuzuê. Espada-vassoura e escudo-bacia em punho lá foi ele. Eram três cães pelos corredores. O Guerreiro e os três dragões. Pessoas gritavam nos apartamentos: Chame os bombeiros. Liguem para polícia. São brabos! Cuidado! Joga spray de pimenta!

    Os três cachorros corriam, subiam, e desciam as escadas do prédio assustados, eufóricos, desnorteados. Pelo olho-mágico, os vi saracoteando e pareciam adorar a liberdade. Sabíamos que só um vizinho tinha três cães. Os pais da bebê. Munido da armadura improvisada, o Cavaleiro foi até o apartamento do casal. Porta escancarada. A chave permanecia na fechadura por dentro. Um dos cães entrou no elevador, subiu, ganiu, desceu enlouquecido.

    O Destemido usou a espada-vassoura e enxotou o maior para dentro do apartamento. Fechou a porta. Os outros dois, mais serelepes, subiam e desciam as escadas felizes, latindo em brincadeira. Encurralou o menorzinho entre a parede e o escudo-bacia e o arrastou, preso, até a porta e adentrou-o.

    O terceiro, mais levado, o driblava. O Valente Guerreiro levou uma canseira. Esbaforido, subia e descia as escadas atrás do fujão. Os joelhos reclamaram. Parou. Sentou no degrau. O cão o olhou ressabiado. Distante, aguardava seu perseguidor retomar a empreitada. Mal sabia o foragido que o Guerreiro sessentão estava exausto. Rendido, largou a espada-vassoura, o escudo-bacia e argumentou: Você venceu. Desisto. Não dá para mim. O cão virou a cabeça de lado e percebeu o cansaço do homem à sua frente. Pode ficar zanzando pelo prédio. Não vou te pegar. E foi acalmando a respiração. Ciente da desistência e de ter sido proclamado vencedor, o fugitivo, calmamente se aproximou e roçou o focinho na mão do perseguidor. Meu marido acarinhou a cabeça do cachorro e mansamente pegou a coleira e o levou até o apartamento. O fujão entrou sem retrucar.

    Horas depois, o morador do apartamento chegou. Atualizado dos fatos e tendo a chave pelo lado de fora da porta, trancada, veio agradecer e pediu inúmeras desculpas.

    Tenho certeza que os cães foram dormir extasiados de felicidade na brincadeira da liberdade.

  • Coisas duráveis

    Há uma pergunta que atravessa os séculos sem nunca envelhecer: se tudo passa, o que nos resta pensar, e porque valorizar o que temos e vivemos hoje? Os gregos chamavam esse fluxo ininterrupto de panta rhei (tudo flui) e Heráclito o personificou no rio onde jamais nos banhamos duas vezes na mesma água. A efemeridade não é apenas uma característica acidental da existência, ela é a própria textura. Talvez o primeiro espanto filosófico diante da brevidade das coisas venha da comparação entre a solidez aparente do mundo e a fragilidade real de tudo o que nele habita. As montanhas parecem eternas, mas a geologia nos ensina que elas também se erguem e se desgastam, como ondas petrificadas. As estrelas, que os antigos supunham fixas na abóbada celeste, nascem, brilham e morrem em explosões tão vastas quanto silenciosas. Se até o cosmos tem seu prazo de validade, o que dizer de nós, criaturas de passagem?

    Há uma dimensão trágica nessa constatação, mas também uma beleza sutil. Os estoicos compreenderam que a consciência da finitude não deveria nos lançar no desespero, mas sim na valorização radical do presente. Marco Aurélio escrevia para si mesmo: “Você poderia viver agora a vida que pensa que viverá quando se aposentar”. A efemeridade, vista com olhos lúcidos, é um convite à presença. Se o instante é tudo o que temos, que seja então plenamente vivido. Os existencialistas do século XX radicalizaram essa percepção. Para Heidegger, o ser para a morte não é uma patologia, mas a condição que nos torna autênticos. É a consciência de que nossa existência é limitada que nos permite escolher, nos comprometer, dar direção à vida. Sem o horizonte do fim, tudo seria indiferente, poderíamos adiar eternamente as decisões, como personagens de um teatro sem cortinas.

    No Oriente, o pensamento budista oferece outra chave, a impermanência (anicca), é uma das três marcas da existência, ao lado do sofrimento e da ausência de um eu permanente. Mas longe de ser uma maldição, ela é precisamente o que torna possível a transformação. Se tudo fosse permanente, estaríamos condenados à repetição do mesmo. Devido a mudança continua temos a oportunidade de florescer, aprender, nos libertar.

