só deus sabe
quantos e quantos aviões
(entre sóis
nuvens
estrelas
& luas)
meus olhos
decolaram voos
pra só assim
do outro lado do continente
te aterrissar
e ser passageiro de ti
por eternos instantes
só deus sabe
quantos e quantos aviões
(entre sóis
nuvens
estrelas
& luas)
meus olhos
decolaram voos
pra só assim
do outro lado do continente
te aterrissar
e ser passageiro de ti
por eternos instantes
Mil noites de sono
e o abismo intacto
A beleza da árvore
e do peixe
A máscara da maldade
filtrada pelo telefone
O sorriso do triunfo provisório
A dor latente e as pancadas na parede
A pedra que dissolve o leite.
A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
A chuva no asfalto
leva papéis/cigarros
e o vômito de ontem.
Amanhã novos resíduos
virão para preencher
o vazio do meio-fio.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
Falemos da esperança.
Sim, da velha andança
Da chuvosa lembrança
Onde te sondavas.
Vamos, falemos em novidade.
Digamos que vai tudo indo, sim.
Lá fora, diga que, ao todo, te aquietas
Fora tempo de espera. E te lembravas.
Este, foi-se?
Não soubera.
Tentaste um rumo, fostes sem manual
Sem estradas, fostes sem-terra.
Pois que era um domingo.
E que já não lhe haveria numa segunda
Para mais saudade.
Talvez na quarta.
Ai, quem me dera!
Esqueça, pois que já vens tarde.
Tens um brado enxuto, és estrangeiro.
Sobre ti tens a sombra do mundo
Lançado fostes à toda verdade.
Sem dizer-lhe qual.
Ao oposto cercaram-te.
Te atraíste. Devias, por te teres vivo, visto.
Trouxeram-no à enseada, despido.
Deram-te, como uma cena, por encerrado.
Pôs-te ao que te vinhas falto
Te tens liberto, filho, e não sabes.
Já não vias com teus olhos
Mas creste.
Tu lhes enxugava, já secos.
Cegaram-te, a sorrir-te os lábios.
Eras jovem, batido. Podias tudo.
Tinhas em ti a tolice dos sábios.
Pelo que vibravam.
Te retirastes.
Ataviaste um ponto.
Carregava-te um pensamento
Sob a alta margem.
O dissipaste em luzes.
Te deitaste.
Dando-lhe o assopro de toda a vontade
Anseia-me ver-te de novo.
Como quem te anseia, querida, lhe digo
Ah, que saudade.
Ainda que a figura mude.
Ainda que o vento mude.
Anseio-te, pois que venhas cedo.
Aprendeste, enfim, a dizer.
Fizera um convite.
Escreveu-lhe poesias,
Não deixaste um recado.
Te partias.
Pois que tudo o que sabia
Lhe tinha. Sabias nada.
Como bom servo ao coração, lhe obedecera
Assim escrevia, e sonhavas.
Ah, que saudade que sentia.
Que te chegues ao meio dia, que venhas.
Que surjas como astro-rei, que ardes
Se por caminhar pela cidade te demores,
Não te apresses, mesmo que te atrases.
Também vou-me indo, pois que é dia.
Pois que andei a dizer-me
Te preciso, e quanto mais anseio-te, te avisto
Nestes outros mesmos lugares.
Sob a torpe volta deste mundo ocluso
Ainda que vagueie noite sem rumo,
É a você quem procuro
Desejos mil de meus olhares.
Havia uma aranha lá fora
que tecia sua rede
a despeito da chuva
e do desânimo dos homens.
Era uma aranha
que tecia a sua rede fora do mundo,
e eu miseravelmente preso a ele
perdia-me em conjeturas sobre o amor
e sobre um livro que acabara de ler.
O Acaso das Manhãs
Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!
Para que a pressa?
se preciso, eu, mais que vitaminas,
do alimento para o viço que… reflete-me,
[interna] e inteiramente?
Que eu possa deleitar-me com o calor azul
da caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio
Eis-me inteira,
num instante errante,
naufragada no suor de
não pertencer.
