CRÔNICA DE DOMINGO

  • O alfinete

    Fátima sentou-se ao pé da cama da pequena Pérola. A penumbra do quarto, o perfume de lavanda dos cachos recém-lavados e o calor que subia do corpinho sob o edredom florido a envolviam num torpor doce. Era seu momento preferido — quando tudo se calava, menos o amor.

    O tilintar de louça na cozinha a trouxe de volta. A dor reapareceu — fina, precisa, como a ponta de um alfinete invisível, cravado em algum lugar que não sabia nomear.

    Olhou mais uma vez para a filha, que ressonava baixo, e desceu.

    Cândido a esperava com a mesa posta e o mesmo sorriso tranquilo. Um homem de gestos simples, de amor constante. Às vezes, ela invejava a facilidade com que ele atravessava as coisas.

    Falaram do dia. Da escola. Do tempo. Das contas. E, por fim, de Pérola.

    Fátima comentou da festa de São João na escolinha. Disse que já estava tudo pronto: pés de moleque, cocada cremosa, pipoca caramelada.

    — E o vestido? — ele perguntou.

    Ela trouxe dois vestidos iguais, azul-claro, lisos.

    — Não era xadrez? — ele estranhou.

    A fisgada.

    — Xadrez de chita, Cândido? Não… — hesitou — assim é melhor. Mais discreto.

    Ele sustentou o olhar por um instante, como quem procura alguma coisa, mas não insiste. Depois cedeu, em silêncio.

    Mais tarde, Fátima foi para o terraço. A lua cheia clareava o quintal.

    Pensou no hospital, nos papéis assinados, na primeira vez em que segurou Pérola. Pequena, quente, os olhos escuros, os fios ralos. Amor imediato. Sem dúvida.

    Com o tempo, vieram os olhares.

    Nos parques. Nas lojas. Nas festas.

    Vieram as perguntas que sorriam antes de ferir.

    — É sua mesmo?

    — Que mistura linda…

    — Puxou a quem?

    E, com elas, algo começou a se deslocar.

    Pérola crescia. O cabelo ganhava volume. Os cachos se fechavam. A pele escurecia.

    Fátima começou a desejar — e odiou-se por isso — que ninguém reparasse.

    Passou a ajustar pequenas coisas. O tempo de sol. Os penteados. As roupas.

    O alfinete.

    Chamaram-na de dentro.

    Pérola estava em pé no berço, um brinquedo na mão, os olhos ainda pesados de sono.

    — Mamãe, posso ir com o cabelo solto amanhã? Igual o da Laurinha?

    Fátima hesitou. Laurinha — Cabelo cheio, solto, laços coloridos.

    — Melhor preso, filha… — disse, evitando o próprio reflexo no espelho — fica mais arrumado.

    A menina assentiu, devagar. Deitou-se.

    O alfinete.

    Na sala, Cândido folheava um álbum.

    — Lembra? — disse, mostrando a foto.

    Os três. O começo. O sorriso inteiro.

    Fátima sentou-se ao lado dele. Não disse nada. Chorou em silêncio. Ele também não perguntou. Apenas a envolveu.

    Na manhã seguinte, Pérola foi à festa com o cabelo solto, preso aqui e ali por pequenos laços azuis.

    O vestido era o mesmo.

    Mas sem o alfinete

  • Esquisito íntimo

    Esquisito:

    Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels preto e branco dançantes. Uma quase hipnose.

    Quando não sabemos o significado de certas palavras, é fácil abstrair-nos de seus valores agregados e nos prendermos aos seus odores.

    Esquisito quase fede.

    Esquisito, em si, é um quase. É preconceito, em primeira instância. Algo que, à primeira vista — ou ao primeiro ouvido — soa ruim. Pode, entretanto, o esquisito ser apenas diferente; e o diferente é condição sine qua non para sairmos de nossos rótulos e padrões, muitas vezes nem sequer nossos.

    Esquisito, no final das contas, sempre é bom.

    Como é boa toda primeira vez — depois que vira memória.

    A primeira vez é esquisita por ser território novo: gotas de suor descendo pelas têmporas, respiração em ritmo de taquicardia, suspensão do tempo que, congelado, torna-se projeto à luz da recordação.

    Esquisita e sempre inesquecível: a primeira vez que saímos sozinhos, a primeira escolinha; o primeiro beijo, o primeiro emprego — e, consequentemente, o primeiro salário —, a primeira briga, a morte de um ente querido. Sentir-se só após um divórcio, a viúvez, a perda do próprio chão. A primeira medalha. A primeira vez que se faz algo errado, a primeira gota de álcool.

    E há também a primeira vez da primeira vez — aquela que inaugura o próprio corpo: a perda da virgindade, quando descobrimos que o amor, o medo, a curiosidade e a coragem podem caber todos no mesmo instante.

    O primeiro amor. Conhecer a família do namorado ou da namorada. A primeira vez que alguém sai do armário. O primeiro ato de liberdade. O primeiro “eu te amo” que alguém lhe diz sem ser família. A primeira vez que você vê o mar.

    Sempre é esquisito. Sempre um território novo. Sempre transformador — sensação sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz.

    A primeira vez é um vocábulo inquieto: dito depressa, parece o chiado das TVs antigas que saíam do ar e enchiam a tela de pixels preto e branco dançantes.

    A primeira vez é sempre hipnose.

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