Domingo

  • Por via das dúvidas

    Cândida precisava cortar o cabelo.
    O problema era: quando?
    Lua Crescente, para o cabelo crescer mais rápido.
    Lua Cheia, para ganhar volume.
    Lua Minguante, para cuidar da saúde dos fios.

    Entrou em crise.
    Não podia simplesmente cortar o cabelo. Era preciso escolher a lua certa.

    Foi então que se lembrou de mais uma coisa.
    A tinta.
    Queria mudar a cor.
    Lua Nova.

    Pronto. Agora só faltava descobrir em qual fase da Lua deveria viver.
    Finalmente escolheu o dia e saiu para o salão.

    Abriu a porta de casa e deu de cara com uma escada encostada no poste. Lá em cima, um
    homem mexia na fiação.
    Cândida pulou para o meio-fio.
    Ser atropelada seria menos grave que passar debaixo de uma escada.

    Na pracinha, uma joaninha pousou em sua mão.
    Sorte!

    Continuou seu caminho, feliz da vida, até que uma rajada de vento veio de repente.
    Fez uma careta.
    Ou quase.
    Segurou a expressão no meio.
    Melhor não arriscar ficar daquele jeito para sempre.

    Na esquina, sentiu a orelha esquentar.
    Alguém estava falando dela.
    Só podia ser uma das amigas para quem contara que mudaria o visual.
    Inveja.

    Procurou um banco de madeira debaixo da marquise do ponto de ônibus e bateu três
    vezes.
    Pronto.
    O azar estava avisado.

    Chegou ao salão.
    A porta estava destrancada.

    Entrou?

    Não.
    Tocou a campainha.
    Era importante que a dona do salão abrisse a porta. Só assim garantiria que seria bem-
    vinda na próxima vez.

    Sentou-se na cadeira.

    Antes de começar, fez um pedido à estrela cadente que fotografara na noite anterior.
    Cruzou os dedos das mãos.
    Depois, os dos pés.

    Respirou fundo.
    E entregou suas madeixas aos astros.

    O resultado?
    Está na ilustração.

  • Frango à milanesa

    Assim resumo meu começo torto, na última sexta-feira como cidadã “cachambianse” — e que se retire solenemente quem, dada a época do ano e o gentílico recém-proclamado, aguardar daqui em diante jogos de palavras tendenciosos à política do botão verde de CONFIRMA. Não me demoro nessa competição de temporada que, de tanto disputar digitais alheias, fere o sentido amplo de seu propósito; aqui, a politicagem é outra… distribui santinhos da experiência de pertencer, não papéis que emporcalham a cidade e mal chegam à reciclagem. Aqui, hei de fazer campanha pelas conexões de um povo que, mesmo estando eu de passagem, em apenas 04 meses aprendi a chamar de meu.

    Onde eu estava…? Ah, sim. Eu tinha acordado.

    Às 14h34, no susto. O alarme não tocou. Trôpega, peguei o celular e digitei sem muito cuidado com a caligrafia digital desatenta ao corretor ortográfico — que muito modifica sentidos quando nos pega desprevenidos — mil perdões esbaforidos para dona Rosa, da barraquinha de marmitas em frente ao meu condomínio.

    É a primeira sexta-feira de outubro, chuvosa como foram tantas sextas do mês e setembro. Dona Rosa me aguardava para entregar a marmita — a minha última; ela não sabe. Visto uma blusa e outra coisa que não se encaixa bem nas pernas. Troco, escovo os dentes, prendo os cabelos de um jeito sem estilo. Havaianas nos pés, venço o corredor do meu bloco, atravesso a área comum que me recepciona com gotículas finas e persistentes, libero meu acesso pela facial e ganho a calçada. Dois sorrisos (um sem graça, outro cansado), um abraço, mil outros perdões, vale-alimentação já na maquininha. Ela abre o isopor vermelho e lá está: o pote de isopor com “frango a amilanesa – Bia”. Eu quase choro.

    “Se cuida, menina! Descansa e se alimenta!” Pisquei os olhos.

    Passei boa parte da vida acreditando na precisão das palavras. Ainda acredito — e defendo, com postura de quase candidata a um cargo nas eleições deste domingo, 04 de outubro: corrijo acentos, vírgulas, concordâncias. Aprendi a amar as regras gramaticais quase como quem afia ferramentas: pelo som, pelo peso, pela precisão do corte. Mas quatro meses me ensinaram uma língua sobre a qual nenhuma gramática normativa poderia reivindicar propriedade.

    Quem diria que, ao acrescentarem mais um “a” ao prato do dia, numa alusão já bastante tropical a um suposto preparo italiano, logo eu — devota da palavra correta, amante e fluente na língua e cultura italianas — deveria ter sucumbido ali mesmo à indignação. Morri, sim, ali, na calçada. Mas de ternura; o tiro saíra pela culatra.

    Escrito à caneta na tampa de uma marmita descartável, o duplo “a” equivocado acertou em cheio: disse o que precisava ser dito; com o coração, não com o esnobismo. Era um “a” dobrado de afeto, expresso, tal qual um café, com aroma extra de amor. Na língua do cotidiano, fala-se que o segredo está no tempero. E todo mundo sabe que o caminho mais curto até o coração de um
    homem passa pelo estômago; antes dele, há o prato.

    Uma voz culta, musical e precisa surgira nos meus dias, preenchendo-os de possibilidade. Conhecia, pela tela, minha casa, meus cantos, o lugar onde eu escrevia e lia; falava de energia, de escolhas, interpretava minha exaustão como consequência de eu me dar demais ao que não merecia tanto de mim. Mas não me preparou prato algum e deixou pela metade até a única fatia de pizza que teve diante de si. Tanto discurso, tão pouco apetite pela experiência inteira. Pouco depois, retirou-se numa ausência orquestrada.

    (Curioso: eu, que comecei este texto expulsando a politicagem pela porta da frente me vejo, algumas linhas depois, de cara com a política acomodada à mesa. Não a convidei. Certas presenças têm o hábito inconveniente de sobreviver à própria ausência)

    Mas esta não foi a única voz a opinar sobre meus gastos. Outras, igualmente instruídas, também disseram que eu me despendia demais — e mal. Nenhuma delas soube ler o que tanta gente, sem qualquer pretensão de erudição, leu de primeira: minha energia não estava sendo desperdiçada. Escorria de mim como uma torrente, é verdade, mas encontrava mãos que trabalhavam comigo, cafés passados na hora, hambúrgueres que salvavam madrugadas, abraços, risadas e gente que simplesmente abria espaço para que eu coubesse inteira, só por ser eu. Há muito eu não me via tão feliz sem as malditas expectativas. Continuei me gastando inteira, como sempre. A diferença é que, desta vez, o desgaste me devolvia vida.

    “A a”bracei novamente.
    Ela, dona Rosa, ainda não sabia.

    ***

    Corda ao contrário no relógio.
    São 17h35 de quinta-feira; eu, na fila do Mega Matte.

    No caixa, a proprietária, que me viu algumas vezes. O atendente de sempre não estava por ali.

    “Um açaí fit de…”
    “…500 ml com proteinato!”

    A voz vem do movimento corporal de um atendente que eu nem havia percebido direito nos últimos quatro meses. Ele sorri para mim; sabe meu pedido. Sabe a mesa na qual me sento.

    E isso dói de um jeito bonito.

    Espero baterem meu shake, que substitui o almoço de quem acordou às 16h depois de trabalhar das 21h30 às 10h. Respondo alguns colaboradores, fornecedores, agendo as atividades da noite, peço apoio para compras de última hora.

    Confirmo o Pilates pelo aplicativo de check-in; ainda preciso passar na padaria para comprar salgadinhos e Coca-Cola — sugestão de uma das alunas. Convém apresentá-la antes que chegue atrasada algumas linhas adiante: na semana anterior, ao descobrir que minha condição de nômade incluía também uma despedida iminente, apareceu com um bolo de pamonha tão bonito quanto delicioso. Não sei se existe protocolo para acolher mulheres de passagem; se existe, desconfio que Deus envie anjos a nos entregar milho, açúcar e muita generosidade embrulhada para presente.

    Meu último dia no Pilates. Esta quinta.
    (Eu sei… a crônica está muito culinária e nada fit — nem ao corpo, nem a qualquer figurino político. Tampouco pretende entrar em forma partidária; apolítica, a esta altura, já vimos que também não é.)

    “Exercício e açaí fitness não casam exatamente bem com refrigerante e gordura”, penso diante dos quitutes. Por coerência, pego também uma caixinha de palmiers.

    Subo a Torre Norte até o nono andar, no terceiro elevador.
    Sorrisos.

    Alguns exercícios.

    A aluna do bolo de pamonha — eis que retorna a personagem, desta vez atrasada — chega e me abraça.
    Queridíssima.
    Ninguém está exatamente no clima de alongamentos ou superações musculares.

    Pausamos. Paramos em pé, ao lado externo da porta de entrada.

    “Sábado vamos dar uma volta e tomar um café antes de você ir.”

    Eu sorrio.
    Piscar de olhos.
    E já se foi o sábado. Eu não consegui encontrá-las.

    Tive de trocar o café prometido e a continuação das nossas histórias de vida pela arrumação da casa, 02 malas G de rodinhas, 02 mochilas, umas 07 sacolas retornáveis, alguns mantimentos e Magda Ficus Elastica Tineke Mies.

    Lembram-se dela? A roommate e única sobrevivente de “Esta história não é sobre plantas”, primeira crônica desta temporada inteiramente carioca. Minha bagagem concentradamente nômade revelou-se humanamente apegada: ocupou todo o maleiro de uma van executiva.

    Troquei também o café com minhas novas amigas por refeição alguma. Sobrevivi a uma sobra de queijo, restos de gelatina sabor banana Fini, água e água tônica do mercadinho-contêiner. (Vejam uma crônica tão culinária terminar o sábado em jejum. A coerência também se perdeu numa logística que se recusava a terminar.)

    Enfiei nos últimos microespaços, entre tecidos e objetos, o que não coube em mala alguma: sentimentos, memórias, aprendizados, alguma dor e muita felicidade. Até poucas horas antes, eu ainda imaginava continuar habitando aquela casa…O café ficou para trás; a Bialetti, foi envolta em plástico bolha. Abracei os funcionários do condomínio, tirei algumas fotos, troquei olhares de gratidão e, pela primeira vez, não levantei a planta do apartamento.

    Para uma arquiteta que costuma medir os lugares que habita, foi, no meu doce ver, a maneira menos técnica de manter a porta aberta.

    Deixei tudo sem escala.

    Inclusive a possibilidade de voltar. De acordar outra vez com os ruídos abafados pelo drywall; finalmente cumprir a terceira ida à piscina, desta vez com sol, diante do salva-vidas que muito mais me viu passar prometendo “qualquer dia eu venho” — gerúndios infinitos — do que em trajes de banho. Quem sabe madrugar, enfim, na academia do condomínio ou levar uma outra almofada para um banco lá fora e partilhar da minha solitude com as estrelas, uma vez mais.

    E tomar, como de praxe, meu café no sofá das leituras domingueiras.

    ***

    Os seguranças do shopping sabem meu nome.

    Os responsáveis pela manutenção, idem.

    As docas do Norte Shopping me receberam de braços abertos — em alguns dias, em mais de um idioma.

    Os corredores dos acessos restritos são labirintos familiares.

    O time da loja me cumprimenta e ainda me manda mensagens perguntando onde estou (“tem um vazamento”, “uma tomada pifou!”, “como é que faz isso mesmo?!”, “está a caminho?”). Os seguranças extras que acompanham a continuação dos serviços sorriem.

    O celular toca.

    É a Katia.
    “Chegou encomenda, bebê.”

    Cruzo as partes cobertas e abertas do pátio do centro comercial. Quando noite, chuvosa, percebo o reflexo dos painéis de led nas poças sob os meus pés. Sempre achei incríveis essas escadas rolantes que se deleitam com as chuvas. Atravesso as faixas carroçáveis e recolho mais uma entrega para a obra.

    Meu rosto é reconhecido.

    Abaixo dele, ora aparecem bloco e apartamento; ora, seis números me transformam em Ordem de Serviço.

    “Bom dia”.
    “Boa tarde”.
    “Boa noite”.

    Essa experiência nômade me deu o que anos de retornos e permanências imprevistas à minha cidade natal não conseguiram: conexões profundas.

    E pensar que cheguei aqui com bagagem demais e uma carta escrita vinte anos antes, destinada a ser aberta — embora o remetente esperasse que nunca fosse — num momento de tristeza pontuda; fora escrita exatamente no mesmo dia em que, vinte anos depois, cheguei a este lugar.

    Ah, minhas adoráveis dobras do tempo..!

    Foram tais palavras antigas e tão frescas que me tomaram no colo e atravessaram comigo a porta do apartamento. De algum modo, também moraram aqui.

    Outras presenças chegaram sem atravessar o portão preto.

    Promessas de vinda permaneceram suspensas, alimentadas por chamadas, vídeos, noites e possibilidades. Houve quem conhecesse pela tela minha casa, a disposição dos móveis, meu espaço de escrever e de ler, meus silêncios, meus fins de noite.

    Conheceram, no raso, um lugar em que nunca estiveram.

    Restaram sombras e ausências muito latentes.

    Os olhos marejam.
    Pego novamente a carta.
    Releio.
    A mão esquerda sabe.
    Respiro.

    ***

    Minha mãe e Zeca vieram passar uns dias.

    Choveu e fez frio.

    Eu tive febre. Por 12 dias consecutivos. Não pude utilizar-me de atestados.

    Trabalhei horas e horas e horas.

    Um dos meus melhores amigos fez ponte aérea para passar um dia participando da minha rotina.

    Um colega de ofício, presente da escrita criativa que a vida transformou em amigo veio, de moto Uber, tomar café só para bater papo. Depois me chamou para filar uns comes e bebes na inauguração do novo Manolo do Rio de Janeiro.

    Magda cresceu comigo, perdeu folhas e ganhou novas.

    Eu também.

    Fui duas vezes à piscina.

    Duas.

    Em quatro meses.

    Na última, atravessei os azulejos a nado, ida e volta; me sentei numa espreguiçadeira dentro da prainha, boiando.

    Achei que, finalmente, faria absolutamente nada.

    O celular corporativo tocou.

    Depois tocou de novo.

    E de novo.

    E de novo.

    Foram mais de dez ligações.

    Eu trabalhava de dentro da piscina.

    Ri.

    Parece literatura, e é; a certa altura, até a falta de pausa virou uma das pausas que eu registraria por aqui…

    ***

    Jamais esquecerei a barraquinha de hambúrgueres, que salvou noites intermináveis de trabalho e rapidamente nos promoveu a clientes VIPs: eu, meu par à frente da engenharia da obra, a técnica de segurança e o bombeiro.

    Hambúrgueres em horários em que pessoas normais dormiam. Cafés levados em garrafas térmicas que não chegavam a meia-noite de um turno comum. Depois, os cafés moídos na hora na copa da retaguarda. Muitos. Pizzas. Frutas. Conversas em pé. Conversas sentadas no chão. Retoques. Mais retoques; um checklist que parecia reproduzir seus próprios itens quando ninguém estava olhando.

    A construtora e a gigante multinacional do varejo me deram trabalho. Muito. De noite, de dia, à tarde; jornadas que algumas vezes pareciam não compreender muito bem a existência dos relógios e, ainda assim, se mostraram mestras em me proporcionar VIDA.

    Há uma ironia maravilhosa nisso: em 04 meses de obra, trabalhando em todos os turnos possíveis, o que mais se escreveu na minha vida foram as pausas.