    A contemporaneidade, no entanto, vive uma relação esquizofrênica com a efemeridade. Por um lado, aceleramos o fluxo, por outro, tentamos desesperadamente congelar a vida em imagens, memórias digitais, registros que prometem imortalidade num disco rígido qualquer. Fotografamos a flor para que ela não murche, sem perceber que a flor murchou enquanto a fotografávamos. A experiência do belo, do amor, da amizade, todas elas são intensas justamente porque são passageiras. Uma felicidade eterna deixaria de ser felicidade para se tornar uma tediosa repetição. O que dá sabor ao vinho é saber que a garrafa se esvazia, o que torna precioso o encontro é saber que ele termina, mesmo entendendo que, mais cedo ou mais tarde, uma mão distraída nos colherá, pois as coisas duráveis são feitas do tempo que passa.

  • A Vida Privada e o Transporte Público

    Há bastante tempo, penso em falar sobre um hábito que se tem mostrado cada vez mais comum entre nós, brasileiros. Minhas numerosas procrastinações e desistências ocorreram menos por causa da complexidade do costume do que pela virtual controvérsia que ele carrega em si. Haja vista o uso generalizado de tal prática, suponho que poderei ferir certos egos e criar algumas animosidades. Mas assumo que quem vive de dar pitacos pretensamente sociológicos deve encarar os riscos e as consequências de ter uma bocarra descomedida.

    Como eventual usuário do transporte público de nossa cidade, tenho notado em mim uma crescente curiosidade pela vida alheia. Não creio que isso seja efeito da velhice ou do ócio. Por razões pouco pertinentes a este desabafo, assumo que minha idade não seja tão avantajada e que minha rotina não seja tão monótona. Mas o certo é que esse interesse surge, repentina e incontrolavelmente, quando estou dentro de um ônibus urbano. Você já deve ter passado por alguma situação parecida, e, por isso, saberá do que estou falando. Os diálogos que os usuários do transporte coletivo estabelecem aos seus celulares parecem cada vez mais frequentes e instigantes. Na maioria das vezes, o que antigamente costumava ser dito em ligações telefônicas é retratado, hoje em dia, por meio do envio de sucessivos e frenéticos áudios. Minha experiência permite afirmar que, quanto mais cheio estiver o ônibus, mais altas e indiscretas soarão essas conversas!

    Carolina, não adianta insistir! Já saí do trabalho, e não tenho dinheiro!

    Confesso que tive vontade de perguntar o motivo do aborrecimento. Mas, aparentemente, minha cara de pau estava de recesso. O calor extenuante do começo de verão e a superlotação do ônibus impediram-me de satisfazer minha curiosidade. A bem da verdade, acho que a fadiga foi amiga do bom-senso. Geralmente, as pessoas não gostam de bisbilhoteiros. “A curiosidade matou o gato!”, diria meu finado avô. Mas o volume daquela conversa era bastante elevado para alguém preocupado com sua privacidade. Suponho eu que uma filha adolescente exigia daquela mulher que ela passasse no mercado para comprar alguma guloseima. O mercadinho ficava logo ali, entre o trabalho e o ponto de ônibus. Pobre mulher! Após um dia inteiro de trabalho, não via a hora de chegar a sua casa. Já estava no ônibus, ora! Por que não pediu antes?! E dizer que também já fomos adolescentes intransigentes…

    Estou sem internet há quase dois dias! E vocês continuam só enrolando!

    Convenhamos! Ninguém merece ficar sem internet por tanto tempo! Atualmente, tal infortúnio equivale a condenar o desaventurado sujeito a uma espécie de solitária, sem contato com o mundo exterior. O caso daquele rapaz parecia distante de uma resolução satisfatória. A julgar por sua indignação, nem mesmo um atendimento feito por uma pessoa de carne e osso seus protestos mereceram receber. A tranquilidade com que o atendente virtual fazia-lhe perguntas já respondidas em ligação precedente aumentava a sua impaciência e, por consequência, a irritação de meus ouvidos. Apesar de toda aquela ruidosa reclamação, consegui sustentar minha mais íntima solidariedade a ele. Torci por aquele infeliz, mas suspeito que minha honesta simpatia não foi suficiente para acabar com seu calvário.

