Domingo

  • Manta, pipoca e duas em uma

    Me dói.

    Um sofá cinza acolhe um corpo enrolado em uma manta pequena. Uma almofada faz as vezes de travesseiro. O ambiente é iluminado pelos feixes de luz que mudam constantemente de intensidade e cor, vindos da tela de grandes proporções, onde a Netflix permanece em pausa, e pela abertura mínima da cortina da varanda — mantida assim para que a planta ali postada, de sentinela, possa respirar.

    Certas dores dispensam gramática; já chegam sabendo ser substantivo, verbo e sentença. Encolhido no sofá, meio corpo dentro de uma febre que não termina de ir embora, meio corpo dentro de uma lista de coisas que também não termina nunca. Há trabalho espalhado pela casa: folhas sobre a mesa, o computador em estado de espera, o WhatsApp, talvez até dentro da geladeira, se houvesse forças e coragem para abri-la. Eu deveria estar fazendo alguma dessas coisas.

    Não estou.

    Estou debaixo da manta souvenir de uma viagem de avião emblemática.

    Digamos que tal elemento foi incorporado ao meu enxoval-patrimônio-itinerante. A manta é fina demais para aquecer alguém, mas tem a qualidade invejável de me fazer pensar em aeroportos. E aeroportos, ultimamente, são uma espécie de esperança com portão de embarque e um caminho sem migalhas de pão para o qual retornar. Penso nas próximas viagens. Em cidades nas quais ainda não fui, nas que habitarei temporariamente em breve. Numa janela desconhecida, numa rua que ainda não sabe meu nome. Na minha versão ainda sem rosto.

    Talvez seja a febre, mas penso também na estranha vontade humana de caber por alguns minutos no abraço de alguém. Nem sei de quem. Talvez nem importe. No meu encolher suado, sorrio. “Assim caminha a humanidade”, surge um pedaço de uma velha canção conhecida. A ausência tem dessas crueldades: às vezes nem rosto possui. Aperto a manta contra o peito.

    E eis que alguma coisa se mexe ali dentro. Estremeço.

    — Sai.

    Nada.

    — Eu sei que tem alguém aí.

    Uma cabeça surge na altura dos meus joelhos.

    Cabelos pretos. Cachos lindos, insolentemente bem definidos, como se nunca tivessem ouvido falar em progressiva, secador, escova rotativa ou no projeto feminino de pacificação da vida.

    Depois vêm dois olhos enormes.

    Pele branquíssima, jovem, intacta daquela maneira ofensiva como só a pele infantil consegue ser. Ela segura um pote de pipoca entre os dedos. Sorri sem mostrar os dentes.

    Reconheço imediatamente.

    A menina sou eu-de-antes.

    A versão de mim que ainda não tinha aprendido que os cachos não eram um problema a ser resolvido. Na verdade, os cachos nunca foram um problema. Nem o corpo. Nem a vida. Ela se enfia mais para dentro da manta, ajeita as pernas sobre as minhas e pergunta:

    — Vai rolar Netflix ou você vai continuar fazendo essa cara de mulher abandonada num romance russo?

    Olho para ela.

    — Estou com febre.

    — Eu vi.

    — Tenho muito trabalho.

    — Também vi.

    — E estou triste.

    Ela mastiga uma pipoca.

    — Isso eu senti da cozinha.

    Ficamos em silêncio. Pego o controle remoto. Escolho uma série. Comédias com pessoas fazendo coisas moralmente questionáveis sempre me acalmam. Talvez porque a moralidade alheia seja um ótimo descanso do próprio cotidiano.

    Minha criatura acompanha tudo com enorme concentração, enfiando duas pipocas de cada vez na boca, e depois de alguns minutos começa a emitir opiniões não solicitadas.

    Aquela ali é meio burra, olhe bem.

    A outra está mentindo; como mente mal, coitada.

    A terceira deveria fugir.

    Esse homem tem cara de quem pede desculpas e repete exatamente a mesma coisa depois.

    — Você tem oito anos — digo.

    Ela me olha.

    — E você tem quantos e continua caindo nessa?

    Não respondo.

    É desconcertante ser chamada à atenção por uma criança que mora dentro da própria cabeça. Puxo mais a manta. Ela também. Lembro-me do cabo-de-guerra, minha/nossa modalidade preferida nas Olimpíadas da escola. Ficamos ali, empatadas, apertadas dentro da manta: duas mulheres ocupando o espaço de uma pessoa só, embora tecnicamente exista apenas uma nesse nós.

    Começo a pensar que eu e minha Pequena passamos a vida inteira aprisionadas juntas. Não de forma trágica – ou não apenas: um quê de prisioneiras livres. Crescer, penso, é como construir paredes de um material que não é tijolo, cimento ou drywall. É outra a técnica, outra materialidade. O cabelo que era melhor alisar. A palavra que era melhor não dizer. O choro que era melhor engolir. O sonho que era inconveniente. Silêncios. E mesmo assim, lá dentro, essa criatura continua fazendo piadas. Idealizando histórias. Apaixonando-se por palavras estranhas. Mudando o nome das coisas. Inventando saídas. Comendo pipoca.

    Como não percebi antes?

    Ela me olha, entende a pergunta não pronunciada e faz uma cara de “sei lá”, intensificada pelo levantar dos dois ombros. Volta a assistir à série.

    — Lembra da cabana da Barbie?

    Ela levanta a cabeça de imediato.

    — Claro, né? Montávamos no meio da sala. Papai era sempre quem ajudava com a estrutura: aquelas paletas de madeira, as junções de plástico, uma engenharia doméstica de altíssima complexidade e baixíssimo rigor normativo. Depois enfiávamos o meu colchão lá dentro. O colchão, maior que a cabana, vazava pela porta de tecido. Era o máximo dormir lá, com as pernas para fora.

    Havia alguma coisa extraordinária em construir uma casa que mal conseguia conter aquilo que nos fazia dormir. Será que era isso que me fazia sentir tão segura?

    — Agora temos aquela barraca de camping tamanho família — digo.

    — Aquela que também só usamos na varanda da mamãe?

    Rimos.

    — Somos péssimas nômades. Apesar de nômades sermos, verdadeiramente, agora.

    Minha Pequena discorda.

