Poesias de 1 a 99

Poema #18: O menino e o pássaro

O pequeno menino olha demoradamente o céu.
O voo de um pássaro branco…excitado,
leve, branco, branco e leve: um estalo.
Alvas penas de um delírio todo seu.

Corpo sem brilho é beijo de encontro à terra,
um desespero brusco de última chance.
Molhado pelo sangue o passeio se encerra…
dentre tantos pássaros, quem quer, que cante.

Asas se abrem e contorcem no mesmo instante.
Tudo é ferida, escuridão, lágrimas e repete
o menino a dor do pássaro agonizante…

Chora compulsivamente pelo gesto estúpido
Quando num triste movimento padece
O pássaro branco, vermelho e mudo.

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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