Crônicas

Duas sessões: um respiro, apesar de # e @

Quanto mais Inteligência Artificial, maior a cobrança por performance, por entrega, por prazos que já deixaram de ser humanos. O mundo segue tendo seus ciclos — noite e dia, dias que viram semanas, semanas que viram meses — e, num piscar de olhos, os anos passam. A urgência urge.

Respirar é um ato de vida: ar que entra, ar que sai — e, nesse intervalo mínimo, quase imperceptível, algo em nós se reorganiza. Quem já parou para meditar sabe: criamos espaço.

Sem esgotar nenhuma reserva biológica, sem aumentar a pegada de carbono — apenas respirando c-o-n-s-c-i-e-n-t-e-m-e-n-t-e… Pensar que passamos a vida tentando criar espaços no mundo — eu, literalmente, como arquiteta e urbanista — enquanto esquecemos que o primeiro espaço possível é, simples e essencialmente, o que cabe entre uma respiração e outra.

Presença.

Meio óbvio, né.

Infelizmente, não.

Não se trata da presença velada que registramos aos quatro cantos cibernéticos, marcando arrobas e hashtags sem fim. Presença mesmo. Analogissíssima.

A nossa conosco | A nossa com o outro |
Com os outros.

Nada de conversinhas solitárias mediadas por telas brilhantes.

Tive o privilégio de perceber isso ontem, sábado. Do fundo de uma sala lotada, com visão panorâmica do público e dos comandos de som e iluminação – ainda fui a responsável pelo soar das campainhas.

Reestreamos nossa curta temporada de “Sem verba, com drama”, na Usina Cultural Energisa, em Nova Friburgo. Segunda temporada, com uma única sessão prevista.

Prevista.

A gente sempre acha que teatro não vai lotar. A minha cidade – celeiro de artistas, reconhecido mundo afora – ainda tropeça numa carência básica brasileira: falta formação de plateia. Daí, pelo receio de não lotarmos um teatro de apenas 100 lugares, o elenco começou a pedir confirmações de amigos, amores (que, compulsoriamente tornaram-se parte da equipe) e parentes. Eu fiz o mesmo. Se cada um garantisse alguns poucos espectadores, alcançaríamos uma base mínima. Quando redigimos a lista final, para deixar na bilheteria, percebi, entre o êxtase e o desespero, que já não havia mais lugares disponíveis.

— Buuuum! Conflito interno!

(A vida imita a arte ou é a arte que imita a vida? Essa fala é do roteiro e explica todo o nosso dilema).

Na entrada, Felipe, o guardião das chaves da Usina Cultural, me informa novamente que, desde o dia anterior, pessoas perguntam pelos ingressos…

Como receber o público orgânico sem espaço?

Liguei para a diretora da Usina e pedi, quase sem jeito, mas introduzindo que era uma questão maravilhosamente boa e… talvez nem tanto assim…., a necessária possibilidade de abertura de uma sessão extra, logo em seguida.

— Problema bom de resolver — ela me respondeu — Me dê uns minutos.

Avisei o elenco:

— Provável que tenhamos duas sessões! — abri a cortina da coxia/ camarim e soltei a bomba, assim, sem prepará-los.

(Ser positiva, firme e aumentar as borboletas no estômago dos atores é o grilhão dos diretores de teatro). Os atores, notoriamente, foram à loucura. Frenesi e dor de barriga: combinação perigosa para uma estreia.

Deem seu jeito com o emocional, complementei. Viver de arte no Brasil é isso: sem verba, com drama — e sem o luxo de perder oportunidades.

Deu certo.

Entre um baby liss e uma passada de rímel, uma outra de texto, pára tudo para novas chamadas com o breaking news para as redes sociais:

“Nem liberamos os ingressos ainda… e já lotamos! Notícia fresquinha: temos mais uma sessão!”

Holofotes, microfones, impostação de vozes, movimentação mantendo o equilíbrio do palco.

Risadas… muitas.
Crianças no colo, um mar de gente esperando.
Gente se encontrando.

Recepcionar o público, desejar bom espetáculo, subir ao palco e dar boas vindas com uma claquete em punho, dar uns informes e já arrancar umas gargalhadinhas humildes me fez perceber que todo mundo ali estava… presente.

Sem o celular roubando completamente a atenção, e apesar deles, porque não são outro que próteses em nós, a produção (concentrada momentaneamente na minha pessoa, também — ser multifunção é também premissa de quem faz teatro) liberou o uso dos aparelhos, em modo silencioso e sem flash, desde que usassem os QR codes espalhados por todos os assentos para marcar a rede social do espetáculo.

Silêncio e gargalhadas. Olhares atentos. Todos respirávamos juntos.

Durante cinquenta minutos, três atores seguraram duas plateias inteiras. Poderiam estar em qualquer outro lugar — num evento de cerveja, que acontecia ali pertinho, num bar, em casa. Mas escolheram estar ali. Se arrumaram
para estar ali.
Assistindo.
Vivendo.

Uma criança de dois anos e meio chorou na cena final, enquanto os atores esgoelavam-se aos prantos e berros, exagerada e cômicamente, por serem despejados.

Talvez o teatro ainda seja uma das formas mais bonitas de ir contra a corrente de um mundo que anda apressado demais para perceber que O₂ não é pauta.

É vida.

Infelizmente, e só de vez em quando, a gente lembra.

Na fila de entrada. Na saída. No riso compartilhado com desconhecidos. No olhar que encontra outro olhar – talvez pela primeira vez em uma semana inteira observando telas.

Pequenos gestos, desses que quase passam despercebidos, ainda nos provam que as -pessoas seguem sendo pessoas, não meros
ecos silenciosos da tecnologia.

Ainda respiramos
Ainda nos emocionamos.
Ainda nos deixamos sentir, refletir e sorrir.

“Só a arte salva”, dizem.
Talvez nem tanto; apenas o suficiente.
De quando em quando, é o teatro que nos
mantém na humanidade.

Termino com uma frase que li e se entranhou pelas minhas veias, nos primórdios de 2007, na parede do SATED-RJ, quando, fui tirar meu registro de atriz.

“Tratai bem os atores, pois eles são a crônica e o breve resumo dos tempos”.

Shakespeare. Sempre atual.

A arte é esse emaranhado bonito que insiste em nos lembrar de quem somos.

Respiremos.

E viva o teatro!

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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