Poesias de 1 a 99

  • Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?

    Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!
    Para que a pressa?
    se preciso, eu, mais que vitaminas,
    do alimento para o viço que… reflete-me,
    [interna] e inteiramente?
    Que eu possa deleitar-me com o calor azul
    da caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio

    Eis-me inteira,
    num instante errante,
    naufragada no suor de
    não pertencer.
    Cá estou.

    Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro.

    Bate-me o peito em um não positivo.

    Eis me aqui. Intacta.

    Tempo, tempo…
    por que não fica para o café?
    Uma xícara, a água borbulha sobre o fogo…
    Fique, tempo! Me aceite.

    Tempo, tempo, tempo…
    passe logo, passe aqui, mas com alma!
    Que nossas pegadas sejam uma,
    ao sabor do que se apaga
    ao espreguiçar das ondas sobre a areia
    ao primeiro raio de sol

    Fique.
    faça de mim sua, senz’altro.
    Te espero
    Tempo, tempo…

  • Poema #06: olhar-eclipse

    tivemos um olhar-eclipse
    após
    anos
    e
    anos

    foi tão lindo
    que até os deuses
    pararam pra ver

    e foi assim
            mais
        uma
    vez

    até o sol dos seus castanhos partir
    para um canto
    e restar
    somente
    essa lua
    minguante
    no céu
    da solidão

  • Poema #76: “141 A”

    Sequência final
    numa casa de 24 m²
    com vista de frente
    para um beco lateral.
    O piso era grosso
    antes de eu assimilá-lo,
    mas como a vida
    permaneceu em
    desalinho eu adormeci
    deitado de lado e tombado
    em lençóis queimados
    no espaço entre as camas.
    Com uma aliança invisível
    na mão direita e um cheiro
    forte de esgoto vindo do banheiro.
    E pensar que havia promessas
    veladas feitas a mim mesmo
    no escuro de uma vida desfalcada.
    Pinturas metálicas malfeitas
    no fundo de um espelho manchado
    e de brilho opaco.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #04: Motivo

     ( A Cecília)

    Antes que chegue o dia da mudez,
    Cantemos!
    Cantemos elegias
    Cantemos heavy
    Cantemos baladas
    Cantemos !
    Que em nós haja uma eterna canção
    Indescritivelmente bela,
    Inevitavelmente original
    Por sermos, cada um de nós, 
    a própria melodia, 
    a harmonia curativa 
    No desconcerto do mundo.

  • Poema #08: Alteridade

    Este que vos premedita
    Devia dizer-lhes algo
    Mas o profundo que é o sereno
    Mais errôneo que o acaso tornou-se

    Então dizes ao papel:
    Das tuas palavras fizestes
    De pouco caso;
    Que se bastasse um punhado
    ‘Inda que só coubesse o que lhe atava.

    Sonoridade tal das águas já lhes assoavam
    Os cascos empoeirados da vigília
    E tu sonhastes teu atraso…

    O não que dizes é certeiro
    Ressoa pra longe, bem longe se estende.
    Caronas apanhas; onde te encontras?
    Ao retorno te encostas
    De onde trazes teu perdão e tua luta.

    A complacência sempre ouve teu discurso
    E a vergonha nunca toma tua teima.
    É que de verdade, amigo, lhe juro
    Veneno bom fizestes, em fatos,
    Contigo ninguém pode;
    Comigo, jamais pude.

  • Poema #75: 459 A

    Abandono total
    numa casa de 29 m²
    com vista de fundo
    para um bambuzal.
    O piso era claro
    antes de eu pisá-lo,
    mas depois a vida
    converteu-se em
    desordem e acordei
    deitado de costas
    num corredor
    do lado de fora,
    com a chave na mão
    esquerda coberta de
    sangue e a fúria cega
    de quem não se lembra
    de nada.

    Uma Escada que Deságua no Silêncio

  • Poema #07: Parado há duas horas

    Estou parado há duas horas.
    Já fui de um lado a outro
    Fui de esquina a esquina
    Percorri cada quadrado de chão.

