Cláudia Valle

  • O que há de velho?

    Li, há muito tempo, um conto em que o protagonista se queixava de que os amigos sempre lhe faziam a mesma pergunta: o que há de novo? Não recordo o nome do conto nem do autor, a quem humildemente peço desculpas, embora estas soem falsas dado que ele deve ser falecido.

    O protagonista do tal conto, cansado da mesmice repetitiva da pergunta, decidiu vingar-se e passou a responder com notícias bombásticas. Lembro-me que uma delas dava conta de um avassalador terremoto em Lisboa. O herói dava detalhes sobre mortos e feridos, deixando o interlocutor assustado e boquiaberto. Só então revelava a data exata do evento: 1755. Não sei como terminava o texto, no mínimo pararam de pedir-lhe novidades, mas é provável que tenha perdido os amigos.

    Se tivéssemos que modernizar essa história, acho que a pergunta que caberia hoje em dia seria o inverso: o que há de velho? Porque a todo momento a internet ressuscita conteúdos antigos como se fossem novos. Muita notícia velha é divulgada como atual. De boa e de má fé.

    Mensagens de cunho político com frequência apresentam fatos passados como novidades. Quase sempre se trata de propaganda disfarçada que intencionalmente omite datas e contextos. Ajudaria se cada matéria pudesse vir acompanhada de um certificado imutável informando a origem e a data da primeira publicação. Uma espécie de certidão de nascimento.

    Mas nem toda a desinformação é deliberada: há também uma série de bobagens que circulam por pura ingenuidade. Basta que alguém de má memória ou de outra bolha ‘descubra’ algo que julgue interessante e dê a partida para que aquilo volte a se espalhar como um rastilho de pólvora.

    É por isso que, se você sabe do que estou falando, recebe de vez em quando aquele texto sobre o ano chinês do bolso cheio de dinheiro que se repete a cada 827 anos. Um clássico.

    Assim se espalham muitas coisas falsas, quer como notícia, quer como autoria. O Arnaldo Jabor vivia reclamando disso (entre outras, insistiam em atribuir-lhe uma crônica sobre bundas que ele repudiava), mas qualquer figura pública sofre do mesmo.

    Deposito minhas esperanças numa IA cada vez mais eficiente para identificar plágios e más intenções. Por enquanto a internet continua sendo uma terra de ninguém.

    O personagem do conto pelo menos avisava que a notícia era velha – e não mentia.

  • O talento dos outros

    Tenho imensa gratidão pelas pessoas que fazem aquilo que não sei ou não gosto de fazer. Cozinhar, ainda que a contragosto, é possível, mas fazer meus próprios sapatos está fora de questão.

    A lista das profissões que me atraem é infinitamente menor do que a lista das outras; e entre as que me agradam para várias falta-me a devida competência. Não levo jeito para uma porção de coisas a despeito de apreciá-las muitíssimo.

    Ballet é a perfeita tradução desse desencontro entre desejo e capacidade: sou desajeitada por completo e morreria de fome se tivesse que ganhar a vida dançando. Ao menos possuo a humildade de reconhecer que, embora me fizesse feliz, dançar não é uma atividade ao alcance das minhas aptidões. Ponto para mim: com frequência vejo gente desperdiçando seu verdadeiro talento ao insistir em ser aquilo que não é. Às vezes a natureza nos faz cair nessa armadilha de suspirar pelo que não nos convém.

    Detestaria ser médica, advogada ou costureira, mas preciso imensamente desses profissionais e de tantos outros. Gratidão profunda.

    Por outro lado, números e lógica não me assustam. Ao contrário: estudei matemática que considero uma das mais gloriosas manifestações do espírito humano, senão a maior. Poderia igualmente ter sido diretora de teatro ou roteirista de cinema, mas a necessidade de sustento falou mais alto; quando se escolhe a profissão é aconselhável ter um olho no talento e outro na sobrevivência.

    Não gostaria de ser engenheira, no entanto seria boa arqueóloga, adoro ruínas históricas. Pois é.

    Já que hoje não é o dia internacional da modéstia, vou marcar outro ponto positivo para mim: apesar de ter consciência de que, mesmo naquilo em que posso contribuir para a humanidade, estou longe da genialidade, admiro genuinamente os mestres. Faço a minha parte, equilibrando-me entre o ideal e o possível e sou feliz assim.

  • Anamnese

    Tenho muito respeito pela palavra anamnese que une de forma inusitada duas consoantes, o que lhe confere um ar imponente de cultura e refinamento. Por vaidade literária fútil sempre desejei usá-la, mas por não ser da área de saúde nunca consegui. Agora resolvi esse problema: criei meu próprio formulário de anamnese, que, em primeira mão, compartilho com vocês.

    Trata-se de uma série de perguntas simples para quem se interessar em ser meu amigo, oxalá alguém se anime. Lembrem-se de que uma anamnese não é um teste de excelência, é apenas uma coleta de informações.

