Bia Mies no Crônicas Cariocas

  • Frango à milanesa

    Assim resumo meu começo torto, na última sexta-feira como cidadã “cachambianse” — e que se retire solenemente quem, dada a época do ano e o gentílico recém-proclamado, aguardar daqui em diante jogos de palavras tendenciosos à política do botão verde de CONFIRMA. Não me demoro nessa competição de temporada que, de tanto disputar digitais alheias, fere o sentido amplo de seu propósito; aqui, a politicagem é outra… distribui santinhos da experiência de pertencer, não papéis que emporcalham a cidade e mal chegam à reciclagem. Aqui, hei de fazer campanha pelas conexões de um povo que, mesmo estando eu de passagem, em apenas 04 meses aprendi a chamar de meu.

    Onde eu estava…? Ah, sim. Eu tinha acordado.

    Às 14h34, no susto. O alarme não tocou. Trôpega, peguei o celular e digitei sem muito cuidado com a caligrafia digital desatenta ao corretor ortográfico — que muito modifica sentidos quando nos pega desprevenidos — mil perdões esbaforidos para dona Rosa, da barraquinha de marmitas em frente ao meu condomínio.

    É a primeira sexta-feira de outubro, chuvosa como foram tantas sextas do mês e setembro. Dona Rosa me aguardava para entregar a marmita — a minha última; ela não sabe. Visto uma blusa e outra coisa que não se encaixa bem nas pernas. Troco, escovo os dentes, prendo os cabelos de um jeito sem estilo. Havaianas nos pés, venço o corredor do meu bloco, atravesso a área comum que me recepciona com gotículas finas e persistentes, libero meu acesso pela facial e ganho a calçada. Dois sorrisos (um sem graça, outro cansado), um abraço, mil outros perdões, vale-alimentação já na maquininha. Ela abre o isopor vermelho e lá está: o pote de isopor com “frango a amilanesa – Bia”. Eu quase choro.

    “Se cuida, menina! Descansa e se alimenta!” Pisquei os olhos.

    Passei boa parte da vida acreditando na precisão das palavras. Ainda acredito — e defendo, com postura de quase candidata a um cargo nas eleições deste domingo, 04 de outubro: corrijo acentos, vírgulas, concordâncias. Aprendi a amar as regras gramaticais quase como quem afia ferramentas: pelo som, pelo peso, pela precisão do corte. Mas quatro meses me ensinaram uma língua sobre a qual nenhuma gramática normativa poderia reivindicar propriedade.

    Quem diria que, ao acrescentarem mais um “a” ao prato do dia, numa alusão já bastante tropical a um suposto preparo italiano, logo eu — devota da palavra correta, amante e fluente na língua e cultura italianas — deveria ter sucumbido ali mesmo à indignação. Morri, sim, ali, na calçada. Mas de ternura; o tiro saíra pela culatra.

    Escrito à caneta na tampa de uma marmita descartável, o duplo “a” equivocado acertou em cheio: disse o que precisava ser dito; com o coração, não com o esnobismo. Era um “a” dobrado de afeto, expresso, tal qual um café, com aroma extra de amor. Na língua do cotidiano, fala-se que o segredo está no tempero. E todo mundo sabe que o caminho mais curto até o coração de um
    homem passa pelo estômago; antes dele, há o prato.

    Uma voz culta, musical e precisa surgira nos meus dias, preenchendo-os de possibilidade. Conhecia, pela tela, minha casa, meus cantos, o lugar onde eu escrevia e lia; falava de energia, de escolhas, interpretava minha exaustão como consequência de eu me dar demais ao que não merecia tanto de mim. Mas não me preparou prato algum e deixou pela metade até a única fatia de pizza que teve diante de si. Tanto discurso, tão pouco apetite pela experiência inteira. Pouco depois, retirou-se numa ausência orquestrada.

    (Curioso: eu, que comecei este texto expulsando a politicagem pela porta da frente me vejo, algumas linhas depois, de cara com a política acomodada à mesa. Não a convidei. Certas presenças têm o hábito inconveniente de sobreviver à própria ausência)

    Mas esta não foi a única voz a opinar sobre meus gastos. Outras, igualmente instruídas, também disseram que eu me despendia demais — e mal. Nenhuma delas soube ler o que tanta gente, sem qualquer pretensão de erudição, leu de primeira: minha energia não estava sendo desperdiçada. Escorria de mim como uma torrente, é verdade, mas encontrava mãos que trabalhavam comigo, cafés passados na hora, hambúrgueres que salvavam madrugadas, abraços, risadas e gente que simplesmente abria espaço para que eu coubesse inteira, só por ser eu. Há muito eu não me via tão feliz sem as malditas expectativas. Continuei me gastando inteira, como sempre. A diferença é que, desta vez, o desgaste me devolvia vida.

    “A a”bracei novamente.
    Ela, dona Rosa, ainda não sabia.

    ***

    Corda ao contrário no relógio.
    São 17h35 de quinta-feira; eu, na fila do Mega Matte.

    No caixa, a proprietária, que me viu algumas vezes. O atendente de sempre não estava por ali.

    “Um açaí fit de…”
    “…500 ml com proteinato!”

    A voz vem do movimento corporal de um atendente que eu nem havia percebido direito nos últimos quatro meses. Ele sorri para mim; sabe meu pedido. Sabe a mesa na qual me sento.

    E isso dói de um jeito bonito.

    Espero baterem meu shake, que substitui o almoço de quem acordou às 16h depois de trabalhar das 21h30 às 10h. Respondo alguns colaboradores, fornecedores, agendo as atividades da noite, peço apoio para compras de última hora.

    Confirmo o Pilates pelo aplicativo de check-in; ainda preciso passar na padaria para comprar salgadinhos e Coca-Cola — sugestão de uma das alunas. Convém apresentá-la antes que chegue atrasada algumas linhas adiante: na semana anterior, ao descobrir que minha condição de nômade incluía também uma despedida iminente, apareceu com um bolo de pamonha tão bonito quanto delicioso. Não sei se existe protocolo para acolher mulheres de passagem; se existe, desconfio que Deus envie anjos a nos entregar milho, açúcar e muita generosidade embrulhada para presente.