    É que me cansaram as pernas
    Então deixei-me aqui.
    Por um lado parece-me um tanto sagrado,
    De outro, nefasto e ridículo.

    É que andei tanto que já não tenho por onde ir.
    Cumprimenta-me o passo do outro
    Que por um lado atravessa a rua
    Do outro, acena e desvia
    Ou o de mais longe, que caminha
    E eu, que já não soube de onde vinha
    Só, via.

    O movimento do mundo me desloca,
    Por isso a pausa.
    A náusea desta vida, caro Sartre,
    É a de se encontrar em plena avenida, aos arredores
    Sem saber por onde se ia,
    Sem esperar pela chegada.

    É que todos pareciam tão certos.
    — “É por ali”, saltou o jornaleiro.
    — “Mas estou parado fazem duas horas, meu senhor…
    Lhe pareço estar atrasado?” — disse-lhe.
    — “Estou aqui há 40 anos, meu jovem…
    Sei bem o que é ver a ida sem esperar pela volta”.

    Tens razão, pensei. O que estou eu a aguardar então?
    — “Te agarre ao que te aguarda”, dizia-me já a se voltar.
    Pensei de pronto… pobre sujeito que sou
    Quantas coisas me aguardam
    E eu aqui, parado, a pensar.

    Mas queria tanto ficar…
    Cogitei o primeiro passo.
    Espera… e por onde vou, se nem me lembro o porquê de vir?
    E de toda aquela confusão, soltava o riso o jornaleiro.

    — “Vamos, garoto… logo a multidão lhe arrasta
    E aí terá de ser levado pelos outros…
    Aproveite enquanto ainda há teu tempo!
    Ainda há teu lugar!
    Enquanto puderes estar contigo,
    Não te faças isso de deixares-te levar.”

    Aflito com a escolha a ser feita, lhe acenei:
    — “O que me agarra ao momento parece-me serem os pés, jornaleiro!”
    Fincados no mundo, eu suspirava…
    Já me era suspeito de que fostes tu, dura vida
    Que me aguardavas.
    E então caminhei.

    Desde então, por duas horas caminhava.

  • Poema #74: ( )

    Suspenso na tarde
    como uma lâmpada queimada
    num porão deserto,
    figura o lado esquerdo
    de um parêntesis aberto.

    Seu estado resulta
    do itinerário de sombras
    em que um homem se perde
    na solidão de seus próprios passos,
    esquecidos sequer sem deixar uma marca.

    Sua abertura demonstra
    a imperiosidade do erro
    que determina sempre
    que as flores se abram para cumprir
    seu papel de beleza e de decomposição.

    O parêntesis aberto no escuro
    não é senão a necessidade
    de se sair do estágio de clausura,
    quando se esgota (ou assim se imagina)
    a fonte de oxigênio íntimo do ser.

    Mesmo quando já se sabe
    que na asfixia de ele estar fechado
    sobrevive pelo menos a sua integridade,
    e abri-lo significa a dispersão da energia
    que ele guarda de si para si como um transistor.

    Areia (À Fragmentação da Pedra)

  • Poema #03: Magia

    O outono deixa cair seu manto branco sobre as montanhas
    Nada mais é nítido, nada mais é real.
    Tudo vira sonho .
    Há magia sob o tecido d’água que misteriosamente pede aconchego.
    Todos são um. Confundidos, ofuscados.

    O outono salpica a noite com estrelas tantas
    O olhar se perde, tudo parece sonho.
    Há magia sob o céu bordado, que misteriosamente provoca suspiros.
    Todos são encantados. Confundidos, ofuscados

    O outono desenha montanhas azul-marinho guardando a cidade
    Nada mais é nítido, nada mais é real.
    O olhar é impedido, tudo parece sonho.
    Há magia nos limites, que misteriosamente convidam à introspecção.
    Todos são iludidos. Confundidos, ofuscados.