    — Somos ótimas em tornar qualquer lugar habitável.

    Fico quieta.

    Olho ao redor.

    A manta do avião. O sofá que não é meu. Pratos que não são meus, talheres de bambu que são. As malas.

    As coisas temporariamente permanentes.

    As coisas permanentemente temporárias.

    — Vai ver foi por isso que você se tornou arquiteta.

    — Nós nos tornamos, ela corrige.

    Isso. Nós.

    — Você pensa demais, diz.

    —Nós pensamos. Sempre foi assim.

    Minha versão Miúda se emburra imediatamente, como sempre, quando contrariada. A boca fecha. O queixo sobe. Os olhos acusam o mundo de um crime gravíssimo que ninguém ainda conseguiu identificar.

    — Ah, pode ir aprendendo a melhorar essa carinha aí. A vida vai bater na gente feito carne crua — aviso — Anos de terapia poderiam ser poupados se esse papo estivesse acontecendo um pouco antes.

    Rio.

    E estamos no Rio, penso. Ainda.

    Rimos juntas, duas nômades que constroem barracas em varandas. Duas arquitetas especializadas em fazer caber casa dentro de mala.
    Desmontar.
    Dobrar.
    Guardar.
    Levar junto.
    Montar de novo.

    Ela pega outra pipoca; ajeita-se ao meu lado, pousando a cabeça no meu ombro esquerdo. A febre continua. O trabalho continua. O abraço continua no ar; nada foi resolvido.

    Ainda assim, há uma casa improvisada debaixo daquela manta fina demais.

    Uma menina.
    Uma mulher.
    Um pote de pipoca.
    E uma próxima viagem batendo à porta.

    Acho que somos mesmo prisioneiras livres. Mas com uma prisão que desmonta.

    E cabe na mala.

  • Vai que…

    Severo olhou para a gaveta. Tentou desviar o olhar, mas viu a gaveta sacudir, tentando cuspir seu conteúdo.

    Piscou três vezes, tipo superstição das três ondinhas da sorte na passagem do ano. Mas o recado estava dado – de hoje não passaria a tarefa que vinha procrastinando – enfrentar os cabos.

    Imbuído do seu melhor espírito esportivo, arregaçou as mangas.

    Colocou uma lixeira ao lado da gaveta.

    (otimista.)

    Puxou o trinco.

    Ela, desacostumada a se expor dessa maneira, relutou – depois de uns minutos de embate capitulou.

    Soltou um guincho e, com um tranco digno de um carro velho, cuspiu dois cabos USB embolados.

    — Cabos USB, conectava o que, mesmo?

    — Na dúvida, melhor guardar.

    — Vai que volta

    Embaixo deles encontrou o Blackberry.

    Sorriu.

    — Esse nunca me pediu atualização.

    — Vai que o teclado QWERTY volta…

    — Melhor guardar.

    Mais para o fundo encontrou um cadeado de mala.

    Sem chave.

    — Onde será que anotei o segredo?

    — Vai que está naquele papelzinho de senhas

    — Melhor guardar

    Do lado esquerdo, ocupando um grande espaço da gaveta estavam três adaptadores. Saída de dois buracos redondos e um reto – inútil!

    — Será?

    — Vai que resolvem mudar o padrão de novo.

    — Melhor guardar.

    Lá no fundinho achou uma bateria 9v.

    Vazando.

    — Quem jogou aí?

    — Vai que mela a gaveta.

    Não teve recurso.

    Foi para a lixeira.

    Depois de reorganizar tudo…

    Tenta fechar a gaveta.

    Ela mal fecha.

    Empurrou.

    Empurrou de novo.

    Toc.

    Fechou.

    Severo sorriu.

    A gaveta também.

  • Os influenciadores

    Quem influencia você?

    Essa pergunta, feita há uns vinte ou trinta anos, teria como resposta muitas pessoas: pais, professores, escritores, jornalistas, grandes ícones da música e da atuação, enfim, homens e mulheres que tinham algo a dizer. E diziam!

    Hoje, essa mesma pergunta oferece como resposta as redes sociais. Geralmente, toda regra tem a sua exceção, as pessoas que influenciam não têm nada a dizer. Mas dizem! Eis o problema!

    Este o grande drama da sociedade em frangalhos da pós-modernidade. Indivíduos que não possuem estudo, tempo, maturação, experiências e lastro para falarem sobre algo, falam assim mesmo. E se dão a importância de autoridades no assunto (seja qual for).

    E tudo piora quando, mesmo à luz da ciência, de dados, de comprovação e pesquisa, os ditos influenciadores contestam, negam, se rebelam!

    Não há argumento! Não há lógica! Apenas esperneio e performance! Negacionismo!

    Os influenciadores vendem fórmulas de sucesso para todas as áreas da vida! Ensinam como viver, mas não vivem a vida real!

    Os influenciadores ostentam carrões, mansões, bebidas, luxo, sexo, lugares paradisíacos e um sem-número de ilusões!

    Os influenciadores vendem jogos como doces armadilhas! Tudo parece fácil, simples e direto! Você que não segue se sente um idiota de não ter visto, ouvido e aplicado antes o passo a passo iluminado!

    Quem influencia você?

    Quem influencia tem experiência sobre o assunto para falar sobre isso? Estudou, leu, pesquisou, escreveu, ponderou, anotou, perdeu noites de sono, enfim, viveu o chamado processo?

    Se quem influencia não viveu processo algum, não respeita o tempo de maturação das coisas e das ideias.

    Se não respeita o tempo de maturação, simplesmente, não tem autoridade para falar sobre nada!

    O que é um influenciador então?

    Guardadas as devidas e honrosas exceções, os influenciadores são os idiotas que não têm vergonha de sua ignorância e querem espalhá-la aos quatro cantos!

    Que saudade de Drummond, Chico, Milton Nascimento.