    As pequenas.
    As roubadas.
    As inventadas.

    As que cabiam entre uma ligação e outra, entre uma madrugada e o amanhecer, entre um problema e outro, entre duas pessoas, entre uma equipe que, aos poucos e rapidamente, adquiriu contornos de família.

    Entre a vida que eu trouxe para cá e a que começou a nascer aqui.

    O final não poderia ter sido mais leve: 10 a 14 horas de trabalho noturno, de segunda ao amanhecer de sábado.

    Na terça, entretanto, fomos surpreendidos pela Light, que desligou, para manutenção, a energia de todo o shopping e nos obrigou a correr e interromper a programação. Foi providencial para que meu amigo viesse.

    Nos outros dias, empresas antigas e uma nova bateram ponto com pessoas queridas das equipes dos nossos colaboradores. Gente que já não era apenas profissional trabalhando de madrugada. Gente cujo nome passou a morar comigo, no rol dos rostos cachambianses.

    Na última madrugada, entre um retoque e outro e a espera pelo profissional seguinte, joguei forca, jogo da velha e fiz uma mímica inesquecível de filme com uma segurança que, desde o início, tinha uns ares estranhamente familiares.

    Rimos no meio de uma loja vazia depois de horas e horas acordadas. Tomamos café e água. E ouvi dela que nunca havia sido tão leve virar tantas noites. Que eu ficaria na saudade.

    Ela também. Ela e sua promessa de um calendário personalizado. “Um de 2027, claro”.

    Clareia o dia lá fora, mas aqui o ar condicionado ainda é gélido. Café passado. Mais um ajuste. Mais um item riscado.

    Uma fruta.
    Uma pizza dividida.
    Lactose sem proteção e sem riscos.
    Uma ferramenta que some.
    Uma risada.
    Um “Bia!”.
    Um “bebê”.
    Um “bom dia” dito às cinco da tarde.
    Um “boa noite” às oito da manhã.
    Fecho os olhos.

    ***

    Em quatro meses fui mais arquiteta, escritora, amiga e ser humano do que havia me percebido nos últimos dez anos:

    Aprendi a respirar. Aprendi sobre a minha energia. Me apaixonei.

    Por momentos.
    Por pessoas.
    Por lugares.
    Por plantas.
    Por cervejinhas compradas no mercadinho 24 horas do condomínio e tomadas no amanhecer de um dia comum.
    Por uma promessa.
    Por presenças.
    Por ausências.
    Por uma carta de vinte anos que chegou comigo.
    Por pessoas que sabiam meu pedido antes que eu terminasse a frase.
    Por quem aprendeu meu nome.
    Por quem me chamou de bebê.

    Por quem me abraçou na despedida sem ainda entender direito que era despedida.

    Eternizei meu primeiro eclipse visto a olho nu, deitada no banco deste lugar que se tornou tão profundamente lar.

    Fui feliz. Sou feliz.

    Há dor dentro disso. Muita.

    Há também uma mulher nova refletida no espelho. Uma que pela primeira vez nesta década olha para a própria imagem e reconhece estar viva. Muito viva.

    Hoje reorganizarei a vida dentro de malas de rodinhas 360°. Dona Rosa ainda não sabe que aquele frango à milanesa foi o último. O atendente do Mega Matte talvez ainda espere que eu apareça na segunda-feira pedindo meu açaí de 500ml.

    Meu rosto ainda abre a porta do condomínio. Meu nome ainda está ali. Por mais algumas horas.

    E eu descubro, quase na saída, que uma experiência nômade não me ensinou a não criar raízes, mas que elas podem brotar e frutificar muito depressa.

    Nos outros.
    Nos lugares.
    Em nós.

    E que, quando chega a hora de partir, não há nada a arrancar.

    Pisco.
    Fotografo com o celular, a instax e a retina.

    Pego as bolsas pelas alças, a Magda pelo pratinho e levo tudo junto. 125 dias aqui, entre idas a São Paulo, Jundiaí, Nova Friburgo e Porto Alegre.

    Pisco.
    Persisto.
    Me visto.

    É chegada a hora.

    E, de repente, já é domingo.

    Termino este texto já com o café da manhã esfriando. Preciso do meu título de eleitora. Da minha colinha.

    Após tanta política, tanta comida e tanto afeto, chego à conclusão mais urgente desta crônica:

    quero almoçar um belo frango à (a)milanesa.

  • Uma vida normal

    Valéria gosta de Cat Stevens e Johnny Rivers, de ir ao cinema e de bife mal passado pingando sangue. Escondida de todos, costuma colocar açúcar no chão e vai esmagando as formigas que apareciam, uma a uma. Também se diverte arrancando folhas das árvores, plantas dos vasos, cortando com tesoura rabo de lagartixas e atirando pedra nos pombos. Valéria parece ter um comportamento estranho.

    Uma de suas maiores alegrias é a infelicidade alheia. Gosta de apontar os defeitos físicos dos outros: Fulana tem o nariz enorme, aquela ali tem dentes tortos e a vizinha, o cabelo pixaim. Miseravelmente, Valéria é bonita.

    A irmã mais nova foi quem mais sofreu. Quando criança, Valéria cansou de passar o sabonete nos olhos dela quando tomavam banho juntas, fechar a água do chuveiro quando estava toda ensaboada e molhar a toalha da menina na privada. A caçula adorava Valéria e aguentava tudo calada. Já adulta, dizia ter aprendido a lidar com as agruras da vida graças à irmã. Valéria nunca compreendeu.

    Os namorados também padeciam. No primeiro beijo de língua, arrancou um pedaço da boca do rapaz. Adorava o gosto de sangue, de preferência, o alheio. Seu maior prazer era seduzi-los, permitir pequenas intimidades, deixá-los excitados e depois sair fora.

    Valéria tem aversão a pedintes na rua, que enfeiam e emporcalham a cidade. Já havia pegado esmolas de um mendigo e roubado a bengala de um cego no sinal. Por puro divertimento.

    No computador, cultua discussões virtuais. Especialista em discórdia nos grupos, quando surge uma polarização, critica os dois lados. Ninguém presta.

    Jamais colocou uma gota de álcool na boca nem experimentou drogas, é drasticamente contra. Adora ser contra. Ainda mais, de forma drástica.

    Quando casou, esforçou-se para transformar a vida do marido num inferno. Não foi difícil. Achava sempre um jeito de diminui-lo, ora dizendo que era acomodado no emprego, ora péssimo amante. Escolhia os amigos dele para arrastar as asas e insinuava que eram eles que davam em cima dela.

    O marido morreu cedo. Caiu de um precipício durante uma caminhada com ela numa trilha alternativa no pico da Tijuca. Uma fatalidade. Valéria chorou muito no enterro. Meses depois, comprou um pastor alemão – o Pancho – que dorme no quarto com ela, como dois namorados.

    Viúva, passou a frequentar bailes e clubes de salão. Adorava dançar, pagando pelos dançarinos de aluguel. No final, reclamava que fora pisada no pé algumas vezes e do perfume que usavam. Só para poder esculhambar com eles, torpes exploradores da carência feminina.

    Hoje mora sozinha, não tem amigos, ainda escuta Cat Stevens e Johnny Rivers e prefere Netflix a cinema. Ganha dinheiro vendendo vídeos de sadismo com animais, torturando coelhos, afogando pintinhos no balde, esmagando baratas com as mãos e pisoteando camundongos. Valéria permanece com um comportamento bem estranho, mas algumas pessoas acham normal.

  • Uma amiga

    Esta semana perdi uma amiga, uma daquelas que não passam despercebidas na multidão e por isso nos mostram aspectos da vida que não enxergamos sozinhos. Escrevo sobre ela para aliviar o luto porque, mesmo sabendo que ao longo da vida todos sofremos perdas, nunca estamos preparados para elas, ainda que anunciadas. Às vezes acho que a vida não passa de um jogo de soma zero: quem nos traz mais alegria é também quem nos traz mais tristeza ao partir.

    Multifacetada, ela influenciou muita gente, cada um de maneira diferente. Impressionante a diversidade das pessoas que se manifestaram. Em comum a sensação de que, embora o mundo parecesse agora mais triste, o que o seu convívio ensinou permaneceria intacto. Deixou um legado profissional importante, foi pioneira em algumas áreas – essa parte eu delego aos biógrafos que saberão contar melhor.

    Minha amiga era tudo menos invisível. Exuberante, generosa, comunicativa, espalhava alegria e, ao mesmo tempo era muito fechada e discreta, sabia falar (em sete idiomas) e calar (em sete idiomas). Nela conviviam todas as contradições. Não cabia em nenhuma categoria. Só nela mesma.

    Amava a família acima de tudo. Um tipo inesquecível, como disse o marido. Já se conheciam vagamente quando se encontraram de verdade. Foi uma paixão fulminante como poucas. Paixão e amor desde os primeiros tempos, quando timidamente foram assumindo a relação, até o final quando, ela já doente, ficavam de mão dadas e ela sorria. Tão marcante na vida quanto na morte.

    Pensarei nela toda vez que ouvir uma piada que lhe agradaria. Algum dia vou tirar os brincos dizendo ‘Vocês já viram como meus brincos são bonitos? Então não preciso mais deles’. Quem sabe até coloque gelo na cerveja, algo que a vi fazer mais de uma vez. Pode ser que fique horrível, não importa. Obrigada, amiga.

  • Língua

    Língua breve, toda clara, toda escura,
    Aos poucos caminha, para, continua
    e entre o areal, a bruma, a leve chuva
    a face se mostra, inquieta e muda.

    Língua instante – objeto nada – rara, pouca
    Para, continua, para… tonta e louca
    Ensaia um grito, uma palavra, outra,
    A voz se insinua, miúda e rouca.

    No entanto, nas contradições do descaminho,
    Faz-se a língua na própria língua
    Faz-se o verso em todo o canto.

    O poeta, imagem irreal, o instinto,
    Busca a palavra, suga-lhe o sentido
    Regurgita o poema sob aplausos e espanto.

  • A meia do Juju

    As pintinhas vermelhas pelo chão eram de sangue. Rex havia quebrado uma unha e deixado um rastro pelo terraço. Se doeu, não reclamou. Ele quase nunca late.

    Apenas continuou andando em círculos pelo terraço, deixando o piso cada vez mais marcado. Por causa da demência, ele não sabe parar. Talvez nem tenha percebido o machucado. Nem a dor.

    Deu pena vê-lo assim.

    Paty tentou fazer um curativo, mas as ataduras não paravam no lugar. Foi quando me lembrei de uma meia que havia sido do Júnior, nosso outro cocker.

    Juju usava aquelas meias quando ficou velhinho e começou a ter dificuldade para descer as escadas. Eram antiderrapantes. Na época, pareciam apenas mais um daqueles pequenos gestos que fazemos por quem amamos quando a velhice chega.

    Depois que Júnior morreu, uma das meias ficou guardada.

    Às vezes fazemos isso. Guardamos pequenos objetos de quem se foi: uma fotografia, uma coleira, um brinquedo, uma roupa, uma meia. Coisas que perderam a utilidade, mas que, por alguma razão, não conseguimos jogar fora.

    O tempo passa. Elas permanecem quietas dentro de uma gaveta, até que, um dia, voltam para nossas mãos. E então deixam de ser simples objetos. Transformam-se em lembranças, em boas histórias. Em breves sentimentos entre aquilo que passou e aquilo que ainda está aqui.

    Hoje, anos depois, a meia do Juju saiu novamente da gaveta. Dessa vez, para proteger a pata machucada do Rex.

    A mesma meia que um dia ajudou Juju, velhinho, a não escorregar pela casa, agora protegia outro cão que também envelheceu e precisava de cuidado.

    Fiquei pensando em como a vida é curiosa.

    Uma coisa deixa de ser necessária, é guardada e parece ter chegado ao fim de sua utilidade. Até que, um dia, alguém precisa dela outra vez.

    Juju morreu em 2018. Mas hoje, de algum modo, uma parte dele voltou a caminhar pela casa.

    Não para que pudéssemos vê-lo. Mas para nos lembrar, mais uma vez, da sorte que é ter um cão.

  • Quando o algoritmo falha

    Dizem que, com duas ou três perguntas certas, dá para entender quase qualquer pessoa.  

    E se bastasse uma?

    Numa conversa dessas que começam em qualquer assunto e terminam em nenhum, alguém lançou a pergunta:

    — Você é mais gato ou cachorro?

    A mesa se dividiu rápido. Teve quem respondeu sem pensar, quase ofendido com a dúvida. Teve quem hesitou, como se estivesse prestes a revelar um traço de caráter.

    Achei curioso.

    Porque, no fundo, ninguém ali falou de bicho nenhum.

    Os “cachorros” eram fáceis de reconhecer. Chegam perto. Encostam. Confiam antes mesmo de saber. São de riso aberto, de presença inteira, de lealdade quase automática — dessas que às vezes atropelam o próprio bom senso.

    Os “gatos” não. Esses medem a distância. Observam antes de se oferecer. Têm um certo gosto pelo silêncio, pela independência, pelo território próprio. Aproximam-se quando querem — e isso, curiosamente, faz com que a aproximação valha mais.

    Não precisou de teste, nem de algoritmo, nem de análise profunda. Bastava a pergunta.

    Simples assim.

    Ou quase.

    Porque, no meio da mesa, alguém — talvez mais honesto que o resto — disse:

    — Eu acho que sou os dois.

    E aí complicou.

    Fiquei lembrando de CatDog, aquele desenho antigo: um corpo só, duas naturezas incompatíveis tentando coexistir. Um puxando pra um lado, o outro pro oposto. Um querendo festa, o outro querendo silêncio.

    Talvez seja isso.

    No fim das contas, a gente não escolhe entre gato e cachorro.

    A gente negocia.

    Todos os dias.

    Entre o impulso de chegar abanando a vida e a vontade de desaparecer sem darexplicação.

  • Crônica de fim de tarde de uma Segunda, Terça ou Quarta-feira

    A esperança é uma droga alucinógena. Tal frase causou impacto repentino, travando o movimento corriqueiro do dedo sobre a tela brilhante. “Era isso, muito provavelmente”. Não tinha experiência anterior com drogas, não sabia que a esperança poderia ser vista assim: alucinógena. E era. Era o que ela pressupunha a partir do que sentia: esperava ventos na direção oposta, um misto de fé na natureza e também nas cartas do tarô da esposa do seu Ercílio — “com E mesmo”.

    Segunda, terça e quarta, por serem os dias menos movimentados do restaurante, Ananina fechava as portas do térreo e subia a escada caracol dos fundos, religiosamente, às 17h45 da tarde. Às 17h50 já tinha percorrido o corredor de longos metros lineares, sem elevador e cuja escada de emergência situava-se na outra extremidade, subido três lances para então aguardar, com mais três pessoas, a abertura da porta do 408.

    Hoje, terça-feira dentro do corrido e chuvoso mês de setembro, Ananina esperava a sua leitura do tarô. Hora marcada, mas entrada por ordem de chegada. Era a primeira da fila. Seu Ercílio apareceu no corredor. “Olá, Ana-Aninha; Olá, Olaviano. Olá para você também, mocinha, bem-vinda. Sou o Ercílio. Entrem”. “Ercílio se escreve com H ou E, senhor?”, perguntou a novata na arte de aguardar as leituras de início da semana.

    Seu Ercílio, “com E mesmo, moça”, trazia sua bandeja de prata costumeira, com chá de hibisco, café, três copos descartáveis de baixa estatura e uma cestinha com pães de nata. “Nata, porque um T é melhor do que um D e as leituras anunciam tudo, basta que nos concentremos no aqui e no agora. Coma um pãozinho, se assente aqui.”

