Ney Humberto F. Medeiros

  • Nostalgia Jornalesca

    Durante a noite, eu havia escutado trovoadas. Imaginei uma grande luta no céu. As nuvens, o sol, a lua e as estrelas numa verdadeira batalha, disputando quem reinaria no novo dia que se aproximava. Um elegante duelo de Titãs.

    Amanheceu. Para meu espanto, o sol havia perdido. As nuvens, um pouco arroxeadas, mostravam os sinais de que havia sido uma grande luta. Elas estavam carregadas de chuva, haviam dominado o dia e deixado meu amigo sol em total nocaute.

    Nesse clima melancólico, sentado no meu apartamento, contemplando o céu com aquelas cores tristes, fiquei lembrando dos tempos áureos dos jornais impressos.

    Não me recordo disso como um profissional da redação, mas como um mero e assíduo leitor.

    A saudade do bom e velho jornal de papel. Poucos periódicos ainda se aventuram nesse universo.

    Era um verdadeiro ritual. Quem era assinante aguardava em casa a chegada do jornaleiro. Este chegava cedinho, antes do amanhecer. Era possível tomar café da manhã e ler o jornal ao mesmo tempo. Era um luxo.

    Para os leitores eventuais, o que restava era encontrar uma banca de revistas e comprar o jornal preferido, colocá-lo debaixo do braço e correr para o trabalho.

    O cheiro da tinta tomava conta do ambiente. As mãos, em contato com o papel, adquiriam uma textura especial e os dedos ficavam manchados com uma pigmentação escura.

    Surgiam as notícias mais importantes estampadas na capa e na contracapa.

    Assuntos sobre política, guerras, futebol, acidentes e as tragédias espalhadas pelo mundo ocupavam esses espaços.

    Alguns leitores liam o jornal quase por inteiro. Outros, somente as matérias de que mais gostavam. E havia aqueles que queriam ter assuntos e argumentos para os tórridos e infindáveis debates.

    Eram tantas as informações que se podia agradar a todos os públicos.

    Eu notava pessoas fazendo palavras cruzadas ou simplesmente as “cruzadinhas”.

    Alguns ficavam horas debruçados sobre elas e, quando terminavam, tinham um ar de vitória.

    Outros ficavam encantados lendo as histórias em quadrinhos, também conhecidas como “tirinhas”. Os personagens eram hilários e arrancavam gargalhadas dos leitores. Cada jornal tinha seu próprio elenco. Eu me recordo da Turma da Mônica, do Sofrenildo, do Capitão Cipó e do Peanuts.

    Futebol e política eram os assuntos que mais geravam discussões. Por isso, era bom ficar por dentro do que estava acontecendo.

    Falava-se das novas contratações, das trocas de técnicos e de quem estava próximo da zona de rebaixamento. Tudo era narrado nos mínimos detalhes.

    Se o time do coração ganhasse, seus torcedores procuravam os adversários para fazer piadas. Se perdesse, fugiam dos perseguidores incautos. Alguns nem saíam de casa com medo de virar chacota. Era bom estar bem informado. O povo adorava.

    Às vezes, cinco pessoas ou até mais se reuniam em algum banco de praça, discutindo as últimas notícias. Era muito divertido passar por perto e ouvir todo aquele falatório caloroso.

    Quando o assunto era economia, era um horror. Inflação, subida dos combustíveis, desvalorização da moeda e aumento do dólar.

    Alguns leitores passavam essas páginas e ficavam com os cabelos em pé. Aqueles que ainda tinham cabelo, é claro.

    As páginas policiais estampavam a violência. Eram notícias sobre assaltos, assassinatos, crimes de toda a natureza e o acompanhamento dos principais julgamentos criminais.

    O que eu realmente não gostava de ler era o obituário. Era como se estivéssemos sempre na expectativa de encontrar o nome de algum familiar, amigo, vizinho ou alguém próximo. Muita gente também concordava comigo e ficava longe dessa parte do jornal.

    Mas, enfim, hoje temos tudo isso e até mais quando se fala em jornalismo. As notícias chegam em tempo real. Não precisamos esperar a próxima edição para ficarmos atualizados.

    Mas nada me impede de sentir saudades das velhas páginas dos jornais impressos. Nostalgia jornalesca.

