Estreia no Crônicas Cariocas

  • Lendas

    Pouca coisa é mais estimulante que a alegria de uma criança no início de suas férias. A expectativa desperta a imaginação que permanecia adormecida dentro das paredes da realidade. As coisas se tornam pessoas e objetos que não são tornam-se coisas. Os sonhos tocam a matéria que, por sua vez, devolve em cores e movimentos.

    Mas como a tese não se torna síntese sozinha, ainda há uma antítese (que não torna a experiência menos interessante, pelo contrário). Assim como as dríades, elfos e fadas se despertam, também as bruxas más, os monstros e as bestas afastam-se da hibernação.

    — Vamos, filha. Já está tarde — Grita a mãe.

    — Estou indo, mãe. Estou indo — A criança respondeu enquanto apertava alguns brinquedos na mala estufada.

    A pequena Bartira estava a caminho da casa de sua avó que morava em uma cidadezinha no interior de Goiás chamada São Patrício.

    Ela, o irmão e primos sempre planejavam e imaginavam todas as aventuras que viveriam no sitio.

    Na estrada, Bartira se imaginava pulando pelas árvores que corriam em grande velocidade através da janela do carro. Por fim , adormeceu agarrada a Bilbo, seu coelho de pelúcia marrom.

    Interrompendo seu sono — não muito confortável — escorada junto à janela do carro, Bartira quase caiu quando Rita, não conseguindo conter a ansiedade, abriu a porta do carro sem aviso prévio.

    Ignorando o constrangimento (e os gemidos mal-humorados de Bilbo) ambas saíram saltitando com gritinhos, contemplando todas as possibilidades que viveriam no próximo mês.

    Na primeira semana as cinco crianças ( na realidade, eram seis, mas Ana não era contada por ser muito nova para a aventuras), se mantiveram investigando dentro dos arredores da casa da avó, coisa que era tradição entre os primos. Não encontraram muito mais que alguns parafusos que o avô havia pedido e roupas velhas de gerações que eram guardadas, o que lhes rendeu alguns dias de muita risada e entretenimento.

    No início da terceira semana, durante a noite se ajustaram ao redor de uma fogueira montada no curral do avô para contar seus medos em formato de histórias, era quase como uma competição sobre quem causaria o maior assombro no grupo.

    Bartira foi escolhida para protagonizar a primeira noite, contou-lhes todas as histórias que conhecia sobre o temido curupira.

    Nesta, voltaram em silêncio conferindo os lados da estrada de terra, para prevenir qualquer aparição.

    A segunda noite foi a vez de Tito Tavares tentar a sorte. O rapaz amava os animais, em especial, admirava os equinos. Como uma contradição que carregava, contou a todos a história do personagem que mais temia, e depois daquela noite também temido por todos ali, a mula sem cabeça.

    Na Quarta feira, os gêmeos Andrade dividiram o conto de feitos da caipora, amiga das florestas e inimiga dos caçadores. Ivan detalhou a aparência animalesca e suja da personagem, já que, este morria de medo de tudo que possuía um rosto que não fosse familiar a sua vista. Enquanto Ravi descrevia os assobios que caipora cantarolava ao passo que enrolava a crina dos cavalos desavisados das fazendas, o calor do fogo que carregava aceso em sua tocha e, por fim, os roncos do javali, em que montava. Ravi, que por sua vez, detinha um medo mortal de barulhos sem rostos, concluiu o terror com maestria.

    Na quinta choveu e não houve o encontro, então se contentaram em remarcar para o próximo dia. Todos suspiravam aliviados pela noite sem pesadelos, mas ninguém ousou dizê-lo, pois poderiam ser taxados de covardes pelos primos, que em secreto, também tremiam.

    A noite de sexta foi a pior de todas, a tempestade do dia anterior deixou a aura ainda mais sombria. A lua, por mais cheia que estivesse, era por hora tapada pelas nuvens que passavam e as estrelas piscavam como pequenas bombas prestes a explodir.

    Ventava bastante o que dificultou a montagem da fogueira, mas desta vez não a fizeram no curral, pois o avô naquele dia recebeu gado novo.

    Se a noite pudesse falar, diria a eles para não saírem de casa, quem dera pudessem ter ouvido antes de ser tarde demais.

