Campista Cabral no Crônicas Cariocas

  • Poema #22: Cotidiano

    É o lençol posto na cama
    é o café posto na mesa
    é o homem posto na rua

    o trabalho
    o dinheiro
    o trabalho

    e trabalha
    e se cansa
    todo dia todo dia
    o dia todo

    é a janta posta na mesa
    é o corpo posto na cama

    o sono
    a insônia
    toda noite toda noite
    a noite toda

    é o homem sem demora
    é o homem sem memória

    toda vida a vida toda

  • A palavra medo

    Cena de guerra e fuzil e sangue…

    Onde estão os afagos e os beijos e o abraço?

    Cena de guerra e mãos para cima e mãos algemadas e confusão. Uma crônica áspera e truncada e difícil, um senão.

    Os beijos e os afagos e o abraço onde estão?

    É só poeira e tristeza e desilusão.

    Estarão juntos o beijo e o tiro, o abraço e o fuzil, os afagos e a agressão?

    Cena de guerra, uma página na história, botas, farda, faca entre os dentes, caveirão. A violência constante do Rio e do Brasil! A perda das infâncias. A perda da juventude!

    Escrevamos um parágrafo ao beijo e ao queijo e ao pão. Beijo esperado.

    Queijo partido. Pão alcançado. Suor e lágrimas. Mistura. Massa diária e fermento da crônica. Voltemos aos olhos de alguém que não percebe a força do cotidiano, entretanto, vê tudo o que se passa. E tudo é forte e fala até quando cala.

    Mas a violência e o calor não esperam! Chegam e arrastam! Os tiros e os rostos intranquilos e os dias e as fugas e as cidades próximas e o cheiro de álcool e pneus velhos queimados e as imagens da selvageria, helicóptero no ar… Há muitos covardes. Pseudo-homens que levantam fuzis e gritam e matam e morrem. Morrem cedo. Morrem tarde. Morrem e matam.

    Voltemos ao abraço e ao corpo e ao chão. Abraço desejado. Corpo moído, trêmulo. Chão e descanso, sono. Suor e lágrimas.

    Heterogeneidade. Idade e insanidade. Pasta diária e fermento da crônica. Voltemos aos olhos de alguém que não entende o poder do cotidiano, contudo, vive e vê tudo o que passa. E tudo é muito e grita até quando cala.

    Mas a água escura do esgoto leva detritos humanos. As águas fétidas e viscosas levam coisas e seres. E fogem muitos. E fogem eles, os pseudo-homens. E são baratas e aranhas e ratos. E têm muitas mãos e pés e dedos com que avançam e empurram o que está pela frente. Anseiam chegar em vielas novas.

    E há o silêncio. Um silêncio perplexo dos espectadores da cidade da guerra.

    Alguns fugiram. Muitos fugiram? Alguns… Alguém… Voltemos ao silêncio estarrecedor. A palavra MEDO corta o horizonte como bala. A palavra MEDO parece estar ali, imóvel e imponente. A palavra MEDO ri dos homens e dos bichos. A palavra MEDO ainda existe. E ainda existe o medo da palavra MEDO.

    É o medo da normalização da barbárie!

    É o medo dos políticos e da política que mata!

    É o medo da perda de direitos e de humanidade!

    É o medo ouvindo os temores e tremores no Congresso Internacional do Medo.

    É um medo que paralisa e que compromete o futuro.

    O medo está ali. Ninguém fala porque a palavra MEDO apavora até quando se cala.

  • Árvores Vermelhas (um exercício de escrita)

    Árvores vermelhas, de um vermelho vivo, intenso, de doer os olhos de tão forte. Uma alameda de pedras rosadas e gastas, fileiras de árvores (uma à direita, outra à esquerda). Não sei o porquê me veio à mente a palavra morte. Me Assustei de início. Olhei para um lado e algumas pessoas notaram meu sobressalto. Não dei atenção. A cor vermelha das árvores produzia em mim uma sensação estranha, ora uma calmaria desmedida, ora uma intranquilidade…não sei. Fazia frio e o vento a me bater no rosto como se quisesse me despertar. Não sei. Fazia frio e, ao longe, um barco pesqueiro, um horizonte gigantesco a me engolir. Pensei na morte talvez porque tenha perdido alguém conhecido e não… Talvez pelo modo como as folhas caíam ao chão, ressequidas, enrugadas.