    E você também sentiu um pouco da nostalgia jornalesca?

  • Vovô

    Quem não teve um avô ou uma avó não sabe da alegria de conviver com alguém que olha para você com ternura e carinho, de um jeito diferente de pai e mãe.

    Meu avô paterno eu não conheci. Ele havia falecido quando eu tinha pouco mais de um ano de idade. O avô materno se chamava Sabino Muniz Fagundes. Nascido e criado na fronteira entre Brasil e Uruguai, era um sujeito pitoresco. Gostava de chimarrão, churrasco e uma boa leitura.

    Já aposentado, seu passatempo preferido era ficar sentado na cozinha, próximo à mesa, escutando um antigo rádio portátil, sempre acompanhado de um mate amargo.

    Quando não estava ouvindo o rádio, que mais parecia uma colmeia de abelhas zunindo, estava lendo seu jornal predileto, o Correio do Povo.

    A cada notícia que lia, seu rosto mudava: ora franzia a testa, ora fazia uma cara de espanto; às vezes dava um sorriso modesto.

    Passado algum tempo, fazia um comentário sobre alguma notícia que havia lido e, logo em seguida, olhava por cima dos óculos, que ficavam na ponta do seu nariz. E perguntava:

    — Tu entendeu?

    Eu não havia entendido nada. O assunto era sobre política, futebol ou alguma guerra ao redor do mundo, mas, assim mesmo, concordava.

    Posso dizer que praticamente não conhecia aquele velho solitário. Era viúvo há muitos anos. Quando minha avó faleceu, minha mãe ainda era criança.

    Seu Sabino morava em Jaguarão, e nós morávamos em Porto Alegre. Durante as férias escolares de inverno ou verão, era a época de visitar o vovô. Era o momento de diversão e alegria passar parte das férias com ele. Sempre tinha histórias engraçadas para contar e nos dedicava um tempo de atenção que os demais adultos não despendiam.

    Em alguma manhã fria de inverno, eu acordava ouvindo uma voz de trovão que enchia a casa inteira. Era o Vô Sabino, sentado do mesmo jeito que sentava na sua casa, porém na cozinha da minha mãe.

    Dona Alice irradiava felicidade. Parecia que ela retornava à infância. Ficava sentada ao lado do pai, ouvindo suas histórias e anedotas da terra natal. Eram fábulas sobre pescarias, em que os barcos retornavam lotados de peixes, sendo um maior que o outro.

    Esta era a paixão do Vovô. Ele e seus amigos, tanto brasileiros quanto uruguaios, se aventuravam pelas águas dos rios e lagoas da região fronteiriça.

    Verdadeiramente, era uma Odisseia. Eram dias fora de casa.

    Uma característica marcante dos seus hábitos alimentícios era o fato de dizer que não jantava, tomava somente “café”.

    O que o Vô Sabino esquecia de falar é que o café não era solitário.

    A ceia era regada a, pelo menos, uma xícara grande de café com leite, duas fatias bem grossas de pão feito em casa, dois ovos cozidos, fatias de salame, queijo colonial, manteiga, chimia, bolo de milho e alguma outra mistura vinda da padaria mais próxima de casa.

    Eu me sentia em Gramado, com aquele quase café colonial, e ficava intrigado e pensava:

    — Para onde vai toda aquela comida?

    Vovô não era nenhum atleta, mas exibia porte quase atlético. Com mais de um metro e noventa de altura e um peso proporcional ao seu tamanho, sempre havia alguma velhota de olho comprido para ele. Mas bastava ele fazer suas caras e caretas que o romance morria na raiz.

    Me recordo de quando comecei a construir meus primeiros textos na escola, durante as aulas de redação, e recebi uma carta dele.

    Era um envelope branco, com as bordas tracejadas de verde e amarelo, um selo carimbado pelos Correios, algo quase inimaginável nos dias atuais. Dentro do envelope, um papel de carta escrito à mão.

    Uma caligrafia perfeita. Ele escrevia melhor que a minha professora de português, uma verdadeira obra de arte. Para cada letra havia um ornamento diferente e, a cada detalhe dos desenhos, surgiam palavras.