    Os cinco recorreram ao milharal do tio que ficava a pouca distância da casa. Aquilo mais parecia um labirinto, mas Tito era bom com direções e guiou o grupo até o meio, onde alguns peões descansam em época de colheita. Todos chegaram pingando encharcados pela umidade que as folhas guardaram, a chuva se estendera até a tardinha e havia estiado a pouco.

    Ravi alimentava a fogueira com os galhos mais secos que o irmão havia recolhido, resultado: fogo fraco, amarelo. Todos irritados com o vento frio e a garoa que ainda secava.

    A oportunidade da noite estava com Rita, que preparou seu enredo por dois dias. O monstro escolhido foi o Boitatá, a cobra guardiã dos animais e inimiga de invasores. Durante a história não havia som ambiente, todos os roedores e animais noturnos resolveram se refugiar — a não ser por um.

    A voz da garota de cabelos cacheados se tornou mais séria, em conjunto com a luz fraca do fogo que dançava em suas feições, era impossível taxar todos os acontecimentos narrados como uma invenção.

    Rita se empolgou na descrição das escamas que refletia as fortes chamas que crepitavam em sua cabeça, quando somado a imaginação dos ouvintes, a raiva personificada dos olhos do réptil se tornava palpável.

    Ao decorrer da história, todos abaixo da lua que subia no céu abafado, tremiam, não responsabilizando as rajadas de vento que criavam mais força a cada hora. Em alguns momentos as crianças  pensaram escutar barulhos de passos na estrada ao longe.

    Quando, chegando próximo ao fim da história um ronco se ouviu no meio do milho, Ravi soltou um grito cortado pela mão de Ivan que estava ao lado observando o negro da escuridão junto a Tito.

    Bartira congelou onde estava. Não se atrevendo a mover um músculo sequer.

    — Ele não sabe onde estamos — Cochichou Rita após mais alguns ruídos se afastando.

    — Se mantermos o silêncio, ficamos invisíveis — Concluiu Tito um pouco mais alto que um sussurro.

    Com a ajuda de Ivan, Tito jogou terra úmida na brasa já fria e todos se sentaram quietos. Bartira se agarrou ao braço de Ravi no centro do pequeno círculo, ansiava com todo seu ser estar na casa da avó abraçada a Bilbo.

    Assim que pensaram ter dissipado o-que-quer-que-fosse, uma labareda em movimento se acendeu não muito distante dali, juntamente com um assovio cantado.

    Bartira foi a primeira a notar, e tivera a certeza de ser o moleque de cabeça quente e pés torcidos que falara a dias atrás. Tapou a boca com a mão e se atirou no milharal em desespero.

    Os gêmeos Andrade se entreolharam, seus olhos quase saltando das órbitas, correram juntos na direção oposta a de Bartira. No caminho foram atropelados por um porco gordo que disparava sem direção. O desespero de Ivan foi tanto que vomitou ali mesmo, ambos saíram tagarelando sobre como a caipora os enredou de jeito.

    Rita, ficou algum tempo congelada, apenas o lamento preenchia sua pequena mente de grande imaginação, pensara ter lançado uma maldição sobre todos com seus exageros sobre a pobre cobra. Suada em desespero, seguiu os outros.

    Tito, o mais velho e o único que sabia sair do labirinto, tentou sem sucesso conter a turma antes que se separasse. Ele mesmo chorava, ao notar o fogo da mula sem cabeça perseguindo os vultos que deviam ser os pequenos desesperados. Mergulhado no horror começou a andar em círculos. Ainda tentava chamar para perto os outros com cochichos embargados.

    Aos poucos, cada criança acabou achando a estrada por si mesma, algumas mais rápido que outras, ignorando a dor das pequenas pernas nem sequer olhavam para trás ao rumar a toda velocidade em direção a casa da avó.

    Já era tarde da noite, o satélite noturno já se encontrava em seu ápice e Tito acabou vencendo o medo, não o suficiente para adentrar novamente ao milharal, mas permaneceu a beirada da estrada esperando sua irmã.

    — Bartira, vamos. Está tarde. — Gritava

    Por fim, após alguns minutos — que mais pareceram horas — Bartira respondeu em desespero:

    — Estou indo, Tito, estou indo.