    As árvores vermelhas balançavam como os meus braços ao redor de Ana. O desejo dela era simples: viajar somente. Cabelos curtos, pretos, olhos vivos e um pescoço macio protegido pelo cachecol azul. Ana falava de terras distantes, mais frias que o frio, e, ao me contar as histórias (eu nunca soube contar histórias) a lua parecia espreitar cada movimento, quase a nos cobrir de estrelas. Um riso e um calendário eram o sopro de vida, o que levava na mochila surrada. Não gostava de vermelho (e eu a olhar, a amar e desprezar as árvores vermelhas), adorava o azul. Sempre fechava os olhos por instantes, um período curto, porém intenso e depois admirava o céu e ria para mim. Ana escrevia poemas, lindos poemas. Nunca os li, mas eram belos porque Ana assim também o era.

    O vermelho parecia sangue a denunciar tristeza e melancolia. Sinal aberto e pouca atenção um grito e o desespero e ninguém ouvia ou fazia coisa alguma… Muitos gritos muitos gritos muito sangue e o sol a arder o coração e o cachecol azul vermelho e o sol o gosto ruim amargo na boca. Não sei contar histórias, nunca soube. Adorava ouvi-las da boca de Ana, uma boca enorme como o mundo que sorria no seu sorriso.

    Lembrava do sol pela janela estreita do quarto branco e via um mundo maior, muito maior que todos nós. Nós não víamos.

    Um rapaz passa com uma bicicleta laranja.

    Segundo parágrafo…Ana sorria… Duas mulheres olham confusas o garoto do skate.

    Segundo parágrafo… Ana sorria, tudo escuro e o vermelho das árvores tomava os meus olhos. Tudo era vermelho, solitário, vazio. Um dia resolvi ler um dos poemas escritos pela doce Ana. Palavras confusas como o trânsito da cidade…

    Um horizonte gigantesco a me engolir…
    e não sei contar histórias
    e não sei desenhar nos muros
    muito menos nas janelas.
    Palavras ao vento, jogadas, todas elas
    como um brinquedo de viagem.
    Nunca soube contar histórias
    Porque as histórias sempre contavam a mim…

    Um casal se senta ao meu lado e escuto o balançar dos galhos e o cair das folhas. É outono. É outono a cobrir o caminho de folhas mortas, a desenhar no céu um cinza pesado e a rir de mim como ria Ana. Não sei contar histórias, nunca soube.

    Página nove.

    Uma bola escapa do campo de areia, bate nos meus braços e derruba o livro que lia. Estava no penúltimo capítulo, quase a descobrir o segredo. Pensei comigo: “o que importa?”

    As árvores frescas, robustas na estrada, balançavam com o forte vento. Guardei o livro de capa vermelha como as árvores vermelhas da história quando um cachecol azul-vermelho veio parar aos meus pés. Ria de nervoso. Se soubesse contar uma história.

    “Depois termino.” — Pensei.

  • O menino que escrevia versos

    O menino e a palavra eram amigos desde sempre.

    Inseparáveis como as horas e o tempo.

    Sensação, coração e pensamento.

    A palavra era a bola, a rasteira, a corrida, as travessuras…

    A palavra era o rosto, as descobertas, as noites escuras.

    O menino escrevia a vida e as suas cores em palavras pequenas, palavras grandes, palavras muitas ou palavras poucas. Cidades e
    ruas.

    A palavra se fazia chuva, sol, mar e vento, beijo e estrada, sonho, abraço, sentido, tudo e nada!

    O menino era poeta! Dizia com assombro a mãe!

    O menino era poeta! Falava paralisado o pai!

    O menino se metia com os versos? Indagava um e outro familiar.

    Não havia ser vivente que não questionasse o porquê dos versos.

    A verdade é que o menino abria os olhos e, para enxergar o mundo, escrevia. Escrevia suas histórias, registrava suas memórias e
    juntava lugares e nomes e sentimentos.

    Misturava o que ouvia, inventava o que não existia e simplesmente escrevia…

    Depois de algum tempo, já sabedores da situação, ninguém mais perguntava a razão.

    O menino é assim mesmo!

    Bola, papel, pião. Catavento, sopro, dragão.

    Laço, entrelaço, uma mão.

    Caminho, descaminho, construção.

  • Os influenciadores

    Quem influencia você?

    Essa pergunta, feita há uns vinte ou trinta anos, teria como resposta muitas pessoas: pais, professores, escritores, jornalistas, grandes ícones da música e da atuação, enfim, homens e mulheres que tinham algo a dizer. E diziam!

    Hoje, essa mesma pergunta oferece como resposta as redes sociais. Geralmente, toda regra tem a sua exceção, as pessoas que influenciam não têm nada a dizer. Mas dizem! Eis o problema!

