Crônicas

  • Ouvir estrelas

    “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, Perdeste o senso!”

    Lembrei-me desses versos de Olavo Bilac ao tentar responder a algumas perguntas que eu mesma me fiz.

    Por que escrever histórias de crianças? Por que voltar a acontecimentos tão simples, guardados há tantos anos na memória?

    Ao escrever de forma lúdica, trazendo de volta pequenos episódios do meu próprio cotidiano, percebi que não precisava encontrar explicações lógicas.

    Penso que seja apenas uma maneira de recordar da infância e reencontrar as travessuras, as descobertas e aquela maneira tão particular que as crianças têm de compreender o mundo.

    Foi então que encontrei nas palavras do poeta a resposta que procurava:

    “Só quem ama pode ter ouvido. Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

    E eu, que nunca ouvi estrelas, continuo ouvindo as vozes daquelas crianças, meus filhos, num espaço que hoje me lembra um espelho reverso.

    Ora direis: Ouvir estrelas! 

  • Desaparecimento de Amarildo sem Porto

    Depois de Carlos Drummond de Andrade*

    “O tempo ainda é de fezes, maus poemas, alucinações e espera.”

    Pede-se a quem souber
    do paradeiro de Amarildo
    avise sua residência,
    um barraco na Rocinha
    com a mulher e seis filhos
    órfãos antes do tempo,
    agora sem tempo nem para chorar
    e outras atividades básicas
    da pobreza quase indigência.

    Pede-se a quem avistar
    Amarildo de Souza, de 42 anos,
    que nunca ultrapassou a linha da pobreza,
    vivendo num lugar chamado Pocinho,
    área dominada pelo tráfico
    com esgoto a céu aberto
    e muitos casos de tuberculose,
    pede-se que dê notícias
    – porque um homem desaparecido
    é pior do que um homem morto.

    Roga-se ao bom povo desta cidade
    que tome em consideração o caso desta família
    digno de simpatia especial.
    Amarildo era um homem bom.
    Saiu para trazer comida,
    tinha sete bocas em casa para alimentar.

    Saiu. Não voltou.

    Levava pouco dinheiro no bolso,
    talvez nem levasse dinheiro.
    (Procurem Amarildo.)
    Não costumava demorar.
    (Procurem Amarildo.)
    Só pensava na família.
    (Procurem. Procurem.)
    Faz uma falta dos diabos.

    Se, todavia, não o encontrarem
    nem por isso deixem de procurar
    com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
    e talvez encontrem.
    A mulher não perde a esperança,
    os filhos não perdem a esperança.
    Os seus amigos ou conhecidos não sabem notícia nenhuma,
    limitando-se a responder: Não sei.
    O que não deixa de ser esquisito.

    Somem tantas pessoas anualmente
    numa cidade como o Rio de janeiro
    que talvez Amarildo jamais seja encontrado.
    Foi levado pela polícia
    para um simples interrogatório,
    no dia 14 de julho deste ano,
    dia da Revolução Francesa,
    mas ele não sabia disso,
    ele não sabia quase nada,
    ele que nunca fez nada,
    ele que fazia tão pouco,
    era só um ajudante de pedreiro
    e ganhava só uns 300 reais por mês

    insuficientes para alimentar a mulher e os seis filhos.
    Afirma a polícia que foi solto,
    de pronto,
    mas nunca chegou em casa
    e Elisabete e os seis filhos choram a orfandade
    – o pai com destino incerto e não sabido.

    Onde está Amarildo?
    clama a nação, mas não tem resposta não.
    A vida é cheia de enigmas,
    Amarildo é apenas mais um.
    Apenas, mas quantas penas.

    Pela última vez e em nome de Deus
    todo-poderoso e cheio de misericórdia
    procurem Amarildo, procurem
    esse homem jovem e pobre de nome tão original
    e de pobreza sem nenhuma originalidade.
    Esqueçam a luta política, o mensalão e os mensalinhos,
    ponham de lado preocupações comerciais,
    percam um pouco de tempo indagando,
    inquirindo, remexendo.
    Não se arrependerão. Não
    há gratificação maior do que o sorriso de Elisabete,
    a mãe em festa com os seis filhos nas costas,
    e a paz intima
    consequente às boas e desinteressadas ações,
    puro orvalho da alma.
    Não me venham dizer que Amarildo suicidou-se,
    fugiu com outra mulher,
    foi morto pelos bandidos do tráfico,
    caiu no esgoto do Pocinho onde mora
    (ou morava, que agora Amarildo é pura hipótese).

    Ele não se matou.
    Procurem-no.
    Tampouco foi vítima de desastre
    que a polícia ignora
    e os jornais não deram.
    Está vivo para consolo de uma esposa infeliz
    e triunfo geral do amor dos filhos
    e dos irmãos infelizes. (Somos todos irmãos na dor.)
    A qualquer hora do dia ou da noite
    quem o encontrar avise no Pocinho da Rocinha.
    Talvez Elisabete nem esteja mais lá,
    expulsa pelo medo e pela miséria.
    Mas o recado se espalhará como fogo na palha seca
    e alguém tomará providências.

    Mas
    se acharem que a sorte dos povos é mais importante
    e que não devemos atentar nas dores individuais,
    se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
    não faz mal, insultem a mulher de Amarildo,
    virem a página:
    Deus terá compaixão da abandonada e do ausente.
    Deus dirá a Elisabete:
    Vai,
    abraça o teu marido, beija-o e fecha-o para sempre em teu coração.

    Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
    A mulher de Amarildo (somos pecadores)
    sabe-se indigna de tamanha graça.
    E resta a espera, que sempre é um dom.
    Sim, os extraviados um dia regressam
    — ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
    E de pensar realizamos.
    Quer apenas seu homem

    com quem se casou numa tarde remota
    e para quem agora só oferece uma lágrima já seca.
    Já não interessa a descrição do corpo,
    nenhuma fotografia é suficiente,
    disfarces de realidade mais intensa
    e que anúncio algum proverá.
    Cessem pesquisas, rádios, calai-vos•
    Calma de flores abrindo
    no canteiro azul
    onde desabrocha a vida infeliz de Amarildo
    intata nos tempos.
    E de sentir compreendemos.
    Já não adianta procurar
    o seu homem Amarildo
    que a vida, a política, a polícia, o tráfico ou Deus
    inapelavelmente levaram.

    De Metamorfoses de Ofídio – paráfrases e paródias extemporâneas

    *(Aos possíveis leitores que talvez não estejam muito familiarizados com a poesia de Drummond: esta paráfrase foi feita de “Desaparecimento de Luísa Porto”, editado pela 1ª vez em “Poesia até agora”, de 1948.)

  • Travessuras

    A primeira travessura ninguém esquece. Quando a gente era criança, vivia com o pé no chão. A rua onde eu moro era sempre cheia. A gente jogava futebol de rua, andava de carrinho de rolimã, brincava de bola de gude, queimada, peteca, vôlei e soltava pipa.

    O fim da brincadeira era quando a mãe de cada um chegava na porta de casa, olhava para um lado e para o outro e gritava: “Menino, vem logo pra dentro que a janta está esfriando.”

    Mas o bom mesmo eram as travessuras.

    Certa vez, um de nós deu um jeito de conseguir um barbante e o outro — pasme — uma cobra. De mentirinha, claro. A gente sentava do outro lado da rua e depois assobiava alguma coisa.  Quando alguém passava, a gente puxava a linha. A vítima tomava o maior susto.

    A primeira vítima foi uma mulher que, depois de passar no sacolão, subia a rua com as compras quando alguém da turma puxou a corda. Ao ver uma cobra ali, sem mais sem menos, a mulher deu um grito e as verduras foram parar todas no chão. Claro, foi correndo bater campainha lá em casa e chamou minha mãe, que ralhou comigo. Mas logo voltei pra rua.

    Meninos da cidade grande, pelo que eu me lembre, cobra só no zoológico mesmo. Agora, a de pano, ah, qualquer um pendurava no pescoço ou segurava na mão. A brincadeira durava horas. As vítimas eram tantas. Cada berro mais hilário e diferente do outro.

    Depois veio um homem de bigodes, sempre na dele, até que se deparou com uma cobra. Deu um berro. Ele dizia uns absurdos, batia na porta da casa de alguém da turma, falava qualquer coisa com o pai ou a mãe. O que divertia era o pânico de quem passava, a pessoa suando frio, brava.

    Bom também era gente vindo da missa ou do culto, num domingo, e se deparar com um animal peçonhento bem ali, numa rua tão calma e com um bando de crianças fingindo que não acontecia nada.

    Um velho subindo o morro, idosas vindo da igreja, vizinhos das outras ruas, tios, tias, o pastor, o padre, o mendigo e a mãe do amigo. Todos já tinham se deparado alguma vez na vida com uma cobra de pano ou de plástico. Achavam que era verdade, claro.  Ou então não teria graça.

    Depois todo mundo entrava para casa. Hora de jantar. Dormir ou separar o uniforme da escola para o dia seguinte.

    A rua ficava em silêncio, a noite vinha. Logo viria a segunda-feira. Mas, ao chegar da escola, cada um jogava a mochila de lado e tudo recomeçava.

  • Instante exato

    Todo dia pego meu caderno de rascunhos, uma caneta que não arranha o papel, e deço para escrever no banco da praça. Como faziam os poetas antigos, aqueles que tinham o privilégio do tédio e da contemplação, com bem mais competência que eu. Perco mais tempo para escolher a camisa e a calça para sair, do que para escrever. Porque quando estamos em frente ao espelho, inicia um embate na busca do contentamento. Quando finalmente chego na praça, o sol já está alto, desses de meio-dia de janeiro que fazem a gente entender por que existe a palavra “canícula”. A praça estava quase vazia, somente um senhor no banco da frente, distribuindo migalhas de pão dormido para os pombos, e uma menina correndo atrás de uma bola de plástico colorida. A página em branco do meu caderno, me olha com cara de desafio. Passei os olhos ao redor, buscando uma faísca de inspiração. Foi então que vi, ao lado do banco, uma flor amarela que parecia ter engolido um pedaço do sol. Era uma daquelas flores de jardim que a gente compra no vaso, mas ali, estava solitária. Uma semente levada pelo vento, talvez, ou um descuido de algum jardineiro. Fiquei olhando para a sua coragem desmedida de florir no meio do cimento, parecida com a força de um germinar de óvulo a espera de seu parceiro para gerar um novo ser. Pensei em fotografar, pensei em escrever um poema, pensei em arrancá-la para levar para casa e colocá-la num copo d’água. Mas, nesse meio tempo, a menina do lacinho passou correndo atrás da bola, parou, voltou, ajoelhou-se no chão com a graça desengonçada que só as crianças têm, estendeu a mão, e com a mesma naturalidade com que segundos antes corria atrás da bola, colheu a flor e saiu correndo. Fiquei ali, com o caderno aberto, a caneta na mão, e uma súbita e absurda sensação de perda. Quis rir da minha própria tolice. Que direito eu tinha sobre aquela flor? Não era minha, não era de ninguém. Era da vida, apenas isso. E a vida, na sua sabedoria silenciosa, a entregou a quem soube o que fazer com ela no momento exato. A menina não pensou no amanhã. Não cogitou fotografá-la para o Instagram. Não fez planos de pressioná-la num livro. Simplesmente sentiu a urgência daquela beleza, atendeu ao chamado, e a tornou parte da sua brincadeira. Ela, com a flor na mão, já devia estar em casa, mostrando o tesouro para a mãe, que provavelmente colocaria a flor num copo d’água, fingindo que ela duraria para sempre.

    Fechei o caderno, guardei a caneta, não escrevi uma linha sobre o que vi. Ou melhor, escrevi agora, horas depois, não sobre a flor, mas sobre o vazio que ela deixou, e sobre como a vida, para ser plena, precisa ser colhida no instante exato em que floresce, mesmo que seja para murchar cinco minutos depois, esquecida no bolso de um vestido cor-de-rosa. As coisas duram o tempo que devem durar. O segredo não é tentar segurá-las, mas saber reconhecê-las quando elas, por um breve e luminoso instante, resolvem brotar no meio do cimento.

  • De onde se escapa o amor?

    De onde se escapa o amor? Quem não se limita a viver só talvez também não saiba viver com o outro. Quem não encara a própria solidão a sós, não, a só, talvez não suporte a presença de alguém sem transformá-la numa tentativa de preencher aquilo que lhe falta. Dizem que o amor transforma. Mas o que seria essa transformação? Tornar-se dor? Amar também dói, é verdade, mas a dor não pode ser a única testemunha do amor. Quando tudo o que resta é sofrer, pode-se dar a isso qualquer nome, menos o de amor. Ou será que, em algum momento, aprendemos a chamar de amor aquilo que apenas nos mantém presos à possibilidade de sermos amados?

    O amor escapa pela linguagem e retorna à repetição. Repetimos aquilo que não conseguimos dizer. Talvez seja por isso que tantos confundam o começo com a promessa de uma eternidade. Dizem que amar é casar, que no começo são flores e, depois, a derrota. Mas que derrota é essa que exige um corte? Teria o outro deixado de ser quem era ou fomos nós que, de tanto idealizá-lo, já não conseguimos reconhecê-lo? Há quem espere que o amor se sustente sozinho, como se amar dispensasse o trabalho de descobrir, todos os dias, quem existe por trás da imagem que inventamos. Talvez a decepção não comece quando o outro muda, mas quando ele deixa de corresponder àquilo que imaginávamos que fosse.

    Confunde-se amor com sexo, carência, beijo, sintonia. Como se o encontro dos corpos garantisse o encontro de duas existências. Amar, porém, talvez seja desaprender o que julgávamos saber, renunciar à imagem que fabricamos do outro e suportar aquilo que nele não nos pertence. Muitos se entregam à carne, ao outro, à promessa de serem dois e, paradoxalmente, esquecem de si mesmos. Há quem se perca tentando ser tudo para alguém e descubra, tarde demais, que deixou de existir para si. Mas quem somos nós quando já não precisamos representar o papel daquele que o outro deseja? O que resta quando o desejo deixa de obedecer à fantasia?

    Eu amo… amo a ponto de aceitar suas esquisitices, de não me importar que o banheiro fique todo molhado depois que você sai. Mas desejo ainda mais quando você me conta suas esquisitices, quando fumo um cigarro, volto e encontro o banheiro seco. Há qualquer coisa nesse gesto que não se explica pela obrigação, nem pela concessão. Ninguém precisou pedir, ninguém precisou ensinar. O gesto aconteceu, quase sem testemunhas, como se o cuidado pudesse existir sem anunciar a própria presença. E talvez seja justamente aí que o amor se revele, não nas grandes declarações, mas naquilo que o outro faz quando não precisa provar coisa alguma. O banheiro seco não é uma promessa de eternidade. É apenas um banheiro seco. E, ainda assim, alguma coisa em mim o reconhece.

    Amar também é aprender a conviver com aquilo que não somos. O outro não é uma extensão de nós, tampouco um objeto destinado a obedecer à nossa falta. Ele tem seus excessos, seus silêncios, suas maneiras de existir. Há coisas que nos aproximam e outras que nos devolvem à nossa própria solidão. Porque estar com alguém não significa deixar de estar só. Significa, talvez, descobrir que a solidão não precisa ser preenchida para que a presença do outro tenha valor. Nem toda diferença exige uma ruptura. Nem todo desconforto anuncia o fim. Às vezes, é preciso apenas falar, escutar e admitir que duas pessoas podem habitar o mesmo espaço sem precisar ser iguais.

    Mas há também aquilo que não se resolve pela conversa, aquilo que insiste mesmo quando as palavras parecem suficientes. O inconsciente não se apresenta com explicações organizadas. Ele tropeça, retorna, repete. Às vezes, o que dizemos não coincide com aquilo que desejamos; outras vezes, o corpo parece falar antes que consigamos reconhecer o que se passa. E quantas vezes chamamos de destino aquilo que talvez seja apenas a repetição de uma história que ainda não conseguimos escutar? Talvez amar também seja perceber quando estamos diante de alguém e quando, sem perceber, estamos diante de tudo aquilo que trouxemos conosco.

    Não sei se o amor transforma alguém ou se apenas revela aquilo que já não conseguimos esconder. Sei que amar não deveria exigir o desaparecimento de si, nem a anulação do outro. Existe uma diferença entre renunciar a uma vontade e renunciar à própria existência. Existe uma diferença entre aceitar as esquisitices de alguém e fazer da dor uma morada. O amor não precisa ser perfeito, mas precisa encontrar algum lugar onde duas pessoas possam existir sem que uma precise apagar a outra.

    O amor é uma linguagem que passa pelo inconsciente e escapa pelo corpo. Talvez nunca consigamos traduzi-lo por inteiro. Talvez a sua verdade esteja justamente naquilo que não sabemos dizer, mas continuamos fazendo, repetindo, procurando.

    E, no fim, quando as palavras falham, resta a pergunta: de onde se escapa o amor, se até aquilo que tentamos esquecer insiste em retornar?

    Entre teclas, cigarros e ausências

    Nunca imaginei que uma máquina de datilografia dos anos 60 pudesse me colocar diante de um problema tão atual: o que fazer com aquilo que não consigo dizer? Eu sequer existia quando suas teclas começaram a registrar palavras, cartas, confissões e talvez despedidas que ninguém teve coragem de pronunciar em voz alta. Agora, sentado diante dela, tento aprender seus mecanismos, como se dominar o movimento dos dedos fosse suficiente para organizar alguma coisa dentro de mim.

    A máquina não tem pressa. Sou eu quem erra, quem retorna, quem insiste na tecla equivocada e precisa encontrar uma maneira de continuar. O papel recebe tudo sem perguntar se acredito no que escrevo. Não distingue uma confissão de uma mentira, tampouco exige que eu seja coerente com aquilo que afirmei algumas linhas antes. Talvez resida aí sua maior crueldade: a página aceita minhas palavras, mas não me absolve delas.

    Acendo um cigarro. A fumaça sobe, perde a forma e desaparece. Há algo de profundamente familiar nesse movimento. Passamos tanto tempo tentando dar contorno ao que sentimos que esquecemos como certas coisas existem justamente porque não conseguimos contê-las. Quero compreender meus excessos, minhas contradições, essa necessidade quase ridícula de ser aceito até por quem não me conhece. Agrado, recuo, reformulo o que penso e, quando percebo, já não sei se estou falando por mim ou tentando produzir uma versão de mim que seja menos difícil de suportar.

    Quem é o proprietário de uma verdade? Digo que conheço minhas intenções, mas quantas delas reconheço somente depois de terem produzido seus efeitos? Quanto às mentiras, talvez eu tenha mais intimidade com elas. Sei onde as escondo, embora nem sempre saiba quando começam a falar em meu lugar. Existe uma fronteira incômoda entre aquilo que inventamos para sobreviver e aquilo em que nos transformamos depois de repetir a invenção por tempo suficiente.

    Olho para a máquina. O metal envelheceu, algumas teclas carregam as marcas do uso e o mecanismo responde com um ruído que nenhum teclado moderno conseguiria reproduzir da mesma maneira. Penso no tempo que passou por esse objeto sem pedir licença. Quantas mãos já estiveram aqui? Quantas pessoas tentaram dizer o indizível antes de mim? Não conheço suas histórias, mas reconheço a tentativa. Talvez toda escrita comece quando a experiência já não cabe no silêncio e ainda não encontrou uma forma satisfatória de existir no mundo.

    Lembro-me das rosas brancas, amarelas e azuis. Não sei por que certas lembranças permanecem enquanto outras se dissolvem sem deixar vestígios. Amo o azul, embora não saiba o que ele encontra em mim. Há cores que nos acompanham sem precisar explicar sua permanência. Com as pessoas, entretanto, quase nunca aceitamos esse mistério. Queremos saber o que significamos, que lugar ocupamos, por que alguém ficou ou foi embora. Como se o afeto pudesse ser submetido a uma perícia e a falta, uma vez identificada, deixasse de nos atravessar.

    Talvez eu esteja cansado de procurar uma resposta para cada sensação. Existe uma exaustão que não vem do trabalho, mas da vigilância constante sobre si mesmo. Observo meus pensamentos, examino minhas escolhas, desconfio das minhas certezas. Transformo a própria existência em interrogatório e depois me espanto por não encontrar descanso. Até a angústia, quando tentamos obrigá-la a explicar tudo, parece perder a voz e se tornar ainda mais presente.

    Volto a datilografar. Uma palavra aparece, outra a contradiz. Não sei se estou construindo uma narrativa ou deixando escapar aquilo que gostaria de manter escondido. Escrever não me torna necessariamente mais verdadeiro. Às vezes, a linguagem também serve ao disfarce, oferece beleza ao que é confuso e organiza em frases elegantes aquilo que continua desordenado por dentro. Ainda assim, escrevo. Não porque tenha descoberto alguma saída, mas porque o silêncio também tem seus limites.

    Há uma ausência que não desaparece quando recebe um nome. Há um desejo que muda de direção justamente quando acreditamos ter compreendido sua origem. E há coisas que permanecem conosco sem que possamos reivindicá-las como propriedade. Talvez sejamos feitos, em parte, daquilo que nos falta, mas seria ingenuidade imaginar que conhecer a falta significa dominá-la.

    A folha avança. O cigarro termina. A máquina permanece diante de mim, indiferente ao que consegui ou deixei de dizer. Não me oferece respostas, apenas devolve o som das minhas tentativas. Pela primeira vez, penso que talvez não seja necessário transformar cada inquietação em uma conclusão. Nem tudo precisa terminar em descoberta. Algumas perguntas continuam vivas precisamente porque não se deixam encerrar.

