
Uma tarde chuvosa
Há algum tempo o cronista reclamava da poesia metida na crônica. E reclamava do verso em prosa que, por força maior, escrevia. Entretanto, assuntos urgentes e fatos trágicos fizeram com que o lirismo fosse suprimido ou deslocado. Bom, há tempo para tudo, não? Dessa forma, quero — mesmo que reclame depois, porque faz parte do ofício reclamar depois — buscar uma vez mais a poesia e o lirismo neste texto.
A chuva também traz coisas boas: lembranças da infância, conversas acompanhadas de um bom café ou um chocolate quente. Quantas vezes, ao sairmos para o trabalho, para a faculdade ou para a escola, olhamos para o céu e tudo está escuro, nuvens carregadas anunciando temporais? Decerto pensamos: como seria bom ficar em casa, de papo para o ar, deitado no sofá ou na cama assistindo a uma maratona de streaming!
Uma tarde chuvosa e nossos pensamentos soltos no ar.
Uma tarde chuvosa e a cabeça saindo sem sair do lugar.
Uma tarde chuvosa e a água do chá a esquentar.
Da janela os pingos e dos vidros o embaçar.
Da janela outros sonhos, outras terras, outros tesouros por achar.
Da janela tudo o que é possível vislumbrar.
A chuva também traz canções e cores: músicas antigas perdidas nas playlists, vídeos nostálgicos que surgem no feed, aquela propaganda da nossa infância que alguém resgatou na internet e que valia a pena rever. Quantas vezes, presos no trânsito do aplicativo, sentados num banco de ônibus lotado ou esperando uma notificação de entrega, olhamos para fora e a vontade é de sair voando, largando o engarrafamento, o acotovelamento, a impaciência e a lentidão da cidade?
Por certo pensamos: como seria bom ficar em casa sem fazer nada, com o celular longe, deitado no sofá ou na cama com um bom cobertor?
Uma tarde chuvosa e nossas lembranças brincando e correndo sem parar.
Uma tarde chuvosa e os braços em repouso, sem sair do lugar.
Uma tarde chuvosa e uma tela apagada ou um livro por desdobrar.
Da janela o barulho do vento a assombrar.
Da janela outras casas, outros prédios, outras pessoas a pensar.
Da janela tudo o que é possível imaginar.
E, assim como a chuva que cessa aos poucos, com gotas cada vez mais finas, esta crônica termina, também aos poucos… Algumas palavras mais, uma frase ou duas que desenham no horizonte um céu por se abrir e uma vida por continuar…