    Assim que sua irmã apontou na estrada, toda suja e molhada, o menino agarrou sua mão e disparou.

    Durante toda a terceira, e última, semana nem a luz do sol pode convencer os miúdos a saírem de casa.

    Um fato engraçado é que no dia anterior aquela sexta-feira, eles não imaginavam — nem sequer poderiam. Durante a tempestade,

    Capitão, o porco de estimação do tio José havia quebrado o chiqueiro e fugido junto com os outros, deixando um rastro de bagunça por todo terreno.

    Quando o José ouviu ruídos tarde da noite no meio do matagal achou ser seus porcos. Agarrou a lamparina e correu para alcançar os fujões. Foi com isso que os pequenos, eufóricos, confundiram com o fogo mítico e o assobio era a forma do tio se comunicar com sua vara.

    A cena era cômica para quem assistia, o tio correndo atrás dos vultos dos leitõezinhos e os pequenos correndo de sua sombra. A noite ia caindo e o fazendeiro finalmente se cansou, oferecendo a trégua que as crianças precisavam para fugir.

    Quando mais velhos, cada um contava a história de sua própria maneira. Sempre que confrontados pelas novas crianças sobre divergências na história diziam ter ocorrido em ocasiões diferentes quando cada divindade apareceu, mas no próprio peito cada qual tinha a certeza do que viu — ou o que achou ver. Todos ainda se lembram até os dias de hoje com a nitidez dos dias de ontem.

  • A Bergamoteira

    Era a estação do frio, do vento e das chuvas no ano de 2024. Dona Clair já morava havia algum tempo num residencial para idosos na cidade de Tramandaí.

    Ela era uma senhora jovial, na casa dos oitenta anos e gozava de uma saúde invejável para sua idade. Uma mulher muito disposta, sempre pronta para auxiliar os amigos nas mais diversas tarefas, das mais simples até as mais complexas.

    Por sua excelente capacidade física, tinha como costume trabalhar no jardim do residencial. Adorava cuidar das roseiras. Nas manhãs frias de inverno, adorava também sentar ao sol, quando não estava escasso, e saborear inúmeras bergamotas.

    Fazia algum tempo que a idosa andava inquieta e falava muito em retornar para sua casa. Estava com saudade das suas coisas e do que havia deixado para trás.

    Às vezes, seu olhar se perdia para além dos muros do residencial. Ninguém sabia ao certo onde seus pensamentos andavam, mas pareciam sempre seguir o mesmo caminho: a casa que deixara para trás.

    A octogenária gozava de um enorme respeito por todas as pessoas da clínica, fossem funcionários, fossem colegas de morada.

    Nunca foi desrespeitosa com ninguém e sempre agiu de maneira muito cortês com todos.

    Ainda levada pelos pensamentos de retornar para sua casa, viu uma grande oportunidade quando um dos entregadores de mercadorias deixou o portão aberto do residencial. Não deu outra: a moradora ganhou o mundo novamente, saiu tão depressa
    por aquele portão que ninguém notou sua fuga.

    Mas não demorou muito para que percebessem sua falta. Foi aquele alvoroço: cuidadoras, enfermeiras e proprietários procurando a jovem senhora. Revistaram os quartos, os banheiros, o alpendre, a cozinha, a sala de estar, a lavanderia, o depósito e o jardim, e nada.

    Passaram a procurar na vizinhança, mercados, farmácias, lojas, paradas de ônibus, e nada da dona Clair. Nem uma notícia sequer.

    O desespero estava quase se alastrando quando uma das enfermeiras resolveu procurar no posto de saúde. Lá estava a velhota, com um sorriso estampado no rosto e um galo na cabeça.

    A atendente do posto disse que um rapaz havia levado a senhora até ali fazia pouco tempo e que, naquele momento, ela estava sendo medicada, passaria por um período de observação e logo seria liberada.

    Ninguém imaginava que aquela doce senhora cometeria aquele disparate de fugir, colocando em risco sua própria vida.

    Já de volta ao residencial, ainda não se sabia como ela havia adquirido aquele amigo galináceo, ora alojado em sua testa, nem quem era o tal jovem que a teria levado para o posto de saúde.