    — Amiga! Eu tenho que te contar! A Mari terminou o namoro!

    Isso foi demais! Como se não bastassem uma mãe sendo importunada pela filha adolescente e um cidadão enclausurado digitalmente por seu provedor de internet, agora eu acompanhava o triste fim de um romance. Não pude evitar que lembranças tão longínquas e supostamente superadas voltassem à tona. Mas o que dizer à minha psicóloga?! Tive uma recaída por causa de uma conversa que escutei no ônibus. Enxerido! Cuide de sua vida! Mas a pobre menina está sofrendo! Isso não é de sua conta! Felizmente, a notícia completa foi guardada para um posterior encontro entre as duas amigas. Os áudios enviados foram apenas o famoso lide, aquela síntese feita para capturar a nossa atenção. Por pouco não cometi a indiscrição de perguntar como estava o antigo casal. Afinal, um término tão inesperado como esse é capaz de abalar ambas as partes. Minha sorte foi que a jornalista de plantão chegou ao seu destino antes de mim.

    Entre dívidas cobradas, fofocas contadas e términos relatados, noto que meus deslocamentos pela cidade tornaram-se, aparentemente, mais rápidos. O problema é que, como tenho prestado atenção a vidas alheias em demasia, sinto-me sobrecarregado com tantos assuntos curiosos e pertinentes. Obviamente, não seria de bom tom pedir a tanta gente que falasse mais baixo. Sem poder me retirar do agradável convívio social que somente um coletivo é capaz de proporcionar, restam-me desabafar com você e dar o troco na mesma moeda a tantos falantes anônimos. Aguarde, pois, minha próxima ligação!

  • A quem você deve seu mérito

    No Brasil, o discurso da meritocracia ainda encontra solo fértil. Acredita-se, com quase cega devoção, que o topo da montanha foi conquistado a passos individuais – fruto exclusivo do talento, da disciplina e das noites mal dormidas. O discurso é sedutor, embora ignore uma pergunta que possa soar incômoda: quando você chegou lá, quem segurava a escada?

    ​Por trás de cada trajetória de sucesso, há uma estrutura invisível operando nos bastidores. Independentemente dos marcadores sociais ou da classe econômica, ninguém avança em absoluto isolamento. Há sempre alguém abrindo espaço, viabilizando o tempo e absorvendo os impactos diários para que outro possa brilhar. E é justamente esse ecossistema de suporte que uma parcela significativa dos “vencedores” se recusa a reconhecer.

    ​Vamos olhar para as estruturas corporativas, a ascensão meteórica de um homem de negócios frequentemente repousa sobre a anulação do tempo de uma mulher. Enquanto ele acumula horas extras e networking, há quem garanta a roupa passada, a refeição pronta e a casa funcional. O topo da carreira é financiado pela renúncia alheia.

    ​O mesmo fenômeno se repete no universo feminino. Para que uma mulher não racializada, de classe média ou alta conquiste espaço no mercado corporativo ou na academia, provavelmente precisa de outra mulher – frequentemente negra, periférica ou da própria rede familiar, como mães e avós – precisa assumir a retaguarda do cuidado. A emancipação de uma costuma ser pavimentada pela sobrecarga de outra.

    ​Medir a vida do outro pela própria régua é um exercício de miopia social. Dizer “se eu consegui, qualquer um consegue” desconsidera que nem todos navegam com os mesmos mapas ou sob as mesmas condições climáticas. Há quem enfrente a tempestade a bordo de um navio estruturado; outros estão sozinhos, em uma canoa rachada no meio do oceano, tentando tirar a água com as mãos antes que a estrutura afunde de vez.

    ​Pois deve ser fácil e delicioso bradar ao mundo que o sol nasce para todos quando o seu tempo, o seu estudo ou trabalho e a sua estabilidade foram construídos a partir do esforço e da exploração silenciosa de outros corpos – quase sempre, femininos. O mérito que ignora os bastidores não é conquista; é apenas privilégio desmemoriado.

  • Caixinha de música

    — O que você faz aí?

    — Não está vendo?

    — Estou, mas por que aí?

    — Você não sabe?

    — Não!

    — O meu criador disse: “Vá e enfeite o mundo!”

    — Então você é um enfeite.

    — Sim.

    — Pra quem?

    — Pra todo mundo.

    — Mas não os vejo.

    — Quem?

    — Todo mundo.

