Poesias de 1 a 99

  • Poema #82: A mim ensinou-me tudo

    “… e a monotonia da vida será para mim
    como a recordação dos amores
    que me não foram advindos,
    ou dos triunfos que não haveriam
    de ser meus”

    Fernando Pessoa

    O pouco que sei,
    sei de o não saber,
    mas só o de sentir
    e nunca poder alcançar.

    Tudo passou por mim
    como as águas de enchente,
    mas vi tudo fluir e o vazio
    de nada reter nas mãos.

    Se escrevo é só uma fórmula
    de sonhar possibilidades
    enormes, como se fossem
    passos de uma criança deitada.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #19: Presente

    O presente vivido é quase o infinito…
    o presente amado a eternidade incompleta.
    Ridícula a angústia, o cansaço tolhido,
    começo de caminho, meia-volta discreta…

    Ansiedade é pequena eternidade no presente,
    pedras e esforço inútil, chamado repetitivo.
    Tormento, fingimento, ser em estar ausente.
    Velho e novo, refundidos, abertos num livro…

    Os grãos de areia podem ser incontáveis,
    mas o mar recolhe um a um, a toda hora.
    O resto são espumas, simples brincadeira…

    Do tempo incerto, mãos postas e flecha ligeira
    tangem no pensamento cenas impublicáveis,
    pois o que habita hoje, amanhã já não mora…

  • Poema #08: o velho tênis nos fios elétricos

    só Deus & o Diabo
    sabem
    o quanto eu caminhei
    até chegar
    aqui
    nesse fim de mundo.
    hoje
    joguei
    meus velhos & gastos
    passos
    no alto
    dos fios elétricos.

    acendi uma luz no fim do beco.

  • Poema #81: A lua escura

    “se soletra L-U-A”

    sabe,
    há um momento
    em que a lua
    fica escura.

    é quando,
    a escuridão maior
    vinda dos montes
    cobre a Rua Fácil.

    e tudo,
    vira um só quadro
    negro, uma lousa
    fria que antecede
    a morte.

    Da Essencialidade da Água

  • Poema #10: Liturgia do instante

    Lento, tudo está lento…
    Vejo meus passos firmes, passos soltos
    E já não sei mais o que solto, pelo que passo
    Se quando firmo, não me atento.

    Doce, tudo está salvo.
    Tampouco o hoje é, sorte.
    Se é veneno um tanto, e quanto ao não que houve?
    E quando o há? Sabemos?

    Se o quanto ouço, ou vejo
    Fizer mera semelhança ao sentido…
    Se por falar em sentir, se exaltar-lhe o tato
    For, ainda assim, coisa-fato… não me remeto ao senso de ser simples isto.

    Existo. Voo.
    Plaino sobre a superfície d’areia
    Que me recolhe toda a intuição da corrente
    Vou contra, sou filho. Soo, assopro, conduzente que não leva, mas vai.

    Ah, eu deixo isso de saber muito
    Para quem não me entende.
    Segredo maior não há – no uno verso
    Que não lhe enfrente. Talvez, por isso, seguro seja seguir.

    Saúde!
    Um gole lento na palavra
    ausente.

  • Poema #18: O menino e o pássaro

    O pequeno menino olha demoradamente o céu.
    O voo de um pássaro branco…excitado,
    leve, branco, branco e leve: um estalo.
    Alvas penas de um delírio todo seu.

    Corpo sem brilho é beijo de encontro à terra,
    um desespero brusco de última chance.
    Molhado pelo sangue o passeio se encerra…
    dentre tantos pássaros, quem quer, que cante.

    Asas se abrem e contorcem no mesmo instante.
    Tudo é ferida, escuridão, lágrimas e repete
    o menino a dor do pássaro agonizante…

    Chora compulsivamente pelo gesto estúpido
    Quando num triste movimento padece
    O pássaro branco, vermelho e mudo.

  • Poema #80: A ilha

    A ilha com seu silêncio
    me comunica a morte
    dos seres espectrais
    que nela vivem ou já viveram.

    A ilha cercada por mangues
    é um poço de lama e óleo.

    Os pescadores da ilha
    me comunicam o fim
    dos pescadores da ilha.

    Os pescadores da ilha
    me apresentam a pesca de um dia,
    nada.

    A ilha com sua morte
    me comunica o silêncio
    dos seres superiores
    que a mataram e matam.

    A ilha abandonada pelos banhistas
    é um deserto de espuma e água.

    Os frequentadores da ilha
    me comunicam o desastre
    das praias da ilha.

    Os frequentadores da ilha
    me apresentam o bronzeado de um dia,
    petróleo.

    A ilha com sua sorte
    me comunica o crime
    dos seres continentais
    que seguem impunes.

    Os pescadores da ilha
    me comunicam o fim dos peixes
    e voltam tarde para casa.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #07: Aeroporto

    só deus sabe
    quantos e quantos aviões
    (entre sóis
    nuvens
    estrelas
    & luas)
    meus olhos
    decolaram voos

    pra só assim
    do outro lado do continente
    te aterrissar
    e ser passageiro de ti
    por eternos instantes

  • Poema #79: A cor suja

    Mil noites de sono
    e o abismo intacto
    A beleza da árvore
    e do peixe
    A máscara da maldade
    filtrada pelo telefone
    O sorriso do triunfo provisório
    A dor latente e as pancadas na parede
    A pedra que dissolve o leite.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Poema #78: Chuva Noturna

    A chuva no asfalto
    leva papéis/cigarros
    e o vômito de ontem.
    Amanhã novos resíduos
    virão para preencher
    o vazio do meio-fio.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #09: Exercício para um ausente

    Falemos da esperança.
    Sim, da velha andança
    Da chuvosa lembrança
    Onde te sondavas.

    Vamos, falemos em novidade.
    Digamos que vai tudo indo, sim.
    Lá fora, diga que, ao todo, te aquietas
    Fora tempo de espera. E te lembravas.

    Este, foi-se?
    Não soubera.
    Tentaste um rumo, fostes sem manual
    Sem estradas, fostes sem-terra.

    Pois que era um domingo.
    E que já não lhe haveria numa segunda
    Para mais saudade.
    Talvez na quarta.

    Ai, quem me dera!

    Esqueça, pois que já vens tarde.
    Tens um brado enxuto, és estrangeiro.
    Sobre ti tens a sombra do mundo
    Lançado fostes à toda verdade.

    Sem dizer-lhe qual.

    Ao oposto cercaram-te.
    Te atraíste. Devias, por te teres vivo, visto.
    Trouxeram-no à enseada, despido.
    Deram-te, como uma cena, por encerrado.

    Pôs-te ao que te vinhas falto
    Te tens liberto, filho, e não sabes.
    Já não vias com teus olhos
    Mas creste.

    Tu lhes enxugava, já secos.
    Cegaram-te, a sorrir-te os lábios.
    Eras jovem, batido. Podias tudo.
    Tinhas em ti a tolice dos sábios.

    Pelo que vibravam.
    Te retirastes.

    Ataviaste um ponto.
    Carregava-te um pensamento
    Sob a alta margem.
    O dissipaste em luzes.

    Te deitaste.

    Dando-lhe o assopro de toda a vontade
    Anseia-me ver-te de novo.
    Como quem te anseia, querida, lhe digo
    Ah, que saudade.

    Ainda que a figura mude.
    Ainda que o vento mude.
    Anseio-te, pois que venhas cedo.

    Aprendeste, enfim, a dizer.
    Fizera um convite.
    Escreveu-lhe poesias,
    Não deixaste um recado.

    Te partias.

    Pois que tudo o que sabia
    Lhe tinha. Sabias nada.
    Como bom servo ao coração, lhe obedecera
    Assim escrevia, e sonhavas.

    Ah, que saudade que sentia.

