Domingo

  • Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?

    Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!
    Para que a pressa?
    se preciso, eu, mais que vitaminas,
    do alimento para o viço que… reflete-me,
    [interna] e inteiramente?
    Que eu possa deleitar-me com o calor azul
    da caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio

    Eis-me inteira,
    num instante errante,
    naufragada no suor de
    não pertencer.
    Cá estou.

    Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro.

    Bate-me o peito em um não positivo.

    Eis me aqui. Intacta.

    Tempo, tempo…
    por que não fica para o café?
    Uma xícara, a água borbulha sobre o fogo…
    Fique, tempo! Me aceite.

    Tempo, tempo, tempo…
    passe logo, passe aqui, mas com alma!
    Que nossas pegadas sejam uma,
    ao sabor do que se apaga
    ao espreguiçar das ondas sobre a areia
    ao primeiro raio de sol

    Fique.
    faça de mim sua, senz’altro.
    Te espero
    Tempo, tempo…

  • MUSICALIDADES

    Nascera com o dom para a música. Precoce, Marília, com quatro anos já se aproximava do piano, como um beija-flor às flores. Uma profunda atração que deixava a todos impressionados. Com seus dois polegares tirava das teclas um som inédito. Futuras canções. A família, claro, providenciou uma professora.

    Aos seis, já arriscava o começo de algumas canções. Mas era mesmo no “cai cai, balão” que se realizava. Também esboçava, com o indicador, um “parabéns pra você” quase sem erros.

    Completava oito anos e a professora concluía que sua aluna não apresentava progressos. A bem dizer, quase uma nulidade. Não fosse a necessidade de ganhar uns trocados com as aulas, tinha comunicado à família que a pequena Marília talvez estivesse longe de ser um prodígio. Evitou dizer que havia grandes chances do contrário.

    Ainda assim, a professora admirava a sua tenacidade. A menina nunca desistia e não se cansava de ficar tentando acertar as notas e compassos. Sua mão direita era mais precisa que a esquerda. Ambas, ao mesmo tempo, é que causavam o entrave. Parecia não possuir a mínima coordenação.

    Aos doze, mudou de professora. A família achou por bem a troca, um novo professor, austríaco naturalizado, vindo de uma tradicional escola de música em Viena. O instrutor ideal para Marília se desenvolver.

    No começo, ainda mostrou melhoras, improvisando até uma pequena composição. Com o passar das aulas, no entanto, ficava clara sua inaptidão.

    O tal professor austríaco não resistiu muito tempo, decidindo abandoná-la, sem coragem de informar à família e à própria aluna que dali não sairia nenhuma pianista.

    Agora autodidata, Marília ainda impressionava por sua disciplina e força de vontade. Verdade que a família não mais disfarçava e se afastava a cada nova audição ou série de exercícios. Começavam as desconfianças.

    Os primeiros conselhos para que trocasse o piano por um outro instrumento, talvez um violão ou um acordeom, não a convenceram.

    Até que capitulou: desistiria do piano, mas nunca da música. Tinham ouvido falar muito bem da flauta doce…

    Foram, então, meses de inúteis e perdidos solos de flauta. Depois vieram as tentativas de gaita de fole, pianola, baixo elétrico, harmônica e percussão. A família acompanhava tudo, apreensiva.

    Aos dezoito, enfim, uma possível habilidade: a bateria. Porém, sua famosa dificuldade de coordenação dificultava a cadência.

    Alguns anos e ela também abriria mão da bateria, embora jamais passasse por sua cabeça abandonar a música. Esta, genuína vocação, fazia parte de sua alma, desde pequena.

    Tentaria o batuque na caixa de fósforos. Marília era boa nisso…

  • De Diva de Cinema à Madame Mim na Flórida

    Sempre admirei o glamour dos cabelos ao vento. Grace Kelly, Audrey Hepburn, Tippi Hedren… todas sabiam, como ninguém, enrolar as madeixas em um lenço de seda, solto o bastante para deixar escapar charme e liberdade. As cenas de Ladrão de Casaca, Charade e The Birds me provocavam sonhos de princesa: eu, num conversível, óculos escuros, lenço estampado e vestido decotado, enquanto uma brisa perfumada acariciava meu rosto.

    Eis que a vida me presenteia com a chance de transformar fantasia em realidade. A bordo de um Mustang vermelho conversível — ícone de mais de 3.800 produções hollywoodianas — eu faria meu début pelas estradas da Flórida. Escolhi vestidos leves, lenços estampados e até ensaiei, diante do espelho, o gesto charmoso de ajeitar o tecido no pescoço.

    O carro, recém-saído da locadora, veio chegando com toda pompa de um astro de cinema. Fiz uma reverência — não de adoração, mas de necessidade: para entrar, precisei quase me agachar, já que os bancos pareciam instalados no nível do asfalto.

    Uma vez emparedada no cockpit, pernas quase horizontais, respirei fundo. Não importava o aperto: logo sentiria o frescor dos cabelos ao vento.

    Capota baixada, lá fomos nós, rumo a Key West. O que eu não previa: temperatura de 38 °C, sol a pino, céu de brigadeiro. O meu lenço à la Grace Kelly se transformou, em segundos, num abafador de panela de pressão. O calor vinha de cima para baixo e de
    baixo para cima — o carro parecia uma chaleira sobre rodas. Eu, a iguaria em preparo.

    E os cabelos esvoaçantes? Ah, o cinema me enganou! Em vez de ondular delicadamente nas pontas, escapavam pela testa e pelos lados, grudando no batom e no suor. O lenço não parava no lugar; parecia ter vida própria. Resultado: uma cortina desgrenhada de fios colados ao rosto e uma maquiagem que derretia como sorvete no asfalto.

    Olhei no espelho retrovisor, esperando uma diva. Não vi Grace Kelly. Nem Audrey Hepburn. Nem Tippi Hedren. Vi, sim, Madame Mim versão churrasquinho: desgrenhada, vermelha como pimentão e com o glamour de um pastel de feira recém-frito.

    Me recuso, porém, a assistir A Espada Era a Lei!

  • “digitando… ”

    |

    Um traço vertical. Pisca, pensativo, opressivo; poético.

    Acho que assim, quase girando o travessão introdutório, na busca pela correspondência de (um) outro, nos injetamos, como tentativa científica, numa releitura d’um passado literário:

    Trocamos cartas, quase como que acendendo um cigarro à mesa de um café de iluminação lúgubre, jazz no fundo, um barman meio ranzinza a enxugar louças e vidros, solitário.

    Uísque.

    Na única mesa redonda ocupada, um casal.
    Casal de poetas conhecendo-se.
    Flertando com a rima que enxerga o narrativo; o tom, e não a beleza do outro.
    Há ausência do encontro.
    Há frequência do oposto.

    Um traço vertical.

    |


    De repente, a linha imperativa deita-se

    _

    Desmancha-se em circunferências pululantes. Três.

    Reticências

    Duas pessoas podem, paradoxalmente, preencher xícaras fumegantes à distância. Dedilhar acordes. Entoar palavras baixinho costurando o tempo e qualquer afastamento.

    Encontramo-nos

    justos, apertados, acariciados e no não-existir-e-esperar de uma tela iluminada ao alcance das mãos

    Dedos que abraçam uma caneta esferográfica: reflito.

    Na mão que me rotula destra ou canhota, dedos avançam na comunicação do meu corpo estrutura emocional e sensorial que não mais espera e esperneia para além tudo instantaneamente.

    Na margem branca entre uma caneta e outra

    no pulsar ritmado de um cursor em linha rígida, ditam e de gélido recado – cheia
    de nuvens – do outro lado da interface, espera

    “digitando… ”

    hesitação
    o quase
    o inteiro no “pronto.., foi ”

    Digitando a paga -se an tes da palavra,

    Ganhou forma na perda de seu sentido

    A carta incendeia ainda no ventre da máquina.

  • Quando duas palavras resolvem morar juntas

    “Sentipensante” — A primeira vez que li, acho que num texto relacionado à física quântica (o que só piorou a situação), achei que era um erro de digitação. Fiquei curiosa tentando decifrar o significado dessa estranha palavra, para mim meio parecida com CatDog (lembram do seriado?) ou de uma aberração ainda maior: o Feijoaçaí. Só de pensar, me embrulha o estômago.

    Corajosa que sou, fui em frente na leitura e descobri que “sentipensante” é uma palavra híbrida, dessas que misturam o frio da cabeça com o calor do peito, sem pedir licença para nenhuma das duas. Lindo isso, não? Fiquei íntima dela e agora, quando alguém questiona uma decisão minha que briga com a razão ou com a emoção, eu logo retruco: sou Sentipensante e coloco um ponto final.

    Logo imaginei que “Sentipensante” poderia ter vários amigos híbridos — quem sabe até formassem um grupinho nas redes sociais, daqueles discretos, mas cheios de opinião.

    Fui atrás e descobri a Escrevivência, boa para um papo longo de botequim. Lá nos sentamos, e ela me lembrou de que não existe escrita sem vivência — queijo com goiabada: um não existe sem o outro. O que estava eu fazendo, então, que não entrava a fundo na minha vida vivida para colocar no papel?

    Comecei, então, a rebobinar a meu passado, à procura daquele negativo nunca revelado que ficara na minha câmara escura, sem nunca participar do set da minha escrita.

    Mas aí a Experipensante, que observava o papo de outra mesa, se meteu: alto lá! Não se pensa antes para depois viver, pensa-se vivendo. Então corre lá viver isso tudo que brotou aqui. E eu, sem pedir licença — e talvez um pouco empolgada demais — inaugurei uma outra palavra: Expersentipensante. Até sorri da minha ousadia. Só faltava colocá-la em prática.

    Resumo da ópera: a língua inventa palavras porque a vida não cabe mais no dicionário. Aí surgem palavras híbridas que, como na vida, decidem morar juntas — mesmo que o dicionário torça o nariz.

  • A vida como deveria ser

    A gente pensa na vida como algo a ser resolvido depois porque tem urgências urgentíssimas sempre por fazer!

    E esquece, com isso, a flor, o amor, o amar, o mar e as rimas todas que estão no ar.

    A gente pensa que tem tempo, mas tempo, na verdade, não há!

    E esquece aquele encontro, o jogo com os amigos, simplesmente ficar de papo para o ar!

    A gente deixa o cinza e o concreto e o sinal fechado interromperem a fluidez das relações, a espontaneidade das coisas e, quando vê, não há mais nada o que fazer.

    A urgência mesmo é a própria vida nas suas explosões e contradições.

