Outro dia fiquei alarmada com a possibilidade de ficar demente a ponto de não reconhecer mais quem sou. Pensei: vou escrever para mim mesma. Um diário, talvez possa ajudar a resgatar a minha identidade. Um fio de esperança porque não há garantia de que tal leitura venha a me atrair no futuro: recordar o passado pode nem interessar a essa outra pessoa em que eu terei me transformado.
Melhor deixar para lá. Afinal, mais cedo ou mais tarde, vamos desaparecer como todos os nossos antepassados, tanta gente que nos precedeu e a quem devemos tanto, mas que já perdemos de vista. Quase nada deles chega até nós, e a maioria do que chega vem como histórias repetidas ao longo de gerações em que verdades e invenções andam lado a lado.
Só vamos em geral até aos avós, quando muito aos bisavós. Fazemos árvores genealógicas com nomes e datas, mas ninguém sabe quem realmente foi Maria, como pensava, se foi feliz, qual a sua cor predileta, se gostava de feijão.
Viraremos cinzas. Talvez por isso insistamos em deixar uma marca para a posteridade. Alguns conseguem, nem todos por boas razões. A posteridade é um ente imaginário e real que habita um futuro que não viveremos. Uma quimera que perseguimos e que, como disse o Groucho Marx, nunca fez nada por nós. Ainda assim a desejamos, vá entender. Acho que essa contradição está no cerne do medo que temos de perder a nossa pouca importante individualidade.
Quando menina tive um diário. Reli e não vi nada de interessante. Eu já fui aquela pessoa, ainda sou, mas também não. Será o mesmo se escrever um novo. Deixar a vida seguir talvez seja o melhor caminho, a demência é mais problema dos outros do que do demente em si. Pode até ser menos doloroso, quem sabe?