Crônicas

E Ainda é Agosto

“É 29 de agosto. Em 48 horas, sua vida mudará para sempre.”

Mais uma vez estava eu vidrada diante da tela. O dia era 29 de agosto, ontem, como foi no ano passado e no ano antes dele. A melodia inebriante preenchia os vazios que o ar-condicionado a 21ºC fazia flutuar no quarto hermético do Cachambi:

O som avança em pequenos impulsos, como passos curtos e apressados que de repente… desaceleram. Expande e…. recolhe. O acordeão dá a sensação de ar sendo empurrado e puxado, como se abríssemos e fechássemos o peito. O piano pinga notas regulares por baixo, num conta-gotas, como dedos tocando uma superfície de vidro. Há uma leveza quase mecânica, quase de caixinha de música, acrescida de alguma coisa melancólica presa entre uma nota e outra.

Este ano, como em todos os outros, meu encontro é diferente: percebo detalhes que nenhuma das minhas versões havia percebido antes. Convidei também minha eu de quatro anos, que se senta ao meu lado, entre os mesmos lençóis que a minha versão em carne e osso, sorridente, embora presa dentro de um porta-retrato de vidro. Cabelos fartos, longos e cacheados, os lábios que não precisavam, àquela altura, dos dentes para mostrar, através das íris, a felicidade de estar vivendo o presente. Hoje não sei fazer o mesmo com tamanha desenvoltura e naturalidade.

Na fotografia, estou com a guirlanda do casamento da minha mãe e um vestido branco, pronta para me casar com um dos meus amigos mais antigos. Não seria a única vez: nós dois nos casaríamos outras vezes em festas juninas, três ao todo, como se a infância insistisse em ensaiar futuros que jamais aconteceriam daquela forma; décadas depois, tive o prazer de projetar e acompanhar as etapas iniciais da casa onde ele e a esposa, meus queridos amigos, morarão em breve.

É ou não uma prova cabal de que o destino adora ironias, coincidências e, às vezes, tem um senso de humor bastante sofisticado?

De vez em quando, a luz da tela atravessa o quarto e o vidro devolve cenas de Amélie. O rosto dela se sobrepõe ao meu, de criança, depois desaparece. Em certos segundos, já não sei muito bem qual das duas estou olhando.

Quem sabe, pelos reflexos, me pareça cada vez mais evidente que fui crescendo como uma mistura amadurecida das minhas referências preferidas: um pouco Amélie Poulain, um pouco Margherita Dolcevita, Lois Lane, Hermione Granger, Bela
personagens que, por razões diferentes, foram me cedendo pedaços até que eu pudesse desenvolver os meus, autênticos. Depois de certa idade, minhas referências femininas passaram a ser também Jane Austen, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Etta James, Norah Jones, Celine Dion, Julia Roberts e mulheres comuns do dia a dia, cujas qualidades absorvo profundamente — pela leitura, tom de voz ou proximidade — para ir recortando os fragmentos que compõem o meu eu de hoje: sempre, e cada vez mais, um livro de fotografias rasgadas e reconstituídas.

É curiosamente apropriado que essa fusão aconteça atrás de um vidro. Afinal, em Amélie, um dos homens que melhor sabe ler a vida passa vinte anos refazendo o mesmo Renoir. Chamam-no de homem de vidro.

Daqui a três meses, eu de hoje e Amélie Poulain teremos quinze anos de diferença etária. O engraçado é que, embora essa diferença aumente ano após ano, a profundidade da nossa familiaridade não diminui. Encontrar Amélie nos 29 de agosto da vida é como reencontrar uma amiga de infância.

E cá estamos, as três, pausando o filme para vibrar com uma ideia criativa, uma inspiração, fazer anotações ou preparar um café na minha moka italiana para tomar com Nino Quincampoix no Café des 2 Moulins.

Até que a “Amélie aqui” começa a recortar antigas cartas de amor de sua vizinha imaginária, ressecada pela vida.

Então penso que uma semana também possa ser remontada assim:

A tesoura tem uma vantagem loquaz sobre a memória: rasga, de fato, a cronologia. Torna-a palpável:

uma observação astronômica pode parar ao lado de uma conversa sobre romance imaginado; um homem de setenta e tantos anos opera o septo porque ainda espera encontrar o outro pé para seu par de chinelos — sem roncos, parcimônia libertária do romantismo; alguns takes adiante, outro homem fotografa, quem sabe, para não desaparecer; a Lua pulveriza matéria depois dos impactos e, vista daqui, chamamos os vestígios claros de raios.