    Os três entraram na saleta improvisada, que funcionava como um terminal rodoviário em escala mínima. Pelas duas seteiras, estreitas como estrias verticais arreganhadas na parede, via-se o amontoado de pombos no meio da praça, em frente à igrejinha. Havia cheiro de cigarro no ar – ou cachimbo. Um ruído constante saía do radinho à pilha: pareciam os alardes de um alto-falante anunciando as próximas saídas de veículos-viajeiros, com a mesma solenidadede quem canta os números de um bingo. Ananina foi chamada com o olhar de seu Ercílio. Levantou-se da cadeira estofada com palha e deu cerca de dez passos à frente. Afastou a cortina vermelha de veludo, logo à direita. A luz era arroxeada.

    De costas, a mulher de seu Ercílio parecia um duende de Papai Noel que ficara roxo de raiva. “Pode sentar.” Ananina obedeceu e sentou-se. A mulher não; continuou de costas por alguns segundos, remexendo qualquer coisa numa prateleira. Ananina aproveitou para olhar a sala. Havia uma imagem de Nossa Senhora, um elefante de louça com a tromba para cima, uma samambaia que já aceitara a morte sem comunicá-la oficialmente à família. Abaixo deste ente moribundo, sete cristais de procedência duvidosa.

    Sobre a mesa, um pano preto salpicado de luas douradas — “ou restos do almoço, o que também seria uma espécie de constelação”, pensou Ananina. Ia continuar olhando, porque às vezes olhar é só uma forma educada de não saber o que fazer, quando o escuro diante dela se moveu. A mulher se virou. Por um instante mínimo, a luz negra voltou a caber na sala. Não
    era um duende.

    Era pior: era uma pessoa comum.

    “Corta com a mão esquerda.” Ananina cortou. “Agora com a mão direita… não… tenta a sua outra mão esquerda, então…” Ananina sempre tinha suas dúvidas sobre qual mão era uma direção ou outra. Precisava fingir que escrevia algo no ar para ter certeza da mão esquerda, era canhota.
    “Agora pensa.” Pensou.

    “Não precisa pensar tanto.” Ananina piscou, mudando o olhar do baralho para os olhos de Helena.

    A mulher virou uma carta. Depois outra. Depois uma terceira, que olhou por tempo suficiente para que Ananina começasse a desconfiar que talvez tivesse saído ali alguma coisa envolvendo morte, casamento ou imposto atrasado. “Tem distância.” Ananina olhou para a carta.
    “Distância?”
    “Tem.

    Helena virou mais uma.
    “E notícia.”
    Outra.
    “E uma pessoa.”
    Ananina quase perguntou se a pessoa tinha CPF, porque ajudaria bastante. Quase; não perguntou.
    A mulher continuou:
    “É alguém que permanece. Mas não está exatamente perto.”

    Era curioso como o tarô tinha adquirido, em menos de trinta segundos, a precisão geográfica de um aplicativo de mapas com sinal ruim. Ananina olhou para as cartas abertas. Distância tem nove letras e um chapéu, que pode ser de despedida, velório ou em prol da moda. Distância não parece, com toda a sua pompa, circunstância e tamanho encorpado, mas é pobre.

    Pobre de espírito.
    “Pobre de quem dela depende. !”,
    pensou. E no fluxo da reflexão, complementou:
    “Não sei se prefiro estar à distância de um vídeo ou à distância de uma carta.”
    Helena-duende-de-raiva ergueu os olhos.
    Ananina percebeu que tinha dito em voz alta.
    “Como?”
    “Nada.”
    Mas não era nada.

    A carta, ao menos, não tem olhos. Não olha de volta e pode-se tocá-la sem que esta recue. Dobrá-la. Guardá-la entre páginas. Levá-la para a cama sem pedir licença. Esquecê-la numa gaveta por seis anos e reencontrá-la numa terça- feira entre um carnê da loja de sapatos vencido e uma fotografia que pára o próprio tempo. Pode- se cheirá-la. Cartas têm cheiro. Até quando não têm, têm. Há nelas a certeza de uma mão ter estado ali antes da nossa. Uma mão real. Com unha, veias, pele, talvez suor. Uma mão que escreveu, gozou, limpou-se de forma higiênica – ou não – e depois fechou o envelope. Talvez com saliva. A carta sabe ir embora.

    Já o vídeo, não.
    O vídeo fica: Há boca. Há olhos. Há a possibilidade da transmissão ao vivo, com lapsos de segundo que balançam em função de quantos "Gs" temos à disposição. Vídeos meandram entre aquela pequena inclinação da cabeça quando alguém escuta, os dentes, o cabelo fora do lugar. Há uma pessoa inteira acontecendo a cinquenta centímetros do rosto e a quinhentos, cinco mil ou dez mil quilômetros do corpo. Isso deveria ser proibido.

    Ou tributado.
    Ananina imaginou uma repartição pública responsável por distâncias afetivas.

    “Boa tarde. Vim renovar minha saudade.”
    “Trouxe comprovante de residência?”
    “Não. Só a roupa do corpo… e o celular, serve?”
    “Bom… então a senhora vai precisar sofrer mais trinta dias e retornar com original e cópia.”

    O vídeo era isso: pura burocracia do desejo.
    Mostrava tudo o que faltava: a testa em que se queria encostar a própria testa; a boca que se queria beijar; o ombro onde caberia perfeitamente uma cabeça… Uma pessoa inteira comprimida numa tela pequena demais para abraçar alguém. A carta era mais feliz porque mentia melhor. A imagem saltitante era cruel porque provava que existia aquilo que faltava.
    Helena virou outra carta.

    “Tem espera.”
    Ananina riu. Riu não porque fosse engraçado, também não porque não fosse. “Quanto tempo?”
    A mulher juntou os lábios. Esse era, concluiu Ananina, o momento exato em que todos os oráculos do mundo se tornavam funcionários públicos:

    “Tempo é difícil de precisar.”
    Claro.
    A esperança, ao contrário, era pontual.
    Chegava cedo.
    Sentava na primeira cadeira.
    Comia dois pães de nata de uma só bocada.
    E, sentada na saleta, cheia de farelos de glúten, aguardava a sua vez.

  • Quando usou a inteligência artificial

    Tudo começou com uma consulta simples. Pediu uma informação banal! Um nome.

    Depois, uma pesquisa sobre um país, sua bandeira, seus habitantes…

    E assim foram outras pesquisas: comida, roupas, música…

    Pedia informações sobre quase tudo. Não tinha mais o trabalho de pensar! Pensar? Dá muito trabalho! Pra que pensar?

    E assim pedia, para todas as atividades do seu dia, uma ideia, uma orientação, uma resposta!

    Vai chover hoje? Que roupa combina com esse evento assim?

    Quem eu sou? O que eu sou? Humano? Coisa?

    Até que, numa manhã qualquer, não sabia mais o próprio nome,

    Não sabia do que gostava e do que não gostava. Não tinha qualquer pensamento sobre si mesmo!

    Olhou para aquele rosto no espelho e não reconheceu traço algum do que via. Afinal, o que era?

  • Luzia e o dia a dia

    Passa das onze e o casal se prepara para dormir. Ele, já na cama, lê o jornal. Ela entra no banheiro da suíte. Ele sempre lia o jornal antes de dormir e ela tomava seu banho. O segundo do dia; o primeiro era ao acordar.

    Ele acaba de ler e ela ainda no banho.

    — Luzia, não demora, quero dormir.

    Ela, no chuveiro, não escuta. A água morna batendo na cabeça, por cima da toca de banho e ela pensando na vida. Mais especificamente no seu casamento. Completariam seis anos de casados.

    — Luzia, porra, vem logo dormir!

    Agora Luzia tinha escutado. Ela já estava acabando de se enxugar. Por que tanto estresse? Nem tinha demorado assim no banho.

    Quando chega ao quarto, o marido aparenta estar dormindo. Ela acha estranho porque ele nunca dorme antes dela e com a luz acesa. Ela coloca um short e o soutien. Gosta de dormir sem calcinha. Penteia o cabelo, prende com rabo de cavalo, puxa o lençol, entra na cama e se ajeita.

    — Pode apagar a luz.

    — Até que enfim, né, Luzia?

    Ela prefere não responder. Rememora o tempo do começo do casamento: dormiam e acordavam juntos, às vezes abraçados. E sexo.

    Muito sexo. Isso que a incomoda. Não trepam há bastante tempo. De deitar e despertar abraçados nem sente tanta falta. Mas sexo…Ela nem lembra quando foi a última vez. Será que ele tem outra? Não, ela teria notado. A fase da paixão havia passado. Casamento passa por fases. Não é o que a perturba, mas a sensação de que, no momento, parecem se detestar, se aturar.

    — Você não quer mais ficar comigo. Se for isso, pode me dizer.

    — Que besteira é essa, Luzia? Está sem sono?

    — Quero só saber. Diga sim ou não.

    — Quero ficar com você. Agora, dorme.

    Ela não sente firmeza na resposta.

    — Mas ficar por ficar, na acomodação de tantos casais por aí, ou porque quer de verdade? Se pudesse escolher, ainda ficaria comigo?

    — Mesmo se a outra opção fosse a Scarlett Johansen?

    — Não fuja da resposta, ficaria ou não?

    — Ficaria, Luzia. Vamos dormir?

    Ela tinha perdido o sono. E a culpa era dele. Tudo havia começado com aquele “Luzia, porra, vem logo dormir!”. Ele nunca tinha se referido a ela daquela maneira.

    — Acho que deveríamos ter uma conversa séria.

    — Luzia, não acredito, conversa séria agora?

    — Para ficar com uma pessoa se sentindo constrangido, obrigado, não vale a pena. A vida é curta. Temos de ter um mínimo de carinho e consideração um com o outro. E respeito, respeito é o básico. Não porque estamos juntos e casados há algum tempo que vamos esquecer a noção de civilidade e educação. Eu até acho que…

    Ela é interrompida pelos roncos do marido.

    — Meu Deus, você dormiu?

    Luzia queria acordá-lo, sacudir-lhe a cabeça e gritar para que ele nunca mais fizesse isso, deixá-la assim no vácuo, falando para as paredes, literalmente.

    O marido continua ressonando. Ela desiste, puxa o lençol e enfia a cabeça no travesseiro. Está puta da vida. Amanhã, sem falta, terá uma conversa franca com ele.

    O marido para de roncar. Menos mal, Luzia tem dificuldade para dormir com barulho. No silêncio do quarto, ainda destila sua raiva. Nem pensar em ficar com alguém que não a respeita. Onde já se viu ficar casada para conviver com desaforos. Começa com “porra, Luzia” aqui, outro “porra, Luzia” ali, e quem sabe o que virá a seguir?

    O marido volta a roncar.

    Ela sacode o corpo dele para que cessem os roncos. Lembra que amanhã terá de acordar cedo para a aula de musculação e ainda fazer o supermercado. Luzia solta uns peidos, vira para o lado e pega no sono.

  • Com qual “provante” ficar?

    Eu me apaixonei por um sapato. Na verdade, por dois; ainda não sei com qual deles ficar.

    De um lado, um exemplar — par só depois de escolhido; antes disso, convenhamos, é pretendente. Honestamente, nem isso; ficante tampouco: apenas um provante — atrevidamente decidido: em pelo preto, bolinhas brancas disformes, salto alto e grosso, ponta quadrada vermelha. Vermelha mesmo. A irregularidade do branco ainda ensaia alguma compostura, categoricamente desmentida pela desfaçatez de quem, no limite do primeiro passo, resolveu acrescentar alguma coisa que a mãe certamente desaprovaria. Parece ter alguma vantagem nessa cor brilhante e atrevida, justamente da cor que anda me faltando.

    Do outro lado, o oponente de couro amarelo-limão-siciliano — minha cor preferida, o que já configura certa vantagem indevida — apresenta-se com menos altura. Tamanho nunca foi documento; e, se fosse, não caberia a uma mulher apaixonada conferi-lo: córneas flechadas não são instrumentos confiáveis de medição. Quanto ao juízo, este parece ter ainda menos: salto baixo e fino, bico comprido, quase um papagaio, e uma pequena confusão de amarelo, azul-marinho e prata no calcanhar, onde uma almofadinha parece ter sido posta para protegê-lo das consequências das próprias escolhas. Parece livre. Libertino, não direi; esta crônica ainda mal começou e não convém difamar um provante antes do primeiro passo em falso.

    Aquele pisa firme. Este parece prestes a levantar voo.

    Bisbilhoto um, namoro o outro. Volto ao primeiro às escondidas, como se o segundo pudesse descobrir. Faço contas, entro no site de uma loja, retorno ao da outra — ainda bem que a internet mantém vitrines abertas ad aeternum. Salvo fotografias, amplio detalhes, ensaio no ChatGPT versões de mim mesma calçando um e outro. Não sei se procuro sapatos ou se os sapatos, a esta altura, é que já estão procurando por mim — que delícia ser disputada, ao menos em pensamento!

    As imagens têm meu rosto, meu corpo, meus cabelos; ainda assim, há nelas alguma presença que não sei nomear. E minhas últimas setenta e quatro páginas de leitura de umas crônicas sombrias me aconselharam prudência com presenças sem nome. Soa estranho, quase calvo, reconhecer-me num espectro de mulher renderizada que ainda não existe. Mais estranha é a suspeita de que exista e esteja apenas de butuca, esperando alguma coisa para aparecer.

    Tudo isso para escolher um sapato, você pensa. Pense. Também eu acreditava nisso. Até perceber que vinha conduzindo o assunto pelo avesso: não imaginava os sapatos em mim. Imaginava quem eu seria dentro deles.

    É uma diferença pequena, dessas que cabem entre o pé e o couro. Você aí, não a despreze… Há quem aperte a vida alheia por muito menos; não lhe investiguemos os motivos, que esta é uma crônica de sapatos e temos assunto suficiente.

    Mentira.

    Pensando em sapatos, fui parar na filosofia oriental — o que não chega a ser o destino mais provável de um sapato. Mas já que demos o salto, foi mais alto do que baixo, eu diria (ponto para o exemplar preto?). Em Ausência, Byung-Chul Han escreve que esquecemos os pés quando usamos os sapatos certos. Fiquei presa à frase, maneira bastante ocidental de ler sobre desapego, apegando-me de antemão. A mão é força de expressão; esta crônica, até segunda ordem, continua à altura dos pés. E um pé bem calçado simplesmente anda. Se estiver estiloso, anda de cabeça erguida.

    É, até que faz sentido eu me apaixonar por um (ou dois) sapato(s).

    Diria que soa mais prudente do que se apaixonar por uma (ou até mais de uma) pessoa. Sapatos não prometem que vêm depois, não desaparecem no meio de uma conversa nem dizem uma coisa na terça e outra completamente diferente na sexta. Não deixam de pagar a conta; simplesmente não o fazem. No máximo, apertam. E, quando apertam, têm a decência de informar onde.

    Não são grudentos, jamais ciumentos: tirá-los por algum tempo costuma ajudar. É até bom não usar o mesmo sapato todo santo dia; o pé respira, a bolha cicatriza e ninguém pede explicações. Alguns cedem com uma vela, outros com tempo e alguns passos pela casa. Amolecer para continuar. Continuar para esquecer.

    Esquecer, aliás, não é necessariamente perder. Aprendo com Han que pode ser simplesmente parar de segurar. E aí a água me parece uma professora mais eficiente que a filosofia: envolve o corpo inteiro, mas escapa quando fechamos a mão. Algumas paixões têm a mesma falta de educação. Passam pelos dedos sem pedir licença. A água vai embora; a mão fica molhada. Água e memória; algo permanece, mesmo depois que seca?

    Sapatos, felizmente, têm maior vocação para a permanência. Passam por cima de tudo. Depois é só limpar ou engraxar e ficam prontos para outra.

    Eu ainda não comprei nenhum dos dois. Nem sei se vou… será? Posso continuar meu flerte entre janelas. E, se não escolher nenhum, ainda posso andar de cabeça erguida. Na ponta dos pés, calçando sandálias havaianas, se preciso. Uma pincelada de esmalte resolveria a falta de cor — e custaria menos que certas paixões, sobretudo quando já se anteveem os juros do parcelamento do provante. Esta semana comprei três potinhos de esmalte: Intuição, que já está cintilando em meus vinte dedos; Novos Ares, que fica para a próxima semana; e uma outra cor da qual já não me lembro o nome — e nem vem ao caso, estamos perdendo o foco.

    Comprar ou não comprar, eis a questão? Decidir pode ser também deixar alguma coisa onde estava. Apaixonar-se, de soslaio, inclui uma possibilidade que as vitrines, por compreensíveis razões comerciais, não anunciam: perder. Eu ainda posso perder os sapatos por esgotamento de estoque.

    Sei que ver o número 37 inatingível ao clique, em qualquer um dos provantes, vai me preencher de ausência. Uma ausência tamanho 37, precisamente. E ausências, ao contrário do que anuncia o nome, ocupam espaço. Meus pés, menos dados à metafísica, acabarão calçando o que restar por W.O.

    Moral da história: apaixonar-se é um perigo, seja qual for a espécie do ser amado.

  • O menino que escrevia versos

    O menino e a palavra eram amigos desde sempre.

    Inseparáveis como as horas e o tempo.

    Sensação, coração e pensamento.

    A palavra era a bola, a rasteira, a corrida, as travessuras…

    A palavra era o rosto, as descobertas, as noites escuras.

    O menino escrevia a vida e as suas cores em palavras pequenas, palavras grandes, palavras muitas ou palavras poucas. Cidades e
    ruas.

    A palavra se fazia chuva, sol, mar e vento, beijo e estrada, sonho, abraço, sentido, tudo e nada!

    O menino era poeta! Dizia com assombro a mãe!

    O menino era poeta! Falava paralisado o pai!

    O menino se metia com os versos? Indagava um e outro familiar.

    Não havia ser vivente que não questionasse o porquê dos versos.

    A verdade é que o menino abria os olhos e, para enxergar o mundo, escrevia. Escrevia suas histórias, registrava suas memórias e
    juntava lugares e nomes e sentimentos.

    Misturava o que ouvia, inventava o que não existia e simplesmente escrevia…

    Depois de algum tempo, já sabedores da situação, ninguém mais perguntava a razão.

    O menino é assim mesmo!

    Bola, papel, pião. Catavento, sopro, dragão.

    Laço, entrelaço, uma mão.

    Caminho, descaminho, construção.

  • Sugando Ana Paula

    Ana Paula nunca teve sorte no amor. Abusada na infância diversas vezes por um primo, calou-se sobre o ocorrido. Seu primeiro namorado era gay e ela demorou a descobrir. Achou que o problema era dela. Depois ficou noiva de um piloto de helicóptero que viajava muito e quase não ficava com ela. O noivado se arrastou com promessas de casamento. Um dia recebeu do noivo uma carta terminando tudo. Custou a se recuperar.

    Na faculdade conheceu um professor e se apaixonou. Não demorou e descobriu que ele era casado e tinha duas filhas. A caçula quase da idade dela.

    As sucessivas desilusões deixaram marcas e Ana Paula resolveu ficar um tempo sem se relacionar. Tentava disfarçar sua tristeza e seguia levando a vida. Procurou ajuda com terapia. Algumas sessões e a conclusão: sua infelicidade tinha origem na anulação dos próprios desejos.

    Ana Paula tentou se soltar e exigir menos. Não teve tantas oportunidades, apenas alguns namoros frustrantes. Parecia que tinha o dom de escolher parceiros ruins.

    Ainda assim, manteve a esperança de encontrar alguém. O homem escolhido deveria ter maturidade emocional, não precisava ser milionário nem bonito. Ela até simpatizava com calvos.

    Formou-se em Arquitetura e abriu um escritório em sociedade com uma colega da faculdade. Ana Paula descobriu que sua sócia era homossexual e apaixonada por ela. Mais para tentar manter o negócio do que por real interesse, cedeu e tentou a relação. Não deu certo. Terminaram a sociedade.

    A seguir, conheceu um engenheiro industrial numa festa de fim de ano. Atração imediata e recíproca. Ela custou a acreditar. Ele era um encanto, carinhoso, quase sem vícios, bem apessoado, enfim, de acordo com suas exigências. O namoro prosperava e Ana Paula não cabia em si de felicidade.

    Mas seu engenheiro, numa viagem a trabalho, sofreu um acidente de carro numa estrada, foi hospitalizado e entrou em coma durante quatro dias, até ser declarada sua morte cerebral.

    Durante esses quatro dias, ela ficou a seu lado no hospital, rezando e pedindo a Deus que ele sobrevivesse. Deus não poderia fazer isso com ela. Ana Paula, a partir do dia da morte do namorado, tornou-se uma descrente incondicional.

    Desanimada, sem estímulos, convenceu-se de que seu destino era ficar sozinha. Uma sina. De agora em diante, só casos passageiros, uma trepada aqui e ali e nada de expectativas.

    Era ainda uma mulher bonita, tinha um belo corpo e se comunicava bem. O sexo, no entanto, raramente a satisfazia. Convivia com ejaculações precoces e impotências alheias. Os orgasmos eram raríssimos. Assim, passou a cogitar seriamente a abstinência sexual.

    Até que uma amiga lhe falou a respeito de um sugador de clitóris em formato de porquinho – a escolha perfeita para quem buscava autoprazer aliado à fofura.

    Ana Paula visitou uma sex shop e se impressionou com a quantidade de brinquedos eróticos:  anéis penianos, massageadores, plugs anais… O tal “sugador de clitóris porquinho”, sugerido pela amiga, tinha dez modos de variações, era à prova d’água, não necessitava de pilhas e vinha com carregamento USB. Um pouco caro, mas ela considerou o custo-benefício, já imaginando os benefícios futuros.

    Na primeira noite quase desfaleceu de tanto gozar. Perdeu a conta. Imediatamente apaixonou-se. De agora em diante, não faria mais sentido buscar um homem que se encaixasse nos seus sonhos, melhor usufruir do seu fiel e incansável sugador.

    Num sábado chuvoso, sentindo-se romântica, resolveu fazer em casa uma harmonização de queijos e vinhos. Cortou pão francês emrodelas, queijos brie e camembert, além de um parmesão italiano. Abriu um cabernet chileno, separou duas taças (uma para ela e outra para o porquinho) e serviu o vinho. Depois de brindar, selecionou uma playlist de músicas calmas, apagou a luz e acendeu as velas. À mesa, arrumada com capricho, Ana Paula olhava, arrebatada, para seu parceiro sugador. Ele só faltava falar…

  • PVD

    Sonhei com um caderninho brochura.
    Capa marrom.
    Letras pretas em relevo na capa.
    P V D.
    Logo me vi de uniforme escolar, mordendo um pouco o lábio inferior.
    Estava perdida. Melhor nem ir ao catecismo.

    Se era PVD por que não decorei?
    Era essa a pergunta que a Madre superiora iria me fazer.

    Acordei rindo, apesar das gotinhas que brotaram na minha testa.
    Aí me veio a ideia: e se existisse um PVD para a vida adulta?

    Tipo:
    ✔ PVD. Se você emprestar um livro de que gosta muito: anote para quem..
    ✔ Não vá ao supermercado com fome.
    ✔ “Vou só dar uma olhadinha no celular” não leva cinco minutos.
    ✔ Se o sapato machucou na loja, não ficará confortável na festa.
    ✔ “Vamos marcar” não é um convite.
    ✔ Não responda e-mail com raiva. Muito menos WhatsApp.
    ✔ Quando alguém disser “é só atualizar”, faça backup.
    ✔ Se você guardou uma coisa “para uma ocasião especial”, talvez a ocasião especial seja hoje.
    ✔ Não deixe para dizer depois aquilo que importa.
    ✔ Não espere que o outro adivinhe.
    ✔ Algumas pessoas não vão mudar só porque você explicou melhor.
    ✔ Nem toda discussão precisa de vencedor. Algumas precisam apenas terminar.
    ✔ O tempo que você está esperando “sobrar” não sobra.
    ✔ Você não precisa ter a última palavra.
    ✔ E nunca diga: “Comigo isso não acontece”. PVD

    Fechei mentalmente meu novo caderninho.
    Capa marrom.
    Letras pretas em relevo.

    P V D.
    Para Você Decorar.

    Sorri.
    Setenta anos depois, finalmente entendi o problema.

    Eu sempre decorei.
    Só nunca obedeci.
  • Manta, pipoca e duas em uma

    Me dói.

    Um sofá cinza acolhe um corpo enrolado em uma manta pequena. Uma almofada faz as vezes de travesseiro. O ambiente é iluminado pelos feixes de luz que mudam constantemente de intensidade e cor, vindos da tela de grandes proporções, onde a Netflix permanece em pausa, e pela abertura mínima da cortina da varanda — mantida assim para que a planta ali postada, de sentinela, possa respirar.

    Certas dores dispensam gramática; já chegam sabendo ser substantivo, verbo e sentença. Encolhido no sofá, meio corpo dentro de uma febre que não termina de ir embora, meio corpo dentro de uma lista de coisas que também não termina nunca. Há trabalho espalhado pela casa: folhas sobre a mesa, o computador em estado de espera, o WhatsApp, talvez até dentro da geladeira, se houvesse forças e coragem para abri-la. Eu deveria estar fazendo alguma dessas coisas.

    Não estou.

    Estou debaixo da manta souvenir de uma viagem de avião emblemática.

    Digamos que tal elemento foi incorporado ao meu enxoval-patrimônio-itinerante. A manta é fina demais para aquecer alguém, mas tem a qualidade invejável de me fazer pensar em aeroportos. E aeroportos, ultimamente, são uma espécie de esperança com portão de embarque e um caminho sem migalhas de pão para o qual retornar. Penso nas próximas viagens. Em cidades nas quais ainda não fui, nas que habitarei temporariamente em breve. Numa janela desconhecida, numa rua que ainda não sabe meu nome. Na minha versão ainda sem rosto.

    Talvez seja a febre, mas penso também na estranha vontade humana de caber por alguns minutos no abraço de alguém. Nem sei de quem. Talvez nem importe. No meu encolher suado, sorrio. “Assim caminha a humanidade”, surge um pedaço de uma velha canção conhecida. A ausência tem dessas crueldades: às vezes nem rosto possui. Aperto a manta contra o peito.

    E eis que alguma coisa se mexe ali dentro. Estremeço.

    — Sai.

    Nada.

    — Eu sei que tem alguém aí.

    Uma cabeça surge na altura dos meus joelhos.

    Cabelos pretos. Cachos lindos, insolentemente bem definidos, como se nunca tivessem ouvido falar em progressiva, secador, escova rotativa ou no projeto feminino de pacificação da vida.

    Depois vêm dois olhos enormes.

    Pele branquíssima, jovem, intacta daquela maneira ofensiva como só a pele infantil consegue ser. Ela segura um pote de pipoca entre os dedos. Sorri sem mostrar os dentes.

    Reconheço imediatamente.

    A menina sou eu-de-antes.

    A versão de mim que ainda não tinha aprendido que os cachos não eram um problema a ser resolvido. Na verdade, os cachos nunca foram um problema. Nem o corpo. Nem a vida. Ela se enfia mais para dentro da manta, ajeita as pernas sobre as minhas e pergunta:

    — Vai rolar Netflix ou você vai continuar fazendo essa cara de mulher abandonada num romance russo?

    Olho para ela.

    — Estou com febre.

    — Eu vi.

    — Tenho muito trabalho.

    — Também vi.

    — E estou triste.

    Ela mastiga uma pipoca.

    — Isso eu senti da cozinha.

    Ficamos em silêncio. Pego o controle remoto. Escolho uma série. Comédias com pessoas fazendo coisas moralmente questionáveis sempre me acalmam. Talvez porque a moralidade alheia seja um ótimo descanso do próprio cotidiano.

    Minha criatura acompanha tudo com enorme concentração, enfiando duas pipocas de cada vez na boca, e depois de alguns minutos começa a emitir opiniões não solicitadas.

    Aquela ali é meio burra, olhe bem.

    A outra está mentindo; como mente mal, coitada.

    A terceira deveria fugir.

    Esse homem tem cara de quem pede desculpas e repete exatamente a mesma coisa depois.

    — Você tem oito anos — digo.

    Ela me olha.

    — E você tem quantos e continua caindo nessa?

    Não respondo.

    É desconcertante ser chamada à atenção por uma criança que mora dentro da própria cabeça. Puxo mais a manta. Ela também. Lembro-me do cabo-de-guerra, minha/nossa modalidade preferida nas Olimpíadas da escola. Ficamos ali, empatadas, apertadas dentro da manta: duas mulheres ocupando o espaço de uma pessoa só, embora tecnicamente exista apenas uma nesse nós.

    Começo a pensar que eu e minha Pequena passamos a vida inteira aprisionadas juntas. Não de forma trágica – ou não apenas: um quê de prisioneiras livres. Crescer, penso, é como construir paredes de um material que não é tijolo, cimento ou drywall. É outra a técnica, outra materialidade. O cabelo que era melhor alisar. A palavra que era melhor não dizer. O choro que era melhor engolir. O sonho que era inconveniente. Silêncios. E mesmo assim, lá dentro, essa criatura continua fazendo piadas. Idealizando histórias. Apaixonando-se por palavras estranhas. Mudando o nome das coisas. Inventando saídas. Comendo pipoca.

    Como não percebi antes?

    Ela me olha, entende a pergunta não pronunciada e faz uma cara de “sei lá”, intensificada pelo levantar dos dois ombros. Volta a assistir à série.

    — Lembra da cabana da Barbie?

    Ela levanta a cabeça de imediato.

    — Claro, né? Montávamos no meio da sala. Papai era sempre quem ajudava com a estrutura: aquelas paletas de madeira, as junções de plástico, uma engenharia doméstica de altíssima complexidade e baixíssimo rigor normativo. Depois enfiávamos o meu colchão lá dentro. O colchão, maior que a cabana, vazava pela porta de tecido. Era o máximo dormir lá, com as pernas para fora.

    Havia alguma coisa extraordinária em construir uma casa que mal conseguia conter aquilo que nos fazia dormir. Será que era isso que me fazia sentir tão segura?

    — Agora temos aquela barraca de camping tamanho família — digo.

    — Aquela que também só usamos na varanda da mamãe?

    Rimos.

    — Somos péssimas nômades. Apesar de nômades sermos, verdadeiramente, agora.

    Minha Pequena discorda.

    — Somos ótimas em tornar qualquer lugar habitável.

    Fico quieta.

    Olho ao redor.

    A manta do avião. O sofá que não é meu. Pratos que não são meus, talheres de bambu que são. As malas.

    As coisas temporariamente permanentes.

    As coisas permanentemente temporárias.

    — Vai ver foi por isso que você se tornou arquiteta.

    — Nós nos tornamos, ela corrige.

    Isso. Nós.

    — Você pensa demais, diz.

    —Nós pensamos. Sempre foi assim.

    Minha versão Miúda se emburra imediatamente, como sempre, quando contrariada. A boca fecha. O queixo sobe. Os olhos acusam o mundo de um crime gravíssimo que ninguém ainda conseguiu identificar.

    — Ah, pode ir aprendendo a melhorar essa carinha aí. A vida vai bater na gente feito carne crua — aviso — Anos de terapia poderiam ser poupados se esse papo estivesse acontecendo um pouco antes.

    Rio.

    E estamos no Rio, penso. Ainda.

    Rimos juntas, duas nômades que constroem barracas em varandas. Duas arquitetas especializadas em fazer caber casa dentro de mala.
    Desmontar.
    Dobrar.
    Guardar.
    Levar junto.
    Montar de novo.

    Ela pega outra pipoca; ajeita-se ao meu lado, pousando a cabeça no meu ombro esquerdo. A febre continua. O trabalho continua. O abraço continua no ar; nada foi resolvido.

    Ainda assim, há uma casa improvisada debaixo daquela manta fina demais.

    Uma menina.
    Uma mulher.
    Um pote de pipoca.
    E uma próxima viagem batendo à porta.

    Acho que somos mesmo prisioneiras livres. Mas com uma prisão que desmonta.

    E cabe na mala.

  • Vai que…

    Severo olhou para a gaveta. Tentou desviar o olhar, mas viu a gaveta sacudir, tentando cuspir seu conteúdo.

    Piscou três vezes, tipo superstição das três ondinhas da sorte na passagem do ano. Mas o recado estava dado – de hoje não passaria a tarefa que vinha procrastinando – enfrentar os cabos.

    Imbuído do seu melhor espírito esportivo, arregaçou as mangas.

    Colocou uma lixeira ao lado da gaveta.

    (otimista.)

    Puxou o trinco.

    Ela, desacostumada a se expor dessa maneira, relutou – depois de uns minutos de embate capitulou.

    Soltou um guincho e, com um tranco digno de um carro velho, cuspiu dois cabos USB embolados.

    — Cabos USB, conectava o que, mesmo?

    — Na dúvida, melhor guardar.

    — Vai que volta

    Embaixo deles encontrou o Blackberry.

    Sorriu.

    — Esse nunca me pediu atualização.

    — Vai que o teclado QWERTY volta…

    — Melhor guardar.

    Mais para o fundo encontrou um cadeado de mala.

    Sem chave.

    — Onde será que anotei o segredo?

    — Vai que está naquele papelzinho de senhas

    — Melhor guardar

    Do lado esquerdo, ocupando um grande espaço da gaveta estavam três adaptadores. Saída de dois buracos redondos e um reto – inútil!

    — Será?

    — Vai que resolvem mudar o padrão de novo.

    — Melhor guardar.

    Lá no fundinho achou uma bateria 9v.

    Vazando.

    — Quem jogou aí?

    — Vai que mela a gaveta.

    Não teve recurso.

    Foi para a lixeira.

    Depois de reorganizar tudo…

    Tenta fechar a gaveta.

    Ela mal fecha.

    Empurrou.

    Empurrou de novo.

    Toc.

    Fechou.

    Severo sorriu.

    A gaveta também.

  • Os influenciadores

    Quem influencia você?

    Essa pergunta, feita há uns vinte ou trinta anos, teria como resposta muitas pessoas: pais, professores, escritores, jornalistas, grandes ícones da música e da atuação, enfim, homens e mulheres que tinham algo a dizer. E diziam!

    Hoje, essa mesma pergunta oferece como resposta as redes sociais. Geralmente, toda regra tem a sua exceção, as pessoas que influenciam não têm nada a dizer. Mas dizem! Eis o problema!

    Este o grande drama da sociedade em frangalhos da pós-modernidade. Indivíduos que não possuem estudo, tempo, maturação, experiências e lastro para falarem sobre algo, falam assim mesmo. E se dão a importância de autoridades no assunto (seja qual for).

    E tudo piora quando, mesmo à luz da ciência, de dados, de comprovação e pesquisa, os ditos influenciadores contestam, negam, se rebelam!

    Não há argumento! Não há lógica! Apenas esperneio e performance! Negacionismo!

    Os influenciadores vendem fórmulas de sucesso para todas as áreas da vida! Ensinam como viver, mas não vivem a vida real!

    Os influenciadores ostentam carrões, mansões, bebidas, luxo, sexo, lugares paradisíacos e um sem-número de ilusões!

    Os influenciadores vendem jogos como doces armadilhas! Tudo parece fácil, simples e direto! Você que não segue se sente um idiota de não ter visto, ouvido e aplicado antes o passo a passo iluminado!

    Quem influencia você?

    Quem influencia tem experiência sobre o assunto para falar sobre isso? Estudou, leu, pesquisou, escreveu, ponderou, anotou, perdeu noites de sono, enfim, viveu o chamado processo?

    Se quem influencia não viveu processo algum, não respeita o tempo de maturação das coisas e das ideias.

    Se não respeita o tempo de maturação, simplesmente, não tem autoridade para falar sobre nada!

    O que é um influenciador então?

    Guardadas as devidas e honrosas exceções, os influenciadores são os idiotas que não têm vergonha de sua ignorância e querem espalhá-la aos quatro cantos!

    Que saudade de Drummond, Chico, Milton Nascimento.

    Que saudade de Chaplin, Clarice, Cecília…

  • Íris

    “Às vezes, Deus não muda o cenário. Ele muda você…”

    Era domingo, chovia, e fazia aquela temperatura imprevisível de fim de inverno – “esse tempo bipolar..!”  (diria sua mãe). Com um guarda-chuva transparente sobre a cabeça, Íris leu a frase no muro da rua nove com a rua dois. Era a quarta cidade diferente, temporariamente sua, dentro de todo um ano. Um ano não exatamente de calendário; setembro ainda nem havia terminado. Era outra contagem. A de início e fim de ciclo de si mesma. Tinha a sensação de completar mais um aniversário dentro do mesmo período de rivoluzione del pianeta Terra. Revolução. Achava a palavra em italiano muito mais bonita do que a portuguesa translação. Aprendera com uma de suas pessoas-milho, um italiano de Rocchetta Nervina, cidade cujo nome composto sempre fazia Íris mover as mãos à moda italiana. Nunca dera um Google para saber onde ficava no mapa da bota. O nome bastava, era cenográfico, naturalmente. Parecia um vilarejo onde Deus, o mesmo da frase parcialmente sob a hera do muro da rua nove com a rua dois, tinha deixado o GPS sem sinal. Em Rocchetta Nervina, Íris tinha não um palpite, mas uma certeza particular: até a esperança, sentimento malandramente carioca, chegaria com dois dias de atraso.

    Nada italiana, nem por relações ancestrais sanguíneas, Íris trabalhava com marketing. Era muito boa em encontrar frases impactantes para produtos, ideias, empresas, clientes que nem sempre sabiam muito bem o que queriam dizer. Era a voz que precisavam, sem precisar emprestar o tom da sua. Passava os dias convencendo marcas de que promessa alguma sobrevivia a uma experiência ruim e, fora do expediente, demonstrava talento impressionante para acreditar exatamente no contrário.

    Vivia em mudança, era nômade havia exatos 365 dias. A empresa internacional para a qual trabalhava dera a ela um cargo de retirante premium no Brasil: cidade, projeto, mala, apartamento temporário, próxima cidade. Chamava tudo de mudança, nunca de viagem. Viagem pressupunha volta. E, sem volta, ficavam também suas relações, mesmo que pipocassem pessoas pelo caminho. Íris, pipocólatra assumida, sabia muito bem que pipocas não permanecem: estouram, fazem festa, aquecem o coração e, passado o entusiasmo, deixam pouquíssima sustância. Sua vida era uma panela inteira embebida em óleo, repleta de pessoas-milho que o acaso catava, aquecia e fazia estourar nesses movimentos migratórios sem fim aparente. Tinha as que viravam pipoca, aquelas outras que permaneciam milho e quase quebravam um dente. Ainda havia as mais perigosas que, por algum defeito de fabricação sentimental, Íris confundia com alimento para a vida inteira.

    Numa segunda-feira, em uma padaria perto da casa da vez, pediu um chá de capim-limão. O quadradinho preso à linha dizia:

    “Sorria sempre.”

    Íris sorriu, mas por desprezo profissional.

    — Preguiçoso, genérico, aprovado pelo cliente na primeira rodada — pensou.

    Depois riu sozinha. Foi quando ele entrou.

    Tinha alguma coisa de personagem que perdera o próprio século, um “quê” de um Botticelli que pegara o ônibus errado e, por orgulho, decidira seguir a pé até o século XXI. Vestia alguma coisa escura — dark, pensou Íris, sem saber por quê — e não era bonito segundo os termos e condições vigentes da beleza. Talvez um algoritmo passasse direto. Mas Íris não era máquina ou algoritmo.

    Ele falou com a moça do caixa. Foi o raio da voz, que não era particularmente grave, nem cinematográfica. Era pior. Parecia conhecer o caminho. Não até ela — seria cedo demais para tamanha presunção —, mas até algum lugar interno seu que Íris ainda não sabia nomear. A tal voz fez surgir na memória uma velha canção italiana. Duas estrelas. A noite. O tempo. O tipo de canção que fazia parecer muito razoável supor que o universo tivesse interesse específico na vida amorosa de duas pessoas.

    “Excelente conceito”, pensou. Universo, desejo, eternidade. Público-alvo: qualquer pessoa emocionalmente vulnerável depois das oito da noite. Ainda sorria quando ele olhou para ela.

    Ele não sorriu.

    Mas os olhos castanhos sem íris sabiam olhar.

    E Íris, que fazia profissão de interpretar mensagens e hobby de interpretá-las mal, considerou aquilo um sinal: ela se especializara em identificar uma promessa mal posicionada a quilômetros. A menos que viesse acompanhada de olhos como aqueles. Ou de uma fala qualquer, dita naquele tom de voz que parecia acertá-la diretamente na boca do estômago.

    Era uma pancada.

    Mas tinha um organismo surpreendentemente competente para transformar impactos: dali em diante, ouvidos, cérebro, coração e alvéolos pulmonares davam conta do recado. Sempre. E ainda trabalhavam em equipe na manhã seguinte, quando algum objeto doméstico surgia disposto a confirmar a tese da véspera.

    Dessa vez, foi a caixa de leite vegetal. No topo: “Atenção: alto risco de se apaixonar.”

    Íris parou.

    Profissionalmente, reconheceu uma excelente chamada. Emocionalmente, já se contaminara. Paixão era mesmo aquilo: risco. Não um rabisco, mas vertigem. Queda, aceleração, uma espécie de irresponsabilidade temporária dos órgãos internos.

    Não tinha, necessariamente, relação alguma com amor. Amor era outra campanha. E, suspeitava agora, exigia entrega. Sua, claro, mas não só. Também daqueles outros olhos que precisavam saber olhar de volta, mutuamente, e não só de forma profunda.

    Na terça-feira, passou outra vez pela rua nove com a rua dois. A hera parecia ter avançado alguns centímetros sobre a frase de Deus.

    Na quarta, uma folha caiu em seu ombro.

    Na quinta, um pedaço pequeno de reboco acertou sua bolsa.

    Na sexta, absolutamente nada aconteceu.

    Íris achou isso suspeito.

    Depois vieram outros dias. Mensagens nos pacotinhos de açúcar. Vozes de transeuntes. Promessas em sua própria cabeça. Silêncios.

    Voltou à padaria, todos os dias. Testou ir em horários diferentes. Uma frase se movia dentro dela, ciclicamente, como ponteiros de um relógio analógico:

     “Espero que ele chegue. Espero. Ele chegará. Espero que ele chegue”.

    Esperava, desconstruindo os anos de estudo, pelas coincidências. Esperava a mesma voz atravessar outra vez algum lugar e encontrar o caminho. Esperava como quem trabalhava numa campanha que já havia ultrapassado o orçamento, mas ainda jurava que a próxima peça resolveria tudo.

    Até que procurou aquela velha canção italiana, leu a tradução pelo Google. A música era original de 1977. Sete e sete. Brincadeira antiga de azar, como costumava procurar a dupla de números em placas de carros, quando adolescente. Sem perceber, já de então treinava o universo para lhe responder alguma coisa. Olhando atenta para a letra completa da música, descobriu que sempre a havia entendido pela metade.

    Falava de estrelas, sim. De duas. Falava de encontro, de sombra, de corpos refletidos nas ondas.

    Mas, na meiuca das estrofes, sem qualquer constrangimento cósmico, despedia-se. Addio, ragazza, ciao. O “ciao” que brincava de cumprimentar com oi e com até loguinho. Ou “até nunca mais, ragazza”.

    Íris encarou a tela.

    — Era isso? Todo aquele céu para terminar em tchau?

    Achou uma falta de responsabilidade afetiva astronômica mobilizar duas estrelas para dizer adeus. E depois dizem que italiano é romântico! Romantismo, que nada. Era uma língua educada pela ironia bem-feita. Pensou no italiano-milho de Rocchetta Nervina, percebeu que talvez algumas pessoas não mentissem, exatamente. Apenas interrompiam a música antes do verso que as denunciaria.

    No domingo seguinte, voltou à esquina da rua nove com a rua dois.

    A hera já cobria metade da frase. Lia-se somente “Deus”, “cenário”, “você”.

    Passara semanas recolhendo mensagens em caixas de leite, sachês de açúcar, quadradinhos de chá, músicas italianas, olhos alheios e promessas mal-acabadas. Foi quando, no seu percurso diário pelas tais ruas numéricas, uma caixa caiu do alto e acertou sua cabeça.

    — Ah, ótimo. Agora até a botânica me agride.

    Era um baralho. Íris olhou para a hera.

    — Taróloga também?

    Sentou-se na calçada e abriu a caixa.

    Vieram primeiro seis de espadas | sete de espadas | sete de ouros.

    6♠:Travessia; afastar-se de águas turbulentas 7♠: Estratégia, evasão, aquilo que talvez não tivesse sido dito inteiro.

    E depois a pergunta inconveniente do 7♦: onde ainda valia a pena investir tempo, cuidado e energia?

    Íris estreitou os olhos para a planta.

    — Excelente diagnóstico. Péssima gestão de relacionamento com o cliente.

    Olhou o fundo do baralho. Dois de copas.

    2♥: Conexão, encontro, reciprocidade.

    — Ah, claro. O amor sempre entra no briefing.

    Puxou mais três: Seis de copas | cinco de espadas | dez de copas.

    6♥: aquilo que romantizava. A memória doce, o passado ganhando iluminação melhor do que tivera enquanto acontecia.

    5♠: os fatos. Um conflito em que continuar tentando vencer poderia significar sair perdendo de qualquer maneira.

    10♥: para onde sua energia queria ir. Inteireza. Afeto compartilhado. Uma vida que não precisasse ser persuadida a acontecer.

    Íris ficou em silêncio.

    —  Um lindo abuso de marketing! – concluiu.

    Ela, que se julgava racionalmente fora do público-alvo – sempre se julgava – era a profissional questionando a segmentação e a emocional compradora da campanha de marketing com o ♥ batendo forte.

    Olhou para o muro, com a hermenêutica dentro de si. A hera não respondeu.

    Na manhã seguinte, a caixa de leite vegetal ainda dizia:

    “Atenção: alto risco de se apaixonar.”

    Íris leu outra vez.

    Sorriu. O risco nunca tinha sido esse. Apaixonar-se era apenas parte da revolução, seu movimento próprio de translação com o mundo.

    O risco real era confundir órbita com espera. Guardou o leite na geladeira, pegou a bolsa e saiu.

    Ao passar pela rua nove com a rua dois, não pediu sinal algum.

    A hera, pela primeira vez, também ficou quieta.

    Íris seguiu.

    Ainda esperançosa. Só não pensava mais: espero que ele chegue. Mudou de padaria.