    O outono exibe luares que emudecem
    Tudo é nítido, tudo parece sonho.
    Há magia sob a luz delicada, que misteriosamente desperta amantes.
    Todos são tocados. Confundidos, ofuscados.

    O outono azula o dia, clareia até a cegueira
    Tudo é perturbadoramente nítido, tudo é real.
    O olhar é indiscreto, nada é segredo.
    Há magia sob a luz, que misteriosamente revela.
    Todos são desprotegidos, todos são desvendados.

  • Poema #73: Valpurgis

    A inquietação daquela noite
    levou-me ao extremo de deixar a cama
    em pleno delírio da febre sem causa
    que me acometia desde há muito.

    Nunca em meus transportes noturnos,
    que eram então muito frequentes,
    eu havia experimentado essa ânsia de fuga
    que só se compara à de uma suicida na ponte.

    Corri como que alucinado fantasma
    até o porão da casa onde a umidade
    havia impregnado as paredes de morte,
    e peguei no baú o espelho quebrado.

    A chuva era intensa e os relâmpagos
    cortavam a estrada barrenta ao norte,
    para a qual fui levado rumo ao destino
    que o maldito espelho me reservara.

    O cemitério estava deserto e escuro
    mas havia um rumor quase que imperceptível
    entre as catacumbas, abertas na véspera
    para o desfecho insólito da profecia.

    Então eu pude sentir os murmúrios
    daqueles espectros putrefeitos pelo tempo,
    cujos aspectos de decomposição física
    acentuaram em mim a antiga náusea do futuro.

    Ali, em meio à tempestade de abril,
    o espelho quebrado que eu encontrara
    junto aos aposentos da velha inquilina,
    emitiu em reverberações estranhas e malignas
    um brilho intenso que me cegou os olhos.

    Agora sinto que a velha desfigurada se aproxima
    e toca meu rosto com suas mãos de morte vazia.
    Como num passe de hipnotismo ou subtração de raciocínio
    sou conduzido para o rito anual de bruxaria.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #03: Isso basta

    A cama desarrumada.
    O livro (quase) aberto.
    Páginas escurecidas.

    A caneta largada no meio.

    No relógio um horário impróprio; “já é dia?”
    Sob os travesseiros, um único pijama

    não se sabe porquê; não se sabe para quem.
    Clareou.
    As plantas espreguiçam-se:
    um girassol retorce lentamente
    pétalas, amarelas, miolo, marrom
    em direção à promessa
    De sol
    De luz
    De felicidade com prazo de validade
    Vencida

    De repente
    Dois passos contrabalanceiam o peso de um único corpo
    Um, dois, três, um dois, três… gira!
    Girassol rodopia, entre as mãos agitadas
    Madrugada infinita
    Há barulho – feliz idades
    Há sussurros – ocas gargalhadas expressivas

    A cama desarrumada.
    O livro (quase) aberto.
    Páginas manuscritas.

    Um mercado; um abridor de latas. Um saca-rolhas.
    Nômade, sem ser, sendo.
    Desiste-se; retorna.
    Pacote 2×1.
    Repensa.

    Compras todas amarelas:
    Banana.
    Limão siciliano.
    Milho.
    Angu.
    Girassol e gelosia…

    Alba dal balcone
    Água de coco, rega da vida
    Eis o vento acalmando as turbinas
    Eu te amo
    Eu também.

    O lado esquerdo da cama.
    Criado mudo.
    Coração.
    Uma pera.
    Mordida pera.
    Religiosa pera.
    Compartilhada à distância.

    A cama desarrumada.
    O livro desaberto.
    Páginas escritas.

  • Poema #05: a vida é um doce

    em frente à rua
    um senhor passa
    com seu carrinho de doces
    e um radinho tocando:
    “doce doce doce a vida é um doce doce mel…”
    os olhos de minha lembrança
    rolam
    feito bolinha de gude encaçapando
    o buraco mais fundo chamado
    túnel do tempo
    e percebo
    há quanto tempo
    já não saboreio mais
    o doce

  • Poema #02: Involuto

    Quero a involução
    A proteção contra os ventos
    Útero da mãe
    Turbulência amniótica.

