Contos

A falta do vovô

Acho que o vovô estava triste. Ele pôs as duas mãos no peito e fechou os olhos, parecia que falava com alguém que só ele sabia quem era. Chamaram uma ambulância e ele foi com minha mãe e meu pai para o hospital. Os tios que ficaram em casa conversavam em voz baixa e bebiam cafezinho da garrafa térmica. Me mandaram brincar com o Chino. O Chino é mais crescido do que eu e é meu amigo. Somos colegas na escola. Ele sempre me defende quando o Orelha ameaça me bater. Minha mãe e meu pai voltaram sozinhos do hospital e me disseram que o vovô morreu. Não sei o que significa morrer. Mas lembro que o vovô começou a ficar triste quando tiraram ele da casa onde vivia e ele veio morar com a gente. Eu sou um menino, mas percebo tudo.

Na casa onde o vovô morava antes, tinha três galinhas no quintal, uma horta com tomates, alface e couve, uma bicicleta velha e um cachorro chamado Duque. Nós comemos as galinhas no dia do aniversário dele, quando a família estava reunida (o vovô não, ele não comeu). Foi nesse dia que levaram a bicicleta embora, porque a tia Juliana disse que o vovô estava velho demais para essa bobagem de andar sobre duas rodas (desde esse dia eu não amo mais a tia Juliana). O Duque foi levado para um lugar onde cuidavam de cachorros, porque minha mãe não queria bichos em casa (acho que o Duque nem ia gostar mesmo). O Duque era tão grande quanto um cavalo (mas um pequeno, como um pônei). Foi nesse dia que levaram o vovô para morar na minha casa. Acho que é por isso que ele começou a ficar triste.

Perguntei para o Chino o que significa estar morto (porque ele é mais velho do que eu e sabe de tudo). Ele pensou, mas não disse muita coisa. Disse que o pai dele também morreu e agora não tinha mais pai. Falou que estar morto é quando a gente sente a falta da pessoa. Eu vou sentir a falta do meu avô.

Ontem à noite minha mãe me mandou dormir na casa do Chino, porque hoje ela tinha que levantar muito cedo para cuidar do velório do vovô e não queria ninguém atrapalhando. Quando ela veio me buscar, seus olhos estavam vermelhos. Ela me disse que eu não precisava ficar triste porque o vovô foi se encontrar com a vovó. Então estar morto não pode ser tão ruim. Não sei.

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Mário Baggio

Mário Baggio é jornalista e escritor. Nasceu em Ribeirão Claro-PR. Mora em São Paulo-SP desde os anos 70. Tem 7 livros de contos publicados: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe (2017), “Espantos para uso diário” (2019), “Verás que tudo é mentira” (2020), “Antes de cair o pano” (2022), “A vida é uma palavra muito curta” (2024) e “Vozes para tímpanos mortos” (2025). Publicou contos em várias revistas eletrônicas (Germina, Gueto, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras). Escreve semanalmente na revista Crônicas Cariocas. Participou da “Antologia Ruínas” (2020), “Tanto mar entre nós: diásporas” (2021), “Brevemente Infinito” (2024) e Antologia de Contos da UBE-União Brasileira de Escritores (2021 e 2023).

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