Crônicas

Semente

A ladeira de paralelepípedos cria obstáculos até o ponto de ônibus. Mal amanhece, o café preto, o banho, a escova de dentes. A roupa, cuidadosamente separada no dia anterior, e a corrida de sempre para não perder a condução.

O corpo magro vai contra o vento, e sopra uma canção nos seus ouvidos. Ela cantarola.

No trânsito, procura na paisagem de sempre algum novo detalhe e, invariavelmente, encontra. Tudo está no mesmo lugar, mas seu olhar é novo a cada dia. Não tem consciência da própria sensibilidade. Emociona-se com o que é invisível aos outros e pensa que é normal. Chora com as histórias que lê, com os filmes a que assiste. Inventa histórias longas que nunca serão escritas e, à sua maneira, é feliz.

Os cadernos presos ao corpo em sacolas improvisadas. Sonha. Tem medo de que tudo seja apenas imaginação. Imagina sempre.

O vento sopra uma canção nos seus ouvidos. Escuta-a atenta. Apenas o tempo dirá se a canção é tudo, se as histórias vingarão, se o sonho virará realidade.

Nesse vão, tece.

As roupas não se ajustam bem. As calças são mais curtas que suas pernas finas. “Pescam siri”, ouve dizerem. O desgaste dos sapatos é coberto por graxa. Apesar de tudo, brilham.

A vida também a lapida, a cada palavra que machuca, a cada desejo não realizado, a cada manhã em que tem um novo olhar sobre tudo.

O vento sopra uma canção nos seus ouvidos. Nela há esperança e grandiosidade de sinfonia.

A menina que desce a ladeira correndo, que tropeça nas pontas soltas dos paralelepípedos, não sabe que planta beleza, que seus sonhos são sombras de um futuro que ainda não viu.

A menina não sabe, mas é semente da mulher que, em algum ponto distante no tempo, já existe.

Valeria Soares

Valeria Soares é membro da Academia de Letras do Brasil -  nasceu e vive em Teresópolis- RJ. Formou-se em Letras - Língua Portuguesa e Literatura de Língua Portuguesa pela Universidade Gama Filho. Cursou MBA em gestão educacional e empreendedorismo pela Universidade Federal Fluminense. Professora desde 1986, atuou na rede privada e na rede pública municipal. Atualmente, é Diretora Geral do Colégio Estadual Euclydes da Cunha.

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