Poesias de 1 a 99

  • Poema #65: Rio Grande

    O Rio Grande não é apenas
    grande, ele é também
    referencial de um sonho
    (ponte de água clara
    interligando abismos).

    Dreno com meus olhos líquidos
    a sua enseada como quem não
    drena nada, exceto a visão da água.

    E como a viagem não permite
    que se fique sempre às margens
    do Rio Grande, instalo uma sonda
    em suas águas e a outra ponta da
    sonda eu a trago encravada na alma.

    Inventário de Sombras

  • Poema #64: Reta final

    Em tese
    tudo é possível
    mas na prática
    nada acontece.
    Eu sou a antítese
    de todos os axiomas
    benéficos.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Poema #63: Reivindicações

    Eu sei que eu mereço
    (embora talvez eu não venha a
    ter) o meu nome num nome de rua.

    Eu sei que eu mereço
    uma estátua de bronze
    na praça de Ervália.

    Eu sei que eu mereço
    denominar a Casa da
    Cultura como o poeta que sou.

    Eu sei que eu mereço
    casar com uma mulher
    negra, que é o meu sonho
    de consumo.

    Eu sei que eu mereço
    ter um aumento de salário
    para poder sobreviver.

    Eu sei que eu mereço
    ganhar um prêmio literário
    para pagar as dívidas.

    Eu sei que eu mereço
    pescar um peixe grande
    nas águas do tanque.

    Eu sei que eu mereço
    nadar como quem voa
    pelos céus de outro país.

    Eu sei que eu mereço
    cavalgar uma égua
    enfiando o dedo no seu cu,
    para ela andar depressa.

    Eu sei que eu mereço
    empinar uma pipa gigante
    que nunca será alcançada.

    Eu sei que eu mereço
    formar uma banda de rock
    e fazer muito sucesso.

    Eu sei que eu mereço
    ser aclamado e lido como
    nunca antes na história
    deste país.

    Eu sei que eu mereço
    receber uma homenagem
    de adeus e logo ser esquecido.

    Eu sei que eu mereço
    uma catacumba digna
    para descansar os meus ossos.

    Eu sei que eu mereço
    tudo isso, mas desconfio
    que não terei nada.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #04: Flor no Asfalto

    Chamam de resiliência
    essa palavra polida,
    de palco e de LinkedIn,
    que ensina a atravessar ruínas
    com a coluna ereta.

    Resiliência:
    dizem ser força,
    dizem ser método,
    dizem ser quase virtude corporativa.

    Mas outro dia
    ela me apareceu diferente —
    não em gráficos,
    nem em discursos bem ensaiados,

    mas numa fresta de asfalto:

    uma flor.

    Pequena, improvável,
    sem plateia, sem legenda,
    rompendo o cinza
    com a delicadeza de quem não pede licença.

    Ali estava tudo.

    Porque a terra sabe:
    depois da seca,
    depois do frio,
    depois daquilo que parece fim,

    há sempre um retorno
    silencioso.

    Um recomeço que não se anuncia,
    apenas acontece.

    E então pensei
    nos nossos desertos particulares —
    esses dias antes do aniversário,
    quando o mundo pesa mais do que devia,
    quando o acaso tropeça na gente
    vez após vez,

    e por dentro
    a paisagem racha.

    Mesmo ali,
    no chão duro do cansaço,
    algo insiste.

    Uma espera sem nome,
    quase teimosa,
    como quem já sabe
    que a chuva vem.

    Lembro, então, de Sérgio Britto,
    na voz dos Titãs,
    em Enquanto Houver Sol —

    quando tudo parece gasto,
    quando até a ilusão se recolhe,

    ainda assim,
    em algum lugar mínimo,
    sobrevive

    uma infância.

    Talvez seja isso.

    Resiliência não é pedra.
    Não é rigidez.

    É chama.
    É o quase nada que permanece
    aceso o suficiente
    para, um dia,

    florir —

    mesmo
    sobre o asfalto.