    Somente no final da tarde surgiu um homem de média estatura, cabelos ruivos e olhos amendoados, dizendo que havia socorrido dona Clair.

    Ele então relatou que a senhora arteira havia saído da clínica e avistado uma bergamoteira no auge de sua produção frutífera. De pronto, ela deu início a uma escalada em busca da fruta que tanto adorava.

    A alegria e a euforia, somadas ao peso da idade, foram aliadas à força da gravidade, e a fugitiva estatelou-se no chão tão rápido quanto a sua fuga do residencial.

    Ainda hoje, quando as amigas se reúnem, esse assunto vem à baila, e a mocinha peralta sempre fala:

    — A paixão pelas bergamotas me impediu de voltar para casa.

  • Cinzas

    Como um anjo caído, eu virei cinzas, me dispersando por cada lugar que passei. Gritei aos céus para que me recebessem de volta, enquanto bebia minha dor.

    Nenhuma luta para me levar ao cosmos foi suficiente, somente muito sangue foi derramado.

    Era a batalha interminável das duas coisas que me sobraram: a busca pela indiferença dos sentimentos, como uma boa estoica, e a hedonista que tentava sobreviver.

    Enquanto anjo caído, espalhei a dor que queimava como o inferno dentro de mim e que me enfeitiçava com um beijo gentil em meus lábios.

    Nesse descompasso, perdi o controle das horas, dos dias e de mim mesma. Tudo que eu tinha era um quarto escuro, borrado de lágrimas que insistiam em cair.

    Fui velada viva, enquanto amaldiçoavam meu nome em meus ouvidos e desejavam que eu ficasse. Meu luto por mim mesma continuava, envolvendo tudo que fui no passado, o nada que eu era naquele presente, e o futuro jamais seria o mesmo.

    Depois de velada e cremada, voltei ao início: como cinzas. Dessa vez, em pequenas andanças, fui recolhendo minhas cinzas. O fogo que antes ardia em mim começava a amornar. Esse era meu recomeço, meu acordar.

    Começava minha corrida contra o tempo. Era a hora. Eu precisava refazer meus passos pra não cair em descompasso.

    Revivi por mil anos todos os sentimentos que já habitaram em mim, encontrei flashes esquecidos de felicidade e amor.

    Vivi a eternidade desses momentos e colei entre meus ossos e minha pele, para que nunca mais saíssem de mim.

    Despedi-me do meu outro ser, porque sabia que esse começo queimava, mas de vontade de ser, estar e viver. Era o tipo de fogo que incendeia e não o que queima.

    Tudo era avassalador. Um pequeno sorriso, uma pequena paixão e milhares de momentos que começavam a se repetir, fazendo de mim a criatura que mais rogava por desejo.

    Fui, enfim, sentenciada. Liberdade era a palavra que gritava em minha cabeça. Eu podia morrer de outras mil formas, mas não dessa, porque nenhum pedaço meu era mais da minha dor.

    Fechei a conta. Fui aceita no céu.

  • O último ônibus para o Rio

    Encostado ao trailer, pedi a última cerveja. Proença disse que para ele estava bom. Pagou sua parte. “O ônibus é às nove. Tu tá ligado, né?”, me lembrou, já saindo e me dando as costas, percebendo que eu ficaria por ali ainda um pouco mais. Fiz que sim com um gesto rápido de cabeça para o lembrete do horário do ônibus. Passavam das sete da noite. Ainda havia um resquício violeta de luz do dia no horizonte, sumindo no mar naquele anoitecer de domingo de quase inverno. Eu voltaria com Proença e o resto do pessoal para o Rio, ao menos era esse o combinado. Eles estavam em casa, certamente se aprontando. A hora passava e eu teria que andar até lá, dali uns quinhentos metros, guardar tudo na mochila e tomar um banho para viajar. Só que mesmo antes do Proença sair fora, eu já havia decidido ficar, porque eu estava desconfiado, ou quase certo, do que aconteceria. E já com o Proença longe, ela deslizou os dedos pelo meu antebraço, olhou-me e disse que estava ventando frio. Para completar, passou a língua nos lábios. Concordei, “Sim, tá ventando frio”, só de camiseta regata, sunga e chinelo. “Entra, bebe aqui dentro”. Eu aceitei imediatamente. Quando entrei, ela fechou o trailer. “Está mesmo na hora de fechar”, soltou com malicia, acrescentando que àquela altura e com aquele vento não havia mais ninguém na praia.

