Crônicas

Vovô

Quem não teve um avô ou uma avó não sabe da alegria de conviver com alguém que olha para você com ternura e carinho, de um jeito diferente de pai e mãe.

Meu avô paterno eu não conheci. Ele havia falecido quando eu tinha pouco mais de um ano de idade. O avô materno se chamava Sabino Muniz Fagundes. Nascido e criado na fronteira entre Brasil e Uruguai, era um sujeito pitoresco. Gostava de chimarrão, churrasco e uma boa leitura.

Já aposentado, seu passatempo preferido era ficar sentado na cozinha, próximo à mesa, escutando um antigo rádio portátil, sempre acompanhado de um mate amargo.

Quando não estava ouvindo o rádio, que mais parecia uma colmeia de abelhas zunindo, estava lendo seu jornal predileto, o Correio do Povo.

A cada notícia que lia, seu rosto mudava: ora franzia a testa, ora fazia uma cara de espanto; às vezes dava um sorriso modesto.

Passado algum tempo, fazia um comentário sobre alguma notícia que havia lido e, logo em seguida, olhava por cima dos óculos, que ficavam na ponta do seu nariz. E perguntava:

— Tu entendeu?

Eu não havia entendido nada. O assunto era sobre política, futebol ou alguma guerra ao redor do mundo, mas, assim mesmo, concordava.

Posso dizer que praticamente não conhecia aquele velho solitário. Era viúvo há muitos anos. Quando minha avó faleceu, minha mãe ainda era criança.

Seu Sabino morava em Jaguarão, e nós morávamos em Porto Alegre. Durante as férias escolares de inverno ou verão, era a época de visitar o vovô. Era o momento de diversão e alegria passar parte das férias com ele. Sempre tinha histórias engraçadas para contar e nos dedicava um tempo de atenção que os demais adultos não despendiam.

Em alguma manhã fria de inverno, eu acordava ouvindo uma voz de trovão que enchia a casa inteira. Era o Vô Sabino, sentado do mesmo jeito que sentava na sua casa, porém na cozinha da minha mãe.

Dona Alice irradiava felicidade. Parecia que ela retornava à infância. Ficava sentada ao lado do pai, ouvindo suas histórias e anedotas da terra natal. Eram fábulas sobre pescarias, em que os barcos retornavam lotados de peixes, sendo um maior que o outro.

Esta era a paixão do Vovô. Ele e seus amigos, tanto brasileiros quanto uruguaios, se aventuravam pelas águas dos rios e lagoas da região fronteiriça.

Verdadeiramente, era uma Odisseia. Eram dias fora de casa.

Uma característica marcante dos seus hábitos alimentícios era o fato de dizer que não jantava, tomava somente “café”.

O que o Vô Sabino esquecia de falar é que o café não era solitário.

A ceia era regada a, pelo menos, uma xícara grande de café com leite, duas fatias bem grossas de pão feito em casa, dois ovos cozidos, fatias de salame, queijo colonial, manteiga, chimia, bolo de milho e alguma outra mistura vinda da padaria mais próxima de casa.

Eu me sentia em Gramado, com aquele quase café colonial, e ficava intrigado e pensava:

— Para onde vai toda aquela comida?

Vovô não era nenhum atleta, mas exibia porte quase atlético. Com mais de um metro e noventa de altura e um peso proporcional ao seu tamanho, sempre havia alguma velhota de olho comprido para ele. Mas bastava ele fazer suas caras e caretas que o romance morria na raiz.

Me recordo de quando comecei a construir meus primeiros textos na escola, durante as aulas de redação, e recebi uma carta dele.

Era um envelope branco, com as bordas tracejadas de verde e amarelo, um selo carimbado pelos Correios, algo quase inimaginável nos dias atuais. Dentro do envelope, um papel de carta escrito à mão.

Uma caligrafia perfeita. Ele escrevia melhor que a minha professora de português, uma verdadeira obra de arte. Para cada letra havia um ornamento diferente e, a cada detalhe dos desenhos, surgiam palavras.

Corri até a minha mãe para contar a novidade e pedir ajuda para responder à correspondência. Era um ritual. Escrever a carta, comprar envelope e selo e depois levá-la até os Correios.

Assim se foram os anos. Um dia, somente eu e minha mãe fomos visitá-lo. O Vovô não andava bem de saúde. A idade pesava sobre seus ombros, e o vigor fugia do seu corpo.

Suas histórias já não tinham o mesmo entusiasmo de antes, e as pescarias não faziam parte do seu repertório.

Um tempo depois, não recebi mais suas cartas. Não demorou muito para que minha mãe recebesse um telefonema, e seus olhos se enchessem de lágrimas.

Mesmo sendo criança, havia entendido tudo. Restaram as lembranças e a saudade.

Hoje eu já sou vovô também e me pergunto:

— Como os meus netos vão lembrar de mim?

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Ney Humberto F. Medeiros

Ney Humberto F. Medeiros é escritor, bacharel em Direito e em Ciências Militares, e militar da reserva. Dedica-se à escrita de textos literários inspirados em lembranças, experiências cotidianas, relações familiares e observações da vida. Reside em Tramandaí, no litoral do Rio Grande do Sul.

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