  • Poema #62: Pra encerrar e recomeçando

    mandei uma mensagem
    acabando com tudo
    que não havia. tranquei
    o portão de entrada para
    que nada entrasse além da
    minha covardia. joguei
    a toalha como quem se
    despede da vida e talvez
    não devesse ainda: era cedo e
    tarde demais ao mesmo tempo.
    fiquei com o meu corpo deitado
    no chão da cozinha doendo sem
    alma e sendo apenas, nada mais
    e nada menos, que um obstáculo
    ao percurso das formigas.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #16: Poema ao vento

    Poema ao vento
    Cesto vazio em pouso certo
    Cascalho de ilusões
    Sem tempo.

    Poema ao vento
    E nenhuma certeza das coisas
    Nenhuma certeza.

    De repente uma linha intrometida atrapalha o poema, como um rio conquista com ajuda das águas a terra branca, areia, alguma coisa separando os versos e construindo as margens. Há um menino do outro lado e ele abana um boné vermelho para o poeta. O poeta não se sente muito bem no meio de um parágrafo, mas, mesmo assim, acena para o menino…

    Poema ao vento
    Um contratempo
    Mapa e ponte
    Descaminho
    Novo tempo

  • Poema #61: Portal da Dor

    Cap. I – Da Doença

    Compressas frias, banhos mornos, cataplasmas sinapizadas, injeções intravenosas de electrargol, injeções hipodérmicas de óleo canforado, de cafeína, de esparteína, lavagens intestinais, laxativos e grande quantidade de poções e outros remédios internos.

    Cap. II – Da Morte

    Urna lisa, forrada com babado, envernizada, seis alças, com visor, véu, velas, encaminhamento da certidão de óbito, flores para ornamentação interna, livro de presença, paramentos religiosos, cinco anúncios na rádio local, translado de até 70 km e locomoção até a morada final.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências


    Agradecimentos ao Augusto dos Anjos, à D. Ester Fialho e ao Pax Ervália que funciona em frente ao necrotério.

  • Poema #60: Poema retirado de uma lápide

    No cemitério de Perdões
    Laura Alvarenga descansa.
    Moça bonita de 19 anos,
    falecida em 1920.
    Sentada numa cadeira,
    com um grande laço
    de fita nos cabelos
    e uns braços que talvez
    nem mesmo Machado
    sonharia descrever em
    seus contos de Assis.
    Laura Alvarenga
    de 19 anos de idade
    e seus olhos de Capitu.
    Uma fisionomia pensativa
    e meio triste de quem não
    antevia a sua própria morte,
    que chegaria tão cedo.
    Na sua lápide está escrito:
    “Saudade eterna de seus Paes
    e irmãos”. 87 anos depois
    eu contemplo sua fotografia
    num livro de pesquisa e penso
    que gostaria de tê-la conhecido.
    O que sabemos nós da vida?

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #59: Perdas e Danos

    parece que perdi
    o dom de sonhar
    depois de tantas
    decepções.

    depois de tantas
    perdas
    parece que sonhei
    que já não tinha o dom.

    acordei e era tudo
    verdade ou pesadelo
    depois eu acho
    que dormi de novo.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #58: Passagem das horas

    Fica de nós este resíduo
    do que ainda não fomos.
    Este abismo a se superar
    e uma certa disponibilidade.
    Fica esta in/compreensão mútua
    e a dificuldade em se comunicar.

    Fica de nós este fragmento
    do que ainda podemos ser.
    Este relacionamento a se elaborar
    e uma parcela de interesse recíproco.
    Fica esta identificação de caráter simultâneo
    e o desejo de que tudo não se perca.

    Fica de nós este sentimento reticente
    ainda não de todo vivido/compartilhado.
    este completo des/conhecimento do outro
    e uma necessidade de maior diálogo.
    Fica esta in/definição de objetivos comuns
    e o sentido da procura.

    Fica de nós este silêncio inédito
    devido ao medo em acreditar.
    Esta complexa/frágil vontade
    de querer sobrepor-nos negando a intuição.
    Fica este receio de se expor e viver o espontâneo
    e o que isto nos tem custado.

    Fica de nós esta intransigência
    e a falta de coragem para admitir.
    Este impulso em dizer coisas secretas
    e a sensação de ferir dizendo.
    Fica esta recusa em se confessar
    em defesa de uma estúpida integridade.