    No meio do primeiro beijo, sua minissaia foi ao chão e, logo em seguida, o biquini lilás, o que fazia girar pescoços quando ela dava um tempo do batente e passava pela areia a caminho de um mergulho. “Para me revigorar com os fluidos de Iemanjá”, explicava, com um riso que fingia ser puro, mas que não me convencia. Aliás, acho que a ninguém. Ela ria do jeito que os demônios devem ensinar as mulheres a rir. Os olhos de todos, os meus incluídos, a devoravam por trás dos óculos escuros. Não era bonita. Para dizer a verdade, passava longe disso. Alguns de nós diziam que ela tinha cara de boneco de ventríloquo. Mas seus peitos, suas pernas e, principalmente, sua bunda, a cada vez mais que vínhamos do Rio para os fins de semana e feriados, mais punha ao chão o queixo de todos. Naquele dia, em um desses mergulhos, cruzou comigo, que voltava do mar. Me olhou de cima a baixo, como jamais havia feito. “Aparece aqui no trailer, lá pelas seis”, ela pediu pouco depois, quando eu estava indo embora, perto do almoço. Na hora combinada, apareci, cheguei com o pretexto de acertar as três cervejas que eu havia levado para a areia de manhã. É que Proença estava por lá e eu não queria que ele desconfiasse das minhas intenções. Bebeu a tarde toda, mas agora fazia cara decidida de quem já estava mesmo indo, o que fez em menos de dez minutos. Sozinhos, ela me chamou para dentro, trancou o trailer, nos beijamos e ela mandou ao chão a minissaia e o biquini. Feito isso, se sentou no freezer, daqueles horizontais, usados no comércio. Abriu as pernas. Seu cheiro engoliu o de cerveja passada misturado ao de fritura de peixe, aroma natural dos trailers de praia. Era mais forte, intenso e, claro, delicioso. Naquele momento, tive certeza de que nunca mais na vida o esqueceria. Definitivamente, eu não voltaria para o Rio no ônibus das nove da noite. De repente, me veio um estalo de preocupação, e não era com a volta. “E teu marido?”, me dei conta. Ela dividia com ele a administração do lugar. “Tá em Macaé, foi tentar fechar a venda de uns terrenos por lá. Volta na terça”. Quando acabamos, eu, em êxtase por ter sido o escolhido entre os outros nove que dividiam comigo o aluguel da casa de veraneio, queria mais; aquela ali, meio apressada, no desconforto do lugar, não seria o suficiente, uma oportunidade de ouro como aquela não poderia se resumir a uma única trepada. A ocasião merecia cama, conforto, e mais do que fizemos até ali. Pedi que fosse comigo para a casa. Subindo o biquini, aceitou na hora, como se já estivesse pensando na possibilidade. Disse apenas que eu fosse na frente, que tinha que fechar o caixa, tomar outras providências, e que lá pelas nove apareceria. Fui embora radiante. Repetiríamos noite adentro tudo que aconteceu no trailer. Aquela cavala dos sonhos de toda a casa só para mim.

    “Porra, vamos perder o ônibus por tua causa”, um dos caras reclamou assim que entrei. Comuniquei que ficaria, que só voltaria na segunda, de manhã cedo. Todos fizeram cara de “Então, foda-se. Vam’bora!”. Todos, menos Proença, que muitas vezes funcionava como meu irmão mais velho. “Tem certeza de que não vai?”, e me olhou com olhos de radiografia, de quem havia percebido o que, lá no trailer, estava suspenso no ar. Sim, eu tinha certeza, confirmei, firme. Saíram feito uma tropa, deixando a sala em silêncio e tomada por minha ansiedade pela noite.

    Ela chegou meia hora depois. Estava com maquiagem leve e batom, os cabelos ajeitados pela umidade do banho. Não estava feia ali. Até pensei se ela era realmente feia como dizíamos, ou se nos preocupávamos apenas se ela era gostosa. Usava uma blusa colorida casada com uma bermuda de tecido fino, um pouco transparente, através da qual dava para ver a marca da calcinha, ainda menor do que o biquíni que provocava o êxtase coletivo.

    A noite se desenhava memorável, daquelas de contar para os melhores amigos no bar. Mas não fomos longe e tudo se tornaria sim memorável, só que por outros motivos. A cama incendiava quando percebemos um vulto encostar junto à janela do quarto que dava para a pequena garagem, que por sua vez começava no portão de entrada da casa. Os caras saíram, não trancaram o portão. Apesar da vidraça espraiada, que distorcia as imagens vistas através dela, ele, o dono do vulto, pode perceber nossos movimentos e ter a certeza do que fazíamos. Algum filho da puta, escondido na praia deserta, deu o serviço, e o corno, nome real do vulto, veio em tempo recorde de Macaé.

    Do lado de fora, ele chamou nossos nomes e pediu que abríssemos a porta. Saí de cima dela, me vesti e fui abrir. Seria patético tentar negar. Nos passos que dei entre o quarto e a porta da sala, a principal da casa, me senti em uma reportagem dos antigos jornais populares, aquelas que não acabam bem. Eu só tinha 22 anos, pensei nisso antes de girar a fechadura, já arrependido para o resto da vida de não ter voltado com os caras. Quando abri a porta, o sujeito entrou olhando-me nos olhos, mas em silêncio, para a minha surpresa, que esperava, no mínimo, uma porrada no meio dos cornos. Parado no meio da sala, disse o nome da mulher e perguntou se era eu quem estava no quarto. “Não, era o presidente dos Estados Unidos”, ela respondeu. Meu silêncio tenso abafou minha risada.

    Quando apareceu na sala, já estava vestida, para dar à situação ao menos um pouco de decência. Começaram uma discussão típica dessas horas. Gritos, acusações de ambos os lados, a merda de uma vida conjugal se revelando, vindo à tona em golfadas de raiva e mágoa, como se fosse vômito. Eu tinha a ver com o que havia acontecido do trailer até ali. O que veio antes não era minha culpa.

    Ele ia dos gritos ao choro, retornava do choro aos gritos. “Eu te dei tudo quando você tava fodida, sem ter onde cair morta, quase passando fome, morando de favor. Mais um pouco e ia pra zona”. “E eu que me mato de trabalhar naquela porra, vendendo cerveja e fritando peixe, enquanto você some dizendo que vai vender terreno e nunca que aparece com a porra do dinheiro”. Foi aí que ele se abaixou em pegou uma garrafa de cerveja, encostada no canto da sala. Havia outras por ali. Os putos se mandaram e nem se deram ao trabalho de recolher a porra das garrafas. O movimento dele em pegar a garrafa, apenas este, foi o suficiente para que eu projetasse um enorme caco rasgando minha jugular. Eu só tinha 22 anos, pensei novamente.

    Levou alguns minutos discutindo com a mulher, segurando a garrafa. Em alguns momentos chegou mesmo a sacudi-la no ar. Mas ao contrário do que insinuava, deixou, propositalmente, a garrafa cair da altura dos joelhos. Ela bateu no chão, rodopiou, caiu deitada e não quebrou. Vidro forte, pensei pateticamente e, principalmente, aliviado. Virou-se para mim. Seu choro tornou-se seco e seus olhos, vazios. “E eu te considerava como um irmão”, e falando mais baixo, jogou na minha cara o modo como me tratava. Irmão era exagero, mas ele era realmente camarada de todos nós, dez rapazes entre vinte e vinte e cinco anos que rachavam o aluguel da casa, dormiam empilhados em dois quartos pequenos e uma sala de tamanho médio e se derretiam de tesão pela sua mulher. Se ele percebia isso, não deixava transparecer. Deu as costas e foi embora, sem dizer mais nada. Ela saiu em seguida; não se despediu, não olhou na minha cara.

    Vi as horas. Eram dez e vinte e cinco. De modo algum eu poderia dormir ali naquela noite. Aliás, em nenhuma outra noite mais. O sentimento de vingança poderia vir com a madrugada, nas semanas e meses seguintes, em algum momento até o fim da vida daquele sujeito. Embolei toda minha roupa, enfiei na mochila, apaguei as luzes, tranquei tudo. Agora faltavam quinze para as onze. Até a rodoviária, que não passava de um recuo à margem da rodovia, dava cerca de meia hora andando rápido. Seria o tempo exato de pegar o ônibus, o último da noite.

