Crônicas

  • Por via das dúvidas

    Cândida precisava cortar o cabelo.
    O problema era: quando?
    Lua Crescente, para o cabelo crescer mais rápido.
    Lua Cheia, para ganhar volume.
    Lua Minguante, para cuidar da saúde dos fios.

    Entrou em crise.
    Não podia simplesmente cortar o cabelo. Era preciso escolher a lua certa.

    Foi então que se lembrou de mais uma coisa.
    A tinta.
    Queria mudar a cor.
    Lua Nova.

    Pronto. Agora só faltava descobrir em qual fase da Lua deveria viver.
    Finalmente escolheu o dia e saiu para o salão.

    Abriu a porta de casa e deu de cara com uma escada encostada no poste. Lá em cima, um
    homem mexia na fiação.
    Cândida pulou para o meio-fio.
    Ser atropelada seria menos grave que passar debaixo de uma escada.

    Na pracinha, uma joaninha pousou em sua mão.
    Sorte!

    Continuou seu caminho, feliz da vida, até que uma rajada de vento veio de repente.
    Fez uma careta.
    Ou quase.
    Segurou a expressão no meio.
    Melhor não arriscar ficar daquele jeito para sempre.

    Na esquina, sentiu a orelha esquentar.
    Alguém estava falando dela.
    Só podia ser uma das amigas para quem contara que mudaria o visual.
    Inveja.

    Procurou um banco de madeira debaixo da marquise do ponto de ônibus e bateu três
    vezes.
    Pronto.
    O azar estava avisado.

    Chegou ao salão.
    A porta estava destrancada.

    Entrou?

    Não.
    Tocou a campainha.
    Era importante que a dona do salão abrisse a porta. Só assim garantiria que seria bem-
    vinda na próxima vez.

    Sentou-se na cadeira.

    Antes de começar, fez um pedido à estrela cadente que fotografara na noite anterior.
    Cruzou os dedos das mãos.
    Depois, os dos pés.

    Respirou fundo.
    E entregou suas madeixas aos astros.

    O resultado?
    Está na ilustração.

  • Frango à milanesa

    Assim resumo meu começo torto, na última sexta-feira como cidadã “cachambianse” — e que se retire solenemente quem, dada a época do ano e o gentílico recém-proclamado, aguardar daqui em diante jogos de palavras tendenciosos à política do botão verde de CONFIRMA. Não me demoro nessa competição de temporada que, de tanto disputar digitais alheias, fere o sentido amplo de seu propósito; aqui, a politicagem é outra… distribui santinhos da experiência de pertencer, não papéis que emporcalham a cidade e mal chegam à reciclagem. Aqui, hei de fazer campanha pelas conexões de um povo que, mesmo estando eu de passagem, em apenas 04 meses aprendi a chamar de meu.

    Onde eu estava…? Ah, sim. Eu tinha acordado.

    Às 14h34, no susto. O alarme não tocou. Trôpega, peguei o celular e digitei sem muito cuidado com a caligrafia digital desatenta ao corretor ortográfico — que muito modifica sentidos quando nos pega desprevenidos — mil perdões esbaforidos para dona Rosa, da barraquinha de marmitas em frente ao meu condomínio.

    É a primeira sexta-feira de outubro, chuvosa como foram tantas sextas do mês e setembro. Dona Rosa me aguardava para entregar a marmita — a minha última; ela não sabe. Visto uma blusa e outra coisa que não se encaixa bem nas pernas. Troco, escovo os dentes, prendo os cabelos de um jeito sem estilo. Havaianas nos pés, venço o corredor do meu bloco, atravesso a área comum que me recepciona com gotículas finas e persistentes, libero meu acesso pela facial e ganho a calçada. Dois sorrisos (um sem graça, outro cansado), um abraço, mil outros perdões, vale-alimentação já na maquininha. Ela abre o isopor vermelho e lá está: o pote de isopor com “frango a amilanesa – Bia”. Eu quase choro.

    “Se cuida, menina! Descansa e se alimenta!” Pisquei os olhos.

    Passei boa parte da vida acreditando na precisão das palavras. Ainda acredito — e defendo, com postura de quase candidata a um cargo nas eleições deste domingo, 04 de outubro: corrijo acentos, vírgulas, concordâncias. Aprendi a amar as regras gramaticais quase como quem afia ferramentas: pelo som, pelo peso, pela precisão do corte. Mas quatro meses me ensinaram uma língua sobre a qual nenhuma gramática normativa poderia reivindicar propriedade.

    Quem diria que, ao acrescentarem mais um “a” ao prato do dia, numa alusão já bastante tropical a um suposto preparo italiano, logo eu — devota da palavra correta, amante e fluente na língua e cultura italianas — deveria ter sucumbido ali mesmo à indignação. Morri, sim, ali, na calçada. Mas de ternura; o tiro saíra pela culatra.

    Escrito à caneta na tampa de uma marmita descartável, o duplo “a” equivocado acertou em cheio: disse o que precisava ser dito; com o coração, não com o esnobismo. Era um “a” dobrado de afeto, expresso, tal qual um café, com aroma extra de amor. Na língua do cotidiano, fala-se que o segredo está no tempero. E todo mundo sabe que o caminho mais curto até o coração de um
    homem passa pelo estômago; antes dele, há o prato.

    Uma voz culta, musical e precisa surgira nos meus dias, preenchendo-os de possibilidade. Conhecia, pela tela, minha casa, meus cantos, o lugar onde eu escrevia e lia; falava de energia, de escolhas, interpretava minha exaustão como consequência de eu me dar demais ao que não merecia tanto de mim. Mas não me preparou prato algum e deixou pela metade até a única fatia de pizza que teve diante de si. Tanto discurso, tão pouco apetite pela experiência inteira. Pouco depois, retirou-se numa ausência orquestrada.

    (Curioso: eu, que comecei este texto expulsando a politicagem pela porta da frente me vejo, algumas linhas depois, de cara com a política acomodada à mesa. Não a convidei. Certas presenças têm o hábito inconveniente de sobreviver à própria ausência)

    Mas esta não foi a única voz a opinar sobre meus gastos. Outras, igualmente instruídas, também disseram que eu me despendia demais — e mal. Nenhuma delas soube ler o que tanta gente, sem qualquer pretensão de erudição, leu de primeira: minha energia não estava sendo desperdiçada. Escorria de mim como uma torrente, é verdade, mas encontrava mãos que trabalhavam comigo, cafés passados na hora, hambúrgueres que salvavam madrugadas, abraços, risadas e gente que simplesmente abria espaço para que eu coubesse inteira, só por ser eu. Há muito eu não me via tão feliz sem as malditas expectativas. Continuei me gastando inteira, como sempre. A diferença é que, desta vez, o desgaste me devolvia vida.

    “A a”bracei novamente.
    Ela, dona Rosa, ainda não sabia.

    ***

    Corda ao contrário no relógio.
    São 17h35 de quinta-feira; eu, na fila do Mega Matte.

    No caixa, a proprietária, que me viu algumas vezes. O atendente de sempre não estava por ali.

    “Um açaí fit de…”
    “…500 ml com proteinato!”

    A voz vem do movimento corporal de um atendente que eu nem havia percebido direito nos últimos quatro meses. Ele sorri para mim; sabe meu pedido. Sabe a mesa na qual me sento.

    E isso dói de um jeito bonito.

    Espero baterem meu shake, que substitui o almoço de quem acordou às 16h depois de trabalhar das 21h30 às 10h. Respondo alguns colaboradores, fornecedores, agendo as atividades da noite, peço apoio para compras de última hora.

    Confirmo o Pilates pelo aplicativo de check-in; ainda preciso passar na padaria para comprar salgadinhos e Coca-Cola — sugestão de uma das alunas. Convém apresentá-la antes que chegue atrasada algumas linhas adiante: na semana anterior, ao descobrir que minha condição de nômade incluía também uma despedida iminente, apareceu com um bolo de pamonha tão bonito quanto delicioso. Não sei se existe protocolo para acolher mulheres de passagem; se existe, desconfio que Deus envie anjos a nos entregar milho, açúcar e muita generosidade embrulhada para presente.

    Meu último dia no Pilates. Esta quinta.
    (Eu sei… a crônica está muito culinária e nada fit — nem ao corpo, nem a qualquer figurino político. Tampouco pretende entrar em forma partidária; apolítica, a esta altura, já vimos que também não é.)

    “Exercício e açaí fitness não casam exatamente bem com refrigerante e gordura”, penso diante dos quitutes. Por coerência, pego também uma caixinha de palmiers.

    Subo a Torre Norte até o nono andar, no terceiro elevador.
    Sorrisos.

    Alguns exercícios.

    A aluna do bolo de pamonha — eis que retorna a personagem, desta vez atrasada — chega e me abraça.
    Queridíssima.
    Ninguém está exatamente no clima de alongamentos ou superações musculares.

    Pausamos. Paramos em pé, ao lado externo da porta de entrada.

    “Sábado vamos dar uma volta e tomar um café antes de você ir.”

    Eu sorrio.
    Piscar de olhos.
    E já se foi o sábado. Eu não consegui encontrá-las.

    Tive de trocar o café prometido e a continuação das nossas histórias de vida pela arrumação da casa, 02 malas G de rodinhas, 02 mochilas, umas 07 sacolas retornáveis, alguns mantimentos e Magda Ficus Elastica Tineke Mies.

    Lembram-se dela? A roommate e única sobrevivente de “Esta história não é sobre plantas”, primeira crônica desta temporada inteiramente carioca. Minha bagagem concentradamente nômade revelou-se humanamente apegada: ocupou todo o maleiro de uma van executiva.

    Troquei também o café com minhas novas amigas por refeição alguma. Sobrevivi a uma sobra de queijo, restos de gelatina sabor banana Fini, água e água tônica do mercadinho-contêiner. (Vejam uma crônica tão culinária terminar o sábado em jejum. A coerência também se perdeu numa logística que se recusava a terminar.)

    Enfiei nos últimos microespaços, entre tecidos e objetos, o que não coube em mala alguma: sentimentos, memórias, aprendizados, alguma dor e muita felicidade. Até poucas horas antes, eu ainda imaginava continuar habitando aquela casa…O café ficou para trás; a Bialetti, foi envolta em plástico bolha. Abracei os funcionários do condomínio, tirei algumas fotos, troquei olhares de gratidão e, pela primeira vez, não levantei a planta do apartamento.

    Para uma arquiteta que costuma medir os lugares que habita, foi, no meu doce ver, a maneira menos técnica de manter a porta aberta.

    Deixei tudo sem escala.

    Inclusive a possibilidade de voltar. De acordar outra vez com os ruídos abafados pelo drywall; finalmente cumprir a terceira ida à piscina, desta vez com sol, diante do salva-vidas que muito mais me viu passar prometendo “qualquer dia eu venho” — gerúndios infinitos — do que em trajes de banho. Quem sabe madrugar, enfim, na academia do condomínio ou levar uma outra almofada para um banco lá fora e partilhar da minha solitude com as estrelas, uma vez mais.

    E tomar, como de praxe, meu café no sofá das leituras domingueiras.

    ***

    Os seguranças do shopping sabem meu nome.

    Os responsáveis pela manutenção, idem.

    As docas do Norte Shopping me receberam de braços abertos — em alguns dias, em mais de um idioma.

    Os corredores dos acessos restritos são labirintos familiares.

    O time da loja me cumprimenta e ainda me manda mensagens perguntando onde estou (“tem um vazamento”, “uma tomada pifou!”, “como é que faz isso mesmo?!”, “está a caminho?”). Os seguranças extras que acompanham a continuação dos serviços sorriem.

    O celular toca.

    É a Katia.
    “Chegou encomenda, bebê.”

    Cruzo as partes cobertas e abertas do pátio do centro comercial. Quando noite, chuvosa, percebo o reflexo dos painéis de led nas poças sob os meus pés. Sempre achei incríveis essas escadas rolantes que se deleitam com as chuvas. Atravesso as faixas carroçáveis e recolho mais uma entrega para a obra.

    Meu rosto é reconhecido.

    Abaixo dele, ora aparecem bloco e apartamento; ora, seis números me transformam em Ordem de Serviço.

    “Bom dia”.
    “Boa tarde”.
    “Boa noite”.

    Essa experiência nômade me deu o que anos de retornos e permanências imprevistas à minha cidade natal não conseguiram: conexões profundas.

    E pensar que cheguei aqui com bagagem demais e uma carta escrita vinte anos antes, destinada a ser aberta — embora o remetente esperasse que nunca fosse — num momento de tristeza pontuda; fora escrita exatamente no mesmo dia em que, vinte anos depois, cheguei a este lugar.

    Ah, minhas adoráveis dobras do tempo..!

    Foram tais palavras antigas e tão frescas que me tomaram no colo e atravessaram comigo a porta do apartamento. De algum modo, também moraram aqui.

    Outras presenças chegaram sem atravessar o portão preto.

    Promessas de vinda permaneceram suspensas, alimentadas por chamadas, vídeos, noites e possibilidades. Houve quem conhecesse pela tela minha casa, a disposição dos móveis, meu espaço de escrever e de ler, meus silêncios, meus fins de noite.

    Conheceram, no raso, um lugar em que nunca estiveram.

    Restaram sombras e ausências muito latentes.

    Os olhos marejam.
    Pego novamente a carta.
    Releio.
    A mão esquerda sabe.
    Respiro.

    ***

    Minha mãe e Zeca vieram passar uns dias.

    Choveu e fez frio.

    Eu tive febre. Por 12 dias consecutivos. Não pude utilizar-me de atestados.

    Trabalhei horas e horas e horas.

    Um dos meus melhores amigos fez ponte aérea para passar um dia participando da minha rotina.

    Um colega de ofício, presente da escrita criativa que a vida transformou em amigo veio, de moto Uber, tomar café só para bater papo. Depois me chamou para filar uns comes e bebes na inauguração do novo Manolo do Rio de Janeiro.

    Magda cresceu comigo, perdeu folhas e ganhou novas.

    Eu também.

    Fui duas vezes à piscina.

    Duas.

    Em quatro meses.