    Tinha a próxima grande jogada de marketing na ponta da língua.

  • Xeque-Mata

    Eduarda e Rafaela. No centro, um tabuleiro de xadrez. Eduarda com as pretas e Rafaela com as brancas. Eduarda gosta de ficar segurando o queixo enquanto pensa, e Rafaela adora um uísque durante o jogo.

    — Peão quatro do rei.

    Rafaela morre de inveja do corpo de Eduarda: pernas perfeitas, pele branca de quase nunca ir à praia, seios que cabiam na mão, pontudos, empinados. Eduarda não se acha tão bonita e despreza a objetificação.

    — Cavalo três do bispo do rei.

    Rafaela começa a descobrir que Eduarda responde de imediato ao jogo. Certamente para se exibir. Pudera, sem ir à praia, devia ficar em casa estudando, lendo os manuais de xadrez, estudando aberturas clássicas, confronto dos mestres… Eduarda acha que Rafaela poderia jogar bem melhor, se não bebesse tanto durante a partida.

    — Bispo seis da torre da dama.

    Eduarda tem um pescoço liso, com destaque para uma veia fina e a impressão de que nascera para alvo de vampiros. Para Rafaela, Eduarda faz gênero. Jogar xadrez é como dama, sudoku ou gamão. É só um jogo. Serve mais uma dose de uísque com gelo e saboreia. Já Eduarda, mais elitista e menos etílica, classifica o xadrez como um desafio de estratégia e tática. Necessariamente sóbria.

    — Peão cinco da dama.

    Rafaela opta por tomar a iniciativa. Não tem nada a perder arriscando. Eduarda se defende e prepara um contra-ataque. Rafaela sente-se provocada e agora se concentra nas artimanhas do jogo. Eduarda sorri, demonstrando uma calma irritante. Meio arrogante.

    — Torre dois da torre.

    Nesse momento, Rafaela planeja um ataque com a dama. Eduarda pressente. É melhor pensar numa defesa segura.

    — Dama sete do bispo do rei.

    Gradualmente, Eduarda avança. Visa o xeque mortal, com paciência.

    — Cavalo come bispo.

    Rafaela pega mais umas pedras de gelo e completa seu uísque. Acha um caminho. Como não havia pensado nisso. Suas chances
    aumentam, ela calcula, e recomeça a gostar do jogo. Eduarda hesita e demora a responder.

    — Dama come peão do cavalo.

    O jogo parece caminhar para o empate. Qualquer movimento arriscado pode significar a derrota. Eduarda não tira a mão do queixo e olha fixamente para as peças. No fundo, considera uma humilhação perder para Rafaela. Inveja o jeito da oponente encarar a vida, uma forma sedutoramente irresponsável. Queria ser assim, levar as coisas menos a sério.

    — Roque pequeno.

    Eduarda posiciona o bispo e o cavalo do rei atuantes no centro, mantendo o semblante provocador e a segurança de quem tem agora o controle da situação. Rafaela confia na sua intuição e se esforça em encontrar saídas diante do ataque fulminante (ou galopante) do cavalo que…

    — Cavalo seis do bispo… e xeque.

    Rafaela ainda vislumbra uma saída. Meio suicida. A melhor defesa é atacar. O jogo fica tenso. As investidas vão se sucedendo e Eduarda consegue neutralizar as mais importantes. Após uma troca forçada de peças, nenhuma grande vantagem para ambos os lados.

    — Peão come pão.

    Rafaela propõe empate. Eduarda recusa. Rafaela ri, amarelo…

    — Peão come cavalo.

    Eduarda, enquanto aguarda a vez de jogar, desabotoa a blusa e começa a passar a mão pelos seios, alegando calor. Rafaela reclama que ela está tirando a sua concentração. Eduarda sorri.

    — Torre quatro do cavalo.

    Eduarda responde com um avanço de peões. Enquanto aguarda a resposta de Rafaela, olha para ela: é uma morena bonita, de lábios, carnudos, corpo de atleta e os olhos pretos que pedem por carinho. Pena ser doidivanas.

    — Bispo defende a torre.

    Rafaela não consegue tirar os olhos dos seios de Eduarda. Ameaça parar de jogar. Aquilo não está nas regras e nem tem cabimento. Eduarda não dá bola. Rafaela tenta se concentrar.

    — Dama cinco do rei.

    Rafaela cada vez mais encurralada, com seu rei sem muitas opções para escapar, reúne as últimas forças para tentar uma saída.

    — Peão sete da dama.

    Eduarda sabe que o xeque-mate é iminente. Vai coroar seu peão da torre. Sugere que a adversária admita e abaixe o rei branco. De repente, Rafaela dá um pontapé no tabuleiro, derruba as peças, pula em cima de Eduarda, a agarra e beija com raiva. Eduarda, depois de esboçar uma pálida reação, acaba cedendo e retribui o beijo. As duas, deitadas sobre as peças e o uísque com gelo entornado, se enroscam agora. O jogo havia terminado. Começavam se apaixonar e nem se davam conta.

  • Rebeldias do mundo

    Já repararam como o cotidiano doméstico muitas vezes conspira contra?

    Já mudei várias vezes de casa, cozinhas planejadas diferentes, mas não adianta: a água da torneira que espirra na pia sempre corre para o canto oposto do ralo. A gente tenta educá-la com aquele rodinho, mas ela faz ouvidos de mercador.

    E quando abrimos a gaveta onde guardamos fios de celular, fones de ouvido, tudo separadinho? Eles se embolam sozinhos, como se tivessem vida íntima.

    Isso sem falar na meia que desaparece na máquina e reaparece meses depois, sem par e sem explicações — como quem não deve satisfação a ninguém.

    Agora, o que realmente me tira do sério é a fila do lado andar mais rápido. Seja no supermercado ou no pedágio. Quando decido trocar, a antiga, vingativa, flui imediatamente, e eu fico lá atrás, acompanhada apenas do remorso.

    Tento entender a lógica dessas rebeldias do mundo e começo a desconfiar de que não sejam falhas. Talvez sejam combinados secretos entre as coisas, uma forma discreta de me fazer companhia.

    Penso nisso quando saio pela esquerda em vez da direita, quando chego para embarcar no voo das oito da manhã com passagem para as oito da noite, ou quando chamo a namorada atual do amigo pelo nome da anterior.

    No fundo, gosto de acreditar que as coisas erram por solidariedade. Um gesto silencioso para quem, como eu, também falha, esquece, tropeça — e tenta de novo.

  • Poema #21: Sonho Azul

    No barco nu
    o pescador sonha
    um sonho azul.

    No barco velho
    o pescador ri
    num sonho azul.

    Com a água calma
    o pescador viaja
    no sonho azul.

    Ninguém atrapalha,
    nada interrompe
    o sonho azul.

    O impulso amoroso
    é forte e claro
    como o sonho azul.

    No barco nu
    o pescador encontra
    o sonho azul.

  • E Ainda é Agosto

    “É 29 de agosto. Em 48 horas, sua vida mudará para sempre.”

    Mais uma vez estava eu vidrada diante da tela. O dia era 29 de agosto, ontem, como foi no ano passado e no ano antes dele. A melodia inebriante preenchia os vazios que o ar-condicionado a 21ºC fazia flutuar no quarto hermético do Cachambi:

    O som avança em pequenos impulsos, como passos curtos e apressados que de repente… desaceleram. Expande e…. recolhe. O acordeão dá a sensação de ar sendo empurrado e puxado, como se abríssemos e fechássemos o peito. O piano pinga notas regulares por baixo, num conta-gotas, como dedos tocando uma superfície de vidro. Há uma leveza quase mecânica, quase de caixinha de música, acrescida de alguma coisa melancólica presa entre uma nota e outra.

    Este ano, como em todos os outros, meu encontro é diferente: percebo detalhes que nenhuma das minhas versões havia percebido antes. Convidei também minha eu de quatro anos, que se senta ao meu lado, entre os mesmos lençóis que a minha versão em carne e osso, sorridente, embora presa dentro de um porta-retrato de vidro. Cabelos fartos, longos e cacheados, os lábios que não precisavam, àquela altura, dos dentes para mostrar, através das íris, a felicidade de estar vivendo o presente. Hoje não sei fazer o mesmo com tamanha desenvoltura e naturalidade.

    Na fotografia, estou com a guirlanda do casamento da minha mãe e um vestido branco, pronta para me casar com um dos meus amigos mais antigos. Não seria a única vez: nós dois nos casaríamos outras vezes em festas juninas, três ao todo, como se a infância insistisse em ensaiar futuros que jamais aconteceriam daquela forma; décadas depois, tive o prazer de projetar e acompanhar as etapas iniciais da casa onde ele e a esposa, meus queridos amigos, morarão em breve.

    É ou não uma prova cabal de que o destino adora ironias, coincidências e, às vezes, tem um senso de humor bastante sofisticado?

    De vez em quando, a luz da tela atravessa o quarto e o vidro devolve cenas de Amélie. O rosto dela se sobrepõe ao meu, de criança, depois desaparece. Em certos segundos, já não sei muito bem qual das duas estou olhando.

    Quem sabe, pelos reflexos, me pareça cada vez mais evidente que fui crescendo como uma mistura amadurecida das minhas referências preferidas: um pouco Amélie Poulain, um pouco Margherita Dolcevita, Lois Lane, Hermione Granger, Bela —
    personagens que, por razões diferentes, foram me cedendo pedaços até que eu pudesse desenvolver os meus, autênticos. Depois de certa idade, minhas referências femininas passaram a ser também Jane Austen, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Etta James, Norah Jones, Celine Dion, Julia Roberts e mulheres comuns do dia a dia, cujas qualidades absorvo profundamente — pela leitura, tom de voz ou proximidade — para ir recortando os fragmentos que compõem o meu eu de hoje: sempre, e cada vez mais, um livro de fotografias rasgadas e reconstituídas.

    É curiosamente apropriado que essa fusão aconteça atrás de um vidro. Afinal, em Amélie, um dos homens que melhor sabe ler a vida passa vinte anos refazendo o mesmo Renoir. Chamam-no de homem de vidro.

    Daqui a três meses, eu de hoje e Amélie Poulain teremos quinze anos de diferença etária. O engraçado é que, embora essa diferença aumente ano após ano, a profundidade da nossa familiaridade não diminui. Encontrar Amélie nos 29 de agosto da vida é como reencontrar uma amiga de infância.

    E cá estamos, as três, pausando o filme para vibrar com uma ideia criativa, uma inspiração, fazer anotações ou preparar um café na minha moka italiana para tomar com Nino Quincampoix no Café des 2 Moulins.

    Até que a “Amélie aqui” começa a recortar antigas cartas de amor de sua vizinha imaginária, ressecada pela vida.

    Então penso que uma semana também possa ser remontada assim:

    A tesoura tem uma vantagem loquaz sobre a memória: rasga, de fato, a cronologia. Torna-a palpável:

    uma observação astronômica pode parar ao lado de uma conversa sobre romance imaginado; um homem de setenta e tantos anos opera o septo porque ainda espera encontrar o outro pé para seu par de chinelos — sem roncos, parcimônia libertária do romantismo; alguns takes adiante, outro homem fotografa, quem sabe, para não desaparecer; a Lua pulveriza matéria depois dos impactos e, vista daqui, chamamos os vestígios claros de raios.

    Eu me deitei por duas horas no banco sem encosto do condomínio e vi o vermelho se apossar do brilho refletido da Lua. Eclipse parcial. A olhos nus. Sombras mimetizaram por instantes o coelho que tantos enxergam — dizem que só os apaixonados conseguem vê-lo.

    A humanidade é esquisita: passa por colisões e inventa nomes e figuras de linguagem bonitas para aquilo que permanece visível. Ou quase.

    Me disseram, também nesses últimos dias, que há muita coisa bonita para vermos no céu. Algumas imperfeições só aparecem por causa da luz refletida pela atmosfera da Terra. Gosto particularmente de imperfeições. E, durante um eclipse, quando alguma coisa que costumava iluminar desaparece, vemos mais estrelas. Não seria assim quando nos deixamos colidir com o silêncio? Percebemos mais outras coisas, no todo de todas as coisas?

    Anotei isso. E percebi: vivenciei um eclipse em solitude física, enquanto vozes de todo o Brasil atravessavam meus ouvidos com comentários e explicações astronômicas. Eu, que quando criança ganhei medalha e certificados em Olimpíadas Brasileiras de Astronomia, sorri.

    Entre as anotações da semana — eleições, guerras, mísseis, geleiras, Wall Street em queda — havia também uma rosa. Murcha. Faltou hidratação. Tenho bebido pouca água. Por alguns dias, certas coisas pareceram sofrer do mesmo descuido. Cortada do pé e posta numa sacada, a rosa começou a perder pétalas. A Fera permanece, então, a mesma fera? Ou a Bela – que não é princesa – faz uma jogada no tabuleiro de xadrez da vida para que a magia aconteça?

    Tenho pensado que preciso de mais vermelho na vida…

    O quarto de Amélie interrompe meus desejos; seus pequenos incêndios domésticos, o contraste cromático com o verde. Minhas plantas. Sinto falta de casa.

    Talvez eu acrescente vermelho ao meu quarto, quando — ou se — eu voltar. Não por decoração. Por discurso.

    Amélie e minhas diferentes eus gostamos de estratagemas: surpresas, escolhas semânticas, pequenos deslocamentos de sentido. Em 31 de agosto, há quem a rotule covarde por não encarar o que sente. Então ela escancara a porta. Eis ali Nino Quincampoix, o encontro jamais previsto, sempre esperado. Há um abismo entre fugir da realidade e entender que ela também pode ser abordada pelas laterais.

    Há quem pergunte diretamente.
    Há quem deixe uma pedra no bolso.
    Há quem devolva um álbum.

    Há quem recorte uma carta antiga até ela dizer uma coisa nova.
    Há semanas em que o risco da resposta parece menos
    sedutor que o conforto da dúvida.

    Ainda assim, “a sorte é como o Tour de France”: esperamos tanto algo específico e, quando finalmente chega, passa depressa. “É preciso saltar a barreira sem hesitar”. Estou aprendendo isso.

    Talvez por isso algumas conversas recentes tenham começado a virar literatura; não para conservar pessoas dentro de orações, mas porque certos toques modificam a maneira como percebo o que já estava ao redor: um céu, uma rosa, um silêncio, uma escolha de palavras.

    Uma colecionadora de pedras encontra, de vez em quando, alguém que coleciona resquícios.

    E alguma coisa acontece: acho que Amélie esteve no Norte Shopping. Na falta contemporânea de orelhões, resolveu chamar minha atenção me lançando o objeto de que eu precisava.

    Ontem, indo comprar velas para um parabéns-surpresa, percebi que havia esquecido o isqueiro-amarelo-herança-da-avó-fumante-para-a-neta-que-não-fuma, que costumo carregar. Minutos depois, esbarrei numa planta no shopping, ouvi um tilintar no chão e dela caiu um isqueiro. Preto. Preto no chão quase branco. Parece até piada, Amelie! Aos quatro anos eu já sorria sem precisar mostrar os dentes. Aos trinta e sete, ainda faço planos com fotografias, filmes franceses, números, homens de vidro, palavras recortadas e futuros quartos vermelhos.

    Há quem julgue isso como evitação da realidade.

    Há também quem chame isso literatura.

    Já é 30 de agosto. Será que, em 24 horas, minha vida mudará para sempre? Penso em procurar um tarólogo…

    Em todo (a)caso, o amor faz bem.