    — Porque você me trouxe pra cá.

    — Então agora você é meu enfeite?

    — Sim.

    — Desça daí.

    — Para quê?

    — Vou mostrá-la a todo mundo.

    — Não entendi. Você não me trouxe pra você?

    — Eu te trouxe para ser.

    — Ser o quê?

    — O que você quiser.

    — Sozinha?

    — Inteira.

    — E você?

    — Se você deixar, serei inteiramente seu.

    — Eu desço?

    — Eu posso subir.

    — …

    — Onde estivermos, seremos.

    — Movimento e dança.

    — Ritmo e poesia.

    — Vento e voo.

    — Sintonia e sinfonia.

    — Vamos?

    — Começou.

  • Em Bocas de MATILDE

    Quando pequena, Matilde surpreendia a todos com sua estranha mania de engolir objetos. Chupetas, partes de brinquedos de borracha, bicos de mamadeira. Na escola impressionava colegas, engolindo canetas e lapiseiras. Era um dom. Todos diziam que no futuro ela trabalharia no circo como engolidora de espadas.

    A mãe culpava o pai por ter levado a menina no circo. Agora, essa novidade, engolidora de espadas…

    Matilde não vinha de uma família circense e nunca teve transmissão de saber artístico. Engolia e pronto. Aos poucos foi aprendendo a dominar as ânsias de vômito e os engasgos. A arte de engolir exigia treinamento para controlar músculos e reflexos do corpo. Sem dúvida, uma prática arriscada, se não houvesse preparação adequada. Para piorar, era autodidata e destemida.

    Com a mania de Matilde vieram também as dores de garganta, as inflamações. Examinada, teve suspeita de ulceração no esôfago. Mas nada nem ninguém conseguia afastá-la da tentação de engolir objetos.

    Sua mãe trancou todas as gavetas da cozinha que continham facas e garfos, como se isso fosse intimidar a filha. O desafio de encontrar outros artefatos cortantes a estimulava ainda mais.

    Na verdade, Matilde não aspirava tornar-se uma engolidora de espadas num circo. Apenas uma forma de se exibir e chamar a atenção.

    Na adolescência, com os namorados, ganhou fama no sexo oral e despertou a inveja e os ciúmes das colegas.

    Coincidência ou não, acabou solteira. Nenhum namoro foi adiante, apesar da reputação favorável do seu fetiche.

    Com o tempo, Matilde conseguiu o domínio de engolir cada vez mais fundo as coisas, com a inserção progressiva de objetos lisos, tubos e bastões de metal, alongando a língua, relaxando a garganta e controlando a respiração. Nessa época, também retirou as amigdalas.

    Por mais bizarro que possa parecer, tinha dificuldade em tomar comprimidos. Preferia esmagá-los com uma colher. Outra excentricidade era o cacoete de produzir um ruído constante, emitindo sons guturais com a garganta.

    Hospitalizada repetidamente para tratamento de feridas na faringe e inchaços na língua, finalizou seus dias solitária num instituto psiquiátrico. Impressionava a todos sua curiosa habilidade em engolir sapos.

  • Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira?

    Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira? Há passos no eco, pisos empoeirados da semana passada, taciturnos. Há o Cachambi, que dorme, às três e dezessete da manhã, já dezoito. Há o streaming para quem, como eu, de tão cansada, não dorme. Há um filme pandêmico, dor humana, tristeza, perda do olfato. Num streaming — todo o meu amor aos streamings que nos fazem companhia junto a uma Hocus Pocus de 500ml, 8.5% de teor alcoólico, promoção no Carrefour. Há a camisa verde oliva com cheiro do improvável. Lençóis limpos, travesseiros e a camisa verde que não reflete a cor dos olhos, mas do destino. Nada além, a pele é o único resquício, entre tecidos, aromas e memória.

    — Toc-toc

    — Quem bate?

    — Sou eu

    — É Tarde, entra

  • Essa vai para a coleção

    Meu armário abriga uma coleção curiosa: caixas vazias, sacolas elegantes e potes de vidro sem função definida.

    Em comum, todos carregam a mesma etiqueta imaginária: “Pode ser útil um dia.”

    Tenho uma verdadeira compulsão por colecionar inutilidades que considero superimportante guardar.

    Vai que surge um presente de última hora.

    Vai que resolvo organizar a papelada.

    Vai que abro uma loja de embalagens recicladas.