    Na última, atravessei os azulejos a nado, ida e volta; me sentei numa espreguiçadeira dentro da prainha, boiando.

    Achei que, finalmente, faria absolutamente nada.

    O celular corporativo tocou.

    Depois tocou de novo.

    E de novo.

    E de novo.

    Foram mais de dez ligações.

    Eu trabalhava de dentro da piscina.

    Ri.

    Parece literatura, e é; a certa altura, até a falta de pausa virou uma das pausas que eu registraria por aqui…

    ***

    Jamais esquecerei a barraquinha de hambúrgueres, que salvou noites intermináveis de trabalho e rapidamente nos promoveu a clientes VIPs: eu, meu par à frente da engenharia da obra, a técnica de segurança e o bombeiro.

    Hambúrgueres em horários em que pessoas normais dormiam. Cafés levados em garrafas térmicas que não chegavam a meia-noite de um turno comum. Depois, os cafés moídos na hora na copa da retaguarda. Muitos. Pizzas. Frutas. Conversas em pé. Conversas sentadas no chão. Retoques. Mais retoques; um checklist que parecia reproduzir seus próprios itens quando ninguém estava olhando.

    A construtora e a gigante multinacional do varejo me deram trabalho. Muito. De noite, de dia, à tarde; jornadas que algumas vezes pareciam não compreender muito bem a existência dos relógios e, ainda assim, se mostraram mestras em me proporcionar VIDA.

    Há uma ironia maravilhosa nisso: em 04 meses de obra, trabalhando em todos os turnos possíveis, o que mais se escreveu na minha vida foram as pausas.

    As pequenas.
    As roubadas.
    As inventadas.

    As que cabiam entre uma ligação e outra, entre uma madrugada e o amanhecer, entre um problema e outro, entre duas pessoas, entre uma equipe que, aos poucos e rapidamente, adquiriu contornos de família.

    Entre a vida que eu trouxe para cá e a que começou a nascer aqui.

    O final não poderia ter sido mais leve: 10 a 14 horas de trabalho noturno, de segunda ao amanhecer de sábado.

    Na terça, entretanto, fomos surpreendidos pela Light, que desligou, para manutenção, a energia de todo o shopping e nos obrigou a correr e interromper a programação. Foi providencial para que meu amigo viesse.

    Nos outros dias, empresas antigas e uma nova bateram ponto com pessoas queridas das equipes dos nossos colaboradores. Gente que já não era apenas profissional trabalhando de madrugada. Gente cujo nome passou a morar comigo, no rol dos rostos cachambianses.

    Na última madrugada, entre um retoque e outro e a espera pelo profissional seguinte, joguei forca, jogo da velha e fiz uma mímica inesquecível de filme com uma segurança que, desde o início, tinha uns ares estranhamente familiares.

    Rimos no meio de uma loja vazia depois de horas e horas acordadas. Tomamos café e água. E ouvi dela que nunca havia sido tão leve virar tantas noites. Que eu ficaria na saudade.

    Ela também. Ela e sua promessa de um calendário personalizado. “Um de 2027, claro”.

    Clareia o dia lá fora, mas aqui o ar condicionado ainda é gélido. Café passado. Mais um ajuste. Mais um item riscado.

    Uma fruta.
    Uma pizza dividida.
    Lactose sem proteção e sem riscos.
    Uma ferramenta que some.
    Uma risada.
    Um “Bia!”.
    Um “bebê”.
    Um “bom dia” dito às cinco da tarde.
    Um “boa noite” às oito da manhã.
    Fecho os olhos.

    ***

    Em quatro meses fui mais arquiteta, escritora, amiga e ser humano do que havia me percebido nos últimos dez anos:

    Aprendi a respirar. Aprendi sobre a minha energia. Me apaixonei.

    Por momentos.
    Por pessoas.
    Por lugares.
    Por plantas.
    Por cervejinhas compradas no mercadinho 24 horas do condomínio e tomadas no amanhecer de um dia comum.
    Por uma promessa.
    Por presenças.
    Por ausências.
    Por uma carta de vinte anos que chegou comigo.
    Por pessoas que sabiam meu pedido antes que eu terminasse a frase.
    Por quem aprendeu meu nome.
    Por quem me chamou de bebê.

    Por quem me abraçou na despedida sem ainda entender direito que era despedida.

    Eternizei meu primeiro eclipse visto a olho nu, deitada no banco deste lugar que se tornou tão profundamente lar.

    Fui feliz. Sou feliz.

    Há dor dentro disso. Muita.

    Há também uma mulher nova refletida no espelho. Uma que pela primeira vez nesta década olha para a própria imagem e reconhece estar viva. Muito viva.

    Hoje reorganizarei a vida dentro de malas de rodinhas 360°. Dona Rosa ainda não sabe que aquele frango à milanesa foi o último. O atendente do Mega Matte talvez ainda espere que eu apareça na segunda-feira pedindo meu açaí de 500ml.

    Meu rosto ainda abre a porta do condomínio. Meu nome ainda está ali. Por mais algumas horas.

    E eu descubro, quase na saída, que uma experiência nômade não me ensinou a não criar raízes, mas que elas podem brotar e frutificar muito depressa.

    Nos outros.
    Nos lugares.
    Em nós.

    E que, quando chega a hora de partir, não há nada a arrancar.

    Pisco.
    Fotografo com o celular, a instax e a retina.

    Pego as bolsas pelas alças, a Magda pelo pratinho e levo tudo junto. 125 dias aqui, entre idas a São Paulo, Jundiaí, Nova Friburgo e Porto Alegre.

    Pisco.
    Persisto.
    Me visto.

    É chegada a hora.

    E, de repente, já é domingo.

    Termino este texto já com o café da manhã esfriando. Preciso do meu título de eleitora. Da minha colinha.

    Após tanta política, tanta comida e tanto afeto, chego à conclusão mais urgente desta crônica:

    quero almoçar um belo frango à (a)milanesa.

  • Língua

    Língua breve, toda clara, toda escura,
    Aos poucos caminha, para, continua
    e entre o areal, a bruma, a leve chuva
    a face se mostra, inquieta e muda.

    Língua instante – objeto nada – rara, pouca
    Para, continua, para… tonta e louca
    Ensaia um grito, uma palavra, outra,
    A voz se insinua, miúda e rouca.

    No entanto, nas contradições do descaminho,
    Faz-se a língua na própria língua
    Faz-se o verso em todo o canto.

    O poeta, imagem irreal, o instinto,
    Busca a palavra, suga-lhe o sentido
    Regurgita o poema sob aplausos e espanto.

  • Uma amiga

    Esta semana perdi uma amiga, uma daquelas que não passam despercebidas na multidão e por isso nos mostram aspectos da vida que não enxergamos sozinhos. Escrevo sobre ela para aliviar o luto porque, mesmo sabendo que ao longo da vida todos sofremos perdas, nunca estamos preparados para elas, ainda que anunciadas. Às vezes acho que a vida não passa de um jogo de soma zero: quem nos traz mais alegria é também quem nos traz mais tristeza ao partir.

    Multifacetada, ela influenciou muita gente, cada um de maneira diferente. Impressionante a diversidade das pessoas que se manifestaram. Em comum a sensação de que, embora o mundo parecesse agora mais triste, o que o seu convívio ensinou permaneceria intacto. Deixou um legado profissional importante, foi pioneira em algumas áreas – essa parte eu delego aos biógrafos que saberão contar melhor.

    Minha amiga era tudo menos invisível. Exuberante, generosa, comunicativa, espalhava alegria e, ao mesmo tempo era muito fechada e discreta, sabia falar (em sete idiomas) e calar (em sete idiomas). Nela conviviam todas as contradições. Não cabia em nenhuma categoria. Só nela mesma.

    Amava a família acima de tudo. Um tipo inesquecível, como disse o marido. Já se conheciam vagamente quando se encontraram de verdade. Foi uma paixão fulminante como poucas. Paixão e amor desde os primeiros tempos, quando timidamente foram assumindo a relação, até o final quando, ela já doente, ficavam de mão dadas e ela sorria. Tão marcante na vida quanto na morte.

    Pensarei nela toda vez que ouvir uma piada que lhe agradaria. Algum dia vou tirar os brincos dizendo ‘Vocês já viram como meus brincos são bonitos? Então não preciso mais deles’. Quem sabe até coloque gelo na cerveja, algo que a vi fazer mais de uma vez. Pode ser que fique horrível, não importa. Obrigada, amiga.

  • Ah, o charme

    Acho que não me expliquei direito. Não é que eu seja contra a beleza ou a considere efêmera. Mas só acho que ela não é fundamental. Tudo bem, eu sei que esse meu comentário faria o Vinicius de Moraes sair da tumba para puxar meu pé. Mas a vida tem dessas coisas e não expresso minha opinião levianamente.

    Sim, você não disse que eu faço isso, eu sei. Claro, vou esclarecer meu ponto de vista e se bobear você vai concordar comigo. Vamos lá.

    Considere assim, a pessoa é linda. Mas é bom lembrar que ninguém é lindo para sempre, como se sabe. Porque beleza é um aspecto estético relativamente estático. A movimentação da beleza nas pessoas é pequena. Normalmente ela evolui e se adapta com o passar do tempo, mas muito raramente para melhor. Tem uma cena de Henrique V, de Shakespeare, que o rei inglês diz à princesa Catherine de Valois que ela tem sorte de casar com um homem feio como ele. Porque o tempo, que sempre retira a beleza das pessoas, pouco estrago fará em seu aspecto. É engraçado, se pensar bem.

    Mas enfim, deixa voltar ao raciocínio se não eu me perco. A beleza sofre mutações que são reflexo de aspectos ligados a vivência. Coisas como a quantidade de sol que recebemos ou os aborrecimentos em geral e, em especial as frustrações amorosas, só para citar três exemplos que tendem a alterar a beleza. Tem muito mais e você mesma pode enumerar um quilômetro delas. E é bom lembrar que trata-se de uma tendência não uma garantia porque não estou falando de ciência exata.

    Mas o fato é que esses acontecimentos, que podemos chamar assim, deixam suas marcas em nós, refletindo em nosso aspecto externo, seja em nosso comportamento seja em nossa aparência. Em outras palavras, a beleza que recebemos da mãe-natureza, em coordenação com nossa herança genética, passará por alterações lentas ao longo dos anos. É meio óbvia essa idéia, concorda? Afinal ninguém passa incólume pela vida.

    Mais vinho? É francês, gostou?

    Bom, agora vamos examinar o charme.

    Esse aspecto não vem conosco de berço, como a beleza. Não se herda charme. Trata-se de  algo que você desenvolve, cria, adapta a você e ao meio em que está. É fruto de muita dedicação sua a arte de conhecer as pessoas, percebe-las realmente e entende-las. De buscar na observação e no convívio o que você pode fazer para atrair a atenção delas. Positivamente, lógico. Em essência, o charme é capaz de tornar você mais atraente, mais belo até. E ao contrário da beleza, o tempo só faz melhorar o charme. Sim porque charme é movimento, requer prática diária e se beneficia do conhecimento acumulado. Charme é essencialmente dinâmico.

    Qual conhecimento? Ora, minha querida, o que vem das relações humanas, do querer conhecer melhor outras pessoas em geral e aquelas que são nosso objeto do mais puro e legítimo desejo.

    Sim, isso mesmo, charme é a arma de sedução por excelência. Se bem que chamar de arma é uma palavra absurdamente imprópria. Melhor que arma seria ferramenta? Não, muito pesado. Talvez, deixa ver, habilidade social ou artística ou quem sabe sócio-artística, que tal?

    Gostou né, pois é, charme é habilidade sócio-artistica. Sócio porque está ligado ao convívio social, sem ele não há razão para ser charmoso. E artístico porque é a mais bem-acabada dança de acasalamento que alguém pode fazer.

    Mas claro que derramar charme é exibir-se. Por que não? Isso faz parte do pacote básico que a mãe-natureza nos dotou. Garante desde a perpetuação da espécie até momentos agradáveis e deliciosos. Por vezes, sem exagero, inesquecíveis e que uma vez rememorados sempre nos trazem aquele sorriso saudoso. Ser charmoso ajuda quando a causa é nobre.

    Perceber que há charme no ar é fácil mas precisa estar atento. Porque tem dias que a gente está tão distraído – ou compenetrado ou tão para baixo – que se um elefante fizer um grand jeté na nossa frente é capaz de passar despercebido. Juro, sei como é por experiência própria.

    Mas se você está de olhos bem abertos aí é tranquilo. Se precisasse resumir eu diria que no caso masculino, o charme é a exibição de testosterona do bem, feita na quantidade certa, sem quebrar a cristaleira mas deixando claro que o sujeito está ali pronto e tem muitas coisas interessantes a dizer. Elas normalmente percebem os passos dessa dança com os olhos e com os ouvidos. Bem escolhidas as palavras e o timbre de voz, não há como não prender a atenção dela.

    No caso feminino, o charme é o encantamento diáfano que é atirado ao ar por ela, misturando suas essências e hormônios em um vapor translúcido irresistível. Esse bruxedo é percebido pelo olfato e o olhar. Porque é em silêncio que a mulher é mais charmosa.

    E você me percebeu como?

    Ah minha querida, de todas as maneiras e mais algumas…

  • Embriagada

    Em uma segunda-feira caótica, me deparei com um cenário incomum: estava eu, no balcão de um bar, pedindo uma taça de vinho. Reparei que, ao meu lado, estava um homem. Aparentava ter a minha idade, tinha o rosto ingênuo e bebia um drink.

    O início da conversa foi inevitável. Meu dia tinha sido tão difícil que conversar sobre qualquer banalidade era melhor do que nada. Depois de algumas taças, a conversa não queria ser terminada, e aquele homem, que agora já tomava forma, era estranhamente familiar.

    Eu deveria enxergá-lo como ele era: um homem que não queria ficar. Mas eu só conseguia enxergar a troca de confidências, o estranho conforto em ser entendida e examinada com o zelo de alguém que vê algo pela primeira vez. Trocamos telefones e eu fui embora.

    Os dias passavam, e nossas conversas não acabavam… não havia qualquer barreira, já éramos íntimos. Ele me chamou pra sair, e aquele (re)encontro foi a confirmação de que éramos duas diferenças que agora pareciam uma só coisa. Várias taças de vinho foram tomadas enquanto eu apreciava tudo o que sentia.

    Estava claro que havia algo ali, junto com todo o meu saber do que ele era — e do que se permitia ser. O caminho da saída era o mais conhecido e prudente, mas esperei. Pedi outra taça. E outra. E mais uma.

    Meu medo crescia, mas tudo o que eu queria fazer era pedir outra taça. Eu olhava para ele e queria continuar olhando. Eu sentia aquilo tudo que antecede o maior sentimento do mundo.

    Por isso, mergulhei no mundo dele enquanto ele mergulhava no meu, sem saber ao certo o que aquilo seria, mas era inegável que já era algo grandioso só por existir.

    Ele era a definição da embriaguez.

  • Sorôco, sua Mãe, sua Filha

    Nossa responsabilidade social e familiar, se mostra exigente sempre que respiramos, porque muitos aguardam a presença amorosa e atenciosa, junto a seus lamentos e fraquezas mundanas. Esse pensamento tão próprio de um significado profundo de amor a vida, é também voltado àquele que amamos, e que está bem ao nosso lado, e se enche de força e afeto quando o abraço afaga sua alma carente.

    Foi esse o espírito que motivou o comandante Górgidas, em 379 a.C., ao selecionar 150 casais homossexuais masculinos, para criar o batalhão sagrado de elite do exército de tebas. Essa ideia de unir forças, surgiu da percepção do quanto os homens poderiam lutar bem mais, estando ao lado de quem amam, o qual protegerá com todas suas forças, superando qualquer inimigo, que conta somente com uma espada pra andar de mãos dadas. Segundo o filósofo grego Plutarco, no livro A Vida de Pelópidas, “um grupo cimentado pela amizade baseada no amor, é inquebrável e invencível, já que os amantes, envergonhados de serem fracos à vista de seus amados, e os amados diante de seus amantes, de bom grado se arriscam para o alívio um do outro”. É o exercício do amor. A homenagem eterna a esses guerreiros está no antigo Tumulus junto ao monumento do Leão de Queroneia, onde os ossos de todos eles, mortos em batalha, estão enterrados lado a lado.

    Guimarães Rosa abordou no conto “Sorôco, sua Mãe, sua Filha”, a questão existencial e social da compaixão, e do papel central de cuidador de seus dependentes doentes mentais. Como não possuímos a eternidade em vida, o exercício do amor e da empatia é o que melhor deixaremos como brilho de nossa existência. Conforme o curso da doença os pacientes não voltarão ao seio familiar, nunca mais, e nesse triste caminho, resta a lembrança do que pode ser realizado até o abandono do abraço.

    Nosso avatar ou clone não estão disponíveis ainda, ao menos nesse plano espiritual que navegamos, mas se você tiver a chance de ultrapassar para outras possibilidades de vidas, não pense que o amor será carta fora daquele novo baralho, provavelmente você terá que desenvolver sua emoção virtual ou plástica, mas não fugirá de praticar o exercício do toque e do abraço humano.

    A fuga das relações entre os indivíduos, leva você a um mal estar em relação a vida. Sua ausência de objetivos e motivações, o tornam irracional, e você passa ser conturbado por diferentes forças que invadem sua face, e se vê imerso em uma triste guerra interna. Não se deixe levar pela falta de sentido nas trocas interpessoais, ou correrá o risco de sentir uma “Náusea” ao caminhar, como escreveu Jean Paul Sartre no romance que leva esse nome. Em forma de um diário do personagem Antoine Roquetin, relatou uma vida com total falta de sentido. Muitas artes sempre seguem a um fim, a medicina tem como finalidade a saúde, o direito objetiva a justiça, e o livro existe pra ensinar. E Você, já encontrou a sua finalidade nesse universo de pequenos atos de empatia?

  • Seu Gentil e sua necessária esperança

    Seu Gentil é um sujeito deveras singular. Desses que a gente admira e, ao mesmo tempo, desaprova. Persistente para alguns; teimoso para outros. Positivo para uns; lunático para tantos. Mas, para todos aqueles que o conhecem razoavelmente bem, uma figura que não passa despercebidamente.

    Dentre as suas características mais peculiares, o seu redentor otimismo é a que mais incomoda. Chamo sua positividade de “redentora”, pois ela transmite algo verdadeiramente libertador. Não é aquele simples otimismo do torcedor de futebol que acredita na reação de seu time até o apito final. Não é a paixão totalmente desprovida da razão. É algo muito mais profundo e que retrata sua essência como ser humano. E essa característica é, de fato, incômoda porque nem todo mundo parece estar em condições de tê-la. Não raro, semeamos inveja e desprezo somente por nossas incapacidades pessoais.

    O otimismo de seu Gentil tampouco tem a ver com aquela famigerada Síndrome de Poliana. Você se lembra dela? Aquela menina da literatura infantojuvenil que queria ganhar uma boneca, mas recebeu apenas um par de muletas. Em vez de ficar chateada com o presente recebido, sentiu-se feliz justamente por não precisar dele. Pois é… Eu não vejo em nosso simpático amigo essa desoladora e irritante ingenuidade. O que mais me chama a atenção nele é, sobretudo, sua genuína esperança na humanidade.

    A gente abre os jornais e só lê notícias desanimadoras. Aliás, hoje em dia, não se abre mais nenhum jornal. Salvo alguns dinossauros analógicos, abrimos, no máximo, o site de algum portal de notícias. Mas as informações são quase sempre aterradoras: guerra não sei onde, roubo de não sei o quê, tragédia com não sei quem. É inundação; é queimada; é avalanche; é acidente aéreo, mas também rodoviário; é trapaça aqui e acolá. Eu me pergunto: de que material nosso otimismo deve ser feito para aguentar tantas pancadas?

    — O senhor ainda acredita que um dia teremos um mundo mais justo para todos? — pergunto, despretensiosamente, àquele que viu e viveu de tudo um pouco.

    — Mas é claro que sim, meu filho! É preciso acreditar e seguir lutando pelos nossos ideais! — responde-me quem costuma dar lições de vida gratuitas, mesmo não tendo a pretensão de ensinar ninguém.

    Como um grafeno, seu Gentil resiste a toda a sorte de golpes. Dos mais baixos aos mais debilitantes, dos mais inofensivos aos mais violentos. Se a estrutura atômica do grafeno lembra um favo de mel, a personalidade de seu Gentil lembra tanto a doçura de uma criança como o equilíbrio de um mestre ancião. Porém, diferentemente do mais duro dos materiais, sua natureza não conduz eletricidade, mas sim esperança. Uma saudável e necessária esperança.

    Em tempos de tantos dissabores, quando até o mais utópico dos idealistas pode hesitar em suas mais profundas convicções, pessoas como seu Gentil costumam destacar-se pelo seu inquebrantável estado de espírito. Como uma espécie de farol, elas nos orientam em nossas distintas trajetórias e sinalizam os perigos vindouros. De alguma forma, aprendi que um dos piores riscos com os quais podemos nos deparar é a falta de esperança. Uma cilada como essa pode muito bem nos enredar mortalmente e borrar nossa aptidão para um bom discernimento.

    Se existe um antídoto contra essa armadilha, seu Gentil nunca me falou. Mas o que sua vida demonstra é quão libertadora pode ser a resistência. Cada um a sua maneira, na alucinante engrenagem da vida, lutando por algo maior e acreditando em dias melhores. Aparentemente tão simples quanto realmente complexo. Pois talvez seja esse o ingrediente que confere um verdadeiro e nobilitante sentido as nossas vidas.

  • Uma canção no fim da tarde

    Sou dos que ouvem mil vezes a mesma música. E quando engato uma reflexão, impressão ou divagação boba, ouço-a ainda mais para seguir conduzido pela melodia, pelo ritmo, pela letra ou por qualquer outra coisa que mantenha essa sintonia aberta, como se a própria logicidade dos meus pensamentos dependesse única e exclusivamente dela. Fruição estética, transe ou loucura, o nome não importa. A música, sim.

    Há nem trinta anos, eu sabia de cor a programação completa da Rádio Atlântida. De domingo a domingo, todos os horários, programas, apresentadores, intervalos e até os jingles das propagandas. Estou certo de que centenas, talvez milhares, de outros adolescentes também sabiam. Naquela época, além de acompanhar a rádio, a gente comprava CDs, copiava CDs, emprestava CDs e decorava as músicas tão fortemente que eu poderia recitar muitas delas com detalhes agora, lembrando inclusive das versões cortadas para o rádio, das versões ampliadas para os shows e das acústicas.

    Sendo sincero, a gente não tinha muito como firmar nem garantir aquela experiência. Hoje, falar em experiência ao ouvir uma música parece nostalgia besta. Mas é o que tínhamos. Se gostássemos de alguma canção, ou comprávamos o CD, ou conseguíamos uma cópia e a regravávamos, ou ouvíamos no rádio, vez ou outra, contando com a sorte de encontrá-la na programação.

    De fato, era um negócio intenso. A música pulsava, arrepiava e surpreendia. Lembro exatamente da primeira vez que ouvi Bitter Sweet Symphony, do The Verve. Foi na formatura do meu primo, num agosto gelado do fim do século. Eu estava a poucos metros das caixas de som quando aquela música apareceu, inundou o salão e fisgou sem dó os meus sentidos todos por quatro ou cinco minutos. Por acaso ou não, é a minha única lembrança da festa. Só descobri o nome da música e da própria banda meses depois, quando já havia desistido de procurá-la.

    Tenho a impressão de que não conseguir as coisas tão facilmente era algo extraordinário. Impressão tardia, claro, é sempre assim. Acho que fomos enganados com aquele papo de que a tecnologia facilitaria a vida, de que a internet, por meio das infinitas conexões e blábláblá, nos daria mais tempo para ficar com a família e fazer o que gostamos. Na real, o que ocorre é o contrário. Somos escravos dos celulares até nos momentos mais pujantes. Veja: há inúmeros shows das nossas bandas preferidas no YouTube, com captação perfeita de som e vídeo, num trabalho profissional para ninguém botar defeito. Mas quando vamos a qualquer show, grande parte das pessoas filma tudo, no meio do público, mesmo suadas, espremidas e de braços erguidos. Com o desodorante em dia, espero. No geral, elas sabem que estão perdendo tempo ao registrar uma quase experiência. Sabem também que o vídeo ficará trêmulo, com o som estourado, e que o arquivo mofará em alguma pasta esquecida nos seus computadores. Mesmo assim, não deixam de gravar. Numa situação dessas, só consigo pensar que a pessoa estava, mas não estava lá. Aliás, ao gravar produziu provas de que estava; mas, de fato, não estava, entende? Confuso esse negócio de estar e não estar, né?

    Ou não. Na verdade, todo mundo sabe o que é estar e não estar em algum lugar. Lembra daquelas aulas de química que você ficava contando os minutos para acabar? Pois é. Eu mesmo era mestre nisso. Meio avoado, meio perdido, reprovei com méritos duas vezes no segundo ano do Ensino Médio. Veja só. Mas a questão não é exatamente sobre a minha gloriosa trajetória acadêmica. O problema é que a nossa vida virou um completo estar e não estar. E isso não se relaciona com a disposição para uma reflexão ou outra.

    Acho que parte das pessoas perdeu a capacidade de viver a vida, de ter experiências das mais diversas, de se distrair, de curtir uma música, de se encantar com uma paisagem, com uma pintura ou com uma fotografia. Até num ambiente preparado para uma experiência imersiva, como o cinema, há quem fique no celular. No fim das contas, a gente parece sempre atento a outra coisa, como se nossa vida dependesse de uma resposta rápida, mesmo sabendo que nada daquilo é urgente e que, do outro lado, há alguém que pouco se importa com as nossas questões. Pois é, a tecnologia acelerou as coisas, conectou as pessoas, mas também pasteurizou a realidade. Talvez o ponto seja justamente a realidade.

    Talvez a gente sinta falta de conexão real, de vida real, de coisas analógicas e palpáveis. Talvez essa nostalgia morna só ateste que estamos demorando a perceber que tudo o que temos está aqui e agora. E que quando a noite finalmente cair, quando soarem os últimos acordes, já não haverá mais tempo. E aí? Bebéu, já era, tchau, acabou…

  • Nossa Senhora!

    Take second best / Put me to the test / Things on your chest / You need to confess / I will deliver / You know. I’m a forgiver – “Personal Jesus”, Depeche Mode (versão de Johnny Cash)

    Releio crônicas do autor Ivan Ângelo. Percebo o cronista da primeira metade do século, cuja prosa parece sair de uma conversa natural e observativa sobre os hábitos peculiares do brasileiro. O primeiro texto da coletânea da Global Editora é sobre a controvérsia dentre os moradores de um prédio acerca da vizinha nova, que teria sido capa de uma revista voltada ao público adulto. Apesar de ser uma mulher discreta e gentil, as pessoas entram em frenesi em nome da moral e dos costumes. Não é uma característica estritamente brasileira, mas a cruzada conservadora resiste firme nessas terras no século XXI. Outra reflexão minha é que os autores de sua época precisavam ver o mundo lá fora para buscar seus temas. Isso mudou bastante. Agora, basta um pequeno gesto de dedo na tela de um aparelho para encontrar o assunto que está na boca do povo. Daí, apareceu para mim outra mulher que, ao contrário da suspeita desinibida, é uma santa. Literalmente. A mulher que todos comentam e que exigem uma atitude a respeito da vez é Nossa Senhora Aparecida.

