Crônicas

A Bergamoteira

Era a estação do frio, do vento e das chuvas no ano de 2024. Dona Clair já morava havia algum tempo num residencial para idosos na cidade de Tramandaí.

Ela era uma senhora jovial, na casa dos oitenta anos e gozava de uma saúde invejável para sua idade. Uma mulher muito disposta, sempre pronta para auxiliar os amigos nas mais diversas tarefas, das mais simples até as mais complexas.

Por sua excelente capacidade física, tinha como costume trabalhar no jardim do residencial. Adorava cuidar das roseiras. Nas manhãs frias de inverno, adorava também sentar ao sol, quando não estava escasso, e saborear inúmeras bergamotas.

Fazia algum tempo que a idosa andava inquieta e falava muito em retornar para sua casa. Estava com saudade das suas coisas e do que havia deixado para trás.

Às vezes, seu olhar se perdia para além dos muros do residencial. Ninguém sabia ao certo onde seus pensamentos andavam, mas pareciam sempre seguir o mesmo caminho: a casa que deixara para trás.

A octogenária gozava de um enorme respeito por todas as pessoas da clínica, fossem funcionários, fossem colegas de morada.

Nunca foi desrespeitosa com ninguém e sempre agiu de maneira muito cortês com todos.

Ainda levada pelos pensamentos de retornar para sua casa, viu uma grande oportunidade quando um dos entregadores de mercadorias deixou o portão aberto do residencial. Não deu outra: a moradora ganhou o mundo novamente, saiu tão depressa
por aquele portão que ninguém notou sua fuga.

Mas não demorou muito para que percebessem sua falta. Foi aquele alvoroço: cuidadoras, enfermeiras e proprietários procurando a jovem senhora. Revistaram os quartos, os banheiros, o alpendre, a cozinha, a sala de estar, a lavanderia, o depósito e o jardim, e nada.

Passaram a procurar na vizinhança, mercados, farmácias, lojas, paradas de ônibus, e nada da dona Clair. Nem uma notícia sequer.

O desespero estava quase se alastrando quando uma das enfermeiras resolveu procurar no posto de saúde. Lá estava a velhota, com um sorriso estampado no rosto e um galo na cabeça.

A atendente do posto disse que um rapaz havia levado a senhora até ali fazia pouco tempo e que, naquele momento, ela estava sendo medicada, passaria por um período de observação e logo seria liberada.

Ninguém imaginava que aquela doce senhora cometeria aquele disparate de fugir, colocando em risco sua própria vida.

Já de volta ao residencial, ainda não se sabia como ela havia adquirido aquele amigo galináceo, ora alojado em sua testa, nem quem era o tal jovem que a teria levado para o posto de saúde.

Somente no final da tarde surgiu um homem de média estatura, cabelos ruivos e olhos amendoados, dizendo que havia socorrido dona Clair.

Ele então relatou que a senhora arteira havia saído da clínica e avistado uma bergamoteira no auge de sua produção frutífera. De pronto, ela deu início a uma escalada em busca da fruta que tanto adorava.

A alegria e a euforia, somadas ao peso da idade, foram aliadas à força da gravidade, e a fugitiva estatelou-se no chão tão rápido quanto a sua fuga do residencial.

Ainda hoje, quando as amigas se reúnem, esse assunto vem à baila, e a mocinha peralta sempre fala:

— A paixão pelas bergamotas me impediu de voltar para casa.

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Ney Humberto F. Medeiros

Ney Humberto F. Medeiros é escritor, bacharel em Direito e em Ciências Militares, e militar da reserva. Dedica-se à escrita de textos literários inspirados em lembranças, experiências cotidianas, relações familiares e observações da vida. Reside em Tramandaí, no litoral do Rio Grande do Sul.

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