Eu me deitei por duas horas no banco sem encosto do condomínio e vi o vermelho se apossar do brilho refletido da Lua. Eclipse parcial. A olhos nus. Sombras mimetizaram por instantes o coelho que tantos enxergam — dizem que só os apaixonados conseguem vê-lo.

A humanidade é esquisita: passa por colisões e inventa nomes e figuras de linguagem bonitas para aquilo que permanece visível. Ou quase.

Me disseram, também nesses últimos dias, que há muita coisa bonita para vermos no céu. Algumas imperfeições só aparecem por causa da luz refletida pela atmosfera da Terra. Gosto particularmente de imperfeições. E, durante um eclipse, quando alguma coisa que costumava iluminar desaparece, vemos mais estrelas. Não seria assim quando nos deixamos colidir com o silêncio? Percebemos mais outras coisas, no todo de todas as coisas?

Anotei isso. E percebi: vivenciei um eclipse em solitude física, enquanto vozes de todo o Brasil atravessavam meus ouvidos com comentários e explicações astronômicas. Eu, que quando criança ganhei medalha e certificados em Olimpíadas Brasileiras de Astronomia, sorri.

Entre as anotações da semana — eleições, guerras, mísseis, geleiras, Wall Street em queda — havia também uma rosa. Murcha. Faltou hidratação. Tenho bebido pouca água. Por alguns dias, certas coisas pareceram sofrer do mesmo descuido. Cortada do pé e posta numa sacada, a rosa começou a perder pétalas. A Fera permanece, então, a mesma fera? Ou a Bela – que não é princesa – faz uma jogada no tabuleiro de xadrez da vida para que a magia aconteça?

Tenho pensado que preciso de mais vermelho na vida…

O quarto de Amélie interrompe meus desejos; seus pequenos incêndios domésticos, o contraste cromático com o verde. Minhas plantas. Sinto falta de casa.

Talvez eu acrescente vermelho ao meu quarto, quando — ou se — eu voltar. Não por decoração. Por discurso.

Amélie e minhas diferentes eus gostamos de estratagemas: surpresas, escolhas semânticas, pequenos deslocamentos de sentido. Em 31 de agosto, há quem a rotule covarde por não encarar o que sente. Então ela escancara a porta. Eis ali Nino Quincampoix, o encontro jamais previsto, sempre esperado. Há um abismo entre fugir da realidade e entender que ela também pode ser abordada pelas laterais.

Há quem pergunte diretamente.
Há quem deixe uma pedra no bolso.
Há quem devolva um álbum.

Há quem recorte uma carta antiga até ela dizer uma coisa nova.
Há semanas em que o risco da resposta parece menos
sedutor que o conforto da dúvida.

Ainda assim, “a sorte é como o Tour de France”: esperamos tanto algo específico e, quando finalmente chega, passa depressa. “É preciso saltar a barreira sem hesitar”. Estou aprendendo isso.

Talvez por isso algumas conversas recentes tenham começado a virar literatura; não para conservar pessoas dentro de orações, mas porque certos toques modificam a maneira como percebo o que já estava ao redor: um céu, uma rosa, um silêncio, uma escolha de palavras.

Uma colecionadora de pedras encontra, de vez em quando, alguém que coleciona resquícios.

E alguma coisa acontece: acho que Amélie esteve no Norte Shopping. Na falta contemporânea de orelhões, resolveu chamar minha atenção me lançando o objeto de que eu precisava.

Ontem, indo comprar velas para um parabéns-surpresa, percebi que havia esquecido o isqueiro-amarelo-herança-da-avó-fumante-para-a-neta-que-não-fuma, que costumo carregar. Minutos depois, esbarrei numa planta no shopping, ouvi um tilintar no chão e dela caiu um isqueiro. Preto. Preto no chão quase branco. Parece até piada, Amelie! Aos quatro anos eu já sorria sem precisar mostrar os dentes. Aos trinta e sete, ainda faço planos com fotografias, filmes franceses, números, homens de vidro, palavras recortadas e futuros quartos vermelhos.

Há quem julgue isso como evitação da realidade.

Há também quem chame isso literatura.

Já é 30 de agosto. Será que, em 24 horas, minha vida mudará para sempre? Penso em procurar um tarólogo…

Em todo (a)caso, o amor faz bem.

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Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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