    Escolhida como padroeira do Brasil, ela pode ter repensado se isso foi uma boa ideia. Nos últimos dias, as redes sociais se dividiram entre sua defesa como um símbolo de esperança e sua condenação como uma emissária das trevas. A fábrica da internet, como num sonho febril fordista, produziu conteúdo com velocidade quase impossível de acompanhar. Ainda assim, alguém deve ter consumido o suficiente a ponto de protocolar perante um tribunal (real, não virtual) sua proibição e conseguir. Como o show não pode acabar, pouco antes de me sentar para escrever esse texto, num domingo, essa decisão havia sido revertida por outro juiz. Sabe o vídeo do Porchat (não o de denúncias, o outro em que ele interpreta um jornalista exausto de tantas novidades)? Até esse texto ir ao ar, que é numa terça-feira, estou tão convicto de que haverá mais desenvolvimentos que dispensei o powerpoint (piada antiga, mas ainda válida). Diante de tanto estímulo de informações, resta-me uma interjeição de espanto ou admiração popular entre os brasileiros: “Nossa Senhora!…”

    Se dizem que Deus é brasileiro, concordo que uma atribuição similar pode ser posta para Nossa Senhora da Imaculada Conceição, ou “Aparecida” para os íntimos. Sua associação com o povo brasileiro remete ao começo do século XVIII e mantém-se em voga desde então. Da fé e dos milagres aos chutes e xingamentos, a santa, fazendo jus ao nome, aparece com frequência quando pensamos em uma figura sacra, seguida por outros favoritos, como São Jorge ou Santo Expedito. Além do catolicismo, sua imagem representa um orixá, Oxum, que, como em sua forma original, define fertilidade e acolhimento. Também há uma canção muito conhecida dedicada a ela, e se você cresceu nos anos 90, como eu, com certeza já a ouviu num especial de natal televisivo. E atua com um nome diferente, porém similar, Compadecida, numa peça adaptada inúmeras vezes para palco, televisão e cinema, todas com sucesso. Aparecida é a padroeira do Brasil, e os brasileiros fazem questão de lembrar disso, seja numa maneira boa ou ruim. Se o papa é pop, assim é a Virgem Maria. Ela está entranhada na cerne da identidade brasileira. Logo, qualquer proposta de extirpá-la ou diminuí-la causaria um ruído alto e inevitável.

    ]O barulho foi tamanho que trouxe do oceano da memória uma entidade adormecida. No caso, a aliança entre membros da sociedade civil e religiosa num campo progressista. Chega a ser engraçado ter ateus e católicos num diálogo em comum para o respeito das diferenças e crenças, enquanto outro lado determina a imposição de sua perspectiva. Setores de um lado com histórico conservador defendendo liberdade democrática e soberania do país. Acho que isso não ocorria com tamanho peso político desde os anos 70. O outro agindo com a disposição retrógrada que foi o fator original que provocou a ruptura dentro do cristianismo, como a intolerância ao convívio entre linhas de pensamento diferentes à defesa aos jogos de azar (afinal, a venda de indulgências na Idade Média não seria uma espécie de aposta?). Seria o mistério da fé? O Brasil não é para amadores, mas especialistas em Teoria do Caos. Os criadores de memes não podem reclamar. Por isso, Nossa Senhora Aparecida assumiu a função de Padroeira da nação. Na maioria das vezes, é preciso uma mãe para pôr ordem na casa.

    NOTA: Circula nas redes sociais a informação de que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A informação é falsa. A confusão pode estar relacionada a um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victorio Galli, que propunha alterar a denominação de Nossa Senhora Aparecida. O projeto foi arquivado em 2008. A campanha de Flávio atribui a disseminação do boato a adversários políticos, mas essa afirmação deve ser tratada como alegação da própria campanha, não como fato comprovado. Até o momento, não há evidência de que essa mudança faça parte do programa de governo do candidato.

  • O cupins

    Não existe cupim no singular, ou não deveria existir. Como o lápis, o vírus, o correto seria o cupins. Quem discorda deve provar que já viu algum dia um cupim sozinho. Não existe cupim sozinho, ao contrário, eles vivem às dezenas, centenas, milhares. Formam um exército – ou por outra, o cupim é esse exército – monolítico, uno, poderosíssimo e destrutivo como o de Átila, o rei dos também hunos, que por onde passava não deixava cupim, ou melhor, não deixava capim. Cupim não sei se ele deixava.

    Num episódio, a Pantera Cor-de-Rosa luta com um cupim. Um só. Primeiro ele rói os pés de uma cadeira,de uma mesa, um abajur, o teto, o piso. Por fim, ele destrói a casa toda. Um só! Isso no desenho, na realidade, pra roer uma casa inteira eles precisam desse exército, tipo um por todos, todos somos um. E conseguem, mesmo não sendo desenho, mas sendo esse inseto desgraçado, morfético e virulento.

    Em francês chama-se termite; em inglês, termita. Alnaml, em árabe, uipoka, em bengalês, bályi, em chinês; shiroar, em japonês. Quer dizer, tem, como se era de desesperar, cupim no mundo inteiro. E encontramos, pois pesquisamos, akhala, em aramaico! O que nos permite supor que tem cupim até no Paraíso Celeste, onde mora Deus, uma vez que aramaico é a sua, de Deus, língua.

    Tem mais cupim no mundo que gente na China e na Índia juntos – e que estrelas no céu, e que gelo no polo norte, e que puxa-saco em Brasília. Puxa-sacos, não cupins – tantos são os caras-de-pau na cidade que é improvável que cupim lá se crie. Ah, cupincha sim, esse é um outro gentílico.

    E não engordam – os cupins, não os cupinchas. Ao mesmo tempo que roem, desroem. O que você pensa que é pó de madeira, não é, é cocô, cocô de cupim. Um cientista esperto estudaria essa peculiaridade pra tirar dela a fórmula definitiva pra emagrecer pessoas, sem precisar de ozempic.

    Decididamente os cupins, como as baratas, herdarão a Terra. Os métodos de dedetização são falíveis e caros: cobram-se $2 mil paus pra descupinizar um cômodo de 3 m²! Então a gente aprende que são vários os tipos de cupim: o de madeira, o de solo e o de bolso.

    Uma coisa aliada à outra – a voracidade, o pantagruelismo dessa praga e o preço escorchante da dedetização -, os cupins liquidarão o planeta antes mesmo que o homem. Ou seja, o cupim é um tipo de capitalista selvagem, assim como vice-versa.

     São silenciosos, são traiçoeiros – os cupins e os capitalistas – como nicotina no pulmão, álcool no fígado, conspiradores no Planalto. Agem pelas costas – quando se menos espera, o exército, o de cupins, nhóc!, já comeu sua casa.

    E sua casa é seu lar, seu patrimônio, e não um desenho animado. Portanto, cuidado com o cupins, cuidado com o termita, cuidado com o uipoka, etc.

    Cuidado especialmente com o akhala – esse, nem Deus ele respeita.

  • Cinderela

    — O que você achou?

    — Lindo! Nunca tinha visto igual.

    — Sério?

    — Sério!

    — Por quê?

    — Não sei… A transparência, talvez.

    — Você nunca teve um assim?!

    — Claro que não! Eles são raros.

    — Raros…

    — Raros!

    — Sei que existem diferentes, mas não pensei que fossem raros.

    — Pois são.

    — Você só gostou da transparência?

    — Não. Tem esse brilho intenso, ofuscante… Raro.

    — Ah! O brilho também é raro?

    — É. Muito!

    — Começo a achar que são os seus olhos…

    — É maravilhoso!

    — De verdade?

    — De verdade.

    — É seu. É para você.

    — Nossa!

    — Ficou emocionada?

    — Surpresa.

    — Não entendi por quê.

    — É muito… Muito…

    — Não! É perfeito. Sob medida.

    — Você acha?

    — Só existe por você… É seu.

    — Mas… é tão lindo!

    — Tanto quanto você.

    — Eu não mereço.

    — E precisa?

    — Não?!

    — Ele só existe, só é valioso, só é transparente, porque é seu.

    — Aiiii…

    — Porque você é o encaixe perfeito.

    — Meu coração…

    — Posso colocar?

    — Pode.

    — Vamos?

    — Aonde?

    — Ao baile.

    — Que baile? Tá maluco?

    — Você não está ouvindo?

    — Ouvindo o quê?

    — A carruagem! Olha!

    — Você é maluco!

    — Seja também!

    — Onde vai ser o baile?

    — Onde quisermos. Onde estivermos.

    — O que vestirei?

    — Vestiremos o amor e estaremos livres.

    — Livres.

    — Sim. Vestidos do amor mais perfeito e valioso, que só nós podemos ver.

    — Livres e descalços.

    — Sob chuva ou sol.

    — Sem proteção.

    — Meu amor te protege e o seu me orienta.

    — Feito por você. Feito para você.

    — Feito por você. Feito para você.

    — Sem sapatinhos de cristal.

  • Quando o algoritmo falha

    Dizem que, com duas ou três perguntas certas, dá para entender quase qualquer pessoa.  

    E se bastasse uma?

    Numa conversa dessas que começam em qualquer assunto e terminam em nenhum, alguém lançou a pergunta:

    — Você é mais gato ou cachorro?

    A mesa se dividiu rápido. Teve quem respondeu sem pensar, quase ofendido com a dúvida. Teve quem hesitou, como se estivesse prestes a revelar um traço de caráter.

    Achei curioso.

    Porque, no fundo, ninguém ali falou de bicho nenhum.

    Os “cachorros” eram fáceis de reconhecer. Chegam perto. Encostam. Confiam antes mesmo de saber. São de riso aberto, de presença inteira, de lealdade quase automática — dessas que às vezes atropelam o próprio bom senso.

    Os “gatos” não. Esses medem a distância. Observam antes de se oferecer. Têm um certo gosto pelo silêncio, pela independência, pelo território próprio. Aproximam-se quando querem — e isso, curiosamente, faz com que a aproximação valha mais.

    Não precisou de teste, nem de algoritmo, nem de análise profunda. Bastava a pergunta.

    Simples assim.

    Ou quase.

    Porque, no meio da mesa, alguém — talvez mais honesto que o resto — disse:

    — Eu acho que sou os dois.

    E aí complicou.

    Fiquei lembrando de CatDog, aquele desenho antigo: um corpo só, duas naturezas incompatíveis tentando coexistir. Um puxando pra um lado, o outro pro oposto. Um querendo festa, o outro querendo silêncio.

    Talvez seja isso.

    No fim das contas, a gente não escolhe entre gato e cachorro.

    A gente negocia.

    Todos os dias.

    Entre o impulso de chegar abanando a vida e a vontade de desaparecer sem darexplicação.

  • Crônica de fim de tarde de uma Segunda, Terça ou Quarta-feira

    A esperança é uma droga alucinógena. Tal frase causou impacto repentino, travando o movimento corriqueiro do dedo sobre a tela brilhante. “Era isso, muito provavelmente”. Não tinha experiência anterior com drogas, não sabia que a esperança poderia ser vista assim: alucinógena. E era. Era o que ela pressupunha a partir do que sentia: esperava ventos na direção oposta, um misto de fé na natureza e também nas cartas do tarô da esposa do seu Ercílio — “com E mesmo”.

    Segunda, terça e quarta, por serem os dias menos movimentados do restaurante, Ananina fechava as portas do térreo e subia a escada caracol dos fundos, religiosamente, às 17h45 da tarde. Às 17h50 já tinha percorrido o corredor de longos metros lineares, sem elevador e cuja escada de emergência situava-se na outra extremidade, subido três lances para então aguardar, com mais três pessoas, a abertura da porta do 408.

    Hoje, terça-feira dentro do corrido e chuvoso mês de setembro, Ananina esperava a sua leitura do tarô. Hora marcada, mas entrada por ordem de chegada. Era a primeira da fila. Seu Ercílio apareceu no corredor. “Olá, Ana-Aninha; Olá, Olaviano. Olá para você também, mocinha, bem-vinda. Sou o Ercílio. Entrem”. “Ercílio se escreve com H ou E, senhor?”, perguntou a novata na arte de aguardar as leituras de início da semana.

    Seu Ercílio, “com E mesmo, moça”, trazia sua bandeja de prata costumeira, com chá de hibisco, café, três copos descartáveis de baixa estatura e uma cestinha com pães de nata. “Nata, porque um T é melhor do que um D e as leituras anunciam tudo, basta que nos concentremos no aqui e no agora. Coma um pãozinho, se assente aqui.”

    Os três entraram na saleta improvisada, que funcionava como um terminal rodoviário em escala mínima. Pelas duas seteiras, estreitas como estrias verticais arreganhadas na parede, via-se o amontoado de pombos no meio da praça, em frente à igrejinha. Havia cheiro de cigarro no ar – ou cachimbo. Um ruído constante saía do radinho à pilha: pareciam os alardes de um alto-falante anunciando as próximas saídas de veículos-viajeiros, com a mesma solenidadede quem canta os números de um bingo. Ananina foi chamada com o olhar de seu Ercílio. Levantou-se da cadeira estofada com palha e deu cerca de dez passos à frente. Afastou a cortina vermelha de veludo, logo à direita. A luz era arroxeada.

    De costas, a mulher de seu Ercílio parecia um duende de Papai Noel que ficara roxo de raiva. “Pode sentar.” Ananina obedeceu e sentou-se. A mulher não; continuou de costas por alguns segundos, remexendo qualquer coisa numa prateleira. Ananina aproveitou para olhar a sala. Havia uma imagem de Nossa Senhora, um elefante de louça com a tromba para cima, uma samambaia que já aceitara a morte sem comunicá-la oficialmente à família. Abaixo deste ente moribundo, sete cristais de procedência duvidosa.

    Sobre a mesa, um pano preto salpicado de luas douradas — “ou restos do almoço, o que também seria uma espécie de constelação”, pensou Ananina. Ia continuar olhando, porque às vezes olhar é só uma forma educada de não saber o que fazer, quando o escuro diante dela se moveu. A mulher se virou. Por um instante mínimo, a luz negra voltou a caber na sala. Não
    era um duende.

    Era pior: era uma pessoa comum.

    “Corta com a mão esquerda.” Ananina cortou. “Agora com a mão direita… não… tenta a sua outra mão esquerda, então…” Ananina sempre tinha suas dúvidas sobre qual mão era uma direção ou outra. Precisava fingir que escrevia algo no ar para ter certeza da mão esquerda, era canhota.
    “Agora pensa.” Pensou.