    Corri até a minha mãe para contar a novidade e pedir ajuda para responder à correspondência. Era um ritual. Escrever a carta, comprar envelope e selo e depois levá-la até os Correios.

    Assim se foram os anos. Um dia, somente eu e minha mãe fomos visitá-lo. O Vovô não andava bem de saúde. A idade pesava sobre seus ombros, e o vigor fugia do seu corpo.

    Suas histórias já não tinham o mesmo entusiasmo de antes, e as pescarias não faziam parte do seu repertório.

    Um tempo depois, não recebi mais suas cartas. Não demorou muito para que minha mãe recebesse um telefonema, e seus olhos se enchessem de lágrimas.

    Mesmo sendo criança, havia entendido tudo. Restaram as lembranças e a saudade.

    Hoje eu já sou vovô também e me pergunto:

    — Como os meus netos vão lembrar de mim?

  • A Bergamoteira

    Era a estação do frio, do vento e das chuvas no ano de 2024. Dona Clair já morava havia algum tempo num residencial para idosos na cidade de Tramandaí.

    Ela era uma senhora jovial, na casa dos oitenta anos e gozava de uma saúde invejável para sua idade. Uma mulher muito disposta, sempre pronta para auxiliar os amigos nas mais diversas tarefas, das mais simples até as mais complexas.

    Por sua excelente capacidade física, tinha como costume trabalhar no jardim do residencial. Adorava cuidar das roseiras. Nas manhãs frias de inverno, adorava também sentar ao sol, quando não estava escasso, e saborear inúmeras bergamotas.

    Fazia algum tempo que a idosa andava inquieta e falava muito em retornar para sua casa. Estava com saudade das suas coisas e do que havia deixado para trás.

    Às vezes, seu olhar se perdia para além dos muros do residencial. Ninguém sabia ao certo onde seus pensamentos andavam, mas pareciam sempre seguir o mesmo caminho: a casa que deixara para trás.

    A octogenária gozava de um enorme respeito por todas as pessoas da clínica, fossem funcionários, fossem colegas de morada.

    Nunca foi desrespeitosa com ninguém e sempre agiu de maneira muito cortês com todos.

    Ainda levada pelos pensamentos de retornar para sua casa, viu uma grande oportunidade quando um dos entregadores de mercadorias deixou o portão aberto do residencial. Não deu outra: a moradora ganhou o mundo novamente, saiu tão depressa
    por aquele portão que ninguém notou sua fuga.

    Mas não demorou muito para que percebessem sua falta. Foi aquele alvoroço: cuidadoras, enfermeiras e proprietários procurando a jovem senhora. Revistaram os quartos, os banheiros, o alpendre, a cozinha, a sala de estar, a lavanderia, o depósito e o jardim, e nada.

    Passaram a procurar na vizinhança, mercados, farmácias, lojas, paradas de ônibus, e nada da dona Clair. Nem uma notícia sequer.

    O desespero estava quase se alastrando quando uma das enfermeiras resolveu procurar no posto de saúde. Lá estava a velhota, com um sorriso estampado no rosto e um galo na cabeça.

    A atendente do posto disse que um rapaz havia levado a senhora até ali fazia pouco tempo e que, naquele momento, ela estava sendo medicada, passaria por um período de observação e logo seria liberada.

    Ninguém imaginava que aquela doce senhora cometeria aquele disparate de fugir, colocando em risco sua própria vida.

    Já de volta ao residencial, ainda não se sabia como ela havia adquirido aquele amigo galináceo, ora alojado em sua testa, nem quem era o tal jovem que a teria levado para o posto de saúde.

    Somente no final da tarde surgiu um homem de média estatura, cabelos ruivos e olhos amendoados, dizendo que havia socorrido dona Clair.

    Ele então relatou que a senhora arteira havia saído da clínica e avistado uma bergamoteira no auge de sua produção frutífera. De pronto, ela deu início a uma escalada em busca da fruta que tanto adorava.

    A alegria e a euforia, somadas ao peso da idade, foram aliadas à força da gravidade, e a fugitiva estatelou-se no chão tão rápido quanto a sua fuga do residencial.

    Ainda hoje, quando as amigas se reúnem, esse assunto vem à baila, e a mocinha peralta sempre fala:

    — A paixão pelas bergamotas me impediu de voltar para casa.

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