Domingo

  • Duas sessões: um respiro, apesar de # e @

    Quanto mais Inteligência Artificial, maior a cobrança por performance, por entrega, por prazos que já deixaram de ser humanos. O mundo segue tendo seus ciclos — noite e dia, dias que viram semanas, semanas que viram meses — e, num piscar de olhos, os anos passam. A urgência urge.

    Respirar é um ato de vida: ar que entra, ar que sai — e, nesse intervalo mínimo, quase imperceptível, algo em nós se reorganiza. Quem já parou para meditar sabe: criamos espaço.

    Sem esgotar nenhuma reserva biológica, sem aumentar a pegada de carbono — apenas respirando c-o-n-s-c-i-e-n-t-e-m-e-n-t-e… Pensar que passamos a vida tentando criar espaços no mundo — eu, literalmente, como arquiteta e urbanista — enquanto esquecemos que o primeiro espaço possível é, simples e essencialmente, o que cabe entre uma respiração e outra.

    Presença.

    Meio óbvio, né.

    Infelizmente, não.

    Não se trata da presença velada que registramos aos quatro cantos cibernéticos, marcando arrobas e hashtags sem fim. Presença mesmo. Analogissíssima.

    A nossa conosco | A nossa com o outro |
    Com os outros.

    Nada de conversinhas solitárias mediadas por telas brilhantes.

    Tive o privilégio de perceber isso ontem, sábado. Do fundo de uma sala lotada, com visão panorâmica do público e dos comandos de som e iluminação – ainda fui a responsável pelo soar das campainhas.

    Reestreamos nossa curta temporada de “Sem verba, com drama”, na Usina Cultural Energisa, em Nova Friburgo. Segunda temporada, com uma única sessão prevista.

    Prevista.

    A gente sempre acha que teatro não vai lotar. A minha cidade – celeiro de artistas, reconhecido mundo afora – ainda tropeça numa carência básica brasileira: falta formação de plateia. Daí, pelo receio de não lotarmos um teatro de apenas 100 lugares, o elenco começou a pedir confirmações de amigos, amores (que, compulsoriamente tornaram-se parte da equipe) e parentes. Eu fiz o mesmo. Se cada um garantisse alguns poucos espectadores, alcançaríamos uma base mínima. Quando redigimos a lista final, para deixar na bilheteria, percebi, entre o êxtase e o desespero, que já não havia mais lugares disponíveis.

    — Buuuum! Conflito interno!

    (A vida imita a arte ou é a arte que imita a vida? Essa fala é do roteiro e explica todo o nosso dilema).

    Na entrada, Felipe, o guardião das chaves da Usina Cultural, me informa novamente que, desde o dia anterior, pessoas perguntam pelos ingressos…

    Como receber o público orgânico sem espaço?

    Liguei para a diretora da Usina e pedi, quase sem jeito, mas introduzindo que era uma questão maravilhosamente boa e… talvez nem tanto assim…., a necessária possibilidade de abertura de uma sessão extra, logo em seguida.

    — Problema bom de resolver — ela me respondeu — Me dê uns minutos.

    Avisei o elenco:

    — Provável que tenhamos duas sessões! — abri a cortina da coxia/ camarim e soltei a bomba, assim, sem prepará-los.

    (Ser positiva, firme e aumentar as borboletas no estômago dos atores é o grilhão dos diretores de teatro). Os atores, notoriamente, foram à loucura. Frenesi e dor de barriga: combinação perigosa para uma estreia.

    Deem seu jeito com o emocional, complementei. Viver de arte no Brasil é isso: sem verba, com drama — e sem o luxo de perder oportunidades.

    Deu certo.

    Entre um baby liss e uma passada de rímel, uma outra de texto, pára tudo para novas chamadas com o breaking news para as redes sociais:

    “Nem liberamos os ingressos ainda… e já lotamos! Notícia fresquinha: temos mais uma sessão!”

    Holofotes, microfones, impostação de vozes, movimentação mantendo o equilíbrio do palco.

    Risadas… muitas.
    Crianças no colo, um mar de gente esperando.
    Gente se encontrando.

    Recepcionar o público, desejar bom espetáculo, subir ao palco e dar boas vindas com uma claquete em punho, dar uns informes e já arrancar umas gargalhadinhas humildes me fez perceber que todo mundo ali estava… presente.

    Sem o celular roubando completamente a atenção, e apesar deles, porque não são outro que próteses em nós, a produção (concentrada momentaneamente na minha pessoa, também — ser multifunção é também premissa de quem faz teatro) liberou o uso dos aparelhos, em modo silencioso e sem flash, desde que usassem os QR codes espalhados por todos os assentos para marcar a rede social do espetáculo.

    Silêncio e gargalhadas. Olhares atentos. Todos respirávamos juntos.

    Durante cinquenta minutos, três atores seguraram duas plateias inteiras. Poderiam estar em qualquer outro lugar — num evento de cerveja, que acontecia ali pertinho, num bar, em casa. Mas escolheram estar ali. Se arrumaram
    para estar ali.
    Assistindo.
    Vivendo.

    Uma criança de dois anos e meio chorou na cena final, enquanto os atores esgoelavam-se aos prantos e berros, exagerada e cômicamente, por serem despejados.

    Talvez o teatro ainda seja uma das formas mais bonitas de ir contra a corrente de um mundo que anda apressado demais para perceber que O₂ não é pauta.

    É vida.

    Infelizmente, e só de vez em quando, a gente lembra.

    Na fila de entrada. Na saída. No riso compartilhado com desconhecidos. No olhar que encontra outro olhar – talvez pela primeira vez em uma semana inteira observando telas.

    Pequenos gestos, desses que quase passam despercebidos, ainda nos provam que as -pessoas seguem sendo pessoas, não meros
    ecos silenciosos da tecnologia.

    Ainda respiramos
    Ainda nos emocionamos.
    Ainda nos deixamos sentir, refletir e sorrir.

    “Só a arte salva”, dizem.
    Talvez nem tanto; apenas o suficiente.
    De quando em quando, é o teatro que nos
    mantém na humanidade.

    Termino com uma frase que li e se entranhou pelas minhas veias, nos primórdios de 2007, na parede do SATED-RJ, quando, fui tirar meu registro de atriz.

    “Tratai bem os atores, pois eles são a crônica e o breve resumo dos tempos”.

    Shakespeare. Sempre atual.

    A arte é esse emaranhado bonito que insiste em nos lembrar de quem somos.

    Respiremos.

    E viva o teatro!

  • Vigília

    O relógio marcava três da manhã. Maria Augusta se revira na cama pela enésima vez. Maldita insônia. Olha agora o teto do quarto e procura entender por que não dormia. Luzes apagadas, silêncio, tinha acordado cedo, sentia-se cansada, mas o infeliz do sono não vinha.

    Havia contado ovelhas que pulavam uma cerca invisível. Desistiu quando elas começaram a querer dançar uma rumba em vez de saltar. Devia estar ficando louca ou as ovelhas mancomunadas com sua insônia.

    Trabalhara o dia todo no escritório, lidando com prazos impossíveis e um chefe boçal. O jantar leve, filé de frango e salada. Dez da noite desligou a tevê e silenciou o celular. Antes de deitar, um chá de camomila para garantir. Maria Augusta era contra remédios tarja preta. Temia a dependência. Já era dependente de tanta coisa….

    No meio da cama, de olhos abertos acostumados à escuridão da noite, revivia erros do passado: aquela briga com a amiga anos atrás, o projeto que dera errado. As sombras nas paredes ganhavam vida e transformavam-se em monstros de arrependimentos.

    Cogitou mudar seu nome de Maria Augusta para Maria Sônia. Insônia. Sorriu do seu senso de humor fora de hora. Mais apropriado seria chorar…

    Levantou-se para ir ao banheiro, pés frios no piso gelado. Fez xixi, e nem estava com tanta vontade. Foi até a sala, olhou pela janela. Teve a sensação de que a cidade inteira dormia. Uma quietude perturbadora. Respirou fundo, focando no ar que entrava e saía dos pulmões. Podia ser imaginação, mas pareceu ouvir um ronco ritmado vindo de algum apartamento vizinho. Morreu de inveja.

    Saiu da janela, foi até a cozinha e preparou um copo de leite morno. Dizem que acalma e faz dormir melhor. Para ela o efeito foi contrário: sentiu-se como se estivesse pronta para uma maratona.

    De volta à cama, deitou-se. Ligou o abajur e pensou em pegar um livro. Que não fosse um romance. Vai que se animava com a leitura e passava o resto da noite lendo. Melhor um de contos. Escolheu um antigo do Dalton Trevisan. No segundo conto, pareceu pressentir o sono querendo chegar. Ligeiro, desligou o abajur. Alguns minutos e, ao longe, começou a ouvir um som estranho, alguma coisa que se assemelhava a um ritmo repetitivo. Batuques. Um desventurado acabara de colocar um funk àquela hora. Acendeu a luz e olhou no relógio: quatro e meia da manhã. Não quis acreditar. Pensou em reclamar, ligar para a portaria. Mas desistiu. Apagou a luz, deitou-se novamente e colou o travesseiro nos ouvidos, mas o som parecia se infiltrar e crescer. Aquilo não podia estar acontecendo. Devia ser um complô organizado para impedi-la de dormir. O pior – se ainda pudesse haver um pior – em sua mente raivosa, agora Maria Augusta via ovelhas que dançavam ao ritmo do batidão.

  • O corpo de palavras

    O corpo de palavras é o poema e o conto e a crônica e o romance.

    O corpo de palavras. A palavra serpenteia, ondeia, se insinua e, nua, causa alvoroço no poeta, no romancista, enfim…

    A palavra e o corpo. O corpo de palavras por si só basta. E afasta.

    E afasta as coisas e o mundo e a realidade. Pensa ser real. Quer se aproximar do real. Mas não é. É corpo.

    Corpo de palavras que se fazem e se desfazem e se querem e se afastam.

    E afasta.

    E por si só bastam. Basta a palavra.

    O corpo de palavras é o ruído e a canção antiga e o bolso furado e o vento e a tempestade e o mar. As ondas e o mar e a palavra. As palavras. O corpo de palavras. O corpo apenas: só, mudo, nu, translúcido…

    E os dedos que se manifestam no momento da escrita seguram forte a pena e colorem, descrevem, enriquecem, dão forma a um mundo.

    Eu sou um corpo de palavras.

    Eu sou um mar de palavras. Eu sou um céu de palavras.

    E escrevo em mim e navego em mim e voo em mim. Uma escrita inteira, uma viagem entre os vagalhões e um risco no ar.

    O corpo de palavras basta e afasta e arrasta tudo e todos.

    E engole a si mesmo para, em seguida, fazer novo mundo, fazer novas as coisas, fazer novo corpo.

    E sou eu que me refaço no instante da escrita.

    Continuamente…

  • Alienação facial

    Ontem sonhei com o E.T., aquela figurinha de cara achatada do filme de Spielberg, lançado no Brasil em 1982. Um alienígena do bem, de rosto triangular, boca rasgada e grandes olhos azuis. No meu sonho, ele tinha voltado ao seu planeta para relatar como andava sua missão: transformar todos os habitantes do planeta visitado em criaturas à sua imagem e semelhança.

    Assustada, procurei me distrair um pouco com a televisão para conseguir pegar no sono novamente. Mas o que vi me fez esfregar os olhos — certamente ainda não tinha despertado o suficiente, pois lá estavam as carinhas triangulares circulando alegremente, dando as notícias da madrugada.

    Corri para lavar o rosto com água fria e mudar de canal, porque, por alguma brincadeira macabra da memória, a tela parecia refletir meu sonho — aquelas moças do noticiário não podiam ter se transformado em alienígenas.

    Tentei então assistir à reprise de um capítulo recente de novela. Boa opção: ali, certamente, as atrizes estariam caracterizadas de acordo com seus papéis e o pesadelo estaria desfeito.

    Senti a cabeça rodar.

    O que apareceu foram minhas conhecidas de longa data, exibindo os mesmos rostos triangulares, sobrancelhas altas e arqueadas, bocas rasgadas, olhos esticados.

    Aquilo me perturbou a ponto de decidir me afastar completamente daquela visão grotesca. Sem dúvida, minha retina estava reproduzindo na tela da TV os efeitos do pesadelo com o E.T.

    Para cortar de vez aquela ilusão de ótica, fui dar uma olhada nas últimas notícias, e lá estava uma seção inteira dedicada à aparição da megastar Madonna no show de Sabrina Carpenter, no Coachella.

    Coloquei e tirei os óculos várias vezes, pensando que talvez meu grau de miopia tivesse aumentado. Nada feito. A imagem do alienígena continuava a me atormentar.

    Assim como aquelas figuras da televisão, tanto a estrela pop de 67 anos quanto sua companheira de palco, que acaba de completar 26, pareciam moldadas na mesma forma: maçãs do rosto salientes, boca rasgada, olhos arregalados, pele de tamborim — marmorizadas a tal ponto que pareciam ter quase a mesma idade.

    Não restavam mais dúvidas: a missão do E.T. estava sendo cumprida.

    E ele havia começado pela transformação das mulheres daquele primeiro batalhão chamado antigamente de líderes de opinião e agora de influencers.

    Essa onda logo atingiria as mulheres comuns — se é que muitas já não tinham sido abduzidas pelo visual padrão da nova era. E eu?

    Quis correr para o espelho.

    Num susto, abri os olhos.

    Ufa.

    Eu nunca tinha saído da cama.

    Então era tudo apenas o pesadelo… do pesadelo.

  • Venerandas folhas amarelas que não são do outono

    E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos.

    Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase oleosas, alguma poeira, nada além. Era só àquela hora da madrugada, dentro do sebo que herdara da bondosa vizinha solitária — a que fazia bolos, a chamava de neta e a ensinara a usar o forno do seu fogão.

    lia.

    Seu nome e a ação que mais repetia nos fins de semana, enquanto seus iguais, de mesma geração, saíam para trocar papos, beijos e telefones. Preferia o silêncio e a rinite que se seguia às lágrimas após terminar outra capa gasta pelo manuseio de tantos dedos. O silêncio era violado apenas pelo som das páginas sendo viradas e pelo zunido da lâmpada âmbar que incandescia o ambiente.

    lia e escrevia; palavras rabiscadas em post-its, em folhas de rascunho, jamais nos livros.

    — “Já amanheceu”, percebe.

    A escuridão não ousou atravessar o translúcido vitral para além da janela.

    Ouve acordes clássicos, mas não há toca-discos, nem som, tampouco Spotify (costuma desligar-se do mundo ao dormir entre autores tão distintos). A tinta da caneta esferográfica continua:

    Não molhei as plantas
    nem levantei da cama
    ambos, os três, ausentes

    como se o dia não me chamasse pelo nome
    ou eu já não atendesse-entendesse

    Abri os olhos
    permaneci
    presa na inquietude dos pensamentos,
    único ruído possível
    no mar quieto
    das palavras que dormem sem vento

    Lá fora, talvez escureça
    talvez eu que me apague

    antes que a luz aconteça

    Talvez se ouçam pneus,
    pessoas que passam correndo,
    respiros curtos,
    solas riscando o tempo
    indo, vindo, indo, vindo
    como se soubessem
    onde termina um [qualquer] momento

    Já amanheceu,
    dizem sem dizer as horas sem voz
    Eu escureci antes,
    por dentro de mim,
    antes de nós

    Não defini o que comer
    se almoço, se jantar
    um desjejum suspenso
    no gesto de não escolher
    o que sustenta continuar

    Escureceu
    repentinamente
    como um corte no dia
    ou uma fenda da mente

    Isso — um trovão?
    ou o mundo desabando em vão?

    Já escureceu
    E, mesmo assim,
    insiste
    quase teimosia
    um novo dia
    dentro e fora de mim

    lia.

  • Cansaço miúdo

    Ele fazia questão de enrolar as grandes meias em pequenas bolinhas para guardar na grande gaveta do pequeno armário.

    Organizava tudo com zelo: bolinhas de grandes meias alinhadas aos globos das pequenas, como se cada par soubesse exatamente o seu lugar — e ousasse não saber.

    As meias usadas iam para pequenas cestas na lavanderia. Esperava recebê-las limpas, enroladas, devolvidas aos seus lugares com a mesma precisão com que haviam saído.

    Pequena tarefa que atribuía à grande dona-de-casa com quem considerava ter se casado.

    As pequenas argumentações da esposa, a respeito do grande inconveniente, eram tratadas como desvios — e, como tais, corrigidas.

    A pequena esposa, munida de grande paciência — essa virtude que se elogia mais em quem suporta do que em quem provoca — encarava a pilha de bolinhas de meia com um pequeno mau humor que já não fazia tanta questão de esconder.

    Desenrolava uma a uma para lavar no tanque, sentava-se no banquinho da cozinha e pensava — afinal, o que é uma pequena mania, perto do grande marido com quem me casei?

    Às vezes, ao devolver uma gaveta “quase” perfeita,
    ele refazia uma ou outra bolinha em silêncio.

    Não por implicância, diria — mas por princípio. Aos poucos, o grande marido foi se tornando um pequeno maníaco.

    E a pequena esposa foi deixando de diminuir as coisas para que coubessem melhor.

    O pequeno casamento foi durando um grande tempo.

    Mas a tarefa de desenrolar e enrolar bolinhas de meia foi crescendo até ocupar mais espaço do que devia — maior, talvez, que o próprio casamento.

    A pequena discussão a respeito das meias foi se repetindo, sem alarde: ganhou tom, corpo, tornou-se um grande embate. Até que ela, parada diante da pilha de meias sujas, pensou — não mais com paciência, mas com precisão:

    Até quando esse pequeno marido vai me infernizar com sua grande exigência de mundo dobrado ao meio?

    A grande esposa desenrolou as meias e enrolou o pequeno casamento.

  • Coisas de vento para prosa

    Coisas de vento, bola no chão, areia, rosto no campo e suor. Pedras. Pedradas. Horizonte longe e nada. Mais nada além da bola e da vontade do jogo entre os moleques. Sol a sol e coisas de vento, sem tempo. Momento.

    Momento de pensar nas coisas do tempo que passou. O menino que fui um dia joga na estrada. Pedras nas janelas. Pedradas. E corre, corre. As pernas tremem de tanto correr sem direção. Sol a sol. Horizonte muito. Dispersão.

    Coisas de vento que nos pega e nos prende em um tempo. O tempo único do coração. O tempo em que tudo é permitido e, com as próprias mãos, desenhamos os sonhos e, também, os enxergamos. Contenção.

    O vento cessa e a bola e os moleques não estão mais lá… Não estão mais no chão. A poeira e os meninos desapareceram assim como as pedras, as pedradas.

    O horizonte continua intacto e mudo. E sol a sol. O tempo. São coisas de vento…

  • Orgulho ferido

    Ivana conheceu seu grande amor na faculdade, em uma roda de samba. Adorava o seu humor com piadas rápidas e admirava seu modo simples de se vestir a agir. Também chamou a atenção dela a ousadia e o destemor de falar com desenvoltura sobre política, música e sexo. Foi paixão instantânea o que Ivana sentiu, a expectativa de uma arrebatadora paixão à primeira vista.

    Ivana era sonhadora, com a crença em almas gêmeas e com olhos que brilhavam ao imaginar sonhos impossíveis. Também não duvidava da existência de duendes. Acreditou piamente que havia encontrado a sua cara metade. Casaram-se depois de seis meses, alugaram um apartamento minúsculo em Botafogo e juraram amor para sempre.

    O tempo, como uma maré insistente, foi erodindo tudo e deixou à mostra algumas verdades. Começou com pequenas bobagens. Ivana odiava aquele jeito de deixar as toalhas úmidas no banheiro e não admitia quando o seu amor chegava tarde do trabalho, cheirando a cerveja. O pior eram as desculpas: mais uma reunião com amigos, hora extra no trabalho, uma parada no bar para fugir do trânsito… O bate-boca virou rotina. Discussões constantes e brigas por tudo e por nada.

    O apartamento que já era apertado ficou ainda menor, opressivo. Ivana passou a conviver e a se incomodar com a solidão. Mesmo com alguém dormindo a seu lado, era como se estivesse sozinha.

    As horas pesavam, os instantes de prazer ainda mais raros. Ivana mergulhava no celular, rolando feeds infinitos para fugir daquela inércia regada a desprezo e apatia.

    Uma noite, após uma briga sobre contas não pagas, Ivana estourou. “eu não aguento mais você!”. O primeiro tapa veio rápido e estalado. Ainda com a face ardendo, Ivana não acreditava. O chute na barriga, a seguir, deixou-a quase sem ar. Agachada, protegendo a cabeça, Ivana ainda ouviu ameaças: “aqui não se fala mais em separação, se não quiser tomar outra surra!”.

    Ivana pensou seriamente em terminar tudo, fugir, mas não teve coragem. O amor de sua vida não era daquele jeito. Resolveu esquecer o episódio, mas prometeu para si mesma que não haveria uma segunda vez.

    O pior era a sensação de impotência e vergonha.

    No dia seguinte, Ivana nem soube o motivo pelo qual tinha tomado aquele empurrão. Ameaçou reclamar e tomou um soco na cara. Olho direito. Ao cair, bateu com a cabeça na cadeira. Sentiu-se tonta e custou a se levantar. Mesmo com compressas de gelo, o olho logo inchou. Estava na cara, literalmente, a marca da violência. Não dava mais para ficar ali. Acabaria sendo morta.

    Decidiu nada falar, nem pedir ajuda. Foi para o quarto, pegou uma mala, algumas roupas no armário, livros, objetos pessoais e se preparou para fugir. Sairia do apartamento como uma estranha, sem um adeus, nem um olhar sequer.

    De quem seria a culpa por aquele amor ter acabado daquela maneira. Sentia-se apequenada, reduzida a um traste. Às vezes não se gostar é o primeiro passo para se achar insignificante, sem reação. Gostaria que aquilo tudo fosse um pesadelo e ela fosse despertar.

    Ivana ouviu ruídos de alguém se aproximando por trás: “onde você pensa que vai?”. Ivana tinha um canivete guardado na bolsa. Naquele instante concluiu que não tinha mais nada a perder. A única coisa que Ivana queria era se ver livre daquela prisão. E sair viva. Ivana encarou a amante, de canivete na mão. As duas se encararam. “Ivana larga isso, você não vai ter mesmo coragem de usar”. Ivana parecia decidida. Era tudo ou nada. Alguns segundos de hesitação e o golpe desferido com força e precisão inesperadas. Ivana, agora, olhava a amante, que, sem acreditar, apertava com as mãos o ferimento na altura do umbigo: “mulher maluca, o que você fez?”. Ivana guardou o canivete ainda sujo de sangue, pegou sua mala, pediu licença e saiu.

    Encontre ajuda: ligue 180.

  • A era do instantâneo

    Tirar uma foto, fazer uma selfie, mostrar-se e mostrar os outros o tempo inteiro, todo o tempo.

    Caras e bocas e frases de efeito, curtidas e vídeos, imagens para todos os lados!

    O que estamos fazendo com o nosso tempo?

    Nem mesmo Narciso seria tão cruel consigo mesmo!

    O século XXI tem promovido, além da revolução digital e do avanço vertiginoso da inteligência artificial, contraditoriamente, a involução das coisas e, pior, das pessoas.

    Nunca, em tão pouco espaço de tempo, vimos um crescimento tão grande e significativo da informação. Há muita coisa sobre tudo, em qualquer lugar da chamada internet.

    No entanto, pobres mortais, somos sugados para a pequena tela e achamos feio o que não é espelho! Vidrados que estamos em olhar através do visor do celular, esquecemos o amor, esquecemos o céu, esquecemos o andar e o falar, esquecemos o outro e, aos poucos, esquecemos de nós mesmos!

    E tudo, ilusoriamente, parece mais prático, mais rápido, mais dinâmico, mais isso e mais aquilo.

    Com a era digital, surgiram problemas que, simplesmente, não existiam. Estamos nos robotizando? Deixamos de ser humanos para nos satisfazermos com o colorido e frenético mundo virtual!

    Para tudo, uma foto. Um evento comum tornou-se cena de filme: cabelo arrumado, roupa arrumada, discurso ensaiado. Registro de um almoço, de um jantar, de um encontro com amigos! Amigos? Cada qual com o seu telefone!

    Para tudo, um comentário! Da mais besta situação ao mais ridículo dos espetáculos, uma frase, uma curtida, uma reclamação!

    Nem o vírus escapa de tamanha comédia pastelão! Quando as coisas fazem sucesso, “viralizam”.

    Pensando bem, a imagem do vírus é até que bem apropriada: multiplica-se rapidamente e vai enfraquecendo a defesa (o raciocínio, a criticidade e o bom senso) até tomar o corpo (a vida, os sonhos e os relacionamentos).

    Temos pressa de tudo! Minutos são como a eternidade!

    Se a página não abrir, se o download falhar, se a foto não aparecer, esbravejamos, choramos, clamamos e teclamos!

    E assim, entre fotos no Instagram, vídeos no TikTok, palavras no X, mexericos no Facebook, conversas no WhatsApp e outros inúmeros aplicativos, passamos o tempo sem darmos conta do nosso próprio tempo!

    Outra vez, me recordo de Umberto Eco quando sinalizava uma época de imbecilidade!

    É claro que há coisa que merece ser vista, ouvida e comentada. É claro que há vida inteligente nos campos virtuais. É claro que há criatividade, sim!

    Mas, somando tudo bem somado, pensando tudo bem pensado e pesando tudo bem pesado, temos muita incoerência, muita fofoca, muito julgamento precipitado, muito preconceito, porrada para todo lado. Temos violência, aberração, pedofilia, anúncios, moda e enganação!

    Temos ainda nazifascismo, vício e adulação!

    Mas, peraí!
    Isso tudo não é a própria sociedade?
    Revista, ampliada e viralizada!

    Tudo o que fazemos de pior, na internet, ganha dimensão, tem volume e mais proporção! Tudo o que fazemos de execrável ganha o mundo, faz o mundo, globalização!

    Em um mundo invertido e confuso como o nosso, a imbecilidade toma contorno de salvação! Parece que tudo é explicado e explicável através do Google!

    Não há amadurecimento, não há ponderação. Tá lá, tá certo! Sem complicação!

    E, nesse mesmo mundo globalizado e antenado, exigem de nós imensa flexibilidade, fazermos várias coisas ao mesmo tempo, explicando que agora é assim, que somos multitarefas — ou devemos ser —, mas esquecem que cada vez trabalhamos mais com menos tempo!

    Otimização!

    Sei que, nessa era tecnológica (e admiro e sei da sua importância), estamos destruindo nossas florestas, acabando com a nossa água, intoxicando nossos alimentos, escurecendo nosso ar, matando os animais e desumanizando a nós mesmos!

    Era melhor ficar nas cavernas e continuar a fazer desenhos…

  • Reintegração das águas em si: páscoa

    — Onde estamos?
    — Não muito longe do seu destino.
    — Parece faltar muito… Essa viagem é infinita,mamãe…
    — Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.
    — Você é muito filosófica, mãe.
    — Eu não inventei isso. Foi o Einstein. Albert Einstein.
    — Ele é bom de…
    — Bond. James Bond.

    Dez a doze músculos da face contraíam-se antes de terminar a frase. Sempre antes. O puxar dos cantos da boca que seguem as contrações ao redor dos olhos. Como se soubesse o fim e ainda assim quisesse brincar de caminho. Os sorrisos iam dos olhos à boca, atravessando os rostos, por inteiro. Como a chuva fazia no vidro do automóvel em movimento.


    As chuvas a atravessam sem pedir licença. Transportam-na — não de todo, nunca de todo — para cenas de sua infância: viagens de carro, a voz da mãe inventando mundos no meio da estrada, pequenos jogos de linguagem que não tinham regra fixa, só as duas e seus sorrisos desanuviados. A aurora de dias que não mais retornam, mas teimosos, não se vão completamente.

    A chuva não passa impune em sua vida. Nunca passou.

    A coisa mais impressionante sobre as gotas d’água é que elas sempre buscam o caminho mais facil.

    ” — Nós, seres humanos, não”.

    De quando em quando, nada melhor do que degustar uma chuva – se houver possibilidade de ser por uma varanda, melhor ainda. As gotas parecem maiores quando mudamos a perspectiva e olhamos por baixo delas.

    Caem com força nos olhos.
    nos cabelos
    na pele

    escorrem…

    Sentimos o impacto. Fechamos
    instantaneamente os olhos.

    respingam os pingos que batem no parapeito de
    pedra e ricocheteiam em nós

    Marise, debruçada em sua varanda no sétimo andar, vê o correr das pessoas para debaixo das marquises, ou armadas com seus guarda-chuvas apontados para o céu e… pump! Mais uma mancha arredondada escondendo pessoas, sacolas, crianças, pets e quaisquer tipos de sortilégios… Guardam-se, todos, da chuva. Não guardam a preciosidade do momento.

    As folhas das árvores balançam com o gotejar celeste. Marise ouve, talvez não se atentem os passantes, sequer os que se abrigam, os pássaros cantando, bem perto de todos. No topo das copas mais altas que o seu prédio, vislumbra espécimes solitários tentando proteger as penas sob diminutas aglomerações de folhagens esparsas. Cantam para avisar aos outros da revoada que ali ainda não é abrigo. Um repete o
    canto, em outra copa. E outro. E outro…

    As gotas caem.

    Sempre caem pelo caminho mais fácil.
    Se deixam abraçar pelas forças gravitacionais.
    Não hesitam: nada há de complexo nas chuvas.

    Talvez por ser da serra, e por faltar o mar e a vista do mar, Marise cultive um fascínio imenso pelas tormentas. Deixa-se molhar pelas tempestades; é seu ritual de fora para dentro. Respira ouvindo apenas o rumor alto tecido por gotas tão pequenas.

    Paz.

    É, para ela, quase a exata sensação de mergulhar no mar. A diferença é que é um movimento mais seu estancar-se à chuva, braços e coluna relaxados, rosto virado para o céu. Mais familiar. Menos salgado.

    Combina com as lágrimas que jorram de quando em quando. Quando chove, Marise não chora. Poupa suas águas, que já sabem o menor caminho dentro de si.

    Deixa-se banhar, um pouco mais, pelas lágrimas dos deuses…

    Há um certo privilégio em tomar um banho de chuva num pequeno pedaço de seu próprio abrigo.

  • AUGÚRIO

    Durante grande parte de sua vida, Suely dava expediente lendo as linhas das mãos, jogando búzios e ainda posando como astróloga. Madame Suely. Sua especialidade era o tarô. Manejava as cartas e seus arcanos por instinto e fazia suas reflexões livremente, orientando seus clientes sobre situações de vida, amor e trabalho. Na maioria das vezes dava certo e Suely persistia.

    Madame Suely interpretava alguns acontecimentos, pressentia sinais de problemas futuros, sabia olhar nas pessoas e adivinhar-lhes as aflições e sonhos. Seu carisma era natural, da mesma forma que sua crença espontânea em si mesma. Rara autocrítica e coragem de sobra. Além de alguma sorte, é claro.

    Como futuróloga respeitada, Madame Suely ganhou o suficiente para criar as duas filhas. Seu marido, no começo avesso a essas coisas místicas, via com simpatia a grana que ajudava nas despesas.

    As filhas mal conseguiam disfarçar a vergonha da função da mãe, mas sempre deram valor ao dinheiro que lhes possibilitou estudo e a formação universitária. A mais velha formou-se em Comunicação, e a caçula, em Odontologia, fato aliás previsto por Suely nas cartas, embora as filhas nunca tenham acreditado.

    Verdade que suas previsões não se concretizavam sempre. Humanamente não era infalível. Quando ocorriam presságios ruins, jogava de novo as cartas até que o oráculo mudasse. Aos consulentes evitava as profecias trágicas e somente repassava aquelas que pudessem trazer algum alento ou consolo. No fundo, Suely era uma otimista.

    Com a morte do marido (que não foi previsto por ela), Suely decidiu parar com suas consultas. O tarô, agora, só em ocasiões emergenciais.

    Mesmo que procurasse evitar, tinha ainda suas premonições. Esforçava-se para que elas não se realizassem. Ao menos, completamente.

    Com o tempo foi aprendendo a se desligar desse mundo de vaticínios cheio de mistérios e falcatruas. Jogou no lixo seu baralho de tarô e aposentou-se, merecidamente.

    As filhas celebraram. Há muito aguardavam por isso. Sentiram-se aliviadas.

    Libertação e descanso era também o que Suely sentia no íntimo. Alguns poucos clientes que ainda insistiam em procurá-la, Madame Suely explicava que dali para a frente ela só poderia conviver com o presente e antever passados.

  • Poema #04: Flor no Asfalto

    Chamam de resiliência
    essa palavra polida,
    de palco e de LinkedIn,
    que ensina a atravessar ruínas
    com a coluna ereta.

    Resiliência:
    dizem ser força,
    dizem ser método,
    dizem ser quase virtude corporativa.

    Mas outro dia
    ela me apareceu diferente —
    não em gráficos,
    nem em discursos bem ensaiados,

    mas numa fresta de asfalto:

    uma flor.

    Pequena, improvável,
    sem plateia, sem legenda,
    rompendo o cinza
    com a delicadeza de quem não pede licença.

    Ali estava tudo.

    Porque a terra sabe:
    depois da seca,
    depois do frio,
    depois daquilo que parece fim,

    há sempre um retorno
    silencioso.

    Um recomeço que não se anuncia,
    apenas acontece.

    E então pensei
    nos nossos desertos particulares —
    esses dias antes do aniversário,
    quando o mundo pesa mais do que devia,
    quando o acaso tropeça na gente
    vez após vez,

    e por dentro
    a paisagem racha.

    Mesmo ali,
    no chão duro do cansaço,
    algo insiste.

    Uma espera sem nome,
    quase teimosa,
    como quem já sabe
    que a chuva vem.

    Lembro, então, de Sérgio Britto,
    na voz dos Titãs,
    em Enquanto Houver Sol —

    quando tudo parece gasto,
    quando até a ilusão se recolhe,

    ainda assim,
    em algum lugar mínimo,
    sobrevive

    uma infância.

    Talvez seja isso.

    Resiliência não é pedra.
    Não é rigidez.

    É chama.
    É o quase nada que permanece
    aceso o suficiente
    para, um dia,

    florir —

    mesmo
    sobre o asfalto.

  • Anamnese

    Tenho muito respeito pela palavra anamnese que une de forma inusitada duas consoantes, o que lhe confere um ar imponente de cultura e refinamento. Por vaidade literária fútil sempre desejei usá-la, mas por não ser da área de saúde nunca consegui. Agora resolvi esse problema: criei meu próprio formulário de anamnese, que, em primeira mão, compartilho com vocês.

    Trata-se de uma série de perguntas simples para quem se interessar em ser meu amigo, oxalá alguém se anime. Lembrem-se de que uma anamnese não é um teste de excelência, é apenas uma coleta de informações.

    Quem já for meu amigo pode ignorar o assunto: tem lugar cativo, quaisquer que sejam as respostas dadas. E se alguém achar que, em vez de respostas, deve enviar-me perguntas, prometo respondê-las com afinco e sinceridade.

    Lido mal com as perdas e na medida do possível quero minimizá-las, assim sendo dou preferência às pessoas que possivelmente viverão mais do que eu. Essa é uma das questões que mais me preocupa e está contemplada logo no início.

    Outra das minhas preocupações diz respeito aos encontros presenciais. Dou preferência a quem mora perto para facilitar o convívio ou a quem mora bem longe, o que dá direito a uma viagem planejada e prazerosa. As médias distâncias são uma encrenca: a Lei Seca, o preço do über, a insegurança de alguns trajetos cariocas, os horários noturnos, os engarrafamentos, não faltam motivos para desestimular o deslocamento.

    Um último comentário: essa coisa de virar amigo não tem regras nem explicações, portanto não há garantia de que o questionário funcione. De qualquer forma, é um começo. Aí vai.

    1. Você pretende viver muito ou é pelo menos quinze anos mais novo do que eu? Sim ( ) Não ( )
    2. Sua família é longeva? Sim ( ) Não ( )
    3. Você mora a menos de 20 km ou a mais de 200 km de mim? Sim ( ) Não ( )
    4. Você procura ser correto? Sim ( ) Não ( )
    5. Você concorda que na vida as coisas não precisam ser obrigatoriamente pretas ou brancas? Sim ( ) Não ( )
    6. Você ama a liberdade de expressão e abomina ditaduras de qualquer cor? Sim ( ) Não ( )
    7. Você convive de forma civilizada com opiniões divergentes? Sim ( ) Não ( )
    8. Você é capaz de nomear, de forma honesta, uma qualidade e um defeito seus (não precisa confessar)? Sim ( ) Não ( )
    9. Você é capaz de nomear, de forma honesta, uma qualidade e um defeito meus (não precisa contar)? Sim ( ) Não ( )
    10. Você consegue tolerar o defeito que encontrou em mim? Sim ( ) Não ( )

    Marque um ponto para cada resposta ‘sim’, sendo que as três primeiras valem dois pontos cada uma. Idem a última, porque amigos devem estar dispostos a perdoar (e esquecer) os eventuais deslizes uns dos outros, e eu possuo cá os meus.

    Se você somou mais de sete pontos, estamos bem encaminhados, pode me escrever no privado para darmos continuidade à conversa. Menos do que isso, penso que não vai dar certo e temos que nos conformar: unanimidade é algo inatingível e tenho certeza de que bastante gente está do seu lado.

    Um adendo: semana passada apareceu uma barata aqui em casa. Horror, horror! Mantenho a casa encharcada de inseticida, não sei se a barata saiu de alguma toca oculta ou se entrou voando. Apareceu já cambaleante, de salto alto, pronta para morrer. Foi caçada (não por mim!) e destruída convenientemente. Pensei, devido à importância que dou ao tema, em incluir na anamnese a pergunta ‘Você sabe matar baratas?’, mas refreei o impulso. No entanto, se você souber, não importa a pontuação que obteve no questionário acima, já quero conhecê-lo.

  • curvas, exclamações tesas e duplos olhos castanhos

    Pela primeira vez percebo as curvas orgânicas da fechadura que sustenta a chave da porta mais usada do meu armário, enquanto uma música conhecida reverbera pela caixa de som. A cortina de linho, fina, balança em câmera lenta, descortinando aos vizinhos — imersos em suas rotinas — a intimidade do meu corpo quase nu sobre a cama. Sinto olhares sobre mim, mas não vêm de fora; repousam baixos, quietos, sem pressa.

    Entre pensamentos, me perco, até que os acordes me trazem de volta.

    Quase desconhecidos, de uma canção que me é tão íntima.

    Insinuam-se instrumentos distintos, me puxando à pergunta: será mesmo essa música? ou eis que se desmancha, trocando a profundidade dos baixos e das guitarras por um pulso leve, desses que desconcertam as pálpebras, quase um chamado de xilofone para ninar?

    “sempre em frente…” — minha voz interna ensaia acompanhar o som — doce, familiar e, ao mesmo tempo, tão estranho — de algo que já não sei nomear. A melodia segue, e não. Algo em mim a suspende, feito estátua, por um instante. O cômodo parece recusá-la, e ela, a música, oportunista, se infiltra nesse hiato intangível, fazendo-se materialidade no vazio que me envolve.

    — Um quarto — meu por anos, alugado, com mobílias fixas que nunca escolhi. Mobílias castanhas, como a cor dos olhos que a música traz às minhas retinas.

    Tempo estancado, suspenso, quase palpável no espaço inexistente por onde minha respiração desfila seu ensimesmamento. Numa quinta-feira qualquer, em pleno horário comercial, sigo com os olhos, ainda deitada, o caminho desenhado por diminutas formigas.

    Desfazem as rotas que elas mesmas tecem, antes tão precisas sobre o corpo inerte de uma libélula. Há uma vigília silenciosa embaixo da minha cama.

    Peso morto no limite da minha esquadria — entre o de fora (minha varanda, o canto dos pássaros, o frenesi dos pneus) e o interno (a poeira da casa casada aos pelos brancos, a lâmina desbotada do piso; culpa da luz do sol, insistente, independente do humor celeste).

    Inerte, numa última postura de elegância, um ponto de exclamação ao revés. Asas indecifráveis — como o motivo de sua morada final, meu canto.

    Asas translúcidas, perfuradas. Linhas pretas, tão orgânicas quanto a chave suspensa na fechadura, há pouco mais de um metro acima do corpo do inseto — antes manjar de formigas; agora… procissão respeitosa?

    !

    Ritual orgânico, suspenso, leve. Já não respira — e ainda assim, persiste.

    Assim como o castanho do armário, o castanho daquele que habita minhas retinas — e que, por reflexo e extensão, também se fazem castanhas.

    A tempestade que chega é da cor desses olhos — quentes, atentos — que me observam do chão, em silêncio, entre os pelos que rolam por sobre o piso, como se guardassem o mundo para além do que o faro pode traduzir.

  • Nelson a conhece

    No ônibus lotado ela vai enfiando o corpo nos menores espaços, dá licença, fala baixinho, não olha nos olhos, vai passando por uma senhora gorda com várias sacolas, por um garoto voltando mais cedo da escola, por moças, por rapazes, por velhos; troca a mão de lugar, consegue um vãozinho para pôr o pé, até chegar o mais próximo possível do lugar procurado e ali segurar na alça de apoio e parar. Não olha para as pessoas, mas também não vê o cenário que passa pela janela.

    Ela sabe o horário, a linha de ônibus, e o lugar onde ele se acomoda, na curta viagem até o ponto onde ela vai descer.

    Com isso faz as coincidências acontecerem.

    Se ela sair de casa às três da tarde, o mercado não estará cheio, então ela fará suas compras, e na volta eles tomarão o mesmo ônibus.

    Ele deve subir no início da trajetória, pois vem sentado.

    As compras dela não podem ser maiores do que uma ou duas sacolas, senão corre o risco de alguém lhe oferecer o lugar e isso ela não quer. O que ela quer é ficar próxima dele, sentir o seu perfume misturado com o cheiro de suor do dia de trabalho, olhar aqueles cabelos jogados displicentes para o lado, a cor da sua pele em seus braços na parte visível da camisa branca arremangada.

    Só isso basta. Parece pouco? Não é não! É um turbilhão, uma mistura de alegria, medo, tesão, e audácia. Ela nem cogita que ele saiba da sua existência. Não! Ela não quer ser notada, não se arruma nem mais nem menos, é apenas uma passageira comum daquele coletivo. Se acaso ele a notasse, falasse com ela, aí tudo deixaria de ter sentido. Esse é um momento só dela, uma transgressão cultivada, com todos os pesos que têm: o desejo por um homem que não é o seu marido, a volúpia do sexo imaginado, o ouriçar da sua pele ao perfume dele impregnando seu cérebro, a languidez sentida pelo balanço da conducão e pelo roçar das suas pernas uma contra a outra, até chegar ao ponto de descida. Aí ela desce e retoma o seu papel. Na verdade, recupera a sua realidade, pois não sabe qual é a sua identidade.

    Ao chegar em casa domina os afazeres da casa, tarefas das crianças, jantar, filhos, passar as camisas do marido, arrumar mochilas para o dia seguinte e finalmente tomar banho e poder se deitar. Quem sabe sonhar com o seu amor secreto. São apenas dois os seus momentos, quando ela vive os seus segredos, os seus pecados e os seus temores.

    Um pedacinho da tarde e o deitar-se e aguardar o marido.

    Muito pouco para o restante da vida e a sua realidade seca, amenizada por aquela fantasia.

    O homem do ônibus.

  • Devota

    O espaço era pequeno e fechado por uma porta metálica, com paredes de pintura descascada. A roupa e os poucos objetos pessoais pendurados em sacolas ou em pequenas prateleiras. O local era compartilhado com outras detentas. Quando podia ficar sozinha, Juliana pensava na vida, nas memórias daquilo que havia vivido.

    Dormia num beliche com base rígida e um colchão simples. Colado à parede, ao lado da cabeceira, um pequeno quadro com a imagem clássica de Jesus Cristo.

    Desde criança, Juliana demonstrava o desejo de seguir a carreira religiosa. Orgulho da família, fez a primeira comunhão na igreja perto de casa, ia todos os domingos à missa e prosseguia na catequese, vivenciando a fé no dia a dia. Foi crismada, iniciou seus trabalhos na pastoral e passou a frequentar semanalmente reuniões com um grupo de jovens da igreja.

    Juliana era tão carola e concentrada em seu fervor católico, que a família e os amigos passaram a temer aquela fixação. Ela não tinha olhos para mais nada, vivia em orações e decorando passagens da Bíblia. Algumas vezes se penitenciava pela humanidade, ao andar de joelhos pela casa.

    Mulher bonita, quando questionada sobre namorados, sua maior alegria era dizer a todos que estava noiva de Jesus.

    Numa dessas reuniões do grupo jovem, conheceu Francisco. Não soube explicar a sensação estranha, mas jurava que o rapaz era a cara de São Francisco de Assis. Os apelos da carne começavam a se manifestar e Juliana não conseguia mais conter as investidas de Francisco. Ela se entregou de corpo e alma a ele, esquecendo por um tempo do noivado com Jesus.

    Franciso logo abandonou a igreja e terminou o namoro. Já havia conseguido o que queria. Juliana continuava atrás dele, de joelhos, implorando para ele voltar. Francisco já estava de casamento marcado com outra moça.

    Juliana, desesperada, se consolou na religiosidade: “toda a nossa vida deve ser uma constante oração.” Sua fé venceria tudo. A sua alegria verdadeira vinha de se entregar a Deus. Para quem a chamasse de louca ou beata, respondia que onde houvesse ódio, levaria o amor e onde houvesse ofensa, levaria o perdão.

    Foi presa em flagrante, depois de ter dado dezenove facadas em Francisco. Aos policiais, justificou-se tentando explicar que a morte era apenas uma passagem da vida terrena para a eterna. Não haveria o fim definitivo. Os policias a algemaram mesmo assim.

    Ela não quis advogados e recusou-se a receber visitas. Na cela onde estava, a luz permanecia acesa durante toda a noite por questões de segurança. Juliana dizia que a luz simbolizava a verdade e o bem contra a escuridão da ignorância.

  • Poema #16: Poema ao vento

    Poema ao vento
    Cesto vazio em pouso certo
    Cascalho de ilusões
    Sem tempo.

    Poema ao vento
    E nenhuma certeza das coisas
    Nenhuma certeza.

    De repente uma linha intrometida atrapalha o poema, como um rio conquista com ajuda das águas a terra branca, areia, alguma coisa separando os versos e construindo as margens. Há um menino do outro lado e ele abana um boné vermelho para o poeta. O poeta não se sente muito bem no meio de um parágrafo, mas, mesmo assim, acena para o menino…

    Poema ao vento
    Um contratempo
    Mapa e ponte
    Descaminho
    Novo tempo

  • O que fica fora da foto

    Já repararam como a gente anda vivendo tudo… com o braço esticado?

    O pôr do sol acontece — e lá estamos nós, tentando enquadrá-lo. Uma risada explode — e alguém já procura o celular. O momento chega inteiro, mas a gente o recebe pela metade.

    Não é que faltem sentidos. Eles continuam todos aqui: ver, ouvir, tocar, sentir cheiro, provar. Mas, na prática, parece que elegemos um só — e ainda assim, mediado por uma lente.

    A cena não passa mais direto pela gente. Antes, precisa caber na tela. E aí acontece uma coisa curiosa: quanto mais a gente tenta guardar o momento, menos ele parece nos atravessar de verdade. O pôr do sol vira registro. O sorriso vira conteúdo. O encontro vira material.

    A gente não olha — enquadra.

    Não presencia — captura.

    Não participa — publica.

    E, nesse movimento quase automático, alguma coisa se perde. Talvez a distração do vento, o calor do instante, o detalhe que não caberia na foto, mas que era justamente o que fazia tudo valer a pena.

    Há sempre um ajuste a fazer: o ângulo, a luz, a pose, a versão de nós mesmos que vai aparecer depois. Porque, no fim, a imagem não é só do momento — é também sobre quem a gente parece ser dentro dele.

    E assim, aos poucos, vamos nos afastando. Sem sair do lugar.

    Viramos uma espécie de intermediários da própria experiência. Nem totalmente dentro, nem completamente fora. Apenas ocupados em garantir que tudo fique… registrável.

    E curioso: pelas lentes do celular, quase sempre saímos bem. Talvez melhor do que estávamos.

    Mas fica a dúvida — em que momento foi que começamos a preferir a lembrança editada à experiência vivida?

  • Os brincos

    1.
    Adriana recebeu um forte golpe na cabeça. O sangue escorreu, e, em alguns minutos, o piso da cozinha se transformou num tapete escarlate. Rastejando pelo chão, conseguiu deixar o local. No corredor, ouviu uma porta bem lá no fundo ser batida com violência. Escutou miados e sentiu algo semelhante a um conjunto amorfo de pelos roçar sua perna. Arrastou-se até o elevador. Apertou o botão térreo e lembrou que Pedro havia ficado no berço. Saiu do elevador e correu de volta ao apartamento. Dirigiu-se ao quarto do filho, ele não estava lá. Levou outra pancada, desta vez na face esquerda.

    2.
    Alguns dias – ela não tem a menor noção de quantos – haviam se passado. Deitada num quarto de hospital, Adriana tinha diante de si a mãe, olhos vermelhos de tanto chorar. Pensou em como essa situação sempre constituíra fonte de desconforto para Amália. Desde que tinha cinco anos, Adriana havia aprendido em casa que gente crescida não chorava. Só crianças podiam fazê-lo, crianças choravam por qualquer motivo, era natural que agissem assim. Quando um adulto chorava, era por uma razão muito grave,invariavelmente relacionada a morte, doença séria, falência ou ruína.

    – Minha filha…

    – Onde está o Pedro?

    – Calma, ele está bem. Vicente está cuidando dele.

    – Eu quero vê-lo.

    – Você não pode fazer esforço… Por favor, não se levante.

    – Eu preciso vê-lo.

    – Olha, vem cá, eu tenho uma coisa pra você, sei que vai gostar. Eram da minha avó. Quando você for embora, vai estar linda.

    3.
    No dia em que deveria deixar o hospital, Vicente foi encontrá-la. Havia ficado acertado que Adriana não voltaria para o apartamento onde o pesadelo havia começado. Na recepção, burocracia resolvida num tempo surpreendentemente curto, ela preparava-se para ir embora com o ex-marido quando uma enfermeira veio lhe avisar que tinha esquecido um par de brincos no quarto. Ela agradeceu e em seguida colocou-os. Achou que lhe assentaram bem, mesmo não tendo conferido o resultado num espelho. Poderia ter perguntado a Vicente se eram bonitos ou mesmo adequados, se combinavam com sua roupa ou com sua personalidade. Bobagem. Momento nada oportuno para esse tipo de futilidade. Além do mais, talvez ele só prestasse atenção nas feridas de seu rosto e nem conseguisse enxergar a joia direito. Era muito estranho o fato de jamais ter furado as orelhas àquela altura da vida. Isso limitava bastante os modelos de brinco que poderia vir a usar. Adriana começou então a recordar as mulheres da família: a mãe, as avós, as duas irmãs mais novas, as primas mais chegadas, tia Hilda e tia Helena, velhas solteironas que bem poderiam ter sido criadas pela mente libidinosa de algum escritor pervertido. Cláudia, Valéria e Márcia, amigas queridas, todas elas de orelha furada.

    4.
    Vicente não estava de carro. Na porta do hospital, com Pedro no colo, tentava conseguir um táxi. Uma obra quase em frente à saída dificultava a circulação de veículos, obrigando os motoristas a realizar desvios. Ele afastou-se um pouco à caça de condução. Adriana resolveu dar alguns passos na direção do ex-marido. Fraca e um pouco tonta, escorregou. Caiu. Sua nuca encontra o meio-fio. Deitada no chão, é vista por um senhor que passava claudicante apoiando-se numa bengala. Junto ao corpo imóvel de Adriana, na altura da orelha esquerda, antes que pudesse esboçar qualquer reação, ele reparou bem: uma pedra vermelha, fina e delicada, reluzia.

  • Esquisito Íntimo – parte II: origem x vertigem

    Eu também tinha visto aqueles lábios torcidos em uma expressão de humor irônico. Parecia quase desnecessário, mas a presença do “quase” – termozinho safado! – faz toda a diferença.

    Traja o tipo de humor que eu gosto, do tipo que não se importa em zombar de si mesmo, verdadeira leveza e certificação de se estar vivo.

    Mesmo que a milhas náuticas de distância, poética unidade que mede o mar a partir do céu, um belo dia, num domingo posterior ao original, o Domingos contestou-me:

    Por acaso você foi ao dicionário pesquisar o significado da palavra esquisito?

    Então aqui nasce a parte II de “Esquisito Íntimo” – é deselegante deixar um leitor sem respostas.


    “Esquisito:
    Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels* preto e branco dançantes. Uma quase hipnose”.

    Ela estala na língua e, agora, reverbera no paladar. Em italiano, squisito escorre, redondo, como um elogio que desliza fácil. Sinto-o na boca como quem descreve um prato raro, delicado, escolhido a dedo. O dedo indicador, então, sem pedir licença, desenha pequenos círculos na bochecha — gesto “tutto buono” de quem prova algo bom demais para ser apenas cotidiano.

    E então, como quem puxa um fio antigo, chegamos ao latim: exquisitus.

    Aquilo que foi procurado com cuidado.

    Escolhido. Refinado. Raro.

    Esquisito, portanto, já foi elogio. E ainda é, na Itália. Também na Espanha.

    E talvez na nossa língua faceira ainda seja — em alguma versão paralela de universo onde as palavras não se apressam em caber no mundo. Aqui, neste português nosso de cada dia, esquisito virou outra coisa.

    Escorregou.

    Sofreu uma leve torção de sentido, sem fazer barulho, mas alterando destinos:

    1. O que era raro passou a incomum;
    2. O que era incomum, estranho;
    3. O estranho, caros leitores, por fim, tornou-se esquisito.

    Há algo de profundamente humano nessa queda semântica.

    Aquilo que exige mais olhar, incomoda quem não quer ver.

    Assisti Passageiros e, pela primeira vez, não me senti exquisita — no sentido latino da palavra. Não me senti escolhida, nem rara, nem lapidada pelo cuidado do mundo.

    Senti-me… esquisita.

    Nada elegante.
    Nada refinada.
    Nada desses termos que se provam com deleite.

    Mais próxima da apropriação brasileira do termo.
    Mais próxima de um desalinho.
    Mais próxima de todas as dúvidas.

    Houve um instante — curto, mas inteiro — em que me perguntei, com uma seriedade quase infantil:

    E se eu não estiver mais aqui?

    Não morta, no sentido dramático que os vivos gostam de dar às coisas. Deslocada. Imprecisa.

    Como se a minha existência escapasse um centímetro para fora do enquadro — o suficiente para que eu ainda me enxergue, mas não me reconheça.

    Lembrei de uma senhora em uma pegadinha televisionada. Do susto genuíno ao não encontrar o próprio reflexo num espelho que não era espelho. Da gargalhada que me tomou em São Paulo, livre, despreocupada, viva, espontânea.

    E, ainda assim, eis-me agora, dias depoiss, tocando a mesma ideia — mas por dentro, intimamente. De um jeito… esquisito íntimo.

    Quiçá o esquisito íntimo seja isso: não aquilo que o mundo estranha em nós, mas sim o ponto exato em que deixamos de coincidir conosco.

    Entre o que fomos escolhidos para ser e o que nos tornamos ao longo de travessias.

    Há distâncias que não se medem em quilômetros. Sequer em milhas náuticas: medem-se em pequenas falhas de percepção.

    Em lapsos de presença.

    Em segundos em que o real vacila — e vacilamos, com ele.

    Ainda assim, há uma beleza quase indevida nisso tudo.

    Ser esquisito — no sentido primeiro — talvez seja justamente não caber.

    Não se deixar reduzir.

    Não se tornar tão comum a ponto de desaparecer dentro do próprio reflexo.

    Talvez eu esteja, afinal, perigosamente viva.

  • O alfinete

    Fátima sentou-se ao pé da cama da pequena Pérola. A penumbra do quarto, o perfume de lavanda dos cachos recém-lavados e o calor que subia do corpinho sob o edredom florido a envolviam num torpor doce. Era seu momento preferido — quando tudo se calava, menos o amor.

    O tilintar de louça na cozinha a trouxe de volta. A dor reapareceu — fina, precisa, como a ponta de um alfinete invisível, cravado em algum lugar que não sabia nomear.

    Olhou mais uma vez para a filha, que ressonava baixo, e desceu.

    Cândido a esperava com a mesa posta e o mesmo sorriso tranquilo. Um homem de gestos simples, de amor constante. Às vezes, ela invejava a facilidade com que ele atravessava as coisas.

    Falaram do dia. Da escola. Do tempo. Das contas. E, por fim, de Pérola.

    Fátima comentou da festa de São João na escolinha. Disse que já estava tudo pronto: pés de moleque, cocada cremosa, pipoca caramelada.

    — E o vestido? — ele perguntou.

    Ela trouxe dois vestidos iguais, azul-claro, lisos.

    — Não era xadrez? — ele estranhou.

    A fisgada.

    — Xadrez de chita, Cândido? Não… — hesitou — assim é melhor. Mais discreto.

    Ele sustentou o olhar por um instante, como quem procura alguma coisa, mas não insiste. Depois cedeu, em silêncio.

    Mais tarde, Fátima foi para o terraço. A lua cheia clareava o quintal.

    Pensou no hospital, nos papéis assinados, na primeira vez em que segurou Pérola. Pequena, quente, os olhos escuros, os fios ralos. Amor imediato. Sem dúvida.

    Com o tempo, vieram os olhares.

    Nos parques. Nas lojas. Nas festas.

    Vieram as perguntas que sorriam antes de ferir.

    — É sua mesmo?

    — Que mistura linda…

    — Puxou a quem?

    E, com elas, algo começou a se deslocar.

    Pérola crescia. O cabelo ganhava volume. Os cachos se fechavam. A pele escurecia.

    Fátima começou a desejar — e odiou-se por isso — que ninguém reparasse.

    Passou a ajustar pequenas coisas. O tempo de sol. Os penteados. As roupas.

    O alfinete.

    Chamaram-na de dentro.

    Pérola estava em pé no berço, um brinquedo na mão, os olhos ainda pesados de sono.

    — Mamãe, posso ir com o cabelo solto amanhã? Igual o da Laurinha?

    Fátima hesitou. Laurinha — Cabelo cheio, solto, laços coloridos.

    — Melhor preso, filha… — disse, evitando o próprio reflexo no espelho — fica mais arrumado.

    A menina assentiu, devagar. Deitou-se.

    O alfinete.

    Na sala, Cândido folheava um álbum.

    — Lembra? — disse, mostrando a foto.

    Os três. O começo. O sorriso inteiro.

    Fátima sentou-se ao lado dele. Não disse nada. Chorou em silêncio. Ele também não perguntou. Apenas a envolveu.

    Na manhã seguinte, Pérola foi à festa com o cabelo solto, preso aqui e ali por pequenos laços azuis.

    O vestido era o mesmo.

    Mas sem o alfinete

  • Altruísmo

    Magda era o seu nome. Juliette, o de guerra.

    Sempre chamara a atenção, desde pequena, com seu corpo bem feito e precoce. Na adolescência dera problemas. Tinha as pernas da Virgínia Lane, a avó comentava. A mãe não sabia quem era Virgínia Lane. Magda gostava de ser comparada a uma vedete. Ainda mais uma vedete que arrebatara o coração de um presidente.

    Molestada por um tio, agarrada no elevador por um vizinho taradão, sem freios e ingênua, não demorou para perder a virgindade com um colega do colégio. Sem dor, sem sangue, sem prazer. Com a inexperiência e o mau jeito do tal colega, tinha sido ela quem, quase todo o tempo, conduzira a relação. Puro instinto. Magda parecia talhada para o sexo.

    Filha única e com o pai ausente, não tivera nenhum irmão a tomar-lhe conta e nem um pai para lhe encher o saco. A mãe dava-lhe toda a liberdade, mais preocupada com ela própria. A avó, a essa altura, já dava sinais de demência.

    Agora, o corpo de Magda se destacava ainda mais. Quase um acinte. Sua beleza saltava aos olhos. E ela nem era assim tão vaidosa. Quase sem maquiagem, cabelos escorridos após o banho, blusa com decote e uma calça jeans, e ela angariava cada vez mais fãs e olhares de cobiça.

    A mãe a acusava de vulgar e de fazer de propósito para virar a cabeça dos homens; a avó não via nada demais; e Magda não ligava para o que as duas pensavam.

    Não concluiu o segundo grau. Magda não gostava de estudar. Colecionava namorados e admiradores. Não fazia questão de resistir às cantadas e, com um ou dois drinques, topava logo ir para cama.

    Com um deles, engravidou. Optou pelo aborto clandestino e as consequências de uma infecção uterina custaram-lhe a impossibilidade de ter filhos. Além das sequelas físicas, um trauma: nunca pensara em se casar, mas sonhava um dia ser mãe. No mínimo, dois filhos.

    Com a morte da avó e o descaso da mãe, Magda começou a busca por emprego. Não foi difícil. A cada entrevista, uma saia mais curta e alguns sorrisos bastavam. O currículo ficava para depois. Inúmeras promessas, sexo interesseiro e nada de emprego na prática.

    Foi quando uma amiga sugeriu que ela fizesse alguns programas com gringos. Pagavam em dólar. Dinheiro fácil. Já estava dando mesmo, por que não cobrar? Daí para se organizar e passar a ganhar a vida vendendo o corpo foi um pulo.

    Como Juliette, cobrava alto e não ficava sem clientes. A vida melhorou rapidamente e ela chegou a dar entrada num carro novo.

    Até a mãe, que havia cortado relações com ela, voltou a se aproximar. Tudo parecia estar indo bem.

    Um detalhe, no entanto, intrigava Juliette: por mais que tentasse evitar, quando estava trabalhando gozava quase multiplamente. Um contrassenso clássico.

    Os clientes desconfiavam que ela estivesse atuando. E exagerando na dose. Alguns chegavam até a reclamar que aquela farsa incomodava e que ela não ia conseguir enganar ninguém. Desfaçatez tinha limite.

    Mas Juliette não conseguia se controlar. E o pior, os orgasmos mais intensos vinham com aqueles mais improváveis.

    Eram senhores caquéticos, com barrigas enormes, carecas (alguns com peruca), e lá ia Juliette com seus orgasmos escandalosos. Quanto mais desprovidos fisicamente e com aparência desagradável, mais Juliette se sentia atraída.

    Ela, então, decidiu que aquilo tinha de parar. Precisava ser profissional. De agora em diante, se gozasse não ia demonstrar. Ninguém iria saber de suas sensações, preferências ou manias.

    No íntimo Juliette amava o que fazia. Podia ser sua vontade de ajudar o próximo, incontrolável atração pelo oposto, teratologia ou alguma consciência social. Não sabia explicar. O certo era que Magda havia nascido para ser puta.

  • A Bomba

    São tantas as guerras que a gente pensa que é assim mesmo…
    Que o ser humano é bélico por natureza… Pensando bem, o ser
    humano se parece com uma bomba…

    A bomba está prestes a explodir!

    Dentro do coração, do pensamento, num aceno, num senão.

    A bomba está prestes a explodir qualquer nação!

    Atenta e experiente na ganância dos seres, ela está prestes a explodir uma rua, uma vila, uma cidade inteira!

    Na televisão, vozes inflamadas pedem a bomba!

    Nos discursos raivosos das redes, vozes sem razão pedem mais bombas!

    A bomba esteve, está e estará na boca das gentes porque entendeu como funciona a coisa: divisão, ressentimento, validação, inveja e ambição a alimentam!

    Ao longo do tempo, a bomba está sendo muito bem alimentada!

    A bomba aprendeu que uma parte das criaturas humanas deseja a destruição, por isso, ela está prestes a explodir.

    Numa briga de trânsito, ela explode.

    Numa esquina incerta, ela explode.

    Numa discussão em família, ela explode!

    Na briga entre torcidas de futebol, ela explode!

    Na discussão política, ela explode!

    Nos discursos de ódio, ela explode!

    A bomba explode em todos os lugares e em várias situações para explodir de novo e de novo e de novo…

    A bomba será a nossa essência? Somos inevitavelmente explosivos?

    À espera de um simples deslize, a bomba aguarda a próxima explosão e nos aprisiona num ciclo interminável de poeira, cinzas e lamentação!

    A bomba está prestes a explodir!

    Em todas as guerras, sem exceção, a bomba explode… Seus fragmentos se tornam memórias ambulantes daqueles que sobrevivem…

  • Tudo começa com “veja bem…”

    Nada me irrita mais do que fazer uma pergunta simples e não receber uma resposta simples.

    Não estou falando de questões filosóficas ou existenciais. Falo de coisas objetivas mesmo.

    O mais comum é a pessoa simplesmente olhar para você e repassar a sua pergunta. É o típico eco humano:

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: O que achei da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    Tem também o contador de causos genealógicos, que sente uma necessidade irresistível de demonstrar sua prodigiosa memória — que começa em Adão e Eva e termina em lugar nenhum.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar?

    R: Bem… ele me fez lembrar de uma tia minha, sabe, tia Cotinha? Então, ela tinha uma funcionária que fazia uns bolinhos de chuva deliciosos. Eram de comer rezando! Ao final da tarde, bla, bla, bla…Mas, voltando ao que achei dessa trama, infelizmente, enquanto comia os bolinhos de chuva não prestei muita atenção.

    E ainda existe o professor involuntário. Fácil identificar: Se começar com “Veja bem…”, pode se sentar e esperar.

    P: O que você achou da trama desse filme que ganhou o Oscar? Gostou?

    R: Veja bem…Em se tratando da ambientação, acredito que reproduziu fielmente a época.

    Isso sem falar na escada de madeira bastante íngreme que subia para o segundo piso e fazia uma curva acentuada, típica das residências antigas. Agora, em relação à trama, considerando o contexto em que se desenrola, eu gostei bastante, e lá vem de novo: “veja bem…”

    Sou vítima frequente dessas três modalidades.

    E vocês, o que acham?

    Mas, por favor, respondam sem começar com “veja bem”.

  • Psicose

    Helenice costumava sonhar. Dormindo ou acordada. Desde mocinha. Seus pais contavam que ela adorava narrar seus sonhos, bons ou ruins.

    Os pesadelos mesmo começaram a partir dos vinte e poucos anos. Clássicos, como cair em buracos, despencar de prédios, ficar presa em recintos escuros, afogar-se ou assombrada entre fantasmas.

    No início não se deu tanta importância, Helenice era assim mesmo, pessoa ansiosa e com muita imaginação.

    Com o passar dos sonhos, um pesadelo se tornava recorrente: era possuída por um homem sem face que lhe morria em cima. Sem conseguir se desvencilhar do corpo, aflita, quase sem respirar, acordava coberta de suor e medo.

    Procurou ajuda na terapia. Havia teorias diversas sobre os sonhos, expressão do inconsciente e de experiências mal ou bem resolvidas.

    A terapeuta ouvia o relato dos seus pesadelos, procedendo com algumas anotações num bloco.

    — Talvez eu tenha medo do invisível, quem sabe bloqueio sexual, ansiedade ou algum tipo de sufocamento psíquico.

    A terapeuta ouvia calada e, quando comentava algo, era sucinta.

    — Os sonhos podem traduzir insatisfações e memórias de fatos ocorridos.

    Helenice aceitava as insatisfações, embora discordasse do “memória de fatos ocorridos”. Nunca ninguém morrera em cima dela. Ainda mais, durante uma relação sexual.

    O que incomodava mais Helenice era a aterradora sensação de não conseguir respirar com o peso de um morto sobre ela.

    — O que você pensa sobre a morte?

    Helenice não entendeu a associação dos pesadelos com a morte. Mas a terapeuta deveria saber o que dizia. Admitiu nunca ter parado para pensar sobre a finitude humana.

    A cada sessão, Helenice trazia uma novidade. Os pesadelos traziam agora sobre ela um gorila. Helenice sentia-se menos aflita. Adorava animais. Escondeu de todos, até da terapeuta, mas simpatizava mais com o gorila do que com o tal homem sem face. O gorila parecia mais humano.

    Helenice começou a se acostumar com seu pesadelo. O gorila em cima já não lhe pesava tanto. Afastava sua cabeçorra inerte e conseguia respirar um fiapo de ar. Ainda assim, acordava sempre nessa hora.

    A terapeuta seguia calada e anotava os possíveis significados inconscientes daqueles pesadelos.

    Helenice notou que ela passou a olhá-la de forma estranha. Temeu que a terapeuta lhe perguntasse se já havia transado com um macaco.

    — Você consegue ter orgasmos?

    Não eram múltiplos, se encaixavam mais no grupo de raros ou ocasionais.

    — Se masturba com frequência?

    Tinha um vibrador, cujo nome era Otávio.

    As sessões prosseguiam. Na noite anterior em que tinha exagerado na vodca, Helenice sonhou que transava com uma espécie de lagarto asqueroso, enorme.

    — Posso lhe receitar alguns remédios.

    Helenice começou a cogitar a hipótese de encerrar o tratamento.

    Mudou de ideia após o retorno dos pesadelos. Agora, um extra-terrestre a penetrava com um pênis longo e verde, para depois morrer sobre ela, emitindo sons agudos e inarticulados. Helenice destacou que sentira a ejaculação do ET. Era quase real.

    A terapeuta ponderou que o membro longo e esverdeado do alienígena podia revelar mecanismos intrínsecos do imaginário sobre prazer e sexo. O esperma do alienígena podia ressignificar seu desejo de engravidar.

    Helenice concluía que a terapeuta também tinha problemas.

    — Interessante, há aqui uma coincidente sucessão de filmes: “Homem Sem Face”, “Na Montanha com os Gorilas”, “Godzilla”, agora um ET…

    Com certeza a terapeuta devia achar que ela estivesse inventando tudo aquilo. Uma cinéfila pervertida ou debochada.

    A cada sessão, Helenice vinha com novos pesadelos. Agora era com o Homem-Aranha. Menos mal que não ejaculava. A terapeuta pareceu estar perdendo a paciência.

    — Se eu fosse você parava de ir tanto ao cinema.

    Helenice abandonaria o tratamento. Lidaria sozinha com seus pesadelos e transtornos. Antes só que mal analisada.

    Passado um tempo, numa noite sonhou com a terapeuta por cima dela, segurando uma faca, como no filme de Hitchcock. Era Helenice que agora perdia a vida.

  • Saída de emergência

    Trepida.

    Me vem, primeiro pelo barulho externo que pelo chacoalhar do corpo.

    Depois, o conforto de um ambiente climatizado.

    Estou em trânsito, como gosto, dormindo a caminho de um novo horizonte [muito embora, seja o mesmo de um momento anterior, que não é esse].

    Minha quilometragem fortalece os sorrisos que virão.

    Quero gozar do tempo que ainda tenho. Quero me dar o sabor de estar comigo mesma. Passear comigo. Tomar sorvete no parque, como se eu estivesse de mãos dadas com outras mãos, que não as minhas.

    O silêncio é extremamente necessário na vida.

    As desilusões, saídas de emergência.

  • Vênus sob cerco

    Diz-se, desde muito tempo, que somos de Vênus — a deusa romana do amor, da beleza, da fertilidade, da paixão.

    Talvez por isso tenhamos sido educadas, durante séculos, para preservar o vínculo a qualquer custo. Para compreender antes de julgar. Para acolher antes de confrontar. Para duvidar de nós mesmas antes de duvidar do outro.

    Essa disposição para o cuidado, que também é uma das maiores forças da experiência feminina, pode ser manipulada por quem aprende a explorá-la.

    O agressor raramente começa com a violência explícita. Ele começa com pequenas fissuras na realidade: uma frase que não foi dita, um fato que teria sido imaginado, uma lembrança que, segundo ele, está errada. Aos poucos, o chão da mulher vai sendo retirado sob seus próprios pés.

    Quando ela já não confia totalmente na própria memória, na própria percepção, na própria lucidez, torna-se mais fácil aceitar o inaceitável.

    Esse tipo de manipulação tem um nome: gaslighting.

    O termo vem do filme Gaslight (1944), estrelado por Ingrid Bergman. Na história, um marido manipula pequenos acontecimentos do cotidiano para convencer a esposa de que ela está enlouquecendo.

    Entre as formas de violência psicológica contra a mulher estão o isolamento, a vigilância constante, os insultos e essa distorção deliberada da realidade que corrói lentamente o amor-próprio, a autoconfiança e a sanidade psicológica — bases mínimas para uma vida digna.

    A violência nem sempre termina em morte física. Muitas vezes ela opera lentamente, em silêncio, antes de chegar ao seu desfecho mais brutal.

    E talvez seja por isso que o Dia Internacional da Mulher ainda seja menos uma data de comemoração e mais um momento de alerta.

    Segundo estimativas globais da ONU Mulheres, 85.000 mulheres e meninas foram mortas intencionalmente em 2023. Desses homicídios, cerca de 60% — 51.000 casos — foram cometidos por parceiros íntimos ou outros membros da família.

    Isso significa que 140 mulheres e meninas são mortas todos os dias por pessoas do próprio convívio. Em média, uma mulher ou menina assassinada a cada dez minutos.

    No Brasil, os dados mais recentes indicam que 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, o equivalente a cerca de quatro assassinatos por dia. Levantamentos divulgados em 2026 apontam que o número pode ter chegado a 1.568 casos em 2025, o maior já registrado desde que o crime foi tipificado no país, em 2015.

    Diante desses números, talvez a pergunta inevitável neste Dia Internacional da Mulher seja: o que exatamente estamos celebrando?

  • Ai, minhas orelhas!

    Ando com muita pena das minhas orelhas porque as pobres estão ficando de abano. Daqui a pouco vou precisar de uma plástica.

    Eu já havia detectado o problema por causa dos óculos que as coitadas são obrigadas a suportar e dos brincos que uso desde sempre. Mesmo tentando que ambas as coisas se tornassem cada vez mais leves, sentia que minhas orelhas se vergavam aos poucos, com uma contribuição nada desprezível da facilidade com que as cartilagens, e quase todo o resto do corpo, vêm abaixo com o passar do tempo. E a agravante de que na família há vários casos de surdez por velhice, o que torna grande a chance de no futuro acrescentar um aparelho auditivo a tudo isso.

    Para completar o quadro, agora as orelhas ainda têm que aguentar os elásticos e o peso das máscaras que usaremos permanentemente até sabe-se lá quando. É penduricalho demais para as frágeis orelhas.

    Médicos e outros profissionais de saúde vão dizer que isso não é nada comparado com a situação deles, forçados a usar máscaras durante horas. Compreendo que seja difícil, mas há uma grande diferença: tais pessoas escolheram a profissão e já sabiam das desvantagens. No nosso caso foi o tal do corona, com quem já estou perdendo a paciência, que nos trouxe esse sacrifício extra.

    Aguentem firme, orelhinhas! Vai passar.

  • Esquisito íntimo

    Esquisito:

    Palavrinha sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz. É um vocábulo inquieto; dito repetidas vezes e depressa, parece um chiado qualquer — dessas TVs antigas que saíam do ar e preenchiam a tela com pixels preto e branco dançantes. Uma quase hipnose.

    Quando não sabemos o significado de certas palavras, é fácil abstrair-nos de seus valores agregados e nos prendermos aos seus odores.

    Esquisito quase fede.

    Esquisito, em si, é um quase. É preconceito, em primeira instância. Algo que, à primeira vista — ou ao primeiro ouvido — soa ruim. Pode, entretanto, o esquisito ser apenas diferente; e o diferente é condição sine qua non para sairmos de nossos rótulos e padrões, muitas vezes nem sequer nossos.

    Esquisito, no final das contas, sempre é bom.

    Como é boa toda primeira vez — depois que vira memória.

    A primeira vez é esquisita por ser território novo: gotas de suor descendo pelas têmporas, respiração em ritmo de taquicardia, suspensão do tempo que, congelado, torna-se projeto à luz da recordação.

    Esquisita e sempre inesquecível: a primeira vez que saímos sozinhos, a primeira escolinha; o primeiro beijo, o primeiro emprego — e, consequentemente, o primeiro salário —, a primeira briga, a morte de um ente querido. Sentir-se só após um divórcio, a viúvez, a perda do próprio chão. A primeira medalha. A primeira vez que se faz algo errado, a primeira gota de álcool.

    E há também a primeira vez da primeira vez — aquela que inaugura o próprio corpo: a perda da virgindade, quando descobrimos que o amor, o medo, a curiosidade e a coragem podem caber todos no mesmo instante.

    O primeiro amor. Conhecer a família do namorado ou da namorada. A primeira vez que alguém sai do armário. O primeiro ato de liberdade. O primeiro “eu te amo” que alguém lhe diz sem ser família. A primeira vez que você vê o mar.

    Sempre é esquisito. Sempre um território novo. Sempre transformador — sensação sorrateira que passa pela boca aos pulinhos, estalando a língua como se estalasse cascas de noz.

    A primeira vez é um vocábulo inquieto: dito depressa, parece o chiado das TVs antigas que saíam do ar e enchiam a tela de pixels preto e branco dançantes.

    A primeira vez é sempre hipnose.

  • Tempos modernos

    Eu procuro entender um pouco sobre as máquinas. Procuro mesmo. É verdade! Não sou muito simpático a elas não! Sabe qual o problema? É o apertar de botões! Aperta aqui, aperta ali! Imagino Carlitos em Tempos Modernos, enlouquecido entre as engrenagens.

    Aperta aqui, aperta ali e as imagens vão se acumulando na tela do computador, uma após outra, sucessivamente. Não reparo muito em imagem alguma. O que importa nesse jogo não é o conteúdo, mas a velocidade. Minha cabeça parece enlouquecer! Mas a pergunta que me faço e que repasso a cada um de vocês é: qual será o futuro disso tudo?

    Estamos comprometendo uma parcela importante do nosso tempo e de nossas vidas ao maquinário, à tecnologia. Deixamos de viver, de beber, de comer, de sorrir, enfim, deixamos tudo de lado para olharmos fixamente o monitor.

    Seremos deletados porque nosso programa possui falhas! Adquirimos vírus! É absurdo, patético e irônico: as máquinas têm vírus! E como sofrem! Sofrem como nós! E nós, sofremos ainda? Não! Não mais. Estamos muito ocupados com o computador para pensarmos nisso!

    Quando o sistema cai o mundo inteiro também cai: não há banco, não há dinheiro, não há negócio, não há emprego, não há sonho. Ficamos à espera da manutenção! E esperamos horas e horas! Muitas horas!

    Há pessoas que não vivem sem verificar religiosamente os e-mails (caso não o façam há a possibilidade de entrarem em depressão). Há aqueles que deixam a vida toda registrada (fatos e fotos íntimos demais para serem compartilhados com qualquer um) nos sites de relacionamento para que o planeta todo veja e pense qualquer coisa a respeito. Ou não pense absolutamente nada. Há, ainda, os que se apaixonam e se encantam por namorados virtuais. Nada contra isso. Mas existe muito exagero!

    Eu realmente procuro entender um pouco sobre as máquinas. Escrevendo esta crônica agora vou levando os meus dedos sobre o teclado (e que diferença para a máquina de escrever) e pensando nas comodidades e na praticidade da vida moderna. Você pode acessar (olha aí, na linguagem também) qualquer informação sobre qualquer assunto na Internet. Pode, aliás, conversar com o mundo todo, literalmente. Mas há que se ter um cuidado, um cuidado apenas: não ser escravo desse aparato tecnológico.

    Posso andar despreocupado sem o fone no ouvido, sem o MP3 (e já inventaram o MP4 e, com certeza virão 5, 6, 7…), sem o iphone, sem a câmera digital, sem o notebook, sem o GPS, sem… Opa! Peraí! Acho que perdi… Perdi…

    Deixei tanta coisa pelo caminho que não sei mais o que é humano…

    A minha identidade. Aquilo que me marcava como ser único e pensante se perdeu. Em algum lugar entre o mouse e a webcam

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