    A urgência simples das coisas é viver a vida a cada dia…

    A urgência urgentíssima é sentir, olhar, perceber, respirar, encontrar, fazer acontecer na conversa na varanda entre samambaias.

    Nas risadas entre um jogo e outro de futebol. Nos olhares cúmplices de irmãos trocados na cozinha e nas palavras que deveriam ser ditas e foram ditas… A vida no seu cotidiano!

    Que tal escrever aquele poema que estava esperando sair do papel?

    Que tal subir uma montanha e gastar os pés e o calçado?

    Que tal parar tudo e escutar o som da própria vida?

    A vida como deveria ser…

  • BELINDA diante do espelho

    Belinda talvez fosse uma sonhadora. Incurável.

    Não era bonita. Sonhava com o conceito de formosura, camuflado em todas as coisas. Quando ouvia Milton Nascimento na introdução de O que será? (À flor da pele), conseguia enxergar toda a beleza.

    Ouvia dos amigos que o lado físico não era tão importante. Havia o exótico, o magnetismo, a beleza interior. Belinda fingia concordar, mas passava horas no espelho, buscando encobrir vestígios de imperfeição no seu corpo. A verdade era que sempre dera total atenção à aparência.

    Preocupada com o visual, fixava-se nos detalhes, assimetrias ou características que fugiam aos padrões de beleza. Implicava com estrias, sardas, celulite e qualquer mancha na pele. Seu maior problema era o que os outros achariam dela.

    Tinha os dentes um pouco afastados, mas não se dava conta que eram um charme. Os ombros, um pouco largos, tentava disfarçar com vestidos. Achava os lábios grossos, sem perceber serem ótimos para beijar. A longa cabeleira ruiva recebia exagerada hidratação com óleos vegetais e queratina. Toda noite, antes de se deitar, o ritual de limpeza facial, sem que conseguisse evitar o constante aparecimento de espinhas. Sua preocupação com a imagem acabou por se tornar uma obsessão.

    Era complicado, mas teria de superar seu complexo de feiura. Está certo que seu nariz meio adunco não cooperava. Mas ninguém era perfeito. Seus um metro e cinquenta e dois de altura podiam ser resolvidos com saltos plataforma. Baixinha, mas com classe e equilíbrio.

    A fim de se sentir mais confiante, fez uma tatuagem com os dizeres “Eu não sou a minha imagem” na parte inferior direita do abdômen, por cima da cicatriz da operação de apendicite.

    Não costumava sair de casa. Adorava ver filmes, mas nunca ia ao cinema. Preferia a televisão. Revia diversas vezes a versão clássica de Zefirelli do amor trágico de Romeu e Julieta. Sua cena predileta era quando Julieta tirava a própria vida ao ver o amante morto. Belinda era dramática.

    Essencial era evitar a negação psicológica. Até admitia a existência de gordura localizada na cintura, mas considerava um suplício abrir mão da batata frita, do pudim de leite e dos bombons. Juntaria dinheiro para comprar umas canetas emagrecedoras. O importante era ela se sentir feliz com o seu corpo. Belinda seguia tentando.

    Numa noite, enquanto retocava a maquiagem, a grande epifania. Resolveu apagar a luz e olhar-se no escuro. Pela primeira vez viu, no breu, o seu verdadeiro rosto. Ou aquilo que gostaria de ter visto. Acendeu a luz e, com calma, retirou toda a maquiagem e reconheceu seu melhor ângulo na coragem de se mostrar como era, sem artifícios ou truques. Chegou mais para perto do espelho: Belinda, cabelos vermelhos, sardas, meio dentuça, bocão, acima do peso, celulite, espinhas pela cara e imperfeita como toda gente.

    Sempre que ouvia a ária de La Bohème, quando Mimi (Lucia) canta a sua paixão pelo primeiro sol da primavera, as lágrimas rolavam pela face, tomada de espinhas. No fundo, era uma feia romântica. Incorrigível.

  • Colóquio – simples e grandioso demais – de um café da manhã domingueiro

    — Eu queria tomar um café com alguém que parecia um livro interessante, mas dormi antes de chegar ao primeiro capítulo — disse Clara, mexendo o café fumegante, como que procurando um tête-à-tête com a leitura da borra, submersa, no fundo da xícara.

    Joaquim não ergueu os olhos do caderno.

    — Isso soa como frase de alguém cansada.

    — É exatamente isso.

    — Não. Parece uma frase de alguém que está tentando transformar cansaço em teoria.

    Ela riu.

    — Ainda me surpreendo com esse seu super poder de ler minha mente, gêmeo insuportável.

    — Eu conheço o começo da crônica antes de você.

    Ela levou a xícara aos lábios e fez uma pausa. Do lado de fora, mesmo sendo domingo, a cidade seguia seu costume de correr para algum lugar urgente: pneus arrastavam-se pelo asfalto da avenida. Portões metálicos recolhiam-se como quem se espreguiça. Portas batiam, entre o abrir e o fechar. Cachorros latiam. Alguém discutia ao telefone nalguma varanda vizinha. Aos fundos, os Dois Irmãos permaneciam imóveis, como fazem as montanhas e os irmãos que já disseram tudo um ao outro. Entre os de pedra e os de carne – estes, gêmeos -, a primeira manhã de inverno seguia seu curso quando Clara quebrou o ruído branco à mesa.

    — Outro dia li que existem milhões de brasileiros solteiros.

    — 81 milhões, segundo o Instagram. E, claro, você resolveu investigar.

    — Resolvi pensar.

    — O que é ainda pior.

    Ela ignorou a interrupção.

    — E me ocorreu que talvez boa parte dessas pessoas – nós, inclusive – não esteja solteira por falta de amor.

    — Mas?

    — Deduzi que estamos todos exaustos.

    Ele finalmente levantou os olhos.

    — Ah.

    — Ah?

    — Agora chegamos à crônica.

    Ela apoiou os cotovelos na mesa.

    — Trabalhamos demais. Sonhamos demais. Pagamos boletos demais. Focamos em construir carreiras pensando nas aposentadorias de um mundo com regime CLT em extinção… Estamos sempre falando de projetos, empresas, casas, versões melhores de nós mesmos… E, quando encontramos alguém interessante…

    — Dormimos.

    — Exatamente.

    — Isso é quase ofensivamente contemporâneo.

    Ela sorriu.

    — Você está dizendo que o desencontro de hoje em dia não é geográfico?

    — Não, Joca… se fosse isso, a internet já teria resolvido.

    — Tampouco cronológico?

    — Ah-ãh — Clara complementa a fala com o dedo indicador em riste, de um lado para o outro.

    — Então..?

    Ela apontou para a própria xícara.

    — Energético.

    Ele riu.

    — Essa palavra vai irritar metade dos seus leitores.

    — E a outra metade vai se sentir representada. E brindar com o café. – E erguendo a xícara para o irmão, disse:

    — Tim-tim!

    Ficaram em silêncio por alguns segundos.

    — Então o café não aconteceu.

    Ela o encarou.

    — Como você sabe?

    — Porque, quando acontece, você não escreve sobre ele.

    Ela tentou conter o sorriso.

    — Talvez.

    — Parecia interessante?

    — Parecia um livro interessante.

    — E?

    — Dormi antes do primeiro capítulo.

    — Isso realmente não é lá muito você.

    — É, pois é.

    Ela largou a lapiseira sobre a mesa.

    — E o pior: nem foi desinteresse. Foi apenas exaustão. A semana foi intensa, quase não consegui dormir. Imagine a pessoa aqui — apontou para si mesma — trocando um café por um travesseiro, sem qualquer heroísmo…

    — Escandaloso.

    — Eu achei.

    Ele voltou a rabiscar.

    — Então essa crônica é sobre homens?

    — Curiosamente, não.

    — Claro que não.

    — Como assim, claro que não?

    — Porque você nunca escreve sobre homens quando diz que está escrevendo sobre homens.

    Ela cruzou os braços.

    — E sobre o que estou escrevendo?

    — Ainda não sei.

    — Plantas.

    Ele assentiu, como se já soubesse.

    — Faz sentido.

    — Ah, é?

    — Você comprou um girassol, uma gelosia e uma ficus na semana passada…

    — E?

    — E já transformou todas em personagens.

    Ela fingiu indignação.

    — Das três, apenas a de folhas grossas e tronco mais vigoroso parece sobreviver ao meu ritmo.

    — A Magda.

    — A própria.

    O silêncio voltou a ocupar a mesa.

    — Então essa é a metáfora? — perguntou ele.

    — Quem sabe…

    Ela observou a espuma que resistia na borda da xícara.

    — As plantas que exigem presença constante sofrem comigo. Água na hora certa. Sol na hora certa. Atenção na hora certa.

    — E os homens?

    — Talvez padeçam pelo mesmo motivo. Mas homens não são plantas. Convenhamos.

    Ele terminou de escrever alguma coisa numa folha do caderno e a arrancou. Empurrou o papel para o outro lado da mesa.

    “Não julgamos os livros pela capa; às vezes só
    chegamos cansados demais ao primeiro capítulo.”

    Clara sorriu. Lá fora, a cidade continuava correndo. Ali dentro, entre duas xícaras de café e um punhado de folhas rabiscadas, surgia uma descoberta simples e grandiosa demais, partilhada entre duas mentes da mesma safra, para um domingo comum:

    Bem provável que o amor contemporâneo não esteja morrendo. Provável — muito provável — que estejamos, todos, apenas frustrados demais com tamanha falta de agenda.

  • Fantasias

    — O que foi dessa vez, Noêmia?

    — Sei lá. Não está funcionando.

    — Você sabe o trabalho que me deu arrumar essa fantasia de bombeiro, né?

    — Calculo.

    — E não era isso que você queria? Um bombeiro para apagar seu fogo com uma mangueira enorme?

    — Então…

    — Então, o quê?

    — Mangueira enorme, uma piada…

    — Sem ironias, Noêmia.

    — A questão foi que você não ficou bem de bombeiro, meu amor.

    — Sério isso? Já tentamos piloto de avião, você implicou com o meu quepe; vim de médico e você reclamou da falta de um estetoscópio; inventou um salva-vidas e faltou a boia. Agora a mangueira é o problema. Assim não dá.

    — Tive uma ideia.

    — O que será dessa vez, Noêmia?

    — Super-heróis. Sempre tive atração por super-heróis.

    — Pronto! Só falta agora me vestir de Batman.

    — Não, você está mais para Robin.

    — Que tal, He Man?

    — Inviável, você não tem a “Força”. Tinha pensado no Homem-Aranha.

    — Não acredito!

    — Você até se parece um pouco com o ator que faz o Peter Parker.