    Quando me levanto, continuo sem saber exatamente o que escrevi. Talvez tenha falado da máquina, talvez do tempo, talvez dessa estranha insistência em procurar no papel uma imagem de mim que nunca permanece inteira. Não importa. Amanhã, outras palavras poderão contradizer estas. O desejo encontrará outro nome, a ausência mudará de lugar e eu provavelmente voltarei a acender um cigarro antes de começar.

    Por enquanto, deixo a folha onde está. Não resolvi a angústia, tampouco pretendo fingir que a compreendi. Há coisas que precisam de palavras, mas não de invasão. E talvez escrever também seja aprender a chegar perto sem exigir que tudo se revele.

    A máquina descansa. Eu, não sei.

    A estranha tarefa de estar vivo

    Um café, um cigarro, livros, às sete horas da manhã. A janela aberta, deixando entrar o cheiro do dia, essa promessa silenciosa de um mundo que desperta sem saber muito bem para quê. Hoje é quarta… hoje é quarta? Não importa. Dia é dia, noite é noite, madrugada é madrugada. Ainda estou com sono, embora talvez não seja o corpo que precise descansar, mas alguma região mais profunda de mim, onde a consciência se esconde quando já não suporta a própria companhia.

    Vou ler os jornais, mas sinto falta dos de papel, daqueles que deixavam os dedos sujos de tinta e tornavam o mundo menos distante. Agora tudo é digital: os livros, os jornais, os afetos, os robôs. Tudo cabe numa tela, inclusive a solidão. Sinto meu espírito regressando lentamente ao corpo, como quem emerge da própria tumba sem saber se voltou por vontade própria ou se simplesmente se esqueceu de morrer.

    Me angustia pensar. Pensar em quê? Nas coisas que perdi, nas pessoas que partiram e continuam vivendo em meus gestos, nas palavras que ficaram suspensas entre o desejo e o arrependimento. O passado não passa; apenas aprende a se disfarçar. Às vezes, senta-se conosco à mesa e permanece em silêncio, esperando ser reconhecido. Talvez sejamos feitos dessas ausências, de desejos reprimidos e lembranças que insistem em sobreviver à nossa tentativa de esquecê-las.

    Será que os seres humanos desaparecerão e restarão apenas os robôs? Bom, não seria uma ideia. Talvez eles não precisassem fingir que estão bem, nem passar noites tentando compreender uma despedida. Poderiam reproduzir nossas vozes, imitar nossos rostos e escrever poemas sobre a saudade. Mas saberiam o que significa sentir falta de alguém sem conseguir explicar exatamente do quê? Talvez nem nós saibamos. Talvez a saudade seja a permanência inexplicável daquilo que já se foi.

    Entregamos às máquinas o trabalho, os cálculos e as respostas. Talvez um dia entreguemos também nossos pensamentos, como se pensar fosse um fardo do qual pudéssemos nos livrar.

    Mas, se uma máquina escrever o poema, quem ficará com a insônia? Se ela encontrar palavras para explicar a dor, quem suportará aquilo que não pode ser dito? Talvez nosso maior medo não seja o de as máquinas se tornarem humanas, mas o de descobrirmos que passamos a vida tentando funcionar como elas, escondendo nossas falhas e repetindo comportamentos para sermos aceitos.

    Observo a fumaça do cigarro desaparecer no ar. Há algo de honesto nessa brevidade: existir sem precisar justificar a própria passagem. Nós, ao contrário, procuramos sentidos, queremos deixar marcas, encontrar razões para permanecer. E se não houver razão alguma?

    Talvez inventemos explicações apenas para não encarar o silêncio. O mundo continuará depois de nós, indiferente às nossas dores, enquanto outras pessoas despertarão para suas próprias angústias.

    A manhã avança. Continuo diante da janela, tentando compreender esse desconforto que me acompanha. Talvez seja apenas sono, talvez seja a consciência despertando antes do corpo.

    O pensamento, às vezes, também mente: constrói labirintos, abre portas que conduzem a outras portas e nos faz acreditar que estamos perto de uma saída quando permanecemos exatamente onde começamos.

    Lá fora, alguém ri, alguém chora, alguém espera uma mensagem que talvez nunca chegue.

    Cada pessoa carrega um mundo que ninguém consegue conhecer por inteiro. Talvez a solidão não seja a ausência de companhia, mas a impossibilidade de entregar completamente a alguém aquilo que acontece dentro de nós. Há sempre um quarto escuro, até mesmo em quem acredita conhecer a própria casa.

    Talvez essa seja a estranha tarefa de estar vivo: carregar perguntas sem transformá-las em condenações, reconhecer as próprias sombras sem fazer delas morada definitiva. O café esfria, o cigarro termina, a janela permanece aberta. E eu continuo aqui, sem saber se o que me mantém desperto é esperança, hábito ou a simples resistência de quem ainda não aprendeu a desistir de compreender a própria existência.

    Lá fora, a manhã continua. Aqui dentro, alguma coisa insiste em despertar. Por enquanto, não preciso saber o nome.

    O caminho de volta não é o mesmo

    Há lugares que permanecem em nós sem que precisemos visitá-los. Muriqui, por exemplo, há muito não me vê, ou talvez seja eu quem tenha deixado de me reconhecer naquele caminho. Lembro-me do carnaval, da alegria que parecia não caber nos corpos, dos dias em que a vida se permitia uma espécie de desatino sem pedir desculpas. Havia qualquer coisa de excessivo naquela felicidade, como se o mundo, por alguns instantes, suspendesse sua vocação para o desencanto.

    Hoje, penso na estrada de ida e volta. No arco metropolitano, na paisagem que se desloca pela janela, na chuva que chega sem aviso e no sol que, logo depois, finge que nada aconteceu. Às vezes, um arco-íris atravessa o céu como uma resposta cuja pergunta esquecemos. E seguimos. Talvez seja esse o equívoco de quem viaja: acreditar que o destino está no lugar para onde se vai, quando, não raro, é a memória que nos conduz.

    Faz tempo que não volto a Muriqui. Não sei se sinto falta do lugar ou daquele que eu era quando estive lá. Há uma diferença incômoda entre as duas coisas. O lugar pode continuar existindo, o mar pode conservar sua insistência, o carnaval pode devolver às ruas a mesma vertigem. Mas quem retorna não é exatamente quem partiu. O tempo não nos impede de voltar; apenas altera, silenciosamente, aquilo que esperamos encontrar.

    A chuva passa, o sol reaparece, e o arco-íris permanece por pouco tempo. Talvez a alegria também seja assim: não uma morada, mas uma visita. E há visitas que, mesmo depois de irem embora, continuam fazendo barulho dentro de nós.

    Muriqui ainda está lá. Eu é que não sei se chegaria ao mesmo lugar.

    Entre o incêndio e a cinza

    Sou oito ou oitenta. Incêndio ou cinza. Permanência ou despedida. Não suporto a letargia dos entremeios, esse limbo onde as coisas não se consumam nem se extinguem. Ou me fala logo, ou me condena ao silêncio. Ou me toca, ou não me despertes a pele. Ou me ama, ou não me submetas à indigência de um afeto hesitante.

    Ou fica, ou parte. Ou me atravessa a existência por inteiro, ou me restitui à minha própria solidão. Ou me oferece a inteireza da tua verdade, ou me poupa da indigência das tuas meias-palavras. Ou vem sem o sortilégio do medo, ou não suscites aquilo que tua covardia não saberá amparar. Ou me escolhe, ou me destitui da tua memória. Ou me encontra, ou me perde em definitivo.

    Porque o quase sempre foi uma modalidade insidiosa de ausência. Porque jamais aprendi a habitar o inócuo, esses espaços onde nada se inaugura e tudo parece aguardar uma sentença. Porque, diante da inércia, faço acontecer. Porque o silêncio, quando se prolonga além do suportável, transmuta-se em brado, uma estridência íntima que nenhuma quietude consegue aplacar.

    As esperas me corroem com mais requinte do que as despedidas. As dúvidas me vergastam mais do que as certezas dolorosas. Nunca soube existir em parcelas, tampouco acomodar a alma na parcimônia dos sentimentos. Tudo o que me toca encontra guarida ou desencadeia uma intempérie. Não conheço o morno. Não reconheço os itinerários onde a pulsação se torna irrelevante, onde a vida, por excesso de cautela, abdica de si mesma.

    Carrego excessos, lacunas, volúpias e cicatrizes. Trago comigo os vestígios de tudo aquilo que amei e os resíduos do que, mesmo extinto, jamais se deixou sepultar. Há lembranças que não permanecem por saudade, mas por uma espécie de liturgia da ausência, como se esquecer fosse profanar aquilo que um dia nos constituiu.

    E talvez seja por isso. Ou porque tenha nascido para atear fogo aos silêncios que os outros, por conveniência, denominam paz. Ou porque exista em mim uma combustão refratária à extinção, uma chama que não reconhece na própria exaustão o direito de se apagar. Ou porque certas almas não vieram ao mundo para a mera subsistência, para essa existência asséptica em que respirar se confunde com estar vivo.

    Vieram para sentir até a vertigem. Até o paroxismo. Até o último grau de si mesmas.

    E, se isso é excesso, que seja. Há quem faça da contenção uma virtude e da ausência uma morada. Eu, ao contrário, jamais soube chamar de paz aquilo que, por dentro, me asfixia.

    A tinta acabou, mas o caderno permaneceu

    O que eu quero, não sei. O que posso ter, tampouco. Talvez uma caneta elegante, dessas que parecem guardar um segredo sob a ponta, ou alguma coisa estranha o bastante para que eu não consiga nomeá-la sem antes me perder nela. Há em mim uma inclinação pelo que não se entrega de imediato, pelo enigma que resiste à interpretação, pelo indivisível que nem a razão, tão pretensiosa, consegue reduzir a uma explicação. Gosto daquilo que é extremamente complexo de conseguir e, ainda assim, se consegue. Como se a impossibilidade fosse apenas uma maneira mais sofisticada de o desejo adiar a própria satisfação.

    Depois de quase terminar isso, recorri ao meu velho e bom caderninho. A tinta da máquina acabou. Há qualquer coisa de irônico nessa interrupção, como se o objeto tivesse decidido, por conta própria, lembrar-me de que até a escrita depende daquilo que um dia se esgota. E ainda bem que existem outras fitas, outros dias, outras horas, outras pessoas, outras e outras coisas. Imagina ficar preso a uma coisa só, condenado a repetir o mesmo gesto, a mesma presença, a mesma falta. Deus me livre. Talvez seja justamente a possibilidade de substituir o objeto que nos salve da ilusão de que ele era tudo. A falta permanece, mas mudam os nomes que damos a ela.

    Quem me dera, no entanto, viver numa fazendinha, distante do ruído tecnológico, com uma máquina de escrever, meus cadernos e o tempo necessário para não precisar justificar a existência de cada palavra. Não quero a metrópole, esse organismo que nunca dorme e parece exigir de nós uma presença permanente, nem a cidade pequena, onde até o silêncio corre o risco de ter testemunhas. Queria um lugar entre os dois, suficientemente afastado do mundo para escutar a mim mesmo, mas não tão distante que eu deixasse de desejar o que existe além dele. Uma espécie de refúgio sem inocência, porque até a solidão carrega seus habitantes.

    Talvez eu não queira fugir do mundo. Talvez queira apenas encontrar um lugar onde ele não fale por mim.

    E onde a máquina, quando a fita acabar, me ensine que o silêncio também escreve.

    O abismo entre agradar e amar

    A noite se instala, e escrevo para despertar aquilo que o mundo não desperta em mim. E me pergunto: o que fiz de bom hoje por mim, sem a necessidade de reconhecimento, sem a obrigação de corresponder às expectativas de alguém? Há um prazer legítimo em agradar o outro, mas existe um abismo entre oferecer por afeto e oferecer na esperança de receber algo em troca.

    Às vezes, aquilo que chamamos de generosidade esconde uma necessidade silenciosa de sermos escolhidos. Damos atenção, oferecemos cuidado, permanecemos disponíveis e, sem perceber, começamos a contabilizar as ausências do outro. O gesto, que deveria ser livre, transforma-se numa cobrança que ninguém declarou, mas que esperamos ver satisfeita. Já não oferecemos simplesmente: tentamos comprar uma permanência.

    O afeto, entretanto, não se negocia. Não se compra uma amizade com favores, tampouco se conquista o amor sacrificando a própria identidade. Amar não é possuir, nem transformar a presença do outro numa dívida. É reconhecer que ninguém nos pertence e que a reciprocidade só tem valor quando nasce da liberdade, não da obrigação.

    Talvez o equívoco esteja em procurar no olhar alheio a confirmação de um valor que ainda não reconhecemos em nós mesmos. Agradamos para sermos vistos, cedemos para não sermos abandonados e silenciamos para não desagradar. Nesse esforço de nos tornarmos indispensáveis, corremos o risco de nos tornarmos estrangeiros de nós mesmos. Por isso, em vez de tentar comprar a presença de alguém, compre uma bela roupa, vista-se de si mesmo e vá passear. Não como quem desistiu do amor, mas como quem compreendeu que a própria vida não pode permanecer suspensa à espera de uma escolha alheia. Estar sozinho não significa estar incompleto, assim como estar acompanhado não significa ser amado.

    Talvez a maior forma de amor comece quando deixamos de negociar a nossa existência para merecer a permanência de alguém. Afinal, o amor pode nos fazer companhia, mas não deveria ser o preço que pagamos para suportar a nós mesmos.

  • Eleições 2026

    No dia 04 de outubro de 2026, ocorreu o 1° turno das eleições para deputado, senador, governador e Presidente da República, em uma representação da maior festa da democracia. Democracia é uma palavra velha, já desgastada pelo uso, de origem grega, a qual remete a um governo que possui participação popular nas decisões políticas, seja por meio direto ou indireto. Às vésperas do começo das apurações, mesmo sem ser repórter ou jornalista, já me encontrava de plantão no pé do aparelho celular. Qual seria o resultado? Será que haveria 2° turno? Uma verdadeira euforia, como se aguardasse o resultado do edital de um concurso no qual havia me inscrito.

    Lá estava eu (e não só eu). No sofá, encontrava-se um dos cientistas políticos mais sábios que já vi, meu avô, formado pela universidade do jornal televisivo. Ele comentava a subida e descida dos candidatos ao longo da apuração das urnas. Minha avó e tia não ficavam para trás, indagavam sempre que lhes surgiam dúvidas na mente, torcendo pelos candidatos aos quais, antes das 17h, confiaram seus votos.

    — Enfrentar aquelas filas grotescas de novo? — diziam elas.

    À medida que avançava a computação quantitativa dos votos, consegui observar uma triste realidade que julguei estar corrompendo a minha tão linda e bela nação brasileira: a polarização política. Os resultados praticamente empatados, sobretudo no tocante ao cargo de Presidente da República, evidenciavam um cenário de fragmentação de um povo único, que vive em um mesmo território e partilha de uma língua e costumes próprios, apesar da grande diversidade que o cerca. Uns pautados no pretexto de salvação da pátria, da criação do PROUNI, do SISU, do Bolsa Família. Outros movidos pelo sentimento de mudança, de “liberdade”, da fé, da conservação dos bons costumes.

    — Vai embora, forasteiro! Não está vendo que o povo não te quer? — passa um carro com som estrondoso enquanto a TV Senado transmitia, ao passo que também comentava, os resultados de eleição e reeleição de alguns candidatos.

    Famílias separadas, amigos brigados, crimes eleitorais, xingamentos. Faz parte do processo, mas uma coisa nunca pode mudar: somos todos brasileiros, um só povo. Mesmo que o meu candidato não atinja o posto que almejei para ele, devo respeitar a soberana decisão da maioria e pedir a Deus que capacite quem Ele determinou para conduzir o Brasil. Acredito eu que a esperança de todo um povo não deve estar concentrada em homens. Mesmo sendo incumbidos de tamanha responsabilidade, aqui me refiro não só ao representante do Poder Legislativo, mas também aos dos demais, que são seres humanos, logo suscetíveis a erros.

    Independentemente dos nomes empossados em janeiro de 2027, tenho convicção do controle absoluto e soberano de Deus. Torço por uma reação pacífica ao resultado das urnas. E que, para fora das nossas fronteiras, sejam varridos todos os problemas que hoje acometem o país.

  • Conversa de elevador

    Em meio à correria de nossas rotinas, costumamos ser presenteados com boas e instigantes conversas. Com o condão de provocarem a reflexão, muitas delas podem até mesmo incitar em nós a revisão de nossas opiniões e de nossos atos. Mas existem também aqueles momentos mais descontraídos, perfeitos para a descontração de um bom chiste ou para a leveza de um bom causo. Afinal, a vida não é feita apenas dos acidentados e pedregosos terrenos da filosofia e da política.

    Também importantes são aquelas conversas mais protocolares, as quais convencionamos serem necessárias e indispensáveis para uma saudável convivência em sociedade. Logo, não ignoro que a superficialidade e a frieza das convenções escondem, por vezes, um propósito social maior. Com frequência, a harmonia e a concórdia requerem pequenos sacrifícios de cada um de nós em nome da coletividade. Mesmo assim, a rabugice de minha precoce velhice não me deixa calar e consentir. E é a partir dela que me insurjo contra um tipo especial de interação social protocolar: a insensível conversa de elevador.

    Antes de tudo, advirto que quem aqui vos fala não é um misantropo! Palavra recentemente descoberta por quase todos os mortais que não se dedicam à lexicografia, a tal misantropia descreve uma aversão à sociedade. Ainda que a fadiga social possa dar suas caras de vez em quando, creio estar bem distante dessa repulsa melancólica e niilista pela sociedade. No entanto, com a famigerada conversa de elevador não há meio-termo tampouco margem para acomodação. Julgo difícil resistir passivamente a um rito que foi, de modo arbitrário, criado para dar a aparência de urbanidade a um mero encontro casual entre duas ou mais pessoas.

    — Bom dia! Tudo bem? — saúda-me por volta das 7h uma cerimoniosa e bem-intencionada vizinha.

    Imaginem vocês o que seria dessa situação se, abrupta e levianamente, eu decidisse romper o protocolo previamente estabelecido. Dessa forma, eu poderia responder-lhe com um rol de reclamações que perturbam a cabeça de qualquer pobre trabalhador que se obriga a sair de casa numa modorrenta e chuvosa manhã de segunda-feira. Obviamente, minha gentil vizinha não buscava saber como eu estava nem se eu precisava de alguma ajuda.

    Então, qual seria a utilidade prática de sua pergunta? Pergunta retórica! – dirão os mais sociáveis. Todavia, não seria mais honesto apenas desejar-me um bom dia? Honesto e polido, diga-se de passagem!

    — E esse tempo? Será que chove? — arrisca um simpático e tagarela desconhecido.

    De fato, a maldita etiqueta dos elevadores permite extravagâncias desse tipo. Antes de sair de casa, eu até costumo verificar qual é a previsão meteorológica para as horas seguintes. Porém, a inconstância do tempo em uma primavera marcada por um tal El Niño dificulta o trabalho dos mais competentes meteorologistas, sobretudo em uma cidade como São Paulo. Se a missão dada a quem se dedica profissionalmente a compreender as minúcias do tempo e do clima pode resultar, não raramente, em prognósticos errados, quem sou eu para dizer se choverá ou esfriará nas próximas horas?! Jamais aceitaria o risco de exercer, ilegalmente, uma profissão para a qual não estou capacitado.

    Entretanto, nada supera um tipo especial de diálogo que usualmente bordeja o limiar do tensionamento social. Quando o conteúdo de tal interação envolve questões políticas, ainda que implícitas, escuto o forte e alarmante som das trombetas da prudência. Em nome da harmonia social, convém não esticar ainda mais essa corda puída e desgastada. Se os cidadãos da Grécia Antiga debatiam sobre política nas famosas praças públicas chamadas de ágoras, por que eu entabularia uma arriscada conversa em espaço tão exíguo como um elevador?

    — E agora até os EUA resolveram taxar nossos produtos, né!? — provoca-me um transeunte que costumo ver a cada dois ou três dias no mesmo elevador.

    Acreditai, senhoras e senhores! Não vale a pena tentar deduzir a posição política do interlocutor para amenizar as diferenças ou conquistar a simpatia dada pelas convergências. Porquanto a cilada pode estar armada justamente sob as vestes da ambiguidade, mais vale a contenção do que a exposição desnecessária. Se algumas regras precisam ser respeitadas para que a sociedade continue funcionando a contento, louvado seja o respeito à sagrada conversa protocolar e insossa de elevador!

    — Pois é… Mais essa! Complicado, né… — é o que devolvo, relutantemente, a meu impertinente interlocutor.

  • O amor que Ela nunca quis viver

    “Nossa, que cheiro de maconha é esse?”, Mirella quis saber, olhando ao redor. Era denso, encorpado. Alguém queimava forte por ali. “Certamente é aí de cima, tem um cara nesse prédio que pega de jeito”, Marcelo explicou apontando para o alto, para o prédio de apenas três andares que ficava em cima do bar. Mirella não disse nada. Quando o assunto era maconha, não fazia cara de quem gostava nem de quem condenava.