    Fica de nós esta passividade
    e o distanciamento decorrente dela.
    Este eterno ficar na espera sonhando
    e o recolhimento implícito que nega.
    Fica este gostar que desconhece convenções
    e o raciocínio estragando tudo.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #03: Em branco

  • Poema #57: História Concisa

    Quando em meu peito rebentar-se a
    Que o espírito enlaça à dor vivente”.
      Álvares de Azevedo(1831-1852)

    O poeta dobra a esquina
    com uma sacola de plástico:
    pão, bife de hambúrguer e solidão.
    Não vale a pena chorar por ele:
    se fez as opções erradas,
    se tombou pelo caminho,
    nada fica além do fato
    de um dia ter existido
    e comido aquele sanduíche
    barato.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #56: Isolamento

    A lua na casa de saturno
    saturno na casa da lua
    todo mundo em casa.
    A casa de todos no mundo
    todo mundo na casa de
    todo mundo e eu que não
    encontro o meu lugar
    em lugar nenhum,
    no escuro.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #03: Habitar o intervalo

    “A tapeçaria é uma articulação singular entre linhas e vazios, flexibilidade e resistência, o que faz do tear a metáfora por excelência da criação narrativa: porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.” *

    Os emaranhados da vida
    tapeçaria mal tecida
    De palavras sufocadas por amarras
    por nós
    Arremates enrijecidos do tempo
    entre as costuras

    Vida vivida
    em monobloco

    Esgarçar a tessitura
    do tempo mal vivido

    Esburacar a trama
    de pontos suturados

    Criar um circulador
    de silêncios no espaço

    Arear lembranças
    do que resta calado

    (*) Lara Manesco, em Entre Tecer e Narrar

  • Poema #55: Linguagem do escuro

    Agora que a luz se apagou
    e a solidão restabeleceu seu domínio,
    ouço com receio a linguagem do escuro
    que me des-norteia a vida.

    Nasci sob o signo da morte
    mas prefiro-a assim,
    conquistada aos poucos.
    Porção diária de veneno
    que injeto na raiz da vida
    até que ela, afinal, desapareça.

    E a linguagem do escuro prevalece
    (ainda que se acendam todas as luzes)
    como sendo a linguagem universal de tudo
    a tecer as teias da incompreensão fraterna.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #02: Sem alarde

    Não era o primeiro a chegar
    também não era o último
    ficava no meio.

    Lugar pouco disputado,
    onde ninguém posa
    e quase ninguém repara.

    Enquanto alguns se apressavam em brilhar
    e outros reclamavam da falta de luz
    ele aguardava.

    Não parecia esperar nada específico
    talvez só o tempo exato em que algo se revela
    sem fazer alarde.

    Foi assim que aprendi:
    nem toda claridade quer vencer a noite
    algumas só querem caber dentro dela
    por um instante e depois seguir

    vagalumeando

  • Poema #15: Um Soneto da Lua

    Ainda que sejam versos pequenos…
    Uns simples versos que sejam ao menos,
    os ventos os empurrarão no tempo
    onde serão o eterno consentimento.

    Toda a lua brilha alta e resplandece
    porque deseja muito o amor do mar.
    Acaricia um instante e depois reflete:
    é a busca de nunca encontrar.

    Como um solitário que ri na estrada
    é toda ela amor…uma imagem vaga,
    tempero de emoções, fogo que estala.

    Sendo certo o errado e não sendo
    a peleja da busca, o contratempo,
    ainda que seja um verso pequeno.

  • Poema #54: Intervalo

    “Eu quero os meus brinquedos novamente!
    Sou um pobre menino
    Que envelheceu, um dia, de repente!”
    Mário Quintana (1906-1994)

    Tenho quarenta e cinco anos
    e já neste meu último aniversário
    foi levantada a hipótese irreversível
    do envelhecimento antes da morte,
    mas nunca sabemos o que virá primeiro.

    Seja como for o assunto é desagradável.

    Imaginei-me de carteirinha sexagenária,
    entrando pela porta da frente dos ônibus
    e viajando de graça pelo país dos meus netos.

    Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro
    no banco e haveria um guichê específico
    esperando a minha dificuldade de caminhar.

    Soube também que eu poderei requerer
    um acréscimo no valor da aposentadoria,
    para gastar com hospitais, médicos e remédios.

    Seja como for o assunto é desagradável.

    A minha vontade é rasgar
    o estatuto do idoso
    e voltar a ser criança.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #53: Ciclo II

    Quando a chuva neutralizar
    a esperança das flores, no chão
    uma semente irá se desenvolver
    à imagem e perspectiva de tornar-se,
    sintetizando em si todo o anseio dos homens
    para que de seus ossos não se faça apenas
    um cemitério, mas também um canteiro.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #52: Ciclo I

    A vida,
    em todas as suas formas,
    revela a sutileza de um mágico
    que hipnotiza a todos
    para que não vejam seus truques falhos.

    Os homens,
    em todas as suas crenças,
    revelam a idiotice de um asno
    que acredita em tudo
    por não ser capaz de discernir o óbvio.

    Os homens,
    com todos os seus mágicos,
    revelam a estupidez da espécie
    que acredita na vida
    como sendo o caminho para a salvação.

    A vida,
    com todas as suas armadilhas,
    revela a esperteza de um camaleão
    que dissimula aos homens
    a sua completa inutilidade como veículo.

    O Acaso das Manhãs.

  • Poema #11: Prato Frio

    amar-te até os dentes
    embora passado o instante da mordida
    fico de presente com a marca da ferida
    leva pro futuro tatuado meu gosto

  • Poema #51: Andarilho no Quintal

    sou nascido e criado
    na roça
    acostumado com as durezas
    da vida

    racho lenha para o sustento
    com um machado cego
    de cabo de pau-mulato
    herança do meu avô

    após almoçar no quintal
    uma empurra a outra na moita
    e eu saio aliviado para o round
    da luta suja e feroz do homem.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Poema #50: Andarilho Descalço

    estou sem almoço
    e sem janta
    e com duas costelas
    quebradas

    meu caminhar é pele
    sobre o bronze
    do asfalto, atrito
    suave de quem sonha

    estou sofrendo
    com as calças e tudo
    e isso é nada para
    quem vive na rua.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Poema #10: O voo do morcego

    Solto em São Paulo, aonde iria?
    Rompia a noite, não decidia.
    Abria as asas: para onde ia?

    Se fosse Batman, já saberia
    qual o combate de cada esquina.
    Mas nem pra Coringa prestaria.

    Vampiro? Não, desmaiaria
    à vista de sangue.
    Dos predadores recusava
    até a fantasia.

    Ao encontro da rua,
    sumiria.
    De encontro ao muro,
    desaparecer: será, seria?

    Solto em São Paulo, sobrevoaria
    avenidas edifícios várzeas varandas tabacarias
    mercados de luxo
    de porcarias
    sobejas ninharias.

    Aberto ao acaso,
    negociaria com o tempo?
    render-se: ia?

    Embalado pelo eco incômodo,
    cantaria, não cantaria
    dançaria, não dançaria
    as sirenes, dedilharia
    o silêncio, ouviria.

    Do presente, o futuro.
    Do futuro, o passado.
    Os tempos imperfeitos
    impecavelmente alinhados.

    Com ou sem condições,
    fazer o que faria
    em qualquer São Paulo.

  • Poema #49: Identificação

    Identifico-me com a noite
    e com o que ela traz
    de específico a si mesma,
    e assim fazendo, aceito
    o convívio de seres opacos
    e da nova ordem e estado de coisas
    que o escuro inaugura.
    Identifico-me com o avesso
    sou aliás o próprio avesso de mim,
    e assim sendo, conheço
    as esquinas sombrias
    nas quais se disfarça
    a inexorável nulidade.
    Volto de manhã para casa,
    e num balanço isento da noite
    nenhum acréscimo se me acrescentou
    de forma permanente.
    Voltei eu mesmo sozinho e íntegro,
    apesar das concessões necessárias
    ao convívio comum entre os homens.
    Nada ganhei e também nada de mim
    se perdeu, exceto esta vida
    que amanhece mais velha.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #48: Instante de delírio

    Olho para o vazio
    de meus olhos.
    O espelho
    não reflete mais o amor,
    outrora visível.

