Crônicas

“digitando… ”

|

Um traço vertical. Pisca, pensativo, opressivo; poético.

Acho que assim, quase girando o travessão introdutório, na busca pela correspondência de (um) outro, nos injetamos, como tentativa científica, numa releitura d’um passado literário:

Trocamos cartas, quase como que acendendo um cigarro à mesa de um café de iluminação lúgubre, jazz no fundo, um barman meio ranzinza a enxugar louças e vidros, solitário.

Uísque.

Na única mesa redonda ocupada, um casal.
Casal de poetas conhecendo-se.
Flertando com a rima que enxerga o narrativo; o tom, e não a beleza do outro.
Há ausência do encontro.
Há frequência do oposto.

Um traço vertical.

|


De repente, a linha imperativa deita-se

_

Desmancha-se em circunferências pululantes. Três.

Reticências

Duas pessoas podem, paradoxalmente, preencher xícaras fumegantes à distância. Dedilhar acordes. Entoar palavras baixinho costurando o tempo e qualquer afastamento.

Encontramo-nos

justos, apertados, acariciados e no não-existir-e-esperar de uma tela iluminada ao alcance das mãos

Dedos que abraçam uma caneta esferográfica: reflito.

Na mão que me rotula destra ou canhota, dedos avançam na comunicação do meu corpo estrutura emocional e sensorial que não mais espera e esperneia para além tudo instantaneamente.

Na margem branca entre uma caneta e outra

no pulsar ritmado de um cursor em linha rígida, ditam e de gélido recado – cheia
de nuvens – do outro lado da interface, espera

“digitando… ”

hesitação
o quase
o inteiro no “pronto.., foi ”

Digitando a paga -se an tes da palavra,

Ganhou forma na perda de seu sentido

A carta incendeia ainda no ventre da máquina.

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Desative para continuar