Crônicas

O talento dos outros

Tenho imensa gratidão pelas pessoas que fazem aquilo que não sei ou não gosto de fazer. Cozinhar, ainda que a contragosto, é possível, mas fazer meus próprios sapatos está fora de questão.

A lista das profissões que me atraem é infinitamente menor do que a lista das outras; e entre as que me agradam para várias falta-me a devida competência. Não levo jeito para uma porção de coisas a despeito de apreciá-las muitíssimo.

Ballet é a perfeita tradução desse desencontro entre desejo e capacidade: sou desajeitada por completo e morreria de fome se tivesse que ganhar a vida dançando. Ao menos possuo a humildade de reconhecer que, embora me fizesse feliz, dançar não é uma atividade ao alcance das minhas aptidões. Ponto para mim: com frequência vejo gente desperdiçando seu verdadeiro talento ao insistir em ser aquilo que não é. Às vezes a natureza nos faz cair nessa armadilha de suspirar pelo que não nos convém.

Detestaria ser médica, advogada ou costureira, mas preciso imensamente desses profissionais e de tantos outros. Gratidão profunda.

Por outro lado, números e lógica não me assustam. Ao contrário: estudei matemática que considero uma das mais gloriosas manifestações do espírito humano, senão a maior. Poderia igualmente ter sido diretora de teatro ou roteirista de cinema, mas a necessidade de sustento falou mais alto; quando se escolhe a profissão é aconselhável ter um olho no talento e outro na sobrevivência.

Não gostaria de ser engenheira, no entanto seria boa arqueóloga, adoro ruínas históricas. Pois é.

Já que hoje não é o dia internacional da modéstia, vou marcar outro ponto positivo para mim: apesar de ter consciência de que, mesmo naquilo em que posso contribuir para a humanidade, estou longe da genialidade, admiro genuinamente os mestres. Faço a minha parte, equilibrando-me entre o ideal e o possível e sou feliz assim.

Claudia Valle

Claudia Valle nasceu no Algarve, mas desde criança mora no Rio de Janeiro. Já foi professora, matemática, informática, administradora, agora é escritora nas horas vagas. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o humor também é capaz de provocar reflexões profundas.

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