Crônicas

O que há de velho?

Li, há muito tempo, um conto em que o protagonista se queixava de que os amigos sempre lhe faziam a mesma pergunta: o que há de novo? Não recordo o nome do conto nem do autor, a quem humildemente peço desculpas, embora estas soem falsas dado que ele deve ser falecido.

O protagonista do tal conto, cansado da mesmice repetitiva da pergunta, decidiu vingar-se e passou a responder com notícias bombásticas. Lembro-me que uma delas dava conta de um avassalador terremoto em Lisboa. O herói dava detalhes sobre mortos e feridos, deixando o interlocutor assustado e boquiaberto. Só então revelava a data exata do evento: 1755. Não sei como terminava o texto, no mínimo pararam de pedir-lhe novidades, mas é provável que tenha perdido os amigos.

Se tivéssemos que modernizar essa história, acho que a pergunta que caberia hoje em dia seria o inverso: o que há de velho? Porque a todo momento a internet ressuscita conteúdos antigos como se fossem novos. Muita notícia velha é divulgada como atual. De boa e de má fé.

Mensagens de cunho político com frequência apresentam fatos passados como novidades. Quase sempre se trata de propaganda disfarçada que intencionalmente omite datas e contextos. Ajudaria se cada matéria pudesse vir acompanhada de um certificado imutável informando a origem e a data da primeira publicação. Uma espécie de certidão de nascimento.

Mas nem toda a desinformação é deliberada: há também uma série de bobagens que circulam por pura ingenuidade. Basta que alguém de má memória ou de outra bolha ‘descubra’ algo que julgue interessante e dê a partida para que aquilo volte a se espalhar como um rastilho de pólvora.

É por isso que, se você sabe do que estou falando, recebe de vez em quando aquele texto sobre o ano chinês do bolso cheio de dinheiro que se repete a cada 827 anos. Um clássico.

Assim se espalham muitas coisas falsas, quer como notícia, quer como autoria. O Arnaldo Jabor vivia reclamando disso (entre outras, insistiam em atribuir-lhe uma crônica sobre bundas que ele repudiava), mas qualquer figura pública sofre do mesmo.

Deposito minhas esperanças numa IA cada vez mais eficiente para identificar plágios e más intenções. Por enquanto a internet continua sendo uma terra de ninguém.

O personagem do conto pelo menos avisava que a notícia era velha – e não mentia.

Claudia Valle

Claudia Valle nasceu no Algarve, mas desde criança mora no Rio de Janeiro. Já foi professora, matemática, informática, administradora, agora é escritora nas horas vagas. Acredita que rir ainda é o melhor remédio e que o humor também é capaz de provocar reflexões profundas.

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