    O desequilíbrio de voltar
    O ser ainda sem ser
    Todos os caminhos por andar
    Todas as guerras por vencer

    Quero o grito de mãe
    Na hora de parir 
    O choro engasgado
    A dor de nascer

    Coragem para voltar
    Tudo feito novo
    Certeza de não errar
    Leite materno como sustento

    Quero vida inteira
    Apagadas as besteiras
    Quero vento novo
    Soprando semente verdadeira.

  • Poema #04: Oceano de estrelas

    o teu encanto de sereia
    levitou a serpente
    por entre minhas teias
    tua pele luxo de seda
    por cima de mim
    feito mágica de Aladdin
    sucumbiu com minhas destrezas
    teu palato de rio doce
    desaguou no meu remo
    este tão cansado e enfermo
    de navegações ocres
    e ao velejarmos sobre ondas rítmicas
    & místicas
    no compasso do som das baleias   
    gozamos no alto do mundo
    um bilhão e duzentas mil estrelas

  • Poema #71: Tratado de Anatomia

    A anatomia dos carros na rua
    revela a um homem que os vê
    (entre outras coisas)
    uma força neutra a interferir
    e modificar a paisagem desolada
    de quem anteriormente os criou.

    A anatomia das mulheres
    (independente dos lugares
    em que se encontram) remete-nos
    a uma forma viva de organização planejada
    onde a beleza é fruto dela mesma, transfigurada.

    A anatomia do pensamento de quem
    (por exemplo escreve este poema)
    nada mais é do que uma consequência imaterial
    de causa e efeito entre o sentir de maneira sensível
    diferentes realidades projetadas na sombra
    do poste de observação.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #03: na sacada do apê & um marlboro às 2 da manhã

    trago
    a pessoa amada
    aqui dentro

    mas amor não se prende

    sendo assim
    solto-o
    ao vento

  • Poema #70: Trágica & Cômico

    A cada dia vai-se diminuindo
    o meu espaço vital.
    Isto porque quando comecei a sentir-me
    parte integrante do mundo
    eu já havia sido expulso do mundo.
    Toda uma vida
    todo um aprendizado
    adquirido na sombra e no silêncio de indivíduo
    é tão somente de conhecimento meu próprio.
    Só eu sei dos mecanismos mentais
    que implicam em cada gesto
    em cada palavra
    que ensaiando digo às paredes
    que ainda não foram construídas.
    Encenei para mim mesmo uma tragicomédia
    na qual sou o único personagem,
    e o teatro em que represento
    não é frequentado pelos homens
    e está prestes a se desabar sobre.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #02: Música-Clássico

    a música no rádio
    toca
    um clássico rock anos 80

    — ainda não sei de quem —
    mas sei
    que toda vez
    que essa música-clássico
    toca

    todas as estações do rádio
    sintonizam
    tua imagem-clipe
    dando cores
    a um passado
    que ficou em branco.

    *

  • Poema #69: Tatuagem

    O corpo utilizado
    para a afirmação
    de uma individualidade,
    de resto inexistente.

    A individualidade,
    como um fantasma abstrato,
    esconde-se por detrás
    da porosa pele.

    A tatuagem utilizada
    para a identificação
    dos corpos, vítimas
    do desastre aéreo.

    Um Andarilho Dentro de Casa

  • Poema #01: Espetáculo

    na calçada dos meus olhos
    você passa

    um palavrão alto
    sai
    na boca do beco
    da minha mente

    a ponta-metal do teu salto
    arrebenta
    o meu tímpano-peito
    num som estridente

    e no meio do palco
    perco todo o sentido
    feito fã cego idolatrando artista
    em seu show ao vivo

  • Poema #68: Sobrevivência no quarto

    I
    Tenho comigo
    milhões de cadáveres
    que apodrecem seus ossos
    já destituídos do ímpeto
    que movimenta os homens vivos
    para a conquista de algo.

    II
    Tenho comigo
    a inércia do corpo
    que aniquila o meu sonho
    já despojado da vida
    que antes impedia o plano
    de me alimentar desses ossos.

    III
    O que sou hoje é esta certeza
    de não ser senão em mim.
    O que sou hoje é este impulso
    em preservar o que já está desfeito.
    O que sou hoje é esta incapacidade
    de desempenhar papel no mundo.
    O que sou hoje é esta vontade
    de antecipar meu próprio fim.

    IV
    Trago comigo
    as sombras e o peso dos erros
    acumulados nos anos de solidão
    em que tentei construir algo
    que estava fora de meu alcance precário
    e mesmo que se acaso construído em silêncio
    não teria nenhum valor para os homens.

    V
    Trago comigo
    a síntese de um desprezo lógico
    por essa espécie miserável de animais
    que se arrasta numa fixidez sem sentido
    pensando que com suas obras erigidas no espaço
    poderão significar alguma coisa humana no tempo.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #01: Incondicional

    Entre tantas vozes
    Tantos abraços
    Entre tantos conselhos
    Em meio ao cansaço

    Quando sorrio
    Ou quando choro
    Se me surpreendo
    Ou me apavoro

    Se a alegria é tanta
    Ou a decepção é muita,
    Importa ter o teu colo, Mãe,
    Pra valer a pena continuar.

  • Li ho visto passare

    Dove mi nasconderò?
    Dove mi sentirò?
    L’appartenenza non è più
    Che la gentilezza Di far nulla
    Senza
    Una scelta.

    Il poema sarebbe bello
    Se non fossi io
    A scrivirtelo,
    Dall’uomo che suona zero
    Insomma, dammelo subito!
    Che poi riesco a diventare…
    Ansito.

    Chiusa è l’ombra poiché si è
    avvolta alla finestra
    e finchè La parola più lunga
    Sotto l’esistenza esterna
    Trovasi infatti un esempio
    Cioè, una resistenza
    Incerta.

    Dimmi di più, dimmi di sì, di no…
    Su di noi lo scontro
    Sofferto, dal petto che brucia
    Esci la mia paura e
    La tenerezza…
    Un segreto mai detto.

    Discreto come lui
    Non ne ho scritto più di un verso,
    Di certo che l’ho fatto per me
    Ma perchè?

    Alzato ai monti
    Come si diceva, un desiderio
    Davanti quartiere Lumbo
    Un rumore di fondo
    Davano le ali al vetro

    E sin venuto l’insuccesso
    Era trascorso l’autunno
    Mentre gridavano gli ucceli
    “Sei tu il numero uno”
    – E vogliono lo zero… poi seguivano

    Caduti gli anni dalle grondaie
    Incrinate, poveri scopritori…
    Eravamo noi i secondari
    Dove nemmeno i primi erano
    Pronti a sopportare
    Così
    Il dolore!

    Venivano le tende, a volte…
    Scivolate e vertiginose
    Verso le fessure del tempo
    – “Hai visto tutto, uccellino…
    Adesso fategli un riscontro,
    un fischio nel cielo,
    oppure un salto cieco… qualcosa!
    Ma sincero.”

    Tornati al tuo nido buio…
    A mezzogiorno d’inverno
    È presto.
    E se non muoio…

    Così vedo le piume
    Indossare la luce
    di un invento
    eterno.

    Vi vocês, passando

    Tradução | por Bia Mies | do poema
    “Li ho visto passare”, de Pedro D’ Ambrosio

    Onde é que me esconderei?
    Onde reconhecer-me-ei?
    Já não há vínculo
    Além da gentileza do absoluto nada agir
    Carente de
    Escolha, uma.

    Emergiria beleza qualquer do poema
    Não fosse eu a escrevê-lo, a si
    Vindo do homem que vibra vazio
    Enfim, entregue-me de prontidão!
    Que ainda consigo tornar-me…
    Aflito

    Oclusa é a sombra por
    Enroscar-se à janela
    E porquanto a palavra mais longilínea
    Censurada pela existência externa
    Depara-se fatalmente frente ao modelo
    Quem sabe, brio
    Indefinido.

    Entoe-me além, diga-me sim, quiçá não
    Sobre nós contrastantemente
    Sofrido, ardendo-me o peito
    Desvaneço-me em temores
    Em ternura…
    Um segredo sequer confabulado.

    Prudente tal qual
    Não me atrevi além de um verso
    Convenço-me enfim, escrevi a mim
    Entretanto… por quê?

    Falido, levanto-me
    Como dizem, ambicionado
    À frente: os limites de Lumbo
    Rumores, logo ao fundo
    Asas conjuradas ao vidro

    Atrevido achega-se, pois, o fracasso
    Recuado o outono
    No mesmo passo grasnam, a mim, os pássaros
    “És único, oh, número mono”
    —  Querem doravante o não-dito… e então, seguem

    Escorridos se vão, calha abaixo, os anos
    Falhada aos furos, modestos desbravadores
    Éramos os de em seguida
    Onde sequer os pioneiros
    Prontos estiveram a suportar
    Assim
    Tamanha dor!

    Descortinavam-se, vez em quando
    Tecidos esvoaçantes e vertiginosos
    Rumo às frestas do tempo

    — “Viste de tudo, passarinho…
    Agora plana: entrega-lhes o perdão migratório
    Um pio-canto; verso em céu
    Ouse além, numa queda cega, livre… tanto faz!
    —  sin-cero”.

    Ao retornar – ninho para onde mingo…
    Ao meio-dia invernil
    É cedo.
    E se não me extingo…
    Assim me restam as plumas
    Vestindo a luz
    De um intento
    Eterno.

  • Poema #67: Saldo

    De cotidianos resíduos
    arrancados na solidão de prisioneiro
    em que todo o meu ser se devora,
    tento compor uma imagem humana
    que me faça aceitável a mim mesmo.

    No silêncio da morte aparente
    na qual me recolho ao túmulo previsto
    não sei com que ânsia mórbida de calma,
    procuro juntar os cacos de culpa diária
    que reunidos formam um apelo ao suicídio.

    E não é só o remorso das manhãs doentias
    pelo que na noite se desfez em delírios
    de humana fraqueza cansada de si mesma,
    é todo um saldo de perdas que tenho que fazer
    e lançar no cômputo geral das misérias minhas.

    De cotidianos resíduos
    recolhidos no isolamento mental de indivíduo
    em que todo o meu ser se liberta,
    tento compor uma imagem poética
    que se faça de ideias e despreze a vida.

    O Acaso das Manhãs

  • Poema #17: Quem é poeta quem é vigia

    Soldado canta triste
    Sentinela!
    Quem é poeta?

    Vento que presta
    Barco a vela

    Quem é poeta?

    Pescador lança triste o anzol
    Poeta!
    Quem é vigia?

    Vento que espia
    Amor que esfria

    Quem é vigia?

    Moça olha triste o céu
    Espera.
    Quem é poeta?
    Quem é vigia?

    Vento que presta
    Vento que espia
    Barco a vela
    Só poesia.

  • Poema #65: Rio Grande

    O Rio Grande não é apenas
    grande, ele é também
    referencial de um sonho
    (ponte de água clara
    interligando abismos).

    Dreno com meus olhos líquidos
    a sua enseada como quem não
    drena nada, exceto a visão da água.

    E como a viagem não permite
    que se fique sempre às margens
    do Rio Grande, instalo uma sonda
    em suas águas e a outra ponta da
    sonda eu a trago encravada na alma.

    Inventário de Sombras

  • Poema #64: Reta final

    Em tese
    tudo é possível
    mas na prática
    nada acontece.
    Eu sou a antítese
    de todos os axiomas
    benéficos.

