Cláudia Valle

  • Anamnese

    Tenho muito respeito pela palavra anamnese que une de forma inusitada duas consoantes, o que lhe confere um ar imponente de cultura e refinamento. Por vaidade literária fútil sempre desejei usá-la, mas por não ser da área de saúde nunca consegui. Agora resolvi esse problema: criei meu próprio formulário de anamnese, que, em primeira mão, compartilho com vocês.

    Trata-se de uma série de perguntas simples para quem se interessar em ser meu amigo, oxalá alguém se anime. Lembrem-se de que uma anamnese não é um teste de excelência, é apenas uma coleta de informações.

    Quem já for meu amigo pode ignorar o assunto: tem lugar cativo, quaisquer que sejam as respostas dadas. E se alguém achar que, em vez de respostas, deve enviar-me perguntas, prometo respondê-las com afinco e sinceridade.

    Lido mal com as perdas e na medida do possível quero minimizá-las, assim sendo dou preferência às pessoas que possivelmente viverão mais do que eu. Essa é uma das questões que mais me preocupa e está contemplada logo no início.

    Outra das minhas preocupações diz respeito aos encontros presenciais. Dou preferência a quem mora perto para facilitar o convívio ou a quem mora bem longe, o que dá direito a uma viagem planejada e prazerosa. As médias distâncias são uma encrenca: a Lei Seca, o preço do über, a insegurança de alguns trajetos cariocas, os horários noturnos, os engarrafamentos, não faltam motivos para desestimular o deslocamento.

    Um último comentário: essa coisa de virar amigo não tem regras nem explicações, portanto não há garantia de que o questionário funcione. De qualquer forma, é um começo. Aí vai.

    1. Você pretende viver muito ou é pelo menos quinze anos mais novo do que eu? Sim ( ) Não ( )
    2. Sua família é longeva? Sim ( ) Não ( )
    3. Você mora a menos de 20 km ou a mais de 200 km de mim? Sim ( ) Não ( )
    4. Você procura ser correto? Sim ( ) Não ( )
    5. Você concorda que na vida as coisas não precisam ser obrigatoriamente pretas ou brancas? Sim ( ) Não ( )
    6. Você ama a liberdade de expressão e abomina ditaduras de qualquer cor? Sim ( ) Não ( )
    7. Você convive de forma civilizada com opiniões divergentes? Sim ( ) Não ( )
    8. Você é capaz de nomear, de forma honesta, uma qualidade e um defeito seus (não precisa confessar)? Sim ( ) Não ( )
    9. Você é capaz de nomear, de forma honesta, uma qualidade e um defeito meus (não precisa contar)? Sim ( ) Não ( )
    10. Você consegue tolerar o defeito que encontrou em mim? Sim ( ) Não ( )

    Marque um ponto para cada resposta ‘sim’, sendo que as três primeiras valem dois pontos cada uma. Idem a última, porque amigos devem estar dispostos a perdoar (e esquecer) os eventuais deslizes uns dos outros, e eu possuo cá os meus.

    Se você somou mais de sete pontos, estamos bem encaminhados, pode me escrever no privado para darmos continuidade à conversa. Menos do que isso, penso que não vai dar certo e temos que nos conformar: unanimidade é algo inatingível e tenho certeza de que bastante gente está do seu lado.

    Um adendo: semana passada apareceu uma barata aqui em casa. Horror, horror! Mantenho a casa encharcada de inseticida, não sei se a barata saiu de alguma toca oculta ou se entrou voando. Apareceu já cambaleante, de salto alto, pronta para morrer. Foi caçada (não por mim!) e destruída convenientemente. Pensei, devido à importância que dou ao tema, em incluir na anamnese a pergunta ‘Você sabe matar baratas?’, mas refreei o impulso. No entanto, se você souber, não importa a pontuação que obteve no questionário acima, já quero conhecê-lo.

  • Reborn

    Quem não brincou de boneca o suficiente em criança não deve perder a oportunidade agora, incluindo os meninos a quem não foi dado esse direito. Compre um bebê reborn e vá à luta. É a sua chance: dificilmente aparecerá ocasião tão propícia para resolver um problema de infância que demandaria anos de terapia, uma solução bem mais cara que o boneco.

    Para uma experiência mais completa, esses bebês poderiam ser ainda mais realistas: chorar no meio da madrugada, exigir troca de fraldas em horários aleatórios e impedir os ‘pais’ de sair porque estão com febre. Como aquelas mascotes Tamagotchi que precisam de atenção e ‘morrem’ se você deixa de alimentá-las ou cuidar delas. Se o bebê ‘morrer’, nada de pânico: basta encomendar outro.

    Outra sugestão para quem quiser aprofundar a experiência: trocar de bebê a cada aniversário, acompanhando o crescimento da ‘criança’ até que ela se torne adulta. Obviamente, adolescentes reborn seriam programados para dar muiiiito trabalho antes de se transformarem em jovens bem sucedidos. É improvável que alguém insista além desse ponto, mas nunca se sabe: velhos reborn podem virar febre no futuro, a fofura dos bebês substituída pelos achaques da idade. Tem gosto para tudo e o lobby das farmácias não dorme no ponto.

    Em vez de criticar os bebês reborn, pense nos aspectos positivos: lucram as fábricas, as produtoras de festas, criam-se empregos. Que mal há nisso, fora a loucura? Só espero que não seja contagiosa. Será?

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