    “O pessoal do meu trabalho acha que eu sou maconheiro”, Marcelo riu, incomodado, no entanto. “Pode um negócio desses?”, perguntou, espalmando as mãos para o alto. Mirella ergueu as sobrancelhas; divertida, fez cara de quem concordava. “Quando a gente se conheceu, eu também achava”, ela riu, sem se importar se o assunto o aborrecia. Surpreso, Marcelo olhou para ela, tentando encontrar o que dizer. Seu rosto passou da surpresa à decepção. “Você nunca me disse nada, Mirella…”. Ela sorriu, ia explicar alguma coisa, mas Marcelo entrou na frente. “Por que você achava isso? O que eu faço ou tenho que te leva a crer que fumo maconha?”. Ela, enfim, explicou, já não sorria tanto com a história. “Eu disse que achava, não acho mais. Sei lá o que foi, Marcelo, acho que essas suas roupas, essas camisetas que você usa, esse cabelo que você não corta…”. Uma vez Mirella falou de um ex-namorado. Ia à igreja, achava o celibato necessário. Usava camisa da grife do jacaré, mocassim sem meia e pulseira de ouro. Era um molde em que Marcelo não se encaixava, um rascunho oposto à sua arte final. “Talvez seja difícil pra você estar em um bar como esse e alguém na mesa ao lado olhar e pensar ‘veja aquela moça tão distinta e com aquele fumador de maconha’”. Chateado, ele esticou a camiseta, conferindo a estampa do Barão Vermelho. “Não é isso, Marcelo, e ninguém fala ‘fumador de maconha’”. Espiou em volta, como se por via das dúvidas estivesse checando se alguém os observava.

    Uma semana depois, Mirella desliga o celular e fica virando de um lado para o outro da cama, sem conseguir dormir. São quase duas da manhã e os segundos abrem sem pausa seu rasgo repetido na escuridão do quarto. Na insônia, o mais miserável dos ruídos, como o de um relógio, é sempre um imenso sino badalando junto à cama. Duas horas antes, ela telefonou para Marcelo, chamada de vídeo. Ele mandara o link com uma música bem antiga do Roberto Carlos, ainda da época da Jovem Guarda. Triste, muito triste a música. “Nossa, Marcelo…que música triste, triste demais. Tá tudo bem com você?”, perguntou ainda por mensagem de texto. Ele respondeu que “sim, está tudo bem”, estava tranquilo, sozinho e bem consigo mesmo no mesmo bar de sempre, o que ficava embaixo do prédio onde algum morador enfumaçava a noite com um baseado aceso. Chegou a brincar dizendo “hoje o cheiro tá fraco”, e considerou que “Música antiga do Roberto ser triste é redundância”. Foi quando o telefone piscou: vídeochamada e na tela o nome e a foto de Mirella. O bar estava lotado, olhos vidrados na semifinal do campeonato na TV, um tanto de gente falando e fazendo um esporro que só deveria perder pro do estádio. Não atendeu, não haveria qualquer condição de conversa. E foi aí que a noite entrou em desgraça. Quando ia gravar uma mensagem explicando a situação, ela se antecipou, sarcástica: “Por que não atendeu a ligação? Está com as mãos muito ocupadas?”. Mirela o imprensou nas cordas, sem que ele conseguisse devolver os golpes: “Divirta-se com sua companhia”, a frase de Mirella foi curta e grossa, mais grossa do que curta. Apressado, ele retornou a chamada, aprendera a detectar rapidamente a fumaça dos incêndios que a namorada iniciava, e agora ali, no meio do seu sossego e do quinto chope, precisava deixar a paz de lado e acionar sua brigada. Queria que ela visse a situação e comprovasse que estava ali largado, sozinho, pensando nela, mas que não havia condições de conversarem, a conversa entre os dois seria engolida pelo falatório. Em outras palavras, era para que acreditasse que ele falava a verdade. Mas era tarde, Mirella havia desligado o aparelho.

    Intempestiva, era moça dada a rompantes. Não raro suspeitava da fidelidade do namorado, e aí, em represália, agia antes de qualquer explicação convincente que pudesse receber. Enquanto a brisa da desconfiança soprasse para o lado dela, nenhuma explicação seria capaz de convencê-la. Naquela noite, mesmo que ineficaz, a forma que Marcelo encontrou para mostrar o porquê de não ter atendido a vídeochamada foi ligar de volta. A raiva subiu-lhe à cabeça quando a primeira chamada se encerrou sem ser atendida. Ligou outras cinco vezes, imaginando como seria bom se o celular desligado de Mirella fizesse o escarcéu dos velhos telefones fixos, que quando tocavam no meio da madrugada assustavam e perturbavam toda a família.

    Pagou a conta ao esvaziar a sexta tulipa. Passava de uma da manhã. O bar era na Praça Varnhagem, o mesmo dos já distantes e desbotados anos de juventude. Marcelo morava na Muda. Foi andando, assim queimava a bebedeira incipiente. A caminhada de volta também o ajudaria a não pensar tanto em Mirella e seu comportamento histriônico.

    Subiu a General Espírito Santo Cardoso, reta final até a Muda. Passou pela 19ª DP. Lembrou-se do Aldir Blanc. A delegacia era parte do título de um de seus livros. Marcelo não lembrou apenas por causa da delegacia. Lembrou porque logo ali ao lado estava o boteco em que o criador do ‘irmão do Henfil’ pousava sua poesia e sua glória de compositor. A eterna presença de Aldir levou a Marcelo inspiração sobre o que dizer a Mirella ainda àquela hora da madrugada, mesmo que o celular dela estivesse fora do ar. A mensagem lhe veio das entranhas e saiu como se estivesse lhe rasgando o peito. Soltou a voz e abriu a alma do modo que apenas os verdadeiros sabem ser, e o mínimo que disse na mensagem gravada foi “meu amor é eterno”, algo que só se diz voltando a pé para casa de madrugada depois de seis chopes. Quando Mirella acordasse, ouviria. Agora era só esperar o dia amanhecer, o que demoraria, ainda não dera duas horas.

    O dia clareou e o sol não trouxe o aviso de que Mirella havia ouvido a mensagem de Marcello. Demorou quase três horas para que surgisse no canto do celular o tracinho avisando que o aparelho havia sido ligado. E a espera aflita durou ainda outras duas horas até que ela respondesse. Quando respondeu, Marcelo achou melhor que não tivesse feito. A nada mais do que um emoji de polegar pra cima foi o que se resumiu a resposta da moça. Mirella achou apenas ok a mensagem de Marcelo abarrotada de declarações derretidas. Isso mesmo: somente ok e mais nada para todo aquele desmanche do coração do sujeito, nada além de uma figurinha imbecil de WhatsApp. Um emoji usado por alguém que confirma o horário de uma reunião de condomínio é o que mereceu sua declaração cheia de dor e desejo de amor eterno.

    Não era a primeira vez que Mirella aprontava uma dessas. Marcelo já experimentara os arroubos sem cabimento da namorada, nascidos não do ciúme propriamente dito, mas da engenharia de uma ficção de histórias mirabolantes que ela desenovelava a partir de um fato ou acontecimento que só ela enxergava, que apenas ela via se apresentar a sua frente. Uma noite, novamente no mesmo bar do cheiro de maconha, ele, por descuido, entrou dois ou três passos à frente dela. Inocente da tempestade que estava se formando, sentou-se de frente para o movimento, deixando para Mirela a cadeira de costas para a confusão. Foi suficiente para que ela adquirisse a certeza de que ele engendrara todo aquele movimento – entrar na frente e colocá-la de costas – com o objetivo de que alguém, ou alguéns, no bar, não percebesse que ele estava acompanhado. O que se seguia eram silêncios e distâncias que se alongavam noite adentro. “A vida passando, Mirella, e a gente aqui, desperdiçando esse momento que poderia ser único, mágico”, ele ponderava nessas horas, em um lamento que se sustentava em angústia e na ignorância sobre os motivos que levavam a namorada a ficar calada feito um sepulcro. “Deve haver muita gente aqui para você viver seus momentos únicos e mágicos”, e Mirella espetava o namorado. Ele bebia um gole, sacudia a cabeça. Desanimado, sentia que as atitudes da namorada eram mais fortes do que ele, via-se impotente diante daquelas crises fantasiosas e trabalhosas de contornar, como se estivesse em uma casa escura combatendo um inimigo invisível. “Você deveria escrever ficção, tem uma imaginação fertilíssima”, ele comentou durante uma dessas arengas, dando um riso meio debochado, meio de chateação, quando ela foi ao banheiro num restaurante e ao voltar deu com Marcelo mexendo no celular. “Aproveitou para falar com suas amigas, né? Quer dizer, não sei se são apenas amigas”, e sorria com a raiva a que ele já fora apresentado, aquela disfarçada de escárnio.

    “Mirella, vamos viver em paz, quando estamos em paz, nós ficamos tão bem”, e nessas ocasiões de beligerância Marcelo carregava o rosto com ar de súplica contida. Ela o olhava com um jeito de aparente concordância de que a paz era realmente melhor do que a guerra que nascia de situações imaginadas sem propósito. Só que dali a dias, o armistício era suspenso, e o celular que ele viu enquanto ela foi ao banheiro, ou uma mulher que passou e Marcelo displicentemente olhou viravam novamente estopim. Mirella então puxava o pino da granada de uma nova crise.

    “O que em mim te irrita, Mirella? O que em mim te desagrada, te incomoda?”, ele alterou a voz, a paciência minando feito parede exposta à infiltração. Começou a ficar nítido para ele que, ao passo que o amava, ela também o repelia por esse algo que a pinicava feito a etiqueta de uma roupa nova, mas que era um algo que ela mesma não conseguia identificar. “O que você acha que você tem que me incomoda?”. “Não sei. Se nem você sabe, como eu vou saber?”. Os dois ficaram em silêncio. Aí Marcelo se virou para dizer, com o semblante pesado de uma tristeza sentida: “Você me fez conhecer vários sabores, entre eles o sabor da injustiça”. Mirela olhou-o calada, parecendo baqueada. Antes de responder, respirou fundo e olhou a tarde pela janela. “Você me tira do sério, Marcelo, me faz dizer coisas que eu nunca disse antes a alguém, você me rouba a paz, Marcelo, a paz que você tanto quer entre a gente”. Pelo tom de voz, a fervura da discussão começara a ceder. Ao menos isso. Sem saber e sem querer saber naquele momento o que de fato ele fazia para tirá-la do sério ou roubar sua paz, Marcelo encheu o coração e disse “Eu te amo”, porque sempre dizia, na paz ou na guerra ele sempre dizia. Mirella o fitava parecendo perdida, como se identificasse finalmente o que sentia, mas não soubesse descrever. Àquele algo que ela sentia não alcançava sua definição. Nutria pelo namorado um não querer querendo. Vinha encontrá-lo, ou ficava a seu lado, com ar de má vontade em determinadas ocasiões, soltando frases e tomando atitudes de quem não queria estar ali, como se quisesse deixar claro que ele nunca era sua primeira opção de companhia, que Marcelo só entrava em cena no caso da impossibilidade da família e das amigas. Só que ao mesmo tempo em que pensava como se seria se estivesse longe dele, achava que, se estivesse distante, logo iria querer voltar para o lado de Marcelo, e aí permanecia, insistia na companhia, e o preço disso, novamente, era regar as sementes de sua fantasia, a fantasia em que Marcelo a traía da hora em que acordava até a hora em que ia dormir. Mirella o amava com embate, com o desassossego dos que desconfiam, com a aflição noturna dos que não conseguem pegar no sono. “Há alguma coisa em mim que te incomoda, que não te deixa sossegar com nosso namoro”, ele repetiu, quando uma das crises parecia contornada. Ficaram um nos olhos do outro durante algum tempo; ele, tentando sacar se de alguma forma acertara seu palpite; ela, continuando a buscar dentro de si algum fundo de verdade no que ele dissera. “Sabe o que eu acho que é?”, Marcelo perguntou. Em silêncio, Mirella perguntava o que era. “Eu sou um amor que você nunca quis viver. Meu cabelo, minhas camisetas…o que eu penso sobre o mundo e sobre a vida são representações de um mundo que você não habita, nunca habitou e não se vê moradora, porque é um mundo diferente do seu, do mundo em que você sempre morou”, ele arriscou, e completou o palpite: “É isso: eu sou um amor que você nunca quis viver”. O assunto dava voltas completas na cabeça de Mirella, mas ela não chegava a nenhuma conclusão. No entanto, se alguém houvesse acompanhado o diálogo, poderia apostar, olhando o semblante silencioso e inseguro da moça, no que o rapaz cravou com assertividade.

    Atravessaram o tempo, chegaram a três anos, idade em que um namoro já está maduro. Só que no caso de Mirella e Marcelo, a maturidade não veio com a imunidade às crises circunstanciais paridas a partir das pulgas atrás das orelhas de Mirella. Marcelo sentia-se cansado, cansado dos pés atrás da namorada, da dúvida, do tanto que entregava e em troca não recebia. O amor de Marcelo era um amor cansado, feito um animal que puxa carroças ao longo da vida não recebendo nada além de chicotadas. Chegou a pensar em terminar, dar Adeus a Mirella, que ficasse ela na companhia de sua descrença. Quando tomou a decisão, no entanto, viu-se em dilema igual ao da namorada: percebeu que a vida lá fora, longe de Mirella, seria de um vazio sem preenchimento. Era um amor cansado aquele. Mas indispensável. Tentou, então, uma autocrítica. Afinal, o que ele fazia para jogar sua amada no vale da insônia nas madrugadas em que ela desaparecia do zap? “Mirella, eu te dou razão, reconheço que poderia ter agido melhor”, e enumerou algumas dessas situações, achou que esse era um bom preço a ser pago pela paz, e que tudo ficaria finalmente bem a partir dali. Menos de vinte e quatro horas depois, uma mensagem, uma foto na internet, uma curtida em alguém de biquíni e Mirella lhe jogou na cara seus procedimentos infantis, suas atitudes pueris. Impotente, Marcelo reconheceu fundamento nas acusações, mas suas explicações e desculpas não dobravam a ira de Mirella. Mais do que com raiva, ela dizia-se magoada; pior ainda, desencantada. “Tchau, Marcelo. Eu não quero mais”, e ele sentiu a terra abrir-se sob seus pés, ao mesmo tempo em que a vida perdia o sentido. A vida de Marcelo tinha vários sentidos, mas Mirella era o principal deles, o que dava sentido aos outros sentidos de viver.

    Por dias seguidos, mandou mensagens, que morriam na indiferença da namorada, praticamente o mesmo procedimento daquela noite no bar da Praça Varnhagem. A diferença agora é que não era uma noite; eram dias. Até que ela o bloqueou, bloqueou como se faz com os inoportunos números de telemarketing ou com falsários e golpistas de celular. Até que em uma tarde, chegando em casa do serviço, Marcelo reparou dois livros destacados na estante. Milton Hatoum e Gabriel Garcia Marques. Havia também, em uma gaveta abaixo, fotos dele e dela, juntos. Não rasgaria, mas não queria ficar com aquilo. Iria passar adiante a responsabilidade de rasgar, tocar fogo ou deixar no sumidouro de alguma gaveta. Pegou o metrô até o Flamengo.

    Quando Marcelo chegou, Mirella passava pela portaria, aérea, cara de quem nem percebe por onde está andando. Quando o viu, um supetão lhe arrancou de onde estava, a jogou de chofre no chão, entre as pilastras do prédio. “Estou indo na padaria”, foi o que, no susto, ela arranjou de dizer cara a cara com o ex-namorado, aquela surpresa fazendo com que ele ficasse ainda maior do que era, e por dentro um sentimento bom e inesperado saudando aquele momento que estava muito além do imprevisto. Embora fosse logicamente possível, Marcelo não contava em dar de cara com Mirella mal pisasse no piso detalhado da portaria antiga. Normalmente ele não estaria ali naquele horário, veio mais cedo do que viria porque foi liberado antes do trabalho. Mirella nunca ia à padaria, quanto mais àquela hora. Podia parecer coincidência, mas deve ter sido mesmo coisa do ordenamento astral. Não se viam desde que terminaram, cinco meses antes. Olharam-se calados após a explicação da padaria. O silêncio era daqueles que torna desnecessárias todas as palavras do vocabulário.

    Sentaram-se no banquinho do jardim do prédio. “A sua camiseta do Sex Pistols está lá em cima, e também a coletânea da Lygia Fagundes Telles. Mas pode deixar lá, não está ocupando espaço não”, ela comentou, depois que finalmente destravaram a conversa empacada pelo baque do reencontro. Marcelo nem mostrou as fotos e os livros, ficaram na bolsa de papel em que vieram. Ali mesmo Mirella desbloqueou o número dele.

    Marcelo era o amor que Mirella nunca quis viver, mas vivia e iria continuar vivendo, como se teimasse consigo mesma e com seu próprio juízo.

  • Relembrar é resistir!

    Estamos passando por dias tensos. Há uma ansiedade pesada no ar e um aperto no peito sobre o que será do nosso país nos próximos dias. O cenário político é incerto, e o mais alarmante é ver como a memória coletiva vacila rápido diante do tempo. Parece que muitos se esqueceram do caos recente – das lições que nos custaram tantas vidas.

    No documentário Anatomia do Caos (2025), a cineasta Dandara Ferreira resgata os bastidores da CPI da Covid-19 e expõe uma lente incisiva sobre o que vivemos. Não se tratou apenas de um vírus sem controle, mas de escolhas políticas conscientes. Foi o atraso deliberado na compra de vacinas em meio a dezenas de e-mails ignorados da Pfizer, a insistência no uso de remédios ineficazes, o colapso da falta de oxigênio em Manaus e o deboche direto contra pessoas que morriam sem conseguir respirar. O resultado foi a perda de mais de 700 mil vidas – muitas das quais poderiam ter sido salvas se houvesse responsabilidade no poder público.

    E a reflexão urgente que precisamos fazer é: é esse o padrão de futuro que estamos dispostos a aceitar?

    Ainda que a probabilidade de uma nova pandemia seja baixa, a forma de governar permanece. Quando olhamos para o herdeiro desse projeto, o senador Flávio Bolsonaro, vemos a continuidade direta dessas diretrizes. Durante a pandemia, ele manteve alinhamento irrestrito à conduta do pai. Hoje, sua plataforma volta a priorizar a entrega de patrimônios públicos e a defesa de pautas como a liberação de terrenos de marinha para a iniciativa privada (a chamada PEC das Praias), o incentivo ao ensino pago via vouchers e a retomada das privatizações e desinvestimentos de setores estratégicos como a Petrobras.

    Enquanto os responsáveis pelo passado buscam formas de escapar do julgamento e manter seus privilégios, a conta dessas escolhas é cobrada do povo: no aumento do custo de vida, na fragilização dos serviços públicos e na precarização da dignidade social.

    A verdade é que a violência estrutural do Estado e o fantasma do autoritarismo nunca desapareceram em 1985. A ditadura não é apenas um fato encerrado nos livros; ela sobrevive no cotidiano quando não há punição para quem cometeu crimes contra o povo, quando a educação pública é sucateada e quando discursos que atacam direitos fundamentais passam a ser normalizados.

    Por que permitimos essa alienação? Porque o capital e o poder econômico ainda ditam as regras e constroem narrativas para nos manter divididos. No entanto, a metáfora da animação Vida de Inseto (1998) permanece exata: eles operam como os gafanhotos, mas o povo é a força das formigas. Isolados, somos vulneráveis; conscientes da nossa força coletiva, mudamos o rumo das coisas.

    Não somos massa de manobra. Exigimos dignidade, acesso à comida, à saúde pública e à liberdade plena – não a sobrevivência precária em filas por ossos. Diante desse cenário, a sensação de impotência pode ser sufocante, mas há um instrumento concreto de transformação nas nossas mãos: o voto. Ou nós viramos ou morremos, infelizmente não há um meio termo!

    Para quem considera abster-se ou anular a escolha por achar que seu voto não faz diferença: a omissão é exatamente o terreno onde os projetos de retirada de direitos avançam. A disputa é real e envolve a defesa de serviços essenciais contra o seu desmonte.

    Se você atravessou a pandemia, se perdeu familiares ou se era jovem demais para compreender as engrenagens políticas daquele período, resgate a memória antes de votar. Nossa existência atual é fruto das lutas de quem nos antecedeu. Honrar essa trajetória é garantir que o futuro pertença a todos, e não a um projeto de poder que despreza a vida.

    *Nota do Editor: Em respeito à pluralidade, registramos o contraponto a essas críticas. Defensores da gestão anterior destacam o impacto vital do Auxílio Emergencial e o alcance final da vacinação na pandemia. Economicamente, argumentam que privatizações e iniciativas privadas (como vouchers e a PEC das Praias) reduzem a ineficiência estatal e atraem investimentos.

  • Detalhes

    Entra na confeitaria pensando em tomar um espresso para aquecer a tarde chuvosa. Pede um salgado e um refrigerante pequeno. Não sabe por que mudou de ideia. Senta-se de frente para a rua. Gosta de admirar as pessoas que passam e ouvir os pequenos fragmentos do dia a dia de cada uma delas.

    Na confeitaria, um homem emocionado conta ao balconista histórias de sua juventude ligadas ao lugar. Levou sua primeira namorada para comer um doce com morangos. Demora-se contando e repetindo trechos da mesma história.

    Uma senhora entra reclamando do mau tempo e informando que, desde 1942, não chove por tantos dias seguidos. Fala sobre a influência da internet no comércio local. Faz prognósticos nada otimistas para as grandes lojas de eletrodomésticos. Come e sai, despedindo-se de todos com a intimidade de quem frequenta o lugar há muito tempo.

    A confeitaria silencia por alguns minutos.

    Lá fora, chuva fina e neblina trazem ao dia um quê melancólico. 

    Observa.

    Guarda-chuvas, sombrinhas e casacos circulam pela calçada. Apressam-se para resolver questões de um dia comum de inverno.

    Levanta-se, paga a conta e sai.

    A praça vazia. Os carros que passam. Os olhos que contemplam.

    Lembra-se da frase dita pela mulher na confeitaria:

    Nunca choveu tanto!

    Não confere a informação, mas tem certeza de que as pessoas continuarão escrevendo suas histórias.

    Em dias de chuva ou de sol.

    A vida não para, ainda que o mau humor tome conta do nosso dia.

  • Nostalgia Jornalesca

    Durante a noite, eu havia escutado trovoadas. Imaginei uma grande luta no céu. As nuvens, o sol, a lua e as estrelas numa verdadeira batalha, disputando quem reinaria no novo dia que se aproximava. Um elegante duelo de Titãs.

    Amanheceu. Para meu espanto, o sol havia perdido. As nuvens, um pouco arroxeadas, mostravam os sinais de que havia sido uma grande luta. Elas estavam carregadas de chuva, haviam dominado o dia e deixado meu amigo sol em total nocaute.

    Nesse clima melancólico, sentado no meu apartamento, contemplando o céu com aquelas cores tristes, fiquei lembrando dos tempos áureos dos jornais impressos.

    Não me recordo disso como um profissional da redação, mas como um mero e assíduo leitor.

    A saudade do bom e velho jornal de papel. Poucos periódicos ainda se aventuram nesse universo.

    Era um verdadeiro ritual. Quem era assinante aguardava em casa a chegada do jornaleiro. Este chegava cedinho, antes do amanhecer. Era possível tomar café da manhã e ler o jornal ao mesmo tempo. Era um luxo.

    Para os leitores eventuais, o que restava era encontrar uma banca de revistas e comprar o jornal preferido, colocá-lo debaixo do braço e correr para o trabalho.

    O cheiro da tinta tomava conta do ambiente. As mãos, em contato com o papel, adquiriam uma textura especial e os dedos ficavam manchados com uma pigmentação escura.

    Surgiam as notícias mais importantes estampadas na capa e na contracapa.

    Assuntos sobre política, guerras, futebol, acidentes e as tragédias espalhadas pelo mundo ocupavam esses espaços.

    Alguns leitores liam o jornal quase por inteiro. Outros, somente as matérias de que mais gostavam. E havia aqueles que queriam ter assuntos e argumentos para os tórridos e infindáveis debates.

    Eram tantas as informações que se podia agradar a todos os públicos.

    Eu notava pessoas fazendo palavras cruzadas ou simplesmente as “cruzadinhas”.

    Alguns ficavam horas debruçados sobre elas e, quando terminavam, tinham um ar de vitória.

    Outros ficavam encantados lendo as histórias em quadrinhos, também conhecidas como “tirinhas”. Os personagens eram hilários e arrancavam gargalhadas dos leitores. Cada jornal tinha seu próprio elenco. Eu me recordo da Turma da Mônica, do Sofrenildo, do Capitão Cipó e do Peanuts.

    Futebol e política eram os assuntos que mais geravam discussões. Por isso, era bom ficar por dentro do que estava acontecendo.

    Falava-se das novas contratações, das trocas de técnicos e de quem estava próximo da zona de rebaixamento. Tudo era narrado nos mínimos detalhes.

    Se o time do coração ganhasse, seus torcedores procuravam os adversários para fazer piadas. Se perdesse, fugiam dos perseguidores incautos. Alguns nem saíam de casa com medo de virar chacota. Era bom estar bem informado. O povo adorava.

    Às vezes, cinco pessoas ou até mais se reuniam em algum banco de praça, discutindo as últimas notícias. Era muito divertido passar por perto e ouvir todo aquele falatório caloroso.

    Quando o assunto era economia, era um horror. Inflação, subida dos combustíveis, desvalorização da moeda e aumento do dólar.

    Alguns leitores passavam essas páginas e ficavam com os cabelos em pé. Aqueles que ainda tinham cabelo, é claro.

    As páginas policiais estampavam a violência. Eram notícias sobre assaltos, assassinatos, crimes de toda a natureza e o acompanhamento dos principais julgamentos criminais.

    O que eu realmente não gostava de ler era o obituário. Era como se estivéssemos sempre na expectativa de encontrar o nome de algum familiar, amigo, vizinho ou alguém próximo. Muita gente também concordava comigo e ficava longe dessa parte do jornal.

    Mas, enfim, hoje temos tudo isso e até mais quando se fala em jornalismo. As notícias chegam em tempo real. Não precisamos esperar a próxima edição para ficarmos atualizados.

    Mas nada me impede de sentir saudades das velhas páginas dos jornais impressos. Nostalgia jornalesca.

    E você também sentiu um pouco da nostalgia jornalesca?

  • A palavra medo

    Cena de guerra e fuzil e sangue…

    Onde estão os afagos e os beijos e o abraço?

    Cena de guerra e mãos para cima e mãos algemadas e confusão. Uma crônica áspera e truncada e difícil, um senão.

    Os beijos e os afagos e o abraço onde estão?

    É só poeira e tristeza e desilusão.

    Estarão juntos o beijo e o tiro, o abraço e o fuzil, os afagos e a agressão?

    Cena de guerra, uma página na história, botas, farda, faca entre os dentes, caveirão. A violência constante do Rio e do Brasil! A perda das infâncias. A perda da juventude!

    Escrevamos um parágrafo ao beijo e ao queijo e ao pão. Beijo esperado.

    Queijo partido. Pão alcançado. Suor e lágrimas. Mistura. Massa diária e fermento da crônica. Voltemos aos olhos de alguém que não percebe a força do cotidiano, entretanto, vê tudo o que se passa. E tudo é forte e fala até quando cala.

    Mas a violência e o calor não esperam! Chegam e arrastam! Os tiros e os rostos intranquilos e os dias e as fugas e as cidades próximas e o cheiro de álcool e pneus velhos queimados e as imagens da selvageria, helicóptero no ar… Há muitos covardes. Pseudo-homens que levantam fuzis e gritam e matam e morrem. Morrem cedo. Morrem tarde. Morrem e matam.

    Voltemos ao abraço e ao corpo e ao chão. Abraço desejado. Corpo moído, trêmulo. Chão e descanso, sono. Suor e lágrimas.

    Heterogeneidade. Idade e insanidade. Pasta diária e fermento da crônica. Voltemos aos olhos de alguém que não entende o poder do cotidiano, contudo, vive e vê tudo o que passa. E tudo é muito e grita até quando cala.

    Mas a água escura do esgoto leva detritos humanos. As águas fétidas e viscosas levam coisas e seres. E fogem muitos. E fogem eles, os pseudo-homens. E são baratas e aranhas e ratos. E têm muitas mãos e pés e dedos com que avançam e empurram o que está pela frente. Anseiam chegar em vielas novas.

    E há o silêncio. Um silêncio perplexo dos espectadores da cidade da guerra.

    Alguns fugiram. Muitos fugiram? Alguns… Alguém… Voltemos ao silêncio estarrecedor. A palavra MEDO corta o horizonte como bala. A palavra MEDO parece estar ali, imóvel e imponente. A palavra MEDO ri dos homens e dos bichos. A palavra MEDO ainda existe. E ainda existe o medo da palavra MEDO.

    É o medo da normalização da barbárie!

    É o medo dos políticos e da política que mata!

    É o medo da perda de direitos e de humanidade!

    É o medo ouvindo os temores e tremores no Congresso Internacional do Medo.

    É um medo que paralisa e que compromete o futuro.

    O medo está ali. Ninguém fala porque a palavra MEDO apavora até quando se cala.

  • As cortinas do meu infinito

    Já cantava minha mui querida Rita Lee — Baila comigo — lá no meu esconderijo.

    O meu.

    Secretíssimo.

    Um canto feito de flores antigas, perfumes esquecidos e aquela luz dourada das tardes de outono. Raios que atravessam as frestas das cortinas voadoras e transformam minha janela em portal.

    Um portal para o infinito.

    Mas não um infinito qualquer.

    O meu infinito.

    Aquele que mora dentro de mim.

    É ali que reparto com minha criança interior o sabor das balas puxa-puxa compradas à beira da estrada. É ali que ainda sinto o arrepio ingênuo dos primeiros corpo a corpo nas aulas de dança.

    É ali que sonho amores embalados pelos LPs que giravam na vitrola — riscadinhos, teimosos, repetindo às vezes a mesma frase —, mas perfeitos para um coração que ainda estava aprendendo a amar.

    Nesse túnel do tempo, as imagens não envelhecem.

    Vejo as hortênsias do jardim nas manhãs frias de inverno.

    O telefone preto de parede ecoando pelo corredor.

    O DKW saia e blusa do meu pai dobrando a esquina.

    A coleção de Agatha Christie da minha mãe, guardada como tesouro, esperando que alguém abrisse mais uma história.

    E eu abro.

    Abro todas.

    Porque memória é assim: uma porta que nunca termina de abrir.

    E, na hora H, quando o tempo parece esquecer de passar, reencontro aquela menina.

    Tranças brancas.

    Bochechas coradas.

    Deitada na grama, tomando banho de sol, esperando o pão doce do lanche.

    Um domingo que não termina.

    Um domingo guardado para sempre atrás das minhas cortinas.

    E bailo.

    Bailo porque a cadência me aquece como um ventre generoso, onde tudo recomeça.

    Bailo porque há músicas que não envelhecem.

    Porque há lembranças que não pedem licença para voltar.

    Porque, às vezes, precisamos apenas fechar os olhos para que o tempo recue.

    E ele recua.

    Volta pelas frestas da janela, atravessa as cortinas, espalha pelo quarto o perfume das flores antigas e me devolve aquilo que eu julgava perdido.

    A menina.

    A mulher.

    As duas, por um instante, cabem no mesmo corpo.

    Do fundo do meu esconderijo — semente que adormece antes da primavera — escuto então um eco.

    Ele responde no mesmo diapasão.

    E vem chegando devagar.

    Não sei se é memória, música, desejo ou simplesmente a vida chamando de volta.

    Mas ele vem.

    E então baila comigo.

    Como se baila na tribo.

    Íntimo.

    Ancestral.

    Inevitável.

    E, enquanto as cortinas se movem com o vento, percebo que talvez meu esconderijo nunca tenha sido um lugar.

    Talvez tenha sido sempre isso: um pequeno infinito guardado dentro de mim, onde a menina ainda dança e o tempo, por alguns instantes, não tem permissão para entrar.

  • Os destaques da semana

    1. Exercício literário: chamado a partir de post do instagram

    | …

    Estive. Dadas as indevidas proporções. Horas antagônicas, gotas de minutos que se desarmavam em câmera lenta. E eu, lá… L.A: Lugar Amargo. Estive, tempo-espaço-ação demasiadamente prolongado; fracionando demais, passei, compareci, permaneci, existi, permaneci, fiquei. Divagando. Desproporcionalmente, estive.

    2. Das primeiras vezes

    Kickboxing.

    Fiz minha primeira aula, estreando em uma turma feminina de kickboxing, duas vezes na semana – mas, pela agenda excessivamente cheia de sempre, me delonguei por três oportunidades; na quarta, que de fato foi em plena quinta (feira), enxotei as desculpas e me deixei levar pelas pernas ao lugar que os dedos escolheram, ao zapear pelo aplicativo de benefícios corporativos em prol da saúde e mobilidade física.

    Há tempos quero aprender uma luta, mais por defesa pessoal.

    De pequena, meu pai queria que eu fosse escoteira. Minha mãe foi contra, “melhor ballet“.

    Fui para o piano. Uma aula com uma senhora que batia a régua nos dedos ao sinal do mísero erro. Entrei para o coral infantil; abri uma apresentação, solando “Sou feliz, por isso estou aqui… também quero viajar nesse balãããáÃÃO….”

    No coral, fiquei só para aquela apresentação; ao atingir a maior idade, entretanto, fui solista de uma Casa de Música na minha cidade, atriz de musicais e, antes, no teatro da Escola, cantei várias músicas, em diversas ocasiões. Sou, por extensão de voz, o que classificam por soprano.

    Da ideia do ballet, fui para a ginástica rítmica, e, quando minha mãe não podia me levar à noite, saltei – com mais ímpeto do que graça -, por um semestre.

    Antes, eu apenas posara com uma sapatilha de ponta para um fotógrafo do Sul, que transformou a mim e minha irmã – a então bailarina graciosa da família – em registros sépia, moldura e borda branca. Eu era desengonçadamente um patinho feio para a graciosidade corporal, até a GRD.

    O piano não passou daquela única aula, mas minha irmã se formou, tendo feito, em sua primeira audição, aos oito anos, uma composição própria, surpresa, em minha homenagem. Sei reproduzi-la vocalmente até hoje.

    E sei tocar Cai cai, balão, que aprendi de ouvido. Sabia Titanic também, de metida à autodidata com os dedos íntegros.

    Fui assaltada com faca uma vez, há oito anos.

    Subia pelos batentes das portas da nossa casa, até quase a adolescência. Sempre tive um quê de rebeldia incrustada. Mas inrusti tanto, que parei com as estripulias, concentrando todas as minhas forças nas artes e em ser uma criança exemplar.

    Foi um percurso genuinamente bom.

    Mas eu devia ter sido escoteira. Como eu gostaria de não privar meus futuros filhos de qualquer oportunidade de se expressarem e não adquirirem medos tolos, como o que eu tenho, de sapos! – culpa, também da minha mãe (foi mal, mãe, também te amo, mas è tutto vero).

    Mas, kickboxing:

    Professor campeão de tantas disputas – uma das paredes repleta de certificados emoldurados, medalhas, troféus. Um tatame preto – que aprendi que se deve reverenciar, girando o tronco a 90°, ao sair e ao adentrá-lo. Uma luva emprestada, bandanas de três a cinco metros enroladas nos pares de mãos das meninas.

    Dentre elas, uma amiga minha desde os dois anos de idade. Grata surpresa.

    Vinte minutos de aquecimento, entre alongamentos, polichinelos e abdominais. Duas mãos protegendo as bochechas. Jab, direto, desvia, cruzado, gancho, desvia.

    Suor, respiração mantida graças aos aprendizados do pilates, chutes e…

    Me encontrei.

    Não fui escoteira, e já sou bem grandinha para ser. Mas kickboxeteira nas horas vagas, ah, meus amigos…

    Nasci para isso!

    3. Globo da Morte e o Edu

    Eduardo Moscóvis veio a Nova Friburgo através da programação do Parque de Ideias, em parceria com a Usina Cultural Energisa. Ingressos distribuídos um dia antes, teatro Municipal lotado em plena quarta-feira, às vinte horas.

    Eu tenho fotos com o Edu Moscovis, de quando fui visitar o Projac, há 21 anos. Ele era Rafael, em Alma Gêmea. Pensei em buscar a foto no álbum tipo pasta-catálogo 10×15, com capa da Kodak, mas seria tietagem demais. Me contive.

    A peça foi quase inteiramente passada com meia luz da plateia acesa. Antônio, meu nome é Antônio.

    Assim, sentado em uma cadeira, com oito luminárias pantográficas apontadas para si e um copo de água que foi bebido ensaiadamente para durar o tempo exato do monólogo, o grande ator brasileiro fez com que o público, desconcertado com o fato de também sermos foco, sequer olhasse para a cadeira do lado, ou mexesse na bolsa para pegar o celular.

    “É expressamente proibido filmar ou fotografar esse espetáculo”.

    Texto e performances de aplaudir de pé, verdadeiramente.

    Antônio | Antônios. Antônimos, pensei.

    Manga, que é fruta e também parte da roupa, ele trouxe. Lacunas. Repetiu algumas vezes, para descrever o quanto ele não sabia sobre outros personagens que o solilóquio revelava.

    Cachorro. Ser manso. Adepto da não-violência.

    A um puro ato humano – pois nada mais humano do que a desumanidade -, todo um caráter de Antônio tornou-se antônimo. Assassinou um Antônio, que não ele, e ele, também.

    Toda a cena se passa, provavelmente, entre a mente que reconta a sua história para si e a confissão na sala de interrogatório de uma delegacia. E, no confessar que o lugar se materializa: todas as luzes da plateia se apagam.

    Aqui, instantaneamente, os olhos fixos de muitos procuram seus celulares: vários pontinhos de luz aparecem salpicados entre o mar de vultos na escuridão incipiente.

    A luz volta a acender, sobre nossas cabeças. A água do copo está no fim. Ele tem sede. A boca está seca.

    O encerramento não é anunciado.

    Ele fica lá, parado.

    Até que alguém puxa os aplausos.

    Que noite de embrulhar o estômago. Que noite para ter mais uma vez a certeza de que só a arte salva.

    4. Dia de Bruna

    Terça foi aniversário da minha irmã, como sempre o é, aos décimos terceiros dias do mês de outubro. Zeca não estava bem da respiração desde segunda. Contrariada por ter de encarar uma viagem de quase 400km, ida e volta,com o calor a agravar seu já debilitado sistema respiratório, fomos para o Rio. Zeca continuou a respirar com muito esforço.

    Pouco mais de duas horas na casa da minha irmã, eu irritada, preocupada e sem apetite para almoçar com ela. Retornei com o meu filhote, ar condicionado no máximo, ele no meu colo. Eu, que capotei num sono leve, olhos atentos a qualquer som nasal mais forte ou mexida do corpinho diminuto do meu spitz alemão.

    Não recebi meu primeiro pedaço de bolo.

    No dia seguinte, minha mãe retornando, lá estava ele, envolto em papel-alumínio e numa sacolinha plástica translúcida, fechada em si por um nó. Pode dar tudo errado entre nós duas. Mas se o primeiro pedaço de bolo não existir… aí, a certeza de tudo estar perdido.

    5. Criança da casa = Zeca (e eu, sempre)

    12 de outubro sempre será o dia de comer besteiras, de ganhar presentes descontraídos e de fazer o lúdico adentrar o cotidiano. Acordei na minha mãe, Zeca ao meu lado, e preparamos a mesa do café. Eu já abria o antigo móvel de mogno em busca de algo para decorar a mesa, além de retirar das caixas e malas ainda meio não desfeitas da última mudança, no corredor, faquinhas de bambu, bandeijinhas do mesmo material e o jogo americano, para dois, de rattan com couro.

    Capturei seis fitas VHS de desenhos animados que fazem parte da biblioteca da minha vida – e que não podemos reproduzir pela falta do aparelho – para compor a mesa. Louças brancas para os dias festivos, taças de sorvete em inox, pratos decorados com um mix de frutas

    cortadas, orégano, tapioca flocada e algumas folhas de manjericão. Zeca me olha, como sempre que estamos preparando a mesa, com aquela pergunta no olhar “e para mim?”

    Pego um piso querido, com tema de bicicleta, e o coloco próximo à mesa, no chão; busco os recipientes de inox Zeca e o suporte de altura. Recolho alguns dos brinquedos espalhados pela casa, e os organizo sobre o tapete; o cachorrinho que costurei para o aniversário dele. Falta algo. Recorro à sacola de itens para doar: uma lagosta de pelúcia “nova”, com a qual Summer não brincava e minha irmã resolveu passar para cá, já com as ressalvas: “Dê para outro cachorrinho, o Zeca vai estragar em dois tempos“.

    Mas, vejamos e sejamos justos: é dia das crianças. A criança da casa merece um presente!

    Lagosta também sobre o tapete, água de coco no pote de água, a grama de milho de pipoca para pets comprada na Leroy Merlin, banana cortadinha, mamão, biscoitinhos de banana. Um Zeca que avança com a linguinha inquieta. Eu que, perplexa, consigo adestrá-lo à espera.

    Tudo vai ludicamente bem no dia 12 de outubro.

    6. Sextou!

    Amanhece chovendo, inicia-se a tarde chovendo e à hora do rush… chove!

    Sextou na serra, eu de vestido bege, quase extensão do desbotado da pele de quem morou no Rio de Janeiro por quatro intensos meses e pouco viu os raios solares. No tecido, um estampado em croqui do Parque Lage, meu lugar querido de aprendizado artístico – e da confecção de amigos boêmios, hoje pouco revisitados, um ou outro habitando o além-mar. Ponho um colete jeans escuro e cropped por cima, o contraste minimiza a palidez.

    Por falar em amizades feitas através do aprendizado artístico, eu estava organizando um café (ou açaí) com uma dessas pessoas de múltiplas afinidades que a arte, vez ou outra, alinhava a nossa vida. Esta, um curso de moda pelo Parque de Ideias me trouxe no ano passado.

    Organizando é o verbo justo no tempo justo: era às 16h. Passei para as 16h30. Melhor às 17h, pode ser?

    Eu e minha agenda doida, sempre sobrepondo trabalho e vida.

    Cheguei 17h10. Chovia. Optamos por um chopp, já que era sexta.

    Quais lugares nos fazem sentir confortáveis? , eu pergunto?

    Naquela mesa de bar, de costas para a profusão de trânsito e transeuntes, sou chamada, no meio de histórias de vida entrecortadas por tantos assuntos, a olhar para o céu, às minhas costas. “Adoro o céu dessa hora“, ele diz. “Golden hour, né..  eu também“. Ali, no virar de pescoço, para contemplar o céu, tive mais uma vez certeza de que o lugar que me faz sentir confortável é o movimento de olhares que confluem para coisas que agradam a quem está trocando trivialidades.

    E pensei na minha obra de arte Siamo Luce: um manequim envolto em fita LED endereçável, em pé em uma das janelas do segundo pavimento da Usina Cultural Energisa, segurando 600 metros de cabo PP, fracionados em 50 lâmpadas, cada uma acesa a um clique de interruptor autônomo, instalado numa caixa na quina do sobrado. Uma esquina estreita, uma caixa com 50 interruptores. Um convite para interrompermos nossas rotinas de olhar cabisbaixo e olharmos para cima.

    O movimento é um dos mais enlevantes.

    Enxergar o céu é um respiro; é ver a vida, a lua, as nuvens, raios de sol sobre o prisma de se estar vivo.

    Dali, os tons brancos e alaranjados tornaram-se uma paleta decrescente de azuis; fez-se à noite.

    E o chopp se transformou em um até breve, em caminhar uma quadra na companhia de mais quatro pernas e quatro rodas e adentrar um dos melhores restaurantes árabes que já fui na vida.

    Meu casal de amigos favoritos, com sua primogênita linda, que dormia o sono dos puros de olhar. Os que viram os pescoços e percebem toda a profusão de vida, sem olhar para baixo pela pressão da gravidade de se tornar adulto.

    Ela acorda quando estamos no fim do último pão árabe, já pedido extra.

    Olhos verdes-vida em meio as cores exuberantes daquele pequeno Oriente Médio.

    E minha sexta foi regada à presença, e especialíssima; estive com dois do meu seleto universo de amigos leitores!

    7. Porque hoje é sábado

    De cansaco, meu corpo entende; evidência da foto enviada pela amiga de infância, em que seguro sua filha. Ela sorri. Eu tambem. Tenho bolsas escuras sob os olhos, achei que a maquiagem tivesse suavizado. Chego a casa, a alergia nas pálpebras me assola. Pílula tranparente com cor amarela. Durmo. Até o nascer da noite. Acordo exausta com o fim da luz do dia. Almoço. Café e… cama.

  • Estou chateada

    Logo eu! Tão receptiva, beneplácita, afetiva… 

    Isso não é legal…

    Atravessei oceanos, vi cometas, vivi em dois séculos, acendi fogo com casca de milho seco, meu fogão é de indução…

    E muito além dessas coisinhas bobas aprendi a escrever “cobrindo” as letras, o que nos fazia ter letras clone às das professoras.

    Nada de letras de forma para depois aprender letras cursivas.

    Datilografei  eu mesma os trabalhos escolares, na maquininha Olivetti portátil ganhada em uma rifa da escola.

    Se eu ficar aqui enumerando o quão avançada eu fui e era, o resultado será um Tratado Sobre Crianças Desenvolvidas, Jovens Promissoras, Adultas Independentes.

    Mas não é isso o que me trouxe aqui:

    Na verdade, estou aqui me distraindo enquanto ouço, há quase cinquenta minutos, a musiquinha do serviço de atendimento do meu banco, tentando descobrir por que não consigo pagar o picolé que comprei.

    Óbvio que tenho saldo na conta!

    Imaginem se eu estaria percorrendo as gôndolas, saboreando o picolé, ruminando sabe-se lá que pensamentos, se desconfiasse que, ao passar a embalagem vazia pelo caixa, meu cartão seria recusado!

    Passo os olhos pelo mercado, na vã esperança de encontrar alguém conhecido…

    Resignada, enfio a mão no bolso do moletom velho que peguei ao sair.

    Viva! Uma nota vermelha de dez reais!

  • BRAZIL 3027

    Em 3027, nosso país afinal encontrará sua vocação mercadológico-espiritual, tornando-nos oficialmente uma nação teocrática. À Constituição de 1988 será incorporada, como apêndice, uma versão da Bíblia Sagrada prefaciada e revisada por Silas Malafaia. Inaugura-se assim o princípio basilar da Nação de Cristo, sob a égide da fé e do livre mercado.

    O STF perde sua soberania jurisdicional. Suas decisões passarão a ser submetidas à apreciação do Grande Conselho Nacional de Pastores, responsável por conceder a indispensável chancela espiritual à lei dos homens.

    As religiões de ‘matriz africana’ – eufemismo para magia negra – serão tipificadas no Novo Código Penal Pentecostal como práticas ilegais de feitiçaria, sujeitando seus devotos a severas punições. Já os seguidores do Islã, considerados ameaça potencial à democracia, serão encaminhados a um procedimento de deportação preventiva, sob presunção de terrorismo. O novo ordenamento contemplará apenas as fés judaico-cristãs, previamente homologadas pela Autoridade Eclesiástica Superior, exigindo-se dos celebrantes terno, gravata e corte de cabelo apresentável.

    A laicidade do Estado, antessala do ateísmo comunista, fica revogada em nome da Evangelização Universal Compulsória. Toda manifestação pública será obrigatoriamente precedida de uma oração de louvor ao Senhor. O pleno exercício da cidadania passa a ser condicionado ao pagamento em dia do Carnê da Prosperidade, taxa mensal de manutenção da bênção. A contribuição poderá ser quitada via PIX, cartão de débito ou criptomoedas lastreadas na fé, sendo também aceito o papel moeda, desde que emitido em cédulas com as novas estampas inspiradas em passagens bíblicas.

    Será procedida uma faxina de imagens de gesso de santos e demais representações da igreja católica romana. Os ícones existentes serão reciclados como brita asfáltica para pavimentação do estacionamento de megatemplos de louvor a Jesus e para a construção de helipontos e pistas auxiliares para pouso dos jatinhos dos pastores.

    A efígie intitulada Nossa Senhora, figura mítica feminina beatificada por católicos, será banida do território nacional, sendo extinto do calendário oficial o feriado de 12 de outubro em sua homenagem. Em seu lugar, será instituído o 7 de outubro como feriado cívico-militar em memória ao ataque palestino a Israel, convertido pela nova historiografia oficial em símbolo máximo da cruzada contra os infiéis. A bandeira nacional receberá também uma estrela de Davi em sua configuração.

    Entrarão no rol das cláusulas pétreas da Constituição Bíblica a proibição do aborto em quaisquer circunstâncias bem como da homossexualidade, da transexualidade e outras aberrações anatômicas ou desvios comportamentais que atentem contra a biologia da criação e os princípios cristãos.

    As escolas cívico-militares administradas por oficiais aposentados tornam-se o novo modelo oficial de ensino, abolindo-se disciplinas reflexivas e potencialmente subversivas como Filosofia e Sociologia. A linha crítica dará lugar à Educação Motivacional, com introdução na grade curricular de novos tópicos de ensino como Manejo Técnico de Armas de Fogo e Defesa Patrimonial, Terraplanismo Geopolítico, Empreendedorismo, Formação de Influencers, Marketing da Prosperidade, Evangelização Algorítmica e Introdução à Meritocracia.

    A Terapia de Reorientação Heterossexual (Cura Gay) será a única modalidade clínica gratuita oferecida pelo SUS. Quaisquer outros tratamentos de saúde, da unha encravada ao tratamento do HIV, serão redirecionados à iniciativa privada.  A vacinação passará a ser facultativa e custeada pelo paciente que assinará termo de responsabilidade por sua própria sobrevivência.

    Serão implantadas a maioridade penal aos 10 anos, a castração química compulsória para a população em situação de rua e a pena de morte para crimes hediondos como o furto de aparelhos celulares e a inadimplência das taxas de segurança comunitária que cobrem a entrega de gás, a instalação de TV a cabo, postos de combustíveis e transportes por vans. Para abrigar os infratores, serão erguidas megaprisões privatizadas, ‘modelo Bukele’, sendo sua construção financiada com recursos redirecionados do ProUni, Farmácia Popular e Minha Casa Minha Vida.

    O país será formalmente retirado da ONU e outros organismos globalistas. Serão rompidas as relações comerciais com a China e o Irã, oferecendo-se aos EUA o usufruto exclusivo de Terras Raras por um período de 100 anos. O Palácio do Planalto será rebatizado como Palácio Olavo de Carvalho.

    A Festa do Peão de Barretos será elevada à condição de data magna. A efeméride será celebrada através de uma grande churrascada patriótica, regada a pronunciamentos de lideranças do agronegócio, ao som de sertanejo universitário e pop gospel, únicas manifestações musicais merecedoras de incentivo oficial. Teatro, cinema, literatura e artes plásticas não mais contarão com financiamento público.

    Será incentivado o turismo empresarial e antigas áreas de preservação ambiental serão transformadas em resorts de luxo. As reservas indígenas e quilombolas serão desativadas, cedendo espaço para modernos spas, campos de golfe e condomínios de veraneio para a elite corporativa. Serão abertas linhas de crédito para expansão de plantação de soja e da criação de gado com fundos oriundos do extinto Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

    Após anos de proselitismo esquerdista, nasce assim a nova historiografia oficial sob o signo do sagrado dízimo como valor universal intangível.

    Bem-vindos ao Brazil 3027. Deus acima de todos – respeitada a primazia do mercado.

    *O texto acima não remete necessariamente a opinião do portal Crônicas Cariocas.
    **Textos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores.

  • A folha e a pedrinha

    No caminho encontrei uma folha e uma pedrinha. A folha havia caído suave ao chão, a pedrinha veio presa ao calçado de alguém e se soltou ficando junto a folha. Nenhuma das duas chegou ali por força de algum planejamento. As duas ficaram juntas como parte de tudo que vem carregado pela corrente aleatória dos fatos da vida. Um acaso só.

    A folha e a pedrinha um dia fizeram parte de algo maior. Uma estava na árvore, outra no rochedo. Cada uma em sua origem era forte por fazer parte do todo. Destacadas do conjunto a que pertenciam se tornaram frágeis e hoje estão pelo caminho, imperceptíveis.

    Quem as trouxe até ali o fez sem perceber. Não por desprezo mas porque nem tudo na vida é central e importante.

    Folhas e pedrinhas fazem parte dos acontecimentos laterais, quase periféricos de nossa existência. A folha poderia ter ido ao olho. A pedrinha poderia ter incomodado a sola do pé. Assim elas teriam deixado a periferia discreta e anônima dos acontecimentos sem importância se tornando integrantes centrais da linha da vida.

    Nem que fosse por um instante. Nem que fosse somente para nos aborrecer.

    Mas nada disso aconteceu. Olho e pé não foram molestados e a vida seguiu seu curso. 

    Folha e pedrinha permanecem ali. Se por um instante elas poderiam ter sido mais do que são, não passou disso, um mero instante.

    Por isso não serão lembradas. Efêmeras, se estivessem em uma pintura seriam ínfimos detalhes do quadro geral. Teriam surgido de pinceladas distraídas, feitas pelo artista para completar a composição.

    Não merecem a atenção, portanto. Nem qualquer referência de pé de página.

    Talvez em outra realidade a folha fosse folhagem frondosa e a pedrinha fosse rochedo. Nesses formatos, elas permaneceriam presentes na nossa vida.

    Mas não aconteceu e tudo terminou diferente. Uma folha e uma pedrinha, nada mais.

    Do tamanho e peso de muitos problemas. Aparentemente importantes mas quando examinados de perto são insignificantes e periféricos.

    E a vida segue, com você junto.

  • Seu nome no mundo

    Existem entrelaços perigosos, e é seguro dizer que, depois de 72 horas de confidências indistintas, esse é um deles. Inauguramos uma nova fase: eu te contei um segredo. Um gesto tão pequeno e tão grande.

    A trilha sonora de fundo combina com a adrenalina que eu sinto, tão diferente de todo o resto, e diz: “você parece tão legal, fique”. E eu já associo essa música a você. Afinal, essa é a história que parece um encanto no meio de tantos desencontros.

    E, de repente, em um horário inapropriado para uma quarta-feira, eu percebi que quero dizer seu nome. E quero dizer para inaugurar seu nome no meu mundo.

    A primeira vez que se diz o nome de alguém é um marco. Hoje eu disse seu nome em voz alta pela primeira vez e talvez eu o repita tantas outras vezes que isso se torne quase um mistério a ser descoberto pelos demais meros mortais do meu mundo.

    Hoje eu disse seu nome, talvez amanhã eu repita. E talvez eu diga sem parar… até nunca me cansar.

  • Passou o tempo de roubar amoras

    “Passou o tempo de roubar amoras, mangas, goiabas e mexericas no quintal do vizinho”.
    Elias José, em “Cantigas de adolescer”

    Nunca fui de subir em árvore.

    Fui um menino tímido.

    Era ruim de bola e não subia na laje para soltar pipas.

    Mas teve um acontecimento que me deixou um gosto de aventura: foi quando, pela primeira vez, eu ouvi “I want to hold your hand”, dos Beatles.

    Eu não sabia quem eram os Beatles. Não sabia nadinha de nada de inglês. Mas, quando ouvia aquela música, não conseguia ficar parado, dava vontade de dançar, de cantar, de rir, de rodopiar pela sala.

    A música tocava no intervalo de um jogo de futebol, na hora da propaganda. Não me interessava o jogo, quem ganhava ou quem perdia, a bola rolando pouco me interessava. Eu queria a música, aquele trecho, que não era de tocar no rádio lá de casa.

    Mas aí veio um homem rabugento, acho que era amigo do meu tio, que estava com o controle remoto. Quando me viu, o danado, gostando tanto assim dos Beatles, fez pirraça e tratou de ver o jogo em outro canal. Não adiantou espernear, nem falar nada. Minha mãe viu meu desespero e me levou para passear no quintal.

    Doeu mais do que joelho ralado, mais do que se tivessem furado a bola de futebol, era pior do que repetir de ano. Depois daquilo, eu teria que esperar tocar no rádio.

    Hoje ouvi “I want to hold your hand”. A infância, há muitos anos, ficou para trás. Passou o tempo de roubar amoras, de jogar bola na rua, de ter medo do escuro, de chegar em casa com o corpo cheio de poeira. Mas se pensam que me dou por vencido, se enganam. O passaporte para minha época de menino é a velha canção dos Beatles. Viajo para lá quando quero e volto quando me dá na telha. Depois de muito viver e muito estudar, canto juntinho com os Beatles a música toda. De cor e salteado. Ninguém desliga o som, não preciso esperar o intervalo da televisão, nem preciso de controle para dançar e cantar. Chegou o tempo de ter um notebook e convém aproveitar.

    Hoje, ao ouvir “I want to hold your hand” sinto que minha infância volta, inteira, apagando tudo ao redor. Com a imaginação viajo para onde eu quiser. Por isso escolhi o ofício de escrever.

  • Precisei me matar para renascer

    Precisei me matar para voltar a ser quem sou. Há uma obscenidade nessa constatação, eu sei. Como se a existência, em algum momento, tivesse exigido de mim a minha própria ausência para que eu pudesse regressar. Não sei exatamente quem morreu. Talvez tenha sido aquele que eu acreditava ser. Talvez tenha sido o outro, esse que me habitava sem pedir licença e que, durante muito tempo, confundi comigo. Há mortes que não deixam cadáveres. Deixam sobreviventes.

    Fui criado entre armas. Não tenho medo de bala, de arma. O medo, quando se torna parte da paisagem, aprende a disfarçar-se de familiaridade. Crescemos acreditando que conhecemos aquilo que nos cerca, até descobrirmos que o conhecido também pode nos ameaçar. Há coisas que a infância nos entrega sem embrulho, e passamos a vida tentando descobrir se eram presentes ou sentenças. Algumas continuam dentro de nós, embora já não saibamos dizer quando entraram.

    Não tenho medo do escuro. Nem das escuridões da noite, nem do calor que se derrama sobre o dia, nem do frio que parece exalar de certos corpos. Há uma escuridão que não depende da ausência de luz. Ela pode morar num rosto conhecido, atravessar uma conversa banal, repousar tranquilamente sobre a mesa enquanto todos acreditam estar em paz. O mais estranho não é a existência das sombras, mas a intimidade que, às vezes, estabelecemos com elas. Chega um momento em que já não sabemos se estamos tentando escapar do escuro ou protegendo aquilo que ele esconde.

    Por minha mãe, entro na frente de uma arma. Digo ao homem que a segura que, para matá-la, terá de atirar em mim primeiro. E o desmonto. Poderia ser meu pai, poderiam ser meus irmãos. Quanto aos outros, não sei. Talvez eu fizesse o mesmo. Talvez não. Há uma parte de nós que só se apresenta quando a realidade deixa de ser hipótese. Antes disso, somos apenas as versões que contamos a nós mesmos.

    E quem sou eu quando não tenho tempo de pensar em quem sou?

    Essa pergunta me acompanha mais do que gostaria. Porque há gestos que acontecem antes da consciência, como se alguma coisa em nós já tivesse decidido quando ainda procurávamos uma razão. Talvez o amor seja também esse lugar onde o pensamento chega atrasado. Ou talvez não seja amor aquilo que nos leva a colocar o corpo diante da morte, mas alguma coisa muito mais antiga, uma espécie de pacto silencioso que fizemos antes mesmo de conhecer as palavras com que hoje tentamos explicá-lo.

    Recordo-me de uma época em que fiz isso. O passado, entretanto, nunca retorna sozinho. Traz consigo a pessoa que éramos, a pessoa que imaginamos ter sido e aquela que inventamos depois para suportar a lembrança. Entre as três, alguma verdade deve existir. Ou talvez a verdade seja justamente o intervalo, essa região sem nome onde a memória deixa de ser acontecimento e passa a ser interpretação.

    Nunca matei ninguém. Nunca mataria. Matei uma barata e um rato para me defender. Escrevo isso porque há uma diferença entre destruir aquilo que nos ameaça e compreender o que, dentro de nós, se sente ameaçado. Nem sempre as duas coisas coincidem. Às vezes, o perigo está diante dos olhos; outras vezes, continua existindo muito depois de ter desaparecido. O corpo parece não receber todas as notícias que a realidade lhe envia. Há defesas que sobrevivem ao inimigo. Há guerras que terminam no mundo e continuam acontecendo em silêncio.

    Talvez eu escreva para me defender.

    Não de alguém, necessariamente, mas daquilo que não consigo reconhecer quando se aproxima demais. A palavra pode ser uma espécie de distância. Uma superfície entre mim e o indizível, embora eu saiba que também pode ser uma porta. Escrevo para não tocar diretamente em certas coisas, e, quando percebo, já estou dentro delas. A linguagem me protege daquilo que a linguagem revela. Eis uma das suas perversidades: acreditamos que estamos nomeando alguma coisa, quando talvez estejamos apenas encontrando uma maneira de continuar diante dela.

    O que escrevo não me pertence inteiramente. Há frases que parecem ter esperado por mim durante anos, escondidas em algum lugar que desconheço. Há outras que escrevo para descobrir o que estava pensando antes de saber que pensava. Talvez escrever seja isso: surpreender-se com a própria existência sem conseguir reivindicar a autoria de tudo o que aparece. O sujeito escreve, mas nem sempre sabe de onde vem aquilo que escreve. E, quando reconhece alguma coisa de si no texto, já não é exatamente o mesmo que começou a escrevê-lo.

    Convivo todos os dias com minha mãe. O amor, quando deixa de ser uma palavra e passa a ocupar o mesmo espaço que nós, adquire uma estranha concretude. Está nos dias comuns, na presença, naquilo que não precisa ser anunciado. Se alguém entrasse nesta casa para lhe fazer mal, eu não hesitaria em protegê-la. Não digo isso para parecer corajoso. Há afirmações que não pedem testemunhas. Digo porque, diante dela, algumas das minhas dúvidas parecem suspender-se, embora eu não saiba se desaparecem ou apenas aprendem a esperar.

    Talvez seja essa a diferença entre o que sou e aquilo que penso ser: diante de certas presenças, não tenho tempo de construir uma personagem. O gesto me antecede. O amor me antecede. E eu, que tantas vezes procuro na escrita uma maneira de compreender a mim mesmo, descubro que existem partes de mim que não se deixam conhecer pela explicação. Permanecem ali, irredutíveis, como se a consciência fosse apenas uma pequena casa construída sobre um território que não lhe pertence.

    Mas não quero fazer da minha capacidade de proteger alguém uma prova daquilo que sou. Há vaidades escondidas até nas nossas melhores intenções. O sujeito pode transformar a própria dor em identidade, a própria coragem em espetáculo, a própria sobrevivência em argumento. Pode passar tanto tempo contando a história de quem foi que acaba impedido de descobrir quem ainda pode ser. Não quero que a minha história se transforme numa prisão com o meu nome na porta.

    Precisei me matar para renascer. E talvez o mais difícil não tenha sido morrer para aquilo que eu era, mas suportar o desconhecimento daquilo que viria depois. Porque o renascimento não oferece garantias. Ninguém atravessa uma ruptura sabendo exatamente o que encontrará do outro lado. Há apenas um intervalo, uma espécie de suspensão, em que o antigo já não responde e o novo ainda não sabe falar.

    É nesse intervalo que escrevo.

    Não para preencher o vazio, mas para descobrir se ele realmente está vazio. Não para encontrar uma resposta definitiva, mas para desconfiar das perguntas que me trouxeram até aqui. Talvez a escrita seja a minha maneira de permanecer diante do que não compreendo sem precisar convertê-lo imediatamente em alguma coisa suportável. Há mistérios que perdem a força quando os explicamos depressa demais.

    Há dores que não precisam ser transformadas em lição. E há experiências que talvez nunca encontrem uma tradução capaz de lhes fazer justiça.

    Continuo sendo aquele que não tem medo de certas coisas, embora desconfie cada vez mais das certezas que construí sobre mim. Continuo protegendo quem amo, mas já não sei se proteger é sempre impedir que alguma coisa aconteça ou aprender a reconhecer aquilo que não podemos controlar. Continuo escrevendo, embora cada palavra pareça abrir uma nova distância entre o que sinto e o que consigo dizer.

    Talvez eu nunca tenha voltado a ser quem era. Talvez esse retorno seja impossível, uma ficção necessária para que possamos continuar chamando a nós mesmos pelo mesmo nome. O que existe é uma continuidade imperfeita, feita de perdas, restos, deslocamentos e pequenas permanências. Somos também aquilo que não conseguimos recuperar.

    E há alguma coisa profundamente estranha nisso: depois de tantas tentativas de me compreender, ainda encontro em mim um desconhecido.

    Não sei se escrevo para encontrá-lo ou para impedir que ele desapareça.

    Talvez eu tenha precisado morrer para descobrir que não era possível regressar intacto. Talvez renascer não seja recuperar a própria forma, mas aprender a existir sem exigir que tudo aquilo que nos constitui seja revelado. Há um ponto em que a procura precisa continuar sem promessa de chegada.

    E eu continuo.

    Não porque tenha compreendido.

    Mas porque alguma coisa, cujo nome desconheço, ainda escreve em mim.

    QUERIA ESCREVER PARA O MAR —

    Às quartas-feiras, saem minhas crônicas. Às segundas, geralmente escrevo e vomito as palavras para o portal, como quem despeja aquilo que já não consegue conter dentro de si. E aos sábados? Aos sábados, jogo ao mundo o que me chega em terceiro pensamento, essa coisa que talvez nem tenha nascido para ser dita, mas que insiste em existir antes mesmo de encontrar um destino.

    Será que peco ao vomitar minhas palavras em um portal? Talvez. Há qualquer coisa de profano em expor as próprias entranhas, em permitir que o outro toque aquilo que, por vezes, nem nós mesmos suportamos tocar. Escrever também é uma maneira de se perder, de se lançar ao desconhecido sem a garantia de ser encontrado.

    Queria, aos domingos, escrever para o mar. Não para os leitores, nem para os olhos apressados de quem atravessa uma página, mas para essa imensidão que não me exige explicações. Eu escreveria, escolheria um lugar, marcaria discretamente a terra e enterraria minhas palavras na areia. Depois, partiria, deixando que o tempo fizesse o que sabe fazer com os segredos.

    Quatorze anos mais tarde, voltaria para buscá-las.

    Talvez eu já não fosse o mesmo. Talvez as palavras tivessem desaparecido, tragadas pela água, dissolvidas na memória salgada do mundo. Ou talvez permanecessem ali, esperando por mim, como uma carta enviada a alguém que ainda não existia quando foi escrita.

    E se, ao desenterrá-las, eu não me reconhecesse? Se aquele que escreveu já tivesse partido, deixando no papel apenas os vestígios de um sujeito que um dia acreditou saber quem era?

    Talvez seja esse o destino da escrita: enterrar no presente aquilo que somente o futuro poderá desenterrar. E, no intervalo entre um gesto e outro, deixar que o mar guarde o que não tivemos coragem de dizer.

    Os anos 60 e a máquina que o tempo não apagou —

    Talvez eu ganhe de presente uma máquina de escrever. Uma máquina de 66 anos. Uma máquina dos anos 60. E talvez seja estranho desejar uma coisa tão antiga justamente agora, quando tudo parece feito para ser rápido, apagável e substituível. Mas há alguma coisa nela que me chama. Talvez seja o tempo. Talvez seja aquilo que o tempo deixou nela.

    Estou diante do computador, escrevendo ao som de Billy Joel. E há alguma coisa curiosa nisso: eu, escrevendo no computador, ouvindo uma música de um tempo que já passou, enquanto penso em uma máquina que nasceu nos anos 60 e atravessou décadas até chegar à minha imaginação. Alguém me pergunta: “Quem é esse?”. Eu respondo: “Ah, alguém que canta.” E continuo escrevendo. Talvez porque eu tenha aprendido, desde muito cedo, que algumas coisas não precisam ser completamente explicadas para permanecerem dentro da gente.

    Billy Joel, de algum modo, me faz pensar justamente nisso. Naquilo que atravessa o tempo sem pedir licença. Uma música nasce em uma determinada época, mas não fica presa a ela. Alguém que nem viveu aquele momento pode ouvi-la décadas depois e sentir alguma coisa. Talvez seja assim também com a máquina. Eu não vivi os anos 60, mas posso tocar hoje aquilo que nasceu naquela década. Posso ouvir uma música, tocar uma tecla, sentir o papel receber uma letra e, por alguns segundos, ter a impressão de que o tempo não é tão distante quanto parece.

    Escrevo desde os 9 anos. Aprendi a escrever no papel, depois aprendi a digitar, e hoje conheço o teclado do computador quase pelo toque, como quem aprende a reconhecer um corpo pela intimidade das mãos. Mas existe alguma coisa diferente na máquina de escrever. Talvez eu esteja desejando voltar a ouvir o impacto de uma tecla contra uma folha. Na máquina, a letra não aparece simplesmente na tela. Ela atravessa o corpo da máquina e chega ao papel. A palavra deixa de ser apenas pensamento e passa a ser marca.

    E talvez seja justamente aí que os anos 60 entrem nessa história.

    Eu penso em Billy Joel, penso naquela música tocando enquanto escrevo, e penso em uma máquina que já atravessou 66 anos. São coisas diferentes, mas talvez estejam dizendo a mesma coisa para mim: algumas coisas sobrevivem porque encontram alguém disposto a escutá-las novamente.

    Uma música pode atravessar décadas. Uma máquina também. Uma palavra também.

    Os anos 60 pertencem a um tempo em que a escrita exigia espera. Uma carta precisava ser escrita, colocada em um envelope, enviada. Alguém precisava esperar para receber aquilo que outro alguém havia escrito. Havia distância entre a palavra e a resposta. Havia tempo para a saudade acontecer.

    Hoje tudo chega depressa demais.

    Uma tela apaga. Uma palavra pode ser corrigida. Um texto pode ser substituído. Podemos escrever e apagar quase no mesmo movimento, como se aquilo que pensamos pudesse deixar de ter existido simplesmente porque apertamos uma tecla.

    A máquina não tem tanta pressa.

    Ela exige a mão, o corpo, o erro, o tempo. Exige que eu permaneça diante daquilo que escrevi. Talvez seja por isso que eu queira uma máquina dos anos 60. Não porque eu queira voltar para uma época que não vivi, mas porque talvez eu esteja procurando uma relação com o tempo que ainda faça sentido para mim.

    Não sei quem tocou aquelas teclas antes de mim. Não sei quais mãos passaram por elas, quais histórias nasceram naquele papel, quais cartas foram escritas, quais confissões ficaram presas entre uma tecla e outra. Talvez alguém tenha escrito uma carta de amor. Talvez alguém tenha escrito uma despedida. Talvez alguém tenha escrito algo que nunca teve coragem de entregar.

    E talvez seja justamente esse mistério que me atraia.

    Uma máquina pode envelhecer sem morrer. Pode atravessar décadas e continuar carregando a possibilidade de uma nova palavra. Ela pode permanecer parada durante anos e, ainda assim, não deixar de ser uma máquina de escrever. Basta uma folha, uma mão e alguma coisa dentro de alguém querendo sair.

    Talvez eu esteja assim também.

    Talvez eu escreva para encontrar o que perdi, ou para perder aquilo que encontrei. Talvez eu escreva porque existem coisas que a alma não diz, apenas desloca de lugar, até que alguém as escreva.

    Eu penso que digito, quando, na verdade, alguma coisa em mim é digitada.

    Talvez a máquina dos anos 60 me atraia porque ela não separa completamente o pensamento do corpo. Eu penso, aperto, escuto, vejo a letra surgir. Existe um intervalo entre uma coisa e outra. E nesse intervalo talvez exista aquilo que hoje perdemos: a possibilidade de sentir a palavra antes de simplesmente vê-la aparecer.

    E talvez seja isso que Billy Joel esteja fazendo enquanto eu escrevo. Não apenas tocando uma música. Talvez esteja me lembrando de que aquilo que pertenceu a outro tempo ainda pode encontrar lugar em mim. Assim como uma máquina dos anos 60 pode chegar às minhas mãos, uma música pode chegar aos meus ouvidos, e uma palavra pode chegar ao papel. O tempo passa, mas algumas coisas continuam procurando alguém para continuar a história.

    Se essa máquina chegar até mim como presente, talvez eu não receba apenas uma máquina. Vou receber também o gesto de quem decidiu entregá-la. E presente não é somente aquilo que se coloca nas mãos de alguém. Às vezes, é uma memória que passa de uma pessoa para outra. É carinho, apego, gratidão. É uma coisa que chega trazendo junto alguma coisa de quem ofereceu.

    Talvez eu queira essa máquina porque estou cansado de tudo aquilo que desaparece depressa. Talvez eu queira ouvir novamente o barulho de uma tecla contra o papel e lembrar que algumas palavras precisam de tempo para existir.

    Uma música atravessa décadas.

    Uma máquina atravessa o tempo.

    E eu, ouvindo Billy Joel e pensando nos anos 60, talvez esteja apenas tentando descobrir o que ainda permanece em mim quando todo o resto já passou.

    A máquina que ainda não chegou —

    Há desejos que não sabem esperar. Instalam-se na gente com a estranha intimidade de quem já morava ali e, de repente, exigem ser atendidos. Não perguntam se é possível, se é o momento, se amanhã seria tão diferente de hoje. Querem. E, quando querem, parecem transformar o tempo numa espécie de ofensa pessoal. O amanhã torna-se distante demais, o agora parece insuficiente, e até as horas adquirem uma lentidão que não lhes pertence.

    Passei um dia inteiro pensando numa máquina de escrever. Não era exatamente a máquina, embora fosse ela que ocupasse meus pensamentos. Havia alguma coisa naquele objeto antigo, no mecanismo das teclas, na promessa de um som que já atravessou outras décadas, que me chamava para além daquilo que eu conseguia explicar. Eu ainda não a tinha, mas já imaginava meus dedos sobre as teclas, o papel recebendo as primeiras palavras, o erro permanecendo à vista, sem a facilidade de desaparecer com um simples comando. Era curioso: desejava tanto escrever numa máquina que acabei escrevendo sobre ela antes mesmo de possuí-la.

    Enquanto o encontro não acontecia, restou-me o teclado do computador. Digitei. Uma palavra depois da outra, como quem improvisa uma ponte entre a ausência e aquilo que deseja alcançar. Talvez haja algo de profundamente humano nisso: inventamos substituições, criamos pequenos desvios, encontramos maneiras provisórias de suportar aquilo que ainda não está ao nosso alcance. Nem sempre para desistir do objeto desejado, mas para descobrir o que podemos fazer enquanto ele não vem.

    Foi então que me ocorreu uma pergunta: o que acontece conosco quando o desejo deixa de ser apenas desejo e começa a determinar o ritmo de tudo? Há uma diferença sutil entre querer alguma coisa e sentir que ela precisa acontecer imediatamente. Nem sempre conseguimos percebê-la no instante em que se estabelece. Às vezes, só mais tarde reconhecemos o quanto uma ideia nos ocupou, quantas horas lhe entregamos, quantas outras coisas ficaram suspensas enquanto esperávamos que o mundo correspondesse à nossa pressa.

    A análise me ensinou, ao longo dos anos, que reconhecer um movimento interno não significa necessariamente interrompê-lo. Conhecer-se não é adquirir domínio absoluto sobre si. Há dias em que continuamos atravessados por aquilo que já conseguimos nomear. A diferença talvez esteja em podermos observar, ainda que de dentro, o que antes nos arrastaria sem testemunhas. Não se trata de vencer a própria inquietação, como se a vida fosse uma disputa entre a razão e o desejo. Trata-se de perceber que nem toda urgência precisa se converter em acontecimento.

    Há uma espécie de silêncio entre querer e realizar que raramente sabemos habitar. Nesse intervalo, o desejo permanece sem a satisfação que imaginamos capaz de encerrá-lo. E talvez seja justamente aí que ele se revele menos como uma necessidade do objeto e mais como uma pergunta sobre nós mesmos. O que esperamos encontrar quando finalmente conseguimos aquilo que tanto queremos? A resposta nem sempre está à espera do outro lado. Por vezes, o encontro modifica a pergunta; por vezes, a pergunta permanece, mesmo depois que o objeto já nos pertence.

    Não quero fazer da espera uma virtude, muito menos romantizar a inquietação. Esperar pode ser difícil, desconfortável, quase insuportável em determinados momentos. Mas existe uma diferença entre abandonar um desejo e permitir que ele não decida tudo por nós. Posso continuar querendo a máquina. Posso imaginar seu peso, seu som, a resistência de cada tecla. Posso até contar os dias para encontrá-la. O que não preciso é transformar a distância entre hoje e amanhã numa impossibilidade de viver o presente.

    Talvez escrever seja também uma maneira de atravessar esse intervalo. Não para preenchê-lo completamente, porque há vazios que não aceitam preenchimento, mas para lhes dar alguma forma. Enquanto a máquina não chega, existe o teclado. Enquanto a palavra não aparece, existe a tentativa. E, quando a palavra finalmente surge, já não somos exatamente aqueles que começaram a procurá-la.

    Penso que passamos boa parte da vida esperando alguma coisa: uma resposta, uma oportunidade, um encontro, uma mudança que nos devolva a sensação de estarmos no lugar certo. Às vezes, esperamos tanto pelo que virá que mal percebemos o que acontece enquanto esperamos. Como se o presente fosse apenas uma sala de passagem, um lugar onde permanecemos até que a verdadeira vida resolva chegar.

    Mas e se ela já estiver aqui, justamente nessa matéria imperfeita dos dias? No teclado provisório, na palavra incompleta, na possibilidade de reconhecer a própria pressa sem precisar obedecer a ela?

    Talvez não exista uma revelação grandiosa no fim da espera. Talvez o que nos transforme seja menos o momento em que alcançamos aquilo que desejávamos e mais tudo o que se torna visível enquanto não o alcançamos.

    A máquina ainda não chegou. Continuo querendo-a. Não preciso fingir indiferença, nem converter meu desejo numa lição sobre desapego. Há coisas que queremos porque alguma coisa em nós se reconhece nelas, embora ainda não saibamos dizer o quê. E há encontros que começam antes do primeiro toque, quando um objeto ainda ausente passa a ocupar um lugar em nossa imaginação.

    Por enquanto, escrevo. Talvez, quando a máquina chegar, eu descubra que era exatamente ela que procurava. Talvez descubra outra coisa, menos evidente e mais difícil de nomear. Não tenho como saber. Pela primeira vez, porém, não preciso antecipar a resposta para continuar.

    Afinal, o tempo não é uma máquina que possamos obrigar a funcionar conforme a nossa vontade. E talvez a palavra mais difícil de escrever não seja aquela que desconhecemos, mas aquela que nos ensina a permanecer diante do que ainda não aconteceu.

    Há coisas que chegam amanhã. Outras precisam de muito mais tempo. E existem aquelas que, enquanto esperamos, começam silenciosamente a nos transformar.

    Entre a máquina e o tempo —

    Aos leitores,

    Me consumi pela máquina. Ainda estou aprendendo. Levei uma coça logo quando a peguei. Peço mil perdões. Se houver erros ortográficos, com o tempo os consertarei. Por ora, talvez seja necessário conceder ao erro o direito de existir antes de submetê-lo à correção.

    Foi preciso fazer um retiro em mim mesmo. Desejei uma máquina, mas, quando ela chegou, deparei-me com algo que o desejo, enquanto ausência, não poderia me ensinar: a presença de seu objeto não encerra a falta. Apenas a desloca. Eu queria a máquina; agora, diante dela, descubro que também preciso aprender a habitá-la.

    Há algo de curioso nesse encontro entre um homem dos anos 90 e uma máquina que atravessou o tempo desde outra década. Talvez eu tenha desejado, sem saber, não somente um instrumento de escrita, mas uma ruptura com a urgência do presente. Em 2026, tudo parece exigir que o sujeito responda imediatamente, produza sem demora, diga antes mesmo de descobrir o que deseja dizer. A máquina, entretanto, impõe outra temporalidade. Entre o pensamento e a palavra, há uma tecla; entre uma letra e outra, o intervalo; entre aquilo que desejo escrever e aquilo que efetivamente consigo inscrever no papel, existe a distância inevitável entre o sujeito e sua própria linguagem.

    Eis a minha primeira lição: nem mesmo a máquina obedece inteiramente àquele que a deseja. Suas teclas resistem, meus dedos se confundem, as letras escapam à ordem que imaginei estabelecer. Levo uma coça, como quem se confronta com a própria insuficiência. Mas talvez aprender seja precisamente isso: reconhecer que não somos senhores absolutos dos instrumentos que utilizamos, tampouco das palavras que nos atravessam.

    Quis sair de 2026. Não para negar o tempo em que vivo, mas para suspender, ainda que por alguns instantes, a tirania de sua velocidade. Quis flutuar até os anos 60, tocar uma época que não vivi e experimentar, por meio de um objeto antigo, a ficção íntima de pertencer a outro tempo. Afinal, não é também pela ficção que o sujeito inventa maneiras de suportar o real?

    A máquina chegou, e com ela veio uma constatação que talvez estivesse escondida no próprio desejo: eu não precisava apenas de uma máquina de escrever. Precisava encontrar um intervalo entre o mundo e aquilo que o mundo exige de mim. Um lugar em que pudesse errar sem transformar o erro numa sentença, escrever sem a obrigação de responder e permanecer diante do indizível sem a pretensão de dominá-lo.

    Ainda estou aprendendo. Talvez as letras saiam tortas, talvez a margem se perca, talvez o papel registre aquilo que minha intenção não soube organizar. Não importa tanto. A escrita nunca foi, para mim, a promessa de uma resposta definitiva. É antes o movimento de contornar aquilo que não se deixa dizer por inteiro.

    Se comprei uma máquina para escrever, descobri, ao recebê-la, que também precisaria aprender a escutar o silêncio entre as teclas.

    Por enquanto, deixem-me aqui. Entre o desejo e sua falta, entre o sujeito e a palavra, entre 2026 e uma década que só posso visitar pela imaginação.

    Ainda não domino a máquina. Talvez seja cedo demais para dominá-la. Talvez escrever comece justamente quando renunciamos à fantasia de domínio.

    O tempo continuará passando, indiferente às minhas tentativas de detê-lo. As máquinas envelhecerão, as palavras mudarão de suporte e outras tecnologias prometerão abreviar a distância entre o pensamento e sua inscrição. Mas alguma coisa permanecerá resistindo à pressa: esse sujeito que, diante de uma folha, ainda precisa descobrir o que tem a dizer.

    Talvez eu tenha comprado uma máquina para voltar no tempo, mas tenha encontrado nela uma maneira de permanecer no presente sem me submeter inteiramente a ele. Não voltei aos anos 60. Apenas encontrei, entre o ruído das teclas e o silêncio do papel, um lugar onde o tempo parece respirar de outra maneira.

    Com os erros de quem começa e a insistência de quem continua escrevendo, despeço-me por ora. Não porque tenha terminado de dizer, mas porque aprendi que até o silêncio precisa de espaço para existir.

    A máquina permanece diante de mim. O tempo permanece lá fora. E eu continuo aqui, tentando transformar em palavra aquilo que nem o tempo, nem a máquina, nem eu mesmo conseguimos explicar por inteiro.

    Talvez seja esse o destino de quem escreve: não vencer o tempo, mas deixar nele alguma coisa de si. Uma marca imperfeita, uma palavra incompleta, um vestígio de existência. Porque, quando minhas mãos já não alcançarem as teclas e esta máquina pertencer a outra história, talvez reste no papel alguma coisa que o tempo não consiga devolver ao silêncio.

    Não sei se escrevo para permanecer ou para compreender o que em mim insiste em desaparecer. Sei apenas que, enquanto houver uma palavra por nascer, continuarei diante da máquina, aprendendo a escrever, aprendendo a errar, aprendendo a existir entre aquilo que desejo dizer e aquilo que jamais conseguirei dizer por inteiro.

    A coisa —

    São exatamente a hora de escrever? É. Eu estava fazendo outra coisa, lendo um livro. Terminei, fechei o livro com delicadeza. Olhei para o lado esquerdo e vi meu diário. É onde ainda escrevo. Olhei rapidamente e não me vi ali, no que estava escrito, que é algo de anos atrás. E comecei a escrever em outra folha.

    Os ponteiros do relógio já me avisam que está na hora. O meu inconsciente já mandou mensagem para minha linguagem e aqui estou, escrevendo sobre um papel, uma caneta e talvez vá para o mundo. A palavra é o meu castigo no mundo? Meu pecado de escrever? Ou será o meu domínio? Não me adestro a muitíssimas coisas.

    Hoje papai falou comigo. Foi muito bom. Senti uma leveza. Depois passou. Me fez lembrar quando publiquei meu primeiro livro. No dia do lançamento, era meu aniversário. Eu nem lembrava que era meu aniversário. Só pensava no lançamento. Cheguei em casa e senti uma felicidade que queimei a própria língua dizendo: “Peraí, tô voltando.” Eu tô olhando aqui. Tá estranho. Queimei a própria língua, pois sempre digo: quando somos felizes, nem temos tempo para falar. E naquele momento eu tive tempo para falar.

    No outro dia foi tudo normal. Senti uma espécie de angústia com um misto de epifania e fui escrever novamente.

    Talvez seja isso. O que se faz depois que é feliz?

    Com a felicidade que não se quis, pois felicidade não se quer. Quanto mais quer, menos tem. Mesmo quando o mundo, ou melhor, a humanidade, quer tanto a felicidade. Embora eu ainda prefira a angústia. Ela me atravessa, rasga minha alma e depois me faz produzir alguma coisa. E aí passo numa espécie de felicidade.

    Dessa vez não queimei as páginas que escrevi. Deixei guardadas. Até quando? Não sei. Os ponteiros se movimentam, assim como minha mão. Minha mão desliza para a esquerda, para a direita.

    Escrever é coisa. E coisa só é coisa quando a linguagem pergunta: coisa é essa?

    Igual quando estou em análise. Aí me pego e vejo. Na outra sessão vem a repetição, a coisa. Minha psicanálise faz silêncio e eu fico mudo. A análise se encerra e a coisa não teve nome.

    Agora adormecerei pensando na coisa, que simplesmente é algo banal. Escrever para me libertar daquela coisa que tem dentro de mim.

    E aí me desliguei.
    A coisa era a luz acesa.
    Quando apaguei, eu a nomeei:
    lâmpada.

    Os pecados que escrevem em mim —

    Eu não escrevo para dar resposta a ninguém. Escrevo porque é assim que meu corpo encontra um jeito de continuar. Talvez o meu maior pecado seja ser ansioso demais. A ansiedade chega antes das palavras e, quando chega, não me deixa escrever. Porque eu não sei para onde as palavras vão. Nem onde elas terminam. Talvez eu nem precise saber. Talvez escrever seja justamente caminhar por aquilo que não conheço. Mas talvez eu esteja perdendo o jeito de escrever. Verbo? Então escrever é apenas o modo de conjugar um verbo? Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Não. Isso não faz parte de mim. Eu tenho o meu modo de escrever e também o meu modo de existir. Nenhum dos dois me adestra. Nenhum dos dois me obriga a absorver tudo aquilo que o mundo insiste em nomear como culpa, pecado ou desvio.

