Poesias de 1 a 99

Poema #68: Sobrevivência no quarto

I
Tenho comigo
milhões de cadáveres
que apodrecem seus ossos
já destituídos do ímpeto
que movimenta os homens vivos
para a conquista de algo.

II
Tenho comigo
a inércia do corpo
que aniquila o meu sonho
já despojado da vida
que antes impedia o plano
de me alimentar desses ossos.

III
O que sou hoje é esta certeza
de não ser senão em mim.
O que sou hoje é este impulso
em preservar o que já está desfeito.
O que sou hoje é esta incapacidade
de desempenhar papel no mundo.
O que sou hoje é esta vontade
de antecipar meu próprio fim.

IV
Trago comigo
as sombras e o peso dos erros
acumulados nos anos de solidão
em que tentei construir algo
que estava fora de meu alcance precário
e mesmo que se acaso construído em silêncio
não teria nenhum valor para os homens.

V
Trago comigo
a síntese de um desprezo lógico
por essa espécie miserável de animais
que se arrasta numa fixidez sem sentido
pensando que com suas obras erigidas no espaço
poderão significar alguma coisa humana no tempo.

O Acaso das Manhãs

Milton Rezende

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, reside em Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados, quatro e-books e tem um blog e um site. Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015). www.miltoncarlosrezende.com.br / estantedopoetaedoescritor.blogspot.com

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