    Imagens tão nítidas
    se me afloram perdidas
    na incongruência do vidro,
    uma vez descascada sua tinta
    prateada de reflexão.

    E agora as manhãs
    trazem o hálito da perda,
    do que fui e que no meu delírio
    se esgotou em fome.

    Não a fome dos homens
    do nordeste, biológica.
    Tampouco a fome dos homens
    civilizados, que inventaram a fome
    para dois terços do mundo.

    Mas fome ela mesma,
    que não se come e me digere.
    Não se alimenta e me fez assim
    um antropófago de mim.

    Fome que se reverte em morte
    e não me assusta, pois construí
    a vida a partir dela.

    Sou um desses seres que acreditam
    que na sombra se esconde a morte,
    e se perde a vida e se ganha a vida.

    A vida ganha com a morte
    não é metafísica.
    Por isso eu me mato a cada dia,
    consciente de que um vazio com outro
    não se compatibiliza.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #09: Dominó

    Não escanda a minha fala.
    Escancarar uma tara
    nem sempre é um bom negócio.

    Esconda, miúdo, as manias que lhe movem.
    Um dia, quando nada sobrar,
    elas ainda farão o seu coração bater.

    É como diziam os romanos:
    tudo em latim.
    Ninguém entende, todo mundo concorda.

  • Poema #47: Andarilho deitado

    O vento sopra um frio doido e esquisito
    na curva da esquina de um terreno baldio.
    Estou entre sapos e grilos e entulhos de lixo,
    atrás de um muro quebrado e com muitos cacos
    de vidro onde me escondo dos meus inimigos.
    Apaguei todas as luzes da esperança
    e estou sendo mordido por cachorros de rua.
    “Atualmente eu vivo rodeado por minhas
    paixões defuntas”. Todas inclusive,
    menos uma delas: a paixão do absoluto.
    Ando sozinho pelas ruas de bairros e ouço:
    (você quer pegar os balões? Coitado, mas
    eles são feitos de sonhos que estão muito
    acima da sua compleição). Talvez nunca,
    quem sabe, mas eu acabei de comer agora
    uma casca de pão e um pedaço de linguiça
    como tira-gosto da pinga. Houve uma época
    distante em que eu comia arroz e tomate
    nos degraus da escada de uma igreja no alto.
    A vida estava lá embaixo, mas havia pessoas comigo.
    Hoje eu quero morrer sem contar pra ninguém que eu fiz isso.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #46: Um Cão

    Um cão latindo na noite
    é sempre um cão.
    Sem cor, sem nome e sem
    significado
    para quem o está ouvindo.

    No entanto este cão
    traz em seu latido,
    sombras de milhões de outros cães
    sintetizados
    em uníssono noite adentro.

    A chuva não consegue abafar
    este inquietante latir,
    profanando o sono dos homens
    e o sectarismo estático
    das coisas e dos seres.

    Alguém para se ver livre
    do incômodo latido
    desfechou tiros na escuridão,
    e a noite se arrastou em insônia.

    Da boca sangrenta daquele cão morto
    brotaram ruídos confusos
    que invadiram as ruas e as casas,
    mostrando a todos a inutilidade do ato.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #45: Saldo

    De cotidianos resíduos
    arrancados na solidão de prisioneiro
    em que todo o meu ser se devora,
    tento compor uma imagem humana
    que me faça aceitável a mim mesmo.

    No silêncio da morte aparente
    na qual me recolho ao túmulo previsto
    não sei com que ânsia mórbida de calma,
    procuro juntar os cacos de culpa diária
    que reunidos formam um apelo ao suicídio.

    E não é só o remorso das manhãs doentias
    pelo que na noite se desfez em delírios
    de humana fraqueza cansada de si mesma,
    é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
    e lançar no cômputo geral das misérias minhas.

    De cotidianos resíduos
    recolhidos no isolamento mental de indivíduo
    em que todo o meu ser se liberta,
    tento compor uma imagem poética
    que se faça de ideias e despreze a vida.

    O Acaso das Manhãs

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