    — Nem sei quem é.

    — Começamos a conversar e você já mostra um desânimo danado. É broxante, sabia?

    — Você levou em conta, Noêmia, que aquela fantasia de Homem-Aranha deve dar um calor danado? Está fazendo quase 38 graus.

    — Ligamos o ar.

    — Não vai dar certo.

    — Você não disse que faria tudo para me satisfazer?

    — Mas não me desidratar.

    — Então, o Hulk.

    — O da televisão?

    — Não, o verde.

    — Onde vou arranjar tinta para o corpo? E também vai sujar a nossa cama toda.

    — Pensei também no Homem de Ferro, mas acho que não vai combinar com você…

    — Por quê?

    — Deixa pra lá. Apaga a luz. Vamos dormir.

    — Ei, Noêmia, sabe o que pensei? Posso me fantasiar de Wolverine. O que você acha da ideia?

    — Você está mais para Professor Xavier, querido.

    — Depois não vá reclamar que não quero participar das suas maluquices.

    — Wolverine é demais, meu amor. Deita e dorme.

    — O que foi agora, Noêmia?

    — Pensei na Mulher-Maravilha.

    — Fantasias homossexuais a esta altura?

    — Por quê, não posso?

    — Não vou passar por esse ridículo.

    — Bobagem, você ficaria uma graça de maiô com cinto e uma peruca.

    — Sem chance…

    — E aí, Noêmia, gostou?

    — Foi bom. Mas rápido demais.

    — Mas você não pediu o The Flash?

    — Não era ao pé da letra. A rapidez era só para tirar a minha roupa.

    — Sabe de uma coisa, melhor deixarmos pra lá esse negócio de sexo com super-heróis.

    — Logo agora que eu tinha pensado no Thor?

    — Desisto…

  • O Rei, o poeta, a mulher e o mar

    Conto publicado no livro O rei, o poeta, a mulher e o mar

    Um reino é algo muito sério. É algo místico, um poema, embora inacabado – posto que um reino situa-se no lugar dos sonhos, em terras longínquas da memória – mas vivo e pulsante. Tudo já se desfez, tudo se desfaz e tudo ainda está por se desfazer. Uma canção do tempo sem tempo.

    O rei, homem culto, sabedor dos livros, das histórias de paz e das histórias de guerra, era angustiado ser. Conhecia das nuvens o mistério, dos gritos do mar os apelos, da musicalidade do tempo o motivo. Conhecia os palmos, os metros, os quilômetros, enfim, a extensão real e a extensão imaginária do seu reino. De cor e de olhos e de boca e de memória sabia os rios, as matas, as aves, os bichos todos. Sabia os rostos e os nomes dos soldados vivos e mortos do seu exército.

    Quando abria as mãos, as linhas que se desenhavam nas palmas pareciam os limites, as fronteiras postas, justas, expostas. Aquelas que se alargariam com o tempo e com as batalhas e com o sangue de muitos.

    O rei fitava, do alto da torre mais alta e mais larga, tudo o que conquistara e tudo o que deixara: mocidade, amores, filhos…Vislumbrava uma riqueza sem tamanho e sem medida. Entretanto, o que há pouco tempo era motivo de orgulho e sagacidade, transformara-se em silêncio e tristeza. Silêncio primeiro.

    Tristeza depois.

    Os barcos iam e vinham do leste a oeste, de uma ponta a outra, com o frio e com o calor… Inúmeras bandeiras: vermelhas, amarelas, azuis e brancas…

    Velas e mastros inúteis. Marujos e mais marujos imprestáveis! Muralhas, pedras, visgos estéreis. Exército desassombrado de espadas sujas e pó. Heróis e nada.

    Léguas e léguas e terras e terras sem fim. Havia um fim. O homem que sabia e tinha tudo e que era senhor das coisas e de outros homens e de outros sonhos não via mais sentido em nada.

    De súbito, deixou o trono, no canto largou também as vestes reais, depositou a coroa sobre a mesa e de si para si pensou que o viço do mar o vislumbrava, que o barulho das ondas o chamava, que o cheiro do amor o excitava…

    Do grito do mar os apelos. Os apelos. Os apelos!

    Abriu as grandes portas de madeira e os soldados, mudos e espantados, não ousaram perguntar o motivo da nudez real. O rei, por sua vez, olhou um a um, de cima a baixo. Homens servis e sem vontade própria. Apenas temor e obediência. Basta!

    Avançou para o pátio e a guarda, também atônita e silenciosa, acompanhava os seus movimentos cada vez mais rápidos, cada vez mais decididos. Após atravessar toda a extensão do pátio central chegou ao portão primeiro, àquele chamado de principal. Do mesmo modo, os que guardavam mais uma entrada nada disseram, nada fizeram…

    A rua, as ruas. Pequenas. As casas, as pessoas, os bichos, as plantas, todos olhavam para o rei. Este, com passos largos e firmes, seguia em direção ao cais. Os apelos do mar!

    Mas eis que um velho e louco poeta o interrompe. Estava nu! Um rei nu! Não podia estar nu! Ninguém ousara dizer, contudo, ele dissera. Estava nu e pronto! Imagine um rei nu! Prestava-se a um papel ridículo!

    Os olhos reais, graves e sérios, emudeceram o poeta. Não! Não estava nu! Estava livre… Completa e absurdamente livre! O reino era uma coisa inventada, um poema, um conto quem sabe! O rei, uma peça, um senão, um coitado! O que diria o poeta com as suas mais belas e fortes palavras? Hein? Escreveria sobre o ouro do sol e das paredes do palácio, das tempestades e do mito real destroçando um monstro marinho. Heróis e nada! Os apelos do mar… Nem mesmo as palavras o prenderiam… O poeta, estupefato, tentou tocar-lhe o ombro, no entanto, a decisão estava tomada: era o mar. E prosseguiu acelerado rumo ao cais. Maravilhado pela vontade real, o poeta resolveu acompanhá-lo, mudo, mas feliz em ver um homem tão firme em seus propósitos.

    Agora dois homens buscavam o mar.

    A medida em que caminhavam, deixavam mais pessoas boquiabertas. Vilas ficavam para trás. E outros bichos e outras gentes contavam a respeito do rei nu e do velho e louco poeta que atravessavam o reino em busca do mar. Dois homens que andavam firmes e ligeiros. Dois homens apenas…

    Uma mulher.

    E isso tem significativa importância para uma história – qualquer que seja – a presença de uma mulher. Não era tão bela, não era tão baixa, não era tão triste. Uma mulher que carregava um enorme saco, o rosto cansado, cabelos longos e claros e os olhos que denunciavam lágrimas de outrora. O poeta a viu. O rei a viu. A mulher os viu. Postos os olhares e as almas, a mulher largou o que tinha e os seguiu sem dizer palavra. Sentiu-os como a brisa, sentiu-os como o mar… O rei estava livre, o poeta estava absorto e a mulher… Bem, a mulher levava consigo os pensamentos, o coração e os sentidos de uma mulher…

    O mar já próximo estava daqueles três seres. O cheiro e o sabor das águas tomavam cada qual de um jeito: a excitação real, a translucidez do poeta e os sentimentos da mulher. Força, palavra e coração. Vento, barco e desejo.

    O último obstáculo: a montanha do sul. Elevada formação rochosa. Pedra. Pedra-pedra. Pedra-só. Pedra inteira e decididamente pedra. Três criaturas que voavam pelo caminho, deixando poeira e mais gentes e bichos perplexos. A história do rei e do velho poeta agora contava, também, com uma mulher de olhos cansados. Decerto desamara a infeliz. Desamara a vida. Desamarrara, no entanto, o que havia feito, pensado, sentido. Estava pronta para o que ainda não fizera, pensara ou sentira.

    O vento forte daquelas terras castigava todos os três. De mesma forma. Mesma medida. Pele seca, carne pouca, mãos pesadas, ouvidos raros, porém, olhos acesos e pisadas precisas… Toda pedra tem sua função de pedra. Toda pedra tem sua porção de mal: machuca, rala, corta, sangra, corta, rala, machuca, sangra, corta. Mas passa.

    O mar… O mar já se via! O mar já se via! Ah! O cheiro do mar e o gosto do mar e o sabor das ondas… As águas e os olhos. Assim como um poema breve, como um poema apenas. E os três caminhantes respiravam já o mar, sentiam o que se tem para sentir quando se busca o mar: amor água sal vento vela palavra muda descoberta.

    Não demorou nada e as mãos reais tocaram as águas e as lágrimas da mulher e as palavras do poeta se misturavam àquela cena. Um barco queria. Um barco só. E os homens que estavam no cais não disseram coisa alguma, apenas consentiam com o baixar de cabeças. Tomou-lhes o barco branco, cujo nome, AURORA, fazia gosto, desde o primeiro olhar, ao coração da mulher.

    Sobreveio a chuva.

    As amarras foram retiradas e os ventos desenhavam as ondas e o amor impulsionava a embarcação. Uma nau e sua pequena tripulação. Todos os que assistiam tão insensata cena, horrorizados estavam com o tempo e com a chuva e com os fortes ventos. Ninguém vai ao mar assim! Ninguém vai ao mar assim! O que se quer é a morte. O que se quer é o fim…

    Mas.

    O rei, o poeta e a mulher não responderam. Não olharam para trás. O barco, a nau, os sonhos, o que quer que sejam, estavam soltos estavam no mar. Eles eram o mar agora.

    Nenhum ser daquele reino jamais voltara a vê-los. Entretanto, no dia da partida não anunciada, os que se lembravam do rei, do poeta e da mulher, guardaram nos olhos, na cabeça e nos sentidos vários o último contorno da embarcação na linha do horizonte…

  • A Copa das geladeiras

    Existem fenômenos que a ciência ainda não conseguiu explicar.

    As pirâmides do Egito.

    A matéria escura.

    O motivo pelo qual abrimos a geladeira durante os jogos da Copa do Mundo.

    O melhor é que todo mundo faz isso. Se você está assistindo a Copa do Mundo com um grupo em sua casa, veja bem se não é assim mesmo.

    O jogo está empatado, faltam três minutos para acabar, o atacante avança pela direita, o estádio inteiro prende a respiração… e quem está no meio do sofá empurra os outros e se levanta para verificar se, por acaso, surgiu um pedaço novo de queijo desde a última inspeção realizada há exatos quatro minutos.

    Outro, torcedor fanático, rói as unhas.

    A amiga, que não entende nada de futebol, caminha pela sala torcendo as mãos.

    Independentemente do método escolhido para lidar com a tensão, mais cedo ou mais tarde todos acabam diante da geladeira.

    Lógico que são pessoas íntimas, mas, em circunstâncias normais, nenhum deles mantém uma relação tão próxima com a minha Samsung Duplex.

    Quanto mais decisivo o jogo, mais frequentes as visitas.

    E tem inserções específicas por perfil:

    – O fiscal de refrigerante, que conta quantas latinhas ainda sobraram;

    – o explorador de potes, que abre recipientes à procura de algo que não sabe nem dizer o que;

    – o supersticioso, que procura por um raminho de quatro folhas na gaveta de hortaliças;

    – e o peregrino da luz branca, que apenas contempla o interior da geladeira em silêncio, como quem procura respostas existenciais entre a margarina e o pote de azeitonas.

    Na final da Copa, a porta da geladeira passa mais tempo aberta do que fechada.

    Talvez a Copa não revele apenas como torcemos.

    Revele como esperamos.

    Porque diante da ansiedade, da incerteza e dos noventa minutos que parecem eternos, fazemos o que os seres humanos sempre fizeram: procuramos conforto.

    Alguns encontram na fé. Outros na estatística.

    Nós, brasileiros, procuramos na geladeira.

    E, quase sempre, encontramos apenas a mesma garrafa de água que já estava lá no primeiro tempo.

    Mas voltamos.

    Porque a esperança, assim como a Copa, é uma coisa que se alimenta sozinha.

  • Voos mais altos que nós mesmos

    O piso são nuvens; entre o céu e a terra, tal qual um dito rodapé, eis o cinturão cintilante que traz a cor das bagagens, no compartimento acima da cabeça e no nível do pé: laranja e amarela. Sigo fotografando estrelas sobre o oceano, a 12km de altitude, alaranjando a escuridão que me faz perceber Avior brilhando perto da ponta da asa metálica que me atravessa a madrugada e tantos tempos.

    Após turbulências tantas em terra, céu de brigadeiro, enfim.

    Enquanto isso, sem porto, me aproximo do lugar que meu pai me guarda. Trago a alma leve; no clarear do dia, Romeu e Julieta, versão Los Hermanos, chega-me ao coração pelos ouvidos.

    Tudo se ajeita depois das tempestades. A vida é a urgência das coisas extraordinariamente simples do dia-a-dia.

  • VÂNIA está nua

    Vânia sempre sonhou morar em Santa Teresa. Tinha um monte de amigos por lá. Frequentava os bares da moda, andava de bonde e se admirava com a quantidade de centros culturais e casarões históricos, subindo e descendo pelas ladeiras de paralelepípedos e trilhos.

    Todos tinham cara de artistas ou se vestiam como artistas. O bairro respirava boemia e contracultura e isso a fascinava. Pontos de artesanato e ateliês em cada esquina.

    Conseguiu alugar um apartamento no Largo dos Guimarães, lugar icônico do bairro. Vânia teve sorte. Uma amiga voltou para sua cidade natal e passou o aluguel para ela. Não era amplo, mas charmoso e bem decorado. Na cozinha, mal cabia a geladeira. Secar a roupa era uma complicação, o sol da tarde não ajudava. O cafofo era descolado, embora úmido no inverno. O maior atrativo era a vista. Da sua janela via um casarão antigo e, mais ao lado, o ponto de parada do bondinho. Bem perto, lojas de artesanato e um mercadinho de secos e molhados.

    Vânia se sentia no paraíso.

    Na janela do casarão que dava para seu quarto, Vânia começou a notar a presença de um rapaz de cabelos longos, barba e óculos escuros, que ficava olhando fixamente para dentro do apartamento dela. A antiga moradora não havia colocado cortinas, para a claridade entrar e ela acordar cedo. Dizia ser saudável despertar com a luz do sol. Vânia reparou que o tal rapaz não era feio. Quando ela o encarava, ele olhava para o céu. E assim ficava por um bom tempo. Esquisito.

    Ela se sentia invadida, vigiada. Total desconforto com aquele homem da janela do casarão. Não podia nem andar de calcinha e sutiã. Quando saía do banho, tinha que passar enrolada com a tolha no corpo. Todo o tempo, ele lá, firme, como uma sentinela em seu posto de observação.

    Resolveu enfrentá-lo, foi até a janela e mostrou o dedo do meio. Ele pareceu não se intimidar. Permaneceu olhando o céu, com o semblante mais deslavado do mundo. Até aparentava sorrir. Além de voyeur, um debochado.

    De um amigo a quem contou o que acontecia, ouviu a dica direta: “Fica logo pelada, amiga, que ele vai terminar cansando. Tipos assim gostam do suspense, da surpresa, têm o prazer de observar as pessoas na intimidade, mas não curtem a nudez escancarada”.

    Vânia simpatizou com a ideia, ainda mais que, sem querer admitir abertamente, estava começando a se interessar pelo vizinho estranho. Quem sabe, ele se animava e fazia contato, em vez de ficar só espiando com cara de pateta.

    No início, ela ficou inibida de passar nua pela janela. Como tivesse um corpo bonito e desejo de ser notada por isso, não demorou a, não só se despir, como também ensaiar poses eróticas. Passava a mão pelos seios, virava de costas e se abaixava, jogava os cabelos para trás e repetia caras e bocas. Colocou até música e experimentou um strip-tease amador.

    E o bonitão de óculos escuros lá, impassível. Olhando tudo para depois esquecer do mundo, enebriado com o céu. Coisa mais sem sentido. O que será que esse idiota vê lá em cima? Eu aqui, nuazinha em pelo e ele com essa pose de filósofo grego. Que se foda…

    Vânia resolveu esquecer o voyeur da janela e tratou de seguir a vida. Já se acostumara com a presença dele por ali, uma costumeira
    rotina.

    Em uma festa com amigos, ela soube que aquele seu vizinho era deficiente visual. Bastante conhecido no lugar, figura querida, sempre de bom humor e falante com as pessoas. Tinha a mania de repetir que era cego, mas conseguia ver as estrelas.

  • Comédia romântica

    Quando dois olhos se olham de uma maneira inesperada e se encontram e se sabem tão íntimos e tão inteiros, sente-se o fogo que arde sem se ver. Quando dois seres se veem próximos o bastante para dizer e celebrar o momento, vive-se o não contentar-se de contente. Quando duas bocas esperam, ansiosas, o suave toque ou o roçar de leve, percebe-se a dor que desatina sem doer.

    Quando duas almas dançam a canção imaginária dos amantes e ninguém os vê, e ninguém os interrompe porque há um tempo só deles, entende-se o solitário andar por entre as gentes.

    Quando duas histórias se entrelaçam e se fazem uma. Risos, brincadeiras, beijos e abraços, contemplação. O céu não é céu. As estrelas não são estrelas. Tudo é invenção. E inventam-se horas e coisas. Inventa-se a sensação. Quando duas mãos se aproximam e se querem. Quando dois sonhos se cruzam. Não importa o real.

    Importa a imaginação.

    Quando tudo isso acontece, a gente chama ou acha ou pensa ou diz que é amor. E vemos e vivemos intensamente o mundo inteiro. Os filmes, as músicas, os poemas, os comerciais, os bilhetes e o cartaz. As flores e a cena congelada do beijo entre a mocinha e o rapaz, Tudo é nada e nada é tudo ou tanto faz. Há muitos riscos, há muitos medos, mas queremos mais.

    E quando, enfim, acaba o quase infinito sentimento, o coração está ao chão, despedaçado. Mas não há motivos para o eterno sofrimento. Novos capítulos são escritos e novos personagens se inserem à trama. Suor, olhos arregalados e calafrio. Calor, contentamento e desafio. O amor?

    Mais uma crônica, mais um poema e mais uma canção…

  • Fragilidades Humanas

    Todos nós temos um talento especial para dar nomes elegantes aos nossos defeitos.

    A preguiça vira “cansaço acumulado”. A teimosia atende por “firmeza de convicções”. O excesso de compras costuma ser tratado como “aproveitar uma oportunidade imperdível”. E ninguém jamais admitiu ter sido fofoqueiro; no máximo, estava “bem-informado”.

    Talvez essa seja uma das fragilidades humanas mais universais: a habilidade de encontrar explicações generosas para comportamentos que, vistos de fora, pareceriam apenas escorregões bem comuns.

    Foi pensando nisso que me deparei com um documento capaz de elevar essa arte a outro patamar. Em um site especializado encontrei o testamento de um Monsenhor, datado de 1863. Depois das fórmulas de praxe — estar em perfeito juízo, temer a morte em hora incerta, professar a fé católica e desejar nela viver e morrer — surge a seguinte declaração:

    “Declaro que, por fragilidade humana, tenho sete filhos (7) já reconhecidos e legitimados por carta imperial.”

    Sete.

    Não um deslize momentâneo. Não um episódio isolado. Sete filhos devidamente reconhecidos, legitimados e registrados para a posteridade.

    O mais curioso não é sequer a existência da numerosa descendência, mas a explicação escolhida. Enquanto alguns de nós classificamos como fragilidade humana devorar a última coxinha da festa ou comprar um sapato desnecessário em liquidação, o Monsenhor trabalhou em outra escala.

    E o melhor vem depois: ele passa a relacionar os herdeiros um por um, como quem apresenta com legítimo orgulho os resultados de sua fragilidade.

    Confesso que achei difícil não admirar a sinceridade do homem. Afinal, se era para assumir a fraqueza, assumiu com método, persistência e excelente produtividade.

    Talvez por isso eu tenha lembrado de um trecho bíblico que parece combinar perfeitamente com a situação: “Se devo orgulhar-me, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza.”

    Nesse quesito, convenhamos, o Monsenhor tinha material de sobra.

  • Poema #03: Isso basta

    A cama desarrumada.
    O livro (quase) aberto.
    Páginas escurecidas.

    A caneta largada no meio.

    No relógio um horário impróprio; “já é dia?”
    Sob os travesseiros, um único pijama

    não se sabe porquê; não se sabe para quem.
    Clareou.
    As plantas espreguiçam-se:
    um girassol retorce lentamente
    pétalas, amarelas, miolo, marrom
    em direção à promessa
    De sol
    De luz
    De felicidade com prazo de validade
    Vencida

    De repente
    Dois passos contrabalanceiam o peso de um único corpo
    Um, dois, três, um dois, três… gira!
    Girassol rodopia, entre as mãos agitadas
    Madrugada infinita
    Há barulho – feliz idades
    Há sussurros – ocas gargalhadas expressivas

    A cama desarrumada.
    O livro (quase) aberto.
    Páginas manuscritas.

    Um mercado; um abridor de latas. Um saca-rolhas.
    Nômade, sem ser, sendo.
    Desiste-se; retorna.
    Pacote 2×1.
    Repensa.

    Compras todas amarelas:
    Banana.
    Limão siciliano.
    Milho.
    Angu.
    Girassol e gelosia…

    Alba dal balcone
    Água de coco, rega da vida
    Eis o vento acalmando as turbinas
    Eu te amo
    Eu também.

    O lado esquerdo da cama.
    Criado mudo.
    Coração.
    Uma pera.
    Mordida pera.
    Religiosa pera.
    Compartilhada à distância.

    A cama desarrumada.
    O livro desaberto.
    Páginas escritas.

  • Glória e o dia dos namorados

    No início não dei tanta atenção. Podia ser só implicância ou mania besta. Cismou com o meu biquíni de oncinha. Até aí, tudo bem, tentei relevar. A maioria dos homens é inseguro mesmo. O curioso é que ele não via problema com as outras mulheres.

    — Glória, você vai à praia com esse biquíni?

    — Vou, por quê?

    — Tem pouco pano pra muito peito.

    Eu tentava manter a calma.

    — Você acha?

    — A calcinha está entrando na bunda.

    — Tem dó, Ernesto, todo mundo usa assim.

    O biquíni só era indecente no meu corpo. Estava começando a me irritar com aquilo. Agora dera também para reclamar do vestido, das calças justas, da blusa transparente, tudo era motivo de discussão. Troço mais chato.

    Procurei uma blusa sem manga e não achei. Podia ter deixado no varal. Revirei as gavetas, fucei todo o armário e nada. Deixei pra lá. Me lembro de o Ernesto ter comentado que era curta demais e deixava o umbigo à mostra. Na semana seguinte, a calça jogging desaparece. Não podia ser coincidência. Ernesto estava sumindo com minhas roupas, justamente as que ele criticava. Claro que negou, Ernesto não assume seus erros. Imagine se eu resolvo sumir com as sungas dele.

    Ele argumenta que não quer me ver exposta ao ridículo, que me vejam como vulgar. Diz que só quer me proteger. Muita cara de pau. Isso não é amor, apenas dominação. Disso, eu sei bem.

    Ernesto nunca me bateu. Nem meus pais me bateram, não seria ele. Mas me sinto agredida quando ele quer me impedir de sair para beber com minhas amigas. Tentou sugerir que eu devia selecionar as amizades. Amiga solteira não presta para companhia, me avisava. Para mim, são as melhores, mais alegres. E vivas.

    “Glória, aonde você vai? Vai sair com quem? Glória, você vai de novo ao shopping gastar com bobagens?”. Me sentia vigiada, bisbilhotada, invadida. Se dependesse dele, eu teria de dar satisfação de cada ato, de cada passo. Por falar em satisfação, o pior é que meu tesão foi para as cucuias. Custo a me excitar e torço para não ser tocada. Ernesto não quer saber e se eu ameaço recusar, ele diz que não o amo mais. Faz drama. Vou para a cama coagida, para manter a paz e as aparências. Faço sexo e penso no Matt Dillon.

    Ernesto se queixa da minha frieza. Distante. Gelada. Pergunta se tenho outro homem. Na hora, respondo “que bobagem é essa, Ernesto? Claro que isso nunca me passou pela cabeça”. Internamente, vivo sonhando com isso.

    O casamento anda por um fio e ele nem nota. Ou pouco se importa. Num raro acesso de autocrítica, ele, uma noite, me perguntou se o problema com o sexo era dele. Pensei duas vezes e resolvi dizer que não, que ele era ótimo, coisa e tal. Menti descaradamente para não parecer que mentia a mim mesma.

    Não sei por quanto tempo vou esticar a corda. Ernesto é tóxico e se acha o suprassumo do homem moderno, compreensivo e calhorda. O calhorda é por minha conta.

    Decidi que não consigo – nem pretendo – mudar meu marido. Pau torto que nasce torto…Por falar em pau, o Ernesto tem o dele pequeno.

    Há limite para tudo.

    O amor, que antes parecia um filme romântico da sessão da tarde, tinha virado um Almodóvar do início de carreira, com cenas de um casamento imaginadas por Bergman, de mau humor e exilado numa ilha da Suécia em pleno inverno. Nosso amor deu uma esfriada. Eu e Ernesto, perdidos em um labirinto sufocante. Quando me olho no espelho, percebo o quanto de mim desapareceu para caber nas expectativas dele.

    12 de junho. Ernesto não esquece o dia dos namorados. Anoitece. Ambiente com luz indireta, velas seria um exagero. Mesa posta para dois. Lasanha. Ernesto adora lasanha. Bem podia colocar veneno de rato no molho bolonhesa, mas minha índole é pacífica. Vinho na taça. Malbec com toques de cicuta, revelando um vinho com mais tempo de envelhecimento. Como nosso relacionamento. Podre de velho. Meu maior presente neste dia continua sendo o silêncio confortável de um filme mudo. Daqui a pouco o Ernesto está chegando.

  • Tenho medo dos idiotas

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque os idiotas são todos extremistas!

    A resposta está sempre certa! Não importa argumento, não importa exemplo, não importa explicação!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles têm a voz e a vez!

    E não têm vergonha da medíocre pequenez!

    Eles se multiplicam aos milhões! E por mais que causem estragos, não há condenações!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles podem ser presidentes, dizer bobagens e matar muitas gentes!

    Podem apertar botões e iniciar a terceira guerra mundial! Tudo é banal!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque posam de autênticos quando, na verdade, abrem a boca para destilar preconceitos e muita aberração! Sem nenhuma
    preocupação!

    Os idiotas, sempre eles, idolatram a fúria, o fuzil, dizem até que a ditadura nunca existiu!

    Os idiotas também se candidatam pra tudo quanto é função: vereador, deputado, senador, presidente… Não importa se o que
    falam é indecente!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles mandam e desmandam em tudo!

    Gostam de jogar bombas e de erguer muro!

    Tenho medo dos idiotas…

    Porque eles não entendem poesia!

    Não têm sensibilidade nem melodia!

    Tenho medo dos idiotas porque eles são muitos!

    Os idiotas performam o tempo todo nas redes sociais! Dizem as maiores bobagens e se transformam em símbolos nacionais!

    Os idiotas não têm pudor ou culpa da própria idiotice, ao contrário, se vangloriam da triste fanfarronice! É o culto à ignorância! Sem cerimônia e com muita militância!

    Uma pena que cada vez mais idiotas se sentem no direito de tudo mandar!

    Os idiotas não gostam da natureza, não gostam de verde e não gostam de amar!

    Tenho medo dos idiotas!

  • Manteiga ou margarina?

    Sempre tive aversão a manteiga. Desde a infância aquele tablete meloso e gorduroso colocado em um recipiente de vidro com tampa, invariavelmente lambuzada porque essa criatura ia se espalhando pelos cantos, me dava engulhos.

    Para meu desespero ela ocupava lugar de honra na mesa do café da manhã e era compartilhada por todos, menos eu, em nacos enormes em cima do pão francês.

    Menina estranha, comentavam, quem sabe se a gente oferecer margarina ela não prefira?

    Só aventar essa possibilidade já me dava vontade de sair da mesa – margarina, para mim, era a versão tabajara da minha desafeta, algo inventado por alguma mente pervertida.

    Ocorre que em determinadas situações fora de casa eu me via, inúmeras vezes, obrigada a aceitar o famoso pão com manteiga que me ofereciam, não só por cerimônia, mas também porque na maioria dos casos ele já vinha pronto para a mesa.

    Em outras, me vinham com a pergunta: manteiga ou margarina? Ou seja, não havia a terceira opção – nenhuma das duas. Era, então, obrigada a optar pelo menos péssimo, no caso a manteiga, mesmo que isso me desse ânsias de vômito.

    Essa encruzilhada gastronômica da infância me fez lembrar que, na vida, somos constantemente obrigados a optar pelo menos ruim, também. Isso serve para decisões prosaicas como escolher a mesa de fora em um restaurante e enfrentar o frio, ou ficar nas mesas de dentro ao lado do piano e ter dificuldade para conversar.

    Serve também para o cinema: poltronas da ponta para poder entrar e sair com mais facilidade, mas com menor visibilidade, ou no meio da fila, com vista panorâmica, mas no meio de duas pessoas comendo pipoca?

    Pensando um pouco mais a fundo, muitas vezes nos vemos frente a esse dilema na hora da decisão sobre quem serão nossos dirigentes, ou do apoio que daremos a uma ou outra corrente política, do partido que tomamos frente aos conflitos mundiais e assim por diante.

    Infelizmente muitas de nossas escolhas dependem de colocarmos na balança não o que é melhor, mas o que é menos ruim… e aí a consequência gastro-econômico- social é pior do que engolir margarina, não acham?

  • INVISÍVEIS

    Karolayne, ou Lane para os mais chegados, leva uma vida normal. Mora sozinha, de aluguel, numa casa de vila. Uma sala apertada acoplada à cozinha e, no andar de cima, um quartinho com banheiro: “minha suíte”, como ela chama. Acorda cedo, por volta das cinco da manhã, com o despertador do celular. Não que precise, seu corpo, moldado à rotina, já sabe a hora de levantar. Assim como a de dormir. Vai para a cama sempre antes das dez.

    Toda manhã parece se repetir. Escova os dentes antes e depois do café, come seu pão esquentado na torradeira e bebe de um gole o leite gelado sem açúcar. Quando não há pão, se vira com biscoitos.

    A rotina se repete como um ritual insondável e cada amanhecer traz os mesmos rumos e planejamentos. Enquanto acaba de se arrumar para sair, pensa nas tantas vezes em que sua existência se confunde com o próprio ato de seguir automaticamente.

    No caminho para pegar o ônibus e ir ao trabalho – Lane é diarista – ela reflete como a vida é difícil e, por vezes, sem sentido. Cuida da casa dos outros, tira o pó dos móveis, varre e passa aspirador, lava a louça acumulada, troca as roupas de cama, limpa banheiros e desentope ralos e pias. Pequenas ações que exigem uma vigilância constante, quase mecanizada. Lane sempre teve mania de limpeza.

    O curioso é que não tem quase tempo para si. Sua mania de limpeza termina assim que chega em casa. Se comparada com os apartamentos das madames onde trabalha, a sua moradia parece um local deixado de lado e malconservado. O cansaço justifica seu desleixo.

    Ocasionalmente, pensa desistir. Todo dia é a mesma droga. Mora afastado e pega um ônibus que leva em torno de uma hora e meia. Isso se não houver trânsito. Durante o trajeto, dentro do coletivo, geralmente em pé e espremida com outros passageiros, Lane se pergunta se o resultado do seu esforço é feito para ser invisível. O olhar cansado, os gestos repetidos, a paciência infinita, tudo transformado em banal.

    A maioria de suas patroas, com certeza, não saberia viver sem sua ajuda. Ela, no entanto, começa a perceber a condição de invisibilidade do seu trabalho.

    E se não fosse ela para arrumar a casa, ordenar as coisas, fazer as compras no supermercado, até servir de psicóloga para ouvir as queixas e lamentações das madames? As ações de Lane nunca são reconhecidas e ela, sem rancor, aparenta se resignar.

    À noite, logo que chega, toma seu banho. Chuveiro elétrico. Lane não costuma usar o chuveiro nas casas onde trabalha. Questão de princípios, que ela nem sabe a razão. Talvez cerimônia. De roupa de dormir, vai à cozinha e prepara uma xícara de chá, que fumega como um prêmio secreto. Ali, no instante em que o mundo se aquieta, ela se reconhece como uma pessoa que tem a percepção da sua própria invisibilidade, entre silêncios e coisas triviais. Reside aí um certo orgulho velado. A xícara de chá funciona como uma metáfora de recompensa e reconhecimento pessoal. Nesses raros momentos, Lane pressente que pode haver alguma poesia no ordinário.

  • Um homem, um barco e um tempo

    Havia um barco, um homem e um tempo.

    Um barco de madeira, pequeno e velho.

    Um homem cansado, derrotado e velho.

    Um tempo desgastado, encrustado e velho.

    A morte já era companheira do homem, o banco de areia, o destino do barco e os ponteiros quebrados o fim de um tempo.

    Mas, de repente… E as histórias são sempre cheias de de repentes…

    Uma tempestade e o mar agitado, mas tão agitado como jamais vira aquele homem.

    Ondas enormes como jamais sentira aquele barco.

    Um tempo sem tempo como o próprio tempo jamais fora.

    E o medo do fim.

    Do homem, do barco e do tempo.

    Agitação e horror e sal e vento.

    A escuridão da escuridão tomou o espaço.

    O homem, o barco e o tempo.

    No entanto…

    E as histórias também são cheias de no entantos…

    A força, que o homem supunha não existir, passou a ter.

    O barco, que supunha o homem não suportar, se segurou.

    O tempo, que supunha o homem não mais haver, nunca deixou de ser!

    E então, surpreendido por si mesmo e pelas circunstâncias, atravessou o mar e o vento.

    Seguiu firme até que o dia e o sol pudessem dar vista de coisa ou de gente.

    Enfim, quando assim sucedeu, o homem já estava próximo da terra, vivo e refeito.

  • Ontológico, hedonismo e deletério

    Nem tudo está perdido em matéria de palavras. Esta semana, em diferentes textos, encontrei ontológico, hedonismo e deletério. Uma delas, não confesso qual, me obrigou a ir ao dicionário. Não eram textos de filosofia profunda, apareceram como se fossem palavras corriqueiras. Não são. O dicionário está cheio delas, a maioria esquecidas e empoeiradas, talvez aguardando a ressurreição. Quando uma desaparece definitivamente leva consigo uma forma de ver o mundo.

    Admito que implico com algumas palavras. Se pudesse as baniria por lei. Uma delas é progenitora. Só serve para noticiário policial ou conversa com meliante. Neste último caso com a devida cautela: periga ele não entender.

    • Como vai sua progenitora?
    • Progenitora é a sua mãe.
    • Exatamente.

    Na mesma linha vai cônjuge. A única vantagem é não ter gênero definido, mas isso é vantagem recente em palavra antiga. Se o seu cônjuge apresentar você como ‘minha cônjuge’ peça divórcio. Trata-se de falsa erudição, nem sei por que casaram. Pode ser até que ele seja um adorador do gerúndio! Fuja igualmente de gente de vocabulário limitado ou deturpado tipo táuba, às vezes contagia e a cura é difícil.

    Implico com nubente, acho patíbulo triste e gáudio antiquada. Tenho sentimentos por cabotino e perspicaz. As palavras e eu somos realmente inseparáveis. Elas ajudam a moldar ideias: mais palavras, mais nuances de pensamento. Diversidade é tudo. Mas, se houver opção, prefiro as menos pretensiosas. Podem não acreditar, mas é complicado escrever simples.

    Outro dia quis descrever um árabe usando aquela túnica comprida comum entre eles. Escrevi caftan e o corretor de textos sublinhou a palavra em vermelho. Caftã também não deu certo. Tudo bem, vamos ver a tradução em português. É cafetã ou cafetão. Como? Não dá para dizer que o cara usava um cafetão! Optei pela palavra em inglês mesmo, escrevi kaftan. É claro que o corretor reclamou. Fazer o quê? Se não temos uma palavra adequada, roubamos de outra língua.

    E o que dizer quando, em conversa informal, um amigo diz valhacouto? A gente até para de respirar para aproveitar o momento porque uma coisa assim dificilmente se repetirá em nossa vida. Ouvir alguém utilizar palavras como amiúde, azêmola ou excelsa nos dá alguma esperança. Não a de que todas as palavras vão sobreviver – essa eu já perdi – mas a de que sempre existirão pessoas cuja conversa é um deleite.

  • Eu não devia me chamar BETHÂNIA

    Meus pais me deram esse nome porque se conheceram no show da cantora num teatro na Lagoa. Engraçado que nem gosto assim dela. Talvez por ter ouvido tanto minha mãe cantar. Após a morte de meu pai, então, era quase todo dia. Da Bethânia eu só gostava de “Olhos nos Olhos” do Chico Buarque. Ficou impregnada em mim, uma espécie de hino materno. Toda vez que ela ensaiava ficar melancólica, punha o disco com a música. A razão de eu gostar da canção era a letra, uma resposta feminina a um abandono. Para mim, a melhor versão de uma doce vingança.

    Pesquisei o nome. Bethânia vem do original hebraico que faz referência a uma pequena cidade no Monte das Oliveiras. Nada a ver comigo, meu sobrenome nem é Oliveira. Outra coisa irritante era, por causa do meu nome, me associarem a um determinado comportamento. Pela escolha sexual da cantora, alguns me viam como uma possível transgressora. Uma associação que nunca entendi bem. No meu caso, soava como uma antítese. Sou hetero convicta e tento disfarçar meu preconceito com lésbicas. Com gays também. Não devo ser uma pessoa razoável nesse aspecto, admito.

    Bethânia, a cantora, é feia demais. Eu sou linda, branca, loura e de olhos claros. E imodesta, claro. Cultivo a exteriorização do belo e deglutível, um mundo onde a fantasia não se oponha à realidade.

    Com o tempo, surgiram fortes crises de identidade e angústia. Muito do que eu sentia vinha do desgaste diário de esconder dos outros quem eu verdadeiramente era: uma burguesinha chata.

    Sem me esforçar, eu parecia o tipo da garota, cujo comportamento era considerado convencional. Devia ter sido chamada de Patrícia. Patricinha, em vez de Bethânia. Ao contrário do que pode sugerir o meu nome, sou vaidosa ao extremo, adepta de procedimentos estéticos e skincare. A maquiagem tem de ser impecável. Levo horas escolhendo roupa, mesmo para ir só na esquina. Coloquei silicone nos seios para aumentar o volume e botox a fim de suavizar minhas linhas de expressão. Posto fotos sensuais de biquíni no Instagram e não me importo de sexualizarem minha imagem. Não tenho orgulho disso, mas é mais forte do que eu.

    Não vou dizer a minha idade.

    Sou católica sem convicção e sem frequentar a igreja. Implico com padres, além de achar a missa um porre. Penso que Jesus foi um hippie revolucionário. Não sou ateia declarada por medo do desconhecido. Carrego bastante culpa dentro de mim.

    O corpo é minha doutrina filosófica. A existência humana é a matéria. Sigo dietas variadas, de low carb a zero lactose. Quando conveniente, alardeio veganismo, embora nunca abra mão de um churrasco se a carne for de primeira. Linguiça, coração de galinha e asa de frango fazem um estrago na pele. Evito. Já tentei jejum intermitente e não deu certo.

    Fiz análise durante um tempo e não consegui pôr para fora uma parte de quem eu era: uma pessoa vazia. Guardar dentro de mim aquilo que acreditava conseguir esconder me causou forte dependência a remédios. Ansiolíticos tarja preta. Minha analista deu a entender que eu tinha dupla personalidade. Preferi não levar a sério.

    Quando meu pai era vivo, costumava ouvir música erudita com ele. Se estou sozinha, gosto de escutar a Sinfonia Surpresa, de Haydn ou o Concerto para Piano em Lá Menor, de Schumann. Pouca gente sabe disso. Na minha playlist, Dylan, The Cure e Beto Guedes. Ecletismo musical é comigo.

    Quando posso, vou ao cinema. Herdei o gosto dos meus pais. Wim Wenders, Goddard, Pasolini e Bergman. Não perco os filmes do Woody Allen e do Almodóvar. Assisti umas cinco vezes ao Fitzcarraldo, do Herzog. Amo a cena em que Klaus Kinski cruza de barco o Amazonas ao som da ária “A Te, o Cara”, de Vincenzo Bellini. Minhas amigas temem tubarões assassinos, aliens e sextas-feiras treze, já meus medos têm mais a ver com o jogo de xadrez com a morte, no “Sétimo Selo”. Quando quero, sou um bocado cult.

    Vivo na Internet. Curto uma relação parassocial. Amar pessoalmente dá trabalho e causa desilusões. Evito interações profundas que me causem tédio imediato.

    Não posso ver um mendigo na rua que logo me enterneço. Empatia absoluta com a miséria alheia. Às vezes posso parecer até ingênua ou demagoga. Nem ligo.

    Sou contra as drogas. De alucinada, basta a vida. Prefiro estar consciente, embora deteste o concreto, o tangível. Fumo cigarros eletrônicos e, vez em quando, bebo gim tônica ou dry martini. Tomo creatina, malho na academia e faço bronzeamento artificial. Detesto ir à praia. Já peguei micose na areia. Piscina de clube nem pensar. Confesso que sofro com essa pressão social e midiática que impõe certos padrões estéticos. Ainda bem que sou bonita e magra.

    Tenho pavor da rejeição. De qualquer tipo.

    Sei que não combina com meu estilo de vida, mas gosto de ler. Tenho uma queda por escritores da contracultura que rejeitam os valores tradicionais. Talvez atração do que é contrário. Li Kerouac, tenho livros sobre a vida de Ginsberg e curto a poesia marginal de Leminski e alguma coisa do Bukowski. Para impressionar, levo sempre comigo um livro para ler no metrô. Nem leio, fico vendo se estão me notando. Gosto de passar essa imagem intelectual. Jovem socialite, colunável e cerebral. Repito, sou o próprio contrassenso. Adoro incongruências, a começar pelo meu nome. Bethânia. Não tem nada a ver comigo.

  • O homem que ouvia estrelas

    Pois só quem ama pode ter ouvido
    Capaz de ouvir e de entender estrelas.
    Olavo Bilac

    Havia um homem naquela cidade que buscava sempre os lugares mais altos e afastados. Depois de um dia cheio de trabalho, distrações e malcriações, ele subia morros, montanhas e prédios. Fosse onde fosse. Fosse como fosse…

    Depois de um tempo, um menino miudinho, mas vivo no olhar e nas ideias, decidiu acompanhá-lo.

    E, a partir daí, homem e menino subiam morros, montanhas e prédios toda noite.

    Espia! Ouve com atenção… Sempre dizia o homem!

    O menino, falante e curioso, também sempre perguntava o que é que as estrelas diziam!

    Com o tempo, aprendendo com o velho homem, o menino passou a ouvir e entender.

    E entendia de sonhos e memórias de outros tempos.

    E entendia de pessoas, sentimentos e sensações.

    E foi entendendo o porquê daquele homem, até então, viver só.

    A gente precisa fugir do barulho e da confusão pra poder ouvir certas coisas que não dá pra ouvir lá embaixo.

    E dizia sussurrando, quase que em uma oração.

    E dias e noites e tempos distintos levaram o homem para lugares ainda mais longínquos. E o menino o seguia e crescia.

    Até que o tempo, mandatário das coisas e das gentes, levou de forma definitiva o homem.

    O menino estava só, mas não estava.

    Dentro dele, as palavras do homem ressoavam, brilhavam, ressignificavam…

    O menino aprendeu que só precisava ficar em silêncio pra pode ouvir estrelas.

    E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo quando se tinha fome ou quando se sentia frio.

    E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo para um homem que voltava a ser menino…

  • O futebol de hoje

    Bola na trave, bola na rede, bola no ar. Lençol, trivela, drible de calcanhar… Bola no canto e falta marcada esperando o juiz apitar…

    Bola ao alto, jogada aérea, empurra-empurra e mudança no placar… Os olhos vidrados do menino e do moço e do senhor sentado no sofá acompanham a bola. É o ser e o estar. O sorriso da menina e da moça e da senhora com o rosto colado na tevê é para a bola. É o querer e o ficar. Os aplausos, os gritos, os vivas, os xingamentos, a euforia e o contágio: futebol. Simplesmente amar ou odiar.

    Deixando de lado os interesses escusos, as artimanhas do poder e os escândalos da política, o fato é que brasileiro e futebol se parecem com feijão e arroz, café com leite, queijo e goiabada, praia e samba. Estereótipo? Figuração? Muitos detestam o jogo bretão.

    Alegam que o esporte é o ópio do povo. Ou como também se costuma dizer, o pão e o circo! Outros, entretanto, adoram. Adoram com paixão. Adoram com desespero. Desesperadamente torcem!

    Em tempos de copa do mundo, as camisas amarelas saem dos armários: cornetas, enfeites, bandeiras e muitas outras coisas. Em tempos de copa do mundo, a letra do hino nacional é cantada com vontade e com firmeza. Verso após verso vê-se o Brasil brasileiro e toda a sua poesia. Em tempos de copa do mundo, unhas são pintadas de verde e amarelo, ruas inteiras recebem desenhos coloridos e carros desfilam com pequenas bandeiras.

    Há um milagre, um movimento, uma catarse! Patriotismo de chuteiras? Há uma aclamação, um mistério, difícil análise! Complexidades e besteiras… Mas o futebol é isso! Exatamente isso: falar mais do mesmo, falar o que todos veem, falar o que todos sabem. O jogo está ruim. O zagueiro é um cabeça de bagre (expressão antiga, mas muito apropriada). O meio-campo não ata nem desata. A culpa é do técnico! O pênalti não foi marcado. A culpa é do juiz!

    Mas a seleção não está jogando bem! E o Brasil, por sua vez, também não está! O país mudou! Está mais dividido, agressivo, poluído com os seus ismos. O futebol também mudou! E como mudou! Meu Deus! O que fizeram com o futebol brasileiro? Brasileiro mesmo! Cadê esse infeliz de futebol?

    Jogo marcado daqui e marcado de lá! Marca-se tanto que, às vezes, a gente nem vê a bola! É um jogo robótico, pegado, malhado. Às vezes nem parece futebol!

    E ainda tem o tal de VAR, o chamado árbitro de vídeo! Este árbitro virtual revê cada jogada polêmica e conseguiu fazer a alegria do gol virar um suspense, uma novela, uma frustração!

    Imagina! O seu time marcou um gol e a torcida comemorou com todo o entusiasmo. Então… Para-se a partida! Alguns minutos de análise e o juiz anula o gol! Mas e o grito genuíno de gol? E a razão de ser do torcedor? A espontaneidade do momento único do gol? Não importa! Importa é que o vídeo mostrou um impedimento de 0,2 cm!

    Tempos pós-modernos!

    Que saudade do jogo bonito, do lance certeiro, do drible desconcertante!

    Que saudade da poesia no futebol!

    Que saudade do olé, do chapéu e chuveirinho!

    Saudade de acompanhar a seleção e torcer! Torcer de verdade!

    Nem as ruas são enfeitadas como antigamente!

    Depois do terrível 7×1 pra Alemanha, as coisas só pioraram!

    Jogadores saem muito cedo do Brasil e vão brilhar (ou não) em outro lugar. Ásia, Europa, África, enfim, em todo o lugar em que se paga muito bem para jogar!

    Perder faz parte eu sei! Chorar também. Jogou feio ou jogou bonito. Vitórias e derrotas nos ensinam e fazem bem. Às vezes, como dizem alguns, não era a hora. Às vezes, dizem outros, isso já era de se esperar. O problema é quando você desconfia do próprio time!

    Melhor dizendo, desconfia do futebol brasileiro como um todo!

    A performance vale mais que o gol! A dancinha vale mais que a vitória! Os cabelos e os cortes precisam estar bombando nas redes sociais, caso contrário, já viu!

    E as polêmicas então? Valem um campeonato inteiro! Dão engajamento na internet!

    Hoje tem jogador simulando cartão pra ganhar dinheiro nos sites de apostas! O cartão amarelo ou o vermelho foram combinados! Que jogo é esse?

    Até a camisa da seleção, a famosa amarelinha, não é mais a mesma, sequestrada, coitada, por uma seita de malucos, passou a significar outra coisa que não futebol! Uma pena!

    A camisa, as boas jogadas e o craque de verdade ficaram em algum lugar…

    Em que lugar ficou o nosso futebol? Eu, sinceramente, não sei!

    Vamos pra essa copa com a certeza de que não temos um bom time, mas somos brasileiros! Como se costuma dizer, brasileiro não desiste nunca! E não desistimos!

    Que Deus nos ajude (e Ele vai precisar ajudar muito)!

    Que saudade do Pelé, do Garrincha, do Didi, do Romário (como jogador) e dos Ronaldos!

    Mas fazer o que? Bora Brasil!!!!

  • Habitar o intervalo é preciso

    “(…) Depois da chegada vem sempre a partida”

    Essa lógica, que Vinícius e Toquinho traduziram em música, pode nos ajudar a compreender melhor os pesares da vida.

    A dimensão de tempo entre a chegada e a partida, em alguns casos, é algo que podemos controlar, programar; está em nossas mãos decidir quando vamos iniciar uma viagem, por exemplo, e quando pretendemos voltar. Assim, nos sentimos donos do nosso tempo, do nosso percurso.

    Para outras idas e vindas não estamos no controle, mas existe um intervalo previsível, como é o caso dos fenômenos naturais. Vemos com naturalidade o alvorecer e o entardecer, as idas e vindas das marés, o prenúncio de mudança na estação do ano. Seu fluxo é esperado e a repetição dos ciclos dá uma sensação de continuidade, traz sentido a esse movimento.

    Já no caso da vida, o tempo entre a chegada e a partida foge totalmente ao nosso controle e não é previsível. Especialmente na cultura ocidental, tendemos a ver a chegada como o polo positivo e a partida, o negativo. Recebemos com júbilo o que chega, pois é o novo, o que traz expectativa, e com angústia ou tristeza a partida, que é a despedida, a separação.

    A ideia de um novo ciclo depende da crença de cada um, mas existe uma lei maior que a natureza nos ensina e que foi captada pelo poeta.

    “(…) nada renasce antes que se acabe, e o sol que desponta tem que anoitecer”.

    Entre a chegada e a partida, resta-nos aprender a habitar o intervalo.

  • INCONVENIÊNCIAS

    Um homem para no posto de gasolina e entra na loja de conveniências para comprar cigarros. A menina que o atende chama atenção. É loura, bonita e tem um sorriso angelical. Ele olha para o crachá: Claudette. Tenta puxar assunto.

    — Não nos conhecemos de algum lugar?

    — Acho difícil.

    — Difícil, por quê?

    — Eu me lembraria de você.

    — É?

    — É.

    — Sou tão notável assim?

    — Ô…

    — Você também chama a atenção, de tão bonita.

    — Preferia que não.

    — Por timidez?

    — Por conveniência mesmo.

    — Não entendi.

    — Não estamos numa loja de conveniências, então…

    — Você tem ótimo humor, Claudette.

    — Como você sabe meu nome?

    — No crachá. Claudette com dois “t”.

    — Ah, é mesmo, tinha esquecido…

    — Claudette, bonito nome. Vem cá, que horas você sai do serviço?

    — Pra que quer saber?

    — Queria te convidar para uma cervejinha.

    — Não costumo beber com estranhos.

    — Posso me apresentar a você.

    — Estou falando de caras estranhos, esquisitos.

    — Como você é difícil, Claudette.

    — Só não gosto de enrolação.

    — Como assim?

    — Você está a fim de me comer, né?

    O hom em faz cara de espanto. Olha ao redor para se certificar de que ninguém está ouvindo. A loja está vazia. Melhor assim.

    — Se quer me comer, por que não fala logo?

    — Papo reto, Claudette?

    — Isso, não curto enrolação.

    — Ok. Quero te comer, sim.

    — E quem disse que eu quero?

    — Mas não foi você quem propôs?

