Crônicas

Frango à milanesa

Assim resumo meu começo torto, na última sexta-feira como cidadã “cachambianse” — e que se retire solenemente quem, dada a época do ano e o gentílico recém-proclamado, aguardar daqui em diante jogos de palavras tendenciosos à política do botão verde de CONFIRMA. Não me demoro nessa competição de temporada que, de tanto disputar digitais alheias, fere o sentido amplo de seu propósito; aqui, a politicagem é outra… distribui santinhos da experiência de pertencer, não papéis que emporcalham a cidade e mal chegam à reciclagem. Aqui, hei de fazer campanha pelas conexões de um povo que, mesmo estando eu de passagem, em apenas 04 meses aprendi a chamar de meu.

Onde eu estava…? Ah, sim. Eu tinha acordado.

Às 14h34, no susto. O alarme não tocou. Trôpega, peguei o celular e digitei sem muito cuidado com a caligrafia digital desatenta ao corretor ortográfico — que muito modifica sentidos quando nos pega desprevenidos — mil perdões esbaforidos para dona Rosa, da barraquinha de marmitas em frente ao meu condomínio.

É a primeira sexta-feira de outubro, chuvosa como foram tantas sextas do mês e setembro. Dona Rosa me aguardava para entregar a marmita — a minha última; ela não sabe. Visto uma blusa e outra coisa que não se encaixa bem nas pernas. Troco, escovo os dentes, prendo os cabelos de um jeito sem estilo. Havaianas nos pés, venço o corredor do meu bloco, atravesso a área comum que me recepciona com gotículas finas e persistentes, libero meu acesso pela facial e ganho a calçada. Dois sorrisos (um sem graça, outro cansado), um abraço, mil outros perdões, vale-alimentação já na maquininha. Ela abre o isopor vermelho e lá está: o pote de isopor com “frango a amilanesa – Bia”. Eu quase choro.

“Se cuida, menina! Descansa e se alimenta!” Pisquei os olhos.

Passei boa parte da vida acreditando na precisão das palavras. Ainda acredito — e defendo, com postura de quase candidata a um cargo nas eleições deste domingo, 04 de outubro: corrijo acentos, vírgulas, concordâncias. Aprendi a amar as regras gramaticais quase como quem afia ferramentas: pelo som, pelo peso, pela precisão do corte. Mas quatro meses me ensinaram uma língua sobre a qual nenhuma gramática normativa poderia reivindicar propriedade.

Quem diria que, ao acrescentarem mais um “a” ao prato do dia, numa alusão já bastante tropical a um suposto preparo italiano, logo eu — devota da palavra correta, amante e fluente na língua e cultura italianas — deveria ter sucumbido ali mesmo à indignação. Morri, sim, ali, na calçada. Mas de ternura; o tiro saíra pela culatra.

Escrito à caneta na tampa de uma marmita descartável, o duplo “a” equivocado acertou em cheio: disse o que precisava ser dito; com o coração, não com o esnobismo. Era um “a” dobrado de afeto, expresso, tal qual um café, com aroma extra de amor. Na língua do cotidiano, fala-se que o segredo está no tempero. E todo mundo sabe que o caminho mais curto até o coração de um
homem passa pelo estômago; antes dele, há o prato.

Uma voz culta, musical e precisa surgira nos meus dias, preenchendo-os de possibilidade. Conhecia, pela tela, minha casa, meus cantos, o lugar onde eu escrevia e lia; falava de energia, de escolhas, interpretava minha exaustão como consequência de eu me dar demais ao que não merecia tanto de mim. Mas não me preparou prato algum e deixou pela metade até a única fatia de pizza que teve diante de si. Tanto discurso, tão pouco apetite pela experiência inteira. Pouco depois, retirou-se numa ausência orquestrada.

(Curioso: eu, que comecei este texto expulsando a politicagem pela porta da frente me vejo, algumas linhas depois, de cara com a política acomodada à mesa. Não a convidei. Certas presenças têm o hábito inconveniente de sobreviver à própria ausência)

Mas esta não foi a única voz a opinar sobre meus gastos. Outras, igualmente instruídas, também disseram que eu me despendia demais — e mal. Nenhuma delas soube ler o que tanta gente, sem qualquer pretensão de erudição, leu de primeira: minha energia não estava sendo desperdiçada. Escorria de mim como uma torrente, é verdade, mas encontrava mãos que trabalhavam comigo, cafés passados na hora, hambúrgueres que salvavam madrugadas, abraços, risadas e gente que simplesmente abria espaço para que eu coubesse inteira, só por ser eu. Há muito eu não me via tão feliz sem as malditas expectativas. Continuei me gastando inteira, como sempre. A diferença é que, desta vez, o desgaste me devolvia vida.

