Crônicas

INCONVENIÊNCIAS

Um homem para no posto de gasolina e entra na loja de conveniências para comprar cigarros. A menina que o atende chama atenção. É loura, bonita e tem um sorriso angelical. Ele olha para o crachá: Claudette. Tenta puxar assunto.

— Não nos conhecemos de algum lugar?

— Acho difícil.

— Difícil, por quê?

— Eu me lembraria de você.

— É?

— É.

— Sou tão notável assim?

— Ô…

— Você também chama a atenção, de tão bonita.

— Preferia que não.

— Por timidez?

— Por conveniência mesmo.

— Não entendi.

— Não estamos numa loja de conveniências, então…

— Você tem ótimo humor, Claudette.

— Como você sabe meu nome?

— No crachá. Claudette com dois “t”.

— Ah, é mesmo, tinha esquecido…

— Claudette, bonito nome. Vem cá, que horas você sai do serviço?

— Pra que quer saber?

— Queria te convidar para uma cervejinha.

— Não costumo beber com estranhos.

— Posso me apresentar a você.

— Estou falando de caras estranhos, esquisitos.

— Como você é difícil, Claudette.

— Só não gosto de enrolação.

— Como assim?

— Você está a fim de me comer, né?

O hom em faz cara de espanto. Olha ao redor para se certificar de que ninguém está ouvindo. A loja está vazia. Melhor assim.

— Se quer me comer, por que não fala logo?

— Papo reto, Claudette?

— Isso, não curto enrolação.

— Ok. Quero te comer, sim.

— E quem disse que eu quero?

— Mas não foi você quem propôs?

— O fato de propor não quer dizer que estou a fim.

— E você está a fim, Claudette?

— Sei lá, nem te conheço direito.

— Foi você que disse que a gente tem de ser direto.

— Sou assim. Mudo rápido de opinião.

— O que você sugere, então?

— Não sei, acho que tem de rolar uma conexão primeiro.

— Ok. Podemos tentar. Vem cá, Claudette, nós não nos conhecemos de algum lugar?

Márcio Paschoal

Marcio Paschoal nasceu no Rio de Janeiro, onde também se formou em Economia. Escritor e redator de longa estrada, construiu uma obra diversa, com mais de dez livros publicados entre romances, crônicas, ensaios e literatura infantil. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas, no Cederj (Centro de Ensino Universitário a Distância), e colaborou com o Jornal do Brasil, escrevendo sobre música e literatura. Entre seus romances estão Sofá branco — menção honrosa no Prêmio Graciliano Ramos e pré-selecionado para o Prêmio Nestlé de Literatura —, além de Odara e Os atalhos de Samanta. No campo do humor, publicou Cada louco com sua mania, ilustrado por Jaguar, e o Horóscopo sexual para praticantes. Também é autor de A morte tem final feliz e do livro de crônicas A maconha está bêbada. Na literatura infantil, escreveu O livro maluco e a caneta sem tinta. É ainda autor das biografias do compositor maranhense João do Vale, da atriz e travesti Rogéria e do romance biográfico João Antônio e os Bee Gees.

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