    Que saudade de Chaplin, Clarice, Cecília…

  • Íris

    “Às vezes, Deus não muda o cenário. Ele muda você…”

    Era domingo, chovia, e fazia aquela temperatura imprevisível de fim de inverno – “esse tempo bipolar..!”  (diria sua mãe). Com um guarda-chuva transparente sobre a cabeça, Íris leu a frase no muro da rua nove com a rua dois. Era a quarta cidade diferente, temporariamente sua, dentro de todo um ano. Um ano não exatamente de calendário; setembro ainda nem havia terminado. Era outra contagem. A de início e fim de ciclo de si mesma. Tinha a sensação de completar mais um aniversário dentro do mesmo período de rivoluzione del pianeta Terra. Revolução. Achava a palavra em italiano muito mais bonita do que a portuguesa translação. Aprendera com uma de suas pessoas-milho, um italiano de Rocchetta Nervina, cidade cujo nome composto sempre fazia Íris mover as mãos à moda italiana. Nunca dera um Google para saber onde ficava no mapa da bota. O nome bastava, era cenográfico, naturalmente. Parecia um vilarejo onde Deus, o mesmo da frase parcialmente sob a hera do muro da rua nove com a rua dois, tinha deixado o GPS sem sinal. Em Rocchetta Nervina, Íris tinha não um palpite, mas uma certeza particular: até a esperança, sentimento malandramente carioca, chegaria com dois dias de atraso.

    Nada italiana, nem por relações ancestrais sanguíneas, Íris trabalhava com marketing. Era muito boa em encontrar frases impactantes para produtos, ideias, empresas, clientes que nem sempre sabiam muito bem o que queriam dizer. Era a voz que precisavam, sem precisar emprestar o tom da sua. Passava os dias convencendo marcas de que promessa alguma sobrevivia a uma experiência ruim e, fora do expediente, demonstrava talento impressionante para acreditar exatamente no contrário.

    Vivia em mudança, era nômade havia exatos 365 dias. A empresa internacional para a qual trabalhava dera a ela um cargo de retirante premium no Brasil: cidade, projeto, mala, apartamento temporário, próxima cidade. Chamava tudo de mudança, nunca de viagem. Viagem pressupunha volta. E, sem volta, ficavam também suas relações, mesmo que pipocassem pessoas pelo caminho. Íris, pipocólatra assumida, sabia muito bem que pipocas não permanecem: estouram, fazem festa, aquecem o coração e, passado o entusiasmo, deixam pouquíssima sustância. Sua vida era uma panela inteira embebida em óleo, repleta de pessoas-milho que o acaso catava, aquecia e fazia estourar nesses movimentos migratórios sem fim aparente. Tinha as que viravam pipoca, aquelas outras que permaneciam milho e quase quebravam um dente. Ainda havia as mais perigosas que, por algum defeito de fabricação sentimental, Íris confundia com alimento para a vida inteira.

    Numa segunda-feira, em uma padaria perto da casa da vez, pediu um chá de capim-limão. O quadradinho preso à linha dizia:

    “Sorria sempre.”

    Íris sorriu, mas por desprezo profissional.

    — Preguiçoso, genérico, aprovado pelo cliente na primeira rodada — pensou.

    Depois riu sozinha. Foi quando ele entrou.

    Tinha alguma coisa de personagem que perdera o próprio século, um “quê” de um Botticelli que pegara o ônibus errado e, por orgulho, decidira seguir a pé até o século XXI. Vestia alguma coisa escura — dark, pensou Íris, sem saber por quê — e não era bonito segundo os termos e condições vigentes da beleza. Talvez um algoritmo passasse direto. Mas Íris não era máquina ou algoritmo.

    Ele falou com a moça do caixa. Foi o raio da voz, que não era particularmente grave, nem cinematográfica. Era pior. Parecia conhecer o caminho. Não até ela — seria cedo demais para tamanha presunção —, mas até algum lugar interno seu que Íris ainda não sabia nomear. A tal voz fez surgir na memória uma velha canção italiana. Duas estrelas. A noite. O tempo. O tipo de canção que fazia parecer muito razoável supor que o universo tivesse interesse específico na vida amorosa de duas pessoas.

    Excelente conceito”, pensou. Universo, desejo, eternidade. Público-alvo: qualquer pessoa emocionalmente vulnerável depois das oito da noite. Ainda sorria quando ele olhou para ela.

    Ele não sorriu.

    Mas os olhos castanhos sem íris sabiam olhar.

    E Íris, que fazia profissão de interpretar mensagens e hobby de interpretá-las mal, considerou aquilo um sinal: ela se especializara em identificar uma promessa mal posicionada a quilômetros. A menos que viesse acompanhada de olhos como aqueles. Ou de uma fala qualquer, dita naquele tom de voz que parecia acertá-la diretamente na boca do estômago.

    Era uma pancada.

    Mas tinha um organismo surpreendentemente competente para transformar impactos: dali em diante, ouvidos, cérebro, coração e alvéolos pulmonares davam conta do recado. Sempre. E ainda trabalhavam em equipe na manhã seguinte, quando algum objeto doméstico surgia disposto a confirmar a tese da véspera.

    Dessa vez, foi a caixa de leite vegetal. No topo: “Atenção: alto risco de se apaixonar.”

    Íris parou.

    Profissionalmente, reconheceu uma excelente chamada. Emocionalmente, já se contaminara. Paixão era mesmo aquilo: risco. Não um rabisco, mas vertigem. Queda, aceleração, uma espécie de irresponsabilidade temporária dos órgãos internos.

    Não tinha, necessariamente, relação alguma com amor. Amor era outra campanha. E, suspeitava agora, exigia entrega. Sua, claro, mas não só. Também daqueles outros olhos que precisavam saber olhar de volta, mutuamente, e não só de forma profunda.

    Na terça-feira, passou outra vez pela rua nove com a rua dois. A hera parecia ter avançado alguns centímetros sobre a frase de Deus.

    Na quarta, uma folha caiu em seu ombro.

    Na quinta, um pedaço pequeno de reboco acertou sua bolsa.

    Na sexta, absolutamente nada aconteceu.

    Íris achou isso suspeito.

    Depois vieram outros dias. Mensagens nos pacotinhos de açúcar. Vozes de transeuntes. Promessas em sua própria cabeça. Silêncios.

    Voltou à padaria, todos os dias. Testou ir em horários diferentes. Uma frase se movia dentro dela, ciclicamente, como ponteiros de um relógio analógico:

     “Espero que ele chegue. Espero. Ele chegará. Espero que ele chegue”.