“A a”bracei novamente.
Ela, dona Rosa, ainda não sabia.

***

Corda ao contrário no relógio.
São 17h35 de quinta-feira; eu, na fila do Mega Matte.

No caixa, a proprietária, que me viu algumas vezes. O atendente de sempre não estava por ali.

“Um açaí fit de…”
“…500 ml com proteinato!”

A voz vem do movimento corporal de um atendente que eu nem havia percebido direito nos últimos quatro meses. Ele sorri para mim; sabe meu pedido. Sabe a mesa na qual me sento.

E isso dói de um jeito bonito.

Espero baterem meu shake, que substitui o almoço de quem acordou às 16h depois de trabalhar das 21h30 às 10h. Respondo alguns colaboradores, fornecedores, agendo as atividades da noite, peço apoio para compras de última hora.

Confirmo o Pilates pelo aplicativo de check-in; ainda preciso passar na padaria para comprar salgadinhos e Coca-Cola — sugestão de uma das alunas. Convém apresentá-la antes que chegue atrasada algumas linhas adiante: na semana anterior, ao descobrir que minha condição de nômade incluía também uma despedida iminente, apareceu com um bolo de pamonha tão bonito quanto delicioso. Não sei se existe protocolo para acolher mulheres de passagem; se existe, desconfio que Deus envie anjos a nos entregar milho, açúcar e muita generosidade embrulhada para presente.

Meu último dia no Pilates. Esta quinta.
(Eu sei… a crônica está muito culinária e nada fit — nem ao corpo, nem a qualquer figurino político. Tampouco pretende entrar em forma partidária; apolítica, a esta altura, já vimos que também não é.)

“Exercício e açaí fitness não casam exatamente bem com refrigerante e gordura”, penso diante dos quitutes. Por coerência, pego também uma caixinha de palmiers.

Subo a Torre Norte até o nono andar, no terceiro elevador.
Sorrisos.

Alguns exercícios.

A aluna do bolo de pamonha — eis que retorna a personagem, desta vez atrasada — chega e me abraça.
Queridíssima.
Ninguém está exatamente no clima de alongamentos ou superações musculares.

Pausamos. Paramos em pé, ao lado externo da porta de entrada.

“Sábado vamos dar uma volta e tomar um café antes de você ir.”

Eu sorrio.
Piscar de olhos.
E já se foi o sábado. Eu não consegui encontrá-las.

Tive de trocar o café prometido e a continuação das nossas histórias de vida pela arrumação da casa, 02 malas G de rodinhas, 02 mochilas, umas 07 sacolas retornáveis, alguns mantimentos e Magda Ficus Elastica Tineke Mies.

Lembram-se dela? A roommate e única sobrevivente de “Esta história não é sobre plantas”, primeira crônica desta temporada inteiramente carioca. Minha bagagem concentradamente nômade revelou-se humanamente apegada: ocupou todo o maleiro de uma van executiva.

Troquei também o café com minhas novas amigas por refeição alguma. Sobrevivi a uma sobra de queijo, restos de gelatina sabor banana Fini, água e água tônica do mercadinho-contêiner. (Vejam uma crônica tão culinária terminar o sábado em jejum. A coerência também se perdeu numa logística que se recusava a terminar.)

Enfiei nos últimos microespaços, entre tecidos e objetos, o que não coube em mala alguma: sentimentos, memórias, aprendizados, alguma dor e muita felicidade. Até poucas horas antes, eu ainda imaginava continuar habitando aquela casa…O café ficou para trás; a Bialetti, foi envolta em plástico bolha. Abracei os funcionários do condomínio, tirei algumas fotos, troquei olhares de gratidão e, pela primeira vez, não levantei a planta do apartamento.

Para uma arquiteta que costuma medir os lugares que habita, foi, no meu doce ver, a maneira menos técnica de manter a porta aberta.

Deixei tudo sem escala.

Inclusive a possibilidade de voltar. De acordar outra vez com os ruídos abafados pelo drywall; finalmente cumprir a terceira ida à piscina, desta vez com sol, diante do salva-vidas que muito mais me viu passar prometendo “qualquer dia eu venho” — gerúndios infinitos — do que em trajes de banho. Quem sabe madrugar, enfim, na academia do condomínio ou levar uma outra almofada para um banco lá fora e partilhar da minha solitude com as estrelas, uma vez mais.

E tomar, como de praxe, meu café no sofá das leituras domingueiras.

***

Os seguranças do shopping sabem meu nome.

Os responsáveis pela manutenção, idem.

As docas do Norte Shopping me receberam de braços abertos — em alguns dias, em mais de um idioma.

Os corredores dos acessos restritos são labirintos familiares.

O time da loja me cumprimenta e ainda me manda mensagens perguntando onde estou (“tem um vazamento”, “uma tomada pifou!”, “como é que faz isso mesmo?!”, “está a caminho?”). Os seguranças extras que acompanham a continuação dos serviços sorriem.

O celular toca.

É a Katia.
“Chegou encomenda, bebê.”

Cruzo as partes cobertas e abertas do pátio do centro comercial. Quando noite, chuvosa, percebo o reflexo dos painéis de led nas poças sob os meus pés. Sempre achei incríveis essas escadas rolantes que se deleitam com as chuvas. Atravesso as faixas carroçáveis e recolho mais uma entrega para a obra.

Meu rosto é reconhecido.

Abaixo dele, ora aparecem bloco e apartamento; ora, seis números me transformam em Ordem de Serviço.

“Bom dia”.
“Boa tarde”.
“Boa noite”.

Essa experiência nômade me deu o que anos de retornos e permanências imprevistas à minha cidade natal não conseguiram: conexões profundas.

E pensar que cheguei aqui com bagagem demais e uma carta escrita vinte anos antes, destinada a ser aberta — embora o remetente esperasse que nunca fosse — num momento de tristeza pontuda; fora escrita exatamente no mesmo dia em que, vinte anos depois, cheguei a este lugar.

Ah, minhas adoráveis dobras do tempo..!

Foram tais palavras antigas e tão frescas que me tomaram no colo e atravessaram comigo a porta do apartamento. De algum modo, também moraram aqui.

Outras presenças chegaram sem atravessar o portão preto.

Promessas de vinda permaneceram suspensas, alimentadas por chamadas, vídeos, noites e possibilidades. Houve quem conhecesse pela tela minha casa, a disposição dos móveis, meu espaço de escrever e de ler, meus silêncios, meus fins de noite.

Conheceram, no raso, um lugar em que nunca estiveram.

Restaram sombras e ausências muito latentes.

Os olhos marejam.
Pego novamente a carta.
Releio.
A mão esquerda sabe.
Respiro.

***

Minha mãe e Zeca vieram passar uns dias.

Choveu e fez frio.

Eu tive febre. Por 12 dias consecutivos. Não pude utilizar-me de atestados.

Trabalhei horas e horas e horas.

Um dos meus melhores amigos fez ponte aérea para passar um dia participando da minha rotina.

Um colega de ofício, presente da escrita criativa que a vida transformou em amigo veio, de moto Uber, tomar café só para bater papo. Depois me chamou para filar uns comes e bebes na inauguração do novo Manolo do Rio de Janeiro.

Magda cresceu comigo, perdeu folhas e ganhou novas.

Eu também.

Fui duas vezes à piscina.

Duas.

Em quatro meses.

Na última, atravessei os azulejos a nado, ida e volta; me sentei numa espreguiçadeira dentro da prainha, boiando.

Achei que, finalmente, faria absolutamente nada.

O celular corporativo tocou.

Depois tocou de novo.

E de novo.

E de novo.

Foram mais de dez ligações.

Eu trabalhava de dentro da piscina.

Ri.

Parece literatura, e é; a certa altura, até a falta de pausa virou uma das pausas que eu registraria por aqui…

***

Jamais esquecerei a barraquinha de hambúrgueres, que salvou noites intermináveis de trabalho e rapidamente nos promoveu a clientes VIPs: eu, meu par à frente da engenharia da obra, a técnica de segurança e o bombeiro.

Hambúrgueres em horários em que pessoas normais dormiam. Cafés levados em garrafas térmicas que não chegavam a meia-noite de um turno comum. Depois, os cafés moídos na hora na copa da retaguarda. Muitos. Pizzas. Frutas. Conversas em pé. Conversas sentadas no chão. Retoques. Mais retoques; um checklist que parecia reproduzir seus próprios itens quando ninguém estava olhando.

A construtora e a gigante multinacional do varejo me deram trabalho. Muito. De noite, de dia, à tarde; jornadas que algumas vezes pareciam não compreender muito bem a existência dos relógios e, ainda assim, se mostraram mestras em me proporcionar VIDA.