    A Sentinela em Fuga e Outras Ausências

  • Poema #63: Reivindicações

    Eu sei que eu mereço
    (embora talvez eu não venha a
    ter) o meu nome num nome de rua.

    Eu sei que eu mereço
    uma estátua de bronze
    na praça de Ervália.

    Eu sei que eu mereço
    denominar a Casa da
    Cultura como o poeta que sou.

    Eu sei que eu mereço
    casar com uma mulher
    negra, que é o meu sonho
    de consumo.

    Eu sei que eu mereço
    ter um aumento de salário
    para poder sobreviver.

    Eu sei que eu mereço
    ganhar um prêmio literário
    para pagar as dívidas.

    Eu sei que eu mereço
    pescar um peixe grande
    nas águas do tanque.

    Eu sei que eu mereço
    nadar como quem voa
    pelos céus de outro país.

    Eu sei que eu mereço
    cavalgar uma égua
    enfiando o dedo no seu cu,
    para ela andar depressa.

    Eu sei que eu mereço
    empinar uma pipa gigante
    que nunca será alcançada.

    Eu sei que eu mereço
    formar uma banda de rock
    e fazer muito sucesso.

    Eu sei que eu mereço
    ser aclamado e lido como
    nunca antes na história
    deste país.

    Eu sei que eu mereço
    receber uma homenagem
    de adeus e logo ser esquecido.

    Eu sei que eu mereço
    uma catacumba digna
    para descansar os meus ossos.

    Eu sei que eu mereço
    tudo isso, mas desconfio
    que não terei nada.

    O Jardim Simultâneo

  • Poema #04: Flor no Asfalto

    Chamam de resiliência
    essa palavra polida,
    de palco e de LinkedIn,
    que ensina a atravessar ruínas
    com a coluna ereta.

    Resiliência:
    dizem ser força,
    dizem ser método,
    dizem ser quase virtude corporativa.

    Mas outro dia
    ela me apareceu diferente —
    não em gráficos,
    nem em discursos bem ensaiados,

    mas numa fresta de asfalto:

    uma flor.

    Pequena, improvável,
    sem plateia, sem legenda,
    rompendo o cinza
    com a delicadeza de quem não pede licença.

    Ali estava tudo.

    Porque a terra sabe:
    depois da seca,
    depois do frio,
    depois daquilo que parece fim,

    há sempre um retorno
    silencioso.

    Um recomeço que não se anuncia,
    apenas acontece.

    E então pensei
    nos nossos desertos particulares —
    esses dias antes do aniversário,
    quando o mundo pesa mais do que devia,
    quando o acaso tropeça na gente
    vez após vez,

    e por dentro
    a paisagem racha.

    Mesmo ali,
    no chão duro do cansaço,
    algo insiste.

    Uma espera sem nome,
    quase teimosa,
    como quem já sabe
    que a chuva vem.

    Lembro, então, de Sérgio Britto,
    na voz dos Titãs,
    em Enquanto Houver Sol —

    quando tudo parece gasto,
    quando até a ilusão se recolhe,

    ainda assim,
    em algum lugar mínimo,
    sobrevive

    uma infância.

    Talvez seja isso.

    Resiliência não é pedra.
    Não é rigidez.

    É chama.
    É o quase nada que permanece
    aceso o suficiente
    para, um dia,

    florir —

    mesmo
    sobre o asfalto.

  • Poema #62: Pra encerrar e recomeçando

    mandei uma mensagem
    acabando com tudo
    que não havia. tranquei
    o portão de entrada para
    que nada entrasse além da
    minha covardia. joguei
    a toalha como quem se
    despede da vida e talvez
    não devesse ainda: era cedo e
    tarde demais ao mesmo tempo.
    fiquei com o meu corpo deitado
    no chão da cozinha doendo sem
    alma e sendo apenas, nada mais
    e nada menos, que um obstáculo
    ao percurso das formigas.

    O Jardim Simultâneo

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