Poema #68: Sobrevivência no quarto

  • Poema #68: Sobrevivência no quarto

    I
    Tenho comigo
    milhões de cadáveres
    que apodrecem seus ossos
    já destituídos do ímpeto
    que movimenta os homens vivos
    para a conquista de algo.

    II
    Tenho comigo
    a inércia do corpo
    que aniquila o meu sonho
    já despojado da vida
    que antes impedia o plano
    de me alimentar desses ossos.

    III
    O que sou hoje é esta certeza
    de não ser senão em mim.
    O que sou hoje é este impulso
    em preservar o que já está desfeito.
    O que sou hoje é esta incapacidade
    de desempenhar papel no mundo.
    O que sou hoje é esta vontade
    de antecipar meu próprio fim.

    IV
    Trago comigo
    as sombras e o peso dos erros
    acumulados nos anos de solidão
    em que tentei construir algo
    que estava fora de meu alcance precário
    e mesmo que se acaso construído em silêncio
    não teria nenhum valor para os homens.

    V
    Trago comigo
    a síntese de um desprezo lógico
    por essa espécie miserável de animais
    que se arrasta numa fixidez sem sentido
    pensando que com suas obras erigidas no espaço
    poderão significar alguma coisa humana no tempo.

    O Acaso das Manhãs

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