Crônicas

Quando duas palavras resolvem morar juntas

“Sentipensante” — A primeira vez que li, acho que num texto relacionado à física quântica (o que só piorou a situação), achei que era um erro de digitação. Fiquei curiosa tentando decifrar o significado dessa estranha palavra, para mim meio parecida com CatDog (lembram do seriado?) ou de uma aberração ainda maior: o Feijoaçaí. Só de pensar, me embrulha o estômago.

Corajosa que sou, fui em frente na leitura e descobri que “sentipensante” é uma palavra híbrida, dessas que misturam o frio da cabeça com o calor do peito, sem pedir licença para nenhuma das duas. Lindo isso, não? Fiquei íntima dela e agora, quando alguém questiona uma decisão minha que briga com a razão ou com a emoção, eu logo retruco: sou Sentipensante e coloco um ponto final.

Logo imaginei que “Sentipensante” poderia ter vários amigos híbridos — quem sabe até formassem um grupinho nas redes sociais, daqueles discretos, mas cheios de opinião.

Fui atrás e descobri a Escrevivência, boa para um papo longo de botequim. Lá nos sentamos, e ela me lembrou de que não existe escrita sem vivência — queijo com goiabada: um não existe sem o outro. O que estava eu fazendo, então, que não entrava a fundo na minha vida vivida para colocar no papel?

Comecei, então, a rebobinar a meu passado, à procura daquele negativo nunca revelado que ficara na minha câmara escura, sem nunca participar do set da minha escrita.

Mas aí a Experipensante, que observava o papo de outra mesa, se meteu: alto lá! Não se pensa antes para depois viver, pensa-se vivendo. Então corre lá viver isso tudo que brotou aqui. E eu, sem pedir licença — e talvez um pouco empolgada demais — inaugurei uma outra palavra: Expersentipensante. Até sorri da minha ousadia. Só faltava colocá-la em prática.

Resumo da ópera: a língua inventa palavras porque a vida não cabe mais no dicionário. Aí surgem palavras híbridas que, como na vida, decidem morar juntas — mesmo que o dicionário torça o nariz.

Ana Helena Reis

Ana Helena Reis é paulistana, pesquisadora e empresária, com extensa produção de textos acadêmicos. Em 2019 começou a se dedicar à escrita literária e à ilustração de seus textos em prosa: contos, crônicas e resenhas, relacionados a fatos e situações do cotidiano. Publica em seu blog, Pincel de Crônicas, em coletâneas, e revistas eletrônicas. Em 2024 lançou seu primeiro livro solo, Conto ou não conto, pela editora Paraquedas/Claraboia, e, em Espanhol, Inquietudes Crónicas, pela editora Caravana/Caburé.

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