    Esperava, desconstruindo os anos de estudo, pelas coincidências. Esperava a mesma voz atravessar outra vez algum lugar e encontrar o caminho. Esperava como quem trabalhava numa campanha que já havia ultrapassado o orçamento, mas ainda jurava que a próxima peça resolveria tudo.

    Até que procurou aquela velha canção italiana, leu a tradução pelo Google. A música era original de 1977. Sete e sete. Brincadeira antiga de azar, como costumava procurar a dupla de números em placas de carros, quando adolescente. Sem perceber, já de então treinava o universo para lhe responder alguma coisa. Olhando atenta para a letra completa da música, descobriu que sempre a havia entendido pela metade.

    Falava de estrelas, sim. De duas. Falava de encontro, de sombra, de corpos refletidos nas ondas.

    Mas, na meiuca das estrofes, sem qualquer constrangimento cósmico, despedia-se. Addio, ragazza, ciao. O “ciao” que brincava de cumprimentar com oi e com até loguinho. Ou “até nunca mais, ragazza”.

    Íris encarou a tela.

    — Era isso? Todo aquele céu para terminar em tchau?

    Achou uma falta de responsabilidade afetiva astronômica mobilizar duas estrelas para dizer adeus. E depois dizem que italiano é romântico! Romantismo, que nada. Era uma língua educada pela ironia bem-feita. Pensou no italiano-milho de Rocchetta Nervina, percebeu que talvez algumas pessoas não mentissem, exatamente. Apenas interrompiam a música antes do verso que as denunciaria.

    No domingo seguinte, voltou à esquina da rua nove com a rua dois.

    A hera já cobria metade da frase. Lia-se somente “Deus”, “cenário”, “você”.

    Passara semanas recolhendo mensagens em caixas de leite, sachês de açúcar, quadradinhos de chá, músicas italianas, olhos alheios e promessas mal-acabadas. Foi quando, no seu percurso diário pelas tais ruas numéricas, uma caixa caiu do alto e acertou sua cabeça.

    Ah, ótimo. Agora até a botânica me agride.

    Era um baralho. Íris olhou para a hera.

    — Taróloga também?

    Sentou-se na calçada e abriu a caixa.

    Vieram primeiro seis de espadas | sete de espadas | sete de ouros.

    6:Travessia; afastar-se de águas turbulentas 7: Estratégia, evasão, aquilo que talvez não tivesse sido dito inteiro.

    E depois a pergunta inconveniente do 7: onde ainda valia a pena investir tempo, cuidado e energia?

    Íris estreitou os olhos para a planta.

    — Excelente diagnóstico. Péssima gestão de relacionamento com o cliente.

    Olhou o fundo do baralho. Dois de copas.

    2: Conexão, encontro, reciprocidade.

    — Ah, claro. O amor sempre entra no briefing.

    Puxou mais três: Seis de copas | cinco de espadas | dez de copas.

    6: aquilo que romantizava. A memória doce, o passado ganhando iluminação melhor do que tivera enquanto acontecia.

    5: os fatos. Um conflito em que continuar tentando vencer poderia significar sair perdendo de qualquer maneira.

    10: para onde sua energia queria ir. Inteireza. Afeto compartilhado. Uma vida que não precisasse ser persuadida a acontecer.

    Íris ficou em silêncio.

    —  Um lindo abuso de marketing! – concluiu.

    Ela, que se julgava racionalmente fora do público-alvo – sempre se julgava – era a profissional questionando a segmentação e a emocional compradora da campanha de marketing com o batendo forte.

    Olhou para o muro, com a hermenêutica dentro de si. A hera não respondeu.

    Na manhã seguinte, a caixa de leite vegetal ainda dizia:

    “Atenção: alto risco de se apaixonar.”

    Íris leu outra vez.

    Sorriu. O risco nunca tinha sido esse. Apaixonar-se era apenas parte da revolução, seu movimento próprio de translação com o mundo.

    O risco real era confundir órbita com espera. Guardou o leite na geladeira, pegou a bolsa e saiu.

    Ao passar pela rua nove com a rua dois, não pediu sinal algum.

    A hera, pela primeira vez, também ficou quieta.

    Íris seguiu.

    Ainda esperançosa. Só não pensava mais: espero que ele chegue. Mudou de padaria.

    Tinha a próxima grande jogada de marketing na ponta da língua.

  • Xeque-Mata

    Eduarda e Rafaela. No centro, um tabuleiro de xadrez. Eduarda com as pretas e Rafaela com as brancas. Eduarda gosta de ficar segurando o queixo enquanto pensa, e Rafaela adora um uísque durante o jogo.

    — Peão quatro do rei.

    Rafaela morre de inveja do corpo de Eduarda: pernas perfeitas, pele branca de quase nunca ir à praia, seios que cabiam na mão, pontudos, empinados. Eduarda não se acha tão bonita e despreza a objetificação.

    — Cavalo três do bispo do rei.

    Rafaela começa a descobrir que Eduarda responde de imediato ao jogo. Certamente para se exibir. Pudera, sem ir à praia, devia ficar em casa estudando, lendo os manuais de xadrez, estudando aberturas clássicas, confronto dos mestres… Eduarda acha que Rafaela poderia jogar bem melhor, se não bebesse tanto durante a partida.

    — Bispo seis da torre da dama.

    Eduarda tem um pescoço liso, com destaque para uma veia fina e a impressão de que nascera para alvo de vampiros. Para Rafaela, Eduarda faz gênero. Jogar xadrez é como dama, sudoku ou gamão. É só um jogo. Serve mais uma dose de uísque com gelo e saboreia. Já Eduarda, mais elitista e menos etílica, classifica o xadrez como um desafio de estratégia e tática. Necessariamente sóbria.

    — Peão cinco da dama.

    Rafaela opta por tomar a iniciativa. Não tem nada a perder arriscando. Eduarda se defende e prepara um contra-ataque. Rafaela sente-se provocada e agora se concentra nas artimanhas do jogo. Eduarda sorri, demonstrando uma calma irritante. Meio arrogante.

    — Torre dois da torre.

    Nesse momento, Rafaela planeja um ataque com a dama. Eduarda pressente. É melhor pensar numa defesa segura.

    — Dama sete do bispo do rei.

    Gradualmente, Eduarda avança. Visa o xeque mortal, com paciência.

    — Cavalo come bispo.

    Rafaela pega mais umas pedras de gelo e completa seu uísque. Acha um caminho. Como não havia pensado nisso. Suas chances
    aumentam, ela calcula, e recomeça a gostar do jogo. Eduarda hesita e demora a responder.

    — Dama come peão do cavalo.

    O jogo parece caminhar para o empate. Qualquer movimento arriscado pode significar a derrota. Eduarda não tira a mão do queixo e olha fixamente para as peças. No fundo, considera uma humilhação perder para Rafaela. Inveja o jeito da oponente encarar a vida, uma forma sedutoramente irresponsável. Queria ser assim, levar as coisas menos a sério.

    — Roque pequeno.

    Eduarda posiciona o bispo e o cavalo do rei atuantes no centro, mantendo o semblante provocador e a segurança de quem tem agora o controle da situação. Rafaela confia na sua intuição e se esforça em encontrar saídas diante do ataque fulminante (ou galopante) do cavalo que…

    — Cavalo seis do bispo… e xeque.

    Rafaela ainda vislumbra uma saída. Meio suicida. A melhor defesa é atacar. O jogo fica tenso. As investidas vão se sucedendo e Eduarda consegue neutralizar as mais importantes. Após uma troca forçada de peças, nenhuma grande vantagem para ambos os lados.

    — Peão come pão.

    Rafaela propõe empate. Eduarda recusa. Rafaela ri, amarelo…

    — Peão come cavalo.

    Eduarda, enquanto aguarda a vez de jogar, desabotoa a blusa e começa a passar a mão pelos seios, alegando calor. Rafaela reclama que ela está tirando a sua concentração. Eduarda sorri.

    — Torre quatro do cavalo.

    Eduarda responde com um avanço de peões. Enquanto aguarda a resposta de Rafaela, olha para ela: é uma morena bonita, de lábios, carnudos, corpo de atleta e os olhos pretos que pedem por carinho. Pena ser doidivanas.

    — Bispo defende a torre.

    Rafaela não consegue tirar os olhos dos seios de Eduarda. Ameaça parar de jogar. Aquilo não está nas regras e nem tem cabimento. Eduarda não dá bola. Rafaela tenta se concentrar.

    — Dama cinco do rei.

    Rafaela cada vez mais encurralada, com seu rei sem muitas opções para escapar, reúne as últimas forças para tentar uma saída.

    — Peão sete da dama.

    Eduarda sabe que o xeque-mate é iminente. Vai coroar seu peão da torre. Sugere que a adversária admita e abaixe o rei branco. De repente, Rafaela dá um pontapé no tabuleiro, derruba as peças, pula em cima de Eduarda, a agarra e beija com raiva. Eduarda, depois de esboçar uma pálida reação, acaba cedendo e retribui o beijo. As duas, deitadas sobre as peças e o uísque com gelo entornado, se enroscam agora. O jogo havia terminado. Começavam se apaixonar e nem se davam conta.

  • Rebeldias do mundo

    Já repararam como o cotidiano doméstico muitas vezes conspira contra?

    Já mudei várias vezes de casa, cozinhas planejadas diferentes, mas não adianta: a água da torneira que espirra na pia sempre corre para o canto oposto do ralo. A gente tenta educá-la com aquele rodinho, mas ela faz ouvidos de mercador.

    E quando abrimos a gaveta onde guardamos fios de celular, fones de ouvido, tudo separadinho? Eles se embolam sozinhos, como se tivessem vida íntima.

    Isso sem falar na meia que desaparece na máquina e reaparece meses depois, sem par e sem explicações — como quem não deve satisfação a ninguém.

    Agora, o que realmente me tira do sério é a fila do lado andar mais rápido. Seja no supermercado ou no pedágio. Quando decido trocar, a antiga, vingativa, flui imediatamente, e eu fico lá atrás, acompanhada apenas do remorso.

    Tento entender a lógica dessas rebeldias do mundo e começo a desconfiar de que não sejam falhas. Talvez sejam combinados secretos entre as coisas, uma forma discreta de me fazer companhia.

    Penso nisso quando saio pela esquerda em vez da direita, quando chego para embarcar no voo das oito da manhã com passagem para as oito da noite, ou quando chamo a namorada atual do amigo pelo nome da anterior.

    No fundo, gosto de acreditar que as coisas erram por solidariedade. Um gesto silencioso para quem, como eu, também falha, esquece, tropeça — e tenta de novo.

  • Poema #21: Sonho Azul

    No barco nu
    o pescador sonha
    um sonho azul.

    No barco velho
    o pescador ri
    num sonho azul.

    Com a água calma
    o pescador viaja
    no sonho azul.

    Ninguém atrapalha,
    nada interrompe
    o sonho azul.

    O impulso amoroso
    é forte e claro
    como o sonho azul.

    No barco nu
    o pescador encontra
    o sonho azul.

  • E Ainda é Agosto

    “É 29 de agosto. Em 48 horas, sua vida mudará para sempre.”

    Mais uma vez estava eu vidrada diante da tela. O dia era 29 de agosto, ontem, como foi no ano passado e no ano antes dele. A melodia inebriante preenchia os vazios que o ar-condicionado a 21ºC fazia flutuar no quarto hermético do Cachambi:

    O som avança em pequenos impulsos, como passos curtos e apressados que de repente… desaceleram. Expande e…. recolhe. O acordeão dá a sensação de ar sendo empurrado e puxado, como se abríssemos e fechássemos o peito. O piano pinga notas regulares por baixo, num conta-gotas, como dedos tocando uma superfície de vidro. Há uma leveza quase mecânica, quase de caixinha de música, acrescida de alguma coisa melancólica presa entre uma nota e outra.

    Este ano, como em todos os outros, meu encontro é diferente: percebo detalhes que nenhuma das minhas versões havia percebido antes. Convidei também minha eu de quatro anos, que se senta ao meu lado, entre os mesmos lençóis que a minha versão em carne e osso, sorridente, embora presa dentro de um porta-retrato de vidro. Cabelos fartos, longos e cacheados, os lábios que não precisavam, àquela altura, dos dentes para mostrar, através das íris, a felicidade de estar vivendo o presente. Hoje não sei fazer o mesmo com tamanha desenvoltura e naturalidade.

    Na fotografia, estou com a guirlanda do casamento da minha mãe e um vestido branco, pronta para me casar com um dos meus amigos mais antigos. Não seria a única vez: nós dois nos casaríamos outras vezes em festas juninas, três ao todo, como se a infância insistisse em ensaiar futuros que jamais aconteceriam daquela forma; décadas depois, tive o prazer de projetar e acompanhar as etapas iniciais da casa onde ele e a esposa, meus queridos amigos, morarão em breve.

    É ou não uma prova cabal de que o destino adora ironias, coincidências e, às vezes, tem um senso de humor bastante sofisticado?

    De vez em quando, a luz da tela atravessa o quarto e o vidro devolve cenas de Amélie. O rosto dela se sobrepõe ao meu, de criança, depois desaparece. Em certos segundos, já não sei muito bem qual das duas estou olhando.

    Quem sabe, pelos reflexos, me pareça cada vez mais evidente que fui crescendo como uma mistura amadurecida das minhas referências preferidas: um pouco Amélie Poulain, um pouco Margherita Dolcevita, Lois Lane, Hermione Granger, Bela
    personagens que, por razões diferentes, foram me cedendo pedaços até que eu pudesse desenvolver os meus, autênticos. Depois de certa idade, minhas referências femininas passaram a ser também Jane Austen, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Etta James, Norah Jones, Celine Dion, Julia Roberts e mulheres comuns do dia a dia, cujas qualidades absorvo profundamente — pela leitura, tom de voz ou proximidade — para ir recortando os fragmentos que compõem o meu eu de hoje: sempre, e cada vez mais, um livro de fotografias rasgadas e reconstituídas.

    É curiosamente apropriado que essa fusão aconteça atrás de um vidro. Afinal, em Amélie, um dos homens que melhor sabe ler a vida passa vinte anos refazendo o mesmo Renoir. Chamam-no de homem de vidro.

    Daqui a três meses, eu de hoje e Amélie Poulain teremos quinze anos de diferença etária. O engraçado é que, embora essa diferença aumente ano após ano, a profundidade da nossa familiaridade não diminui. Encontrar Amélie nos 29 de agosto da vida é como reencontrar uma amiga de infância.

    E cá estamos, as três, pausando o filme para vibrar com uma ideia criativa, uma inspiração, fazer anotações ou preparar um café na minha moka italiana para tomar com Nino Quincampoix no Café des 2 Moulins.

    Até que a “Amélie aqui” começa a recortar antigas cartas de amor de sua vizinha imaginária, ressecada pela vida.

    Então penso que uma semana também possa ser remontada assim:

    A tesoura tem uma vantagem loquaz sobre a memória: rasga, de fato, a cronologia. Torna-a palpável:

    uma observação astronômica pode parar ao lado de uma conversa sobre romance imaginado; um homem de setenta e tantos anos opera o septo porque ainda espera encontrar o outro pé para seu par de chinelos — sem roncos, parcimônia libertária do romantismo; alguns takes adiante, outro homem fotografa, quem sabe, para não desaparecer; a Lua pulveriza matéria depois dos impactos e, vista daqui, chamamos os vestígios claros de raios.

    Eu me deitei por duas horas no banco sem encosto do condomínio e vi o vermelho se apossar do brilho refletido da Lua. Eclipse parcial. A olhos nus. Sombras mimetizaram por instantes o coelho que tantos enxergam — dizem que só os apaixonados conseguem vê-lo.

    A humanidade é esquisita: passa por colisões e inventa nomes e figuras de linguagem bonitas para aquilo que permanece visível. Ou quase.

    Me disseram, também nesses últimos dias, que há muita coisa bonita para vermos no céu. Algumas imperfeições só aparecem por causa da luz refletida pela atmosfera da Terra. Gosto particularmente de imperfeições. E, durante um eclipse, quando alguma coisa que costumava iluminar desaparece, vemos mais estrelas. Não seria assim quando nos deixamos colidir com o silêncio? Percebemos mais outras coisas, no todo de todas as coisas?

    Anotei isso. E percebi: vivenciei um eclipse em solitude física, enquanto vozes de todo o Brasil atravessavam meus ouvidos com comentários e explicações astronômicas. Eu, que quando criança ganhei medalha e certificados em Olimpíadas Brasileiras de Astronomia, sorri.

    Entre as anotações da semana — eleições, guerras, mísseis, geleiras, Wall Street em queda — havia também uma rosa. Murcha. Faltou hidratação. Tenho bebido pouca água. Por alguns dias, certas coisas pareceram sofrer do mesmo descuido. Cortada do pé e posta numa sacada, a rosa começou a perder pétalas. A Fera permanece, então, a mesma fera? Ou a Bela – que não é princesa – faz uma jogada no tabuleiro de xadrez da vida para que a magia aconteça?

    Tenho pensado que preciso de mais vermelho na vida…

    O quarto de Amélie interrompe meus desejos; seus pequenos incêndios domésticos, o contraste cromático com o verde. Minhas plantas. Sinto falta de casa.

    Talvez eu acrescente vermelho ao meu quarto, quando — ou se — eu voltar. Não por decoração. Por discurso.

    Amélie e minhas diferentes eus gostamos de estratagemas: surpresas, escolhas semânticas, pequenos deslocamentos de sentido. Em 31 de agosto, há quem a rotule covarde por não encarar o que sente. Então ela escancara a porta. Eis ali Nino Quincampoix, o encontro jamais previsto, sempre esperado. Há um abismo entre fugir da realidade e entender que ela também pode ser abordada pelas laterais.

    Há quem pergunte diretamente.
    Há quem deixe uma pedra no bolso.
    Há quem devolva um álbum.

    Há quem recorte uma carta antiga até ela dizer uma coisa nova.
    Há semanas em que o risco da resposta parece menos
    sedutor que o conforto da dúvida.

    Ainda assim, “a sorte é como o Tour de France”: esperamos tanto algo específico e, quando finalmente chega, passa depressa. “É preciso saltar a barreira sem hesitar”. Estou aprendendo isso.

    Talvez por isso algumas conversas recentes tenham começado a virar literatura; não para conservar pessoas dentro de orações, mas porque certos toques modificam a maneira como percebo o que já estava ao redor: um céu, uma rosa, um silêncio, uma escolha de palavras.

    Uma colecionadora de pedras encontra, de vez em quando, alguém que coleciona resquícios.

    E alguma coisa acontece: acho que Amélie esteve no Norte Shopping. Na falta contemporânea de orelhões, resolveu chamar minha atenção me lançando o objeto de que eu precisava.

    Ontem, indo comprar velas para um parabéns-surpresa, percebi que havia esquecido o isqueiro-amarelo-herança-da-avó-fumante-para-a-neta-que-não-fuma, que costumo carregar. Minutos depois, esbarrei numa planta no shopping, ouvi um tilintar no chão e dela caiu um isqueiro. Preto. Preto no chão quase branco. Parece até piada, Amelie! Aos quatro anos eu já sorria sem precisar mostrar os dentes. Aos trinta e sete, ainda faço planos com fotografias, filmes franceses, números, homens de vidro, palavras recortadas e futuros quartos vermelhos.

    Há quem julgue isso como evitação da realidade.

    Há também quem chame isso literatura.

    Já é 30 de agosto. Será que, em 24 horas, minha vida mudará para sempre? Penso em procurar um tarólogo…

    Em todo (a)caso, o amor faz bem.

  • Poema #20: Mar e Voz

    O fraco risco frágil
    e trêmulo uma voz
    uma voz apenas
    ruído longínquo e espesso
    uma voz
    um frasco, risco
    murmúrio e sonho
    voo largo e concreto da voz
    num desencontro imponderável
    a pedra a areia o risco
    inevitável
    voz das brumas
    voz das sombras
    voz apenas
    de tudo o que se podia
    tudo o que se queria
    tudo que se sonhava
    e nada se via
    voz apenas
    voz de melancolia
    mar marulhar marulho
    bruma
    a escuna no escuro
    o som da voz
    na voz
    foz
    inominável voz
    trêmula, espessa, rara
    inevitável desencontro
    voz das sombras
    voz apenas
    voz das brumas
    coisas poucas que se ouvia
    e, no entanto, nada havia
    mais que a vida
    uma via
    voz apenas
    voz enfraquecida
    no ar zoar zunir
    a sombra
    a figura
    o som
    na voz uma voz
    outra voz
    outro ser
    longínquo e espesso
    e fraco
    frágil
    desencontro apenas
    voz apenas
    voz das brumas
    voz das sombras
    claras espumas
    olhos e ondas
    nada se via
    do tudo que se sentia
    no mar que havia

  • O Sorriso Perdido

    Jandira teve uma infância de indigente. Criada com mais seis irmãos numa cidade pequena no interior, enquanto seu pai trabalhava na roça, ela ajudava a mãe a cuidar da casa e das crianças. Na tapera em que moravam, a miséria acompanhava de perto a família. Não havia comida todos os dias, faltava luz elétrica e, no caso de Jandira, lhe faltavam todos os dentes da frente. Era pobre, raquítica e banguela.

    Com dez anos, foi entregue aos cuidados de uma senhora para trabalhar na fazenda. Logo aprendeu as tarefas domésticas e se destacou na cozinha. Dava gosto a sua força de vontade e o esforço que fazia em aprender e melhorar. Seu jeito tímido e sempre sorridente cativava. Ela sorria, tapando a boca com a mão. “Jandira, abre essa boca, menina, onde se viu rir assim de boca tampada”.

    Com o tempo Jandira foi se tornando peça-chave na fazenda, uma espécie de faz tudo. Movida por aspirações maiores, mudou-se para a cidade grande e arrumou emprego como ajudante de cozinha numa lanchonete.

    Ela não pensava em namoro, diversão, em mais nada, somente trabalhar e guardar dinheiro quando sobrava algum. Vendendo quentinhas nas horas vagas, obteve certa prosperidade. Seu tempero era comentado. Nessa toada foi levando a vida, sorrindo de boca fechada e sonhando com o dia de deixar de ser banguela e poder dar gargalhadas com seus dentes à mostra. A vida por uma dentadura completa.

    Com obstinação e alguma sorte, finalmente conseguiu no programa do SUS um implante dentário. O procedimento envolvia cirurgia, seguida de osseointegração e colocação da base fixa. Jandira nunca tinha ouvido falar daquilo, apavorou-se e quase desistiu. Mas a longa espera por uma dentadura falou mais alto. Tomou coragem e confirmou o bendito implante.

    Os pinos de titânio foram fixados no osso maxilar de Jandira que aguentou firme, como só Deus sabe. Enfim, teria de volta a função estética do sorriso. Tudo o que sempre havia sonhado.

    Com dentes novos, era outra mulher. Durante o dia, vivia de boca aberta mostrando os dentes por qualquer motivo, orgulhosa que só. À noite, rezava fervorosamente para que não houvesse nenhuma infecção ou rejeição. Eventuais dores e algum sangramento na gengiva, mas nada de grave. O implante múltiplo tinha sido um sucesso. Somente uma singularidade: com o tempo, foi percebendo que quando ia sorrir, involuntariamente tapava a boca. Talvez reminiscências antigas e enraizadas. Bem no fundo, sua alma ainda trazia o seu velho sorriso desdentado.

  • A arte de pensar com as mãos ocupadas

    Desde pequena desenvolvi uma habilidade peculiar: só penso direito quando minhas mãos estão ocupadas. Dê-me um novelo de lã e duas agulhas e, pronto, minhas ideias começam a trabalhar — às vezes até antes de mim. Sempre achei que esse hábito era apenas um jeito de evitar a ociosidade manual, uma espécie de TOC artesanal. Até perceber que havia ali um mecanismo mais profundo, quase científico, embora absolutamente nada acadêmico.

    Foi observando uma laçada suspensa no ar que me dei conta: é justamente ali, naquele meio ponto indefinido, que minhas ideias se alinham. Enquanto o fio decide se vai para frente ou para trás, meus pensamentos aproveitam para fazer o mesmo. É o meu equivalente pessoal àquela tragada longa no cigarro que dizem “oxigenar o cérebro” — só que, no meu caso, o vício é lã mesmo.