  • Poema #20: Mar e Voz

    O fraco risco frágil
    e trêmulo uma voz
    uma voz apenas
    ruído longínquo e espesso
    uma voz
    um frasco, risco
    murmúrio e sonho
    voo largo e concreto da voz
    num desencontro imponderável
    a pedra a areia o risco
    inevitável
    voz das brumas
    voz das sombras
    voz apenas
    de tudo o que se podia
    tudo o que se queria
    tudo que se sonhava
    e nada se via
    voz apenas
    voz de melancolia
    mar marulhar marulho
    bruma
    a escuna no escuro
    o som da voz
    na voz
    foz
    inominável voz
    trêmula, espessa, rara
    inevitável desencontro
    voz das sombras
    voz apenas
    voz das brumas
    coisas poucas que se ouvia
    e, no entanto, nada havia
    mais que a vida
    uma via
    voz apenas
    voz enfraquecida
    no ar zoar zunir
    a sombra
    a figura
    o som
    na voz uma voz
    outra voz
    outro ser
    longínquo e espesso
    e fraco
    frágil
    desencontro apenas
    voz apenas
    voz das brumas
    voz das sombras
    claras espumas
    olhos e ondas
    nada se via
    do tudo que se sentia
    no mar que havia

  • O Sorriso Perdido

    Jandira teve uma infância de indigente. Criada com mais seis irmãos numa cidade pequena no interior, enquanto seu pai trabalhava na roça, ela ajudava a mãe a cuidar da casa e das crianças. Na tapera em que moravam, a miséria acompanhava de perto a família. Não havia comida todos os dias, faltava luz elétrica e, no caso de Jandira, lhe faltavam todos os dentes da frente. Era pobre, raquítica e banguela.

    Com dez anos, foi entregue aos cuidados de uma senhora para trabalhar na fazenda. Logo aprendeu as tarefas domésticas e se destacou na cozinha. Dava gosto a sua força de vontade e o esforço que fazia em aprender e melhorar. Seu jeito tímido e sempre sorridente cativava. Ela sorria, tapando a boca com a mão. “Jandira, abre essa boca, menina, onde se viu rir assim de boca tampada”.

    Com o tempo Jandira foi se tornando peça-chave na fazenda, uma espécie de faz tudo. Movida por aspirações maiores, mudou-se para a cidade grande e arrumou emprego como ajudante de cozinha numa lanchonete.

    Ela não pensava em namoro, diversão, em mais nada, somente trabalhar e guardar dinheiro quando sobrava algum. Vendendo quentinhas nas horas vagas, obteve certa prosperidade. Seu tempero era comentado. Nessa toada foi levando a vida, sorrindo de boca fechada e sonhando com o dia de deixar de ser banguela e poder dar gargalhadas com seus dentes à mostra. A vida por uma dentadura completa.

    Com obstinação e alguma sorte, finalmente conseguiu no programa do SUS um implante dentário. O procedimento envolvia cirurgia, seguida de osseointegração e colocação da base fixa. Jandira nunca tinha ouvido falar daquilo, apavorou-se e quase desistiu. Mas a longa espera por uma dentadura falou mais alto. Tomou coragem e confirmou o bendito implante.

    Os pinos de titânio foram fixados no osso maxilar de Jandira que aguentou firme, como só Deus sabe. Enfim, teria de volta a função estética do sorriso. Tudo o que sempre havia sonhado.

    Com dentes novos, era outra mulher. Durante o dia, vivia de boca aberta mostrando os dentes por qualquer motivo, orgulhosa que só. À noite, rezava fervorosamente para que não houvesse nenhuma infecção ou rejeição. Eventuais dores e algum sangramento na gengiva, mas nada de grave. O implante múltiplo tinha sido um sucesso. Somente uma singularidade: com o tempo, foi percebendo que quando ia sorrir, involuntariamente tapava a boca. Talvez reminiscências antigas e enraizadas. Bem no fundo, sua alma ainda trazia o seu velho sorriso desdentado.

  • A arte de pensar com as mãos ocupadas

    Desde pequena desenvolvi uma habilidade peculiar: só penso direito quando minhas mãos estão ocupadas. Dê-me um novelo de lã e duas agulhas e, pronto, minhas ideias começam a trabalhar — às vezes até antes de mim. Sempre achei que esse hábito era apenas um jeito de evitar a ociosidade manual, uma espécie de TOC artesanal. Até perceber que havia ali um mecanismo mais profundo, quase científico, embora absolutamente nada acadêmico.

    Foi observando uma laçada suspensa no ar que me dei conta: é justamente ali, naquele meio ponto indefinido, que minhas ideias se alinham. Enquanto o fio decide se vai para frente ou para trás, meus pensamentos aproveitam para fazer o mesmo. É o meu equivalente pessoal àquela tragada longa no cigarro que dizem “oxigenar o cérebro” — só que, no meu caso, o vício é lã mesmo.

    Em uma daquelas conspirações do destino que parecem escritas por roteiristas com senso de humor, me inscrevi em um curso de literatura na FFLCH chamado Entre tecer e narrar. Não precisei de mais nada: senti imediatamente que estava no lugar certo. Ali entendi que minha mania de tricotar enquanto penso não é simples mania — é método. E dos bons.

    Assim como um tecido precisa de ar entre os pontos para não virar uma manta rígida, a escrita precisa de silêncio. De pausas. Daquele branco estratégico que dá espaço para o sentido respirar. Sem esse espaço, o texto fica apertado, sufocado — tipo blusa de tricô que encolheu na máquina.

    Não é por acaso que “texto”, do latim textum, significa tecido. Cada escritor encontra seu jeito de abrir essas frestas de ar: uns caminham, outros meditam, outros procrastinam com categoria. Eu, fiel à minha natureza, entrelaço fios. Entre um ponto e outro, vou entrelaçando também sentimentos, ritmos, memórias e as divagações que, com alguma sorte, viram parágrafo.

    E tudo começou com uma frase do curso, tão certeira quanto agulha que espetou o dedo:

    “A tessitura pode ser uma imagem da criação verbal, porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.”

    Pois é. No fim das contas, descobri que não tricoto para passar o tempo.

    Tricoto para pensar.

    E penso melhor quando minhas mãos estão trabalhando — porque, talvez, essa seja mesmo a minha arte.

  • Por que os ataques de cães estão cada vez mais mortais?

    A morte recente de uma veterinária, causada pelo ataque de um pastor-belga-malinois da Polícia do Senado, reacendeu o debate sobre prevenção. O que está por trás de tantas mortes? Descuido, excesso de confiança, irresponsabilidade ou falta de conhecimento? Provavelmente, uma combinação de todos esses fatores.

    Os dados são alarmantes. A forma como a sociedade passou a se relacionar com os cães tem contribuído para essas tragédias. Há um exagero em nome de uma convivência excessivamente humanizada. E não falo de coisas banais, como vestir os cães com roupinhas, deixá-los dormir na cama dos donos ou permitir que subam no sofá. Falo de ignorar as necessidades, os limites e as características próprias da espécie.

    Os cães seguem uma lógica própria. Mesmo inseridos em nossas famílias, conservam traços ancestrais. Negar isso não os torna mais humanos nem mais adaptados. Apenas aumenta a distância entre o que eles são e o que esperamos que sejam.

    Nas minhas aulas e mentorias, falo sobre a importância de respeitar cada fase da vida do cão. Desde filhote, quando, não raro, ele é impedido de experimentar plenamente o mundo, muitas vezes em razão do ciclo vacinal — e aqui não faço juízo de valor sobre a importância das vacinas. É preciso, porém, ponderar e buscar equilíbrio durante essa fase.

    O cão não é um ser totalmente imprevisível: ele pode começar a apresentar sinais de alterações comportamentais desde cedo. Quando ignoramos esses sinais, corremos riscos reais e, em algumas situações, isso pode ser fatal.

    Existem também outros aspectos. Não é difícil encontrar pessoas que acreditam piamente que podem mudar o comportamento de um cão apenas oferecendo mais amor. O cuidado sem conhecimento pode produzir conflitos e tornar o animal confuso. Além disso, a hierarquia não deve ser demonizada em nome desse amor.

    Enquanto isso, políticas públicas continuam sendo criadas sob pressão, após tragédias e especulações midiáticas. Em vez de investir em educação, fiscalização, criação responsável, formação técnica e prevenção, escolhe-se o caminho mais fácil: culpar o animal, proibir raças e esperar que nenhuma morte volte a acontecer.

  • Era só uma bicicleta

    Era só uma bicicleta!

    E Cláudio Rafael não havia roubado nada! Apenas saiu com a bicicleta de sua irmã!

    Ainda que tivesse acontecido um roubo, nada justifica a cena de selvageria que ocorreu em Copacabana.

    Pior, a cena de espancamento e linchamento de Cláudio Rafael escancara o quão estamos doentes! Que sociedade é essa que mata?

    Que sociedade é esta que banaliza a morte?

    Na fúria do dia a dia, vamos perdendo um pouco de nós mesmos.

    Na fúria do dia a dia, vamos nos afastando daquilo a que ainda chamamos humanidade!

    Na fúria do dia a dia, banalizamos a própria vida…

    A sociedade do espetáculo entrega a todo momento cenas grotescas de descomposturas gratuitas, violência verbal, agressão física, feminicídio… um sem-fim de comportamentos gravados e visualizados por milhões.

    Um dos agressores de Cláudio fez questão de filmar a horrenda ação, como se fosse paladino da justiça resolvendo as misérias históricas do país.

    Era só uma bicicleta!

    E uma vida foi tirada pela ignorância, pela barbárie, pela total falta de noção!

    Cláudio Rafael saiu com a bicicleta da irmã. Sentiria o vento na orla da praia? Não se sabe… Olharia para as ruas e cenários aos quais estava acostumado e seguiria para um encontro, uma conversa?

    Não se sabe… Olharia para as singularidades de Copacabana mais uma vez e teria um bom pensamento? Não se sabe…

    O que se sabe é que a brutalidade, mais uma vez, prevaleceu sobre o bom senso.

    A bicicleta?

    O Objeto da discussão e da morte de um inocente ficou jogada na calçada, alheia à fúria dos homens…

  • Bolero de Tecalitlán

    Bolero de Tecalitlán, ao pé do ouvido em pleno 2026, soa como uma serenata de amor cantada à janela de uma casa que já não existe. Ou existe? existe: passou apenas a caber na tela de um smartphone. Informes contemporâneos.

    A linguagem sempre como logradouro de encontros.

    Disseram-nos que:

    • …a globalização tornaria o mundo uniforme;
    • …a tecnologia achataria os afetos;
    • …algoritmos substituiriam as coincidências.
    (…)

    Descubro, porém, precisamente o oposto.

    Recebo um link do Spotify como quem recebe um embrulho de papel pardo amarrado com barbante. Abro-o devagar. Em minhas mãos, deixa de ser um pacote eletrônico e transforma-se num vinil antigo. Antiquíssimo, desses que nos deixam com a respiração em sobressalto, de tão delicados. Assopro a poeira:

    — Fuuuuuuuuuuuh… — ergo, assim, o véu fino que o tempo depositou em partículas. Desnudo a capa de papelão, que reaparece inteira, intacta, intensa, como se houvesse esperado décadas por aquele exato gesto meu.

    O disco começa a girar, sem agulha alguma.

    Enquanto Mariachi Vargas de Tecalitlán invade madrugadas, planilhas, quantitativos e e-mails que insistem em não terminar, descubro o LP virtual realizando o que minhas melhores canzoni italiane não conseguiram: devolve-me um tempo que nunca deixou de existir, esquecido sob camadas e camadas de urgência.

    Não é nostalgia.

    É outra coisa.

    É leveza. (Fuuuuuuuuuuuuuuh)

    Há dias em que me sento para tomar um café com personagens capazes de encontrar delicadezas onde o resto do mundo enxerga apenas rotina. Faço isso com plantas, veja só – são excelentes ouvintes, e ainda nos dão ‘bom dia’ com o perfume de flores coloridas, não só na primavera. Acredito piamente numa arqueologia dos sentimentos, não para reanimar o passado — dar-lhe novamente anima, alma —, mas para perceber que uma ou outra beleza jamais fenece. Permanece de outra forma: silenciosa, aguardando quem a escute.

    Já com o disco agarrando, de tanto tocar boleros, baladas y bachatas, um amigo interrompe meu devaneio para perguntar se conheço determinado perfil no Instagram.

    Paro tudo.

    ***

    Abro a página.

    O retrato em miniatura que acompanha o @não me diz absolutamente nada.

    Depois de alguns segundos, recordo-me de tê-lo visto uma única vez, de passagem, num evento qualquer. Não trocamos palavras, acho que sequer olhares. Restou apenas a matemática contemporânea: seguimos um ao outro. Ou, dizendo de forma mais honesta, aumentamos mutuamente nossos seguidores (intuito subliminar de qualquer evento hoje em dia).

    Contei isso ao meu amigo.

    Ele sorriu e perguntou:

    — Então não passo apenas de mais um número?

    A pergunta me atravessou como poucas.

    Dias antes, folheando as aventuras de Arsène Lupin, me pego filosofando sobre a diferença brutal entre o mundo de ontem e o de hoje. Durante muito tempo — e nem faz tanto tempo assim — , apresentávamos desconhecidos por palavras.

    “É gentil.”

    “Tem os olhos curiosos.”

    “Ri com o corpo inteiro.”

    “Escreve cartas.”

    “Não sabemos de quem se trata porque não se pode ler nos documentos ausentes das vestimentas, o desmaiado infeliz”

    Hoje, apresentamo-nos por fotografias. Ou, pior, por avatares, essas ficções que criamos com filtros sobre nossos próprios reflexos. Superamos, em engenhosidade, os casamentos arranjados das aristocracias clássicas, cujos noivos tomavam por esposas pinturas guardadas em relicários.

    Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras… não consigo acreditar nisso, nem tendo escolhido, como ofício primeiro, a arquitetura (idioma gráfico em que tantas perguntas se respondem com um simples “quer que eu desenhe?”). Não; sou das letras, por meritocracia — já se vão quase vinte anos só desta coluna.

    Uma fotografia congela; mil palavras — ou trilhões delas — continuam a respirar, a sorrir.

    — a sorrir eu pretendo levar, a vida…

    Não me lembro do aroma das coisas e gestos antigos com essas notas contemporâneas de superficialidade. Vivemos a era narcísica por excelência: basta nos depararmos com uma poça d’água para que contemplemos nossos próprios reflexos e, no mesmo instante, eternizemos nossos rostos desfigurados nos feeds de vidas cada vez menos privadas. A superfície nunca soube apresentar ninguém…

    Acredito que seja isso que falta à contemporaneidade:

    Descrições.

    letrinhas.

    As pequenas apresentações escritas que, durante séculos, antecederam qualquer encontro. Cartas manuscritas. Os artesanatos feitos à mão, com assinaturas.

    Somos a geração que mais produz imagens — e em altíssima resolução, diga-se de passagem — …, mas desaprendemos a apresentar e a ler pessoas.

    Eu sou das pessoas. Sou dos encontros sem pressa. Sou das cartas. Das serenatas. Dos recadinhos à mão. Dos cafés. Dos vinhos.

    Me toca profundamente quando alguém escolhe uma playlist em vez de um emoji. Mais profundo ainda quando se envia um disco inteiro, e não apenas uma música. Dou por mim pesquisando vinis pelos eBays da vida, lembrando meu pai sentado na sala, ouvindo os dele.

    Há uma delicadeza quase revolucionária nisso. Em resistir a ser humano na era em que tudo é automatizado.