Cá estou.
Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro.
Bate-me o peito em um não positivo.
Eis me aqui. Intacta.
Tempo, tempo…
por que não fica para o café?
Uma xícara, a água borbulha sobre o fogo…
Fique, tempo! Me aceite.
Tempo, tempo, tempo…
passe logo, passe aqui, mas com alma!
Que nossas pegadas sejam uma,
ao sabor do que se apaga
ao espreguiçar das ondas sobre a areia
ao primeiro raio de sol
Fique.
faça de mim sua, senz’altro.
Te espero
Tempo, tempo…
tivemos um olhar-eclipse
após
anos
e
anos
foi tão lindo
que até os deuses
pararam pra ver
e foi assim
mais
uma
vez
até o sol dos seus castanhos partir
para um canto
e restar
somente
essa lua
minguante
no céu
da solidão
Sequência final
numa casa de 24 m²
com vista de frente
para um beco lateral.
O piso era grosso
antes de eu assimilá-lo,
mas como a vida
permaneceu em
desalinho eu adormeci
deitado de lado e tombado
em lençóis queimados
no espaço entre as camas.
Com uma aliança invisível
na mão direita e um cheiro
forte de esgoto vindo do banheiro.
E pensar que havia promessas
veladas feitas a mim mesmo
no escuro de uma vida desfalcada.
Pinturas metálicas malfeitas
no fundo de um espelho manchado
e de brilho opaco.
Uma Escada que Deságua no Silêncio
( A Cecília)
Antes que chegue o dia da mudez,
Cantemos!
Cantemos elegias
Cantemos heavy
Cantemos baladas
Cantemos !
Que em nós haja uma eterna canção
Indescritivelmente bela,
Inevitavelmente original
Por sermos, cada um de nós,
a própria melodia,
a harmonia curativa
No desconcerto do mundo.
Este que vos premedita
Devia dizer-lhes algo
Mas o profundo que é o sereno
Mais errôneo que o acaso tornou-se
Então dizes ao papel:
Das tuas palavras fizestes
De pouco caso;
Que se bastasse um punhado
‘Inda que só coubesse o que lhe atava.
Sonoridade tal das águas já lhes assoavam
Os cascos empoeirados da vigília
E tu sonhastes teu atraso…
O não que dizes é certeiro
Ressoa pra longe, bem longe se estende.
Caronas apanhas; onde te encontras?
Ao retorno te encostas
De onde trazes teu perdão e tua luta.
A complacência sempre ouve teu discurso
E a vergonha nunca toma tua teima.
É que de verdade, amigo, lhe juro
Veneno bom fizestes, em fatos,
Contigo ninguém pode;
Comigo, jamais pude.
Abandono total
numa casa de 29 m²
com vista de fundo
para um bambuzal.
O piso era claro
antes de eu pisá-lo,
mas depois a vida
converteu-se em
desordem e acordei
deitado de costas
num corredor
do lado de fora,
com a chave na mão
esquerda coberta de
sangue e a fúria cega
de quem não se lembra
de nada.
Uma Escada que Deságua no Silêncio
Estou parado há duas horas.
Já fui de um lado a outro
Fui de esquina a esquina
Percorri cada quadrado de chão.
É que me cansaram as pernas
Então deixei-me aqui.
Por um lado parece-me um tanto sagrado,
De outro, nefasto e ridículo.
É que andei tanto que já não tenho por onde ir.
Cumprimenta-me o passo do outro
Que por um lado atravessa a rua
Do outro, acena e desvia
Ou o de mais longe, que caminha
E eu, que já não soube de onde vinha
Só, via.
O movimento do mundo me desloca,
Por isso a pausa.
A náusea desta vida, caro Sartre,
É a de se encontrar em plena avenida, aos arredores
Sem saber por onde se ia,
Sem esperar pela chegada.
É que todos pareciam tão certos.
— “É por ali”, saltou o jornaleiro.
— “Mas estou parado fazem duas horas, meu senhor…
Lhe pareço estar atrasado?” — disse-lhe.
