Crônicas

Com qual “provante” ficar?

Eu me apaixonei por um sapato. Na verdade, por dois; ainda não sei com qual deles ficar.

De um lado, um exemplar — par só depois de escolhido; antes disso, convenhamos, é pretendente. Honestamente, nem isso; ficante tampouco: apenas um provante — atrevidamente decidido: em pelo preto, bolinhas brancas disformes, salto alto e grosso, ponta quadrada vermelha. Vermelha mesmo. A irregularidade do branco ainda ensaia alguma compostura, categoricamente desmentida pela desfaçatez de quem, no limite do primeiro passo, resolveu acrescentar alguma coisa que a mãe certamente desaprovaria. Parece ter alguma vantagem nessa cor brilhante e atrevida, justamente da cor que anda me faltando.

Do outro lado, o oponente de couro amarelo-limão-siciliano — minha cor preferida, o que já configura certa vantagem indevida — apresenta-se com menos altura. Tamanho nunca foi documento; e, se fosse, não caberia a uma mulher apaixonada conferi-lo: córneas flechadas não são instrumentos confiáveis de medição. Quanto ao juízo, este parece ter ainda menos: salto baixo e fino, bico comprido, quase um papagaio, e uma pequena confusão de amarelo, azul-marinho e prata no calcanhar, onde uma almofadinha parece ter sido posta para protegê-lo das consequências das próprias escolhas. Parece livre. Libertino, não direi; esta crônica ainda mal começou e não convém difamar um provante antes do primeiro passo em falso.

Aquele pisa firme. Este parece prestes a levantar voo.

Bisbilhoto um, namoro o outro. Volto ao primeiro às escondidas, como se o segundo pudesse descobrir. Faço contas, entro no site de uma loja, retorno ao da outra — ainda bem que a internet mantém vitrines abertas ad aeternum. Salvo fotografias, amplio detalhes, ensaio no ChatGPT versões de mim mesma calçando um e outro. Não sei se procuro sapatos ou se os sapatos, a esta altura, é que já estão procurando por mimque delícia ser disputada, ao menos em pensamento!

As imagens têm meu rosto, meu corpo, meus cabelos; ainda assim, há nelas alguma presença que não sei nomear. E minhas últimas setenta e quatro páginas de leitura de umas crônicas sombrias me aconselharam prudência com presenças sem nome. Soa estranho, quase calvo, reconhecer-me num espectro de mulher renderizada que ainda não existe. Mais estranha é a suspeita de que exista e esteja apenas de butuca, esperando alguma coisa para aparecer.

Tudo isso para escolher um sapato, você pensa. Pense. Também eu acreditava nisso. Até perceber que vinha conduzindo o assunto pelo avesso: não imaginava os sapatos em mim. Imaginava quem eu seria dentro deles.

É uma diferença pequena, dessas que cabem entre o pé e o couro. Você aí, não a despreze… Há quem aperte a vida alheia por muito menos; não lhe investiguemos os motivos, que esta é uma crônica de sapatos e temos assunto suficiente.

Mentira.

Pensando em sapatos, fui parar na filosofia oriental — o que não chega a ser o destino mais provável de um sapato. Mas já que demos o salto, foi mais alto do que baixo, eu diria (ponto para o exemplar preto?). Em Ausência, Byung-Chul Han escreve que esquecemos os pés quando usamos os sapatos certos. Fiquei presa à frase, maneira bastante ocidental de ler sobre desapego, apegando-me de antemão. A mão é força de expressão; esta crônica, até segunda ordem, continua à altura dos pés. E um pé bem calçado simplesmente anda. Se estiver estiloso, anda de cabeça erguida.

É, até que faz sentido eu me apaixonar por um (ou dois) sapato(s).

Diria que soa mais prudente do que se apaixonar por uma (ou até mais de uma) pessoa. Sapatos não prometem que vêm depois, não desaparecem no meio de uma conversa nem dizem uma coisa na terça e outra completamente diferente na sexta. Não deixam de pagar a conta; simplesmente não o fazem. No máximo, apertam. E, quando apertam, têm a decência de informar onde.

Não são grudentos, jamais ciumentos: tirá-los por algum tempo costuma ajudar. É até bom não usar o mesmo sapato todo santo dia; o pé respira, a bolha cicatriza e ninguém pede explicações. Alguns cedem com uma vela, outros com tempo e alguns passos pela casa. Amolecer para continuar. Continuar para esquecer.

Esquecer, aliás, não é necessariamente perder. Aprendo com Han que pode ser simplesmente parar de segurar. E aí a água me parece uma professora mais eficiente que a filosofia: envolve o corpo inteiro, mas escapa quando fechamos a mão. Algumas paixões têm a mesma falta de educação. Passam pelos dedos sem pedir licença. A água vai embora; a mão fica molhada. Água e memória; algo permanece, mesmo depois que seca?

Sapatos, felizmente, têm maior vocação para a permanência. Passam por cima de tudo. Depois é só limpar ou engraxar e ficam prontos para outra.

Eu ainda não comprei nenhum dos dois. Nem sei se vou… será? Posso continuar meu flerte entre janelas. E, se não escolher nenhum, ainda posso andar de cabeça erguida. Na ponta dos pés, calçando sandálias havaianas, se preciso. Uma pincelada de esmalte resolveria a falta de cor — e custaria menos que certas paixões, sobretudo quando já se anteveem os juros do parcelamento do provante. Esta semana comprei três potinhos de esmalte: Intuição, que já está cintilando em meus vinte dedos; Novos Ares, que fica para a próxima semana; e uma outra cor da qual já não me lembro o nome — e nem vem ao caso, estamos perdendo o foco.

Comprar ou não comprar, eis a questão? Decidir pode ser também deixar alguma coisa onde estava. Apaixonar-se, de soslaio, inclui uma possibilidade que as vitrines, por compreensíveis razões comerciais, não anunciam: perder. Eu ainda posso perder os sapatos por esgotamento de estoque.

Sei que ver o número 37 inatingível ao clique, em qualquer um dos provantes, vai me preencher de ausência. Uma ausência tamanho 37, precisamente. E ausências, ao contrário do que anuncia o nome, ocupam espaço. Meus pés, menos dados à metafísica, acabarão calçando o que restar por W.O.

Moral da história: apaixonar-se é um perigo, seja qual for a espécie do ser amado.

Mostrar mais

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar