Crônicas

Se eu me perder

O silêncio cresceu com a sombra mais densa. Então, os fones acenderam as lâmpadas incandescentes da plataforma, que pousava, num instante eterno, sobre a água. Era um simples trajeto de retorno à casa: sobre rodas que não tinha controle, observava o horizonte em que nada tinha fim, tampouco início. De repente, uma centelha flutuou acima, no compasso de seu coração. 

Itália.

Fevereiro.

Março.

Aquele abraço…

Um simples caso de sorte genuína“, alguém disse.

Sorte como híbrido entre sortilégio e providência; qual linguagem explica o que está diante dos olhos? O veículo estremece. Qualquer um percebe.

O passar balança o assento; fora, o ritmo é outro. E então o tempo aniquila-se e desrelativiza anos em décadas, gerações em séculos. “Faça um pedido e levante os pés ao passar sobre trilhos de trem“, ouviu dizer.  Atenção ao trecho da rodovia que marca o passado na alma das cargas cheias de fumaça em sintonia constante às despedidas. Despir-se em idas. Voltar, outro.

Faça um pedido“. Hoje. De novo. O mesmo pedido. Sempre.

Predestinação como resposta a um chamado interno, lançado através das partículas desprendidas da luz de estrelas silenciadas.

Um brilho cego. Partes que não são os pedaços de um todo, mas o próprio todo. Trechos intermináveis reconhecendo-se pelo caminhar. A boa e desejada sina, lapidada através dos sussurros internos. Nenhum sussurro passa incólume pelo universo.

Ali, à sorte das rodas que a levavam de volta para casa, estava o que já havia chegado:

duas pequenas marcas, dois pólos de uma só coisa, duas pintas. Marcas de nascença, tomadas de dois pinos espalhadas em corpos-

espelho. Baco e Eros na certa apostaram alguma deliciosa ousadia, arremessando as marcas ao tabuleiro da Terra:

Ache-o-par“, decretou Baco, erguendo mais uma taça de vinho tinto. 

Mas o sabor era de um negroni sbagliato.

As pintas reconheceram-se primeiro: eram dois pontos. No achar, perder-se . . Não mover-se: ninguém se move de si. 

Escreveu-me, nesta manhã, o vidente e anti-cético Instagram:

If I get lost, return me to Italy.”

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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