    — O fato de propor não quer dizer que estou a fim.

    — E você está a fim, Claudette?

    — Sei lá, nem te conheço direito.

    — Foi você que disse que a gente tem de ser direto.

    — Sou assim. Mudo rápido de opinião.

    — O que você sugere, então?

    — Não sei, acho que tem de rolar uma conexão primeiro.

    — Ok. Podemos tentar. Vem cá, Claudette, nós não nos conhecemos de algum lugar?

  • Overkill em copacabana

    Sol, pé na areia, água de coco, um domingo ensolarado. Entre o barulho do quebra-mar e a água que cai cantando, à la carioques, do chuveiro de um quiosque na Orla, Ludmila me cutuca do alto da caixa de som: “a vida é louca, mano, a vida é louca. Me perdi pelo caminho…” É fácil perder seu controle diante do mar de Copacabana. É fácil despir-se de roupas e da mente rotineiras, deixar o corpo à mostra, como um da gema — mesmo que o bronze se mostre, no fim do dia, rosé gold.

    Tantas coisas confluem nesta cidade, a começar pelas raças de cachorros: vira-latas com pêlos quase inexistentes e spitz alemães como o meu Zeca, confortavelmente estendidos sobre as cangas de seus tutores, debaixo de toldos na areia. Um boxer de coleira se aconchega nas minhas pernas e me diz:

    — relaxa escritora, tô na área e já rendendo conteúdo.

    (Sempre tem dessas aproximações dos cães. Zeca me faz mais falta ainda.) Crianças com suas bicicletas cor de chiclete, motocicletas estacionadas ao lado do chuveiro, tênis de areia, turistas, cerveja, havaianas — originais e afins —, coca-colas e pepsis — pode ser? —, todas as cores, todas as línguas, abençoadas pelos incansáveis e rijos braços do Redentor, que paira tranquilo acima das nuvens que, por ora, encobrem o grande maciço do Corcovado.

    Domingo é conhecido por ser o dia do descanso, mas acho que Copacabana funciona em uma fissura de tempo em que é sempre domingo na extensão do seu mar. Cessam instantaneamente quaisquer atividades de esforço que não ligadas ao lazer. É pausa líquida-à-milanesa. Ausentam-se as preocupações. Copacabana oferece Iemanjá para que recarreguemos nossas energias — e os ecos da Shakira que agora tomam conta do som ambiente.

    Oh, boy, I can see your body moving (…)
    This is perfection!

    Os orixás são ondas energéticas, independente da orientação religiosa do mar de gente em suas areias.

    Viajar para Copacabana não deveria ter um motivo, qualquer que fosse. É pedido da alma, é necessidade humana. Eu, que já fui cidadã copacabanense, me encontro no limiar entre a felicidade de quem está e a tristeza nostálgica de quem parte. Estou a escrever, separada pela primeira vez da minha amiga desde que chegamos. Viemos para ver uma das bandas mais significativas da minha vida; eu, que não sou dos shows, ela, que topa até os que não curte tanto assim.

    Um show direto da Austrália. Banda repaginada que mantém, desde os anos 80, o vocalista com exatamente o mesmo timbre de voz. De Nova Friburgo para a Austrália existe o Rio de Janeiro: bebidinhas, Bukowski, Clube dos Macacos, Sol, Botafogo, pizza, hambúrguer da madruga, Jardim Botânico, trânsito no alto da floresta, Copacabana, risoto express e o antigo Metropolitan. Um passeio de amigas, uma we-moon, como descobri no caminho, e o show do Men at Work — banda originalmente de men que agora traz mulheres performáticas com a boca no trompete, dessas que literalmente roubam a cena, vestindo camisetas triviais do Brasil compradas no calçadão de Copacabana.

    Um show que me pôs com pé torcido sobre botas over knee de salto agulha. Os mesmos saltos que, acompanhados de saltos quadrados e mais baixos, cruzaram o corredor do shopping com o caminhar de um dos guitarristas da banda. Nós três trocando olhares, descrentes de que era ele mesmo, ali como um cidadão comum — e nós, fãs que não pediram fotos nem autógrafos.

    É indescritível como o show de uma banda especial vibra diferente em nosso coração. A felicidade de juntar a própria voz à multidão 35+ de pé num sábado à noite, erguer celulares em mil registros, sorrir para desconhecidos e pular é quase como caminhar molhando os pés na faixa entre o fim da areia seca e a rebentação do mar. São esses momentos em que temos certeza de que estamos vivos. Em que reconhecemos que estamos presentes. E, como consequência, criamos memórias.

    Minha primeira we-moon está no fim e já se tornou uma dessas memórias eternas. Uma lua de mel entre amigas, nova tendência desse nosso mundo contemporâneo, em que não se espera um casamento para se comemorar a vida com viagens. E como nos esbaldamos! Ela, que é do rock; eu, mais do samba — fomos em ambos. Ela quer dormir; eu prefiro não. Também ficamos equilibradas aqui. Cervejas para mim, drinks para ela, café para as duas. Muita água, mercado, pizza; amigos reencontrados e apresentados. Karaokê com direito a sermos convidadas a tomar o microfone e fechar a noite. A nova amiga que também é fã do Men at Work — e a que procuramos no final do show para um abraço de felicidade. Piscina do hotel, o protetor solar que eu insisti e ela não quis tanto; marquinhas de turista, sorvete do Copacabana Palace, um mate limão do ambulante. Enquanto termino essas linhas, já pensando em uma próxima we-moon, ela encontra uma grande amiga com seu filho recém-nascido. Meu coco está no fim. A Shakira já saiu e toca, pasmem, Overkill pelos amplificadores do quiosque. Vou pedir para cortarem meu coco, comer sua carne, respirar um pouco mais desse ar tão domingo e caminhar pela areia.

    “Alone between the sheets
    Only brings exasperation
    It’s time to walk the streets
    Smell the desperation
    At least there’s pretty lights”

  • Não fale com estranhos

    Natália percebeu a ausência logo ao acordar.
    Não soube dizer exatamente o que faltava — apenas sentiu o vazio.

    O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, a luz da rua filtrando pelos galhos da árvore, desenhando sombras no teto, o ventilador rodando preguiçoso.

    Mesmo assim, algo tinha desaparecido.

    Sentou-se na cama, ainda confusa. Durante anos acordara com aquela presença discreta ao lado: um companheiro silencioso que cochichava cautelas, lembrava perigos, puxava-a pelo braço antes de decisões precipitadas.

    Agora o quarto estava vazio.
    — Estranho — murmurou.

    Levantou-se devagar, como quem testa o chão de uma casa onde algo mudou.Ao sair de casa, Natália levou a mão ao bolso para conferir a carteira.

    Parou no meio do gesto. Dessa vez não conferiu.

    Era curioso: sempre conferia duas vezes — às vezes três — como se ouvisse aquela voz, advertindo que ela poderia ter sido roubada entre a porta e o portão.

    Só ouviu o burburinho das pessoas indo em direção ao ponto de ônibus.

    Como sempre, a condução estava lotada.
    Ao seu lado alguém fez um comentário inconveniente.
    Normalmente ela ficaria em silêncio.
    Dessa vez responde.
    E nada acontece.

    O telefone vibra, com a mensagem do chefe – sem aviso prévio, ele tinha mudado seu compromisso da manhã para outro endereço.

    Respondeu de pronto com um emoji de indignação — e nem ouviu aquela voz costumeira: jamais responda ao chefe.

    Cada vez mais intrigada com a ausência de seu companheiro, Natália pediu uma informação na rua, pois não conhecia o caminho para esse novo compromisso.

    Durante anos a voz teria dito:
    não fale com estranhos.

    Mas o homem apenas ajuda.

    Algo simples como:
    — A estação fica duas quadras para lá.
    Nada ameaçador.

    No fim do dia, no caminho de volta para casa, Natália percebeu que estava diante da rua que sempre evitara.

    Durante anos aquela voz repetira a mesma coisa:
    — Não passe por aí.
    — É perigoso.
    Mas a voz continuava em silêncio.

    Então atravessa.
    E encontra apenas:

    – Uma padaria
    – crianças brincando
    – um senhor regando plantas

    Já em casa, sobe as escadas saltando de dois em dois os degraus, como fazia quando criança. O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, o ventilador rodando preguiçoso no teto, à sua espera.

    Mas algo havia mudado. Pela veneziana entrava um raio de sol que iluminava o seu lado na cama. No teto, a sombra dos galhos dançava devagar.

    Natália sorriu.

    Algumas sombras existem.
    Outras a gente inventa.

  • Lisboa revisitada

    Em Lisboa aparentemente há mais igrejas do que fiéis porque algumas deixaram de ser usadas para fins religiosos. Não é um fenômeno português, pelo mundo há vários casos de igrejas que se transformaram em museus e casas. Foi assim com a Igreja de São Julião: transformou-se no Museu do Dinheiro.

    Cada vez que vou a Lisboa escolho visitar algum museu menos divulgado no circuito turístico. Há muitos. Alguns são boas surpresas, outros nem tanto, mas é sempre agradável explorar os cantos dessa cidade tão vibrante. O Museu do Dinheiro recomendo. Além do lindo prédio-igreja a coleção é impressionante e exposta de forma primorosa. De brinde, para quem gosta de arqueologia, no subsolo podem ser vistos restos de uma muralha do século XIII.

    O museu está em um local bem central, cheio de atrações e restaurantes. Tanto se pode almoçar no badalado Mercado da Ribeira como seguir na direção oposta e ir para a Praça do Comércio onde, entre inúmeras opções, está o Martinho da Arcada, restaurante de 1782 que diz ser o mais antigo de Portugal.

    Ainda no rol de atrações um pouco menos conhecidas, os admiradores de José Saramago podem ir à Casa dos Bicos, sede da Fundação Saramago. As cinzas do escritor foram depositadas na frente dessa casa, à sombra de uma oliveira centenária trazida de sua terra natal.

    É impossível visitar Portugal e escapar das sardinhas. Você deve ter notado as de cerâmica ornamentadas com os mais diversos motivos. As originais são da fábrica Vista Alegre e a decoração é do Estúdio Bordallo Pinheiro. Esse artista falecido em 1905 é pouco conhecido fora de Portugal e morou uns quatro anos no Brasil. Em Lisboa existe um museu dedicado a ele, coisa pequena, afastada do centro, só para fãs.

    Falamos de sardinhas, vamos falar de bacalhau. Também ele tem direito a um museu em Lisboa, mas é muito fraquinho. Melhor encontrá-lo cozido ou assado no Martinho da Arcada que fica quase ao lado.

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