    Meu último dia no Pilates. Esta quinta.
    (Eu sei… a crônica está muito culinária e nada fit — nem ao corpo, nem a qualquer figurino político. Tampouco pretende entrar em forma partidária; apolítica, a esta altura, já vimos que também não é.)

    “Exercício e açaí fitness não casam exatamente bem com refrigerante e gordura”, penso diante dos quitutes. Por coerência, pego também uma caixinha de palmiers.

    Subo a Torre Norte até o nono andar, no terceiro elevador.
    Sorrisos.

    Alguns exercícios.

    A aluna do bolo de pamonha — eis que retorna a personagem, desta vez atrasada — chega e me abraça.
    Queridíssima.
    Ninguém está exatamente no clima de alongamentos ou superações musculares.

    Pausamos. Paramos em pé, ao lado externo da porta de entrada.

    “Sábado vamos dar uma volta e tomar um café antes de você ir.”

    Eu sorrio.
    Piscar de olhos.
    E já se foi o sábado. Eu não consegui encontrá-las.

    Tive de trocar o café prometido e a continuação das nossas histórias de vida pela arrumação da casa, 02 malas G de rodinhas, 02 mochilas, umas 07 sacolas retornáveis, alguns mantimentos e Magda Ficus Elastica Tineke Mies.

    Lembram-se dela? A roommate e única sobrevivente de “Esta história não é sobre plantas”, primeira crônica desta temporada inteiramente carioca. Minha bagagem concentradamente nômade revelou-se humanamente apegada: ocupou todo o maleiro de uma van executiva.

    Troquei também o café com minhas novas amigas por refeição alguma. Sobrevivi a uma sobra de queijo, restos de gelatina sabor banana Fini, água e água tônica do mercadinho-contêiner. (Vejam uma crônica tão culinária terminar o sábado em jejum. A coerência também se perdeu numa logística que se recusava a terminar.)

    Enfiei nos últimos microespaços, entre tecidos e objetos, o que não coube em mala alguma: sentimentos, memórias, aprendizados, alguma dor e muita felicidade. Até poucas horas antes, eu ainda imaginava continuar habitando aquela casa…O café ficou para trás; a Bialetti, foi envolta em plástico bolha. Abracei os funcionários do condomínio, tirei algumas fotos, troquei olhares de gratidão e, pela primeira vez, não levantei a planta do apartamento.

    Para uma arquiteta que costuma medir os lugares que habita, foi, no meu doce ver, a maneira menos técnica de manter a porta aberta.

    Deixei tudo sem escala.

    Inclusive a possibilidade de voltar. De acordar outra vez com os ruídos abafados pelo drywall; finalmente cumprir a terceira ida à piscina, desta vez com sol, diante do salva-vidas que muito mais me viu passar prometendo “qualquer dia eu venho” — gerúndios infinitos — do que em trajes de banho. Quem sabe madrugar, enfim, na academia do condomínio ou levar uma outra almofada para um banco lá fora e partilhar da minha solitude com as estrelas, uma vez mais.

    E tomar, como de praxe, meu café no sofá das leituras domingueiras.

    ***

    Os seguranças do shopping sabem meu nome.

    Os responsáveis pela manutenção, idem.

    As docas do Norte Shopping me receberam de braços abertos — em alguns dias, em mais de um idioma.

    Os corredores dos acessos restritos são labirintos familiares.

    O time da loja me cumprimenta e ainda me manda mensagens perguntando onde estou (“tem um vazamento”, “uma tomada pifou!”, “como é que faz isso mesmo?!”, “está a caminho?”). Os seguranças extras que acompanham a continuação dos serviços sorriem.

    O celular toca.

    É a Katia.
    “Chegou encomenda, bebê.”

    Cruzo as partes cobertas e abertas do pátio do centro comercial. Quando noite, chuvosa, percebo o reflexo dos painéis de led nas poças sob os meus pés. Sempre achei incríveis essas escadas rolantes que se deleitam com as chuvas. Atravesso as faixas carroçáveis e recolho mais uma entrega para a obra.

    Meu rosto é reconhecido.

    Abaixo dele, ora aparecem bloco e apartamento; ora, seis números me transformam em Ordem de Serviço.

    “Bom dia”.
    “Boa tarde”.
    “Boa noite”.

    Essa experiência nômade me deu o que anos de retornos e permanências imprevistas à minha cidade natal não conseguiram: conexões profundas.

    E pensar que cheguei aqui com bagagem demais e uma carta escrita vinte anos antes, destinada a ser aberta — embora o remetente esperasse que nunca fosse — num momento de tristeza pontuda; fora escrita exatamente no mesmo dia em que, vinte anos depois, cheguei a este lugar.

    Ah, minhas adoráveis dobras do tempo..!

    Foram tais palavras antigas e tão frescas que me tomaram no colo e atravessaram comigo a porta do apartamento. De algum modo, também moraram aqui.

    Outras presenças chegaram sem atravessar o portão preto.

    Promessas de vinda permaneceram suspensas, alimentadas por chamadas, vídeos, noites e possibilidades. Houve quem conhecesse pela tela minha casa, a disposição dos móveis, meu espaço de escrever e de ler, meus silêncios, meus fins de noite.

    Conheceram, no raso, um lugar em que nunca estiveram.

    Restaram sombras e ausências muito latentes.

    Os olhos marejam.
    Pego novamente a carta.
    Releio.
    A mão esquerda sabe.
    Respiro.

    ***

    Minha mãe e Zeca vieram passar uns dias.

    Choveu e fez frio.

    Eu tive febre. Por 12 dias consecutivos. Não pude utilizar-me de atestados.

    Trabalhei horas e horas e horas.

    Um dos meus melhores amigos fez ponte aérea para passar um dia participando da minha rotina.

    Um colega de ofício, presente da escrita criativa que a vida transformou em amigo veio, de moto Uber, tomar café só para bater papo. Depois me chamou para filar uns comes e bebes na inauguração do novo Manolo do Rio de Janeiro.

    Magda cresceu comigo, perdeu folhas e ganhou novas.

    Eu também.

    Fui duas vezes à piscina.

    Duas.

    Em quatro meses.

    Na última, atravessei os azulejos a nado, ida e volta; me sentei numa espreguiçadeira dentro da prainha, boiando.

    Achei que, finalmente, faria absolutamente nada.

    O celular corporativo tocou.

    Depois tocou de novo.

    E de novo.

    E de novo.

    Foram mais de dez ligações.

    Eu trabalhava de dentro da piscina.

    Ri.

    Parece literatura, e é; a certa altura, até a falta de pausa virou uma das pausas que eu registraria por aqui…

    ***

    Jamais esquecerei a barraquinha de hambúrgueres, que salvou noites intermináveis de trabalho e rapidamente nos promoveu a clientes VIPs: eu, meu par à frente da engenharia da obra, a técnica de segurança e o bombeiro.

    Hambúrgueres em horários em que pessoas normais dormiam. Cafés levados em garrafas térmicas que não chegavam a meia-noite de um turno comum. Depois, os cafés moídos na hora na copa da retaguarda. Muitos. Pizzas. Frutas. Conversas em pé. Conversas sentadas no chão. Retoques. Mais retoques; um checklist que parecia reproduzir seus próprios itens quando ninguém estava olhando.

    A construtora e a gigante multinacional do varejo me deram trabalho. Muito. De noite, de dia, à tarde; jornadas que algumas vezes pareciam não compreender muito bem a existência dos relógios e, ainda assim, se mostraram mestras em me proporcionar VIDA.

    Há uma ironia maravilhosa nisso: em 04 meses de obra, trabalhando em todos os turnos possíveis, o que mais se escreveu na minha vida foram as pausas.

    As pequenas.
    As roubadas.
    As inventadas.

    As que cabiam entre uma ligação e outra, entre uma madrugada e o amanhecer, entre um problema e outro, entre duas pessoas, entre uma equipe que, aos poucos e rapidamente, adquiriu contornos de família.

    Entre a vida que eu trouxe para cá e a que começou a nascer aqui.

    O final não poderia ter sido mais leve: 10 a 14 horas de trabalho noturno, de segunda ao amanhecer de sábado.

    Na terça, entretanto, fomos surpreendidos pela Light, que desligou, para manutenção, a energia de todo o shopping e nos obrigou a correr e interromper a programação. Foi providencial para que meu amigo viesse.

    Nos outros dias, empresas antigas e uma nova bateram ponto com pessoas queridas das equipes dos nossos colaboradores. Gente que já não era apenas profissional trabalhando de madrugada. Gente cujo nome passou a morar comigo, no rol dos rostos cachambianses.

    Na última madrugada, entre um retoque e outro e a espera pelo profissional seguinte, joguei forca, jogo da velha e fiz uma mímica inesquecível de filme com uma segurança que, desde o início, tinha uns ares estranhamente familiares.

    Rimos no meio de uma loja vazia depois de horas e horas acordadas. Tomamos café e água. E ouvi dela que nunca havia sido tão leve virar tantas noites. Que eu ficaria na saudade.

    Ela também. Ela e sua promessa de um calendário personalizado. “Um de 2027, claro”.

    Clareia o dia lá fora, mas aqui o ar condicionado ainda é gélido. Café passado. Mais um ajuste. Mais um item riscado.

    Uma fruta.
    Uma pizza dividida.
    Lactose sem proteção e sem riscos.
    Uma ferramenta que some.
    Uma risada.
    Um “Bia!”.
    Um “bebê”.
    Um “bom dia” dito às cinco da tarde.
    Um “boa noite” às oito da manhã.
    Fecho os olhos.

    ***

    Em quatro meses fui mais arquiteta, escritora, amiga e ser humano do que havia me percebido nos últimos dez anos:

    Aprendi a respirar. Aprendi sobre a minha energia. Me apaixonei.

    Por momentos.
    Por pessoas.
    Por lugares.
    Por plantas.
    Por cervejinhas compradas no mercadinho 24 horas do condomínio e tomadas no amanhecer de um dia comum.
    Por uma promessa.
    Por presenças.
    Por ausências.
    Por uma carta de vinte anos que chegou comigo.
    Por pessoas que sabiam meu pedido antes que eu terminasse a frase.
    Por quem aprendeu meu nome.
    Por quem me chamou de bebê.

    Por quem me abraçou na despedida sem ainda entender direito que era despedida.

    Eternizei meu primeiro eclipse visto a olho nu, deitada no banco deste lugar que se tornou tão profundamente lar.

    Fui feliz. Sou feliz.

    Há dor dentro disso. Muita.

    Há também uma mulher nova refletida no espelho. Uma que pela primeira vez nesta década olha para a própria imagem e reconhece estar viva. Muito viva.

    Hoje reorganizarei a vida dentro de malas de rodinhas 360°. Dona Rosa ainda não sabe que aquele frango à milanesa foi o último. O atendente do Mega Matte talvez ainda espere que eu apareça na segunda-feira pedindo meu açaí de 500ml.

    Meu rosto ainda abre a porta do condomínio. Meu nome ainda está ali. Por mais algumas horas.

    E eu descubro, quase na saída, que uma experiência nômade não me ensinou a não criar raízes, mas que elas podem brotar e frutificar muito depressa.

    Nos outros.
    Nos lugares.
    Em nós.

    E que, quando chega a hora de partir, não há nada a arrancar.

    Pisco.
    Fotografo com o celular, a instax e a retina.

    Pego as bolsas pelas alças, a Magda pelo pratinho e levo tudo junto. 125 dias aqui, entre idas a São Paulo, Jundiaí, Nova Friburgo e Porto Alegre.

    Pisco.
    Persisto.
    Me visto.

    É chegada a hora.

    E, de repente, já é domingo.

    Termino este texto já com o café da manhã esfriando. Preciso do meu título de eleitora. Da minha colinha.

    Após tanta política, tanta comida e tanto afeto, chego à conclusão mais urgente desta crônica:

    quero almoçar um belo frango à (a)milanesa.

  • Crônica de fim de tarde de uma Segunda, Terça ou Quarta-feira

    A esperança é uma droga alucinógena. Tal frase causou impacto repentino, travando o movimento corriqueiro do dedo sobre a tela brilhante. “Era isso, muito provavelmente”. Não tinha experiência anterior com drogas, não sabia que a esperança poderia ser vista assim: alucinógena. E era. Era o que ela pressupunha a partir do que sentia: esperava ventos na direção oposta, um misto de fé na natureza e também nas cartas do tarô da esposa do seu Ercílio — “com E mesmo”.

    Segunda, terça e quarta, por serem os dias menos movimentados do restaurante, Ananina fechava as portas do térreo e subia a escada caracol dos fundos, religiosamente, às 17h45 da tarde. Às 17h50 já tinha percorrido o corredor de longos metros lineares, sem elevador e cuja escada de emergência situava-se na outra extremidade, subido três lances para então aguardar, com mais três pessoas, a abertura da porta do 408.

    Hoje, terça-feira dentro do corrido e chuvoso mês de setembro, Ananina esperava a sua leitura do tarô. Hora marcada, mas entrada por ordem de chegada. Era a primeira da fila. Seu Ercílio apareceu no corredor. “Olá, Ana-Aninha; Olá, Olaviano. Olá para você também, mocinha, bem-vinda. Sou o Ercílio. Entrem”. “Ercílio se escreve com H ou E, senhor?”, perguntou a novata na arte de aguardar as leituras de início da semana.

    Seu Ercílio, “com E mesmo, moça”, trazia sua bandeja de prata costumeira, com chá de hibisco, café, três copos descartáveis de baixa estatura e uma cestinha com pães de nata. “Nata, porque um T é melhor do que um D e as leituras anunciam tudo, basta que nos concentremos no aqui e no agora. Coma um pãozinho, se assente aqui.”

    Os três entraram na saleta improvisada, que funcionava como um terminal rodoviário em escala mínima. Pelas duas seteiras, estreitas como estrias verticais arreganhadas na parede, via-se o amontoado de pombos no meio da praça, em frente à igrejinha. Havia cheiro de cigarro no ar – ou cachimbo. Um ruído constante saía do radinho à pilha: pareciam os alardes de um alto-falante anunciando as próximas saídas de veículos-viajeiros, com a mesma solenidadede quem canta os números de um bingo. Ananina foi chamada com o olhar de seu Ercílio. Levantou-se da cadeira estofada com palha e deu cerca de dez passos à frente. Afastou a cortina vermelha de veludo, logo à direita. A luz era arroxeada.

    De costas, a mulher de seu Ercílio parecia um duende de Papai Noel que ficara roxo de raiva. “Pode sentar.” Ananina obedeceu e sentou-se. A mulher não; continuou de costas por alguns segundos, remexendo qualquer coisa numa prateleira. Ananina aproveitou para olhar a sala. Havia uma imagem de Nossa Senhora, um elefante de louça com a tromba para cima, uma samambaia que já aceitara a morte sem comunicá-la oficialmente à família. Abaixo deste ente moribundo, sete cristais de procedência duvidosa.

    Sobre a mesa, um pano preto salpicado de luas douradas — “ou restos do almoço, o que também seria uma espécie de constelação”, pensou Ananina. Ia continuar olhando, porque às vezes olhar é só uma forma educada de não saber o que fazer, quando o escuro diante dela se moveu. A mulher se virou. Por um instante mínimo, a luz negra voltou a caber na sala. Não
    era um duende.

    Era pior: era uma pessoa comum.

    “Corta com a mão esquerda.” Ananina cortou. “Agora com a mão direita… não… tenta a sua outra mão esquerda, então…” Ananina sempre tinha suas dúvidas sobre qual mão era uma direção ou outra. Precisava fingir que escrevia algo no ar para ter certeza da mão esquerda, era canhota.
    “Agora pensa.” Pensou.

    “Não precisa pensar tanto.” Ananina piscou, mudando o olhar do baralho para os olhos de Helena.

    A mulher virou uma carta. Depois outra. Depois uma terceira, que olhou por tempo suficiente para que Ananina começasse a desconfiar que talvez tivesse saído ali alguma coisa envolvendo morte, casamento ou imposto atrasado. “Tem distância.” Ananina olhou para a carta.
    “Distância?”
    “Tem.

    Helena virou mais uma.
    “E notícia.”
    Outra.
    “E uma pessoa.”
    Ananina quase perguntou se a pessoa tinha CPF, porque ajudaria bastante. Quase; não perguntou.
    A mulher continuou:
    “É alguém que permanece. Mas não está exatamente perto.”

    Era curioso como o tarô tinha adquirido, em menos de trinta segundos, a precisão geográfica de um aplicativo de mapas com sinal ruim. Ananina olhou para as cartas abertas. Distância tem nove letras e um chapéu, que pode ser de despedida, velório ou em prol da moda. Distância não parece, com toda a sua pompa, circunstância e tamanho encorpado, mas é pobre.

    Pobre de espírito.
    “Pobre de quem dela depende. !”,
    pensou. E no fluxo da reflexão, complementou:
    “Não sei se prefiro estar à distância de um vídeo ou à distância de uma carta.”
    Helena-duende-de-raiva ergueu os olhos.
    Ananina percebeu que tinha dito em voz alta.
    “Como?”
    “Nada.”
    Mas não era nada.

    A carta, ao menos, não tem olhos. Não olha de volta e pode-se tocá-la sem que esta recue. Dobrá-la. Guardá-la entre páginas. Levá-la para a cama sem pedir licença. Esquecê-la numa gaveta por seis anos e reencontrá-la numa terça- feira entre um carnê da loja de sapatos vencido e uma fotografia que pára o próprio tempo. Pode- se cheirá-la. Cartas têm cheiro. Até quando não têm, têm. Há nelas a certeza de uma mão ter estado ali antes da nossa. Uma mão real. Com unha, veias, pele, talvez suor. Uma mão que escreveu, gozou, limpou-se de forma higiênica – ou não – e depois fechou o envelope. Talvez com saliva. A carta sabe ir embora.

    Já o vídeo, não.
    O vídeo fica: Há boca. Há olhos. Há a possibilidade da transmissão ao vivo, com lapsos de segundo que balançam em função de quantos "Gs" temos à disposição. Vídeos meandram entre aquela pequena inclinação da cabeça quando alguém escuta, os dentes, o cabelo fora do lugar. Há uma pessoa inteira acontecendo a cinquenta centímetros do rosto e a quinhentos, cinco mil ou dez mil quilômetros do corpo. Isso deveria ser proibido.

    Ou tributado.
    Ananina imaginou uma repartição pública responsável por distâncias afetivas.

    “Boa tarde. Vim renovar minha saudade.”
    “Trouxe comprovante de residência?”
    “Não. Só a roupa do corpo… e o celular, serve?”
    “Bom… então a senhora vai precisar sofrer mais trinta dias e retornar com original e cópia.”

    O vídeo era isso: pura burocracia do desejo.
    Mostrava tudo o que faltava: a testa em que se queria encostar a própria testa; a boca que se queria beijar; o ombro onde caberia perfeitamente uma cabeça… Uma pessoa inteira comprimida numa tela pequena demais para abraçar alguém. A carta era mais feliz porque mentia melhor. A imagem saltitante era cruel porque provava que existia aquilo que faltava.
    Helena virou outra carta.

    “Tem espera.”
    Ananina riu. Riu não porque fosse engraçado, também não porque não fosse. “Quanto tempo?”
    A mulher juntou os lábios. Esse era, concluiu Ananina, o momento exato em que todos os oráculos do mundo se tornavam funcionários públicos:

    “Tempo é difícil de precisar.”
    Claro.
    A esperança, ao contrário, era pontual.
    Chegava cedo.
    Sentava na primeira cadeira.
    Comia dois pães de nata de uma só bocada.
    E, sentada na saleta, cheia de farelos de glúten, aguardava a sua vez.

  • Com qual “provante” ficar?

    Eu me apaixonei por um sapato. Na verdade, por dois; ainda não sei com qual deles ficar.

    De um lado, um exemplar — par só depois de escolhido; antes disso, convenhamos, é pretendente. Honestamente, nem isso; ficante tampouco: apenas um provante — atrevidamente decidido: em pelo preto, bolinhas brancas disformes, salto alto e grosso, ponta quadrada vermelha. Vermelha mesmo. A irregularidade do branco ainda ensaia alguma compostura, categoricamente desmentida pela desfaçatez de quem, no limite do primeiro passo, resolveu acrescentar alguma coisa que a mãe certamente desaprovaria. Parece ter alguma vantagem nessa cor brilhante e atrevida, justamente da cor que anda me faltando.

    Do outro lado, o oponente de couro amarelo-limão-siciliano — minha cor preferida, o que já configura certa vantagem indevida — apresenta-se com menos altura. Tamanho nunca foi documento; e, se fosse, não caberia a uma mulher apaixonada conferi-lo: córneas flechadas não são instrumentos confiáveis de medição. Quanto ao juízo, este parece ter ainda menos: salto baixo e fino, bico comprido, quase um papagaio, e uma pequena confusão de amarelo, azul-marinho e prata no calcanhar, onde uma almofadinha parece ter sido posta para protegê-lo das consequências das próprias escolhas. Parece livre. Libertino, não direi; esta crônica ainda mal começou e não convém difamar um provante antes do primeiro passo em falso.

    Aquele pisa firme. Este parece prestes a levantar voo.

    Bisbilhoto um, namoro o outro. Volto ao primeiro às escondidas, como se o segundo pudesse descobrir. Faço contas, entro no site de uma loja, retorno ao da outra — ainda bem que a internet mantém vitrines abertas ad aeternum. Salvo fotografias, amplio detalhes, ensaio no ChatGPT versões de mim mesma calçando um e outro. Não sei se procuro sapatos ou se os sapatos, a esta altura, é que já estão procurando por mim — que delícia ser disputada, ao menos em pensamento!

    As imagens têm meu rosto, meu corpo, meus cabelos; ainda assim, há nelas alguma presença que não sei nomear. E minhas últimas setenta e quatro páginas de leitura de umas crônicas sombrias me aconselharam prudência com presenças sem nome. Soa estranho, quase calvo, reconhecer-me num espectro de mulher renderizada que ainda não existe. Mais estranha é a suspeita de que exista e esteja apenas de butuca, esperando alguma coisa para aparecer.

    Tudo isso para escolher um sapato, você pensa. Pense. Também eu acreditava nisso. Até perceber que vinha conduzindo o assunto pelo avesso: não imaginava os sapatos em mim. Imaginava quem eu seria dentro deles.

    É uma diferença pequena, dessas que cabem entre o pé e o couro. Você aí, não a despreze… Há quem aperte a vida alheia por muito menos; não lhe investiguemos os motivos, que esta é uma crônica de sapatos e temos assunto suficiente.

    Mentira.

    Pensando em sapatos, fui parar na filosofia oriental — o que não chega a ser o destino mais provável de um sapato. Mas já que demos o salto, foi mais alto do que baixo, eu diria (ponto para o exemplar preto?). Em Ausência, Byung-Chul Han escreve que esquecemos os pés quando usamos os sapatos certos. Fiquei presa à frase, maneira bastante ocidental de ler sobre desapego, apegando-me de antemão. A mão é força de expressão; esta crônica, até segunda ordem, continua à altura dos pés. E um pé bem calçado simplesmente anda. Se estiver estiloso, anda de cabeça erguida.

    É, até que faz sentido eu me apaixonar por um (ou dois) sapato(s).

    Diria que soa mais prudente do que se apaixonar por uma (ou até mais de uma) pessoa. Sapatos não prometem que vêm depois, não desaparecem no meio de uma conversa nem dizem uma coisa na terça e outra completamente diferente na sexta. Não deixam de pagar a conta; simplesmente não o fazem. No máximo, apertam. E, quando apertam, têm a decência de informar onde.

    Não são grudentos, jamais ciumentos: tirá-los por algum tempo costuma ajudar. É até bom não usar o mesmo sapato todo santo dia; o pé respira, a bolha cicatriza e ninguém pede explicações. Alguns cedem com uma vela, outros com tempo e alguns passos pela casa. Amolecer para continuar. Continuar para esquecer.

    Esquecer, aliás, não é necessariamente perder. Aprendo com Han que pode ser simplesmente parar de segurar. E aí a água me parece uma professora mais eficiente que a filosofia: envolve o corpo inteiro, mas escapa quando fechamos a mão. Algumas paixões têm a mesma falta de educação. Passam pelos dedos sem pedir licença. A água vai embora; a mão fica molhada. Água e memória; algo permanece, mesmo depois que seca?

    Sapatos, felizmente, têm maior vocação para a permanência. Passam por cima de tudo. Depois é só limpar ou engraxar e ficam prontos para outra.

    Eu ainda não comprei nenhum dos dois. Nem sei se vou… será? Posso continuar meu flerte entre janelas. E, se não escolher nenhum, ainda posso andar de cabeça erguida. Na ponta dos pés, calçando sandálias havaianas, se preciso. Uma pincelada de esmalte resolveria a falta de cor — e custaria menos que certas paixões, sobretudo quando já se anteveem os juros do parcelamento do provante. Esta semana comprei três potinhos de esmalte: Intuição, que já está cintilando em meus vinte dedos; Novos Ares, que fica para a próxima semana; e uma outra cor da qual já não me lembro o nome — e nem vem ao caso, estamos perdendo o foco.

    Comprar ou não comprar, eis a questão? Decidir pode ser também deixar alguma coisa onde estava. Apaixonar-se, de soslaio, inclui uma possibilidade que as vitrines, por compreensíveis razões comerciais, não anunciam: perder. Eu ainda posso perder os sapatos por esgotamento de estoque.

    Sei que ver o número 37 inatingível ao clique, em qualquer um dos provantes, vai me preencher de ausência. Uma ausência tamanho 37, precisamente. E ausências, ao contrário do que anuncia o nome, ocupam espaço. Meus pés, menos dados à metafísica, acabarão calçando o que restar por W.O.

    Moral da história: apaixonar-se é um perigo, seja qual for a espécie do ser amado.

  • Manta, pipoca e duas em uma

    Me dói.

    Um sofá cinza acolhe um corpo enrolado em uma manta pequena. Uma almofada faz as vezes de travesseiro. O ambiente é iluminado pelos feixes de luz que mudam constantemente de intensidade e cor, vindos da tela de grandes proporções, onde a Netflix permanece em pausa, e pela abertura mínima da cortina da varanda — mantida assim para que a planta ali postada, de sentinela, possa respirar.

    Certas dores dispensam gramática; já chegam sabendo ser substantivo, verbo e sentença. Encolhido no sofá, meio corpo dentro de uma febre que não termina de ir embora, meio corpo dentro de uma lista de coisas que também não termina nunca. Há trabalho espalhado pela casa: folhas sobre a mesa, o computador em estado de espera, o WhatsApp, talvez até dentro da geladeira, se houvesse forças e coragem para abri-la. Eu deveria estar fazendo alguma dessas coisas.

    Não estou.

    Estou debaixo da manta souvenir de uma viagem de avião emblemática.

    Digamos que tal elemento foi incorporado ao meu enxoval-patrimônio-itinerante. A manta é fina demais para aquecer alguém, mas tem a qualidade invejável de me fazer pensar em aeroportos. E aeroportos, ultimamente, são uma espécie de esperança com portão de embarque e um caminho sem migalhas de pão para o qual retornar. Penso nas próximas viagens. Em cidades nas quais ainda não fui, nas que habitarei temporariamente em breve. Numa janela desconhecida, numa rua que ainda não sabe meu nome. Na minha versão ainda sem rosto.

    Talvez seja a febre, mas penso também na estranha vontade humana de caber por alguns minutos no abraço de alguém. Nem sei de quem. Talvez nem importe. No meu encolher suado, sorrio. “Assim caminha a humanidade”, surge um pedaço de uma velha canção conhecida. A ausência tem dessas crueldades: às vezes nem rosto possui. Aperto a manta contra o peito.

    E eis que alguma coisa se mexe ali dentro. Estremeço.

    — Sai.

    Nada.

    — Eu sei que tem alguém aí.

    Uma cabeça surge na altura dos meus joelhos.

    Cabelos pretos. Cachos lindos, insolentemente bem definidos, como se nunca tivessem ouvido falar em progressiva, secador, escova rotativa ou no projeto feminino de pacificação da vida.

    Depois vêm dois olhos enormes.

    Pele branquíssima, jovem, intacta daquela maneira ofensiva como só a pele infantil consegue ser. Ela segura um pote de pipoca entre os dedos. Sorri sem mostrar os dentes.

    Reconheço imediatamente.

    A menina sou eu-de-antes.

    A versão de mim que ainda não tinha aprendido que os cachos não eram um problema a ser resolvido. Na verdade, os cachos nunca foram um problema. Nem o corpo. Nem a vida. Ela se enfia mais para dentro da manta, ajeita as pernas sobre as minhas e pergunta:

    — Vai rolar Netflix ou você vai continuar fazendo essa cara de mulher abandonada num romance russo?

    Olho para ela.

    — Estou com febre.

    — Eu vi.

    — Tenho muito trabalho.

    — Também vi.

    — E estou triste.

    Ela mastiga uma pipoca.

    — Isso eu senti da cozinha.

    Ficamos em silêncio. Pego o controle remoto. Escolho uma série. Comédias com pessoas fazendo coisas moralmente questionáveis sempre me acalmam. Talvez porque a moralidade alheia seja um ótimo descanso do próprio cotidiano.

    Minha criatura acompanha tudo com enorme concentração, enfiando duas pipocas de cada vez na boca, e depois de alguns minutos começa a emitir opiniões não solicitadas.

    Aquela ali é meio burra, olhe bem.

    A outra está mentindo; como mente mal, coitada.

    A terceira deveria fugir.

    Esse homem tem cara de quem pede desculpas e repete exatamente a mesma coisa depois.

    — Você tem oito anos — digo.

    Ela me olha.

    — E você tem quantos e continua caindo nessa?

    Não respondo.

    É desconcertante ser chamada à atenção por uma criança que mora dentro da própria cabeça. Puxo mais a manta. Ela também. Lembro-me do cabo-de-guerra, minha/nossa modalidade preferida nas Olimpíadas da escola. Ficamos ali, empatadas, apertadas dentro da manta: duas mulheres ocupando o espaço de uma pessoa só, embora tecnicamente exista apenas uma nesse nós.

