Poesias de 1 a 99

Poema #19: Presente

O presente vivido é quase o infinito…
o presente amado a eternidade incompleta.
Ridícula a angústia, o cansaço tolhido,
começo de caminho, meia-volta discreta…

Ansiedade é pequena eternidade no presente,
pedras e esforço inútil, chamado repetitivo.
Tormento, fingimento, ser em estar ausente.
Velho e novo, refundidos, abertos num livro…

Os grãos de areia podem ser incontáveis,
mas o mar recolhe um a um, a toda hora.
O resto são espumas, simples brincadeira…

Do tempo incerto, mãos postas e flecha ligeira
tangem no pensamento cenas impublicáveis,
pois o que habita hoje, amanhã já não mora…

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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