    “Não precisa pensar tanto.” Ananina piscou, mudando o olhar do baralho para os olhos de Helena.

    A mulher virou uma carta. Depois outra. Depois uma terceira, que olhou por tempo suficiente para que Ananina começasse a desconfiar que talvez tivesse saído ali alguma coisa envolvendo morte, casamento ou imposto atrasado. “Tem distância.” Ananina olhou para a carta.
    “Distância?”
    “Tem.

    Helena virou mais uma.
    “E notícia.”
    Outra.
    “E uma pessoa.”
    Ananina quase perguntou se a pessoa tinha CPF, porque ajudaria bastante. Quase; não perguntou.
    A mulher continuou:
    “É alguém que permanece. Mas não está exatamente perto.”

    Era curioso como o tarô tinha adquirido, em menos de trinta segundos, a precisão geográfica de um aplicativo de mapas com sinal ruim. Ananina olhou para as cartas abertas. Distância tem nove letras e um chapéu, que pode ser de despedida, velório ou em prol da moda. Distância não parece, com toda a sua pompa, circunstância e tamanho encorpado, mas é pobre.

    Pobre de espírito.
    “Pobre de quem dela depende. !”,
    pensou. E no fluxo da reflexão, complementou:
    “Não sei se prefiro estar à distância de um vídeo ou à distância de uma carta.”
    Helena-duende-de-raiva ergueu os olhos.
    Ananina percebeu que tinha dito em voz alta.
    “Como?”
    “Nada.”
    Mas não era nada.

    A carta, ao menos, não tem olhos. Não olha de volta e pode-se tocá-la sem que esta recue. Dobrá-la. Guardá-la entre páginas. Levá-la para a cama sem pedir licença. Esquecê-la numa gaveta por seis anos e reencontrá-la numa terça- feira entre um carnê da loja de sapatos vencido e uma fotografia que pára o próprio tempo. Pode- se cheirá-la. Cartas têm cheiro. Até quando não têm, têm. Há nelas a certeza de uma mão ter estado ali antes da nossa. Uma mão real. Com unha, veias, pele, talvez suor. Uma mão que escreveu, gozou, limpou-se de forma higiênica – ou não – e depois fechou o envelope. Talvez com saliva. A carta sabe ir embora.

    Já o vídeo, não.
    O vídeo fica: Há boca. Há olhos. Há a possibilidade da transmissão ao vivo, com lapsos de segundo que balançam em função de quantos "Gs" temos à disposição. Vídeos meandram entre aquela pequena inclinação da cabeça quando alguém escuta, os dentes, o cabelo fora do lugar. Há uma pessoa inteira acontecendo a cinquenta centímetros do rosto e a quinhentos, cinco mil ou dez mil quilômetros do corpo. Isso deveria ser proibido.

    Ou tributado.
    Ananina imaginou uma repartição pública responsável por distâncias afetivas.

    “Boa tarde. Vim renovar minha saudade.”
    “Trouxe comprovante de residência?”
    “Não. Só a roupa do corpo… e o celular, serve?”
    “Bom… então a senhora vai precisar sofrer mais trinta dias e retornar com original e cópia.”

    O vídeo era isso: pura burocracia do desejo.
    Mostrava tudo o que faltava: a testa em que se queria encostar a própria testa; a boca que se queria beijar; o ombro onde caberia perfeitamente uma cabeça… Uma pessoa inteira comprimida numa tela pequena demais para abraçar alguém. A carta era mais feliz porque mentia melhor. A imagem saltitante era cruel porque provava que existia aquilo que faltava.
    Helena virou outra carta.

    “Tem espera.”
    Ananina riu. Riu não porque fosse engraçado, também não porque não fosse. “Quanto tempo?”
    A mulher juntou os lábios. Esse era, concluiu Ananina, o momento exato em que todos os oráculos do mundo se tornavam funcionários públicos:

    “Tempo é difícil de precisar.”
    Claro.
    A esperança, ao contrário, era pontual.
    Chegava cedo.
    Sentava na primeira cadeira.
    Comia dois pães de nata de uma só bocada.
    E, sentada na saleta, cheia de farelos de glúten, aguardava a sua vez.

  • Quando usou a inteligência artificial

    Tudo começou com uma consulta simples. Pediu uma informação banal! Um nome.

    Depois, uma pesquisa sobre um país, sua bandeira, seus habitantes…

    E assim foram outras pesquisas: comida, roupas, música…

    Pedia informações sobre quase tudo. Não tinha mais o trabalho de pensar! Pensar? Dá muito trabalho! Pra que pensar?

    E assim pedia, para todas as atividades do seu dia, uma ideia, uma orientação, uma resposta!

    Vai chover hoje? Que roupa combina com esse evento assim?

    Quem eu sou? O que eu sou? Humano? Coisa?

    Até que, numa manhã qualquer, não sabia mais o próprio nome,

    Não sabia do que gostava e do que não gostava. Não tinha qualquer pensamento sobre si mesmo!

    Olhou para aquele rosto no espelho e não reconheceu traço algum do que via. Afinal, o que era?

  • “Coisa teimosa”

    O falo é uma coisa teimosa! Esse valente que desaba de um desfiladeiro de significados, exigindo da sua plateia coro, palmas e repetição. Com um sorriso maroto no canto de lábios cascudos, como um menino perverso que tem pavor da castração, arranca o véu na sua cena infantil.

    O falo é uma coisa teimosa! Na sua lógica de ter ou não ter, expõe a sua fragilidade. Na demanda desenfreada de amor, exibe envergonhado, o excesso de desamparo. Com pavor do desconhecido, assume um compromisso com seus sintomas, mesmo pagando um preço caro.

    Capturado pelo sucesso, desconhece as entrelinhas pelas quais é encurralado no seu fiasco. Teimoso, repete mais uma vez. Prefere o embaraço a fazer o novo. Faz de novo. Será que é o tal do prazer masoquista ou do fulano sádico que extrai do gatilho um gozo? Um não vive sem o outro.

    “Cara ou coroa”? Vacilantes, somos presas fáceis. Incertos, como os dois lados da mesma moeda. Indefesos, fantasiamos um falo destemido para chamar de seu, carregado de condecorações: força, coragem, bravura, poder.

    Coisa teimosa! Não falha nem fracassa. Não escapa nem derrapa. Àquele que na fantasia, lhe protegerá contra todo o mal. Iludidos, pegamos o barco. Em mar aberto, navegamos na tempestade, perseguimos os engodos, e somos enfim fisgados,
    entorpecidos pelo canto da sereia.

    O falo é uma coisa teimosa! Ele é garboso. Sopra aos ventos. Cochicha ao pé do ouvido um sonho de consumo — Podemos ser completos! Sussurra tão perto, que sentimos seu bafo quente e fétido, de quem atiça o fogo.

    São 10:20 h, logo cruzarei a Ponte Rio- Niterói. O marcador de combustível no painel do carro indica que estou na reserva. Avisto ao longe um imenso boneco biruta inflável se movimentando com o vento gerado por um motor. Ufa!!! Expiro aliviado. Ali tem
    um posto, onde encherei meu tanque quase vazio.

    E lá estava o menino maroto saindo de fininho do lado do boneco titânico do posto. Seu sorriso de canto de boca, não deixou dúvidas. Com um simples furinho de agulha, tombou murcho no asfalto o gigante.

    Aliviado, agora com o tanque cheio, chego ao Rio pontualmente ao encontro marcado pelo iLoveyou.

    Oxalá hoje eu não fracasse no meu destino de povoar o mundo.

  • HAPPY END

    Filmes com finais felizes, além de nos inundar a alma com uma sensação boa, fazem-nos acreditar que existe uma lógica subjacente à ordem das coisas, na qual a bondade sempre prevalece e os ruins serão punidos. Tais enredos, salpicados de tragédias transitórias, sofrem invariavelmente reviravoltas, até que o glorioso desfecho traga paz a nosso coração. Depois de duas horas de angústia cinematográfica, o alívio compensa a amargura. Podemos, então, dormir o sono dos justos e dos vingados, acreditando que a marcha do destino obedeça a essa lógica regeneradora.

    No entanto, quando nos voltamos para a realidade cruel que nos cerca, constatamos que o roteiro da vida foi escrito por alguém com pouco senso de humor e as coisas não caminham para a catarse desejada. Quem tripudia sobre os outros é que alcança o triunfo; quem explora os necessitados é que usufrui da opulência.

    E o justo? Qual o papel desse escultor ingênuo da utopia que se esmera em moldar o ser humano? Acumula decepções, esperando em vão que o destino dê uma guinada e faça com que a lógica hollywoodiana possa enfim vingar. Até que uma dúvida advém: e se o canalha com sua falta de escrúpulos, for aquele que goza da preferência dos deuses?

    As crenças religiosas oferecem a promessa de que algum dia os bons serão recompensados e os maus castigados pelas entidades etéreas que, no conforto de seus assentos celestiais, assistem as desventuras da vida se desenrolarem.

    Cadê o paraíso que premia os venturosos? Qual é mesmo o endereço do inferno, destino dos maus? Onde está o deus que assiste impassível a tantas maldades? Talvez não seja bem aquele que imaginamos e esteja se divertindo daqueles que se equivocaram sobre sua índole benevolente. Talvez seja ele um ser perverso que não se preocupa com o destino incerto que aguarda seu rebanho desamparado.

    E, pior: e se não houver deus nenhum? Seja ele apenas uma criação fantasiosa dos homens para atender seu desejo íntimo de que, num outro plano, se aplique a justiça. Porque, se não existe uma justiça escondida atrás da cortina do mundo, então somos nós, apenas nós, os atores desse espetáculo macabro em que improvisamos a trama. Onde não há um roteirista nem um diretor cósmico. Não haverá um tribunal no fim dos tempos para devolver ao injustiçado aquilo que lhe foi tomado. Apenas esta vida finita e cruel.

    O homem que tentou ser decente e correto olha para trás e vê pouco além de perdas e danos. Fez o que acreditava certo e, em troca, recebeu ingratidão. Agora, está cansado de não ter reconhecimento. Talvez essa seja a forma mais perversa de revolta: não bradar contra os céus, mas simplesmente deixar de acreditar que os céus se importam.

    Apesar de todos os reveses que lhe são colocados, o legítimo justo não se abate. Mesmo depois de tudo, quando alguém cai na rua, ele estende a mão. Quando alguém chora, ele pergunta o motivo. Quando alguém é injustiçado, sua indignação aflora.

    Ele não se conforma em ser desse jeito, mas tal sentimento nele está impregnado, não consegue evitar. Não se sente superior, pois não há escala a avaliar a qualidade de suas ações. Ele é apenas assim. Uma ovelha branca em meio a ovelhas negras.

    Contra as mensagens que lhe são passadas, ele ainda acredita. É como uma pequena brasa que resiste, mantendo seu brilho sob toneladas de cinza. Uma centelha que ilumina tenuemente a esperança dos tolos. O mundo lhe mostra que a bondade é inútil, mas ele teima em ignorar essa evidência. Não porque lhe tenham prometido recompensas, nem porque acredita que o tal deus o observa, ou porque espere um lugar melhor após a morte. Sequer sabe se haverá esse ‘depois’. Continua porque, se abandonar também isso, talvez descubra que a pior injustiça não é sofrer num mundo sem justiça. É tornar-se semelhante àquilo que o fez sofrer.

    Percebe que o ‘happy end’ não é ver as coisas terminarem bem como o céu cor de rosa das telas de cinema, mas saber que o final feliz vem daqueles que, mesmo com tanta coisa ruim rolando por aí, não desistem. E essa seja a sina mais cruel: continuar esperando por um mundo melhor quando os indícios são de que ele jamais virá.

    E ele segue, vivendo a cada passo uma nova desilusão. Mais um patife vencerá. Mais um inocente sucumbirá. E os crédulos continuarão perguntando: “Onde estás, meu Deus?” enquanto do outro lado, haverá apenas o silêncio. Talvez seja esse o verdadeiro happy end: não esperar que seja feita a justiça, mas impedir que a injustiça nos transforme naquilo que não queremos ser.

  • Livros

    — A senhora gosta de ler?

    — Muito. Leio desde menina.

    — Que bom!

    Alonguei o olhar, curiosa para descobrir o que ela lia.

    Talvez pela aparência de vovó das antigas, meus pensamentos fizeram o caminho mais curto: imaginei uma Bíblia. De capa dura, páginas de papel quase transparentes, letras miudinhas, paginação discreta. Um livro que claramente , eu entendi de formato impróprio para olhos já cansados.

    Enganei-me.

    Era um livro. E não desses atuais, modernos. Nada de letras grandes, espaços largos entre as linhas ou papel fosco para facilitar a leitura.

    Eu estava ao seu lado.

    Olhei melhor.

    Capa dura. Papel delicado. Tipografia caprichada. Letras pequenas, alinhadas, iguais às dos livros que eu conhecera na juventude.

    Viajei.

    Por um instante, voltei àqueles livros feitos para permanecer  por anos, tanto na estante, como nas mãos . Livros que traziam o prazer da leitura, bem como o de sentir o peso nas mãos e o ruído das páginas ao gesto de folheá-las. Aquele prazer quase esquecido de interromper a leitura depois de uma frase, manter o livro aberto sobre o colo e olhar sem ver, apenas deixando as palavras encontrarem lugar dentro da gente.

    Tive saudade.

    Não do tempo.

    Do livro.

    — Parece interessante, comentei.

    Ela levantou os olhos.

    — É muito bom.

    Disse alguma coisa sobre a história, mostrou-me a capa e recomendou a leitura.

    Anotei mentalmente o título.

    Antes que a conversa terminasse, ela acrescentou, com a maior naturalidade:

    — Tem no Kindle. Você pode baixar.

    Sorri.

    Aquela senhora não estava presa ao passado. Sabia que podia levar centenas de livros numa tela, escolher uma leitura em poucos segundos e carregá-la sem peso algum. Mas, naquele momento, preferira o volume de capa dura, o papel delicado, as letras pequenas sob os olhos.

    Não era uma escolha entre o antigo e o novo.

    Era a liberdade de ter os dois.

    E havia modernidade isso.

