Valeria Soares

Valeria Soares é membro da Academia de Letras do Brasil -  nasceu e vive em Teresópolis- RJ. Formou-se em Letras - Língua Portuguesa e Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade Gama Filho. Cursou MBA em gestão educacional e empreendedorismo pela Universidade Federal Fluminense. Professora desde 1986, atuou na rede privada e na rede pública municipal. Atualmente, é Diretora Geral do Colégio Estadual Euclydes da Cunha.
  • Crônicas

    Semente

    A ladeira de paralelepípedos cria obstáculos até o ponto de ônibus. Mal amanhece, o café preto, o banho, a escova de dentes. A roupa, cuidadosamente separada no dia anterior, e a corrida de sempre para não perder a condução. O corpo magro vai contra o vento, e sopra uma canção nos seus ouvidos. Ela cantarola. No trânsi

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  • Crônicas

    Tule preto

    Ela se trancou no quarto, triste que estava. Fechou atrás de si a porta. Aos poucos criou para si um mundo à parte. Mas o sol teimava em entrar pelas frestas da janela todas as manhãs. Fechou as janelas. Teceu com esmero um vestido longo e preto, de modo que seu corpo não mais se mostrasse. Lá fora, o tempo encarregava

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  • Crônicas

    Sujeito homem

    — Tu é sujeito homem? A frase saiu como um soco. Mais agressiva até. Os dois envolvidos na discussão eram homens, não havia dúvidas, mas a pergunta era mais profunda: vinha para mexer com os brios. Para trazer à tona fraquezas ou revelar coragens. Seu corpo, um tanto menino, não acompanhava o tamanho da sua integridade

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  • Poesias de 1 a 99

    Poema #04: Motivo

     ( A Cecília) Antes que chegue o dia da mudez,Cantemos!Cantemos elegiasCantemos heavyCantemos baladasCantemos !Que em nós haja uma eterna cançãoIndescritivelmente bela,Inevitavelmente originalPor sermos, cada um de nós, a própria melodia, a harmonia curativa No desconcerto do mundo.

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  • Crônicas

    Caso verdade

    Uma. Duas. Três. Já eram suficientes para tirar a paciência de qualquer um, mas não parou por aí. Aos poucos, seguindo o mau exemplo, os vizinhos começaram a depositar suas sacas de lixo na calçada alheia. Alguns moravam perto, entretanto, logo chegariam os mais distantes. Definitivamente,  já estava configurado o abus

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  • Poesias de 1 a 99

    Poema #03: Magia

    O outono deixa cair seu manto branco sobre as montanhasNada mais é nítido, nada mais é real.Tudo vira sonho .Há magia sob o tecido d’água que misteriosamente pede aconchego.Todos são um. Confundidos, ofuscados. O outono salpica a noite com estrelas tantasO olhar se perde, tudo parece sonho.Há magia sob o céu bordado, q

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  • Crônicas

    Egocentrismo

    O alarido invade meus ouvidos ofendidos. Quero silêncio. Não tenho. Ainda é manhã e vespertino. Talvez até anoiteça, madrugue. Não sei. O barulho continua. Eu continuo. Queria poder parar os dois. Dormir? Acho que não. A vida me chama. Só a queria um pouco mais silenciosa. Estou sensível! A poeira me incomoda o nariz,

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  • Poesias de 1 a 99

    Poema #02: Involuto

    Quero a involuçãoA proteção contra os ventosÚtero da mãeTurbulência amniótica. O desequilíbrio de voltarO ser ainda sem serTodos os caminhos por andarTodas as guerras por vencer Quero o grito de mãeNa hora de parir O choro engasgadoA dor de nascer Coragem para voltarTudo feito novoCerteza de não errarLeite materno como

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  • Crônicas

    Voraz

    Fico observando uma lagartixa colada no vidro da janela. Minha mãe diria que ela não tem modos! Arreganhada desse jeito, toda exposta. Minha filha se arrepiaria, sentiria medo, nojo. Não olharia. Eu a observo. Será que ela sabe que está assim tão exposta, tão vulnerável? A lagartixa, no entanto, tem os olhos fitos nos

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  • Crônicas

    Visagem

    A brisa da manhã invadiu seu quarto. Quase ninguém na rua. Ninguém em casa além dela. Desceu as escadas suavemente. O cheiro da manhã a entorpecia. Saiu a caminhar. Cabelos soltos, sonhos leves, pele arrepiada. Flutuando pelas ruas, não percebia os olhares atônitos. Sorvia a manhã. Andou até ter os cabelos umedecidos p

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  • Crônicas

    Turbulência

    Queria escrever um texto calmo que saísse de mim e pousasse languidamente na virtual folha de papel. Não sou assim! Meus textos são ansiosos, temem não alcançar a luz. Temem alcançar a luz.  Tenho muita inveja de quem consegue ruminar seus escritos, escolher para eles o melhor tempo e lugar; a melhor palavra. 

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  • Poesias de 1 a 99

    Poema #01: Incondicional

    Entre tantas vozesTantos abraçosEntre tantos conselhosEm meio ao cansaço Quando sorrioOu quando choroSe me surpreendoOu me apavoro Se a alegria é tantaOu a decepção é muita,Importa ter o teu colo, Mãe,Pra valer a pena continuar.

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