    Vai que descubro um talento oculto para Personal Organizer e transformo meu armário num caso de sucesso.

    Tenho potes suficientes para iniciar uma pequena fábrica de conservas.

    O detalhe é que não faço conservas.

    Nem pretendo.

    Guardo porque vai que preciso.

    Mas, vejam bem – isso não quer dizer que sou aquele tipo de pessoa que não desapega.

    Sou perfeitamente capaz de descartar um tênis velho, uma roupa que não serve mais, um saco Zip-Loc usado uma única vez…

    Humm… ato falho.

    O Zip-Loc não.

    É só lavar e reutilizar.

    A verdade é que não guardamos caixas, potes ou sacolas.

    Guardamos futuros imaginários.

    Meu armário já não fecha direito, mas sigo firme.

    Afinal, quando chegar o grande dia em que eu precisar de uma caixa dourada, três potes decorados e seis sacolas de papel reforçado ao mesmo tempo, estarei pronta.

  • Dia dos Pais

    Um dia em que se homenageiam os meninos que se tornam homens e, um belo dia, se descobrem pais.

    Descobrem-se pais e não há nenhuma alteração fisiológica!

    Não sentem o seio intumescer segundos antes de o bebê chorar. Não têm um corpo que lhes avise, de maneira tão evidente, que chegou a hora de alimentar a cria. Não amamentam, não experimentam as mesmas transformações físicas da gestação e do nascimento.

    As mães contam com uma espécie de alarde da natureza.

    O corpo muda, os hormônios se alteram, o leite chega, o bebê chora e alguma coisa responde.

    E eles? Nove meses de espera sem que se altere em seu corpo nem um fio de cabelo?

    Os pais que lutem!

    Mas será mesmo?

    Pode ser que haja escondido em algum recanto da fisiologia masculina, um mecanismo que desperte o homem para a paternidade?

    Algo que desperte o instinto paterno?

    Ou pai é coisa que se aprende?

    Talvez alguns amanheçam pais.

    Outros entardeçam.

    Alguns, quem sabe, só escureçam pais.

    E há aqueles que vão se tornando pais devagarinho.

    No primeiro colo meio desajeitado. Na primeira fralda colocada ao contrário. Na madrugada em que caminham pela casa com um bebê que não para de chorar. Na febre que assusta. Na mão pequena que procura a sua para atravessar a rua.

    Ahhh… A natureza não lhes deu o leite, mas deu-lhes braços, inteligência, senso familiar, de proteção, de valor e de clã.

    E, depois, cabe a cada um decidir o que fará com tudo isso. Que pai será…

    Pode ser que a paternidade esteja justamente aí: menos no que desperta espontaneamente no corpo e mais no que um homem escolhe construir todos os dias.

    Sou afortunada.

    Tive um bom pai.

    O pai dos meus filhos foi um bom pai.

    Meus netos têm bons pais.

    Talvez por isso, depois de começar esta crônica desconfiando um pouco da natureza e bastante dos homens, eu chegue ao fim quase boazinha.

    Quase.

    Porque pai também não precisa de santificação. Precisa ser! 

    O olhar, a escuta, a atenção e a presença serão, com certeza, aquilo que seus filhos guardarão de você. E, um dia, talvez contem aos próprios filhos, que contarão aos seus…

    E, na beleza deste domingo de sol, 9 de agosto de 2026, quero, desejo e proclamo ao mundo:

    Feliz Dia dos Pais!

  • Um gato chamado Bartolomeu

    Não, eu não vou arrumar um gato. Nem em sonho. Mas uma das minhas filhas sim. Quer dizer, essa é a intenção dela.

    Essa semana ela me procurou com essa conversa. Veio com aquele papinho sinuoso, típico de adolescente que quer algo. Se seria possível, quando ela se tornasse mais responsável, ter um gato.

    Ela tem 14 anos e tem um quarto só dela onde deixa uma bagunça razoavelmente organizada. Com as coisas da escola é bem responsável, não deixa nenhuma tarefa por fazer e muito menos de estudar quando é necessário.

    Cuida do seu bilhete único, sabe onde está sua carteira de identificação nacional e é incapaz de voltar da escola tendo deixado algum rastro, como livro, caderno ou casaco.

    Enfim, para uma garota de 14 anos ela é até responsável. Não disse isso a ela, claro. Se admitir ela vai querer o gato ontem e não em três anos.