— “Estou aqui há 40 anos, meu jovem…
Sei bem o que é ver a ida sem esperar pela volta”.
Tens razão, pensei. O que estou eu a aguardar então?
— “Te agarre ao que te aguarda”, dizia-me já a se voltar.
Pensei de pronto… pobre sujeito que sou
Quantas coisas me aguardam
E eu aqui, parado, a pensar.
Mas queria tanto ficar…
Cogitei o primeiro passo.
Espera… e por onde vou, se nem me lembro o porquê de vir?
E de toda aquela confusão, soltava o riso o jornaleiro.
— “Vamos, garoto… logo a multidão lhe arrasta
E aí terá de ser levado pelos outros…
Aproveite enquanto ainda há teu tempo!
Ainda há teu lugar!
Enquanto puderes estar contigo,
Não te faças isso de deixares-te levar.”
Aflito com a escolha a ser feita, lhe acenei:
— “O que me agarra ao momento parece-me serem os pés, jornaleiro!”
Fincados no mundo, eu suspirava…
Já me era suspeito de que fostes tu, dura vida
Que me aguardavas.
E então caminhei.
Desde então, por duas horas caminhava.
Suspenso na tarde
como uma lâmpada queimada
num porão deserto,
figura o lado esquerdo
de um parêntesis aberto.
Seu estado resulta
do itinerário de sombras
em que um homem se perde
na solidão de seus próprios passos,
esquecidos sequer sem deixar uma marca.
Sua abertura demonstra
a imperiosidade do erro
que determina sempre
que as flores se abram para cumprir
seu papel de beleza e de decomposição.
O parêntesis aberto no escuro
não é senão a necessidade
de se sair do estágio de clausura,
quando se esgota (ou assim se imagina)
a fonte de oxigênio íntimo do ser.
Mesmo quando já se sabe
que na asfixia de ele estar fechado
sobrevive pelo menos a sua integridade,
e abri-lo significa a dispersão da energia
que ele guarda de si para si como um transistor.
Areia (À Fragmentação da Pedra)
O outono deixa cair seu manto branco sobre as montanhas
Nada mais é nítido, nada mais é real.
Tudo vira sonho .
Há magia sob o tecido d’água que misteriosamente pede aconchego.
Todos são um. Confundidos, ofuscados.
O outono salpica a noite com estrelas tantas
O olhar se perde, tudo parece sonho.
Há magia sob o céu bordado, que misteriosamente provoca suspiros.
Todos são encantados. Confundidos, ofuscados
O outono desenha montanhas azul-marinho guardando a cidade
Nada mais é nítido, nada mais é real.
O olhar é impedido, tudo parece sonho.
Há magia nos limites, que misteriosamente convidam à introspecção.
Todos são iludidos. Confundidos, ofuscados.
O outono exibe luares que emudecem
Tudo é nítido, tudo parece sonho.
Há magia sob a luz delicada, que misteriosamente desperta amantes.
Todos são tocados. Confundidos, ofuscados.
O outono azula o dia, clareia até a cegueira
Tudo é perturbadoramente nítido, tudo é real.
O olhar é indiscreto, nada é segredo.
Há magia sob a luz, que misteriosamente revela.
Todos são desprotegidos, todos são desvendados.
A inquietação daquela noite
levou-me ao extremo de deixar a cama
em pleno delírio da febre sem causa
que me acometia desde há muito.
Nunca em meus transportes noturnos,
que eram então muito frequentes,
eu havia experimentado essa ânsia de fuga
que só se compara à de uma suicida na ponte.
Corri como que alucinado fantasma
até o porão da casa onde a umidade
havia impregnado as paredes de morte,
e peguei no baú o espelho quebrado.
A chuva era intensa e os relâmpagos
cortavam a estrada barrenta ao norte,
para a qual fui levado rumo ao destino
que o maldito espelho me reservara.
O cemitério estava deserto e escuro
mas havia um rumor quase que imperceptível
entre as catacumbas, abertas na véspera
para o desfecho insólito da profecia.
Então eu pude sentir os murmúrios
daqueles espectros putrefeitos pelo tempo,
cujos aspectos de decomposição física
acentuaram em mim a antiga náusea do futuro.
Ali, em meio à tempestade de abril,
o espelho quebrado que eu encontrara
junto aos aposentos da velha inquilina,
emitiu em reverberações estranhas e malignas
um brilho intenso que me cegou os olhos.
Agora sinto que a velha desfigurada se aproxima
e toca meu rosto com suas mãos de morte vazia.
Como num passe de hipnotismo ou subtração de raciocínio
sou conduzido para o rito anual de bruxaria.
O Acaso das Manhãs
A cama desarrumada.
O livro (quase) aberto.
Páginas escurecidas.
A caneta largada no meio.
No relógio um horário impróprio; “já é dia?”
Sob os travesseiros, um único pijama
não se sabe porquê; não se sabe para quem.
Clareou.
As plantas espreguiçam-se:
um girassol retorce lentamente
pétalas, amarelas, miolo, marrom
em direção à promessa
De sol
De luz
De felicidade com prazo de validade
Vencida
De repente
Dois passos contrabalanceiam o peso de um único corpo
Um, dois, três, um dois, três… gira!
Girassol rodopia, entre as mãos agitadas
Madrugada infinita
Há barulho – feliz idades
Há sussurros – ocas gargalhadas expressivas
A cama desarrumada.
O livro (quase) aberto.
Páginas manuscritas.
Um mercado; um abridor de latas. Um saca-rolhas.
Nômade, sem ser, sendo.
Desiste-se; retorna.
Pacote 2×1.
Repensa.
Compras todas amarelas:
Banana.
Limão siciliano.
Milho.
Angu.
Girassol e gelosia…
Alba dal balcone
Água de coco, rega da vida
Eis o vento acalmando as turbinas
Eu te amo
Eu também.
O lado esquerdo da cama.
Criado mudo.
Coração.
Uma pera.
Mordida pera.
Religiosa pera.
Compartilhada à distância.
A cama desarrumada.
O livro desaberto.
Páginas escritas.
em frente à rua
um senhor passa
com seu carrinho de doces
e um radinho tocando:
“doce doce doce a vida é um doce doce mel…”
os olhos de minha lembrança
rolam
feito bolinha de gude encaçapando
o buraco mais fundo chamado
túnel do tempo
e percebo
há quanto tempo
já não saboreio mais
o doce
Quero a involução
A proteção contra os ventos
Útero da mãe
Turbulência amniótica.
O desequilíbrio de voltar
O ser ainda sem ser
Todos os caminhos por andar
Todas as guerras por vencer
Quero o grito de mãe
Na hora de parir
O choro engasgado
A dor de nascer
Coragem para voltar
Tudo feito novo
Certeza de não errar
Leite materno como sustento
Quero vida inteira
Apagadas as besteiras
Quero vento novo
Soprando semente verdadeira.
o teu encanto de sereia
levitou a serpente
por entre minhas teias
tua pele luxo de seda
por cima de mim
feito mágica de Aladdin
sucumbiu com minhas destrezas
teu palato de rio doce
desaguou no meu remo
este tão cansado e enfermo
de navegações ocres
e ao velejarmos sobre ondas rítmicas
& místicas
no compasso do som das baleias
gozamos no alto do mundo
um bilhão e duzentas mil estrelas
A anatomia dos carros na rua
revela a um homem que os vê
(entre outras coisas)
uma força neutra a interferir
e modificar a paisagem desolada
de quem anteriormente os criou.
A anatomia das mulheres
(independente dos lugares
em que se encontram) remete-nos
a uma forma viva de organização planejada
onde a beleza é fruto dela mesma, transfigurada.
A anatomia do pensamento de quem
(por exemplo escreve este poema)
nada mais é do que uma consequência imaterial
de causa e efeito entre o sentir de maneira sensível
diferentes realidades projetadas na sombra
do poste de observação.
O Acaso das Manhãs
trago
a pessoa amada
aqui dentro
mas amor não se prende
sendo assim
solto-o
ao vento
A cada dia vai-se diminuindo
o meu espaço vital.