    Que te chegues ao meio dia, que venhas.
    Que surjas como astro-rei, que ardes
    Se por caminhar pela cidade te demores,
    Não te apresses, mesmo que te atrases.

    Também vou-me indo, pois que é dia.
    Pois que andei a dizer-me
    Te preciso, e quanto mais anseio-te, te avisto
    Nestes outros mesmos lugares.

    Sob a torpe volta deste mundo ocluso
    Ainda que vagueie noite sem rumo,
    É a você quem procuro
    Desejos mil de meus olhares.

  • Poema #77: A Aranha e o Sonho

    Havia uma aranha lá fora
    que tecia sua rede
    a despeito da chuva
    e do desânimo dos homens.

    Era uma aranha
    que tecia a sua rede fora do mundo,
    e eu miseravelmente preso a ele
    perdia-me em conjeturas sobre o amor
    e sobre um livro que acabara de ler.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?

    Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!
    Para que a pressa?
    se preciso, eu, mais que vitaminas,
    do alimento para o viço que… reflete-me,
    [interna] e inteiramente?
    Que eu possa deleitar-me com o calor azul
    da caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio

    Eis-me inteira,
    num instante errante,
    naufragada no suor de
    não pertencer.
    Cá estou.

    Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro.

    Bate-me o peito em um não positivo.

    Eis me aqui. Intacta.

    Tempo, tempo…
    por que não fica para o café?
    Uma xícara, a água borbulha sobre o fogo…
    Fique, tempo! Me aceite.

    Tempo, tempo, tempo…
    passe logo, passe aqui, mas com alma!
    Que nossas pegadas sejam uma,
    ao sabor do que se apaga
    ao espreguiçar das ondas sobre a areia
    ao primeiro raio de sol

    Fique.
    faça de mim sua, senz’altro.
    Te espero
    Tempo, tempo…

  • Poema #06: olhar-eclipse

    tivemos um olhar-eclipse
    após
    anos
    e
    anos

    foi tão lindo
    que até os deuses
    pararam pra ver

    e foi assim
            mais
        uma
    vez

    até o sol dos seus castanhos partir
    para um canto
    e restar
    somente
    essa lua
    minguante
    no céu
    da solidão

  • Poema #76: “141 A”

    Sequência final
    numa casa de 24 m²
    com vista de frente
    para um beco lateral.
    O piso era grosso
    antes de eu assimilá-lo,
    mas como a vida
    permaneceu em
    desalinho eu adormeci
    deitado de lado e tombado
    em lençóis queimados
    no espaço entre as camas.
    Com uma aliança invisível
    na mão direita e um cheiro
    forte de esgoto vindo do banheiro.
    E pensar que havia promessas
    veladas feitas a mim mesmo
    no escuro de uma vida desfalcada.
    Pinturas metálicas malfeitas
    no fundo de um espelho manchado
    e de brilho opaco.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #04: Motivo

     ( A Cecília)

    Antes que chegue o dia da mudez,
    Cantemos!
    Cantemos elegias
    Cantemos heavy
    Cantemos baladas
    Cantemos !
    Que em nós haja uma eterna canção
    Indescritivelmente bela,
    Inevitavelmente original
    Por sermos, cada um de nós, 
    a própria melodia, 
    a harmonia curativa 
    No desconcerto do mundo.

  • Poema #08: Alteridade

    Este que vos premedita
    Devia dizer-lhes algo
    Mas o profundo que é o sereno
    Mais errôneo que o acaso tornou-se

    Então dizes ao papel:
    Das tuas palavras fizestes
    De pouco caso;
    Que se bastasse um punhado
    ‘Inda que só coubesse o que lhe atava.

    Sonoridade tal das águas já lhes assoavam
    Os cascos empoeirados da vigília
    E tu sonhastes teu atraso…

    O não que dizes é certeiro
    Ressoa pra longe, bem longe se estende.
    Caronas apanhas; onde te encontras?
    Ao retorno te encostas
    De onde trazes teu perdão e tua luta.