    Quem já for meu amigo pode ignorar o assunto: tem lugar cativo, quaisquer que sejam as respostas dadas. E se alguém achar que, em vez de respostas, deve enviar-me perguntas, prometo respondê-las com afinco e sinceridade.

    Lido mal com as perdas e na medida do possível quero minimizá-las, assim sendo dou preferência às pessoas que possivelmente viverão mais do que eu. Essa é uma das questões que mais me preocupa e está contemplada logo no início.

    Outra das minhas preocupações diz respeito aos encontros presenciais. Dou preferência a quem mora perto para facilitar o convívio ou a quem mora bem longe, o que dá direito a uma viagem planejada e prazerosa. As médias distâncias são uma encrenca: a Lei Seca, o preço do über, a insegurança de alguns trajetos cariocas, os horários noturnos, os engarrafamentos, não faltam motivos para desestimular o deslocamento.

    Um último comentário: essa coisa de virar amigo não tem regras nem explicações, portanto não há garantia de que o questionário funcione. De qualquer forma, é um começo. Aí vai.

    1. Você pretende viver muito ou é pelo menos quinze anos mais novo do que eu? Sim ( ) Não ( )
    2. Sua família é longeva? Sim ( ) Não ( )
    3. Você mora a menos de 20 km ou a mais de 200 km de mim? Sim ( ) Não ( )
    4. Você procura ser correto? Sim ( ) Não ( )
    5. Você concorda que na vida as coisas não precisam ser obrigatoriamente pretas ou brancas? Sim ( ) Não ( )
    6. Você ama a liberdade de expressão e abomina ditaduras de qualquer cor? Sim ( ) Não ( )
    7. Você convive de forma civilizada com opiniões divergentes? Sim ( ) Não ( )
    8. Você é capaz de nomear, de forma honesta, uma qualidade e um defeito seus (não precisa confessar)? Sim ( ) Não ( )
    9. Você é capaz de nomear, de forma honesta, uma qualidade e um defeito meus (não precisa contar)? Sim ( ) Não ( )
    10. Você consegue tolerar o defeito que encontrou em mim? Sim ( ) Não ( )

    Marque um ponto para cada resposta ‘sim’, sendo que as três primeiras valem dois pontos cada uma. Idem a última, porque amigos devem estar dispostos a perdoar (e esquecer) os eventuais deslizes uns dos outros, e eu possuo cá os meus.

    Se você somou mais de sete pontos, estamos bem encaminhados, pode me escrever no privado para darmos continuidade à conversa. Menos do que isso, penso que não vai dar certo e temos que nos conformar: unanimidade é algo inatingível e tenho certeza de que bastante gente está do seu lado.

    Um adendo: semana passada apareceu uma barata aqui em casa. Horror, horror! Mantenho a casa encharcada de inseticida, não sei se a barata saiu de alguma toca oculta ou se entrou voando. Apareceu já cambaleante, de salto alto, pronta para morrer. Foi caçada (não por mim!) e destruída convenientemente. Pensei, devido à importância que dou ao tema, em incluir na anamnese a pergunta ‘Você sabe matar baratas?’, mas refreei o impulso. No entanto, se você souber, não importa a pontuação que obteve no questionário acima, já quero conhecê-lo.

  • Reborn

    Quem não brincou de boneca o suficiente em criança não deve perder a oportunidade agora, incluindo os meninos a quem não foi dado esse direito. Compre um bebê reborn e vá à luta. É a sua chance: dificilmente aparecerá ocasião tão propícia para resolver um problema de infância que demandaria anos de terapia, uma solução bem mais cara que o boneco.

    Para uma experiência mais completa, esses bebês poderiam ser ainda mais realistas: chorar no meio da madrugada, exigir troca de fraldas em horários aleatórios e impedir os ‘pais’ de sair porque estão com febre. Como aquelas mascotes Tamagotchi que precisam de atenção e ‘morrem’ se você deixa de alimentá-las ou cuidar delas. Se o bebê ‘morrer’, nada de pânico: basta encomendar outro.

    Outra sugestão para quem quiser aprofundar a experiência: trocar de bebê a cada aniversário, acompanhando o crescimento da ‘criança’ até que ela se torne adulta. Obviamente, adolescentes reborn seriam programados para dar muiiiito trabalho antes de se transformarem em jovens bem sucedidos. É improvável que alguém insista além desse ponto, mas nunca se sabe: velhos reborn podem virar febre no futuro, a fofura dos bebês substituída pelos achaques da idade. Tem gosto para tudo e o lobby das farmácias não dorme no ponto.

    Em vez de criticar os bebês reborn, pense nos aspectos positivos: lucram as fábricas, as produtoras de festas, criam-se empregos. Que mal há nisso, fora a loucura? Só espero que não seja contagiosa. Será?

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