há muito que não a vejo
calibro a saudade no peito
alfa centauro, sorteio:
não sei se te beijo
ou se bebo.
Uma Escada que Deságua no Silêncio
Poesias de 1 a 99
-
Poema #91: Anos 70
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Poema #90: Alguns homens
Aqueles que esperam
que todos durmam
para então se revelarem
no escuro do mundo
agora despovoado
de leis e de homens
que foram fatigados
pela batalha diária
de se ganhar dinheiro
e etcetera e coisa.
Aqueles que se recolhem
quando todos já acordados
recomeçam o ciclo da vida
subitamente interrompido
para o ensaio da morte
e que assim em movimento
não percebem os sonhos
espalhados na noite
por gente incógnita
que digere o mundo
para o sustento possível
de uma impossível unidade
comum a todos os homens.
Aqueles para quem só é viável
o diálogo com os mortos
cuja imobilidade revela a calma
do que antes fora ânsia
ou simples impulso de debate
contra uma série de coisas
que só se percebe neutras
depois que se morre.
Aqueles seres anônimos
que constroem uma realidade
paralela à admissível pelo dia
e que não obstante
substitui o espaço de tempo
necessário ao aprimoramento dos homens
até que se consiga
a hipotética convergência da raça
afinal reconciliados em espécie e sub.
Aqueles que com seus hábitos
são uma curiosidade para todos do circo
e um enigma para si mesmos, palhaços
sem plateia e sem palco nesta vida.O Acaso das Manhãs
-
Poema #12: O sabor dos ventos
nuvens cor de mar
nelas posso navegar
sem barco nem remo
só com as mãos e a coragemquem cai, não se afoga
quem se perde, não teme
que nas águas desse lugar
as ondas embalam sem engolirlonge da praia, longe de lá
mais perto do céu, onde eu quero estar
brisa em que o corpo flutua, sem náusea,
entregue, convicto, ao ritmo do arnuvens cor de mar
uma só não bastará
num oceano de sentidos,
quantos destinos pode
um marinheiro encontrar? -
Poema #89: Alcunhas
o poeta dos acasos
o poeta das manhãs
o poeta das areias
o poeta da fragmentação
o poeta das pedras
o poeta dos inventários
o poeta das sombras
o poeta sentinela
o poeta em fuga
o poeta das ausências
o poeta das escadas
que deságuam
dentro de si mesmo
o poeta dos silêncios
o poeta dos jardins
o poeta das simultaneidades
ele, às vezes, planta árvores.O Jardim Simultâneo
-
Poema #09: para dias cinzentos
para dias cinzentos
é preciso abrir a janela de casa
pular
e sair descalço
pelas calçadasencontrar
algum mato-vivo
do teu passado
nas arestas do pastoe as terras vermelhas
que agora bordam teus pés
(um tanto cansados)
um dia também pintou tua facecom as mãos
semear
tuas raízes ao ventoe quando partir o sol
junto com o sino dos pássaros
é hora da retomada
feito menino
sujo
deixando rastros
de aquarela
por onde passa -
Poema #88: Adiamento
Trago comigo meus poemas
que ainda não foram escritos,
simplesmente porque não se fizeram
e nem se recolheram à sua impossibilidade.
E vou deixando-os, portanto, para o dia
seguinte, para a manhã seguinte, para
a vida seguinte que não haverá.
Areia (À Fragmentação da Pedra) -
Poema #87: Acrobata
um pessegueiro roxo
braços em formas de garras
dedos intumescidos
pernas retesadas.quando estamos dormindo
tudo parece fácil:
pé fora da cama
e acrobacia de quedas.Da Essencialidade da Água
-
Poema #86: A Visita
De súbito a chuva cessou.
Ponho-me a escrever sobre ti,
criatura sem carne
que me visita.Não sei de onde vens,
mas sempre chegas
nas horas mais extenuantes
de minha fuga.Fecho portas e janelas
para não te permitir
livre acesso sobre mim,
que de cansado me basto.Mas tu me vens sem ser chamada
e mesmo sem chegar em forma clara,
sei que és minha consciência,
e te incorporo.O Acaso das Manhãs
-
Poema #85: A verdade sobre a mentira
Tenho dito mentiras
sem tomar consciência
de sua contextura falsa.Não tenho desmentido o que digo
pois tenho a concepção de que minto
sobretudo para mim mesmo.Sendo assim as minhas mentiras
não podem acarretar
na perda de qualquer afeição.E já que é precisamente sobre a falsidade
que se alicerça o convívio entre os homens,
as palavras de mentira ou verdade que eu disser
nada significam de permanente num relacionamento.Mas não posso deixar de convir
que assim fazendo, a cada dia
eu amanheço mais distante de mim.O Acaso das Manhãs
-
Poema #21: Sonho Azul
No barco nu
o pescador sonha
um sonho azul.No barco velho
o pescador ri
num sonho azul.Com a água calma
o pescador viaja
no sonho azul.Ninguém atrapalha,
nada interrompe
o sonho azul.O impulso amoroso
é forte e claro
como o sonho azul.No barco nu
o pescador encontra
o sonho azul. -
Poema #84: A Solidão do Poema
O poema
necessita de um outro
poema
assim como o poeta
necessita
de uma con/vivência poética.
Os versos
não nascem do nada
assim, exclusivamente,
inspiração.
A noite
precede o sopro lírico
e ambos se integram
ao poema acabado.
O poeta,
este ser solitário,
desce das montanhas
de seus sonhos
para recolher os fragmentos
da realidade dos homens,
e com eles constrói no poema
uma unidade hipotética.
O Acaso das Manhãs -
Poema #20: Mar e Voz
O fraco risco frágil
e trêmulo uma voz
uma voz apenas
ruído longínquo e espesso
uma voz
um frasco, risco
murmúrio e sonho
voo largo e concreto da voz
num desencontro imponderável
a pedra a areia o risco
inevitável
voz das brumas
voz das sombras
voz apenas
de tudo o que se podia
tudo o que se queria
tudo que se sonhava
e nada se via
voz apenas
voz de melancolia
mar marulhar marulho
bruma
a escuna no escuro
o som da voz
na voz
foz
inominável voz
trêmula, espessa, rara
inevitável desencontro
voz das sombras
voz apenas
voz das brumas
coisas poucas que se ouvia
e, no entanto, nada havia
mais que a vida
uma via
voz apenas
voz enfraquecida
no ar zoar zunir
a sombra
a figura
o som
na voz uma voz
outra voz
outro ser
longínquo e espesso
e fraco
frágil
desencontro apenas
voz apenas
voz das brumas
voz das sombras
claras espumas
olhos e ondas
nada se via
do tudo que se sentia
no mar que havia -
Poema #83: A Queda
Não digo que estou
no fundo do poço
porque este não é mensurável
e sempre se pode cair mais ainda.
Mas estou numa queda livre
e vertiginosa.
A roupa do passado não me serve,
o presente é roto
e estou sem vestes para o futuro.
E numa queda os laços vão-se rompendo,
se dissolvendo,
desagregando-se.
Nenhum laço segura um homem
que cai por muito tempo.
A dignidade é uma palavra para pessoas de pé.
Na horizontal os conceitos são outros.A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
-
Poema #82: A mim ensinou-me tudo
“… e a monotonia da vida será para mim
como a recordação dos amores
que me não foram advindos,
ou dos triunfos que não haveriam
de ser meus”
Fernando PessoaO pouco que sei,
sei de o não saber,
mas só o de sentir
e nunca poder alcançar.Tudo passou por mim
como as águas de enchente,
mas vi tudo fluir e o vazio
de nada reter nas mãos.Se escrevo é só uma fórmula
de sonhar possibilidades
enormes, como se fossem
passos de uma criança deitada.O Jardim Simultâneo
-
Poema #19: Presente
O presente vivido é quase o infinito…
o presente amado a eternidade incompleta.
Ridícula a angústia, o cansaço tolhido,
começo de caminho, meia-volta discreta…Ansiedade é pequena eternidade no presente,
pedras e esforço inútil, chamado repetitivo.
Tormento, fingimento, ser em estar ausente.
Velho e novo, refundidos, abertos num livro…Os grãos de areia podem ser incontáveis,
mas o mar recolhe um a um, a toda hora.
O resto são espumas, simples brincadeira…Do tempo incerto, mãos postas e flecha ligeira
tangem no pensamento cenas impublicáveis,
pois o que habita hoje, amanhã já não mora… -
Poema #08: o velho tênis nos fios elétricos
só Deus & o Diabo
sabem
o quanto eu caminhei
até chegar
aqui
nesse fim de mundo.
hoje
joguei
meus velhos & gastos
passos
no alto
dos fios elétricos.acendi uma luz no fim do beco.
-
Poema #81: A lua escura
“se soletra L-U-A”
sabe,
há um momento
em que a lua
fica escura.é quando,
a escuridão maior
vinda dos montes
cobre a Rua Fácil.e tudo,
vira um só quadro
negro, uma lousa
fria que antecede
a morte.Da Essencialidade da Água
-
Poema #10: Liturgia do instante
Lento, tudo está lento…
Vejo meus passos firmes, passos soltos
E já não sei mais o que solto, pelo que passo
Se quando firmo, não me atento.Doce, tudo está salvo.
Tampouco o hoje é, sorte.
Se é veneno um tanto, e quanto ao não que houve?
E quando o há? Sabemos?Se o quanto ouço, ou vejo
Fizer mera semelhança ao sentido…
Se por falar em sentir, se exaltar-lhe o tato
For, ainda assim, coisa-fato… não me remeto ao senso de ser simples isto.Existo. Voo.
Plaino sobre a superfície d’areia
Que me recolhe toda a intuição da corrente
Vou contra, sou filho. Soo, assopro, conduzente que não leva, mas vai.Ah, eu deixo isso de saber muito
Para quem não me entende.
Segredo maior não há – no uno verso
Que não lhe enfrente. Talvez, por isso, seguro seja seguir.Saúde!
Um gole lento na palavra
ausente. -
Poema #18: O menino e o pássaro
O pequeno menino olha demoradamente o céu.
O voo de um pássaro branco…excitado,
leve, branco, branco e leve: um estalo.
Alvas penas de um delírio todo seu.Corpo sem brilho é beijo de encontro à terra,
um desespero brusco de última chance.
Molhado pelo sangue o passeio se encerra…
dentre tantos pássaros, quem quer, que cante.Asas se abrem e contorcem no mesmo instante.
Tudo é ferida, escuridão, lágrimas e repete
o menino a dor do pássaro agonizante…Chora compulsivamente pelo gesto estúpido
Quando num triste movimento padece
O pássaro branco, vermelho e mudo. -
Poema #80: A ilha
A ilha com seu silêncio
me comunica a morte
dos seres espectrais
que nela vivem ou já viveram.A ilha cercada por mangues
é um poço de lama e óleo.Os pescadores da ilha
me comunicam o fim
dos pescadores da ilha.Os pescadores da ilha
me apresentam a pesca de um dia,
nada.A ilha com sua morte
me comunica o silêncio
dos seres superiores
que a mataram e matam.A ilha abandonada pelos banhistas
é um deserto de espuma e água.Os frequentadores da ilha
me comunicam o desastre
das praias da ilha.Os frequentadores da ilha
me apresentam o bronzeado de um dia,
petróleo.A ilha com sua sorte
me comunica o crime
dos seres continentais
que seguem impunes.Os pescadores da ilha
me comunicam o fim dos peixes
e voltam tarde para casa.O Acaso das Manhãs
-
Poema #07: Aeroporto
só deus sabe
quantos e quantos aviões
(entre sóis
nuvens
estrelas
& luas)
meus olhos
decolaram voospra só assim
do outro lado do continente
te aterrissar
e ser passageiro de ti
por eternos instantes -
Poema #79: A cor suja
Mil noites de sono
e o abismo intacto
A beleza da árvore
e do peixe
A máscara da maldade
filtrada pelo telefone
O sorriso do triunfo provisório
A dor latente e as pancadas na parede
A pedra que dissolve o leite.A Sentinela em Fuga e Outras Ausências
-
Poema #78: Chuva Noturna
A chuva no asfalto
leva papéis/cigarros
e o vômito de ontem.
Amanhã novos resíduos
virão para preencher
o vazio do meio-fio.
Areia (À Fragmentação da Pedra) -
Poema #09: Exercício para um ausente
Falemos da esperança.
Sim, da velha andança
Da chuvosa lembrança
Onde te sondavas.Vamos, falemos em novidade.
Digamos que vai tudo indo, sim.
Lá fora, diga que, ao todo, te aquietas
Fora tempo de espera. E te lembravas.Este, foi-se?
Não soubera.
Tentaste um rumo, fostes sem manual
Sem estradas, fostes sem-terra.Pois que era um domingo.
E que já não lhe haveria numa segunda
Para mais saudade.
Talvez na quarta.Ai, quem me dera!
Esqueça, pois que já vens tarde.
Tens um brado enxuto, és estrangeiro.
Sobre ti tens a sombra do mundo
Lançado fostes à toda verdade.Sem dizer-lhe qual.
Ao oposto cercaram-te.
Te atraíste. Devias, por te teres vivo, visto.
Trouxeram-no à enseada, despido.
Deram-te, como uma cena, por encerrado.Pôs-te ao que te vinhas falto
Te tens liberto, filho, e não sabes.
Já não vias com teus olhos
Mas creste.Tu lhes enxugava, já secos.
Cegaram-te, a sorrir-te os lábios.
Eras jovem, batido. Podias tudo.
Tinhas em ti a tolice dos sábios.Pelo que vibravam.
Te retirastes.Ataviaste um ponto.
Carregava-te um pensamento
Sob a alta margem.
O dissipaste em luzes.Te deitaste.
Dando-lhe o assopro de toda a vontade
Anseia-me ver-te de novo.
Como quem te anseia, querida, lhe digo
Ah, que saudade.Ainda que a figura mude.
Ainda que o vento mude.
Anseio-te, pois que venhas cedo.Aprendeste, enfim, a dizer.
Fizera um convite.
Escreveu-lhe poesias,
Não deixaste um recado.Te partias.
Pois que tudo o que sabia
Lhe tinha. Sabias nada.
Como bom servo ao coração, lhe obedecera
Assim escrevia, e sonhavas.Ah, que saudade que sentia.
Que te chegues ao meio dia, que venhas.
Que surjas como astro-rei, que ardes
Se por caminhar pela cidade te demores,
Não te apresses, mesmo que te atrases.Também vou-me indo, pois que é dia.
Pois que andei a dizer-me
Te preciso, e quanto mais anseio-te, te avisto
Nestes outros mesmos lugares.Sob a torpe volta deste mundo ocluso
Ainda que vagueie noite sem rumo,
É a você quem procuro
Desejos mil de meus olhares. -
Poema #77: A Aranha e o Sonho
Havia uma aranha lá fora
que tecia sua rede
a despeito da chuva
e do desânimo dos homens.Era uma aranha
que tecia a sua rede fora do mundo,
e eu miseravelmente preso a ele
perdia-me em conjeturas sobre o amor
e sobre um livro que acabara de ler.O Acaso das Manhãs
-
Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?
Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!
Para que a pressa?
se preciso, eu, mais que vitaminas,
do alimento para o viço que… reflete-me,
[interna] e inteiramente?
Que eu possa deleitar-me com o calor azul
da caligrafia inexistente no papel que cheira a delírioEis-me inteira,
num instante errante,
naufragada no suor de
não pertencer.
Cá estou.Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro.
Bate-me o peito em um não positivo.
Eis me aqui. Intacta.
Tempo, tempo…
por que não fica para o café?
Uma xícara, a água borbulha sobre o fogo…
Fique, tempo! Me aceite.Tempo, tempo, tempo…
passe logo, passe aqui, mas com alma!
Que nossas pegadas sejam uma,
ao sabor do que se apaga
ao espreguiçar das ondas sobre a areia
ao primeiro raio de solFique.
faça de mim sua, senz’altro.
Te espero
Tempo, tempo… -
Poema #06: olhar-eclipse
tivemos um olhar-eclipse
após
anos
e
anosfoi tão lindo
que até os deuses
pararam pra vere foi assim
mais
uma
vezaté o sol dos seus castanhos partir
para um canto
e restar
somente
essa lua
minguante
no céu
da solidão -
Poema #76: “141 A”
Sequência final
numa casa de 24 m²
com vista de frente
para um beco lateral.
O piso era grosso
antes de eu assimilá-lo,
mas como a vida
permaneceu em
desalinho eu adormeci
deitado de lado e tombado
em lençóis queimados
no espaço entre as camas.
Com uma aliança invisível
na mão direita e um cheiro
forte de esgoto vindo do banheiro.
E pensar que havia promessas
veladas feitas a mim mesmo
no escuro de uma vida desfalcada.
Pinturas metálicas malfeitas
no fundo de um espelho manchado
e de brilho opaco.Uma Escada que Deságua no Silêncio
-
Poema #04: Motivo
( A Cecília)
Antes que chegue o dia da mudez,
Cantemos!
Cantemos elegias
Cantemos heavy
Cantemos baladas
Cantemos !
Que em nós haja uma eterna canção
Indescritivelmente bela,
Inevitavelmente original
Por sermos, cada um de nós,
a própria melodia,
a harmonia curativa
No desconcerto do mundo. -
Poema #08: Alteridade
Este que vos premedita
Devia dizer-lhes algo
Mas o profundo que é o sereno
Mais errôneo que o acaso tornou-seEntão dizes ao papel:
Das tuas palavras fizestes
De pouco caso;
Que se bastasse um punhado
‘Inda que só coubesse o que lhe atava.Sonoridade tal das águas já lhes assoavam
Os cascos empoeirados da vigília
E tu sonhastes teu atraso…O não que dizes é certeiro
Ressoa pra longe, bem longe se estende.
Caronas apanhas; onde te encontras?
Ao retorno te encostas
De onde trazes teu perdão e tua luta.A complacência sempre ouve teu discurso
E a vergonha nunca toma tua teima.
É que de verdade, amigo, lhe juro
Veneno bom fizestes, em fatos,
Contigo ninguém pode;
Comigo, jamais pude.