    A complacência sempre ouve teu discurso
    E a vergonha nunca toma tua teima.
    É que de verdade, amigo, lhe juro
    Veneno bom fizestes, em fatos,
    Contigo ninguém pode;
    Comigo, jamais pude.

  • Poema #75: 459 A

    Abandono total
    numa casa de 29 m²
    com vista de fundo
    para um bambuzal.
    O piso era claro
    antes de eu pisá-lo,
    mas depois a vida
    converteu-se em
    desordem e acordei
    deitado de costas
    num corredor
    do lado de fora,
    com a chave na mão
    esquerda coberta de
    sangue e a fúria cega
    de quem não se lembra
    de nada.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #07: Parado há duas horas

    Estou parado há duas horas.
    Já fui de um lado a outro
    Fui de esquina a esquina
    Percorri cada quadrado de chão.

    É que me cansaram as pernas
    Então deixei-me aqui.
    Por um lado parece-me um tanto sagrado,
    De outro, nefasto e ridículo.

    É que andei tanto que já não tenho por onde ir.
    Cumprimenta-me o passo do outro
    Que por um lado atravessa a rua
    Do outro, acena e desvia
    Ou o de mais longe, que caminha
    E eu, que já não soube de onde vinha
    Só, via.

    O movimento do mundo me desloca,
    Por isso a pausa.
    A náusea desta vida, caro Sartre,
    É a de se encontrar em plena avenida, aos arredores
    Sem saber por onde se ia,
    Sem esperar pela chegada.

    É que todos pareciam tão certos.
    — “É por ali”, saltou o jornaleiro.
    — “Mas estou parado fazem duas horas, meu senhor…
    Lhe pareço estar atrasado?” — disse-lhe.
    — “Estou aqui há 40 anos, meu jovem…
    Sei bem o que é ver a ida sem esperar pela volta”.

    Tens razão, pensei. O que estou eu a aguardar então?
    — “Te agarre ao que te aguarda”, dizia-me já a se voltar.
    Pensei de pronto… pobre sujeito que sou
    Quantas coisas me aguardam
    E eu aqui, parado, a pensar.

    Mas queria tanto ficar…
    Cogitei o primeiro passo.
    Espera… e por onde vou, se nem me lembro o porquê de vir?
    E de toda aquela confusão, soltava o riso o jornaleiro.

    — “Vamos, garoto… logo a multidão lhe arrasta
    E aí terá de ser levado pelos outros…
    Aproveite enquanto ainda há teu tempo!
    Ainda há teu lugar!
    Enquanto puderes estar contigo,
    Não te faças isso de deixares-te levar.”

    Aflito com a escolha a ser feita, lhe acenei:
    — “O que me agarra ao momento parece-me serem os pés, jornaleiro!”
    Fincados no mundo, eu suspirava…
    Já me era suspeito de que fostes tu, dura vida
    Que me aguardavas.
    E então caminhei.

    Desde então, por duas horas caminhava.

  • Poema #74: ( )

    Suspenso na tarde
    como uma lâmpada queimada
    num porão deserto,
    figura o lado esquerdo
    de um parêntesis aberto.

    Seu estado resulta
    do itinerário de sombras
    em que um homem se perde
    na solidão de seus próprios passos,
    esquecidos sequer sem deixar uma marca.

    Sua abertura demonstra
    a imperiosidade do erro
    que determina sempre
    que as flores se abram para cumprir
    seu papel de beleza e de decomposição.

    O parêntesis aberto no escuro
    não é senão a necessidade
    de se sair do estágio de clausura,
    quando se esgota (ou assim se imagina)
    a fonte de oxigênio íntimo do ser.