    Sim, o prazo que ela considera que estará mais responsável e capaz de ter um bicho só dela é aos 17 anos. Perguntei porque e ela me disse que já terá votado pela primeira vez e estará às portas da universidade.

    Ponderei que justamente por isso que deveria não pensar em ter o gato ainda. Ela me questionou: se posso votar para prefeito posso ter um gato. E eu repliquei que a questão não tem a ver eleição mas sim com a preparação dela para entrar na universidade. Aos 17 anos ela estará no terceiro ano do médio. Ou, como diziam os antigos, na marca do pênalti.

    Ai comecei aquela ladainha paterna. Que não vai ser uma época fácil, que vai precisar estar muito concentrada, que terá que estudar, que isso e que aquilo. Ela me escutou calada. Terminei e olhei para ela que me disse devagar: mas o Bartolomeu vai me fazer companhia.

    Suspirei e me calei pensativo. Daqui a três anos não vai ser fácil…

  • Traídos

    Chamava-se Marisa, era casada e não desgostava dessa condição. O que lhe era mais caro na vida, porém, era o seu sentimento de liberdade. Costumava comentar com Nébia, a amiga íntima: “Sempre fiz tudo, ou quase tudo, que quis”. A amiga contestava: “Tudo, não. Ninguém pode fazer tudo. E você é uma mulher casada”. Marisa reconhecia: “Claro, claro, sempre respeitei Eustáquio”. A outra: “E não está fazendo nenhum favor. Eustáquio é um homem corretíssimo. Além do mais, adora você”.

    De fato, o marido a amava e de uma maneira que se podia chamar servil. A rigor, endeusava-a, e tal idolatria chateava um pouco Marisa. Mas ela tinha a impressão de que, casada com qualquer outro, sentiria o mesmo rancor aborrecido que só tinha uma razão: o marido era o obstáculo ao que sempre lhe fora mais caro – a decantada liberdade. Então Marisa foi, aos poucos, alimentando a certeza de que não seria errado trair Eustáquio – pelo menos uma vez. Uma vezinha só, para provar a si mesma que podia, e depois voltava a ser-lhe fiel. Tinha a íntima convicção de que o marido, se por acaso viesse a saber, sofreria mas acabava perdoando-a. Não podia viver sem ela.

    Deu-se que um grupo de colegas de trabalho convidou Marisa para uma excursão. Iriam passar duas, três semanas na Europa. Entre eles estava Haroldo, que desde sempre lançara para Marisa uns olhos cobiçosos. A mulher sabia que ele a desejava, e fazia um jogo sutil de negaças; ria e logo ficava séria, para mais o confundir. Aproveitaria a viagem para em definitivo dar sinal verde a Haroldo. Nada mais poético, e nada mais prático, do que trair Eustáquio no Velho Mundo (decidiu que seria em Paris; a Cidade Luz sempre lhe parecera, nem sabia direito por quê, o ninho ideal para o adultério). Trairia em Paris, sim. O marido estaria longe de saber e a mulher deixaria o temor, talvez o remorso, do outro lado do Atlântico.

    Ocorreu a viagem e Marisa regressou um mês depois. Trouxe para Eustáquio um belíssimo cortador de grama (ele tinha obsessão pelo jardim de casa), comprado numa loja bem próxima do motel onde se encontrara, mais de uma vez, com Haroldo. Por sinal, depois da viagem Marisa não quis mais conversa com o colega. Insatisfeito e despeitado, Haroldo contou a aventura a um amigo, pedindo-lhe sigilo. O mesmo fez esse amigo com relação a outro – e assim, no final das contas, todos na repartição sabiam sigilosamente da aventura de Marisa.

    Foi quando um dos amigos do casal apiedou-se de Eustáquio e resolveu contar-lhe tudo. Numa noite redigiu a carta, em letra de forma, e enviou-a no dia seguinte.

    Na tarde desse dia, Marisa voltava satisfeita das compras. Vivia uma espécie de absoluto espiritual, pois tinha do casamento o conforto, o serviço, a companhia – mas não tinha o dever nem a prisão. Pouco depois, entrando em casa, viu Eustáquio sentado na mesa da sala, cabisbaixo e chorando. Ao lado, um papel de carta. Perguntou de que se tratava. “Leia”, disse o marido. Antes que ela terminasse a leitura, perguntou cheio de esperança: “É mentira, não é? Diga que é mentira”. Marisa respondeu com tranquila dureza: “Não. Foi verdade”.