    Enquanto escrevo, testemunho um caso de affair improvável: a bandeira italiana mistura-se, verde no branco, branco no vermelho e vermelho no verde mexicanos. Sem conflitos, só a pura e velha simbiose. Um bolero que atravessa oceanos, barreiras culturais e temporais, atraca no Rio de Janeiro através de um aplicativo sueco e, sem pedir licença, sela um encontro entre escritores ítalo-brasileiros que perseveram na crença de que as melhores coisas ainda são feitas com o coração.

    Quem sabe a verdadeira globalização não tenha sido a uniformização do mundo, mas a possibilidade de um gesto intimamente humano atravessar continentes sem perder sua brandura.

    No fim, seguimos buscando o que desejavam os que vieram antes (de nós):

    • os tons das animadas canções mexicanas
    • o ar blasé repleto de delicadezas dos escritores franceses
    • o conciso poético de arquitetos alemães
    • a sabedoria de vida dos artistas italianos
    • a paixão traduzida pelo olhar atento dos/das cronistas brasileiros/as e todos os apaixonados que vieram antes de nós

    Ansiando por uma coisa, apenas:

    Porque as palavras continuam sendo o lugar mais generoso onde um ser humano pode apresentar um outro ao mundo.

  • REINO ANIMAL

    A primeira vez que Joana trouxe um sapo para casa foi um alvoroço. A família não sabia como agir, a menina tinha só cinco anos e uma afinidade especial com os bichos. Até quis levar o sapo para dormir com ela. A muito custo, conseguiram convencê-la de que o sapo precisava voltar para casa dele a fim de se despedir dos amigos.

    Depois do sapo, foi um pintinho da feira, que acabou virando frango e morreu de estresse. Um jabuti habitou a banheira da casa apenas uma semana, provavelmente morto por engasgo com um pedaço de couve. Até uns micos que passaram a frequentar a janela da casa, atraídos pelas bananas que Joana ofertava, ela quis domesticar. Terminou ganhando uma Yorkshire, toda branquinha, que levava escondida para a escola na mochila. Recebeu o nome de Algodão e viveu quase dez anos, falecendo de problemas respiratórios.

    Adulta, morando sozinha, desenvolveu uma fobia de convívio social. A humanidade para ela não tinha o menor sentido. A natureza e os bichos eram seu derradeiro conforto, focada no resgate, reabilitação e adoção de animais. Joana não podia ver nenhum animal abandonado, que cismava de adotar. Para amenizar a saudade da Algodão, pegou um vira-lata, misturado com poodle, com pelos na região do focinho. Deu-lhe o nome de Jânio.

    O primeiro gato adotado foi o Cazuza, um siamês magrelo, quase esquelético, mas uma simpatia. Festivo até demais para um felino. Sempre carinhoso, a não ser quando tinha acessos de tosse. Logo a seguir, veio a Alcione, gata de pelagem marrom, sem pedigree, traumatizada e arredia. Desconfiada com estranhos e de hábitos noturnos, interagia pouco, sempre escondida pelos cantos da casa. Devia ter sofrido maus tratos antes de ser resgatada por Joana. Alcione vivia às turras com Cazuza, mas não se separavam. Adoravam ficar se implicando. Alcione, mais encorpada, levava vantagem.

    Jânio não se misturava. Sua missão era vigiar a porta, atento a quem entrava e saía. Não era de latir. Um cão silencioso e observador, talvez por isso se desse tão bem com os gatos.

    A chegada de Agnaldo causou uma certa surpresa. Um periquito-australiano que aparecera do nada na janela. No início, temeroso, foi aos poucos se enturmando e virando hóspede. Atrevido, não deixava em paz os gatos e dava voos rasantes pela casa. Joana era contra gaiolas, achava que todas as aves deviam voar livres. Agnaldo tinha a sua gaiola com a lateral totalmente aberta. Na verdade, só entrava para se alimentar e matar a sede. Tinha o estranho hábito de dormir com Jânio.

    O desafio maior foi com Eurico, o hamster abandonado. Quando o achou escondido num bueiro, largado à própria sorte, Joana não pôde resistir e o levou para casa. Todos os moradores o receberam com afeto e curiosidade. Cazuza cuidou de sua higiene e Alcione, com seu instinto materno, adotou o pequeno roedor. Jânio apenas observava e Agnaldo nunca chegava perto. Talvez estivesse prevendo o que viria a seguir.

    Eurico foi crescendo e se transformou. Endiabrado, corria atrás dos gatos e do Jânio para morder. Nem o Agnaldo escapava. Sonso, toda vez que Joana chegava em casa, o danado fingia se comportar.

    Ainda assim, aquele lugar era bom de se viver. Joana e seus amigos bichos, família reunida e feliz. Ela não mostrava nenhuma surpresa, já que todos ali, diferente dos seres humanos, comportavam-se como animais. Cada um tinha a sua história de abandono, mas nos olhos de Joana encontravam um porto seguro. Ela costumava dizer que humanos perdiam tempo tentando ensinar os animais, quando deveriam sentar e aprender com eles.

    Até que Joana perdeu o controle. A coisa toda tomou ares de minizoológico: pelo apartamento agora circulavam mais oito gatos,
    iguanas, um casal de furões, uma chinchila sem rabo, dez cágados e uma cacatua com o bico quebrado.

    Ninguém mais se entendia. Um dos gatos, recém-chegado, comeu o hamster. Eurico saiu pela janela e nunca mais voltou. O casal de furões cismou com Jânio. A chinchila não parava de dar guinchos agudos de meia em meia hora. Podia marcar no relógio. Talvez estivesse sentindo dores ou por implicância mesmo. Chinchilas são assim, meio conflituosas. Joana não tinha mais sossego. A cacatua, com seu bico partido, definhava por não ter como se alimentar. Os cágados a tudo assistiam passivamente, como todo bom cágado. Com aquela confusão, Jânio passou a latir para todos que passavam pelo andar. O síndico foi chamado. Os vizinhos reclamavam do barulho e do mau cheiro.

    O siamês Cazuza, angustiado, tentou saltar da janela e ficou preso o parapeito. Alcione miava em desespero. O Corpo de Bombeiros foi acionado e Joana se juntou a eles, se apresentando como ativista dos direitos dos animais. Os moradores ensaiaram uma vaia e o síndico ameaçou denunciá-la. Acuada, Joana tentou se justificar: até Noé tivera problemas com o excesso de bichos na arca.

    Estava cansada. Chegou à conclusão de que, tanto quanto a humanidade, o reino animal ia pelo mesmo caminho. Más influências, não havia dúvida.

  • Mortos, vivos, morcegos e frutas | pausa (in)disponível

    Uma mesa impossível: um tampo que não é firme (minha cama); três cadeiras – eu, que me sento com as pernas esticadas e sobrepostas. Uma única taça de vidro (a que comprei no mercado, porque na minha casa de areia temporal em quase formato pirâmide não tinha nenhuma) com o vinho (o que dividi há duas semanas, hoje esvaziado com outros – é preciso beber do mesmo lugar, a cama).

    De maneira quase indecente, Hilda Hilst e Victor Heringer se juntam a mim nesse ménage a trois de escritores, dois mortos. Um ménage literário com os vermes, os últimos íntimos de suas carnes: memento mori. Bebemos da mesma taça; espero em vão roubar seus segredos – eles, um pouco do meu sangue latente, latindo.

    Desejo de um maracujá azedo. As papilas da minha boca incendeiam-me os circuitos internos com água e um cheiro que vem, não sei bem de onde. Um sibilo ressoa acima de tantas cabeças errantes em frente à calçada escura, sem poste de luz; mendigos na encolha do recuo da arquitetura, motoboys a postos. Tudo, em sua pequinês, grande o suficiente para tornar a cena estranha e noturna. Sem querer, o morcego pausa meu caminhar, já há três meses no automático.

    “Pausa indisponível”.

    Hilda, com um vestido ficcional, segura a minha taça como se dela fosse íntima, conhecendo-a inteira. Victor, em uma camisa de linho desalinhada, olhos verdes que guardo em minhas próprias retinas, olha como quem já viu demais das entranhas e das superfícies do (meu) mundo; toma a taça. Passa a língua sobre os lábios, sem levar o vidro a eles, e fala o que não sai da sua boca, mas da minha atrevida invencionice noturna:

    — O que você quer roubar dos segredos que levamos, hein, mocinha?

    — Propriamente os inteiros que se encerraram em vocês — respondo. Ele me entrega a taça; a borda fria, suas mãos vaporosas, quase estilhaços, não fosse eu me ancorar à realidade no último segundo. O peso da hipótese não cabe mais em perguntas.

    — E o que nos propõe, em troca? — Hilda toma-me a taça e quase a esvazia de um gole imenso.

    — Minha centelha — e não sei se o que soa é o sorvo do vinho, um arroto interno em forma de desespero ou simplesmente o silêncio que me cutuca o pensamento.

    — A centelha é quase nada — Hilst ecoa um riso que pode ser mar ou a ponta de uma faca.

    — Não queremos a centelha; queremos o incêndio que ainda não aconteceu.

    Os dois tomam a taça das minhas mãos. Por um instante que parece durar mais do que toda a minha vida, sinto os lábios dos dois se encontrarem no mesmo vidro que o meu. Bebem do meu tempo, do que ainda não escrevi, do que não vivi direito. A luz sobre a cama pisca; num reflexo, ambos se foram. Deixam, para além da superfície brilhante, um gole seco de palavras, como o vinho que ali figurava minutos antes.

    Ainda não nasceram.

    A cama já tem menos colchão vazio do que nunca; penso em mandar uma SMS para Lewis, só porque ele está deliciosamente disponível no cômodo ao lado. Deixemos o Diabo no outro quarto.

    Lá me vem o Prime Vídeo com uma dessas, passadas 22h de uma noite que exauriu o dia — ou foi o dia que, estendido, invadira a noite anterior? Sabe Sísifo, empurrando a pedra? Sou eu com as noites, dias adentro.

    Assisti a “The Drama”, uma tragédia sinistra que, não sei bem o porquê — ou sei —, sentou-se ao lado do último livro que li, “A menina que não sabia ler”. O que pode caber dentro de uma pergunta despretensiosa – ou nem tão assim – sobre o que você já fez de pior na vida? E o que acontece quando alguém que nos ama sabe o que foi isso?

    Charlie enlouqueceu. Theo morreu, de susto, medo e asma.

    O morcego, ao passar, me fez perceber as duas pistas que cruzo diariamente.

    São apenas e as mesmas duas. Para vir de casa para o trabalho é rápido: minha face desarma os portões e me lança ao passeio público. Olho para a esquerda; logo em seguida, é possível atravessar.

    A segunda pista, contígua — seria parte da primeira não fosse um salpicado de grama esturricada pelo sol da zona Norte —, é mais complexa. Os carros vêm da direita, em alto fluxo. Demanda tempo.

    A grama chinfrim é minha pausa cotidiana, e, mesmo assim, toda a travessia me demanda menos de cinco minutos.

    Aí, leio Hilst:

    Um parágrafo rotineiro desses colóquios de dois que são um pelas convenções, pela intimidade e pelo tédio ordinário da vida. Não sei por que caminhos da minha mente-floresta-tropical ele me leva a redigir estas linhas:

    “É lindo completar com vida uma outra vida. Isso é a beleza Cda gravidez; tudo síntese, tudo caos, paz, expectativas e não. Ausculto o coração incipiente.

    Nada.

    Em quantos dias se forma o coração? O que se forma primeiro, após a fecundação do óvulo? Por que a mulher se perde nesse molho feito a dois, de si?”

    Do aparelho televisivo de LED, fixo à parede em frente à cama, me dizem que o cérebro se forma somente após os 25 anos.

    Coração, então, quando é que se firma?

    Não quis pesquisar. Há certas coisas na vida que não demandam respostas; caem mais leves como a falta de letramento dos que apenas vivem.

    — Ignorar uma pergunta também é falta de respeito.

    — Aquiete a língua, morto. Termine o vinho.

    — Acabou.

    Cusparada póstuma.

    Levantaram a cabeça, tensionados. Silêncios de toda uma vida num hífen; cospem o vinho numa gargalhada. Filhos da mãe… — Será que a mancha no lençol de elástico é um desses resquícios?

    A oração não fecha. Algumas orações subordinam; outras, dirigimos aos mortos: mãos unidas, dedos para o céu.

    A palavra não ama. O amar talvez não caiba no sucinto grafo de concordâncias humanas para ninguém.

    Ao segurar as alças da minha mochila, que já se agarram aos meus ombros para o caminho de casa, a travessia entra no segundo tempo; os lados do campo se invertem. A direita agora é à esquerda e vice-versa?

    Parece que todo mundo quer ir, agora. Mas quase ninguém quer verdadeiramente voltar, ainda que a calçada do meu destino esteja repleta de mesas com quatro esperas de cadeira em cada.

    Tomei, no provador de uma loja de varejo concorrente, o café que fiz para a obra e esqueci de beber. Experimentava uma calça jeans com margaridas. Não a comprei. O aroma do café chegou às cabines limítrofes. Ri e bebi da ousadia.

    Mãe natureza, Hilda Hilst, Kristoffer Borgli, Victor Heringer, John Harding e Bia Mies resolveram comer pipoca enquanto as unhas pintadas do vermelho “padrãozinho para quem” secam na liberdade de extravasar as unhas para as cutículas, sem limpeza.

    Vida longa às crônicas crônicas, que não têm remédio além da melancólica e estonteante poesia!

    Abro a porta da geladeira e lá está, a saliva na ponta da língua, o lustroso da forma amarelamente arredondada a se oferecer para mim, assim, sem pudor algum. E, ao invés de querê-lo mais, percebo a ruguinha escondida na curva que dá para as suas costas.

    — Será que o maracujá todo murcho se acha desajeitado? Avulso? Fora da fruteira? Old — school & fashioned —, propriamente falando? E será que o liso, no refletir da energia interna, percebe que não dá um bom suco, ainda?

    Eu, que não quero pensar no avançar do tempo, dei com ele, há parcos dias, nos primeiros três cabelos brancos que apareceram assim, unidos | um corte à navalha na realidade. Sinais dos trigêmeos à vista que tanto desejo? | Acabo por me encarar no espelho e repetir aquilo com que toda a minha geração de millennials se ilude:

    — Eu só tenho 27, todo mundo concorda.

    Desafio as madeixas, que resolveram brincar de esconde-esconde na nem tão mais vasta cabeleira de outrora. Outrora, nada. E quem nada é a mobelha negra num mar hilstiano. Recolho os remos.

    O morcego ronda as minhas janelas. O sibilo ressoa novamente. A ave preta e fashion, em algum canto, solta sua risada demoníaca. Thoreau entenderia – espero.

    Theo, Florence e Giles estarão seguros, brincando de pique-esconde e beijo roubado entre as páginas, antes que o próximo leitor chegue ao seu fim. O final do drama é a outra face da máscara.

    Tudo vai bem.

    O coração, (s)em idade; cérebro, louco aos 22. Numerologia lunática. Meus três fios prateados são um charme que ainda espero rever no espelho. Mesmo que tudo isso aqui não passe de um sonho interrompido. “Pausa indisponível”.

    — Encapsulei a vida?

    A taça está rasa das palavras, que se foram todas neste correr da tela; só me resta a Fanta preta, comprada nas Lojas Americanas. Pura curiosidade mórbida; blasfêmia a todos os santos.

    Estalo o lacre. Preencho a taça.

    (derrubo um pouco na varanda para algum com sede).

    Mais um líquido vermelho-sangue-escuro, agora borbulhante. Carmesim.

    Gosto de batom. As borbulhas ressoam entre os dentes, bocca chiusa. O sabor encontra o sólido da boca e marca o carmim na taça. Pela primeira vez, por fim, alguma evidência da noite.

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