
Noites frias
Adoro noites frias. Sentir aquele ar frio entrando pelos pulmões traz uma quietude, uma paz. É um convite à contemplação.
Deixo a janela do meu quarto sempre aberta até a hora de dormir. Me cubro, cobertas pesadas imobilizantes e não deixo nem o nariz de fora. Ali imóvel meus pensamentos voam enquanto meu corpo segue inerte. É uma delícia.
Mas antes, bem antes, há mais o que fazer. Algo quente a comer, mas sem excesso. E algo etílico a beber, mas com excesso moderado – se é que isso existe.
Conversas boas, a meio tom de voz. Ninguém fala alto, quase sussurros. Como se o frio exigisse esse diálogo contido. Falamos nesse tom para não perturbar o frio, acho.
Nenhum assunto polêmico. Só se fala sobre amenidades ou profundidades estéticas. Cinema, literatura, escultura, pintura, poesia. Uma citação de um autor elegante surge no ar acompanhado de um gesto circular. Ou afirmar algo com pouco embasamento mas muita vontade de ser verdade, com o que todos concordam e pouco se importam. Se é fato, tanto faz, mas o vinho das noites frias ajuda a sedimentar essa certeza efêmera.
Ninguém segue com debates depois das noites frias. Nas manhãs frias, o tom é outro, a disposição é outra e a vida é muito outra. Tudo assume seu papel à luz do sol, chamado há muito tempo de astro-rei, mas ao redor do qual nossa vida gira. Literalmente.
E girando segue seu curso, horas após horas, até que o entardecer se aproxima. Não precisando nem conferir o tempo no relógio. Basta sentir a temperatura cair. Sinal inquestionável que o sol vai se por.
E teremos mais… noites frias.