Isto porque quando comecei a sentir-me
parte integrante do mundo
eu já havia sido expulso do mundo.
Toda uma vida
todo um aprendizado
adquirido na sombra e no silêncio de indivíduo
é tão somente de conhecimento meu próprio.
Só eu sei dos mecanismos mentais
que implicam em cada gesto
em cada palavra
que ensaiando digo às paredes
que ainda não foram construídas.
Encenei para mim mesmo uma tragicomédia
na qual sou o único personagem,
e o teatro em que represento
não é frequentado pelos homens
e está prestes a se desabar sobre.
O Acaso das Manhãs
a música no rádio
toca
um clássico rock anos 80
— ainda não sei de quem —
mas sei
que toda vez
que essa música-clássico
toca
todas as estações do rádio
sintonizam
tua imagem-clipe
dando cores
a um passado
que ficou em branco.
*
O corpo utilizado
para a afirmação
de uma individualidade,
de resto inexistente.
A individualidade,
como um fantasma abstrato,
esconde-se por detrás
da porosa pele.
A tatuagem utilizada
para a identificação
dos corpos, vítimas
do desastre aéreo.
Um Andarilho Dentro de Casa
na calçada dos meus olhos
você passa
um palavrão alto
sai
na boca do beco
da minha mente
a ponta-metal do teu salto
arrebenta
o meu tímpano-peito
num som estridente
e no meio do palco
perco todo o sentido
feito fã cego idolatrando artista
em seu show ao vivo
I
Tenho comigo
milhões de cadáveres
que apodrecem seus ossos
já destituídos do ímpeto
que movimenta os homens vivos
para a conquista de algo.
II
Tenho comigo
a inércia do corpo
que aniquila o meu sonho
já despojado da vida
que antes impedia o plano
de me alimentar desses ossos.
III
O que sou hoje é esta certeza
de não ser senão em mim.
O que sou hoje é este impulso
em preservar o que já está desfeito.
O que sou hoje é esta incapacidade
de desempenhar papel no mundo.
O que sou hoje é esta vontade
de antecipar meu próprio fim.
IV
Trago comigo
as sombras e o peso dos erros
acumulados nos anos de solidão
em que tentei construir algo
que estava fora de meu alcance precário
e mesmo que se acaso construído em silêncio
não teria nenhum valor para os homens.
V
Trago comigo
a síntese de um desprezo lógico
por essa espécie miserável de animais
que se arrasta numa fixidez sem sentido
pensando que com suas obras erigidas no espaço
poderão significar alguma coisa humana no tempo.
O Acaso das Manhãs
Entre tantas vozes
Tantos abraços
Entre tantos conselhos
Em meio ao cansaço
Quando sorrio
Ou quando choro
Se me surpreendo
Ou me apavoro
Se a alegria é tanta
Ou a decepção é muita,
Importa ter o teu colo, Mãe,
Pra valer a pena continuar.
Dove mi nasconderò?
Dove mi sentirò?
L’appartenenza non è più
Che la gentilezza Di far nulla
Senza
Una scelta.
Il poema sarebbe bello
Se non fossi io
A scrivirtelo,
Dall’uomo che suona zero
Insomma, dammelo subito!
Che poi riesco a diventare…
Ansito.
Chiusa è l’ombra poiché si è
avvolta alla finestra
e finchè La parola più lunga
Sotto l’esistenza esterna
Trovasi infatti un esempio
Cioè, una resistenza
Incerta.
Dimmi di più, dimmi di sì, di no…
Su di noi lo scontro
Sofferto, dal petto che brucia
Esci la mia paura e
La tenerezza…
Un segreto mai detto.
Discreto come lui
Non ne ho scritto più di un verso,
Di certo che l’ho fatto per me
Ma perchè?
