Crônicas

Colóquio – simples e grandioso demais – de um café da manhã domingueiro

— Eu queria tomar um café com alguém que parecia um livro interessante, mas dormi antes de chegar ao primeiro capítulo — disse Clara, mexendo o café fumegante, como que procurando um tête-à-tête com a leitura da borra, submersa, no fundo da xícara.

Joaquim não ergueu os olhos do caderno.

— Isso soa como frase de alguém cansada.

— É exatamente isso.

— Não. Parece uma frase de alguém que está tentando transformar cansaço em teoria.

Ela riu.

— Ainda me surpreendo com esse seu super poder de ler minha mente, gêmeo insuportável.

— Eu conheço o começo da crônica antes de você.

Ela levou a xícara aos lábios e fez uma pausa. Do lado de fora, mesmo sendo domingo, a cidade seguia seu costume de correr para algum lugar urgente: pneus arrastavam-se pelo asfalto da avenida. Portões metálicos recolhiam-se como quem se espreguiça. Portas batiam, entre o abrir e o fechar. Cachorros latiam. Alguém discutia ao telefone nalguma varanda vizinha. Aos fundos, os Dois Irmãos permaneciam imóveis, como fazem as montanhas e os irmãos que já disseram tudo um ao outro. Entre os de pedra e os de carne – estes, gêmeos -, a primeira manhã de inverno seguia seu curso quando Clara quebrou o ruído branco à mesa.

— Outro dia li que existem milhões de brasileiros solteiros.

— 81 milhões, segundo o Instagram. E, claro, você resolveu investigar.

— Resolvi pensar.

— O que é ainda pior.

Ela ignorou a interrupção.

— E me ocorreu que talvez boa parte dessas pessoas – nós, inclusive – não esteja solteira por falta de amor.

— Mas?

— Deduzi que estamos todos exaustos.

Ele finalmente levantou os olhos.

— Ah.

— Ah?

— Agora chegamos à crônica.

Ela apoiou os cotovelos na mesa.

— Trabalhamos demais. Sonhamos demais. Pagamos boletos demais. Focamos em construir carreiras pensando nas aposentadorias de um mundo com regime CLT em extinção… Estamos sempre falando de projetos, empresas, casas, versões melhores de nós mesmos… E, quando encontramos alguém interessante…

— Dormimos.

— Exatamente.

— Isso é quase ofensivamente contemporâneo.

Ela sorriu.

— Você está dizendo que o desencontro de hoje em dia não é geográfico?

— Não, Joca… se fosse isso, a internet já teria resolvido.

— Tampouco cronológico?

— Ah-ãh — Clara complementa a fala com o dedo indicador em riste, de um lado para o outro.

— Então..?

Ela apontou para a própria xícara.

— Energético.

Ele riu.

— Essa palavra vai irritar metade dos seus leitores.

— E a outra metade vai se sentir representada. E brindar com o café. – E erguendo a xícara para o irmão, disse:

— Tim-tim!

Ficaram em silêncio por alguns segundos.

— Então o café não aconteceu.

Ela o encarou.

— Como você sabe?

— Porque, quando acontece, você não escreve sobre ele.

Ela tentou conter o sorriso.

— Talvez.

— Parecia interessante?

— Parecia um livro interessante.

— E?

— Dormi antes do primeiro capítulo.

— Isso realmente não é lá muito você.

— É, pois é.

Ela largou a lapiseira sobre a mesa.

— E o pior: nem foi desinteresse. Foi apenas exaustão. A semana foi intensa, quase não consegui dormir. Imagine a pessoa aqui — apontou para si mesma — trocando um café por um travesseiro, sem qualquer heroísmo…

— Escandaloso.

— Eu achei.

Ele voltou a rabiscar.

— Então essa crônica é sobre homens?

— Curiosamente, não.

— Claro que não.

— Como assim, claro que não?

— Porque você nunca escreve sobre homens quando diz que está escrevendo sobre homens.

Ela cruzou os braços.

— E sobre o que estou escrevendo?

— Ainda não sei.

— Plantas.

Ele assentiu, como se já soubesse.

— Faz sentido.

— Ah, é?

— Você comprou um girassol, uma gelosia e uma ficus na semana passada…

— E?

— E já transformou todas em personagens.

Ela fingiu indignação.

— Das três, apenas a de folhas grossas e tronco mais vigoroso parece sobreviver ao meu ritmo.

— A Magda.

— A própria.

O silêncio voltou a ocupar a mesa.

— Então essa é a metáfora? — perguntou ele.

— Quem sabe…

Ela observou a espuma que resistia na borda da xícara.

— As plantas que exigem presença constante sofrem comigo. Água na hora certa. Sol na hora certa. Atenção na hora certa.

— E os homens?

— Talvez padeçam pelo mesmo motivo. Mas homens não são plantas. Convenhamos.

Ele terminou de escrever alguma coisa numa folha do caderno e a arrancou. Empurrou o papel para o outro lado da mesa.

“Não julgamos os livros pela capa; às vezes só
chegamos cansados demais ao primeiro capítulo.”

Clara sorriu. Lá fora, a cidade continuava correndo. Ali dentro, entre duas xícaras de café e um punhado de folhas rabiscadas, surgia uma descoberta simples e grandiosa demais, partilhada entre duas mentes da mesma safra, para um domingo comum:

Bem provável que o amor contemporâneo não esteja morrendo. Provável — muito provável — que estejamos, todos, apenas frustrados demais com tamanha falta de agenda.

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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