    Eustáquio então pediu-lhe a carta, rasgou-a em vários pedaços. E de repente, como se acordasse de um pesadelo ruim, exclamou: “A grama! Esta semana ainda não aparei”. Foi à despensa e tirou o cortador importado. Pouco depois, com uma aplicação de funcionário, debruçava-se sobre o jardim.

    Marisa então percebeu que o que fizera fora inútil. Não rompera padrões, não desafiara ninguém – não havia, de fato, a quem desafiar. Olhou o marido operando o cortador e teve a impressão de era a sua liberdade que ali, a poucos metros, rastejava na grama. E sem mais orgulho ou maldade, antes com uma pena que se estendia a si mesma, deu-se conta de quanto os dois se mereciam.

  • Preservação da dignidade

    Em 20 de dezembro de 1943, o bombardeiro americano B-17 “Ye Olde Pub”, severamente danificado, pilotado por Charlie Brown, de apenas 21 anos, retornava de uma missão sobre a cidade de Bremen, na Alemanha. A aeronave tinha dois motores destruídos, sistemas avariados, vários tripulantes feridos e um artilheiro morto. Voando como um “straggler” (retardatário), isolado de sua formação, o bombardeiro era um alvo fácil. Em um determinado momento, o piloto alemão Franz Stigler, um veterano de 28 anos com 27 vitórias aéreas, decolou em seu Messerschmitt Bf 109 para o que seria mais um abate. Ao se aproximar do bombardeiro americano, Stigler viu através dos buracos na fuselagem, um tripulação ferida e indefesa, e ao invés de atirar, Stigler tomou uma decisão surpreendente. Ele emparelhou seu caça com o bombardeiro, gesticulou para que Brown pousasse e se rendesse e, diante da incompreensão dos americanos, assumiu um risco imenso: escoltou o inimigo para fora do território alemão, voando em formação cerrada para que a artilharia antiaérea não atacasse o B-17, confundindo como uma escolta alemã. Ao chegar ao mar do Norte, Stigler saudou Brown e retornou à base. Os dois pilotos só se reencontraram quase 50 anos depois, em 1990, quando Brown, após décadas de busca, publicou um anúncio em uma revista de aviadores. Tornaram-se grandes amigos e morreram com poucos meses de diferença, em 2008.

    Para Stiegler, a dignidade não é um dado, mas um processo de elevação através da sublimação das pulsões. Stigler não viu apenas um alvo, mas seres humanos feridos e agonizantes. Ele os equiparou a pilotos em paraquedas, indefesos, e merecedores de clemência sob o código de honra que escolheu seguir. Stiegler, ao invés de ser um mero instrumento da máquina de guerra nazista, afirmou sua autonomia ética. Transformou o encontro com o inimigo abatido em uma oportunidade para agir conforme seus próprios valores, mesmo correndo o risco de ser fuzilado por traição. O reencontro dos pilotos décadas depois e a amizade que formaram, simbolizam a recuperação da dignidade coletiva. A história de Stigler e Brown é a encarnação histórica do conflito entre a pulsão de rebaixamento e a capacidade de elevação do ser. É a prova de que, mesmo sob o jugo de uma máquina ideológica e militar, o ser humano pode resistir à racionalidade e preservar um núcleo de dignidade. Esse ato de misericórdia do piloto alemão, nos céus da Segunda Guerra Mundial, pode ser interpretado como uma manifestação prática da “elevação” ética humana. No próximo domingo, comemoramos a ressurreição de Cristo, após sua morte na cruz, simbolizando a vitória da vida sobre a morte. Nessa Páscoa, procure encontrar a quem voce possa salvar, como fez o sr Browm, mesmo que seja somente ouvir as lágrimas de sofrimento do outro.

    Feliz Páscoa

  • As meias rotas do Presidente

    Não raramente, atribuímos a personagens importantes da história oficial qualidades inigualáveis e sobre-humanas. Altas autoridades, políticos de grande projeção, empresários bem-sucedidos, artistas de renome, todos eles adquirem um status que os coloca vários degraus acima da grande massa dos mais vis mortais. A fama, a riqueza e/ou o poder de que desfrutam obrigam-nos a projetar em suas figuras as características necessárias para que a atração e o frenesi que costumam provocar sejam, devidamente, justificados e legitimados.

    Ainda no começo de minha carreira profissional quando já não estava mais tão deslumbrado com o jornalismo, mas também não me indispunha com facilidade para aventuras investigativas -, fui designado por minha chefa para cobrir a visita de nosso então Presidente da República a um país árabe. Quando fui comunicado de tal missão, devo admitir que um misto de receio com satisfação tomou conta de mim. Afinal, para alguém acostumado a trabalhar como setorista em Brasília, mais afeito a questões de política doméstica do que de política exterior, o desafio da empreitada não poderia passar despercebido. A viagem do Presidente poderia, todavia, significar meu primeiro passo numa tão sonhada carreira como correspondente internacional.

    Como nunca fui uma exceção às regras que melhor caracterizam nossa sociedade, em geral, e nossa psique, em particular, posso dizer que eu também sofria daquela idealização pueril e ingênua que nos acomete com certa frequência. Aquele personagem, em especial, por ocupar o mais alto cargo representativo de nossa República, não poderia incitar no ainda inexperiente profissional nada menos do que temor e deferência. O problema é que, enquanto o respeito abria portas, o receio criava uma barreira instransponível entre nós dois. Não ousava fazer a ele perguntas um pouco mais incômodas não por falta de oportunidade ou por parca relevância. Estou certo de que as questões que me vinham à mente eram pertinentes e condiziam com o que meu público buscava saber. O que me imobilizava, porém, era imaginar aquele ser humano sobre um pedestal supremo e inatingível.

    Aos trancos e barrancos, tentei lidar com essas limitações da melhor forma possível. No fundo, estava ciente de que as perspectivas de curto prazo não eram nada animadoras. Até que, durante nossa estadia no exterior, o Presidente foi convidado a visitar uma mesquita na capital daquele belíssimo país. A princípio, apenas mais um compromisso protocolar na atribulada agenda de um chefe de Estado. Apesar do laicismo do país visitado, tal gesto poderia, de alguma forma, consolidar a almejada aproximação dos nossos potenciais clientes árabes. No entanto, o detalhe que nosso governante desconhecia é que, ao entrar na mesquita, pediriam a ele que retirasse seus sapatos. Assim, o que seria um pormenor transformou-se, rapidamente, numa fonte de embaraço e de comicidade.

    Talvez por desmazelo, talvez por descuido… Não importa! As meias do Senhor Presidente da República estavam rasgadas! Não posso cometer a difamação de dizer que estavam sujas! Isso, não! Por uma questão de ética, não costumo aumentar o teor das fofocas. Digo, das notícias! A cena foi, levemente, constrangedora, mas não chegou a gerar um incidente diplomático. A verdade é que aquelas meias estavam muito esburacadas, especialmente a que tentava, em vão, cobrir o pé direito! E para deleite de todos os fotógrafos presentes, os dedos daqueles pés quase desnudos pareciam encolher-se de vergonha, como se aquela mínima contração pudesse mitigar o efeito visual da insólita cena.

    — Por que não me avisaram que eu teria de ficar descalço?! perguntou a seus assessores um furibundo e envergonhado, mas ainda educado, chefe de Estado.

    Após o primeiro impacto, o experiente e matreiro político teve a habilidade suficiente para fazer daquele imprevisto mais uma oportunidade de aproximação de seus interlocutores árabes. Como um verdadeiro sem-vergonha, quebrou o protocolo com risadas e piadas, dando àquela situação um elevado grau de informalidade e de descontração. Mas, para mim, aquele acidente de percurso do homem mais poderoso de nossa República foi um autêntico divisor de águas. Reveladoras da simplicidade mais humana e comezinha, aquelas meias rotas e escangalhadas esfacelaram o muro que se erguia entre mim e o Presidente. E se, em minha mente, aquele poderoso homem caía, fragorosamente, de sua base celestial, quem mais poderia incutir medo e timidez neste não mais jovem correspondente internacional?

    Hoje em dia, não sei se o agora ex-Presidente continua descuidado com suas meias. Mas o que ele me ensinou, ainda que involuntariamente, segue guardado como um antídoto contra esses medos que habitam em nosso inconsciente. Vez ou outra, devo lembrar essa peculiar história a fim de superar meus bloqueios internos. No fim das contas, somos todos feitos da mesma matéria! Mas, então, onde estaria nosso diferencial? Creio, pois, que ele deve estar apenas na espirituosidade com que revelamos nossa face mais humana diante de terceiros, sendo eles estranhos ou não.

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar