Crônicas

Contei quarenta

Contei quarenta; mas o vai-e-vem do dobro de pernas me distraiu.

Nenhuma das mais de cem pessoas ao meu redor sorria. Pausa do almoço; eu apenas observava. Pessoas, sozinhas com suas escolhas de pratos. Escolhas próprias. Nenhum sorriso.

As que estavam acompanhadas, no máximo, demonstravam feições preocupadas. A maioria, uma fisionomia neutra. Até as crianças…! Uma, sentada à minha frente, tinha um arco com dois pompons brancos, unhas amarelas e uma pele chocolate fosca, linda e radiante. Uma menina ainda, à espera de conhecer a mulher que seria. Hambúrguer nas mãos, nenhum sorriso.

Incomodou-me, em algum lugar bem profundo, o fato de escolhas tão simples não fazerem brotar sorrisos. Afinal, era comida! E escolher o que comer deveria ser um dos pequenos prazeres pelos quais vale a pena se vestir e sair de casa.

Mas, talvez, essa ‘pausa’ fosse apenas uma pausa, momento de neutralizar o automático. De interromper, por alguns minutos, a obrigação de existir com alguma finalidade. Eu, ali, fazia o mesmo: existia. Na melhor definição de ser e estar possível.

Comia, atentíssima, algo saboroso: bolinhos de arroz que, no instante em que li o nome do prato na plaquinha informativa do bufê, trouxeram de volta o sabor daqueles maravilhosos feitos pela minha mãe. Olhei para o meu prato. Para a minha bota de obra. Meu relógio. Dois celulares. E o fato de não carregar bolsa alguma. Nenhum volume extra além daqueles que cabiam nos bolsos. Sorri. Sorri de leveza, assim como minhas lágrimas, ultimamente, têm saído por equilíbrio.

Comecei a ginástica muscular pelos olhos, que fizeram um pequeno resumo da minha vida no breve instante daquela manhã. Pontuei e rememorei meus pontos de gratidão: trabalho, casa, comida — a que tenho vontade de comer —, saúde. Amigos provisórios, como os canteiros de obras, e amigos de trinta e cinco, quase trinta e seis anos. Mãe, irmã, cachorro. Um pai que se tornou estrela. Tenho, como há muito não acontecia, um coração domado.

Então uma música salernitana começou a tocar. Coração perde as rédeas. O sorriso como consequência natural.

Passaram-se quase três meses. Diante de mim, outra espécie de menu: uma cama que desaparece sob uma seleção de calças, camisetas, meias, roupas de academia, uniformes, sapatos, luvas e bandagens de kickboxing e pequenos objetos que, embora perfeitamente dispensáveis durante os outros trezentos e vinte e cinco dias do ano, tornam-se subitamente indispensáveis para os próximos quarenta.

Quarenta dias. Quarenta, que eu contei. É quanto deve durar minha próxima obra, em outro canteiro, outro estado, com outra equipe.

Não sei quanto tempo fiquei ali, sorrindo sozinha diante dos bolinhos de arroz. Sei apenas que havia algo de extraordinário em não precisar de mais nada naquele instante. Agora os zíperes teimosos me mostram o quanto, em novembro, eu preciso de tanto.

Entre pratos e roupas, a liberdade de se ter o que cabe nos bolsos e a insensatez de fazer duas grandes malas de rodinha para o próximo destino, Zeca me observa.

Do alto de seus três aninhos, muito pelo e o mais doce e compreensível olhar do mundo, ele respira mais descompassado do que o normal. Sabe que eu já, já, mais uma vez, estarei longe. E que dessa vez retornarei mais velha. Mais uma despedida de quem eu não queria me despedir jamais. Eu levaria menos calças, menos sapatos, menos tudo, se pudesse levar aquela bolinha de pelos-brancos-recém-aparados comigo.

Enquanto separo mais uma camiseta, lembro-me daquele almoço. Quarenta. Comecei contando pessoas e cá estou, contando dias. Seria uma tendência humana transformar o tempo em quantidade, como se a vida pudesse ser compreendida quando disposta em pequenas unidades numeradas?

Naquele almoço, eu acreditava conhecer a forma que minha felicidade teria. Hoje, as incipientes convicções se foram; outras, mais experientes — que eu julgava perdidas —, me encontraram, cabelos elegantemente iluminados, pensamentos realinhados e o mesmo brilho nos olhos, como quem diz: “Voltei!”

Assim, de dentro para fora, olhei para frente e dei com os olhos de um senhor de cabelos grisalhos, tomando Coca-Cola. Olhava fixo em minha direção, como se não me visse. Eu continuei sorrindo, agora para ele. Até que ele se deu conta e interrompeu o movimento do copo plástico em direção aos lábios. O copo permaneceu suspenso no ar.

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Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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