    Não abandonar o que veio antes, nem obedecer ao que acabou de chegar.

    É poder escolher, a cada vez, o que se quer levar nas mãos.

  • O nome dele é Cookie

    O nome dele é Cookie. Abri a porta e ele entrou puxando uma das minhas filhas. É um cachorro vira-lata. Mas com todas as vacinas, banho tomado e bem cheiroso, assim me asseguraram. Pus meu nariz longe do seu pêlo curto sem qualquer vontade de tirar a prova se ele é mesmo esse modelo de asseio.

    Sou alérgico a pelo de cachorro, gato, cavalo, anta, leão, vaca e por aí afora. Meu nariz entope, tusso como se fosse cuspir os pulmões, o ar me foge e meus olhos lacrimejam. Em resumo, fico de um jeito em que deplorável é elogio.

    Por isso a visão dele entrando pela sala cheirando tudo a torto e a direito me irritou.

    De personalidade, meu temperamento vai mais com o gato. Silencioso e tranquilo, apesar do pêlo. A movimentação frenética dos cães somado ao latido deles definitivamente não me agradam. Sem espaço para correr livres eles precisam dos donos para atender suas necessidades diárias de exercícios. Algumas raças, não sei dizer quais e nem sem os sem-raça estão incluídos, tem uma atração especial por roer tênis, sandálias e sapatos. E nem vou mencionar os óbvios xixi e cocô diários. Só de imaginar suspiro aborrecido.

    Mas Cookie tem seus encantos.

    É bonitinho e alegre como todo cachorrinho novo. Esperto e simpático como cabe a um vira-lata que se preze. Se fosse de raça podia se dar ao luxo de ser esnobe. Sem raça definida o imperativo da sobrevivência grita mais alto. Ser gentil, comunicativo e afável são suas armas para conquistar o mundo. Somada a pouca idade do filhote, ele tem tudo para ir bem na vida.

    Me juraram que não terei de participar da vida de Cookie a saber limpar as sujeiras diárias, passear, dar banho e ir ao veterinário.

    Não vai crescer muito porque foi castrado já. Estava aos cuidados de uma ONG de bom coração que acolhe os animaizinhos. Muito fofo.

    Cuidar já tenho duas filhas para cuidar e me bastam. E elas, agora tem Cookie.

  • Horas depois

    Todo dia, que já é diferente dos demais, pego meu caderno de rascunhos, uma caneta que não arranha o papel, e desço para escrever no banco da praça. Como faziam os poetas antigos, aqueles que tinham o privilégio do tédio e da contemplação, com bem mais competência que eu. Perco mais tempo para escolher a camisa e a calça para sair do que para escrever. Porque quando estamos em frente ao espelho, inicia um embate na busca do contentamento. É a falta de paz frequente que nos assola.

    Quando finalmente chego na praça, o sol já está alto, desses de meio-dia de janeiro que fazem a gente entender por que existe a palavra “canícula”. A praça estava quase vazia, somente um senhor no banco da frente, distribuindo migalhas de pão dormido para os pombos, e uma menina, dessas que ainda usam lacinhos no cabelo, correndo atrás de uma bola de plástico colorida.

    A página em branco do meu caderno de anotações, me olha com cara de desafio. Passei os olhos ao redor, buscando uma faísca de inspiração. Foi então que vi, ao lado do banco uma flor amarela que parecia ter engolido um pedaço do sol. Era uma daquelas flores de jardim que a gente compra no vaso, mas ali, estava solitária, brotada não se sabe de onde. Uma semente levada pelo vento, talvez, ou um descuido de algum jardineiro.

    Fiquei olhando para a sua coragem desmedida de florir no meio do cimento, parecida com a força de um germinar de óvulo a espera de seu parceiro para gerar um novo ser. Pensei em fotografar, pensei em escrever um poema, pensei em arrancá-la para levar para casa e colocá-la num copo d’água, como quem tenta aprisionar a beleza.

    Nesse meio tempo, a menina do lacinho passou correndo atrás da bola, parou, voltou. Ajoelhou-se no chão com a graça desengonçada que só as crianças têm. Estendeu a mão, e com a mesma naturalidade com que segundos antes corria atrás da bola, colheu a flor.

    Levantou-se, cheirou a flor, e saiu correndo, a flor amarela dançando em sua mão como uma pequena bandeira.

    Fiquei ali, com o caderno aberto, a caneta na mão, e uma súbita e absurda sensação de perda. Quis rir da minha própria tolice. Que direito eu tinha sobre aquela flor? Não era minha, não era de ninguém. Era da vida, apenas isso. E a vida, na sua sabedoria silenciosa, a entregou a quem soube o que fazer com ela no momento exato. A menina não pensou no amanhã. Não cogitou fotografá-la para o Instagram. Não fez planos de pressioná-la num livro. Simplesmente sentiu a urgência daquela beleza, atendeu ao chamado, e a tornou parte da sua brincadeira. Fechei o caderno, guardei a caneta, escrevi agora, horas depois, não sobre a flor, mas sobre o vazio que ela deixou, e sobre como a vida precisa ser colhida no instante exato em que floresce. As coisas duram o tempo que devem durar. O segredo não é tentar segurá-las, mas saber reconhecê-las quando elas, por um breve e luminoso instante, resolvem brotar no meio do cimento.

  • A sorte está lançada

    Em tempos de inteligência artificial, nada mais parece escapar dos famigerados algoritmos. Se curto um post aleatório ou compro um hambúrguer, se sofro de enxaqueca ou pego um empréstimo… Pouco importa! Meus dados estão aí, prontos para serem coletados, armazenados e monetizados. Se eles retratam nossos comportamentos, que tal surrupiar nossas identidades e torná-las rentáveis?

    Fico horas a fio navegando pelas redes sociais. São tantos os meus perfis, que já nem sei mais as minhas senhas. Postar vídeos curtos, contactar amigos e conhecidos, exibir minha rotina, sobrevalorizar meu currículo, expor meus pensamentos, compartilhar minhas fotos. O importante é fazer parte dessa grande comunidade virtual. Ser seguido e seguir quem está no hype. Quantas visualizações? Quantas curtidas? Será que vai viralizar? Quantos seguidores já tenho? Criar conteúdo! Mas que tipo de conteúdo? Engajamento! Mas engajar para quê? Sei lá! Não há tempo a perder. O feed é infinito e quem desaparece pode ser, totalmente, esquecido. Não quero ter minha existência negada. Precisamos de reconhecimento. Afinal, vivemos em sociedade.

    Quanta alegria, quanta saúde, quanta riqueza! Seria eu um pobre desafortunado diante de tão bem-aventurados seres? Aqui não há sermão, pois não há montanha à vista. Quando a ansiedade aperta, recorro ao fast food – algo bem mais mundano. Pouco romântico, mas visceralmente prazeroso. O cardápio de opções é tão grande, é tanta coisa saborosa! Batata frita, hambúrguer, cachorro-quente, pizza, refrigerante… Minha nossa, não sei o que escolher! Paga-se com o cartão de crédito. Que delícia! Mas foi tão rápido! Fugaz como um cometa que desaparece diante de nossos olhos. Ainda preciso de um doce! Passa-se o cartão, novamente! Depois a gente vê como pagar a maldita fatura.

    O colesterol está alto. O bom ou o ruim? Não sei, acho que o tal de LDL. A glicose também não está muito boa. Ah, a culpa é daquele docinho! Digo, daqueles docinhos, no plural. Tudo bem, tem um remedinho bom que você pode achar na farmácia mais próxima. Só precisa de prescrição médica. Fácil conseguir! E tem outro também para a sua insônia! Já aproveita para pegar aquele que lhe sugeri para a sua lombalgia. E a enxaqueca? Olha que ela pode voltar, hein! Melhor prevenir do que remediar. E haja organismo para tanto medicamento! Da farmácia para casa, de casa para um médico. Acho que exagerei na automedicação.

    O dinheiro está curto? Melhor recorrer a um empréstimo consignado. Os juros não são tão baixos, mas é o melhor que se consegue. O cartão de crédito estourou o limite, e do cheque especial nem se fala. Como vou pagar tanta dívida? O déficit é fiscal, mas a aflição é física. O drama é coletivo, mas o sofrimento é individual. O salário não chega sequer à terceira semana do mês. A culpa é sua, pois não sabe administrar o dinheiro. Mas está tudo tão caro! Calma, eu sei. Tenho um amigo que consegue esse dinheiro. Agiota? Não diria isso. Prefere penhorar suas joias? Todos estamos no mesmo barco. Sei não… Está vendo aquele transatlântico ali?

    Big Tech, Big Food, Big Pharma, Big Money. Perdoem-me pelo anglicismo, mas dizem que a globalização derruba fronteiras. Nossa amada Flor do Lácio pode ficar enciumada. São tantos os termos criados pelo Tio Sam que já não dou mais conta de levianas traduções. Conseguiremos fugir de tamanha distopia? Pode apostar que sim! Sonhar é necessário e a sorte está lançada. Aliás, já tentou alguma bet?

  • O Filósofo da Vila Kennedy

    Duas moças vestidas de recepcionista chegam e pegam a mesa que fica bem na porta do bar do Taiguara. Sentando-se ali, talvez queiram, não posso dizer, conferir quem entra e quem sai. Pedem uma cerveja e dois copos. É fim de tarde de uma sexta-feira, é fim de expediente, todo mundo ali precisa despressurizar. Trocam meia dúzia de palavras, se tanto, e antes que o garçom traga o pedido, mergulham no mundo paralelo dos celulares. Com os olhos agarrados às telas, é como se estivessem sozinhas. No planeta em que estão neste momento, não há a presença da outra no lado oposto da mesa, muito menos quem passa pela porta a caminho da rua, ou quem vem da rua rumo ao fundo do bar.

    “Para que saem juntas? Para ficar isoladas com companhia? Um pouco difícil de compreender, ao menos para mim”.

    Sentado comigo à mesa, está Helinho Bagulhinho, o filósofo da Vila Kennedy, em Bangu, Rio de Janeiro, onde moramos, onde fomos criados.

    “Se é para ficarem no celular, sem olharem na cara da amiga, para que vieram juntas?”, e minha insistência na pergunta é muito mais uma crítica retórica do que propriamente um questionamento.

    Helinho Bagulhinho pigarreia, prepara-se para falar com autoridade. Ele sempre faz questão de mostrar autoridade em tudo.

    “Solidão a dois, meu caro, não é invenção, descoberta da modernidade. Tenho dito que o homem é um ser social, mas pode ser insocial dentro do convívio. Gerações inteiras de famílias se arrastaram trocando apenas as palavras estritamente necessárias, e quando precisavam falar mais do que costumavam, geralmente havia confusão. Meus avós eram assim. Eram quase um desconhecido do outro. Falavam tão pouco entre eles, que não me espantaria se tiverem morrido esquecidos de como o outro se chamava. Qual a diferença dessa para a solidão a dois moderna, seja marido e mulher, irmãos, colegas? É que agora taca-se um aparelho na frente, enfia-se a cara na tela e fica mais fácil se manter no isolamento presencial. A solidão a dois dos meus avós era analógica. A dessas duas – e apontou a moças – é digital, hightech”.

    Entenderam por que o chamavam de filósofo?

    Era um homem de dissertação fácil, fácil e de amplo leque, sobre todos os assuntos, fosse o combustível usado pela Nasa, fosse o ponto do lagarto redondo na panela. Era autor de frases de efeito, quase ditos populares, embora em alguns casos sua autoria fosse discutível. ‘Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas’ era um exemplo clássico. Ele garantia que era dele, mas eu escutava aquilo dos meus pais desde moleque. Éramos da mesma idade. Eu deixava pra lá, era divertido e não fazia mal a ninguém que ele inventasse.

    Helinho Bagulhinho tinha um primo, o Ademilson, que se arvorava em frequentar as boates de Ipanema e Leblon. Dizia que Bangu só tinha inferninho que até o diabo pensava se entraria ou não. Então, se enfiava no ônibus, descia a Avenida Brasil, chegava à Central e de lá encarava outra Mercedez Benz coletiva até a zona sul. Um dia, apareceu dizendo que descolara um convite “pra festa do ano no Rio”. Seria numa mansão no Alto Gávea. Ninguém sabia explicar como ele descolara o convite pro rega-bofe, mas no dia ele estava lá, descendo a rua a caminho do ponto, porque táxi não se aventurava por ali com o dia escurecendo. “Tira pelo menos a etiqueta da C&A da gola da camisa”, e Bagulhinho deu-lhe uma trava quando o primo saía de casa.

    Ademilson disse com o ar de uma expectativa deslumbrada que a festança iria até seis da manhã. Estava em casa bem antes disso, pouco depois de uma da madrugada, e só não chegou antes porque àquela hora ônibus para Bangu “tem menos do que filé mignon na minha casa” (by Helinho Bagulinho). Deve ter levado mais tempo na viagem do que na festa. No domingo, no boteco do Taiguara, nossa igreja, ele confessou que “fiquei com medo de perder o último ônibus da Central pra cá”. “Mas e aí? Qual foi a dessa festa? Você conseguiu mesmo entrar?”, Bagulinho quis saber, eu do lado, só ouvindo. Ademilson disse que conseguiu entrar, os seguranças olharam assim meio torto, mas liberaram. Pegou uma taça de espumante, porque não tinha cerveja. “Aquele povo é de outro planeta”, considerou, chegando à conclusão de que até para respirar os bacanudos fazem diferente. Bagulhinho olhava com um sorriso de quem queria rir, mas que ainda não era a hora. Ademilson contou que ficou longe do movimento, quase escondido “naquela sala maior que as casas de nós três juntas”. “Ficou mais de canto do que bandeira de escanteio”, e Bagulhinho mandou a pérola, e um riso cínico tornava ainda mais engraçado o que dizia. Eu ri. Ademilson não riu nem reclamou; cabisbaixo, ainda alegou “Eu tentei tirar uma onda”. “Tentou ser um cara lascado que mora no fim do mundo enfronhado no Grand monde”, Bagulhinho sintetizou, e ainda arrematou a conversa, naquela tarde em que estava inspirado: “Peixe de rio não entra no mar”, e fez pro primo uma cara de “vê se aprende, mané”.