    Começo a pensar que eu e minha Pequena passamos a vida inteira aprisionadas juntas. Não de forma trágica – ou não apenas: um quê de prisioneiras livres. Crescer, penso, é como construir paredes de um material que não é tijolo, cimento ou drywall. É outra a técnica, outra materialidade. O cabelo que era melhor alisar. A palavra que era melhor não dizer. O choro que era melhor engolir. O sonho que era inconveniente. Silêncios. E mesmo assim, lá dentro, essa criatura continua fazendo piadas. Idealizando histórias. Apaixonando-se por palavras estranhas. Mudando o nome das coisas. Inventando saídas. Comendo pipoca.

    Como não percebi antes?

    Ela me olha, entende a pergunta não pronunciada e faz uma cara de “sei lá”, intensificada pelo levantar dos dois ombros. Volta a assistir à série.

    — Lembra da cabana da Barbie?

    Ela levanta a cabeça de imediato.

    — Claro, né? Montávamos no meio da sala. Papai era sempre quem ajudava com a estrutura: aquelas paletas de madeira, as junções de plástico, uma engenharia doméstica de altíssima complexidade e baixíssimo rigor normativo. Depois enfiávamos o meu colchão lá dentro. O colchão, maior que a cabana, vazava pela porta de tecido. Era o máximo dormir lá, com as pernas para fora.

    Havia alguma coisa extraordinária em construir uma casa que mal conseguia conter aquilo que nos fazia dormir. Será que era isso que me fazia sentir tão segura?

    — Agora temos aquela barraca de camping tamanho família — digo.

    — Aquela que também só usamos na varanda da mamãe?

    Rimos.

    — Somos péssimas nômades. Apesar de nômades sermos, verdadeiramente, agora.

    Minha Pequena discorda.

    — Somos ótimas em tornar qualquer lugar habitável.

    Fico quieta.

    Olho ao redor.

    A manta do avião. O sofá que não é meu. Pratos que não são meus, talheres de bambu que são. As malas.

    As coisas temporariamente permanentes.

    As coisas permanentemente temporárias.

    — Vai ver foi por isso que você se tornou arquiteta.

    — Nós nos tornamos, ela corrige.

    Isso. Nós.

    — Você pensa demais, diz.

    —Nós pensamos. Sempre foi assim.

    Minha versão Miúda se emburra imediatamente, como sempre, quando contrariada. A boca fecha. O queixo sobe. Os olhos acusam o mundo de um crime gravíssimo que ninguém ainda conseguiu identificar.

    — Ah, pode ir aprendendo a melhorar essa carinha aí. A vida vai bater na gente feito carne crua — aviso — Anos de terapia poderiam ser poupados se esse papo estivesse acontecendo um pouco antes.

    Rio.

    E estamos no Rio, penso. Ainda.

    Rimos juntas, duas nômades que constroem barracas em varandas. Duas arquitetas especializadas em fazer caber casa dentro de mala.
    Desmontar.
    Dobrar.
    Guardar.
    Levar junto.
    Montar de novo.

    Ela pega outra pipoca; ajeita-se ao meu lado, pousando a cabeça no meu ombro esquerdo. A febre continua. O trabalho continua. O abraço continua no ar; nada foi resolvido.

    Ainda assim, há uma casa improvisada debaixo daquela manta fina demais.

    Uma menina.
    Uma mulher.
    Um pote de pipoca.
    E uma próxima viagem batendo à porta.

    Acho que somos mesmo prisioneiras livres. Mas com uma prisão que desmonta.

    E cabe na mala.

  • E Ainda é Agosto

    “É 29 de agosto. Em 48 horas, sua vida mudará para sempre.”

    Mais uma vez estava eu vidrada diante da tela. O dia era 29 de agosto, ontem, como foi no ano passado e no ano antes dele. A melodia inebriante preenchia os vazios que o ar-condicionado a 21ºC fazia flutuar no quarto hermético do Cachambi:

    O som avança em pequenos impulsos, como passos curtos e apressados que de repente… desaceleram. Expande e…. recolhe. O acordeão dá a sensação de ar sendo empurrado e puxado, como se abríssemos e fechássemos o peito. O piano pinga notas regulares por baixo, num conta-gotas, como dedos tocando uma superfície de vidro. Há uma leveza quase mecânica, quase de caixinha de música, acrescida de alguma coisa melancólica presa entre uma nota e outra.

    Este ano, como em todos os outros, meu encontro é diferente: percebo detalhes que nenhuma das minhas versões havia percebido antes. Convidei também minha eu de quatro anos, que se senta ao meu lado, entre os mesmos lençóis que a minha versão em carne e osso, sorridente, embora presa dentro de um porta-retrato de vidro. Cabelos fartos, longos e cacheados, os lábios que não precisavam, àquela altura, dos dentes para mostrar, através das íris, a felicidade de estar vivendo o presente. Hoje não sei fazer o mesmo com tamanha desenvoltura e naturalidade.

    Na fotografia, estou com a guirlanda do casamento da minha mãe e um vestido branco, pronta para me casar com um dos meus amigos mais antigos. Não seria a única vez: nós dois nos casaríamos outras vezes em festas juninas, três ao todo, como se a infância insistisse em ensaiar futuros que jamais aconteceriam daquela forma; décadas depois, tive o prazer de projetar e acompanhar as etapas iniciais da casa onde ele e a esposa, meus queridos amigos, morarão em breve.

    É ou não uma prova cabal de que o destino adora ironias, coincidências e, às vezes, tem um senso de humor bastante sofisticado?

    De vez em quando, a luz da tela atravessa o quarto e o vidro devolve cenas de Amélie. O rosto dela se sobrepõe ao meu, de criança, depois desaparece. Em certos segundos, já não sei muito bem qual das duas estou olhando.

    Quem sabe, pelos reflexos, me pareça cada vez mais evidente que fui crescendo como uma mistura amadurecida das minhas referências preferidas: um pouco Amélie Poulain, um pouco Margherita Dolcevita, Lois Lane, Hermione Granger, Bela —
    personagens que, por razões diferentes, foram me cedendo pedaços até que eu pudesse desenvolver os meus, autênticos. Depois de certa idade, minhas referências femininas passaram a ser também Jane Austen, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Etta James, Norah Jones, Celine Dion, Julia Roberts e mulheres comuns do dia a dia, cujas qualidades absorvo profundamente — pela leitura, tom de voz ou proximidade — para ir recortando os fragmentos que compõem o meu eu de hoje: sempre, e cada vez mais, um livro de fotografias rasgadas e reconstituídas.

