Crônicas

  • O sol nasceu

    Antigamente escrever bem era ser precioso, usar palavras pouco comuns, burilar a forma. Hoje o que se aprecia é o estilo sóbrio e descarnado, cujo modelo é Graciliano Ramos ou Dalton Trevisan.

    Aí pelo século XIX, não se dizia “O sol nasceu”. Uma frase como essa era um resumo que o autor rascunhava e escondia, com medo de que o acusassem de falta de imaginação ou indigência verbal. “O sol nasceu” – precisa dizer mais? Hoje os manuais dos cursos de Comunicação dizem que isso basta. Para eles, a boa frase é a que privilegia substantivo e verbo. Adjetivos e advérbios são excrescências que debilitam a expressão.

    Mas no século passado essa frase magra precisava engordar. Os elementos nutridores eram justamente o adjetivo e o advérbio. “O sol nasceu” – e daí? O sol nasce todo dia. Esse fato corriqueiro, dito assim de modo seco e banal, não comove ninguém. Não basta a simples enunciação dessa verdade imorredoura para despertar no leitor as ressonâncias visuais e afetivas do nascer do sol.

    Então o cronista vestia o fraque (se estivesse em casa, botava um pijama de seda cheirando a alecrim), introduzia o charuto na piteira, sorvia longamente a fumaça e começava: “O astro-rei…”. Por que chamar o sol de “sol”? “Astro-rei” era bem mais expressivo, tinha a magnificência da metáfora.

    “O astro-rei, brilhante e sanguíneo…” Ah, os adjetivos. Bastaram essas duas palavrinhas para injetar no sol força e brilho. É impossível agora não visualizá-lo em todo o esplendor do dilúculo (que, para quem não sabe, é o nome que se dá ao crepúsculo matutino).  

    Satisfeito, prosseguia nosso cronista: “O astro-rei, brilhante e sanguíneo, rompe despudoradamente a linha do horizonte…”.  Agora apareceu o advérbio de modo. Nada como ele para acrescentar ao verbo matizes sensoriais. A frase incha um pouco, é verdade, mas estávamos longe do rigor anorético com que hoje se vestem ideias e modelos.

    E vinha o desfecho, que devia ser marcante: “O astro-rei, brilhante e sanguíneo, rompe despudoradamente a linha do horizonte e lança revérberos dourados na natureza estremunhada”. O cronista sorria, saboreando a animização presente na imagem final. O que faz o sol a cada novo dia senão restaurar as forças de uma natureza desfalecida em sombras? Esplêndido!

    Depois de uma nova tragada, ele se dispunha a escrever a frase seguinte. Tinha paciência e sobretudo tempo para urdir aos poucos o texto. A nós, que vivemos o imediatismo de um mundo cibernético e globalizado, resta-nos dizer simplesmente: “O sol nasceu”. O que, para falar a verdade, hoje parece não interessar a ninguém.

  • O papagaio de Humboldt

    Em fevereiro de 1800, o barão Alexander von Humboldt inicia a exploração do rio Orinoco. Recolhe diversas espécies de plantas e animais desconhecidos, mede meticulosamente a temperatura do rio, do solo e do ar, a pressão atmosférica e a inclinação magnética. Descobre uma passagem navegável entre o Orinoco e o Amazonas. É uma pesquisa atribulada, cheia de perigos e descobertas.

    Numa das pausas de tantas aventuras, Humboldt ganha de presente um papagaio. Tenta entender o que o papagaio fala – afinal, seria o princípio da comunicação entre os homens e os animais. Mas as palavras, os arremedos de frases que o papagaio enuncia não são daquela tribo que o presenteara, a Caribe, mas de uma tribo já extinta, a Mapuré. Morreram todos os índios da tribo, a língua sobrevivera, e um papagaio que a falava. Non omnis moriar, não morrera de todo a língua.

    Humboldt fica fascinado. O seu sonho é aprender a língua do papagaio Mapuré. Em pouco tempo aprendeu várias palavras, consegue formar algumas frases, primárias, mas frases. Já consegue estabelecer uma ponte linguística entre ele e o papagaio. Antes de voltar à Europa, o papagaio falava desbragadamente. Humboldt o entendia e tomava nota. Iria publicar peripécias mirabolantes de um personagem fabuloso, que muito depois Mário de Andrade leria e usaria como material para criar Macunaíma.

    No entanto, quando em alto mar, o papagaio sentiu saudades da selva, adoeceu de saudades. Além disso, Humboldt calculou que ele teria quase cem anos de idade. Em pouco, a idade e a melancolia o mataram. Alexander Humboldt escreve a seu irmão Willelm, que era o primeiro grande linguista da história. Willelm lamentou profundamente tal perda. Se tivesse aprendido a língua do papagaio, se tivessem dialogado proficuamente, poderia estabelecer os princípios da Gramática Universal, feito que Noam Chomski realizaria somente daí a uns cem anos.

    Foi assim que a morte do papagaio Mapuré provocou um grande atraso para a ciência da humanidade.

  • Aprendi a ser o máximo de mim mesmo!

    Essas foram palavras deixadas por Nelson Rodrigues, um mago da literatura, escritor, jornalista, romancista, teatrólogo, contista e cronista de costumes, e de futebol brasileiro. É considerado o mais influente dramaturgo do Brasil. 

    Além dessas palavras, acrescento outras que moldaram histórias por muitos.

    A luta.

    “Lutar foi sempre mais ou menos uma forma de cegueira, isto é diferente, farás o que melhor te parecer, mas não te esqueças daquilo que somos aqui, cegos, simplesmente cegos, sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos. Se pudesses ver o que eu sou obrigado a ver, quererias estar cego. Acredito, mas não preciso, cego já estou, perdoa-me, meu querido, se tu soubesses, levei a minha vida a olhar para dentro dos olhos das pessoas, é o único lugar do corpo onde talvez ainda exista uma alma”. (José Saramago).

    O vazio que se foi não pode trazer saudade, deve se passar por lenda que um dia teve seu tempo frio e doído.

    O que nos restou ao final, antes de um abraço apertado na despedida, foi um beijo na testa e uma mensagem inesquecível.  

    As fotos.

    Elas provam que nossas vidas aconteceram como queríamos, e que tudo está bem, e que foram o que tinham pra ser. Daqui pra frente, após o mar recuar, esperemos o próximo movimento, que nos dirá que jamais estivemos tão perto de casa, e de nós. Sempre sabemos em algum momento especial, que a dúvida é a profunda resposta que esperávamos, a certeza não agrada, pois é resolutiva e concreta, muito além de nossas vidas reais e unidas por um propósito. Respiramos juntos até nosso próximo passo. E quando a água retroceder, avistaremos um caminho para reconstruir nossas almas, que penam pela existência doída, mas persistem no entorno da esperança latente por melhores momentos.

    O Tempo.

    Não volta pra que você possa negar algo novamente, pois sempre que quiser ter e ser, a hora subverte sua decisão e te cobra que faças teu melhor.

    Às vezes a paixão por alguém ou algo escapa de nossas mãos, e o fatal destino escrito em pedras amorosas quase sempre apaixonadas pela vida, retira momentos contraídos de um passado nobre, costurado em águas frias, aquecidas pelo sol, e movidas por nossa vaga lembrança, ressuscitada a cada amanhecer.

    O tempo volta só no pensamento de quem deseja saudar o que já foi presente. Ele nos deixou assim escolhidos pelo que miramos a cada vão dia.

    A lembrança.

    É a que nos acompanha enquanto ainda possuímos lucidez, e nossos olhos passam a saber que um dia foram as câmeras daquelas fotos que o tempo lutou pra nos manter vivos, em cada esquina de dúvidas que ainda carregamos. Como é que faço pra parar, reeditar minha vida. Copiar, colar uma nova lista que eu mais gostei, com jovens ressalvas.

    *Originalmente publicado em 20 de dez. de 2022, às 22:10

  • O chamado

    O telefone tocou. Não olhei, de primeira, porque estava preparando o café e o pão com mortadela, para o desjejum. Entre uma coisa e outra, vacilei e vi o nome de Iasmin na tela do celular. Por que fiz isso? Foi instintivo ou uma premonição? Uma coisa absolutamente inesperada e absurda aconteceu. Era ela mesma. Quem diria… Fiquei a me perguntar se estava alucinando. Passei segundos rodopiando pela cozinha, em busca de alguma explicação, sem saber o que fazer. Comi o pão quente e me queimei. A chamada foi rápida, parou, e eu me desesperei. Teria ligado por engano? Foi um vacilo programado para me desestabilizar? Iasmin, pelo que eu conhecia, poderia ser capaz de qualquer coisa para me tirar do eixo. Ela é boa nisso. Poxa, poderia ser a oportunidade para uma reconciliação ou uma despedida sincera. Não nos víamos há, pelo menos, dois anos. Iasmin se mudou, para muito longe, outra cidade, e não se despediu de mim, talvez porque achasse que eu não tivesse tanta importância. Além de ficantes, éramos, em bons tempos, amigos. De fato, tínhamos uma relação instável; eu que, bobo, idealizei o amor, depois do nosso primeiro e único beijo. Um beijo que marcou a minha história. Era como se minha boca se encaixasse perfeitamente com a dela. Um átimo, um instante, e logo o infinito. Fiquei perdidamente apaixonado; no ato. Pensei que havia achado o meu par perfeito e que seria correspondido. Iasmin não deu bola. Procurei-a alguns dias, e não quis me atender, sempre inventando uma desculpa. A prima, que morava com ela, dizia que estava com dor de barriga, que tinha saído, até que, por fim, diante da minha insistência, disse que ela havia morrido. Decerto, o beijo não foi bom o suficiente. Lógico, eu não sabia beijar, era um “bv” completo, inacabado para o amor. Ela já era mais experiente que eu – é a pura verdade –, porque já havia namorado, tido romances etc. Eu quis, ingenuamente, mostrar que era séria a minha pretensão para a nossa relação. Levei flores que a sua mãe adorou, disse que iria adornar a casa, quando, na verdade, eu queria que sua filha se felicitasse com a grande surpresa – falo grande, porque me custou o olho da cara. Como sempre, Iasmin não deu a mínima, considerou o entulho inservível, e jogou-o pela janela, onde as folhas e flores mortas, putrefatas, contrastavam com a sua beleza magnífica, celestial. Não gostou de mim, e isso é um fato, que me corrói a cada vez que lembro da tragédia do nosso encontro. Resolvi, aflito, ligar de volta, enquanto, nervoso, tomava goles de café. Tremi a xícara e derramei um pouco na roupa (já estava pronto para sair à escola; levei um esporro daqueles). Retornei e Iasmin não me atendeu. Devia estar ocupada ou desistido do contato. Desanimei. O dia foi uma porcaria, porque eu não tinha meios para ajustar a lambança que havia cometido há tempos. Queria, por tudo que é mais sagrado, ter falado com Iasmin, para despachar o meu espírito bruto, moribundo, e me liberar.

  • O fantasma do ferro-velho

    Nunca fui de me impressionar com coisas sobrenaturais. Acho-as, inclusive, enfadonhas e desnecessárias, pois em nada contribuem para a vida prática. Trata-se de um mercado tão comum como qualquer outro. Primeiro criam um problema, depois vendem soluções fracionárias, sempre à mercê de um adicional aqui ou ali. Enrolam um pouco falando dos benefícios daquilo, simulam algum imperdível desconto e pronto, venda concluída. E não adianta, nessas e noutras, só cai quem quer. Veja bem, se você dorme, trabalha, come e caga, o que te interessa o alinhamento dos Chakras ou a Constelação Familiar?

    Essa gente meio fraca das ideias perde dinheiro porque acredita em qualquer história. Se aparece um sujeito engomadinho, enchendo a boca com algum papinho sem-pé-nem-cabeça, eles aceitam tudo como se fosse o próprio Divino Espírito Santo apontando o caminho. Sejamos razoáveis, quem fala em energia, alinhamento espiritual e o caralho-a-quatro tem cacoete de vagabundo, desocupado mesmo. E também é meio burrinho, não dá pra levar a sério.

    Ouça bem, o espiritismo só pegou no Brasil porque o povo gosta de ser enganado e ainda defende o enganador. Aqui é a terra da malandragem e da trapaça. Porra, é o PT no governo! E nem adianta se fazer de ofendido defendendo o PT ou o Chico Xavier. Tudo isso é um grande teatro. Só não vê quem não quer.

    Sendo franco, passei metade da vida dizendo nunca ter visto fantasma nenhum. E é a mais pura verdade. Coisa de frouxo, meu Deus, quanta dor de cabeça me deu toda essa história. Isso começou em oitenta e dois, quando encontraram um homem enterrado lá perto da sanga e, desde então, todo início de inverno essa falácia volta. O problema nem foi terem achado a ossada ou um corpo em putrefação. O problema foi o boato de aparições aqui perto do ferro-velho. Nos anos seguintes, toda semana inventavam uma história de fantasma e a nossa vida virou um inferno.

    Eu não fui embora porque a minha família está aqui há mais de cem anos. E posso te jurar que é tudo mentira. Nunca houve assassinato, nunca vi uma aparição durante a noite e também nunca ouvi o morto gritando no inverno. É tudo coisa dessa gente de cabeça fraca, esses vagabundos que não cuidam das próprias vidas.

    Naquela época essa bobagem de assassinato e fantasma deu um furdunço dos grandes e o ferro-velho estava no centro de tudo. Mal posso calcular o tanto de “sensitivos” ou “espíritas” que tirei aos gritos daqui. Já não me bastavam os policiais e os jornalistas… Alguns amigos até me aconselharam a ir embora, mas, no fim das contas, a gente não podia fazer nada. Fugir do que não existe? Para onde? Por qual motivo?

    E ainda piora. Dia desses apareceu dois desocupados querendo gravar um filme aqui no ferro-velho, contando a história do fantasma, acredita? Eu peguei a espingarda e toquei eles daqui rapidinho. Nunca mais voltaram e nem perceberam que era uma carabina de pressão. No máximo ia arranhar um desses bebezões. Gente frouxa, puta merda.

    Infelizmente, naquele tempo nem toda família pensava igual. Aquela história aflorava os ânimos e não tinha como fugir do assunto. Dos meus três filhos, o Joaquim continua aqui e, segundo alguns conhecidos, se parece muito comigo. Eu não acho. O Rubens se mudou e não volta. Até hoje tenta convencer a gente a ir embora também. O Rodolfo se foi antes do acontecido, nunca mandou uma carta nem deu um telefonema, se perdeu no mundo ou está morto e enterrado. Não tenho como saber.

    Veja você, quando acordamos num domingo ele não estava mais em casa. Os três já tinham mais de dezoito, então podiam cuidar de si mesmos. Nunca me importei muito com o futuro deles porque foram criados na base do trabalho, então se virariam em qualquer lugar. No fim das contas, o desaparecimento do Rodolfo foi até bom porque ele e o Joaquim nunca se deram bem. Viviam brigando e se ameaçando, às vezes quebravam coisas pela casa. Eles se odiavam profundamente. E a gente sabe, quando o ódio é com o irmão, boa coisa não sai e nem adianta tentar consertar. Às vezes nem a distância garante um pouco de paz.

    Percebi uma desavença incurável entre eles quando o Joaquim empurrou o irmão de cima de uma árvore. Foi a primeira vez que Rodolfo quebrou o braço. E foram várias. Uma vez, inclusive, peguei o Joaquim o perseguindo com um martelo. Não deixei brigarem naquele dia, claro, mas não julgo. Eu mesmo não me dava com o meu pai. Por sorte, um dia ele saiu de carro e não voltou. Duas noites depois o acharam esmagado no fundo de uma ribanceira. Não sobrou nada. A polícia disse ter demorado para o encontrar porque na pista não havia marca de freios. Minha mãe botou a culpa na cachaça. Por fim, acabei tomando conta do ferro-velho.

    Pois bem, sobre o tal fantasma, nunca o vi nem tive medo. O pessoal é meio assustado e acaba inventando coisas. Gente frouxa dos infernos, mas a verdade é a seguinte…

    — Ô pai, tá falando sozinho de novo?

  • As 7 Palavras de Cristo na Cruz

    A pergunta foi direta como um chute do infalível Bruce Lee em seus melhores dias: por que as últimas 7 palavras de Cristo na cruz? E o poeta, sem querer fazer poesia, respondeu na sua forma sertaneja de ser.

    Mas, afinal, por que “sertaneja”? Simples. O poeta, escritor e dramaturgo premiado no Concurso Nacional Universitário de Peças Teatrais, promovido pelo Serviço Nacional de Teatro do Rio de Janeiro, com a peça “A Cruz da Menina”, nasceu na cidade de Patos, distante pouco mais d 300 km da capital da Parahyba, na mesorregião do Sertão Paraibano.

    Mas, como dizia, a pergunta não poderia ficar parada no ar. O título um tanto estranho, mas bem escolhido como os títulos de um José Cândido de Carvalho, “olha pro céu, Frederico” e “Se eu morrer, telefone para o céu”, entre outros, vocês sabem que assim como eu não era poeta, é esse mesmo: “As 7 palavras de Cristo na Cruz”.

    O Livro, porém, pelo fato de o poeta escolher o soneto para poetar no universo de sua religião, a católica, essa forma de poesia que até parece fácil, dois quartetos e dois tercetos, não se limita apenas ao “tema religioso”. Outros poemas, todos na forma de soneto, nele dispostos, também conservam a mesma técnica e a capacidade poética de encontrar a melhor rima para e a palavra exata para o poema.

    Os sonetos dispostos, intitulados de Gólgotas, enumerados de um a sete, pois, afinal, não fosse assim o titulo não se justificaria, obedecem regiamente a ordem das palavras proferias pelo Cristo na Cruz, onde, por exemplo, mesmo sabendo-se Cristo e inocente perdoava aqueles que o crucificavam. Lembramos, porém, que a ordem das frases pelo Cristo proferida nos sonetos do poeta, variam de acordo com as quem escreveu. No caso do poeta José Mota Victor, os sonetos seguem o que escrevera o evangelista Lucas.

    “… Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!”.

    Era a misericórdia de Deus aos que o mataram.

    Os versos são do soneto “gólgota” primeiro, inspirados no momento em que o Cristo perdoava a ignorância dos que o crucificavam. Sabia o filho de Deus, tinha certeza que eles, os soldados romanos, não estavam sabendo o que faziam naquele momento. E assim, ratificando o que fora pelo mesmo dito em outro momento, segundo, claro, a Bíblia, perdoava os seus inimigos, dava-lhes o outro lado da face para ser esbofeteado.

    E assim o poeta, comprovadamente de origem religiosa, católica por tradição, assim como este malabarista de palavras, inspirado nas últimas palavras de Jesus na cruz, segue mostrando que fazer Sonetos, assim como dissera um dia o Noel Rosa a respeito do samba, não se aprende no colégio.  

    O poeta José Mota Victor, sabe e domina a técnica do soneto como poucos. No soneto “Morfologia do Soneto”, por exemplo, esse também presente no livro, ele deixa claro “Que no soneto e mais que a ode/ Que é poema de tamanho irregular/ No soneto o verso quer aprisionar/O poeta, que esperneia como pode”.

    E sai desfilando poética e harmoniosamente o conceito por todos conhecidos desse que vem a ser um soneto petrarquiano.

    Em seguida, aproveita os tercetos, mostrando o domínio que os bons poetas tem dos versos que escrevem, para concluir:

    “Os dois quartetos e os dois tercetos
    São as belezas formais do Soneto
    Os quartetos são para exposição…
    O núcleo é no primeiro terceto,
    No seguinte se tem o desfecho
    E do poeta requer inspiração…

    O Livro “As 7 palavras de Cristo na cruz” tem o seu forte nos sonetos inspirados por elas, isto é, nas últimas sete palavras do filho de Deus na cruz. São essas, “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem; Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no paraíso!; Mulher ai esta o teu filho!; Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?; Tenho sede!; Está consumado. E Pai, em tuas mãos entregam o meu espírito!”.

     Essas formam o “núcleo” do livro. Outros sonetos, porém, inspirados nas histórias e lembranças do poeta patoense, fazem parte.  Um livro inspirado de um poeta que sabe o que pretende dizer e, poeticamente, diz muito bem o que sabe.

  • A certeza que cansa o olhar

    Otto Lara Resende escreveu uma das minhas crônicas favoritas: “Vista cansada”. Li pela primeira vez na faculdade de Letras. Depois, voltei a ela muitas vezes, sempre com o mesmo incômodo. É uma crônica triste, muito triste. Diz que, de tanto ver, chega uma hora em que já não se vê mais ninguém — nem o porteiro, nem a mulher, nem o vizinho.

    Mas o que fica, mesmo, não é só a tristeza. É a suspeita.

    Ao ler Otto, me ocorre que a gente não deixa de ver por distração. A gente deixa de ver por certeza.

    A certeza de que o outro vai estar ali amanhã.

    E é aí que tudo começa a desaparecer.

    Tem marido que se acostuma com o jantar na mesa, sempre na mesma hora. Não se pergunta quem é aquela mulher que cozinha todos os dias. Porque, no fundo, acha que aquele prato vai estar ali para sempre.

    Tem amigo que atende na primeira chamada, que topa uma cerveja em qualquer terça-feira, que escuta, aconselha, insiste. E vira paisagem. Não porque mudou, mas porque parece garantido.

    Tem porteiro que abre o portão, deseja “bom dia”, sustenta um sorriso que nem sempre volta. Passa anos ali, invisível, como se fosse parte do prédio.

  • Do avesso

    Mila Cox achou que Zími estava enlouquecendo de verdade quando ele lhe contou sobre um de seus dilemas. 

    Estavam no banco de trás da Kombi do amigo e vizinho uruguaio Silvano.

     Era um domingo pela manhã, e voltavam de um show que fizeram com mais três bandas em Indaiatuba.

    Foi quando Zími contou que estava a escolher se seria melhor estar vivo e ver o fim do mundo (o que seria para ele glorioso, mesmo tendo a vida interrompida simultaneamente a essa visão), ou que por algum milagre, tivesse vida longa, e a humanidade durasse mais, e ele morresse bem velho, porém antes do final da história dos humanos na Terra. 

    Nesse caso, o mundo continuaria como um trem desembestado e sem trilhos, e também sem ele. 

    Mila Cox usava uma camiseta do Bob Log III, e respondeu que somente a primeira alternativa era possível.

    Ela disse que ele bebia demais a cada vez que visitavam alguma cidade do interior para fazer shows, e que possivelmente perderia o controle se um dia tivesse a chance de fazer alguma turnê maior, que era o objetivo dela. 

    Não era a quantidade de bebida forte consumida na viagem, nem o tijolo inteiro de maconha que ele havia fumado com Silvano desde a véspera. 

    Ela sabia que ele era capaz de pensar coisas estranhas mesmo estando totalmente sóbrio, como costumava estar na vida cotidiana que tinham no apartamento que dividiam em São Paulo. 

    Ela atribuía esse tipo de pensamento dele a uma falta total de esperança num futuro viável para a humanidade, e tentava extrair daí o conteúdo para as músicas que faziam juntos. 

    Ela falou:

    “Nós vivemos num cenário pós apocalíptico. O que sobrou é surreal demais, embora eu esteja vendo com meus próprios olhos.”

    Mila Cox não havia passado por nenhum trauma realmente relevante na vida.  

    Havia, sim, muita insatisfação com convenções sociais que não faziam qualquer sentido, a não ser para um diminuto grupo anônimo que suga e controla as massas. 

    Embora ela amasse a avó materna, com quem viveu até os dezenove anos, não entendia como ela pôde levar uma vida envolta de tanto machismo, sem que tivesse se rebelado de alguma maneira. 

    Parecia até mesmo que sua avó materna gostava e apoiava o sistema patriarcal em que nasceu e cresceu, depois se casou e enviuvou.  

    Não era um apoio declarado, mas havia indícios de adesão a um tipo de conservadorismo que já não tinha (e nunca deveria ter tido) razão de ser. 

    Já sua avó paterna era diferente em todos os aspectos.

     Nunca se casou no papel, bebia, fumava e estava sempre fora do país.  

    Era chamada por parte da família de velha louca. 

    Essa era a opinião dos tios de Mila Cox, que se encontravam apenas no Natal e muitas vezes já chegavam bêbados ao encontro. 

    No fim das contas, era uma avó ausente, mas generosa, cheia de cultura e bom gosto musical. 

    A mãe de Mila Cox, que também vivia com ela, estava numa posição ideológica intermediária entre as avós, o que para a jovem significava apoiar, pela inércia, o fantasma do machismo e da estrutura familiar patriarcal.  

    Parecia haver em sua mãe um conformismo diante de algo ao qual as mulheres deveriam se opor incondicionalmente. 

    A hora de sair de casa se deu no momento em que não havia mais atritos e nem consenso sobre o que pensar da vida. 

    Então ela foi morar com o amigo e parceiro musical Zími. 

    Embora tivesse um aspecto jovial, pelo seu visual e pelo pensamento libertário, era um cara de meia idade, e aproveitava o estímulo que Mila Cox lhe dava para ter também mais dinamismo em sua vida, já que ele sempre a via agindo de maneira decidida, orientada para objetivos. 

    Se não fosse por ela, ele seria apenas um copywriter que sairia de casa apenas para ir ao mercado e fazer suas atividades de livreiro, comprando, vendendo e trocando livros nos sebos do centro da cidade. 

    Assim, fatalmente cairia num ostracismo artístico. 

    Ele tinha sempre um estoque de livros para ler e depois vender pela internet, para pessoas de outras cidades, onde há poucas ou nenhuma livraria. 

    Com essa rotina, conseguia se manter longe das bebidas e das drogas. 

    Enchia a cara quando saía para tocar, fosse em São Paulo ou alguma cidade do interior. Nessas viagens para outras cidades, ele sempre bebia quantidades transatlânticas de goró, especialmente depois de conhecerem Silvano, que sempre comprava várias garrafas de aguardente de produtores locais, que ele pesquisava na internet antes de viajar. 

    Com Mila Cox (que bebia pouco e quase não usava outras drogas) ao redor, ele continuou com essas atividades cotidianas, mas com bem mais ânimo e dinamismo, pois junto dela havia para ele a aventura, completamente abandonada por muitos de seus amigos da mesma geração. 

    Ele já teve banda de rock antes, mas até que começasse a tocar com ela, passou anos sem cogitar uma volta à música, fazendo shows em troca de cerveja e do dinheiro da gasolina. 

    Mas ela fazia com que ele, mesmo num misto de saudosismo e desencanto com essa vida, retomasse o entusiasmo e, ainda que apenas por rebeldia, enxergasse que não havia motivos para não tocar. 

    Cantava apenas trinta por cento das músicas, pois tocava bateria simultaneamente, mas sua poderosa voz rouca, que contrastava com seus hilários falsetes, tornava essas canções as preferidas da banda, que tinha apenas os dois como integrantes. 

    Era ela no baixo, sintetizador e vocal, e ele na bateria e vocal. 

    A constatação dessa preferência do público pelas músicas cantadas por Zími foi feita por Mila Cox, que cuida das redes sociais do duo, chamado Crop Circles

    Zími agora podia lembrar sem rancor que seu pai dizia que caso ele não seguisse certas diretrizes de comportamento social, viraria um morador de rua. 

    Olhando em retrospecto, era claro para Zími que apesar dos altos e baixos de sua vida, até então tinha conseguido se virar e perder completamente qualquer medo de virar um mendigo destruído pelas drogas e álcool, pois antes de seu pai, a professora Maria Eugênia já havia praguejado algo similar em 1983, quando Zími estava na segunda série do primário. 

    A professora não havia gostado de uma redação que ele fez sobre fraternidade. 

    A escola era católica, e o trecho da redação que irritou a professora criticava gente que humilhava outras pessoas durante o dia e rezava à noite. 

    Nessa época, a situação em sua casa também não era boa. 

    Sua prima mais velha, que ele encontrava nos fins de semana, havia lhe mostrado vários discos de sua coleção e criticava duramente medalhões da MPB que romantizavam a pobreza e os pobres, mas viviam em mansões e dirigindo carrões. 

    Isso causou distúrbio na casa de Zími, pois seus pais achavam que ele não tinha idade para contestar o que quer que fosse, pelo menos enquanto vivesse com eles. 

    Quando perguntado sobre o porquê de não ter tido filhos, ele explicava que ao entrar no ensino médio, não sabia qual profissão queria seguir de fato, mas sabia que fosse ela qual fosse, não serviria para sustentar filhos, pois ele próprio se ressentia por seus pais o terem tido. 

    A economia feita com essa escolha o livraria do destino miserável que lhe previam, de virar um mendigo bêbado e drogado.  

    A paternidade é definitiva, irreversível e cara, algo que não combinava com sua perspectiva de ser razoavelmente livre, tanto nos momentos de agonia como nos momentos de glória. 

    Dizia que estabeleceu desde cedo que seria um adulto com diploma universitário e sem filhos. Anos depois, com o advento da internet, consolidou essa perspectiva. 

    Na mesma manhã em que voltavam do show em Indaiatuba, leram a matéria sobre os jogadores de futebol que tomaram um golpe milionário da empresa de criptomoedas que prometia muito, não entregou nada, e usava nas redes sociais o lema ‘Deus, pátria e família’. 

    Para Mila Cox e Zími, Deus se manifestava em suas próprias consciências, individualmente. 

    Era algo que estava sempre com eles, direcionando-os para um caminho de ética, decência e respeito. Não era alguém ou algo exterior, que pudesse ser encontrado numa igreja, por exemplo. 

    O dinheiro para eles não era um deus, e sim, algo criado pelos humanos.  

    Tornou-se algo sem o qual não se vive na sociedade. 

    Torna as pessoas muito mais escravas do que livres. 

    Os poucos que conseguem viver sem dinheiro e com alegria, quando descobertos, são alvos de um tipo de atenção que os torna quase desumanos, por abrirem mão de um convívio padrão com os outros, sendo considerados anomalias humanas pelo senso comum. 

    Ela queria dinheiro para comprar instrumentos melhores, ele queria dinheiro para comprar de uma vez o apartamento alugado e poder gastar sua energia com outras coisas que não fossem sofrer com aluguel atrasado. 

    A pátria não significava nada, a não ser limites fronteiriços, divisões políticas que motivam guerras. O patriotismo, uma doença infantil, o sarampo da humanidade. 

    A família eram as pessoas com quem escolhiam conviver. 

    Eram temas que já tinham sido explorados à exaustão nas músicas que faziam, mas que pareciam inesgotáveis diante do que viam nas ruas e nos noticiários. 

    O prédio em que viviam era também uma fonte de inspiração, pois abrigava uma classe média há anos empobrecida, mas sempre orgulhosa e sedenta não por direitos, mas por privilégios, custe os direitos de quem custar. 

    Gente que precisa de um líder, e segue coachs messiânicos picaretas, e vivem sem entender que estão muito mais próximos da favela do que da mansão. 

    Uma soberba que desce ao patético. 

    Desde que se mudaram para o novo apartamento e conheceram Silvano, as viagens para tocarem em outras cidades ganharam mais estrutura, embora a força motriz do rolê ainda fosse gerida por uma paixão que eles só poderiam ter no amadorismo. 

    Um contrato, por exemplo, poderia fazer daquilo uma profissão chata e desgastante, especialmente no que diz respeito à autonomia artística. 

    Os vizinhos tinham curiosidade ao vê-los chegando ou saindo, enchendo ou esvaziando a Kombi.  

    Era uma curiosidade grande, inversamente proporcional à empatia que sentiam, pois viviam de outra forma, passando por cima das diferenças individuais e seguindo os velhos padrões de comportamento de burguês mal remunerado, querendo ser o que nunca serão, e querendo ter o que nunca terão. 

    Chegaram a São Paulo, depois de duas horas, com trânsito em pleno domingo de manhã, e a perspectiva de futuro naquele momento era uma semana trabalhando como copywriters, e fazendo uma música nova para ser lançada como single na internet, além de um show no sábado seguinte em Cosmópolis. 

    A essa altura, Donald debilmente fazia de tudo para antecipar o final.

  • Duas sessões: um respiro, apesar de # e @

    Quanto mais Inteligência Artificial, maior a cobrança por performance, por entrega, por prazos que já deixaram de ser humanos. O mundo segue tendo seus ciclos — noite e dia, dias que viram semanas, semanas que viram meses — e, num piscar de olhos, os anos passam. A urgência urge.

    Respirar é um ato de vida: ar que entra, ar que sai — e, nesse intervalo mínimo, quase imperceptível, algo em nós se reorganiza. Quem já parou para meditar sabe: criamos espaço.

    Sem esgotar nenhuma reserva biológica, sem aumentar a pegada de carbono — apenas respirando c-o-n-s-c-i-e-n-t-e-m-e-n-t-e… Pensar que passamos a vida tentando criar espaços no mundo — eu, literalmente, como arquiteta e urbanista — enquanto esquecemos que o primeiro espaço possível é, simples e essencialmente, o que cabe entre uma respiração e outra.

    Presença.

    Meio óbvio, né.

    Infelizmente, não.

    Não se trata da presença velada que registramos aos quatro cantos cibernéticos, marcando arrobas e hashtags sem fim. Presença mesmo. Analogissíssima.

    A nossa conosco | A nossa com o outro |
    Com os outros.

    Nada de conversinhas solitárias mediadas por telas brilhantes.

    Tive o privilégio de perceber isso ontem, sábado. Do fundo de uma sala lotada, com visão panorâmica do público e dos comandos de som e iluminação – ainda fui a responsável pelo soar das campainhas.

    Reestreamos nossa curta temporada de “Sem verba, com drama”, na Usina Cultural Energisa, em Nova Friburgo. Segunda temporada, com uma única sessão prevista.

    Prevista.

    A gente sempre acha que teatro não vai lotar. A minha cidade – celeiro de artistas, reconhecido mundo afora – ainda tropeça numa carência básica brasileira: falta formação de plateia. Daí, pelo receio de não lotarmos um teatro de apenas 100 lugares, o elenco começou a pedir confirmações de amigos, amores (que, compulsoriamente tornaram-se parte da equipe) e parentes. Eu fiz o mesmo. Se cada um garantisse alguns poucos espectadores, alcançaríamos uma base mínima. Quando redigimos a lista final, para deixar na bilheteria, percebi, entre o êxtase e o desespero, que já não havia mais lugares disponíveis.

    — Buuuum! Conflito interno!

    (A vida imita a arte ou é a arte que imita a vida? Essa fala é do roteiro e explica todo o nosso dilema).

    Na entrada, Felipe, o guardião das chaves da Usina Cultural, me informa novamente que, desde o dia anterior, pessoas perguntam pelos ingressos…

    Como receber o público orgânico sem espaço?

    Liguei para a diretora da Usina e pedi, quase sem jeito, mas introduzindo que era uma questão maravilhosamente boa e… talvez nem tanto assim…., a necessária possibilidade de abertura de uma sessão extra, logo em seguida.

    — Problema bom de resolver — ela me respondeu — Me dê uns minutos.

    Avisei o elenco:

    — Provável que tenhamos duas sessões! — abri a cortina da coxia/ camarim e soltei a bomba, assim, sem prepará-los.

    (Ser positiva, firme e aumentar as borboletas no estômago dos atores é o grilhão dos diretores de teatro). Os atores, notoriamente, foram à loucura. Frenesi e dor de barriga: combinação perigosa para uma estreia.

    Deem seu jeito com o emocional, complementei. Viver de arte no Brasil é isso: sem verba, com drama — e sem o luxo de perder oportunidades.

    Deu certo.

    Entre um baby liss e uma passada de rímel, uma outra de texto, pára tudo para novas chamadas com o breaking news para as redes sociais:

    “Nem liberamos os ingressos ainda… e já lotamos! Notícia fresquinha: temos mais uma sessão!”

    Holofotes, microfones, impostação de vozes, movimentação mantendo o equilíbrio do palco.

    Risadas… muitas.
    Crianças no colo, um mar de gente esperando.
    Gente se encontrando.

    Recepcionar o público, desejar bom espetáculo, subir ao palco e dar boas vindas com uma claquete em punho, dar uns informes e já arrancar umas gargalhadinhas humildes me fez perceber que todo mundo ali estava… presente.

    Sem o celular roubando completamente a atenção, e apesar deles, porque não são outro que próteses em nós, a produção (concentrada momentaneamente na minha pessoa, também — ser multifunção é também premissa de quem faz teatro) liberou o uso dos aparelhos, em modo silencioso e sem flash, desde que usassem os QR codes espalhados por todos os assentos para marcar a rede social do espetáculo.

    Silêncio e gargalhadas. Olhares atentos. Todos respirávamos juntos.

    Durante cinquenta minutos, três atores seguraram duas plateias inteiras. Poderiam estar em qualquer outro lugar — num evento de cerveja, que acontecia ali pertinho, num bar, em casa. Mas escolheram estar ali. Se arrumaram
    para estar ali.
    Assistindo.
    Vivendo.

    Uma criança de dois anos e meio chorou na cena final, enquanto os atores esgoelavam-se aos prantos e berros, exagerada e cômicamente, por serem despejados.

    Talvez o teatro ainda seja uma das formas mais bonitas de ir contra a corrente de um mundo que anda apressado demais para perceber que O₂ não é pauta.

    É vida.

    Infelizmente, e só de vez em quando, a gente lembra.

    Na fila de entrada. Na saída. No riso compartilhado com desconhecidos. No olhar que encontra outro olhar – talvez pela primeira vez em uma semana inteira observando telas.

    Pequenos gestos, desses que quase passam despercebidos, ainda nos provam que as -pessoas seguem sendo pessoas, não meros
    ecos silenciosos da tecnologia.

    Ainda respiramos
    Ainda nos emocionamos.
    Ainda nos deixamos sentir, refletir e sorrir.

    “Só a arte salva”, dizem.
    Talvez nem tanto; apenas o suficiente.
    De quando em quando, é o teatro que nos
    mantém na humanidade.

    Termino com uma frase que li e se entranhou pelas minhas veias, nos primórdios de 2007, na parede do SATED-RJ, quando, fui tirar meu registro de atriz.

    “Tratai bem os atores, pois eles são a crônica e o breve resumo dos tempos”.

    Shakespeare. Sempre atual.

    A arte é esse emaranhado bonito que insiste em nos lembrar de quem somos.

    Respiremos.

    E viva o teatro!

  • Vigília

    O relógio marcava três da manhã. Maria Augusta se revira na cama pela enésima vez. Maldita insônia. Olha agora o teto do quarto e procura entender por que não dormia. Luzes apagadas, silêncio, tinha acordado cedo, sentia-se cansada, mas o infeliz do sono não vinha.

    Havia contado ovelhas que pulavam uma cerca invisível. Desistiu quando elas começaram a querer dançar uma rumba em vez de saltar. Devia estar ficando louca ou as ovelhas mancomunadas com sua insônia.

    Trabalhara o dia todo no escritório, lidando com prazos impossíveis e um chefe boçal. O jantar leve, filé de frango e salada. Dez da noite desligou a tevê e silenciou o celular. Antes de deitar, um chá de camomila para garantir. Maria Augusta era contra remédios tarja preta. Temia a dependência. Já era dependente de tanta coisa….

    No meio da cama, de olhos abertos acostumados à escuridão da noite, revivia erros do passado: aquela briga com a amiga anos atrás, o projeto que dera errado. As sombras nas paredes ganhavam vida e transformavam-se em monstros de arrependimentos.

    Cogitou mudar seu nome de Maria Augusta para Maria Sônia. Insônia. Sorriu do seu senso de humor fora de hora. Mais apropriado seria chorar…

    Levantou-se para ir ao banheiro, pés frios no piso gelado. Fez xixi, e nem estava com tanta vontade. Foi até a sala, olhou pela janela. Teve a sensação de que a cidade inteira dormia. Uma quietude perturbadora. Respirou fundo, focando no ar que entrava e saía dos pulmões. Podia ser imaginação, mas pareceu ouvir um ronco ritmado vindo de algum apartamento vizinho. Morreu de inveja.

    Saiu da janela, foi até a cozinha e preparou um copo de leite morno. Dizem que acalma e faz dormir melhor. Para ela o efeito foi contrário: sentiu-se como se estivesse pronta para uma maratona.

    De volta à cama, deitou-se. Ligou o abajur e pensou em pegar um livro. Que não fosse um romance. Vai que se animava com a leitura e passava o resto da noite lendo. Melhor um de contos. Escolheu um antigo do Dalton Trevisan. No segundo conto, pareceu pressentir o sono querendo chegar. Ligeiro, desligou o abajur. Alguns minutos e, ao longe, começou a ouvir um som estranho, alguma coisa que se assemelhava a um ritmo repetitivo. Batuques. Um desventurado acabara de colocar um funk àquela hora. Acendeu a luz e olhou no relógio: quatro e meia da manhã. Não quis acreditar. Pensou em reclamar, ligar para a portaria. Mas desistiu. Apagou a luz, deitou-se novamente e colou o travesseiro nos ouvidos, mas o som parecia se infiltrar e crescer. Aquilo não podia estar acontecendo. Devia ser um complô organizado para impedi-la de dormir. O pior – se ainda pudesse haver um pior – em sua mente raivosa, agora Maria Augusta via ovelhas que dançavam ao ritmo do batidão.

  • O corpo de palavras

    O corpo de palavras é o poema e o conto e a crônica e o romance.

    O corpo de palavras. A palavra serpenteia, ondeia, se insinua e, nua, causa alvoroço no poeta, no romancista, enfim…

    A palavra e o corpo. O corpo de palavras por si só basta. E afasta.

    E afasta as coisas e o mundo e a realidade. Pensa ser real. Quer se aproximar do real. Mas não é. É corpo.

    Corpo de palavras que se fazem e se desfazem e se querem e se afastam.

    E afasta.

    E por si só bastam. Basta a palavra.

    O corpo de palavras é o ruído e a canção antiga e o bolso furado e o vento e a tempestade e o mar. As ondas e o mar e a palavra. As palavras. O corpo de palavras. O corpo apenas: só, mudo, nu, translúcido…

    E os dedos que se manifestam no momento da escrita seguram forte a pena e colorem, descrevem, enriquecem, dão forma a um mundo.

    Eu sou um corpo de palavras.

    Eu sou um mar de palavras. Eu sou um céu de palavras.

    E escrevo em mim e navego em mim e voo em mim. Uma escrita inteira, uma viagem entre os vagalhões e um risco no ar.

    O corpo de palavras basta e afasta e arrasta tudo e todos.

    E engole a si mesmo para, em seguida, fazer novo mundo, fazer novas as coisas, fazer novo corpo.

    E sou eu que me refaço no instante da escrita.

    Continuamente…

  • Alienação facial

    Ontem sonhei com o E.T., aquela figurinha de cara achatada do filme de Spielberg, lançado no Brasil em 1982. Um alienígena do bem, de rosto triangular, boca rasgada e grandes olhos azuis. No meu sonho, ele tinha voltado ao seu planeta para relatar como andava sua missão: transformar todos os habitantes do planeta visitado em criaturas à sua imagem e semelhança.

    Assustada, procurei me distrair um pouco com a televisão para conseguir pegar no sono novamente. Mas o que vi me fez esfregar os olhos — certamente ainda não tinha despertado o suficiente, pois lá estavam as carinhas triangulares circulando alegremente, dando as notícias da madrugada.

    Corri para lavar o rosto com água fria e mudar de canal, porque, por alguma brincadeira macabra da memória, a tela parecia refletir meu sonho — aquelas moças do noticiário não podiam ter se transformado em alienígenas.

    Tentei então assistir à reprise de um capítulo recente de novela. Boa opção: ali, certamente, as atrizes estariam caracterizadas de acordo com seus papéis e o pesadelo estaria desfeito.

    Senti a cabeça rodar.

    O que apareceu foram minhas conhecidas de longa data, exibindo os mesmos rostos triangulares, sobrancelhas altas e arqueadas, bocas rasgadas, olhos esticados.

    Aquilo me perturbou a ponto de decidir me afastar completamente daquela visão grotesca. Sem dúvida, minha retina estava reproduzindo na tela da TV os efeitos do pesadelo com o E.T.

    Para cortar de vez aquela ilusão de ótica, fui dar uma olhada nas últimas notícias, e lá estava uma seção inteira dedicada à aparição da megastar Madonna no show de Sabrina Carpenter, no Coachella.

    Coloquei e tirei os óculos várias vezes, pensando que talvez meu grau de miopia tivesse aumentado. Nada feito. A imagem do alienígena continuava a me atormentar.

    Assim como aquelas figuras da televisão, tanto a estrela pop de 67 anos quanto sua companheira de palco, que acaba de completar 26, pareciam moldadas na mesma forma: maçãs do rosto salientes, boca rasgada, olhos arregalados, pele de tamborim — marmorizadas a tal ponto que pareciam ter quase a mesma idade.

    Não restavam mais dúvidas: a missão do E.T. estava sendo cumprida.

    E ele havia começado pela transformação das mulheres daquele primeiro batalhão chamado antigamente de líderes de opinião e agora de influencers.

    Essa onda logo atingiria as mulheres comuns — se é que muitas já não tinham sido abduzidas pelo visual padrão da nova era. E eu?

    Quis correr para o espelho.

    Num susto, abri os olhos.

    Ufa.

    Eu nunca tinha saído da cama.

    Então era tudo apenas o pesadelo… do pesadelo.

  • Audição criativa

    Vamos falar de surdos. Surdos no sentido coloquial, não surdos de verdade, isso é assunto para especialistas. Só percebi a diferença quando assisti a um diálogo entre um senhor e a atendente de uma loja que vendia aparelhos auditivos. Quando ele se queixou de que era surdo, ela foi objetiva:

    — O senhor não é surdo, se fosse eu não poderia ajudá-lo. Seria mais ou menos como fazer um cego enxergar usando óculos. Sua audição é deficiente.

    Tenho vários desses surdos no meu entorno. Como ouvem mal o que dizemos, ou simplesmente não ouvem, o diálogo é difícil. A maioria dos surdos tenta suprir as falhas de audição adivinhando o que está sendo dito. Se o tema é irrelevante, a gente deixa para lá, mas nem sempre é o caso.

    Não raro um diálogo vira monólogo por parte do surdo. Você fala uma coisa, ele entende outra e, a partir de certo ponto, continua sozinho a conversa, agindo como se o outro estivesse participando.

    — Você pegou o jornal?

    — Não, eu não passei mal.

    — Eu perguntei se você pegou o jornal.

    — E eu já respondi que não passei mal!

    — Onde está o jornal?

    — De novo? Estou ótimo, normal.

    — O JORNAL!! Onde está?

    — Ah!… A única notícia interessante de hoje é que “Vestido de Noiva” do Nelson Rodrigues vai ser reencenada. Você leu?

    — Como posso ter lido se nem sei onde está o jornal?

    — É realmente sensacional.

    — Esquece.

    — Concordo, o texto merece.

    — Eu vi há alguns anos, gostei muito.

    — Estreia semana que vem.

    — …(silêncio)

    — Um clássico do teatro.

    — …(silêncio conformado)

    — Você conhece a peça? Gostaria de assistir?

    — …(silêncio desesperado)

    A surdez rende situações hilárias, mas rende igualmente brigas e discussões. Duas amigas entraram numa loja de conveniência, deram uma voltinha, resolveram sair. A surda foi à frente e a outra, já quase na porta, decidiu comprar uma garrafinha de água. Pegou rapidamente a mercadoria, foi para a fila do caixa e avisou à surda:

    — Fulana, espere um pouco.

    A surda continuou andando, a amiga repetiu o pedido em voz mais alta. Repetiu uma, duas, três vezes, gritou uma quarta, mas não teve jeito. Ela não queria desistir da água, nem podia sair sem pagar. A surda desapareceu na rua e, dois minutos depois, reapareceu na porta da loja, furiosa.

    O surdo, protegido pelo silêncio, não acompanha as agruras de quem tenta se comunicar com ele. Costuma reagir indignado e rotular de impacientes os pobres interlocutores. Acredite se quiser, já ouvi a seguinte frase.

    — Eu não sou surdo, você é que não gosta de repetir.

    É óbvio que o surdo não consegue avaliar o quanto está deixando de ouvir. A surdez não se instala da noite para o dia, ele vai perdendo aos poucos o contato com o entorno.

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — Fulano, quer ir ao cinema?

    — …(silêncio)

    — FULANO, QUER IR AO CINEMA?

    — Está gritando comigo por que? Está pensando que eu sou surdo?

    Eu amo todos os meus surdos, mas acho que eles são impiedosos. De vez em quando um deles pergunta porque ando tão estressada. Se trocassem de lugar comigo por uma semana, entenderiam.

    Talvez eu tenha sido surda em vidas passadas e agora esteja pagando por isso. Deve ser carma.

  • Uma imagem ou mil palavras?

    Sou de uma época em que se acreditava que uma imagem era a mais perfeita expressão da realidade. Aquilo, cuja existência era testemunhada por esses olhos que a terra há de comer, estava lá de verdade. A tarefa de descrever retoricamente tal imagem era uma vã tentativa de convertê-la, através de símbolos (denominados palavras) em algo compreensível, para os que não a presenciavam. Por mais habilidoso que fosse o narrador no manejo dos vocábulos, jamais alcançaria o grau de fidelidade proporcionado pela imagem propriamente dita. No máximo, poderia revestir o discurso com ornamentos poéticos, conferindo-lhe uma versão mais formosa. Seria como esmiuçar com a fala (ou o braile) a plenitude da cena a alguém privado da visão. Porém, era consenso de que nada contribui melhor para a compreensão de algo do que a experiência direta proporcionada pela imagem. Não por acaso, dizia-se que “uma imagem vale mais do que mil palavras”.

    Com o advento da Inteligência Artificial, essa relação entre sujeito observador e objeto observado que parecia ser inquestionável, desfez-se como um castelo de cartas. Pelo menos no que diz respeito àquilo cuja visualização é mediada por telas – computador, celular, televisão, cinema etc. Os milhões de pixels perfilados eletronicamente talvez possibilitem uma resolução impressionante de seus contornos, mas não garantem que o objeto que se nos apresenta naquele espaço luminoso, plano e retangular seja de fato o que julgamos enxergar.

    Uma maçã, recém-caída do pé, que se oferece ao vivo e em cores ao tato, ao olfato, ao gosto e ao olhar, em toda sua exuberância rubra, quando capturada pela lente de celulares – mesmo os de última geração -, perde sua essência original, reduzindo-se a um simulacro de maçã, não mais uma fruta em si, mas uma versão espúria, ‘virtual’ que, a rigor, não poderia ser classificada como fruto pomáceo, mas uma reles representação alegórica do espécime vegetal. Vale ela menos que uma maçã podre ou mesmo que um suco Del Valle de maçã.

    O avanço dos recursos computacionais permitiu que fossem geradas imagens com um grau de nitidez e realismo capaz de desafiar o discernimento humano. O espetáculo que assistimos deslumbrados através do display nos impressiona pela sofisticação técnica e estética, porém não inspira a mesma confiança. Falta-lhe a essência, a ‘alma’. É como se fosse uma quimera sedutora, etérea, provinda do inconsciente.  A verdade evaporou-se, deixando em seu rastro os vestígios da incerteza, fragmentados no monitor. O objeto de uma imagem visto através de um celular equivale a um Monet estampado numa camiseta de poliéster.

    A Inteligência Artificial proporciona uma profusão de visões que vão de cachorros que cozinham como chefs a mandalas animadas com efeitos lisérgicos. De cidades engolfadas por tsunamis devastadores a pinturas que abandonam sua placidez centenária, libertas das molduras onde foram enquadradas. Figuras extasiantes que tornam enfadonha e maçante nossa mundana realidade concreta de boletos e louça empilhada sobre a pia.

    Mas se as imagens, frutos de adulteração, não valem meia pataca, tampouco as palavras ganharam pontos no mercado, onde as Big Techs e seus algoritmos tenebrosos determinam o comportamento das pessoas. Mas esse assunto vasto é matéria para outra ocasião.

    Seja como for, entre imagens que não garantem a realidade e palavras que não asseguram a verdade, resta um território incerto, onde ver não é conhecer e dizer não significa compreender.

    No ambiente tecnológico ao qual nossa existência está se restringindo, o verdadeiro valor deixa de estar na imagem e na palavra e passa a pousar na desconfiança e na dúvida. Pois se uma imagem já não vale mil palavras e mil palavras não sustentam a verdade, o que resta é o silêncio entre ambas, onde deixamos de consumir as aparências e começamos enfim a perceber, contestar e deixar de ser massa de manobra para monetização de influencers, pastores midiáticos, coaches da prosperidade, pilantras digitais e ciber-picaretas. A humanidade que tanto avançou no progresso técnico, em termos éticos, permanece na idade da pedra lascada.

    Chegamos a um ponto em que a tecnologia, de aliada na busca pelo conhecimento e na construção de um mundo melhor, passou à condição de inimiga do pensamento, algoz da verdade, coveira da democracia.

    Some-se a isso a vulnerabilidade das pessoas crédulas que não desenvolveram discernimento suficiente ou muniram-se de análise crítica, o que as torna presas fáceis para discursos sedutores. E teremos o prato feito para a distopia desoladora que se avizinha, onde nosso papel será o de observadores passivos de nossa própria degeneração.

    Ao ampliar suas potencialidades – e reduzir as nossas -, a informática tende a nos tornar mais idiotas do que já somos.

  • O fiteiro

    Quando fui conhecer o lugar em que viria a residir em Recife; minha mãe, que me acompanhava na ocasião, assinalou: “já sei por onde Lucas vai andar”. Referia-se a um fiteiro, elemento tão presente nas cidades brasileiras e tão característico delas. Contudo, este tinha uma particularidade; não estava na rua, como usualmente ocorre, mas dentro do condomínio, pertencendo a um morador, que tocava o negócio com mais dois irmãos.

    Instalado no apartamento, o fiteiro de Wilson aparecia no meu campo de visão e no trajeto diário para a universidade; entretanto, não na minha familiaridade. Não tardou, porém, para entrar nela, ou melhor, para eu entrar na familiaridade dele. Assim, o “- Bom dia. – Bom dia.” de todas as manhãs foi substituído pelo “- Bom dia, Horácio! – Opa, Lucas, tudo bem? Vê só…”

    Além de compor um cenário, o fiteiro está no cotidiano daquele local e dos que nele vivem. Existem sujeitos que apenas passam por lá, dando um alô sem se deixar ficar, ou somente vão comprar algo, partindo logo após receber o troco. Quando o indivíduo se distancia, vem o comunicado aos novatos, “é fulano, de tal bloco”, ocasionalmente seguido de uma história.

    Sem pauta pré-definida ou até interlocutor previamente conhecido, muitos se direcionam para Wilson, sabem que lá a prosa nunca falta ao encontro. Para determinadas pessoas, a ida ao fiteiro é tão habitual que a despedida vem com um “até amanhã”. Uns bebem, dividindo sua motivação entre o papo e a cerveja; mas tem os que só cavaqueiam, vendo nisso a única razão de estar ali.

    Quem observa à distância pode julgar que, nesses ambientes, só se fala futilidades.

    Elas sempre estão presentes, é verdade, e a isso devemos dar graças; afinal, as parolas são de grande utilidade para a vida. No entanto, no banquinho, na cadeira ou em pé, rolam as mais variadas conversas, desde a mais besta até a mais séria (e, pela besteira, as sérias).

    O menor acontecimento vira tema, tenha se sucedido em casa, no trabalho ou na família. Engana-se quem acha que comentar sobre o tempo é a melhor forma de puxar conversa, é o futebol; basta um “E o santinha, como vai?”, para – depois de receber um invariável “Tá difícil” – o papo se instalar. Assuntos vêm também pelas notícias, as dos jornais e das bocas, com cada um dando sua opinião. Há ainda a política, alguns a abordam fugindo, baixinho; outros possuem menor cautela, “Se Bolsonaro surgir aqui na barraca, eu não atendo ele”, bradou Leto certa vez.

    Diante de uma história que contei, um amigo perguntou sobre o fiteiro: “Dá uma crônica?” Com certeza. Dá crônica, samba e muito mais.

  • Tempo da mudança de atitude!

    Possuo muitas bibliotecas perdidas em sonhos, que descrevem experiências vividas.

    Não lembro de alguns detalhes saborosos de minha infância, mas recordo que meus pais me deram muito amor e carinho, que eu gostaria de rever em meus olhos, tocar novamente aquela risada longa e espontânea, recheada de sorriso e abraço.

    Quando fui à escola pela primeira vez, senti muita vontade de ficar mais tempo com os amigos, porque aquela era a melhor parte da aula, encontrá-los, brincar e viver amizades que nasceram para toda vida.

    Meus aniversários com bolo colorido e gente ao redor, sempre foram uma diversão à parte, haviam presentes, e a garotada estava lá.

    Você também deve ter muitas bibliotecas na mente, que guardam livrinhos com histórias únicas. 

    Momentos que se foram mas que continuam a mostrar o quão passageiro é nosso tempo respirando.

    Que minuto você reservou para saber quanto tempo vai aguardar e realizar o seu sonho, ou de alguém que você ama? 

    Diversas vezes paramos para entender que talvez nossa hora de fechar a cortina esteja bem mais próxima do que pensamos. 

    Um fio de esperança quer que façamos nosso melhor e deixemos para outro dia o pesar de nossas falhas. 

    Aquela reflexão mórbida e tênue, que corre em nossos olhos, cor de cinza com arco-íris, confunde o teste com a realidade, suspira longo para pensar mais tempo. 

    O fato mais concreto é que deixamos de rever o que nos fez bem, e a quem possibilitou novas oportunidades em nosso caminhar zeloso. 

    Não somos independentes em quase nada, até para respirar precisamos pegar o que tem no ar e jogar aos alvéolos, sedentos de pressa em se preencher a cada instante vital.

    É uma busca de sentido como a Eudaimonia, termo grego que literalmente significa “o estado de ser habitado por um bom daemon, um bom gênio”, traduzido como felicidade ou bem-estar, é o viver de acordo com a natureza, como foi a máxima do estoicismo. 

    Sendo dessa forma, a melhor maneira de valorizar o ser humano, porque hoje o que está na moda é sempre o que é novo, e o velho sábio que pode colaborar com a sapiência da próxima geração é esquecido na prateleira. 

    No passado, os velhos é que tinham poder político e cultural. Se o que nos falta é consideração a essa geração, está passando o tempo da mudança de atitude e desmedida ação em reparar esse erro.

    Não se sinta um perdedor pelo que deixou de viver, não vale a pena deixar de se sentir bem, ao olhar em seu espelho.

  • O outro pior encontro casual

    Antônio Maria, numa crônica intitulada “O pior encontro casual”, uma das minhas preferidas, diz que o pior encontro na noite é com o homem autobiográfico que, mal te encontra, num bar, por exemplo, já começa a crônica de si mesmo.

    Nesta crônica, vou dar uns palpites, falar sobre o pior encontro casual para mim.

    Quanto a mim, um personagem que eu detesto encontrar por acaso — não só na noite, mas até na mesma calçada — é o “intelectual do rolê”.

    É aquele tipo de sujeito — pode ser uma mulher também, claro, já conheci várias — que quer ser o mais culto da turma, o mais sábio, um professor.

    É aquele sujeito que, ao te ver, por exemplo, com um livro nas mãos, quer arrancar o livro das suas mãos e colocar outro no lugar: “Você comprou este livro? Não acredito.”

    E vai, sem cerimônias, tirando o livro das suas mãos, colocando outro no lugar, jurando, claro, que vamos agradecê-lo no futuro.

    É aquele amigo que, num bar, não conversa, mas discursa: dá palestras, conferências. “Você acha que vou ouvir este tipo de disco? A vida é curta para eu perder tempo com música ruim.”

    Para gente assim, o gosto musical dos outros é sempre fútil, idiota, pura perda de tempo.

    É um tipo de amigo que, depois que alguém fala que foi ao cinema, estufa o peito e diz: “Eu não sei há quanto tempo não vou ao cinema. Esses filmes de hoje em dia…”

    É daqueles que, num passado — lá pela Renascença —, já viu todos os filmes, ouviu todas as músicas que tinha que ouvir, leu todos os livros, foi a tudo quanto é peça de teatro.

    Aquele amigo que diz: “Eu não vejo filmes no cinema, prefiro os que tenho em casa.” “Eu não tenho mais paciência para ouvir música, já ouvi tantas.”

    Este homem é sempre o intelectual da turma, o conselheiro, o sábio. De repente, quando ele chega, alguém fala em surdina: “Agora ninguém mais fala. Só ele.”

    Disco bom é só o que ele descobre; livro bom é só o que ele cita; teatro bom é só o que ele viu.

    E nós, claro, os amigos, vamos sumindo, como verdadeiros analfabetos, anotando, claro, as dicas dele, que serão importantes para o futuro.

    E continuamos, claro, gastando nosso salário com nossos livros tolos, nos divertindo com filmes ruins, vendo a vida passar em brancas nuvens, sem ter visto todos os filmes, sem ter ido a todas as peças, nos emocionando com um balé insignificante.

    Pois é, meu bom Antônio Maria, os chatos só aumentam desde que o mundo é mundo.

    Mas sua crônica continua muito boa — e cada vez mais atual.

    Não me canso de ler.

    Pelo menos a gente ri um pouco.

    Bebo uma cerveja por você, meu caro cronista.

  • Venerandas folhas amarelas que não são do outono

    E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos.

    Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase oleosas, alguma poeira, nada além. Era só àquela hora da madrugada, dentro do sebo que herdara da bondosa vizinha solitária — a que fazia bolos, a chamava de neta e a ensinara a usar o forno do seu fogão.

    lia.

    Seu nome e a ação que mais repetia nos fins de semana, enquanto seus iguais, de mesma geração, saíam para trocar papos, beijos e telefones. Preferia o silêncio e a rinite que se seguia às lágrimas após terminar outra capa gasta pelo manuseio de tantos dedos. O silêncio era violado apenas pelo som das páginas sendo viradas e pelo zunido da lâmpada âmbar que incandescia o ambiente.

    lia e escrevia; palavras rabiscadas em post-its, em folhas de rascunho, jamais nos livros.

    — “Já amanheceu”, percebe.

    A escuridão não ousou atravessar o translúcido vitral para além da janela.

    Ouve acordes clássicos, mas não há toca-discos, nem som, tampouco Spotify (costuma desligar-se do mundo ao dormir entre autores tão distintos). A tinta da caneta esferográfica continua:

    Não molhei as plantas
    nem levantei da cama
    ambos, os três, ausentes

    como se o dia não me chamasse pelo nome
    ou eu já não atendesse-entendesse

    Abri os olhos
    permaneci
    presa na inquietude dos pensamentos,
    único ruído possível
    no mar quieto
    das palavras que dormem sem vento

    Lá fora, talvez escureça
    talvez eu que me apague

    antes que a luz aconteça

    Talvez se ouçam pneus,
    pessoas que passam correndo,
    respiros curtos,
    solas riscando o tempo
    indo, vindo, indo, vindo
    como se soubessem
    onde termina um [qualquer] momento

    Já amanheceu,
    dizem sem dizer as horas sem voz
    Eu escureci antes,
    por dentro de mim,
    antes de nós

    Não defini o que comer
    se almoço, se jantar
    um desjejum suspenso
    no gesto de não escolher
    o que sustenta continuar

    Escureceu
    repentinamente
    como um corte no dia
    ou uma fenda da mente

    Isso — um trovão?
    ou o mundo desabando em vão?

    Já escureceu
    E, mesmo assim,
    insiste
    quase teimosia
    um novo dia
    dentro e fora de mim

    lia.

  • Cansaço miúdo

    Ele fazia questão de enrolar as grandes meias em pequenas bolinhas para guardar na grande gaveta do pequeno armário.

    Organizava tudo com zelo: bolinhas de grandes meias alinhadas aos globos das pequenas, como se cada par soubesse exatamente o seu lugar — e ousasse não saber.

    As meias usadas iam para pequenas cestas na lavanderia. Esperava recebê-las limpas, enroladas, devolvidas aos seus lugares com a mesma precisão com que haviam saído.

    Pequena tarefa que atribuía à grande dona-de-casa com quem considerava ter se casado.

    As pequenas argumentações da esposa, a respeito do grande inconveniente, eram tratadas como desvios — e, como tais, corrigidas.

    A pequena esposa, munida de grande paciência — essa virtude que se elogia mais em quem suporta do que em quem provoca — encarava a pilha de bolinhas de meia com um pequeno mau humor que já não fazia tanta questão de esconder.

    Desenrolava uma a uma para lavar no tanque, sentava-se no banquinho da cozinha e pensava — afinal, o que é uma pequena mania, perto do grande marido com quem me casei?

    Às vezes, ao devolver uma gaveta “quase” perfeita,
    ele refazia uma ou outra bolinha em silêncio.

    Não por implicância, diria — mas por princípio. Aos poucos, o grande marido foi se tornando um pequeno maníaco.

    E a pequena esposa foi deixando de diminuir as coisas para que coubessem melhor.

    O pequeno casamento foi durando um grande tempo.

    Mas a tarefa de desenrolar e enrolar bolinhas de meia foi crescendo até ocupar mais espaço do que devia — maior, talvez, que o próprio casamento.

    A pequena discussão a respeito das meias foi se repetindo, sem alarde: ganhou tom, corpo, tornou-se um grande embate. Até que ela, parada diante da pilha de meias sujas, pensou — não mais com paciência, mas com precisão:

    Até quando esse pequeno marido vai me infernizar com sua grande exigência de mundo dobrado ao meio?

    A grande esposa desenrolou as meias e enrolou o pequeno casamento.

  • Coisas de vento para prosa

    Coisas de vento, bola no chão, areia, rosto no campo e suor. Pedras. Pedradas. Horizonte longe e nada. Mais nada além da bola e da vontade do jogo entre os moleques. Sol a sol e coisas de vento, sem tempo. Momento.

    Momento de pensar nas coisas do tempo que passou. O menino que fui um dia joga na estrada. Pedras nas janelas. Pedradas. E corre, corre. As pernas tremem de tanto correr sem direção. Sol a sol. Horizonte muito. Dispersão.

    Coisas de vento que nos pega e nos prende em um tempo. O tempo único do coração. O tempo em que tudo é permitido e, com as próprias mãos, desenhamos os sonhos e, também, os enxergamos. Contenção.

    O vento cessa e a bola e os moleques não estão mais lá… Não estão mais no chão. A poeira e os meninos desapareceram assim como as pedras, as pedradas.

    O horizonte continua intacto e mudo. E sol a sol. O tempo. São coisas de vento…

  • O Circo

    Vinha de vez em quando. Talvez uma ou duas vezes ao ano. Mas mudava os ares da cidade toda. Meu irmão que andava lá para o centro da cidade chegava gritando:

    — Anita, Anita! Você não acredita o que eu vi?

    — O que você viu, guri? Conta logo!

    — Eu vi uns três ou quatro caminhão chegando e entrando lá onde ficava o circo!

    — Verdade?

    — Eu juro, ele falava beijando os dedos em cruz.

    Pronto! Era verdade sim!

    Criava um frenesi. Tudo começava com o carro de som. Nesse belo dia, passava em frente de casa a charanga com alto-falantes gritando a novidade. E todos corriam para a frente de casa a fim de ver e ouvir aquele que anunciaria a chegada da magia e da alegria, para toda a cidade!

    — Breve nesta cidade, o Gran Circo das Américas! Malabaristas, palhaços, globo da morte, e o inconfundível homem-faca.

    — Venham todos, teremos várias atrações: a mulher barbada, macacos, elefantes, tigres, girafas e os pequenos macaquinhos jogadores de futebol! Teremos também os desfiles dos pôneis e dos cavalos dançantes! Venham! Venham todos!

    A expectativa era criada na cidade, os ares mudavam, pelo menos para nós que queríamos ir ao espetáculo, mesmo sabendo que não tínhamos dinheiro!

    Meus irmãos, assim como outros garotos, caprichavam nas engraxadas de sapatos. Iam para a frente dos hotéis, lojas de fazendeiros e faziam seu merchandising.

    Homens com botas brilhantes e sapatos limpos e cuidados voltavam a ser vistos circulando pelas calçadas, porque todos estavam no clima bom do circo! Nossa mãe fazia seus milagres também, porque as meninas tinham que ver as bailarinas, os palhaços, os trapezistas, e ela iria junto, claro!

    O circo da minha infância se instalava num terreno pertencente à Companhia de Rodagem CER-3. Então, esse lado da cidade, onde se concentrava a praça, o coreto, a Prefeitura, o Clube Municipal, a Igreja Matriz, o Cinema, o Ginásio e a sede da Companhia, era o lugar mais cheio dessa época.

    Nós chegávamos para a sessão da tarde do circo. As bandeirolas coloridas enfeitavam o pátio. Carrinhos de pipocas, vendedores de balões, aviõezinhos feitos de latinhas brilhosas, pirulitos puxa-puxa, algodão-doce, sonhos; se o circo fosse dos completos, teria atrações pelo lado de fora, como pescarias, tiro ao alvo, trens fantasmas. Em filas, com uma alegria só, íamos adentrando e nos posicionando, mas sem deixar de cutucar uns aos outros com nossos saquinhos de balas ou pipocas. Os mais abastados sentavam-se em semicírculos de cadeiras, os ingressos populares iam para arquibancadas de madeira chamadas de “poleiros”.

    Mas o que interessava era que estávamos lá. Dentro do circo! A música? Constante! Alegre! Apropriada! O frenesi? Aumentando! E o palhaço? Andando pelo meio do público, fazendo suas graças, se tornando criança de novo. As bailarinas lindíssimas testando as cordas de malabarismos, e lá ao fundo o globo da morte só esperando para ser trazido ao centro do palco. Acima de nossas cabeças, os cabos dos trapézios com a corda bem esticada e a rede embaixo. Eram tantos e tão variados os mistérios coloridos de um circo, que quando tocava a terceira sirene, as luzes diminuíam, e retumbava a voz:

    “RESPEITÁVEL PÚBLICO, BOA TARDE! EIS AQUI O GRAN CIRCO DAS AMÉRICAS”, o povo explodia em gritos e palmas! Pronto: estava criada a MAGIA DO CIRCO! A magia que me acompanha por toda a minha vida!

  • Líbano libre

    Sou descendente de libaneses. Com muito orgulho! Todos os meus quatro avós provieram daquele exótico e restrito pedaço de terra, cujo tamanho não chega à metade do menor estado brasileiro, Sergipe.

    Mesmo sendo um país tão pequetito, enviou para o Brasil, ao longo do século XX, tanta gente que hoje há mais descendentes libaneses no Brasil do que no próprio Líbano! Um em cada 20 brasileiros. São por volta de 10 milhões de ‘turcos’, como erroneamente costumavam ser chamados no tempo em que eu era criança. Certamente, a maior comunidade libanesa do mundo.

    A oportunidade de desenvolver seus pequenos negócios foi um atrativo para os libaneses se aventurarem para essas distantes terras tropicais. E, diferentemente dos italianos, portugueses e japoneses, espalharam-se demográfica e democraticamente por todos os estados de Norte a Sul. E deram-se muito bem em todos. Começaram cuidando de “lojínias” e se expandiram para outras áreas de atuação.

    No campo da política, os ‘patrícios’ tiveram uma participação notável. Encontramos exemplares em todos campos do espectro ideológico, da direita à extrema esquerda. Nomes de relevo como: Paulo Maluf, Paulo Skaf, Anthony Garotinho, Espiridião Amin, ACM Neto, Gabriel Chalita, Adib Jatene, Guilherme Afif, Michel Temer, Gilberto Kassab, Tasso Jeraissati, Beto Richa, Pedro Simon, Omar Aziz, Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Patrus Ananias, Fernando Haddad, Guilherme Boulos, Jandira Feghali.

    Musicalmente, os ‘brimos’ se destacaram, especialmente na MPB e no pop nacional: Ivon Cury, Tito Madi, Pedrinho Mattar, João Bosco, Fagner, Almir Sater, Egberto Gismonti, Duo Assad, Badi Assad, Mariana Aydar, Bruna Karam, Nonato Buzar, Tunai, André Abujamra, Evandro Mesquita, Frejat, Chorão, Fauzi Beydoum, Wanderléa, Alok e por aí vai. Parece que só não entraram na seara do sertanejo, do gospel e do pagode romântico. Que bom!

    Em outras áreas da cultura, corre o sangue libanês em gente como Beto Carrero, Luciana Gimenez, Sabrina Sato, Sônia Abrão, Leda Nagle, William Bonner, Roberto Duailibi, Antônio Abujamra, Monark,  Amyr Klink, Juca Kfouri, Jamil Chade, Davi Nasser, Ibraim Sued, Ivaldo Bertazzo, Fauzi Arap, Betty Milan, José Simão, Janete Clair, Malu Mader, Maurício Mattar, Armando Bogus, Felipe Carone, Arnaldo Jabor, Walter Hugo Khouri, Fernando Gabeira, Andréia Sadi, Guga Chacra, Júlia Duailibi, Marina Person, Emerson Kapaz, Luís Nassif, Tárik de Souza, Almir Chediak, Aziz Ab’Saber, Emir Sader, Edmar Bacha, Pérsio Arida, Antônio Houaiss, Mário Chamie, Milton Hatoum dentre tantos.

    A culinária é capítulo à parte. Provindos de um país onde alimentar-se é parte de um cerimonial de cordialidade e compartilhamento, os caprichados quitutes árabes caíram no gosto do brasileiro: esfiha, kibe, homus…

    Embora tenha-me convertido ao vegetarianismo, abro exceções para ingresso em meu restritivo cardápio verde do quibe cru, do charutinho de uva e da kousa (abobrinha), recheados com carne bovina, concessão que faço em nome da relevância afetivo-cultural. Mas o tabule, compatível com meus recentes hábitos alimentares, ainda reina como manjar dos deuses. Não o bastardo, empapado com trigo como servido em restaurantes de quilo, mas o autêntico com pouco trigo, bastante salsinha, hortelã e um leve toque de pimenta síria. Hummm!

    Antigo lar dos fenícios (desenvolvida civilização que, dentre outros legados, criou um sistema de sinais que deu origem ao nosso alfabeto), o Líbano é um país singularíssimo. Embora faça parte do mundo árabe, distingue-se por gozar de uma situação única, onde muçulmanos xiitas e sunitas, cristãos maronitas, melquitas, armênios, ortodoxos, drusos etc. convivem pacificamente.

    É o único país do mundo, que eu saiba, administrado por um arranjo institucional com participação das principais religiões, garantindo tolerância no exercício dos diferentes credos. Bem diferente de outros da região.

    A capital Beirute, a “Paris do Oriente Médio”, é uma metrópole com vida cultural pulsante, com relevantes traços arquitetônicos e históricos, onde o moderno coexiste com a tradição.

    Estrategicamente localizado, às margens do Mediterrâneo, ladeado pelo gigantismo da Síria e pelo expansionismo de Israel, o espremido Líbano acabou tendo o setor Sul de seu território ocupado pelas milícias do Hezbollah, que lá se instalaram como resistência à ocupação israelense de 1982 e se tornaram mais poderosas que o próprio exército oficial.

    Com o pretexto de combatê-las, as forças de Israel apoiadas pelos EUA têm promovido ataques impiedosos e indiscriminados, massacrando a população civil de índole pacífica, sem envolvimento com atividades belicosas, que apenas deseja continuar tocando seu inofensivo dia a dia.

    Como consequência, esse pacífico país, exemplo para o mundo de convivência entre diversas culturas e religiões vem sendo dizimado, sob o olhar conivente do mundo, inclusive da numerosa, mas alienada colônia libanesa no Brasil, que de tal modo se acomodou por aqui que parece ter-se desconectado de suas origens.

    Minha maior frustação é não ter podido conhecer pessoalmente, em seus áureos tempos, a sagrada terra dos meus antepassados, usufruindo in loco a célebre hospitalidade de seu povo e ter ouvido da boca dos meus conterrâneos um afetuoso “ahlan wa sahlan” (seja bem-vindo!)

    Textos assinados não representam necessariamente a opinião do Crônicas Cariocas.

  • A outra

    Há muito Zuleide desconfiava de que Osvaldo tinha uma amante. Só faltava saber quem era. Um dia o mistério acabou graças a uma denúncia anônima: ela se chamava Ernestina e trabalhava com ele na repartição.

    Zuleide pensou em tirar satisfação. Explicaria que era a mulher de Osvaldo e lhe daria um ultimato: ou ia embora da vida dele, ou alguma coisa de muito grave poderia lhe acontecer. Chegou a pegar o telefone e ligar. Depois de ouvir um “alô” do outro lado, tentou ser direta:

    – Aqui é a esposa de Osvaldo!

    – Pois não.

    A voz tranquila, quase glacial, tirou-lhe a vontade de dizer qualquer coisa. Chegou a sentir remorsos por ter se rebaixado tanto. A outra dissera “pois não” como quem perdoa um incômodo ou se dispõe a fazer um favor.

    Zuleide passou a ter Ernestina como uma obsessão. De noite, ao se deitar, só pensava nela. E quando dormia, era o fantasma da outra que vinha perturbar seu sono. Ao acordar (sempre muito cedo…) e ver o marido placidamente ressonando, imaginava que aquela placidez se devia aos bons momentos que ele passara com a amante.

    Despeito, raiva, vontade de matar Ernestina –- a vida de Zuleide agora girava em torno disso. Já não tinha disposição para trabalhar, nem ânimo para se divertir. Gerente numa loja de brinquedos, vez por outra suspendia o serviço para ir ao banheiro chorar. Na volta, percebia que as colegas faziam comentários sobre seus olhos vermelhos.

    Noutros tempos, quando estava de folga, gostava de ir à tarde ao cinema; era fã de desenhos animados americanos. Agora, quando fazia isso, ficava pensando que naquele momento Osvaldo poderia estar trocando olhares com a outra, fazendo planos para se encontrarem mais tarde. Se ele vinha de noite com aquela história de “hora extra”, ela já sabia de que se tratava.

    Um dia tomou coragem e foi ao prédio onde a mulher morava. Tocou o interfone e pediu para subir.

    – Pode deixar que eu desço – respondeu a outra. Zuleide não esperou.

    Contava intimidar a rival, acossá-la, dar-lhe um ultimato. Em vez disso, era Ernestina que se dispunha a falar com ela. Sem nenhum escrúpulo ou hesitação. Quem afinal estava errada? Quem tomava um marido? Quem desrespeitava um contrato? Remoía-se por dentro ao pensar nessas contradições.

    Como a obsessão se tornara insuportável, resolveu tomar uma atitude. Não podia continuar pensando na outra daquela forma. Queria viver, respirar, sair daquele circulo de ferro… Círculo de ferro! Essa imagem a fez, quase inadvertidamente, olhar para a aliança no anular esquerdo. O círculo. O ferro. A dor.

    Então era isso! Num rompante, tirou a aliança e jogou-a contra a parede. Vendo que errara a pontaria, apanhou o pequeno objeto e o arremessou pela janela. Agora pronto: não havia mais Osvaldo, nem rival, nem traição. Sentiu-se aliviada e triunfante. Quando o marido chegou, minutos depois, comunicou tranquilamente a ele a decisão de ir embora.

  • Cinema com meus olhos

    Ver filme é um prazer solitário, mesmo em grupo. Porque não se vê o filme pelos olhos dos outros. Você compartilha a experiência do momento e, não raro, as sensações que cada um teve na exibição.

    Mas o entendimento e os sentimentos que nascem a partir dessa reflexão são únicos. Não há como transferi-los ou recebê-los.

    Nunca li resenha de filme antes de assisti-lo. No máximo, uma sinopse bem curtinha para saber se é faroeste ou argentino. Nada além disso.

    Não sou contra as resenhas, há vários bons profissionais que escrevem textos sobre cinema maravilhosamente bem. Mas me reservo o direito de só conhecer a visão deles da obra depois que eu tiver a minha.

    Não quero ler nada que possa influenciar, de alguma forma, minha capacidade de perceber o que será projetado na tela, do cinema ou da televisão. Amo a sensação de ver o filme como se tivesse, dentro da cabeça, uma tela nunca antes usada.

    As impressões que as cenas vistas me causarão vão cobrir o espaço em branco dessa tela. Ao final, a obra pictórica mental marcará meu conjunto de sensações e lembranças da obra. Cinema é bom demais.

    Diferenças de opiniões sobre filmes são bem-vindas e saudáveis. Vou ao cinema desde, sei lá, quando minha mãe pode me levar. Mas nunca encontrei ninguém com as mesmas percepções que as minhas e, consequentemente, com os mesmos sentimentos surgidos após cada projeção. Logo, quase nunca com as mesmas opiniões.

    Na adolescência, me lembro dos debates acalorados com meus amigos nerds — naquele tempo, isso era xingamento — depois de assistirmos, juntos, “Star Wars – V: O Império Contra-Ataca”. Vimos o mesmo filme, mas cada um enxergou algo diferente.

    E o que dizer do meu adorado “Dersu Uzala”? Até hoje não encontrei ninguém, além de mim, que tenha chorado depois de assisti-lo.

    No fim, a gente enxerga o que quer. Ou não. Porque não tem nada mais gostoso que ser atropelado por uma revelação.

    A revelação é uma onda que nos atinge e nos atravessa sem pedir licença. A experimentação fora da regra, fora da linha-guia.

    Porque, no fim, quem gosta de ser conduzido é gado.

  • Um tom diferente na tinta da retina!

    No Renascimento foi inventada a sopa fortificante e restauradora, feita de carne de boi, carneiro e legumes, servida como refeição no século XVIII aos viajantes ou indivíduos extenuados, após um longo dia de trabalho. 

    Era servida nas estalagens, tabernas e hospedarias, e devido aos seus efeitos benéficos, ganhou o nome de restaurant.

    Esses lugares não entregavam refeições para quem batesse em suas portas, e não seguiam o conceito de apresentar um cardápio onde o cliente pudesse escolher o prato que desejasse, tinham apenas a sopa restauradora.

    O Sr. Boulanger (em francês, padeiro), ganhava a vida como vendedor destes caldos, e colocou uma placa com dizeres em latim em seu estabelecimento (Rue des Poulies, em Paris), que dizia o seguinte: 

    — “Vinde a mim, vocês que têm o estômago em penúria, e eu os restaurarei”. 

    Ele foi o primeiro a anunciar a venda destes caldos fortificantes, que recompunham a saúde de quem tinha problemas de digestão, e assim se deu a origem da palavra restaurante. 

    Este estabelecimento se firmou na França após a Revolução destituir a aristocracia, e deixar sem emprego um contingente de serviçais hábeis no trato com os alimentos. 

    Com a chegada de muitos provincianos à cidade, e ninguém para cozinhar para eles, surgiu a oportunidade da criação do hábito de fazer refeições fora de casa, dando início ao surgimento do restaurante. 

    Foi o La Grande Taverne de Londres, fundada em 1782, de propriedade do senhor Antoine Beauvilliers, onde foi criado o padrão do restaurante moderno, ao combinar 4 pré-requisitos essenciais: um salão elegante, garçons bem treinados, uma adega bem escolhida e uma cozinha requintada. 

    Uma evolução maravilhosa que veio ao encontro do prazer em reunir pessoas e celebrar a vida.

    Cardápios orientais, a comida do Mediterrâneo, os festivais gastronômicos pelo mundo, as sobremesas e os banquetes, tudo envolto ao prazer em desfrutar momentos da Dolce Vita. 

    Da necessidade à formação profissional, surgiram mestres da culinária que desenharam um novo rumo a uma especialidade repleta de particularidades, que agregam um pouco da cultura de cada povo onde nasceram.

    A rua dá um tom diferente na tinta da retina, que não encontramos em casa, e a necessária convivência com o mundo nos faz gente para podermos saber o que somos, e o que podemos ser para o outro.

  • Como era gostoso o meu Pasquim!

    Quando o primeiro Pasquim chegou às bancas de jornal e revistas, como o sol de uma canção daquele compositor baiano, era 26 de junho de 1969. A memória, ainda sem os muitos livros, discos e filmes que hoje ocupam suas prateleiras, lembra daquela boa notícia que me foi trazida por Flávio, sujeito mais velho, experiente e o mais letrado entre os colegas que conheci no bairro da Torre, e que gostava de ler e colecionar Tex Willer.

    Eu, que nunca tive tendência ao babonato, à babação ou coisa parecida, sem qualquer vocação para ser um ex-croto, quando vi a capa que o Ziraldo — um craque nessa área, o nosso camisa 10 — fez em homenagem ao JK, que acabara de ser convidado para ouvir e cantar o seu Peixe Vivo em outra cidade, confesso: vivi e me vi babando. Nada mais bonito e poético do que um JK subindo ao céu, com as demais letras presas ao corpo gráfico.

    Se, aos sábados, costumava dar uma voltinha no Ponto de Cem Réis — o “escritório” que um dia foi do meu injustiçado amigo Livardo Alves* — para verificar in loco como ele está ficando de cara nova, moderna, numa morosidade de matar Salvador Dalí — e o daqui — de tédio, naqueles outros sábados, tomado por uma fome de leitura de anteontem, corria à banca mais próxima para pegar o meu Pasquim.

    A fome pasquinesca era tamanha que “comia” a capa e, mesmo que os olhos gritassem de fome de ver/comer, guardava o resto — Fausto Wolff, Sérgio Augusto, Henfil, Paulo Francis, estes, particularmente — para depois da ressaca das muitas cervejas que Bil (The Kid) nos servia no Blitz; e Dantas, o careca, com Pilsen supergelada, acabava de nos matar na Flor da Parahyba.

    Acho que foi o primeiro hebdomadário, o nome feio (botem feio nisso), com que eles, uns gozadores, chamavam esse tabloide que furou, de verdade, o cerco da sisudez de um regime sem graça e autoritário.

    Tempos bons. O Pif-Paf, à época quase um desconhecido para este escriba, editado por Millôr e recentemente (re) apresentado, em seus únicos oito números, pelo intelectual, bom caráter e ótimo sujeito Márcio Roberto, muito antes de Drummond vaticinar, era apenas um quadro na parede da minha memória de papel.

    O Pif-Paf fez 60 anos há dois anos — insuportável essa história de “há dois anos atrás”, que nossos cultos e incultos políticos, repórteres e entrevistados costumam usar para aumentar e ratificar uma distância que o “atrás” dispensa. O Pasquim, um pouquinho mais novo, no ano da graça de 2026, completa 57 anos. Lembro que a primeira capa trazia a cara de Ibrahim Sued, então o mais famoso colunista social da imprensa brasileira.

    Se não bastasse um tabloide que, em apenas dez semanas — um pequeno pulo para uma turma genial, mas um gigantesco salto para a história da nossa, de novo, verde e amarela imprensa brasileira —, saltou de 28 mil exemplares para 200 mil, além desse gigante do qual falei no começo do parágrafo, trazia um furo tão grande que dava para ver, a olho nu, o que acontecia na terra de Akira Kurosawa.

    Enquanto a grande imprensa disputava, discutia e gritava em letras maiúsculas, tentando descobrir quem seria o sucessor de Costa e Silva, o Pasquim anunciava que o próximo presidente seria Emílio Garrastazu Médici (o mesmo Garrastazu que Tim Maia batizou como nome de seu esconderijo secreto, onde se trancava, sozinho, bem ou mal acompanhado, para fumar maconha e cheirar cocaína), a mais perfeita caricatura de ditador que ainda trago na memória.

    Mas, com todas as devidas vênias do mundo, achei a capa do Ibrahim Sued tão comum quanto — força de expressão — o sabão que minha mãe usava para lavar as caçarolas enegrecidas pela fumaça do carvão do seu fogão a lenha. Porém, capa mesmo, Márcio, inesquecível, foi aquela do JK subindo para o céu.

    Bons – bons?! – tempos aqueles, hein?

    Livardo Alves nasceu em João Pessoa, no dia 21 de setembro de 1936, e faleceu no dia 16 de fevereiro de 2002, em João Pessoa*.

  • Livros Restantes

    “Livros Restantes” é um filme nacional dirigido por Márcia Paraíso e lançado em 2025. Conta com as atuações de Denise Fraga, Augusto Madeira, Manuela Campagna, entre outros nomes do elenco.

    A história narra um momento específico da vida da protagonista Ana, quando ela se muda do lugar onde viveu toda a vida para Portugal.

    Desse fato, a história gira em torno de recordações e lembranças vividas por ela ao longo da vida no lugar onde nasceu e foi criada.

    Toda a história acontece tendo como pano de fundo um elemento muito importante na vida da personagem: seus livros. Como professora e apaixonada por literatura, Ana passou por um processo de doação de grande parte de seus livros em razão da mudança. No entanto, uma ínfima parcela, mais precisamente cinco livros, permanece em sua estante, permitindo que ela reviva momentos de seu passado.

    Dessa forma, ela decide devolver os livros com dedicatórias que recebeu de pessoas que passaram por sua vida em diferentes momentos. Tudo acontece sob uma grande carga de volta ao passado, seja para relembrar momentos bons, seja para recordar aqueles que são ruins.

    O filme se desenvolve com forte carga emocional, cercada por tudo o que perpassa a vida da protagonista. Desde sua intensa ligação com a família até o vínculo com o lugar onde nasceu e foi criada. É bonito ver a forma como o filme desenvolve as vivências dos personagens. Vale também destacar o modo como dá visibilidade a temas que ainda aparecem como tabus em uma sociedade extremamente conservadora como é a que vivemos. Entre eles, destacam-se a homossexualidade, o veganismo e a pedofilia.

    Por tudo o que foi exposto, sem deixar de destacar a impressionante atuação de Denise Fraga, uma gigante em cena, “Livros Restantes” se revela um filme leve, sem abrir mão da importância de abordar temas que precisam ser colocados em discussão. Vale a pena assisti-lo.

  • Dias melhores

    Você já imaginou se a vida te convidar para uma experiência incrível num dia que, para você, não seria dos melhores?

    Ocorre-me que pode nos acontecer algo extraordinário, justamente quando a gente não está no melhor dia. Você não está com a melhor roupa — estava com pressa, pegou a que tinha e saiu. Uma chuva te pega no meio do caminho, um carro passa em alta velocidade e ensopa a sua roupa inteira. Ou então você pisa numa poça d’água e o seu sapato fica no pior estado. O botão da sua calça — ou o zíper, um dos dois — arrebenta. Ou, se for num dia de calor, você está com aquela pizza debaixo do braço. Aquele dia em que a barba do homem está malfeita, em que a mulher não conseguiu horário na manicure. Aquele dia em que a gente prefere não ser visto, prefere não ser lembrado, prefere circular por aí, anônimo ou anônima.

    Você já parou para pensar que, justamente nesse dia, pode acontecer algo? Que a vida pode te fazer um convite?

    Pensei nisso outro dia, quando soube que um ator de novelas, de quem eu sou muito fã, estaria no shopping da minha cidade. Eu soube tão de repente, que não deu tempo de pensar no restaurante em que eu almoçaria. Eu também não tinha marcado hora com o barbeiro. A barba estava por fazer — estava horrível, vamos dizer assim.

    Mas o que fazer? Ele estava ali, no shopping, promovendo a novela que seria reprisada na televisão. E, mais do que isso, promovendo um concurso de embaixadinhas, para quem estivesse passando — algum rapaz, alguma moça, que gostasse de futebol.

    Eu simplesmente adorava aquele cara. Tinha visto novelas, entrevistas, teatro. Para mim, é um dos melhores atores. E ele estava ali, em plena terça-feira, num shopping, ao meio-dia, fazendo um evento.

    Eu, sinceramente, estava num dos meus piores dias: a barba por fazer, faminto — porque o encontro era no horário de almoço. Mas, mesmo assim, eu fui. Dei um abraço, olhei nos olhos dele e falei:

    — Por favor, continue nos presenteando com o seu talento, e com a sua arte.

    Ele sorriu, e disse:

    — Muito obrigado.

    Foram só essas palavras, mas eu acho que ele, como ator, entendia a intensidade do que eu estava sentindo — e retribuía, lá, da maneira dele.

    Quando acabou tudo, eu fiquei olhando ele andando pelo shopping, perto daquela cafeteria onde eu sento, tantas vezes, para comer uma torta ou tomar um cafezinho fumegante. E, naquele momento, eu achei a vida tão doce.

    Quando eu olhasse para aquele lugar, eu diria: “Puxa vida, o meu ator favorito passou por aqui.” Eu acho que a torta ficaria mais saborosa, o cafezinho ficaria mais gostoso, o lugar ficaria mais bonito.

    Aí eu pensei: o que nos leva, na vida, a esperar pelo melhor momento?

    Coisas extraordinárias podem acontecer com a gente quando o botão da camisa arrebenta, quando a gente esquece o guarda-chuva e toma um banho de um carro que passa em alta velocidade, quando a barba do homem está por fazer, quando a mulher não conseguiu ir à manicure, naquele dia em que a gente está com uma camisa de que não gosta tanto, ou em que o perfume favorito acabou.

    Aí a gente se pergunta: “E se eu deixasse para um outro dia?”

    E então você se dá conta de que não existe um outro dia. Talvez não haja um outro dia.

    Vai ter que ser naquele dia mesmo.

    Tem dias em que a gente sente vontade de passar pelo outro, e deixar de cumprimentar. Baixar a cabeça, baixar os olhos. Tem dia que dá aquela vontade — aquela vontade de ser monossilábico, diante de um cumprimento, de recusar um abraço, de recusar tudo.

    Mas, naquele dia, eu não recusei. Fui, dei um abraço naquele ator de quem eu gostava tanto — e gosto. Tirei as fotos, e postei, mesmo não estando no meu melhor dia.

    Quando saí dali, enquanto caminhava até o meu restaurante favorito, caiu, simplesmente, uma chuva muito forte. E eu cheguei lá, ensopado.

    Puxa vida… tanta coisa dando tão errado, e tão certo, ao mesmo tempo, no mesmo dia, e na mesma hora.

    Mas eu sempre penso: a gente nunca deve esperar estar no melhor dia, para viver a vida. Porque esse próximo dia, esse “melhor dia”, pode, simplesmente, não chegar.

    Fui para casa com a certeza de que tinha construído boas memórias.

    E já aconteceu de eu me arrumar todinho, passar perfume, escolher a melhor roupa, sair de casa com o dinheiro contado — e, simplesmente, as coisas não acontecerem como eu queria.

    Por isso, da próxima vez que eu tiver que viver alguma coisa, que aproveitar a vida, eu vou aproveitar. Mesmo se o botão da minha camisa estiver arrebentado. Mesmo se eu estiver molhado de chuva.

    Porque é assim que a vida tem graça.

  • A cana na moenda

    Os caixas do supermercado entraram em colapso, e eram sete horas da noite de um sábado em São Paulo.

    A escala seis por um a devorar a sanidade dos funcionários. Filas com famílias inteiras com carrinhos cheios de caixas de leite e cerveja, misturadas a pessoas que queriam pagar apenas por um ou dois produtos e desaparecer dali o mais rápido possível.

    Crianças gritando porque pediam aos pais pelos produtos açucarados estrategicamente colocados próximos aos caixas, superexpostos ali exatamente para momentos como aquele.

    Essas crianças certamente já ouviam a palavra ‘crise’, pelo menos em algumas de suas modalidades, mas ainda não tinham consciência do desfalque monetário que aquelas caixas de leite e sacos de feijão fariam no orçamento de seus pais., impossibilitando gastos com excessos nada saudáveis.

    Um casal que olhava para aquele pandemônio à espera de pagar por frutas e pacotes de aveia, começou a conversar sobre o tempo de vida perdido nessas ocasiões.

    Torciam com pouca esperança para que  aquelas crianças não crescessem acreditando que todos os caminhos para a felicidade fossem através de compras.

    Ele falou: “Agora com a guerra torando, tudo vai ficar ainda mais tosco.”

    Ela respondeu: “Pelo menos, não estamos na pele laranja de Donald.”

    E olharam novamente ao redor, a cena geral horrenda, em que o protagonista é o lugar, e não alguma pessoa em especial.

    Onde o dinheiro e a falta dele faz um grande salão hospedar o pior do ser humano.

    E ela com uma camiseta do Yo La Tengo e ele com uma do The Saints.

    Pessoas ao redor, também esperando na fila, às vezes faziam menção de entrar na conversa, mas se continham quando percebiam que o teor do que era dito por eles podia ser direcionado a elas próprias e aos constrangimentos por elas causados.

    A conversa evoluiu da chateação de uma fila de supermercado para problemas sociais crônicos.

    Eles partiam do princípio de que se a pessoa dependesse de um emprego formal, em que dorme pouco, sai pela manhã mal alimentado, sempre correndo e atrasado, sempre com problemas no transporte público, ou mesmo num carro confortável, porém preso por horas no trânsito, só para chegar ao local de trabalho, então a pessoa não apenas está absurdamente longe de pertencer a qualquer tipo de elite, como deveria reclamar dessa péssima qualidade de vida.

    Uma minoria consciente de fato reclama, enquanto a absoluta maioria agradece, alguns inclusive tentando ostentar o que nunca teve, tem ou terá.

    Foi mencionado no início apenas o começo do dia desse cidadão médio, que tem emprego e casa.

    Ele terá ainda que lidar com a falta de dinheiro para contas básicas, tendo que reinventar o conceito de lazer, uma vez que esse setor é automaticamente eliminado de sua existência por falta de tempo, energia e dinheiro.

    Possivelmente não teria nem mesmo vontade, pois teria desenvolvido depressão, no caso de realmente pensar sobre o tempo de vida perdido a caminho do trabalho, e depois executando o trabalho que geralmente enriquece mais alguém que já é rico, doando seu tempo e energia.

    O tempo que sobra para os que tem família é curto e imerso em tensão, devido a problemas financeiros e de estresse pelo cotidiano penoso.

    Um cotidiano tão cruel que condiciona a massa a pensar que essa vida padrão é plenamente natural, de tanto que o povo está acostumado a sofrer.

    Ali havia tempo para que o desespero social pela precária situação econômica do país se manifestasse.

    Pais de família abordando clientes na fila, com uma cesta pronta, com produtos alimentícios básicos, pedindo a eles que façam o pagamento.

    Era algo sobre fome, apelidada de ‘insegurança alimentar’.

    Havia o tiozão do churrasco, com camiseta da CBF, comprando cerveja e carne congelada, pais com carrinhos com dezenas de litros de leite, morador de rua comprando corrosivos corotes coloridos e o sistema ineficaz de estrutura da bilionária rede de supermercados para aglomerar toda aquela gente ali.

    Isso fazia o casal falar ainda mais, pois tinham ideia do que significava aquele desespero.

    Tinham o dinheiro para a sua compra contados em moedas pequenas.

    Algumas das pessoas na frente e atrás deles na fila levavam carrinhos repletos de mantimentos diversos, a um custo fora de qualquer possibilidade para os dois.

    Era um casal para o qual o depois de amanhã já era uma perspectiva de longo prazo, mas acima de tudo, uma perspectiva otimista, de que o depois de amanhã chegará com a humanidade ainda sobre a crosta terrestre.

    Naquele momento em que todos ali eram iguais, presos numa capsula de desolação e ansiedade, o casal podia jurar que aproveitaria cada segundo da vida de uma maneira mais cuidadosa, a partir do instante em que deixassem aquele lugar.

    E nem estavam exatamente mal-humorados. O que havia era um tipo de perplexidade que se dá justamente quando a cena é repetida.

    O homem que alegava ser pai de família e pedia pelo pagamento de seu cesto de compras se aproximou do casal e ficou constrangido de pedir algo a eles, depois de uma recusa fria do tio do churrasco.

    Não apenas por ter visto o modesto conteúdo vegano do cesto do casal, mas também por ter ouvido parte da conversa durante suas tentativas de pedir ajuda.

    Já sabia até mesmo que os dois iriam vender canetas no dia seguinte, nas proximidades de um local que aplicaria a prova do ENEM.

    Já haviam feito isso várias vezes. Ajudaria na receita doméstica e renderia um rolê no domingo.

    Tanto o cara com camiseta do The Saints como a garota com camiseta do Yo La Tengo eram graduados.

     Eles olhariam para aqueles estudantes cheios de medo, ansiedade e majoritariamente sob a mais profunda falta de preparo.  

    Sentiriam mais uma vez todo o desprezo por políticos que deixaram de herança essa situação vergonhosa.

    Sentiriam também alívio por estarem ali sem serem um daqueles estudantes, mas sabendo exatamente o perrengue que aquilo representa.

    Os portões se fechariam, eles olhariam o desespero dos que ficaram de fora e depois se deitariam na grama, já com dinheiro para ir novamente ao mercado, à noite. I

    Para aquele domingo, estaria ótimo.

    A soma da renda de ambos, os classificava como classe média. Antifascistas desde antes de nascerem, de acordo com eles.  

    Diziam sofrer de vergonha alheia a cada vez que se agrupavam por motivo alheio à vontade.

    Mas ainda era sábado, e com a classe média ali misturada aos mais pobres e geralmente sem qualquer empatia com eles.

    A classe média que está tão longe de ser rica, parece ainda mais desolada e vulnerável.

    O medo de empobrecer mais é perene, e atinge o ápice naquela hora da verdade capitalista.

    O pavor de atingir um nível de dificuldade financeira que já é tão concebível nos pesadelos que preenchem as poucas horas de sono semanais castiga milhares de pessoas ainda associados a esta camada social.

    A parcela consciente desse grupo, naturalmente em número muito menor, tem vergonha e constrangimento, desesperando-se diante do fato de o rebanho ser completamente cego.

    Quando finalmente chegou a hora de pagar e sair, a garota do caixa, enquanto passava os produtos, perguntou a eles o que eram um do outro. 

  • Jogo das palavras

    O homem não é o que fala; na maioria das vezes, é o que sente, e o que ele sente, ele não fala; por isso, muitas vezes, no silêncio, engana. E então, o homem não é homem, é puro sentimento?

    Estranhos são os jogos das palavras; confundem e nem sempre se entende o que se quer dizer. O tempo nos faz endurecer, segurar as lágrimas, e entramos no jogo da vida sarando as nossas feridas. E então, deixa-me falar, deixa-me dizer aquilo que não queres ouvir.

    O erro da escolha aberta e cruel nos levou ao caos. Nossa liberdade, tolhida pelo medo e pela insegurança, tira das nossas mãos uma democracia plena para nos tornarmos reféns de um incapaz que usa o poder para si próprio — uma indecência.

    Lutar? Como? Atados a pacotes infelizes, mergulhamos, sem respiradores, num mar de lama e vamos perdendo, aos poucos, o ar, pois aquele que nos ajudava a relaxar torna-se tóxico, e ficamos à deriva…

    Estranho são os jogos das palavras…

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