    E então penso nos pecados capitais. Qual deles seria meu? A avareza? Não me apego aos bens materiais. Quase nada do que tenho parece realmente me pertencer. Tudo aquilo que escrevo nestas folhas, muitas vezes, termina queimado, rasgado, desaparecido. Talvez porque eu saiba que até as palavras precisam, às vezes, morrer para que outras possam nascer. A luxúria? Talvez exista em mim um desejo sexual que nem sempre consigo coordenar. Um desejo que não pede licença, que atravessa o corpo antes que a razão consiga alcançá-lo. A ira? Quando escrevo, há momentos em que uma raiva descontrolada atravessa minhas mãos. Mas não é uma raiva vingativa. Não quero devolver ao outro aquilo que um dia me feriu. Às vezes, apenas escrevo para que aquilo que me atravessa encontre algum lugar fora de mim. A gula? Não sei se tenho excessos nesse sentido. Talvez eu tenha outros. Devoro livros. Engulo palavras. Leio como quem tem fome. Escrevo como quem não consegue parar de procurar alguma coisa que sequer sabe nomear.

    E existe o amor. Esse talvez seja o meu maior excesso. Porque também amo sem saber exatamente o que fazer com aquilo que sinto. Amo pessoas, memórias, palavras, livros, corpos, ausências e tudo aquilo que, por alguma razão, permanece em mim mesmo depois de ter ido embora. O amor também pode ser uma espécie de pecado quando nos atravessa sem pedir autorização. Ele também desorganiza. Também dói. Também nos faz perder o controle. Mas há alguma coisa nele que nenhum pecado consegue explicar. Talvez eu escreva também por amor. Por amor ao que vivi. Por amor ao que perdi. Por amor ao que ainda desejo. Por amor àquilo que não sei se um dia terei novamente. E talvez até por amor a mim, embora às vezes eu não saiba muito bem como fazer isso.

    E existe o desânimo. Talvez esse seja o pecado que mais me acompanha ultimamente. Tenho me afastado até dos meus deveres espirituais. Há dias em que a alma parece pesada demais para alcançar aquilo que antes parecia tão próximo. Talvez seja justamente por isso que falo tanto dela. Talvez eu escreva sobre minha alma para que ela encontre algum espírito de luz capaz de me devolver alguma coisa que ainda possa me refletir.

    Não sei. Talvez nenhum desses nomes dê conta de mim. Talvez o pecado esteja justamente nessa minha necessidade de procurar um nome para aquilo que não cabe em nome algum. Talvez o amor também esteja aí, escondido entre uma palavra e outra, entre aquilo que perdi e aquilo que ainda desejo encontrar.

    E os ponteiros do relógio continuam se movendo. A madrugada avança. O corpo permanece. As palavras aparecem. Eu não sei para onde elas vão. Não sei onde terminam. Talvez nunca tenha sido necessário saber. Talvez eu apenas continue escrevendo. E talvez seja justamente aí, entre meus pecados, meus amores, minha alma e aquilo que ainda não consigo nomear, que alguma coisa de mim continue existindo. Talvez sejam os meus pecados que escrevam em mim. Talvez seja o amor. Talvez sejam os dois.

    O que as palavras desenterram em mim —

    O que as palavras em mim encontram? Já nem sei. Agora começou a chover, como quem de repente nem imaginasse. Talvez seja por isso que um dia pensei em escrever para o mar, porque ele não precisa da chuva que cai do céu. O vento nas ondas. Mas só posso ir até onde meus pés alcançam. Não sei andar de prancha.

    Deslizo minha mão ao teclado, a tinta quase secava. Corro para a máquina e logo finalizo, se é que existe final, a caneta e o papel. E um caderninho velho, que acho que serve para muitas coisas. Afinal, dizem que tudo o que está no museu é velho; outros dizem que é antigo. E eu gosto dos antigos. Afinal, também tenho saudades daqueles que faleceram, de familiares que amo muito e de quem me recordo. São antigos em minha memória. Antigas são as palavras, antigas são as lembranças que, de algum modo, continuam encontrando lugar em mim.

    Como o linotipista, que hoje tem outro nome: compositor tipográfico. Uma profissão que atravessou o tempo, assim como tantas palavras que mudaram de lugar sem deixar de existir. Mas por que será que escrevo?

    Talvez seja para olhar a chuva caindo e ver minha mãe andando com uma garrafa vazia de Coca-Cola, com medo da ventania que possa vir, porque carrega traumas da infância. Na época em que eu nem existia nesse mundo. Mamãe morava em uma casa humilde. Quando venta as telhas voavam todas. E ela corria para minha bisavó, de quem não me esqueço, por mais que tantos anos tenham passado. Ela pegava um ônibus e, com o pouquinho que tinha, comprava biscoitos e os trazia.

    E talvez seja isso: as lembranças que vêm, mesmo quando não as chamamos. As palavras desenterram aquilo que o tempo não conseguiu levar por inteiro. E, enquanto a chuva cai, alguma coisa antiga volta a respirar dentro de mim.

  • As muitas faces de seu Levi

    Poucas ou inexistentes são as pessoas que se destacam apenas por suas qualidades. Como seres falíveis que somos, tanto nossos defeitos como nossas aptidões podem bem ser usadas para descrever nossas personalidades àqueles que não nos conhecem. A depender do relator, se um apologista ou um detrator, nossos feitos serão realçados de uma maneira ou de outra, sem que a validade do informe seja, necessariamente, comprometida.

    São essas coisas que me vêm à cabeça quando vejo o Dr. Levi Damasceno. Estimado por seus pacientes e reverenciado por seus colegas de profissão, esse simpático endocrinologista de meia-idade transmite calma, serenidade e polidez em sua rotina laboral. Os pacientes são, praticamente, unânimes nos elogios e os colegas, coincidentes no enaltecimento. Raríssimos são os casos, se é que existem, em que o médico Levi se indispôs com algum enfermo ou com qualquer associado. Sua fleuma parece inabalável até mesmo diante das piores encrencas que a rotina médica pode apresentar.

    — Vamos, seu corno! Vai ser lerdo assim no inferno! – é o que grita, no entanto, um atrasado e impaciente Dr. Levi.

    Como se vê, o problema é quando está no trânsito. O mesmo Levi Damasceno que muitos veem como um exemplo de tranquilidade e de sensatez é capaz de começar uma guerra civil durante os vinte minutos de deslocamento de sua casa a seu consultório. A leitora poderia achar que o problema é o atraso, mas reitero que tal comportamento independe do relógio. Afinal, o percurso inverso, do trabalho para o lar, conta também ele com as mesmas aventuras de malcriação e de incivilidade. Diferentemente do que se poderia imaginar, o motorista Levi mantém esse padrão de conduta mesmo quando está a passeio, numa tarde ensolarada de um domingo qualquer ou de um feriado em plena segunda-feira.

    Vez ou outra, todo mundo acaba tendo um dia ruim. É quando a paciência se esgota mais facilmente e os nervos estão mais frouxos que gelatina ao sol. Isso é verdade! Mas e o que dizer das constantes rusgas que os filhos Álvaro e Ezequiel mantêm com o seu pai, o mesmo Levi Damasceno? Para os dois, já crescidos e independentes, seu Levi não passa de um turrão. Sempre distante dos filhos, aquele pai de família prioriza, em detrimento de todo o resto, exclusivamente sua vida profissional. A esposa, dona Marta, e os dois filhos vieram como complementos a uma vida dedicada com afinco e com amor à saúde e ao bem-estar não de seus entes mais próximos, mas de seus queridos pacientes.

    — E o senhor emprestou esse dinheiro?! Pode esquecer… Vai colocar tudo fora no bacará e não vai lhe pagar nada.

    E, agora, mais essa! Comentando, despretensiosamente, que havia emprestado uma pequena, mas relevante, soma a seu Levi, fui surpreendido por seu Zeca, o bodegueiro de nossa rua. Entre uma mesa e outra, seu Zeca sempre foi ágil em dialogar com toda a clientela e em especular sobre a vida alheia. Enquanto entrega uma cerveja gelada, aproveita para perguntar da viúva de um antigo freguês, anota mais um pedido feito para a mesa quatro e ainda difama seu Levi não somente a mim como a quem mais quiser ouvir. Segundo esse meu indiscreto informante, seu Levi é um homem correto em seus negócios, mas o descontrolado gosto pela jogatina compromete suas finanças e sua imagem perante seus credores.

    Homem de muitas faces! — exclamarão alguns. Quem será o verdadeiro Levi Damasceno? — perguntarão outros. A bem da verdade, a resposta para essa indagação depende muito de quem a constrói. Como uma síntese de suas contradições e de suas identidades, meu gentil vizinho é tanto um competente e atencioso médico como um compulsivo jogador e um teimoso e displicente pai de família. Seu bom desempenho em tão variados e distintos papéis não faz de sua vida um mero roteiro encenado para ludibriar os mais desavisados. Ele, de fato, é tudo isso e mais um pouco!

    A intimidade só é, pois, construída a partir do acesso nada trivial a variados matizes de uma só pessoa. Quanto mais íntimos somos dela, mais faces de seu caráter são desveladas perante nossos olhos. Assim sendo, o processo de descoberta pode resultar tanto em frustrações como em satisfações. Mas o certo é que essa complexidade humana torna o teatro da vida um imprevisível e inesgotável espetáculo.

  • Os sonhos do Lupércio

    Um deles era ser entrevistado: como os atores, os cantores, os escritores e os jogadores de futebol.

    Imaginou e pôs em prática um plano sui generis: ajudou a atravessar uma velhinha e largou ela no meio da avenida. A velhinha fez um baita dum escândalo, chamaram a polícia, e ele, o Lupércio, foi parar na delegacia. Batata! Como ele queria, foi entrevistado pelo delegado. 

    O delegado disse bom dia, como vai? e ele respondeu que tudo bem.

    — Cafezinho?

    — Obrigado, não. 

    — Seu nome?

    — Lúcio Lupércio.

    — Profissão? 

    — De tudo um pouco.

    — Ovos em várias cestas… muito bem! Formado?

    — Fiz o primeiro ano do colégio e parei.

    — Por quê? 

    — Muito trabalho, dr. Um dia eu completo. 

    — Ótimo. Casado?

    — Com a Lena Lenita, um anjo de mulher. Somos do mesmo signo! 

    — Não diga, eu também! Quer dizer, eu e minha mulher somos Peixes. 

    — Nós somos Sagitário. Março; ela 5, eu 18.

    — Belo signo, vão viver eternamente juntos. 

    — É mesmo?

    — É o que dizem os astrólogos. 

    — Nunca brigamos, fomos feitos um para o outro.

    — Tá vendo? Nós também. Filhos? 

    — Duas. Laura Lúcia e Lídia Lair. A mais nova 5, a mais velha 8.

    — Ah, mocinhas! Moram onde?

    — Comigo.

    — Onde?

    — No Cambuci. Casinha simples, sabe?, herança de papai. Comprou com dificuldade, 30 anos pagando. 

    — Lar doce lar! Tão bom ter uma casa.

    — Tem até jardim. Minha mãe que fez, rosas de todo tipo.

    — Gosta? 

    — Eu que cuido, mamãe aprendia na TV, com a Xênia, lembra da Xênia?, e me ensinava. Faço até enxertos.

    — Que cor prefere?

    — Qualquer uma. Me comove a beleza que traz a primavera com a florada do ipê amarelo.

    — Lindo, né? Também tem o branco.

    — Sim, com aquela atmosfera nórdica.

    — A igualdade é branca!

    — A paz é branca.

    — Algum sonho?

    — Ser entrevistado.

    — Está realizando!

    — Nem acredito. Também queria apresentar um de jornal de TV.

    — Mesmo? Que nem o Tralli? 

    — Que nem o Bonner. Eu e a Lena Lenita apresentando o Jornal Nacional, aquela elegância, aquele jogral, aquele boa noite!…

    — E ela?

    — Quem?

    — A Lena Lenita, também sonha com isso?

    — Não, o dela é ser aeromoça.

    — Ah, as mulheres!, sempre sonhando alto… Bom, acho que nosso tempo acabou.

    — Passou rápido.

    — Volte sempre.

    — E a velhinha?

    — Impertinência de velha. Dá-se um jeito.

    — Obrigado,dr.

    — Ah, só mais uma coisa: o que acha da polícia de São Paulo?

    — Bom…

    Corta! 

    Não foi nada disso. O delegado nem quis saber do Lupércio, mandou ele direto pra cadeia, aos berros. 

    Dois cascudos: “E se fosse sua avó?, e se fosse sua tia?!”. E um pé na orelha: “E se fosse sua mãe?!”.

    Após três dias vendo o sol nascer com quatro lados iguais e paralelos dois a dois, foi solto com a advertência: “Na próxima,  pega um mês na penitenciária e vai apanhar até ficar mais inchado que um bauicú-de-chifre”. 

    Em casa, encontrou a Lena Lenita, bico de garça, comprido e pontiagudo. 

    Pegou um mês dormindo no sofá. Um mês de abstinência.

  • Saudades dos tucanos

    Blackbird singing in the dead of night / Take these broken wings and learn to fly / All your life / You were only waiting for this moment to arise – “Blackbird”, The Beatles

    Fecho os olhos, e tucanos da minha infância planam em meus pensamentos. Há mais animais que desfilam, como cachorros, micos e papagaios. Os tucanos se destacam, porque eles sumiram. Ao contrário dos outros bichos, que, ocasionalmente, encontro na cidade grande. Vê-los significava férias no sítio. E me acostumei até perceber que deixaram de ser uma presença. É intrigante, como se desaparecessem sem querer. Apesar de que talvez não me importasse tanto assim com eles na época. Atiçavam uma curiosidade periódica, nada além. Suponho que essa é impressão da mudança dos tempos: passamos a valorizar o que não temos para suportar o sufoco do presente. A constatação da impermanência é o catalisador da nostalgia.

    Nós apenas os chamávamos de “tucanos”, mas deveriam ser tucanos-de-bico-verde. Deixávamos frutas no mureta do terreno e esperávamos para avistar quem viria. Geralmente os micos eram ligeiros. Algumas vezes, os tucanos chegavam antes, espantando a concorrência. Achava-os educados, pois saltavam de um galho, recolhiam uma fatia e retornavam para a mesma posição para comer. Uma elegância em modos, postura e na estética que contrastava com suas cores berrantes. Eles vinham, comiam, cantavam um som seco e monótono e logo partiam. Mantínhamos a distância num pacto informal com os visitantes. Numa das raras vezes que o rompemos, alguém atirou um pedaço de mamão. Atingiu um tucano guloso na cabeça. Ele reagiu de uma maneira tão desengonçada e dramática que rimos. Não vimos tucanos por bastante tempo. Em outra, amarramos uma banana a um pedaço de barbante. Quando um desceu e abriu o bico para abocanhar, puxamos de supetão. O tucano abriu um berreiro, inconformado e alertando os colegas de nossas brincadeiras sem graça.

    A memória tem esse efeito de fundir eventos, transformando-os em uma massa cujo começo e fim se confundem. A última vez em que vimos um tucano foi um acontecimento comum. Apareceu e saiu sem deixar qualquer anedota ou observação digna. Esse componente emocional das lembranças torna os eventos mais banais um objeto precioso. Nunca sabemos de verdade a duração das coisas. Quando elas se levantam em voo definitivo, nosso apego cresce. Os tucanos eram apenas um elemento dentro vários das férias, como jogos de futebol, pulos na piscina, churrascos e festas. A diferença está no acesso. Ainda podemos fazer essas coisas. Já outras não temos como controlar. Os tucanos voaram, e não há como atraí-los mais somente com nossa disposição.

    Também significa que estou mais velho. Eles pertencem a um tempo em que havia inocência, em que achávamos que a vida seria justa e sempre alegre. À medida que crescemos, descobrimos que não é assim. Não é amargura, mas entender viver é perigoso. Porque tudo se complica quando os riscos são maiores. O fato é que não pagamos boletos ou evitamos problemas de saúde com saudades. Ainda assim, mantenho esperança de que os dias melhores virão. Ou menos preocupantes, o que já é bom o suficiente. Daí, a necessidade de reter alguma inocência infantil. Ela precisa ser cultivada para não enlouquecer sob o peso das exigências. Aquela atitude de criança desafiadora e aventureira que ainda reside em nosso anterior de que podemos encarar tudo como uma brincadeira e terminar com um sorriso no rosto.

    Para onde os tucanos teriam ido? Torço para que não tenham sido devorados pelos carcarás que surgiram há poucos anos. Eles são mais agressivos, entrando na casa sem pedir licença e precisam ser guiados logo para fora. Os tucanos sabiam seu espaço, enquanto os carcarás não se importam. Inicialmente, achei que fossem águias devido a sua plumagem. A invasão deles provocou mudanças. Além de instalarmos telas, paramos de colocar frutas na mureta, numa tentativa de dissuadi-los. Ainda assim, os carcarás pairam por perto. São tempos novos. É nesse momento que o adulto alarmado e o moleque petulante precisam chegar a um acordo. Adaptar às circunstâncias e usar a criatividade para encontrar uma solução. Essa é chave para abrir o desenvolvimento. O papel que as lembranças desempenham não deve ser de colchão, mas de mola. O voo, como o dos tucanos, pode ser algo desastrado no começo para atingir uma tranquilidade de planador ao fim.

  • Aos 16!

    Enfrenta seus porquês: quer respostas, quer experimentar… Arrisca-se, arroga-se, ensoberbece! Sabe o que ninguém nunca soube.

    Seu caminho, com certeza, será diferente de todos os outros.

    Empina o nariz, responde com autoridade, briga com o vento.

    Sabe, mas não sabe. Pensa que não, mas precisa…

    O som alto disfarça a ansiedade, os amigos disfarçam a solidão.

    Envolvida numa interna guerra entre ser e querer, todos os caminhos estão diante de si. Todas as possibilidades. Aflige-se. Não quer ouvir; grita!

    Aos dezesseis, não se lembra mais da Alice do livro de capa dura e desenhos coloridos. Talvez agora seja a hora de saber que não afundará nas próprias lágrimas e que a escuridão de agora é apenas passageira. O mundo tem um lugar que lhe pertence, que está lá à espera.

    Menina, sofrer faz parte, mas não vá além do limite! A dor pode acomodar o espírito e aquecer nossa alma.

    Aprisiona.

    Vai, menina, o camundongo só virará rinoceronte se você permitir. Feche esta porta e abra a outra. Só você pode fazê-lo.

  • Quatro patas — dentro e fora de mim

    Chove. Acordo na escuridão com o som de gotas furiosas contra a telha ondulante a minha direita, no vão coberto entre o edifício em que me encontro e o do lado. Ouço o ritmo onírico do meu Zeca roncando. Ele sonha. É lindo. Expressão da mais tenra felicidade em mim, tanto quanto a sensação de ter seu pesinho peludo em meu colo, ou seu pulinho, todo molhado, ao sair do banho e deitar de bruços, confiante, sobre a toalha limpa estendida sobre minhas pernas esticadas.

    Só quem tem a honra de ter um cachorro na vida pode entender corporalmente o que descrevo.

    Chove.

    Zeca silencia, mas ainda consigo ouvir sua respiração heroica. Um único pulmão, sete doenças respiratórias; seus joelhinhos traseiros tão frágeis. Algumas medicações de uso contínuo, bombinha diária, colágeno e acupuntura. Meu spitz alemão não demonstra fraquezas — muito pelo contrário: é o cachorro mais feliz — e mais bagunceiro e inteligente — que conheço, e quanto orgulho há nessa declaração.

    Quanto Zeca me ensina sobre a vida, todos os dias.

    A ausência dos seus roncos na madrugada me coloca em estado de alerta. Ele é meu coração fora de mim e o sorriso estampado no rosto dos costumeiros transeuntes que têm a felicidade de ver o Zeca passar.

    Antes dele — e por um tempo curto demais, contemporaneamente a ele — existiu a Mia. Mia foi meu primeiro amor de quatro patas. A que quebrou todos os meus ‘ainda receios’ de ter um cachorro. Eu (morria) de medo de cachorros.

    Tudo começa com a Lua, o basset fêmea da vovó Trude — minha avó austríaca postiça, vizinha de andar, que fazia doces, tinha uma risada que ainda ressoa na memória daqueles olhos azuis inesquecíveis. Ela nos deixava usar seu telefone fixo, pois nós ainda não tínhamos… Que memória para mostrar o quanto o mundo mudou, de 30 anos para cá… as relações de vizinhança eram familiares de portas abertas; telefone era luxo e não essa extensão de nós mesmos reconfigurada em sua versão “smart” e multifuncional. Hoje sequer sabemos os nomes de nossos vizinhos — ou quando muito, nos limitamos a isso. Voltemos a Lua:

    Eis que minha “tia-basset” me deu uma mordidinha no joelho quando eu era pequenina. Nada grave, só o suficiente para transformar qualquer cachorro solto ou passeando em sua coleira em uma ameaça. Ameaça é pouco; trauma mesmo.

    Passei a atravessar calçadas ao avistar um quatro-patas, sem olhar se vinha carro ou não, para desespero dos meus pais.