    É curiosamente apropriado que essa fusão aconteça atrás de um vidro. Afinal, em Amélie, um dos homens que melhor sabe ler a vida passa vinte anos refazendo o mesmo Renoir. Chamam-no de homem de vidro.

    Daqui a três meses, eu de hoje e Amélie Poulain teremos quinze anos de diferença etária. O engraçado é que, embora essa diferença aumente ano após ano, a profundidade da nossa familiaridade não diminui. Encontrar Amélie nos 29 de agosto da vida é como reencontrar uma amiga de infância.

    E cá estamos, as três, pausando o filme para vibrar com uma ideia criativa, uma inspiração, fazer anotações ou preparar um café na minha moka italiana para tomar com Nino Quincampoix no Café des 2 Moulins.

    Até que a “Amélie aqui” começa a recortar antigas cartas de amor de sua vizinha imaginária, ressecada pela vida.

    Então penso que uma semana também possa ser remontada assim:

    A tesoura tem uma vantagem loquaz sobre a memória: rasga, de fato, a cronologia. Torna-a palpável:

    uma observação astronômica pode parar ao lado de uma conversa sobre romance imaginado; um homem de setenta e tantos anos opera o septo porque ainda espera encontrar o outro pé para seu par de chinelos — sem roncos, parcimônia libertária do romantismo; alguns takes adiante, outro homem fotografa, quem sabe, para não desaparecer; a Lua pulveriza matéria depois dos impactos e, vista daqui, chamamos os vestígios claros de raios.

    Eu me deitei por duas horas no banco sem encosto do condomínio e vi o vermelho se apossar do brilho refletido da Lua. Eclipse parcial. A olhos nus. Sombras mimetizaram por instantes o coelho que tantos enxergam — dizem que só os apaixonados conseguem vê-lo.

    A humanidade é esquisita: passa por colisões e inventa nomes e figuras de linguagem bonitas para aquilo que permanece visível. Ou quase.

    Me disseram, também nesses últimos dias, que há muita coisa bonita para vermos no céu. Algumas imperfeições só aparecem por causa da luz refletida pela atmosfera da Terra. Gosto particularmente de imperfeições. E, durante um eclipse, quando alguma coisa que costumava iluminar desaparece, vemos mais estrelas. Não seria assim quando nos deixamos colidir com o silêncio? Percebemos mais outras coisas, no todo de todas as coisas?

    Anotei isso. E percebi: vivenciei um eclipse em solitude física, enquanto vozes de todo o Brasil atravessavam meus ouvidos com comentários e explicações astronômicas. Eu, que quando criança ganhei medalha e certificados em Olimpíadas Brasileiras de Astronomia, sorri.

    Entre as anotações da semana — eleições, guerras, mísseis, geleiras, Wall Street em queda — havia também uma rosa. Murcha. Faltou hidratação. Tenho bebido pouca água. Por alguns dias, certas coisas pareceram sofrer do mesmo descuido. Cortada do pé e posta numa sacada, a rosa começou a perder pétalas. A Fera permanece, então, a mesma fera? Ou a Bela – que não é princesa – faz uma jogada no tabuleiro de xadrez da vida para que a magia aconteça?

    Tenho pensado que preciso de mais vermelho na vida…

    O quarto de Amélie interrompe meus desejos; seus pequenos incêndios domésticos, o contraste cromático com o verde. Minhas plantas. Sinto falta de casa.

    Talvez eu acrescente vermelho ao meu quarto, quando — ou se — eu voltar. Não por decoração. Por discurso.

    Amélie e minhas diferentes eus gostamos de estratagemas: surpresas, escolhas semânticas, pequenos deslocamentos de sentido. Em 31 de agosto, há quem a rotule covarde por não encarar o que sente. Então ela escancara a porta. Eis ali Nino Quincampoix, o encontro jamais previsto, sempre esperado. Há um abismo entre fugir da realidade e entender que ela também pode ser abordada pelas laterais.

    Há quem pergunte diretamente.
    Há quem deixe uma pedra no bolso.
    Há quem devolva um álbum.

    Há quem recorte uma carta antiga até ela dizer uma coisa nova.
    Há semanas em que o risco da resposta parece menos
    sedutor que o conforto da dúvida.

    Ainda assim, “a sorte é como o Tour de France”: esperamos tanto algo específico e, quando finalmente chega, passa depressa. “É preciso saltar a barreira sem hesitar”. Estou aprendendo isso.

    Talvez por isso algumas conversas recentes tenham começado a virar literatura; não para conservar pessoas dentro de orações, mas porque certos toques modificam a maneira como percebo o que já estava ao redor: um céu, uma rosa, um silêncio, uma escolha de palavras.

    Uma colecionadora de pedras encontra, de vez em quando, alguém que coleciona resquícios.

    E alguma coisa acontece: acho que Amélie esteve no Norte Shopping. Na falta contemporânea de orelhões, resolveu chamar minha atenção me lançando o objeto de que eu precisava.

    Ontem, indo comprar velas para um parabéns-surpresa, percebi que havia esquecido o isqueiro-amarelo-herança-da-avó-fumante-para-a-neta-que-não-fuma, que costumo carregar. Minutos depois, esbarrei numa planta no shopping, ouvi um tilintar no chão e dela caiu um isqueiro. Preto. Preto no chão quase branco. Parece até piada, Amelie! Aos quatro anos eu já sorria sem precisar mostrar os dentes. Aos trinta e sete, ainda faço planos com fotografias, filmes franceses, números, homens de vidro, palavras recortadas e futuros quartos vermelhos.

    Há quem julgue isso como evitação da realidade.

    Há também quem chame isso literatura.

    Já é 30 de agosto. Será que, em 24 horas, minha vida mudará para sempre? Penso em procurar um tarólogo…

    Em todo (a)caso, o amor faz bem.

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