    Este o grande drama da sociedade em frangalhos da pós-modernidade. Indivíduos que não possuem estudo, tempo, maturação, experiências e lastro para falarem sobre algo, falam assim mesmo. E se dão a importância de autoridades no assunto (seja qual for).

    E tudo piora quando, mesmo à luz da ciência, de dados, de comprovação e pesquisa, os ditos influenciadores contestam, negam, se rebelam!

    Não há argumento! Não há lógica! Apenas esperneio e performance! Negacionismo!

    Os influenciadores vendem fórmulas de sucesso para todas as áreas da vida! Ensinam como viver, mas não vivem a vida real!

    Os influenciadores ostentam carrões, mansões, bebidas, luxo, sexo, lugares paradisíacos e um sem-número de ilusões!

    Os influenciadores vendem jogos como doces armadilhas! Tudo parece fácil, simples e direto! Você que não segue se sente um idiota de não ter visto, ouvido e aplicado antes o passo a passo iluminado!

    Quem influencia você?

    Quem influencia tem experiência sobre o assunto para falar sobre isso? Estudou, leu, pesquisou, escreveu, ponderou, anotou, perdeu noites de sono, enfim, viveu o chamado processo?

    Se quem influencia não viveu processo algum, não respeita o tempo de maturação das coisas e das ideias.

    Se não respeita o tempo de maturação, simplesmente, não tem autoridade para falar sobre nada!

    O que é um influenciador então?

    Guardadas as devidas e honrosas exceções, os influenciadores são os idiotas que não têm vergonha de sua ignorância e querem espalhá-la aos quatro cantos!

    Que saudade de Drummond, Chico, Milton Nascimento.

    Que saudade de Chaplin, Clarice, Cecília…

  • Poema #20: Mar e Voz

    O fraco risco frágil
    e trêmulo uma voz
    uma voz apenas
    ruído longínquo e espesso
    uma voz
    um frasco, risco
    murmúrio e sonho
    voo largo e concreto da voz
    num desencontro imponderável
    a pedra a areia o risco
    inevitável
    voz das brumas
    voz das sombras
    voz apenas
    de tudo o que se podia
    tudo o que se queria
    tudo que se sonhava
    e nada se via
    voz apenas
    voz de melancolia
    mar marulhar marulho
    bruma
    a escuna no escuro
    o som da voz
    na voz
    foz
    inominável voz
    trêmula, espessa, rara
    inevitável desencontro
    voz das sombras
    voz apenas
    voz das brumas
    coisas poucas que se ouvia
    e, no entanto, nada havia
    mais que a vida
    uma via
    voz apenas
    voz enfraquecida
    no ar zoar zunir
    a sombra
    a figura
    o som
    na voz uma voz
    outra voz
    outro ser
    longínquo e espesso
    e fraco
    frágil
    desencontro apenas
    voz apenas
    voz das brumas
    voz das sombras
    claras espumas
    olhos e ondas
    nada se via
    do tudo que se sentia
    no mar que havia

  • Era só uma bicicleta

    Era só uma bicicleta!

    E Cláudio Rafael não havia roubado nada! Apenas saiu com a bicicleta de sua irmã!

    Ainda que tivesse acontecido um roubo, nada justifica a cena de selvageria que ocorreu em Copacabana.

    Pior, a cena de espancamento e linchamento de Cláudio Rafael escancara o quão estamos doentes! Que sociedade é essa que mata?

    Que sociedade é esta que banaliza a morte?

    Na fúria do dia a dia, vamos perdendo um pouco de nós mesmos.

    Na fúria do dia a dia, vamos nos afastando daquilo a que ainda chamamos humanidade!

    Na fúria do dia a dia, banalizamos a própria vida…

    A sociedade do espetáculo entrega a todo momento cenas grotescas de descomposturas gratuitas, violência verbal, agressão física, feminicídio… um sem-fim de comportamentos gravados e visualizados por milhões.

    Um dos agressores de Cláudio fez questão de filmar a horrenda ação, como se fosse paladino da justiça resolvendo as misérias históricas do país.

    Era só uma bicicleta!

    E uma vida foi tirada pela ignorância, pela barbárie, pela total falta de noção!

    Cláudio Rafael saiu com a bicicleta da irmã. Sentiria o vento na orla da praia? Não se sabe… Olharia para as ruas e cenários aos quais estava acostumado e seguiria para um encontro, uma conversa?

    Não se sabe… Olharia para as singularidades de Copacabana mais uma vez e teria um bom pensamento? Não se sabe…

    O que se sabe é que a brutalidade, mais uma vez, prevaleceu sobre o bom senso.

    A bicicleta?

    O Objeto da discussão e da morte de um inocente ficou jogada na calçada, alheia à fúria dos homens…

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