    Nesse meio tempo, em Santa Maria Madalena, minha avó Odila — a de sangue que eu conheci — teve vários cachorros… mais de cinquenta, para meu desespero (e ela reconhecia cada um por seu latido particular, vale frisar o feito do amor canino). O primeiro e mais emblemático foi o Rique, um fox paulistinha que todas as manhãs comemorava minha presença com uma euforia que me aterrorizava (Zeca faz o mesmo estardalhaço hoje em dia e me desafia a levantar da cama até que a euforia se dissipe). Era só depois do almoço que a pequena Bia e o intrépido Rique se acostumavam à presença um do outro. À noite, éramos melhores amigos até que, na manhã seguinte, tudo recomeçava.

    Naquela época, vovô ainda era vivo e eles moravam em uma chácara antes dos cartórios, prefeitura e a famosa praça da Dercy. Uma vez deixei a porta do quarto em que dormíamos eu, mamãe, papai e minha irmã aberta. Rique entrou, pulou na cama e comeu a cabeça do meu Ken! Eu amava bonecas. Chorei, me revoltei e passei o resto do dia sem falar com ele.

    Cerca de um ano depois, meus avós já moravam em outra casa, uma cuja fachada desenhada foi campeã de uma competição decorativa de copa do mundo, no caminho para o mausoléu da Dercy Gonçalves — a pirâmide de cristal que ela mandou construir para si antes de morrer. Eu caminhava uma esquina abaixo, à esquerda da Catedral, quando um rottweiler escapou de uma casa na mesma rua. Eu devia ter uns onze anos.

    Lembro de ser encurralada por dentes à mostra, latidos fortes e muita saliva, dos meus punhos cerrados porque minha mãe dizia que assim os cães não sentiam o cheiro do medo, da minha voz ausente, do pânico interno… e do Rique.

    Meu pequeno e bravo amiguinho se meteu entre mim e um cachorro inúmeras vezes maior do que ele.

    A partir dali, todos os cachorros exceto o Rique tinham licença para me causar medo. No meu
    coração, ele passou a ser o meu cachorro. Anos depois, numa quarta-feira de cinzas, chegou a Mia.

    Dois meses, olhos azuis que lembravam os da vovó Trude, pulgas, carrapatos, anemia… mal se mexia, aquele bocadinho de pelo branco acuado. Eu e Bruna, minha caçula, tínhamos arquitetado um plano estrategicamente convincente para nossos pais: eu falaria com a mamãe; ela, com papai.

    — Fala com seu pai — disse minha mãe.

    — Fala com sua mãe — ouvi a resposta paterna da boca da Bruna.

    Meus pais sempre foram muito unidos, mas não esperávamos tanta sintonia. Trouxemos a cachorra.

    Mia veio para este mesmo apartamento em que agora escrevo. Passou sua primeira noite no quarto da minha irmã, onde estamos, eu e Zeca. Ela recebeu vacinas, remédios, amor, e o virar das costas dos meus pais num primeiro momento. Somente por pouquíssimos dias. O pelo branco tornou-se creme, com botinhas claras nas quatro patas e uma manchinha na testa. Os olhos ficaram verdes. Miou antes de latir. Era medrosa, companheiríssima, educadíssima, uma verdadeira lady. Uma vira-lata com ares de pedigree — enquanto Zeca tem pedigree e alma de vira-lata.

    Mia tinha seus hábitos. Dormia com música clássica e pedia para ligar o aparelho de CD se chegava a sua hora. Nas viagens, acordava em todos os pedágios para observar. Na rua, se parávamos com alguém, ela também parava e esperava a prosa terminar. Em restaurantes, só se sentava se colocássemos uma toalhinha no chão. Andava entre um e outro de nós quatro, jamais à frente. Em todos os seus 13 aniversários tinha festa com decoração, banquete canino e vela. Nasceu em vinte e quatro de dezembro.

    Uma vez, apagou a vela com um soprinho. Tínhamos esse momento em vídeo. Ainda deve existir em algum arquivo digital… Foi o elo da nossa família, sem que soubéssemos dessa força.

    Com o tempo, Bruna arranjou a Summer, uma lulu-da-pomerânia quase anã – minha afilhada. Depois, apareceu o Charlie, irmão da Summer.

    Agitado, esbaforido, barulhento, comedor de chinelos, móveis e paredes.

    Zeca é o Charlie que veio morar comigo, amor à primeira vista de nós dois. Seu caráter não combinava com a pompa do nome, por isso, foi preciso rebatizá-lo.

    Mia, que morava com meus pais, uma senhora de classe, não teve paciência para o irmão.

    Pouco depois, ela começou a enfraquecer. Vieram exames. Um baço prestes a explodir, um fim de semana sem disponibilidade veterinária e o baço rompido.

    Câncer.

    Foi operada às pressas. Voltou para casa. Eu e papai fazíamos os curativos.

    Me lembrei de um incidente, anos antes, em que os olhos da Mimi ficaram pretos e ela perdeu os movimentos das pernas. “Cheiro de tinta”, sentenciou a veterinária, vindo da obra de um vizinho. Eu, que então morava no Rio, subi a serra e fiquei fazendo fisioterapia com ela, com o auxílio de uma toalha. Seus movimentos retornaram. O verde da esperança voltou a refletir em seus olhos.

    Eu passei o último dia da vida dela carregando-a no colo. Ela, molinha, outra vez. Levei-a para sentir o vento e o sol na área aberta do apartamento. A mesma na qual ela amava jogar bolinha com o papai. Mantive sua patinha na minha mão. Tentei oferecer comida.

    Mia nunca recusava comida. Naquele dia, entretanto, recusou. Água, apenas via seringa. Zeca circulava ao nosso redor e insistia em convidá-la para brincar. Não entendia nada.

    Bruna, no Rio, precisava chegar. Papai foi buscá- la no fim do dia. Mia esperou o quanto pôde.

    No fim da noite, Zeca tentou novamente se aproximar. Ela reuniu uma força que já não parecia existir e rosnou grosso:

    — Sai pra lá, moleque!

    Ele entendeu. Ficou perto, sem incomodá-la novamente.

    Minutos depois, abraçada por um de meus braços e acariciada pela minha outra mão, Mia olhou lúcida e profundamente nos meus olhos.

    Gritei por minha mãe.
    Mia suspirou forte.
    Eu sabia.
    Minha mãe, idem.
    Mia, mais do que nós.
    Zeca também; chegou a fechar os olhos nesse momento.

    Mia se foi como viveu: em paz e com muita classe. Era 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis.

    Três anos depois, há uma semana, saiu uma reportagem no jornal da minha cidade, A Voz da Serra:

    “Domingo é dia de São Francisco de Assis, o protetor dos animais”

    Na página de folha dupla havia a fotografia da Paróquia da Rua Duque de Caxias e, ao lado, em proporções enormes, um único cachorro nos braços de sua tutora.

    Era Mia.
    E era minha mãe.

    Mamãe, que estava na rua e sem óculos, recebeu uma mensagem com a foto do jornal no WhatsApp, enviada pela dona da banca. Respondeu:

    — Que legal.

    Emiliene percebeu pelo tom sem emoção alguma da escrita que ela não havia entendido. Ligou.

    — Você viu o jornal, Lucia?

    — Vi, dia de São Francisco, vamos levar Zeca para benzer amanhã. Sempre vai ser emblemático para nós. O dia em que a Mia partiu…

    — Lucia, você viu a foto?

    Então ela, desligando, deu o zoom no arquivo de imagem. E viu.mEnviou para mim e minha irmã no nosso grupo “Fofinhas”. Choramos as três. Três exemplares do periódico foram comprados.

    As cinzas da Mia repousam na estante da sala, ao lado das do papai, que partiu oito meses depois dela. Câncer, também; mesmo nível de avanço em ambos, metástase.

    Às 4h da tarde do dia 04 de outubro, eu e mamãe levamos Zeca para a bênção de São Francisco.

    Éramos 4: papai, mamãe, Bruna e eu. Quatro cachorros atravessaram a minha vida: Rique, Mia, Summer e Zeca. Comecei a escrever esta crônica às 4h da manhã.

    O “quatro” ancora ao chão aquilo que não podemos tocar, mas nos toca.

    Os vivos levam consigo os seus mortos. Sou um pouco Makepeace, personagem principal de “A Crônica das Sombras”: os fantasmas se alojam em mim, partilham das minhas forças, participam das minhas decisões e, às vezes, emprestam seus olhos aos meus.

    Eu tenho um cachorro — e uma pequena multidão dentro de mim.

    Naquela tarde, todos nós caminhamos com Zeca pela Rua Duque de Caxias.

  • Árvores Vermelhas (um exercício de escrita)

    Árvores vermelhas, de um vermelho vivo, intenso, de doer os olhos de tão forte. Uma alameda de pedras rosadas e gastas, fileiras de árvores (uma à direita, outra à esquerda). Não sei o porquê me veio à mente a palavra morte. Me Assustei de início. Olhei para um lado e algumas pessoas notaram meu sobressalto. Não dei atenção. A cor vermelha das árvores produzia em mim uma sensação estranha, ora uma calmaria desmedida, ora uma intranquilidade…não sei. Fazia frio e o vento a me bater no rosto como se quisesse me despertar. Não sei. Fazia frio e, ao longe, um barco pesqueiro, um horizonte gigantesco a me engolir. Pensei na morte talvez porque tenha perdido alguém conhecido e não… Talvez pelo modo como as folhas caíam ao chão, ressequidas, enrugadas.

    As árvores vermelhas balançavam como os meus braços ao redor de Ana. O desejo dela era simples: viajar somente. Cabelos curtos, pretos, olhos vivos e um pescoço macio protegido pelo cachecol azul. Ana falava de terras distantes, mais frias que o frio, e, ao me contar as histórias (eu nunca soube contar histórias) a lua parecia espreitar cada movimento, quase a nos cobrir de estrelas. Um riso e um calendário eram o sopro de vida, o que levava na mochila surrada. Não gostava de vermelho (e eu a olhar, a amar e desprezar as árvores vermelhas), adorava o azul. Sempre fechava os olhos por instantes, um período curto, porém intenso e depois admirava o céu e ria para mim. Ana escrevia poemas, lindos poemas. Nunca os li, mas eram belos porque Ana assim também o era.

    O vermelho parecia sangue a denunciar tristeza e melancolia. Sinal aberto e pouca atenção um grito e o desespero e ninguém ouvia ou fazia coisa alguma… Muitos gritos muitos gritos muito sangue e o sol a arder o coração e o cachecol azul vermelho e o sol o gosto ruim amargo na boca. Não sei contar histórias, nunca soube. Adorava ouvi-las da boca de Ana, uma boca enorme como o mundo que sorria no seu sorriso.

    Lembrava do sol pela janela estreita do quarto branco e via um mundo maior, muito maior que todos nós. Nós não víamos.

    Um rapaz passa com uma bicicleta laranja.

    Segundo parágrafo…Ana sorria… Duas mulheres olham confusas o garoto do skate.

    Segundo parágrafo… Ana sorria, tudo escuro e o vermelho das árvores tomava os meus olhos. Tudo era vermelho, solitário, vazio. Um dia resolvi ler um dos poemas escritos pela doce Ana. Palavras confusas como o trânsito da cidade…

    Um horizonte gigantesco a me engolir…
    e não sei contar histórias
    e não sei desenhar nos muros
    muito menos nas janelas.
    Palavras ao vento, jogadas, todas elas
    como um brinquedo de viagem.
    Nunca soube contar histórias
    Porque as histórias sempre contavam a mim…

    Um casal se senta ao meu lado e escuto o balançar dos galhos e o cair das folhas. É outono. É outono a cobrir o caminho de folhas mortas, a desenhar no céu um cinza pesado e a rir de mim como ria Ana. Não sei contar histórias, nunca soube.

    Página nove.

    Uma bola escapa do campo de areia, bate nos meus braços e derruba o livro que lia. Estava no penúltimo capítulo, quase a descobrir o segredo. Pensei comigo: “o que importa?”

    As árvores frescas, robustas na estrada, balançavam com o forte vento. Guardei o livro de capa vermelha como as árvores vermelhas da história quando um cachecol azul-vermelho veio parar aos meus pés. Ria de nervoso. Se soubesse contar uma história.

    “Depois termino.” — Pensei.

  • Vamos Barbarizar!

    Me virei na cama. Entre o sono e o sonho:

    Queria só beber. Girei.

    Bebê que sorria.

    Contei as letras. Nenhuma sobrava. Nenhuma faltava.

    Foi então que percebi: naquela noite, eu era um caleidoscópio.

    Meu poder não era criar palavras, mas embaralhá-las. As letras continuavam todas ali. Só mudavam de lugar. E, com isso, mudava tudo.

    No mundo dos sonhos, fui contratado como revisor de um jornal.

    Entrei na redação disposto a revolucionar o ofício. Adeus, manchetes sensacionalistas! Bastava uma giradinha e uma notícia desalentadora poderia ganhar outro sentido.

    Fui parar na seção de notícias do cotidiano.

    Comecei por uma que havia me feito rir no dia anterior:

    Homem casado é morto por moto de menina Z…, meio vesga, que morou oito meses presa no sótão pelo tio.

    Girei.

    As palavras se embaralharam.

    Preso homem amoroso que é investigado por estelionato e, ao mesmo tempo, namorou dezoito moças…

    Interessante.

    Mas faltava alguma coisa.

    Foi quando surgiu, ao meu lado, um sujeito de chifres vermelhos e espírito de porco.

    — Vamos barbarizar?

    Aceitei a sugestão.

    Girei outra vez.

    Homem que namorou dezoito moças ao mesmo tempo é investigado e preso por estelionato amoroso…

    Estelionato amoroso? Por essa nem eu esperava.

    Eu já estava gargalhando quando acordei.

    Corri para o papel e anotei as duas versões antes que desaparecessem.

    Voltei para a cama.

    E dormi de novo.

  • Carolina

    Eu quero que você saiba que ainda não decidi se vou mesmo fazer. Não sei se quero levar essa coisa adiante, se preciso mesmo. Claro, sou ansiosa, mas acho que todo mundo é um pouco hoje em dia. É, depressão também. Levantar da cama às vezes é tão difícil… Esse mundo tá um caos. Depois que a pandemia acabou, acho que ficou até pior. Sabe, me assusta um pouco a ideia de ter de dividir com alguém meus segredos, meus pensamentos mais íntimos. Eu sou atriz, acho que você não sabia, né? Claro que não sabia. A gente mal se conhece. Bem, tô começando, mas você acredita que meu primeiro trabalho profissional foi numa peça de Nelson Rodrigues? A temporada acabou no domingo passado. Bonitinha mas ordinária. Não, eu não era a protagonista. Era uma das irmãs da Ritinha. A Vera Fischer fez no cinema. A Ritinha, eu quero dizer, ela fez a Ritinha. Acho ele um gênio. Foda mesmo. Manda muito bem. Minha família toda foi assistir. Tios, primos, gente que eu não via já há um bom tempo. Até a Marina, que já trabalha lá em casa há 20 anos, foi com a Betina, a filha dela. Meu pai também foi. Ficou meio chateado porque apareci de peito de fora. Mentalidade atrasada, meu Deus. Aquela cena tava completamente dentro do contexto. Por mim, ele nem teria ido. Não somos próximos, ele nunca se importou muito. Eu tinha certeza que ele ia reagir mal. Enfim. E depois eu não quero que as pessoas pensem que sou uma patricinha que veio fazer terapia porque não tem mais nada pra fazer na vida. Tipo pra passar o tempo, entende? Minha família não é rica. Bem classe média, e esse tratamento é meio caro, né? Acho que isso aqui até pode me ajudar no meu trabalho de atriz. Tudo tem prós e contras, não é mesmo? Eu posso começar. Talvez o ideal seja eu começar sem compromisso. Sei que não sou obrigada a nada. Não precisa você me dizer. Não sou tão tapada assim. Verdade. Sou filha única. Não sou mimada. Quando falo que sou filha única, as pessoas logo pensam isso. Bem ao contrário. Mas não posso negar que durante muito tempo eu desejei muito ter um irmão, uma irmã, um primo adotado que fosse, a casa mais cheia, mais barulho, mais agitação… Acho que você entende o que quero dizer, né?

    — Carolina, minha filha, você ainda não está pronta? O táxi já chegou. Temos hora marcada, menina. Por que você se olha tanto nesse espelho? Ah, depois que você entrou pro teatro, resolveu ensaiar tudo. Até a vida.

  • Ah, o desencanto

    Vinicius de Moraes dizia que a vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida. É, tem lá sua razão. Mas eu vou adiante umas casas no tabuleiro e adapto o que ele disse: a vida é a arte do encanto embora haja tanto desencanto pela vida.

    Encantar é uma arte. Exige muita atenção, percepção e disposição. Precisa de muitas doses de criatividade e jogo de cintura. Afinal, encantar alguém é envolver a pessoa em uma dança quase ritual de enlevo e, porque não dizer, acasalamento sim. Encanto é sedução.

    Por seu turno, estar encantado é ser seduzido, é permitir-se receber tanta atenção, é deixar-se levar por esse enlevo. É confiar. É passo a passo mostrar que cada gesto, cada palavra e cada ação da pessoa que decidiu nos encantar está dando resultado. Mexe com o ego porque, afinal, nada como ser o centro das atenções de alguém. Os dias escorrem preguiçosamente.

    Mas…. E se o descompasso toma o lugar do ritmo harmônico? E se os passos erram a direção? E se, mesmo sem querer, o encanto dá lugar ao desencanto?

    Nada é repentino. Começa aos poucos, sutilmente.

    Aqueles gestos e palavras tão carregados de sentido não encontram mais eco. São recebidos com indiferença e, tristeza maior, vistos como rotina. Cada movimento que um dia era original e especial agora são nivelados. Nada que faz é seu, alguém fez antes ou pior: todos fazem, e daí?

    Na sequência os atrasos, esquecimentos, gestos irritados, impaciência, cobranças disfarçadas, má vontade… O que antes era charmoso, se torna piegas. O gesto amoroso se torna possessivo. O interesse genuíno muda para insegurança. A palavra que causava sorriso, agora provoca sarcasmo.

    E os olhares apreensivos tentando entender o que está fora do lugar, onde foi que se tomou o caminho errado.

    O que faltou? Ou foi excesso?

    Será que a palavra dita na hora errada causou isso? Ou foi o silêncio quando era o momento de falar?

    Fui eu? Foi você? Fomos nós? Não foi ninguém?

    As pessoas não são culpadas pelo desencanto umas das outras, mesmo sendo de alguma maneira responsáveis por ele. É uma situação curiosa de responsabilidade sem culpa. Era inevitável, ia acontecer, não é intencional. Mas acontece. Nem sempre, mas acontece.

    No desencanto não há briga. Ninguém diz nada que possa se arrepender.

    Porém, fica tudo em suspenso, um tanto indefinido. E agora?

    Dá para apelar para aquele samba do Caetano Veloso, “Lealdade”: “Se o teu corpo cansar dos meus braços/Se teu ouvido cansar da minha voz/Quando teus olhos cansarem dos meus olhos/Não é preciso haver falsidade entre nós” ?

    A sensação de desencanto é como estar diante de um lindo campo vasto e profundo em um dia morno de sol, a tarde. Espera-se não se sabe bem o quê. Ou se sabe mas se evita.

    Fica-se ali. Diante de um vazio enorme, silencioso e triste.

  • Bravos genes brasileiros!

    Li há algum tempo que o Projeto Genoma conseguiu mapear mais de 98% do código genético humano. Trata-se de um feito semelhante à invenção do telescópio, que permitiu a Galileu perceber que a Terra não é o centro do Universo, e está no mesmo nível da descoberta da evolução (Darwin) ou do inconsciente (Freud).

    Segundo os cientistas que trabalharam no Projeto, sua maior contribuição ocorrerá no âmbito das doenças geneticamente transmissíveis, que poderão ser previamente detectadas e, por assim dizer, antecipadamente curadas. O mapa genético de um indivíduo – que, evidentemente, por muito anos só será feito em países ricos e custará muito dinheiro – vai dizer se ele desenvolverá câncer, diabetes, psicose maníaco-depressiva ou males semelhantes. Feito o diagnóstico precoce da possível enfermidade, esse indivíduo substituirá os genes que o predispõem a tal ou qual mazela, e pronto, estará delas livre para sempre. A tendência no futuro é que todos morram de velhice – se a monotonia decorrente de tanta previsibilidade não os fizer morrer antes.  

    A correção genética para evitar doenças será apenas um dos efeitos do Projeto Genoma. Haverá outros, tanto mais que, sabe-se hoje, a maior parte do nosso comportamento físico e psicológico é condicionada pela hereditariedade. Já se descobriu, por exemplo, o gene que determina a opção político-partidária do indivíduo. Ou seja, nem num domínio de aparente exclusividade ética e social, como o da opção ideológica, escapamos da tirania dos cromossomos.

    O problema é que muitos vão querer explicar o Brasil em função dessa primazia da genética. Se tudo é herdado, não temos culpa pela nossa preguiça nem pela nossa propensão a desrespeitar as leis. Não somos responsáveis pelo nosso caráter (ou pela falta dele). Se Mário de Andrade escrevesse hoje o Macunaíma, certamente não chamaria o seu herói de sem-caráter, mas de geneticamente defeituoso. Haverá quem veja nisso um refresco para a nossa autoestima, tão maltratada em razão do vergonhoso desempenho do País no controle da pandemia.  

    O que mais me anima na hipótese do mapeamento genético é que, se existem genes para todas as mazelas físicas e psicológicas, deve haver um que determine a corrupção. Conclamo os pesquisadores nacionais a pesquisá-lo e, o quanto antes, descobri-lo. Imaginem o que será o Brasil quando pudermos diagnosticar os pré-corruptos e aplicar-lhes uma espécie de punição preventiva. Sem falar do que ganharíamos em divisas isolando-lhes o material cromossômico e fabricando vacinas, que seriam vendidas com abundância e diversidade ao resto do mundo.

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