    Por que seu apelido era bagulhinho? Os outros perguntavam. Eu, que o conhecia há anos, sabia a explicação de trás para frente. “É por que eu tenho uma relação de encontro íntimo comigo a partir da fumaça”, respondia, sonso. “Mas é qualquer fumaça?”, às vezes perguntavam para lhe darem uma espetada. Claro que não era, “de caminhão, por exemplo, é que não é”, e sorria um sorriso calmo e mole, quase cínico, deixando o motivo do apelido subentendido no ar.

    Eu havia ficado desempregado pela quarta vez. Estava no Taiguara às custas da minha mulher. Me deu dinheiro para três cervejas, tudo para se livrar de mim por algumas horas e descansar de me ouvir reclamando da vida. Ao passo que eu colecionava pé na bunda nos empregos, Helinho Bagulinho jamais ficara desempregado, simplesmente porque nunca trabalhara. Enquanto ansioso eu contava tempo para me aposentar, ele estava aposentado desde a idade em que um sujeito começa a procurar emprego. Não contava tempo de aposentadoria. Sua aposentadoria permanente é que contava seu tempo de desocupado. Enquanto o país fervia discutindo escala de serviço e de folga, para Bagulinho tanto fazia a escala 6 X 1 ou a 5 X 2. A sua escala sempre fora a 0 X 7. “Que diabos tu faz da vida, bagulho?”, um dia não resisti e perguntei, noite alta, quinze cervejas ou mais na mesa, o Taiguara querendo fechar. Ele sorriu o mesmo sorriso calmo e mole, agora ainda mais, por causa daquele dedo de bebedeira. Eu sabia de quatro ou cinco lojas em Parada de Lucas, herança da madrinha. Ele nem aparecia por lá, mas a renda certamente era o que sustentava a fumaça. Então contou ser fiscal da natureza e observador da mecânica da relação dos seres humanos entre eles e com o ambiente.

    Só fui entender o que isso significava quando em uma tarde de sábado, no Taiguara, obviamente, encostou uma Mercedez Benz de verdade, um modelo que fazia jus à marca. Dela desceu um casal que parecia casal milionário de novela das oito. Talvez se um disco voador pousasse ali, não teria causado tanto impacto. Arrancaram todos os olhares do bar e arredores. Passaram pelo Taiguara e se dirigiram a uma portinhola uns dez metros depois. “É a casa da Zefa”, Bagulinho explicou. Eu Sabia. Zefa era costureira antiga por ali. A madame pegou um embrulho e agradeceu, enquanto o marido abria a carteira, de uma marca que certamente era a Mercedez das carteiras, e entregava na mão de dona Zefa um punhado de notas, notas altas, sem dúvida. Eu levaria dez anos juntando dinheiro, e não teria uma carteira recheada daquele jeito.

    Voltaram, passaram por nós novamente, e agora nos cumprimentaram com sorrisos largos, abertos, e que até lhes fizeram simpáticos. Entraram na nave espacial e zarparam. Bagulinho deu um gole na cerveja, limpou os lábios e sentenciou: “Rir com dente é mole; eu quero ver é rir sem dente”.

    Ele estava certo, era isso mesmo.

  • F5

    — E se o sapatinho não couber?

    — Como assim? Não é seu?

    — É.

    — Então?

    — O meu pé mudou.

    — Mudou?

    — Não sou mais a mesma.

    — Hã.

    — Meus pés às vezes incham.

    — rsrs

    — E o vestido? Você pode usar o vestido!

    — Será?1q

    — Claro!

    — ihh! Engordei…

    — A tiara! Use a tiara!

    — Tem um problema. De lá pra cá, meus cabelos diminuíram… Não vai ficar legal.

    — Caramba!

    — O que eu faço?

    — Não sei. Não tem mais nada igual?

    — Igual?

    — Igual ao que você era naquele tempo.

    — Tem!

    — O quê?

    — A vontade de ser feliz permanece.

    — Só isso?

    — A crença no amor também.

    — E?

    — O sonho continua aqui. Só.

    — Só?!

    — A vida! A vida continua.

    — Com os pés inchados é possível?

    — É possível.

    — Sei onde tem sapatinhos ortopédicos de cristal.

    — E o vestido?

    — Plus size.

    — E os cabelos?

    — Lace!

    — E o príncipe?

    — Tinder.

    — Match?

    — Match!

    — Vamos ao baile?

    — Vou pedir o Uber confort.

  • A Bergamoteira

    Era a estação do frio, do vento e das chuvas no ano de 2024. Dona Clair já morava havia algum tempo num residencial para idosos na cidade de Tramandaí.

    Ela era uma senhora jovial, na casa dos oitenta anos e gozava de uma saúde invejável para sua idade. Uma mulher muito disposta, sempre pronta para auxiliar os amigos nas mais diversas tarefas, das mais simples até as mais complexas.

    Por sua excelente capacidade física, tinha como costume trabalhar no jardim do residencial. Adorava cuidar das roseiras. Nas manhãs frias de inverno, adorava também sentar ao sol, quando não estava escasso, e saborear inúmeras bergamotas.

    Fazia algum tempo que a idosa andava inquieta e falava muito em retornar para sua casa. Estava com saudade das suas coisas e do que havia deixado para trás.

    Às vezes, seu olhar se perdia para além dos muros do residencial. Ninguém sabia ao certo onde seus pensamentos andavam, mas pareciam sempre seguir o mesmo caminho: a casa que deixara para trás.

    A octogenária gozava de um enorme respeito por todas as pessoas da clínica, fossem funcionários, fossem colegas de morada.

    Nunca foi desrespeitosa com ninguém e sempre agiu de maneira muito cortês com todos.

    Ainda levada pelos pensamentos de retornar para sua casa, viu uma grande oportunidade quando um dos entregadores de mercadorias deixou o portão aberto do residencial. Não deu outra: a moradora ganhou o mundo novamente, saiu tão depressa
    por aquele portão que ninguém notou sua fuga.

    Mas não demorou muito para que percebessem sua falta. Foi aquele alvoroço: cuidadoras, enfermeiras e proprietários procurando a jovem senhora. Revistaram os quartos, os banheiros, o alpendre, a cozinha, a sala de estar, a lavanderia, o depósito e o jardim, e nada.

    Passaram a procurar na vizinhança, mercados, farmácias, lojas, paradas de ônibus, e nada da dona Clair. Nem uma notícia sequer.

    O desespero estava quase se alastrando quando uma das enfermeiras resolveu procurar no posto de saúde. Lá estava a velhota, com um sorriso estampado no rosto e um galo na cabeça.

    A atendente do posto disse que um rapaz havia levado a senhora até ali fazia pouco tempo e que, naquele momento, ela estava sendo medicada, passaria por um período de observação e logo seria liberada.

    Ninguém imaginava que aquela doce senhora cometeria aquele disparate de fugir, colocando em risco sua própria vida.

    Já de volta ao residencial, ainda não se sabia como ela havia adquirido aquele amigo galináceo, ora alojado em sua testa, nem quem era o tal jovem que a teria levado para o posto de saúde.

    Somente no final da tarde surgiu um homem de média estatura, cabelos ruivos e olhos amendoados, dizendo que havia socorrido dona Clair.

    Ele então relatou que a senhora arteira havia saído da clínica e avistado uma bergamoteira no auge de sua produção frutífera. De pronto, ela deu início a uma escalada em busca da fruta que tanto adorava.

    A alegria e a euforia, somadas ao peso da idade, foram aliadas à força da gravidade, e a fugitiva estatelou-se no chão tão rápido quanto a sua fuga do residencial.

    Ainda hoje, quando as amigas se reúnem, esse assunto vem à baila, e a mocinha peralta sempre fala:

    — A paixão pelas bergamotas me impediu de voltar para casa.

  • Com qual “provante” ficar?

    Eu me apaixonei por um sapato. Na verdade, por dois; ainda não sei com qual deles ficar.

    De um lado, um exemplar — par só depois de escolhido; antes disso, convenhamos, é pretendente. Honestamente, nem isso; ficante tampouco: apenas um provante — atrevidamente decidido: em pelo preto, bolinhas brancas disformes, salto alto e grosso, ponta quadrada vermelha. Vermelha mesmo. A irregularidade do branco ainda ensaia alguma compostura, categoricamente desmentida pela desfaçatez de quem, no limite do primeiro passo, resolveu acrescentar alguma coisa que a mãe certamente desaprovaria. Parece ter alguma vantagem nessa cor brilhante e atrevida, justamente da cor que anda me faltando.

    Do outro lado, o oponente de couro amarelo-limão-siciliano — minha cor preferida, o que já configura certa vantagem indevida — apresenta-se com menos altura. Tamanho nunca foi documento; e, se fosse, não caberia a uma mulher apaixonada conferi-lo: córneas flechadas não são instrumentos confiáveis de medição. Quanto ao juízo, este parece ter ainda menos: salto baixo e fino, bico comprido, quase um papagaio, e uma pequena confusão de amarelo, azul-marinho e prata no calcanhar, onde uma almofadinha parece ter sido posta para protegê-lo das consequências das próprias escolhas. Parece livre. Libertino, não direi; esta crônica ainda mal começou e não convém difamar um provante antes do primeiro passo em falso.

    Aquele pisa firme. Este parece prestes a levantar voo.

    Bisbilhoto um, namoro o outro. Volto ao primeiro às escondidas, como se o segundo pudesse descobrir. Faço contas, entro no site de uma loja, retorno ao da outra — ainda bem que a internet mantém vitrines abertas ad aeternum. Salvo fotografias, amplio detalhes, ensaio no ChatGPT versões de mim mesma calçando um e outro. Não sei se procuro sapatos ou se os sapatos, a esta altura, é que já estão procurando por mim — que delícia ser disputada, ao menos em pensamento!

    As imagens têm meu rosto, meu corpo, meus cabelos; ainda assim, há nelas alguma presença que não sei nomear. E minhas últimas setenta e quatro páginas de leitura de umas crônicas sombrias me aconselharam prudência com presenças sem nome. Soa estranho, quase calvo, reconhecer-me num espectro de mulher renderizada que ainda não existe. Mais estranha é a suspeita de que exista e esteja apenas de butuca, esperando alguma coisa para aparecer.

    Tudo isso para escolher um sapato, você pensa. Pense. Também eu acreditava nisso. Até perceber que vinha conduzindo o assunto pelo avesso: não imaginava os sapatos em mim. Imaginava quem eu seria dentro deles.

    É uma diferença pequena, dessas que cabem entre o pé e o couro. Você aí, não a despreze… Há quem aperte a vida alheia por muito menos; não lhe investiguemos os motivos, que esta é uma crônica de sapatos e temos assunto suficiente.

    Mentira.

    Pensando em sapatos, fui parar na filosofia oriental — o que não chega a ser o destino mais provável de um sapato. Mas já que demos o salto, foi mais alto do que baixo, eu diria (ponto para o exemplar preto?). Em Ausência, Byung-Chul Han escreve que esquecemos os pés quando usamos os sapatos certos. Fiquei presa à frase, maneira bastante ocidental de ler sobre desapego, apegando-me de antemão. A mão é força de expressão; esta crônica, até segunda ordem, continua à altura dos pés. E um pé bem calçado simplesmente anda. Se estiver estiloso, anda de cabeça erguida.

    É, até que faz sentido eu me apaixonar por um (ou dois) sapato(s).

    Diria que soa mais prudente do que se apaixonar por uma (ou até mais de uma) pessoa. Sapatos não prometem que vêm depois, não desaparecem no meio de uma conversa nem dizem uma coisa na terça e outra completamente diferente na sexta. Não deixam de pagar a conta; simplesmente não o fazem. No máximo, apertam. E, quando apertam, têm a decência de informar onde.

    Não são grudentos, jamais ciumentos: tirá-los por algum tempo costuma ajudar. É até bom não usar o mesmo sapato todo santo dia; o pé respira, a bolha cicatriza e ninguém pede explicações. Alguns cedem com uma vela, outros com tempo e alguns passos pela casa. Amolecer para continuar. Continuar para esquecer.

    Esquecer, aliás, não é necessariamente perder. Aprendo com Han que pode ser simplesmente parar de segurar. E aí a água me parece uma professora mais eficiente que a filosofia: envolve o corpo inteiro, mas escapa quando fechamos a mão. Algumas paixões têm a mesma falta de educação. Passam pelos dedos sem pedir licença. A água vai embora; a mão fica molhada. Água e memória; algo permanece, mesmo depois que seca?

    Sapatos, felizmente, têm maior vocação para a permanência. Passam por cima de tudo. Depois é só limpar ou engraxar e ficam prontos para outra.

    Eu ainda não comprei nenhum dos dois. Nem sei se vou… será? Posso continuar meu flerte entre janelas. E, se não escolher nenhum, ainda posso andar de cabeça erguida. Na ponta dos pés, calçando sandálias havaianas, se preciso. Uma pincelada de esmalte resolveria a falta de cor — e custaria menos que certas paixões, sobretudo quando já se anteveem os juros do parcelamento do provante. Esta semana comprei três potinhos de esmalte: Intuição, que já está cintilando em meus vinte dedos; Novos Ares, que fica para a próxima semana; e uma outra cor da qual já não me lembro o nome — e nem vem ao caso, estamos perdendo o foco.

    Comprar ou não comprar, eis a questão? Decidir pode ser também deixar alguma coisa onde estava. Apaixonar-se, de soslaio, inclui uma possibilidade que as vitrines, por compreensíveis razões comerciais, não anunciam: perder. Eu ainda posso perder os sapatos por esgotamento de estoque.

    Sei que ver o número 37 inatingível ao clique, em qualquer um dos provantes, vai me preencher de ausência. Uma ausência tamanho 37, precisamente. E ausências, ao contrário do que anuncia o nome, ocupam espaço. Meus pés, menos dados à metafísica, acabarão calçando o que restar por W.O.

    Moral da história: apaixonar-se é um perigo, seja qual for a espécie do ser amado.