Há uma ironia maravilhosa nisso: em 04 meses de obra, trabalhando em todos os turnos possíveis, o que mais se escreveu na minha vida foram as pausas.

As pequenas.
As roubadas.
As inventadas.

As que cabiam entre uma ligação e outra, entre uma madrugada e o amanhecer, entre um problema e outro, entre duas pessoas, entre uma equipe que, aos poucos e rapidamente, adquiriu contornos de família.

Entre a vida que eu trouxe para cá e a que começou a nascer aqui.

O final não poderia ter sido mais leve: 10 a 14 horas de trabalho noturno, de segunda ao amanhecer de sábado.

Na terça, entretanto, fomos surpreendidos pela Light, que desligou, para manutenção, a energia de todo o shopping e nos obrigou a correr e interromper a programação. Foi providencial para que meu amigo viesse.

Nos outros dias, empresas antigas e uma nova bateram ponto com pessoas queridas das equipes dos nossos colaboradores. Gente que já não era apenas profissional trabalhando de madrugada. Gente cujo nome passou a morar comigo, no rol dos rostos cachambianses.

Na última madrugada, entre um retoque e outro e a espera pelo profissional seguinte, joguei forca, jogo da velha e fiz uma mímica inesquecível de filme com uma segurança que, desde o início, tinha uns ares estranhamente familiares.

Rimos no meio de uma loja vazia depois de horas e horas acordadas. Tomamos café e água. E ouvi dela que nunca havia sido tão leve virar tantas noites. Que eu ficaria na saudade.

Ela também. Ela e sua promessa de um calendário personalizado. “Um de 2027, claro”.

Clareia o dia lá fora, mas aqui o ar condicionado ainda é gélido. Café passado. Mais um ajuste. Mais um item riscado.

Uma fruta.
Uma pizza dividida.
Lactose sem proteção e sem riscos.
Uma ferramenta que some.
Uma risada.
Um “Bia!”.
Um “bebê”.
Um “bom dia” dito às cinco da tarde.
Um “boa noite” às oito da manhã.
Fecho os olhos.

***

Em quatro meses fui mais arquiteta, escritora, amiga e ser humano do que havia me percebido nos últimos dez anos:

Aprendi a respirar. Aprendi sobre a minha energia. Me apaixonei.

Por momentos.
Por pessoas.
Por lugares.
Por plantas.
Por cervejinhas compradas no mercadinho 24 horas do condomínio e tomadas no amanhecer de um dia comum.
Por uma promessa.
Por presenças.
Por ausências.
Por uma carta de vinte anos que chegou comigo.
Por pessoas que sabiam meu pedido antes que eu terminasse a frase.
Por quem aprendeu meu nome.
Por quem me chamou de bebê.

Por quem me abraçou na despedida sem ainda entender direito que era despedida.

Eternizei meu primeiro eclipse visto a olho nu, deitada no banco deste lugar que se tornou tão profundamente lar.

Fui feliz. Sou feliz.

Há dor dentro disso. Muita.

Há também uma mulher nova refletida no espelho. Uma que pela primeira vez nesta década olha para a própria imagem e reconhece estar viva. Muito viva.

Hoje reorganizarei a vida dentro de malas de rodinhas 360°. Dona Rosa ainda não sabe que aquele frango à milanesa foi o último. O atendente do Mega Matte talvez ainda espere que eu apareça na segunda-feira pedindo meu açaí de 500ml.

Meu rosto ainda abre a porta do condomínio. Meu nome ainda está ali. Por mais algumas horas.

E eu descubro, quase na saída, que uma experiência nômade não me ensinou a não criar raízes, mas que elas podem brotar e frutificar muito depressa.

Nos outros.
Nos lugares.
Em nós.

E que, quando chega a hora de partir, não há nada a arrancar.

Pisco.
Fotografo com o celular, a instax e a retina.

Pego as bolsas pelas alças, a Magda pelo pratinho e levo tudo junto. 125 dias aqui, entre idas a São Paulo, Jundiaí, Nova Friburgo e Porto Alegre.

Pisco.
Persisto.
Me visto.

É chegada a hora.

E, de repente, já é domingo.

Termino este texto já com o café da manhã esfriando. Preciso do meu título de eleitora. Da minha colinha.

Após tanta política, tanta comida e tanto afeto, chego à conclusão mais urgente desta crônica:

quero almoçar um belo frango à (a)milanesa.

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Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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