Alzato ai monti
Come si diceva, un desiderio
Davanti quartiere Lumbo
Un rumore di fondo
Davano le ali al vetro
E sin venuto l’insuccesso
Era trascorso l’autunno
Mentre gridavano gli ucceli
“Sei tu il numero uno”
– E vogliono lo zero… poi seguivano
Caduti gli anni dalle grondaie
Incrinate, poveri scopritori…
Eravamo noi i secondari
Dove nemmeno i primi erano
Pronti a sopportare
Così
Il dolore!
Venivano le tende, a volte…
Scivolate e vertiginose
Verso le fessure del tempo
– “Hai visto tutto, uccellino…
Adesso fategli un riscontro,
un fischio nel cielo,
oppure un salto cieco… qualcosa!
Ma sincero.”
Tornati al tuo nido buio…
A mezzogiorno d’inverno
È presto.
E se non muoio…
Così vedo le piume
Indossare la luce
di un invento
eterno.
Tradução | por Bia Mies | do poema
“Li ho visto passare”, de Pedro D’ Ambrosio
Onde é que me esconderei?
Onde reconhecer-me-ei?
Já não há vínculo
Além da gentileza do absoluto nada agir
Carente de
Escolha, uma.
Emergiria beleza qualquer do poema
Não fosse eu a escrevê-lo, a si
Vindo do homem que vibra vazio
Enfim, entregue-me de prontidão!
Que ainda consigo tornar-me…
Aflito
Oclusa é a sombra por
Enroscar-se à janela
E porquanto a palavra mais longilínea
Censurada pela existência externa
Depara-se fatalmente frente ao modelo
Quem sabe, brio
Indefinido.
Entoe-me além, diga-me sim, quiçá não
Sobre nós contrastantemente
Sofrido, ardendo-me o peito
Desvaneço-me em temores
Em ternura…
Um segredo sequer confabulado.
Prudente tal qual
Não me atrevi além de um verso
Convenço-me enfim, escrevi a mim
Entretanto… por quê?
Falido, levanto-me
Como dizem, ambicionado
À frente: os limites de Lumbo
Rumores, logo ao fundo
Asas conjuradas ao vidro
Atrevido achega-se, pois, o fracasso
Recuado o outono
No mesmo passo grasnam, a mim, os pássaros
“És único, oh, número mono”
— Querem doravante o não-dito… e então, seguem
Escorridos se vão, calha abaixo, os anos
Falhada aos furos, modestos desbravadores
Éramos os de em seguida
Onde sequer os pioneiros
Prontos estiveram a suportar
Assim
Tamanha dor!
Descortinavam-se, vez em quando
Tecidos esvoaçantes e vertiginosos
Rumo às frestas do tempo
— “Viste de tudo, passarinho…
Agora plana: entrega-lhes o perdão migratório
Um pio-canto; verso em céu
Ouse além, numa queda cega, livre… tanto faz!
— sin-cero”.
Ao retornar – ninho para onde mingo…
Ao meio-dia invernil
É cedo.
E se não me extingo…
Assim me restam as plumas
Vestindo a luz
De um intento
Eterno.
De cotidianos resíduos
arrancados na solidão de prisioneiro
em que todo o meu ser se devora,
tento compor uma imagem humana
que me faça aceitável a mim mesmo.
No silêncio da morte aparente
na qual me recolho ao túmulo previsto
não sei com que ânsia mórbida de calma,
procuro juntar os cacos de culpa diária
que reunidos formam um apelo ao suicídio.
E não é só o remorso das manhãs doentias
pelo que na noite se desfez em delírios
de humana fraqueza cansada de si mesma,
é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
e lançar no cômputo geral das misérias minhas.
De cotidianos resíduos
recolhidos no isolamento mental de indivíduo
em que todo o meu ser se liberta,
tento compor uma imagem poética
que se faça de ideias e despreze a vida.
O Acaso das Manhãs
Soldado canta triste
Sentinela!
Quem é poeta?
Vento que presta
Barco a vela
Quem é poeta?
Pescador lança triste o anzol
Poeta!
Quem é vigia?
Vento que espia
Amor que esfria
Quem é vigia?
Moça olha triste o céu
Espera.
Quem é poeta?
Quem é vigia?
Vento que presta
Vento que espia
Barco a vela
Só poesia.