    A passos largos, quase correndo, ganhei a rua escura, de terra, assustado por qualquer movimento que eu percebesse atrás de árvores e em becos entre as casas. Na beira da rodovia me senti menos inseguro e apertei o passo, confiante de que chegaria a tempo. Mas foi quando de uma rua transversal saiu um carro, arrancando; mesmo no escuro deu para ver que era um Voyage. Com a arrancada, os pneus deslizaram na terra batida, e cantaram quando alcançaram o asfalto. Ao se aproximar de mim, um sujeito colocou metade do corpo para fora da janela do carona, pôs uma das mãos na cintura e fez o movimento de que dali tirava uma arma. Gritou “Vai morrer, filho da puta!”, e apontou para mim. Havia um objeto escuro, pontudo, preso entre o polegar e o indicador de sua mão direita, mas com a iluminação fraca, não era possível saber do que se tratava. O tempo em que o carro levou passando por mim ficou congelado em algum lugar do espaço sideral. Congelados também ficaram minha respiração e meus batimentos. Eu tinha 22 anos. Não imaginei que nessa vida se pudesse morrer na beira de um estrada, longe de casa, num fim de noite de domingo, tão rápido e por um motivo tão idiota: uma buceta misturada a cheiro de peixe e cerveja choca. Finalmente reagi, e intentei me jogar no matagal a minha esquerda, mas antes que eu fizesse isso, o desgraçado recolheu as mãos para dentro do carro, e ainda com a cara do lado de fora, me olhando feito um palhaço no picadeiro, deu uma risada escandalosa, que ecoou na noite e foi sumindo a medida em que carro ganhava velocidade com o arranque e desparecia na escuridão da estrada. Agora com o coração aos pulos e quase sem ar, não sei quantos segundos levei para realmente entender o que havia acontecido. Quando confirmei que estava vivo, voltei a apressar o passo, pensando que aquele imbecil jamais irá supor que não havia pior hora e pessoa mais errada para ele fazer uma brincadeira tão estúpida.

    Olhei o relógio. Onze e dez. Faltava cerca de meio quilômetro para o arranjo de rodoviária. Apressei o passo; agora, praticamente correndo, estava chegando. Foi quando vi, ainda a certa distância, o letreiro luminoso: Macaé – Rio, 23h15. A porta aberta, dois ou três embarcavam. Juntei todas as forças que tinha numa corrida desabalada, mas a porta fechou e o motorista deu seta para a esquerda, anunciando que pegaria de volta a pista. Perder aquele ônibus poderia significar a diferença entre morrer e continuar vivo. Então, tirei ar de não sei onde e gritei que nem um desesperado, acenando que me esperasse. Quase me joguei na frente, como se achasse melhor morrer com a logomarca da Mercedez Benz na cara do que com possíveis requintes de crueldade de um marido traído.

    Para meu alívio, o maior que senti na vida até então, escutei o barulho de ar comprimido do freio do monstro de lata. Em seguida, a porta se abriu, subi e quase sem respirar, sem conseguir falar, tremendo, tirei o dinheiro da carteira e comprei a passagem direto com o motorista. Ele me vendeu uma poltrona da última fileira. Se fosse pendurado no teto, já estaria ótimo.

    Como não havia ninguém ao lado, abri a janela, para que o vento frio da noite, acelerado pela estrada, secasse o suor da minha cara e da minha camiseta. Quando secou, fechei a janela e deitei um pouco o encosto. Lá fora, mesmo fracas as luzes da saída da cidade clareavam a espuma das ondas e o deserto da praia. Repassei tudo o que acontecera naquela noite, lembrei-me dela, de pernas abertas em cima do freezer, no trailer, mas na memória do olfato não me veio seu cheiro, aquele que eu tive certeza de que lembraria para o resto da vida. Naquela lembrança tão recente, estava apenas e tão somente a mistura enjoativa de cerveja passada e fritura velha de peixe.

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