    Mesmo quando já se sabe
    que na asfixia de ele estar fechado
    sobrevive pelo menos a sua integridade,
    e abri-lo significa a dispersão da energia
    que ele guarda de si para si como um transistor.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #03: Magia

    O outono deixa cair seu manto branco sobre as montanhas
    Nada mais é nítido, nada mais é real.
    Tudo vira sonho .
    Há magia sob o tecido d’água que misteriosamente pede aconchego.
    Todos são um. Confundidos, ofuscados.

    O outono salpica a noite com estrelas tantas
    O olhar se perde, tudo parece sonho.
    Há magia sob o céu bordado, que misteriosamente provoca suspiros.
    Todos são encantados. Confundidos, ofuscados

    O outono desenha montanhas azul-marinho guardando a cidade
    Nada mais é nítido, nada mais é real.
    O olhar é impedido, tudo parece sonho.
    Há magia nos limites, que misteriosamente convidam à introspecção.
    Todos são iludidos. Confundidos, ofuscados.

    O outono exibe luares que emudecem
    Tudo é nítido, tudo parece sonho.
    Há magia sob a luz delicada, que misteriosamente desperta amantes.
    Todos são tocados. Confundidos, ofuscados.

    O outono azula o dia, clareia até a cegueira
    Tudo é perturbadoramente nítido, tudo é real.
    O olhar é indiscreto, nada é segredo.
    Há magia sob a luz, que misteriosamente revela.
    Todos são desprotegidos, todos são desvendados.

  • Poema #73: Valpurgis

    A inquietação daquela noite
    levou-me ao extremo de deixar a cama
    em pleno delírio da febre sem causa
    que me acometia desde há muito.

    Nunca em meus transportes noturnos,
    que eram então muito frequentes,
    eu havia experimentado essa ânsia de fuga
    que só se compara à de uma suicida na ponte.

    Corri como que alucinado fantasma
    até o porão da casa onde a umidade
    havia impregnado as paredes de morte,
    e peguei no baú o espelho quebrado.

    A chuva era intensa e os relâmpagos
    cortavam a estrada barrenta ao norte,
    para a qual fui levado rumo ao destino
    que o maldito espelho me reservara.

    O cemitério estava deserto e escuro
    mas havia um rumor quase que imperceptível
    entre as catacumbas, abertas na véspera
    para o desfecho insólito da profecia.

    Então eu pude sentir os murmúrios
    daqueles espectros putrefeitos pelo tempo,
    cujos aspectos de decomposição física
    acentuaram em mim a antiga náusea do futuro.

    Ali, em meio à tempestade de abril,
    o espelho quebrado que eu encontrara
    junto aos aposentos da velha inquilina,
    emitiu em reverberações estranhas e malignas
    um brilho intenso que me cegou os olhos.

    Agora sinto que a velha desfigurada se aproxima
    e toca meu rosto com suas mãos de morte vazia.
    Como num passe de hipnotismo ou subtração de raciocínio
    sou conduzido para o rito anual de bruxaria.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #03: Isso basta

    A cama desarrumada.
    O livro (quase) aberto.
    Páginas escurecidas.

    A caneta largada no meio.

    No relógio um horário impróprio; “já é dia?”
    Sob os travesseiros, um único pijama

    não se sabe porquê; não se sabe para quem.
    Clareou.
    As plantas espreguiçam-se:
    um girassol retorce lentamente
    pétalas, amarelas, miolo, marrom
    em direção à promessa
    De sol
    De luz
    De felicidade com prazo de validade
    Vencida

    De repente
    Dois passos contrabalanceiam o peso de um único corpo
    Um, dois, três, um dois, três… gira!
    Girassol rodopia, entre as mãos agitadas
    Madrugada infinita
    Há barulho – feliz idades
    Há sussurros – ocas gargalhadas expressivas

    A cama desarrumada.
    O livro (quase) aberto.
    Páginas manuscritas.

    Um mercado; um abridor de latas. Um saca-rolhas.
    Nômade, sem ser, sendo.
    Desiste-se; retorna.
    Pacote 2×1.
    Repensa.