  • O menino que escrevia versos

    O menino e a palavra eram amigos desde sempre.

    Inseparáveis como as horas e o tempo.

    Sensação, coração e pensamento.

    A palavra era a bola, a rasteira, a corrida, as travessuras…

    A palavra era o rosto, as descobertas, as noites escuras.

    O menino escrevia a vida e as suas cores em palavras pequenas, palavras grandes, palavras muitas ou palavras poucas. Cidades e
    ruas.

    A palavra se fazia chuva, sol, mar e vento, beijo e estrada, sonho, abraço, sentido, tudo e nada!

    O menino era poeta! Dizia com assombro a mãe!

    O menino era poeta! Falava paralisado o pai!

    O menino se metia com os versos? Indagava um e outro familiar.

    Não havia ser vivente que não questionasse o porquê dos versos.

    A verdade é que o menino abria os olhos e, para enxergar o mundo, escrevia. Escrevia suas histórias, registrava suas memórias e
    juntava lugares e nomes e sentimentos.

    Misturava o que ouvia, inventava o que não existia e simplesmente escrevia…

    Depois de algum tempo, já sabedores da situação, ninguém mais perguntava a razão.

    O menino é assim mesmo!

    Bola, papel, pião. Catavento, sopro, dragão.

    Laço, entrelaço, uma mão.

    Caminho, descaminho, construção.

  • PVD

    Sonhei com um caderninho brochura.
    Capa marrom.
    Letras pretas em relevo na capa.
    P V D.
    Logo me vi de uniforme escolar, mordendo um pouco o lábio inferior.
    Estava perdida. Melhor nem ir ao catecismo.

    Se era PVD por que não decorei?
    Era essa a pergunta que a Madre superiora iria me fazer.

    Acordei rindo, apesar das gotinhas que brotaram na minha testa.
    Aí me veio a ideia: e se existisse um PVD para a vida adulta?

    Tipo:
    ✔ PVD. Se você emprestar um livro de que gosta muito: anote para quem..
    ✔ Não vá ao supermercado com fome.
    ✔ “Vou só dar uma olhadinha no celular” não leva cinco minutos.
    ✔ Se o sapato machucou na loja, não ficará confortável na festa.
    ✔ “Vamos marcar” não é um convite.
    ✔ Não responda e-mail com raiva. Muito menos WhatsApp.
    ✔ Quando alguém disser “é só atualizar”, faça backup.
    ✔ Se você guardou uma coisa “para uma ocasião especial”, talvez a ocasião especial seja hoje.
    ✔ Não deixe para dizer depois aquilo que importa.
    ✔ Não espere que o outro adivinhe.
    ✔ Algumas pessoas não vão mudar só porque você explicou melhor.
    ✔ Nem toda discussão precisa de vencedor. Algumas precisam apenas terminar.
    ✔ O tempo que você está esperando “sobrar” não sobra.
    ✔ Você não precisa ter a última palavra.
    ✔ E nunca diga: “Comigo isso não acontece”. PVD

    Fechei mentalmente meu novo caderninho.
    Capa marrom.
    Letras pretas em relevo.

    P V D.
    Para Você Decorar.

    Sorri.
    Setenta anos depois, finalmente entendi o problema.

    Eu sempre decorei.
    Só nunca obedeci.
  • Quem ou o quê?

    Nem só de pão vive o homem…

    Vive atrás do salário, da prestação da casa própria, do preço da gasolina, da promoção que não veio, da aposentadoria que talvez venha, da dieta que começa na segunda-feira e do boleto que, pontualíssimo, nunca se esquece dele.

    Ah, e também de notícias.

    Escândalos financeiros, guerras, feminicídios, golpes, corrupção, propaganda eleitoral. Mudam os candidatos, às vezes os partidos, raramente o modelo. Entre uma tragédia e outra, um anúncio oferece um colchão ortopédico em doze parcelas sem juros.

    O ser humano é realmente uma criatura admirável.

    Acorda, olha o celular e, antes mesmo do café, já sabe o que o aguarda. Ainda assim, escova os dentes e vai trabalhar.

    No caminho, reclama do trânsito, no trabalho do salário, no almoço do preço da comida.

    Não pensem que estou falando apenas dos pobres, dos fracos, dos desafortunados ou dos “menos favorecidos”.

    Não.

    O rico também sofre. Naturalmente, sofre com algum conforto, o que não deixa de ser uma vantagem considerável.

    Mas sofre.

    Talvez esteja aí uma das coisas mais estranhas sobre a humanidade.

    Somos capazes de assistir a uma guerra durante o jantar e, logo depois, discutir porque alguém deixou a manteiga fora da geladeira.

    Choramos por desconhecidos.

    Brigamos com quem amamos.

    Economizamos para o futuro e compramos por impulso.

    Queremos viver muito, mas passamos boa parte da vida com pressa.

    Inventamos máquinas para poupar tempo e imediatamente encontramos novas maneiras de não ter tempo algum.

    Construímos cidades, escrevemos poemas, fazemos transplantes de coração, mandamos sondas para outros planetas.

    E ainda não aprendemos a conviver direito com o vizinho.

    Quem somos afinal? 

    Porque somos?

    Não sei.

    Faço parte da espécie, o que certamente prejudica a imparcialidade da minha pergunta. 

    Só sei que, apesar de tudo, amanhã alguém vai plantar uma árvore, outra pessoa vai preparar o café para quem ama, uma criança vai aprender uma palavra nova, haverá quem estenda a mão para um desconhecido e quem ria até perder o fôlego por uma bobagem qualquer.

    Talvez seja por isso que continuamos.

    Eu, pelo menos, decidi uma coisa: não vou mais questionar

    Não por enquanto.

  • O dia em que as tatuagens saíram de moda

    Foi numa sexta-feira nublada de setembro que o mundo estremeceu. Nada de tornados, terremotos ou tsunamis. Tampouco o lançamento massivo de mísseis balísticos ou ameaças de guerra nuclear iminente. Algo mais bombástico: uma postagem de um influencer de moda decretou as seguintes palavras a seus milhões de fiéis seguidores: “A tendência para a próxima estação será exibir a pele nua e crua em seu esplendor natural. Tatuagem? Sai fora dessa brega intervenção artificial, aberração invasiva utilizada pelas gerações anteriores para difundir seus ultrapassados valores.”

    Foi a senha para disparar o quiproquó. Em questão de horas, o mundo civilizado entrou em colapso estético. Na segunda-feira, as clínicas de remoção a laser exibiam filas que dobravam quarteirões e faziam dobrar os atendentes. Na terça, faltou horário. Na quarta, faltou equipamento. Na quinta, faltou esperança. E sobrou desespero.

    A queixa generalizada nos consultórios de psicologia passou a ser: “Doutor, como conviver com o trauma de ter profanado minha cútis num momento de fraqueza?”

    Criou-se até uma literatura crítica revisionista com conceitos pejorativos como ‘pele psíquica’, explicando que o que não pode ser elaborado por meio da palavra, acaba sendo externalizado no corpo. A tatuagem foi reduzida a uma tentativa de dominar por meio da agulha o complexo emocional de um passado sufocante. As figuras funcionariam como uma armadura, uma epiderme secundária, o território do ego em que o indivíduo expressa seu narcisismo e a imagem que nutre de si mesmo.

    De repente, os prosaicos véus que cobrem o corpo (e as tatuagens) ganharam status fashion com força total. As burcas das mulheres islâmicas, antes execradas, passaram a ganhar respeito e devoção, sugerindo até a possibilidade de conversão religiosa e uma mudança comportamental frente à materialidade existencial do Ocidente.   

    Assim nasceu o dilema daqueles que fizeram um pacto eterno de fidelidade com as agulhas segundo o qual o corpo foi vilipendiado e cedido aos arroubos de um impulso juvenil.

    As cabeças carecas, antes transformadas em tela foram substituídas por implantes capilares. Pior foi a amargura dos entusiastas que levaram o procedimento para zonas inimagináveis como a tatuagem no globo ocular (eyeball tattoo), interior da boca, língua, áreas genitais. Ou daqueles que não preservaram o rosto e demais partes expostas pelas vestes casuais. O que fazer agora com esse trambolho estilístico?

    A discreta borboletinha no tornozelo, na qualidade de singelo adorno, foi poupada, passando incólume ao turbilhão higienista dos novos tempos, não chegando a comprometer seu usuário. Já os imensos dragões orientais e as frases motivacionais em sânscrito tornaram-se um estorvo megalítico a seus portadores.

    Diante da nova tendência, os mais suscetíveis que haviam cravado um detalhado mosaico da cultura pop nos exíguos espaços disponíveis do corpo ficaram sem saber como agir. Enquanto não decidiam, passaram a vestir grossos sobretudos para ocultar seus exóticos rabiscos.

    Lembrei-me do filme “A Outra História Americana”, em que o protagonista interpretado por Edward Norton, ao revisar seus valores ideológicos, já não se reconhecia no espelho, confrontado pela enorme suástica que carregava no peito. ‘O que faço com ela?’

    A tatuagem parte do pressuposto de que somos seres imutáveis e as decisões tomadas são definitivas. Aqueles que a ela se submeteram acham que suas mentes jamais se modificarão e transferem o peso dessa imutabilidade para a própria pele. O problema surge quando a cabeça se submete a uma lavagem cerebral mas o resto da massa corpórea não é capaz de acompanhar a mudança.

    O sábio Raul Seixas já havia antevisto o dilema ao manifestar preferência em ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião estampada sobre tudo.

    Os usuários acreditavam, em sua santa ingenuidade, que a moda duraria até o fim de suas vidas úteis. O curioso é que a tatuagem costuma ser apresentada como uma afirmação de individualidade. “Quero ser único”, diz alguém… enquanto entra numa fila de outros cinquenta querendo exatamente o mesmo ornamento polinésio, a mesma rosa cor -de-rosa, o mesmo astrolábio, o mesmo leão de olhar filosófico e a inevitável frase em celta cujo significado permanece indecifrável.

    As tatuagens pareciam ter desvendado o segredo da imortalidade. Afinal, não bastava vestir a moda; era preciso costurá-la na própria pele. É um compromisso que nem casamento exige.

    Há também a criatividade inesgotável dos apaixonados. Juram amor eterno, tatuam o nome da pessoa amada e, seis meses depois, descobrem que o amor era eterno até o próximo fim de semana. A pele, nossa fiel companheira de jornada, infelizmente, parece não acompanhar as desventuras fugazes do coração.

    Naturalmente, a indústria de cosméticos aproveitou-se da situação para faturar alto, criando os ‘corretivos de pele’, uma base tão grossa que parecia massa corrida. Logo apareceram os alarmistas alertando sobre os perigos que tais métodos provocam ao sufocar o tecido cutâneo e provocar tumores malignos. E as fake news ajudaram a propagar pelas redes o pânico geral.

    E, quando as tatuagens previsivelmente saíram de moda — porque tudo, absolutamente tudo, um dia sai — aconteceu o inimaginável: a ousadia passou a ser desfilar com a pele completamente lisa, como quando veio ao mundo.

    Enquanto a mudança de paradigma ainda não se efetivara, eu observava curioso o hábito da humanidade de transformar o próprio corpo numa espécie de caderno de anotações. Uns escreviam poemas, outros desenhavam tigres, alguns registravam datas memoráveis. A pele virou agenda, álbum de lembranças e mural de recados.

    Instalada a nova ordem, os conformistas se resignaram, alimentando a esperança de que, como sempre acontece, os ciclos façam que na próxima geração ou talvez daqui a 50 anos, quem sabe, a tatuagem volte à moda.

  • Famosos

    Morar no Rio de Janeiro exige algum preparo. Por exemplo, é preciso dominar os delicados protocolos de etiqueta envolvidos no avistamento de famosos. Do contrário, não é pequeno o risco de passar vergonha. Tipo:

    “Só tinha latão. Bora dividir?”

    “Bora!”

    “Você viu aquele famosão passando aqui?”

    “Hein?”

    “Aquele cara super famoso! Acabou de passar aqui, você não viu? Aquele que fez aquele filme, que fez par romântico com aquela famosona na novela. Maior sucesso.”

    “Desconheço… não passou no meu radar.”

    “Como assim, não passou no seu radar? O cara é ultra famoso. Famosíssimo. O suprassumo da celebridade internacional. Está direto no TV Fama. Outro dia estava dançando na Dança dos Famosos. É a fama em pessoa.”

    “Hmmm… você viu que interessante aquele reboco na parede? Parece um trabalho profissional. Esse material é gesso?”

    “Que papo é esse? Claro que você conhece o famosão. A gente viu outro dia um filme com ele. Fez aquele personagem… aquele… qual era? Só me fugiu o nome. Mas o cara é um colosso da indústria do entretenimento. Um titã do audiovisual. Faz filme, série, novela, o escambau. Acabou de passar exatamente aqui e você vem com esse papo de gesso e reboco? Fala sério.”

    “O acabamento parece muito bem-feito.”

    “Esquece a parede! Estou falando que o famosão acabou de passar aqui. O cara tem prestígio interplanetário. Se pousar uma nave extraterrestre agora no Aterro do Flamengo e descer um marciano, é capaz de pedir uma selfie com ele.”

    “E o editorial da Folha, você leu? Como avalia a crise no Supremo?”

    “Que mané Supremo! Esse cara sim é o Supremo Famoso! Galgou todos os degraus da fama, escalou a cordilheira da notoriedade, chegou aos píncaros da celebridade. Está no cume, no zênite, na estratosfera do estrelato.”

    “Ei… prestenção. Contato visual. Olha aqui. Agora acompanha o meu olhar.

    Devagar. Não vira a cabeça de uma vez, pelo amor de Deus. Olha por cima do meu ombro esquerdo. Tá vendo?”

    “O quê? Onde?”

    “Atrás de mim, à esquerda. A meio metro. É ele. Viu?”

    “Ahnnnn…”

    “Reconheceu?”

    “Ahnnnn…”

    “Então… disfarça…”

    “Que coisa!”

    “Sim, que coisa.”

    “Esse lugar encheu rápido, né?”

    “Encheu!”

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