    Compras todas amarelas:
    Banana.
    Limão siciliano.
    Milho.
    Angu.
    Girassol e gelosia…

    Alba dal balcone
    Água de coco, rega da vida
    Eis o vento acalmando as turbinas
    Eu te amo
    Eu também.

    O lado esquerdo da cama.
    Criado mudo.
    Coração.
    Uma pera.
    Mordida pera.
    Religiosa pera.
    Compartilhada à distância.

    A cama desarrumada.
    O livro desaberto.
    Páginas escritas.

  • Poema #05: a vida é um doce

    em frente à rua
    um senhor passa
    com seu carrinho de doces
    e um radinho tocando:
    “doce doce doce a vida é um doce doce mel…”
    os olhos de minha lembrança
    rolam
    feito bolinha de gude encaçapando
    o buraco mais fundo chamado
    túnel do tempo
    e percebo
    há quanto tempo
    já não saboreio mais
    o doce

  • Poema #02: Involuto

    Quero a involução
    A proteção contra os ventos
    Útero da mãe
    Turbulência amniótica.

    O desequilíbrio de voltar
    O ser ainda sem ser
    Todos os caminhos por andar
    Todas as guerras por vencer

    Quero o grito de mãe
    Na hora de parir 
    O choro engasgado
    A dor de nascer

    Coragem para voltar
    Tudo feito novo
    Certeza de não errar
    Leite materno como sustento

    Quero vida inteira
    Apagadas as besteiras
    Quero vento novo
    Soprando semente verdadeira.

  • Poema #04: Oceano de estrelas

    o teu encanto de sereia
    levitou a serpente
    por entre minhas teias
    tua pele luxo de seda
    por cima de mim
    feito mágica de Aladdin
    sucumbiu com minhas destrezas
    teu palato de rio doce
    desaguou no meu remo
    este tão cansado e enfermo
    de navegações ocres
    e ao velejarmos sobre ondas rítmicas
    & místicas
    no compasso do som das baleias   
    gozamos no alto do mundo
    um bilhão e duzentas mil estrelas

  • Poema #71: Tratado de Anatomia

    A anatomia dos carros na rua
    revela a um homem que os vê
    (entre outras coisas)
    uma força neutra a interferir
    e modificar a paisagem desolada
    de quem anteriormente os criou.

    A anatomia das mulheres
    (independente dos lugares
    em que se encontram) remete-nos
    a uma forma viva de organização planejada
    onde a beleza é fruto dela mesma, transfigurada.

    A anatomia do pensamento de quem
    (por exemplo escreve este poema)
    nada mais é do que uma consequência imaterial
    de causa e efeito entre o sentir de maneira sensível
    diferentes realidades projetadas na sombra
    do poste de observação.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #03: na sacada do apê & um marlboro às 2 da manhã

    trago
    a pessoa amada
    aqui dentro

    mas amor não se prende

    sendo assim
    solto-o
    ao vento

  • Poema #70: Trágica & Cômico

    A cada dia vai-se diminuindo
    o meu espaço vital.
    Isto porque quando comecei a sentir-me
    parte integrante do mundo
    eu já havia sido expulso do mundo.
    Toda uma vida
    todo um aprendizado
    adquirido na sombra e no silêncio de indivíduo
    é tão somente de conhecimento meu próprio.
    Só eu sei dos mecanismos mentais
    que implicam em cada gesto
    em cada palavra
    que ensaiando digo às paredes
    que ainda não foram construídas.
    Encenei para mim mesmo uma tragicomédia
    na qual sou o único personagem,
    e o teatro em que represento
    não é frequentado pelos homens
    e está prestes a se desabar sobre.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #02: Música-Clássico

    a música no rádio
    toca
    um clássico rock anos 80

    — ainda não sei de quem —
    mas sei
    que toda vez
    que essa música-clássico
    toca

    todas as estações do rádio
    sintonizam
    tua imagem-clipe
    dando cores
    a um passado
    que ficou em branco.

    *

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