    Em uma daquelas conspirações do destino que parecem escritas por roteiristas com senso de humor, me inscrevi em um curso de literatura na FFLCH chamado Entre tecer e narrar. Não precisei de mais nada: senti imediatamente que estava no lugar certo. Ali entendi que minha mania de tricotar enquanto penso não é simples mania — é método. E dos bons.

    Assim como um tecido precisa de ar entre os pontos para não virar uma manta rígida, a escrita precisa de silêncio. De pausas. Daquele branco estratégico que dá espaço para o sentido respirar. Sem esse espaço, o texto fica apertado, sufocado — tipo blusa de tricô que encolheu na máquina.

    Não é por acaso que “texto”, do latim textum, significa tecido. Cada escritor encontra seu jeito de abrir essas frestas de ar: uns caminham, outros meditam, outros procrastinam com categoria. Eu, fiel à minha natureza, entrelaço fios. Entre um ponto e outro, vou entrelaçando também sentimentos, ritmos, memórias e as divagações que, com alguma sorte, viram parágrafo.

    E tudo começou com uma frase do curso, tão certeira quanto agulha que espetou o dedo:

    “A tessitura pode ser uma imagem da criação verbal, porque o ar circula entre os fios como o silêncio entre as palavras.”

    Pois é. No fim das contas, descobri que não tricoto para passar o tempo.

    Tricoto para pensar.

    E penso melhor quando minhas mãos estão trabalhando — porque, talvez, essa seja mesmo a minha arte.

  • Por que os ataques de cães estão cada vez mais mortais?

    A morte recente de uma veterinária, causada pelo ataque de um pastor-belga-malinois da Polícia do Senado, reacendeu o debate sobre prevenção. O que está por trás de tantas mortes? Descuido, excesso de confiança, irresponsabilidade ou falta de conhecimento? Provavelmente, uma combinação de todos esses fatores.

    Os dados são alarmantes. A forma como a sociedade passou a se relacionar com os cães tem contribuído para essas tragédias. Há um exagero em nome de uma convivência excessivamente humanizada. E não falo de coisas banais, como vestir os cães com roupinhas, deixá-los dormir na cama dos donos ou permitir que subam no sofá. Falo de ignorar as necessidades, os limites e as características próprias da espécie.

    Os cães seguem uma lógica própria. Mesmo inseridos em nossas famílias, conservam traços ancestrais. Negar isso não os torna mais humanos nem mais adaptados. Apenas aumenta a distância entre o que eles são e o que esperamos que sejam.

    Nas minhas aulas e mentorias, falo sobre a importância de respeitar cada fase da vida do cão. Desde filhote, quando, não raro, ele é impedido de experimentar plenamente o mundo, muitas vezes em razão do ciclo vacinal — e aqui não faço juízo de valor sobre a importância das vacinas. É preciso, porém, ponderar e buscar equilíbrio durante essa fase.

    O cão não é um ser totalmente imprevisível: ele pode começar a apresentar sinais de alterações comportamentais desde cedo. Quando ignoramos esses sinais, corremos riscos reais e, em algumas situações, isso pode ser fatal.

    Existem também outros aspectos. Não é difícil encontrar pessoas que acreditam piamente que podem mudar o comportamento de um cão apenas oferecendo mais amor. O cuidado sem conhecimento pode produzir conflitos e tornar o animal confuso. Além disso, a hierarquia não deve ser demonizada em nome desse amor.

    Enquanto isso, políticas públicas continuam sendo criadas sob pressão, após tragédias e especulações midiáticas. Em vez de investir em educação, fiscalização, criação responsável, formação técnica e prevenção, escolhe-se o caminho mais fácil: culpar o animal, proibir raças e esperar que nenhuma morte volte a acontecer.

  • Era só uma bicicleta

    Era só uma bicicleta!

    E Cláudio Rafael não havia roubado nada! Apenas saiu com a bicicleta de sua irmã!

    Ainda que tivesse acontecido um roubo, nada justifica a cena de selvageria que ocorreu em Copacabana.

    Pior, a cena de espancamento e linchamento de Cláudio Rafael escancara o quão estamos doentes! Que sociedade é essa que mata?

    Que sociedade é esta que banaliza a morte?

    Na fúria do dia a dia, vamos perdendo um pouco de nós mesmos.

    Na fúria do dia a dia, vamos nos afastando daquilo a que ainda chamamos humanidade!

    Na fúria do dia a dia, banalizamos a própria vida…

    A sociedade do espetáculo entrega a todo momento cenas grotescas de descomposturas gratuitas, violência verbal, agressão física, feminicídio… um sem-fim de comportamentos gravados e visualizados por milhões.

    Um dos agressores de Cláudio fez questão de filmar a horrenda ação, como se fosse paladino da justiça resolvendo as misérias históricas do país.

    Era só uma bicicleta!

    E uma vida foi tirada pela ignorância, pela barbárie, pela total falta de noção!

    Cláudio Rafael saiu com a bicicleta da irmã. Sentiria o vento na orla da praia? Não se sabe… Olharia para as ruas e cenários aos quais estava acostumado e seguiria para um encontro, uma conversa?

    Não se sabe… Olharia para as singularidades de Copacabana mais uma vez e teria um bom pensamento? Não se sabe…

    O que se sabe é que a brutalidade, mais uma vez, prevaleceu sobre o bom senso.

    A bicicleta?

    O Objeto da discussão e da morte de um inocente ficou jogada na calçada, alheia à fúria dos homens…

  • Bolero de Tecalitlán

    Bolero de Tecalitlán, ao pé do ouvido em pleno 2026, soa como uma serenata de amor cantada à janela de uma casa que já não existe. Ou existe? existe: passou apenas a caber na tela de um smartphone. Informes contemporâneos.

    A linguagem sempre como logradouro de encontros.

    Disseram-nos que:

    • …a globalização tornaria o mundo uniforme;
    • …a tecnologia achataria os afetos;
    • …algoritmos substituiriam as coincidências.
    (…)

    Descubro, porém, precisamente o oposto.

    Recebo um link do Spotify como quem recebe um embrulho de papel pardo amarrado com barbante. Abro-o devagar. Em minhas mãos, deixa de ser um pacote eletrônico e transforma-se num vinil antigo. Antiquíssimo, desses que nos deixam com a respiração em sobressalto, de tão delicados. Assopro a poeira:

    — Fuuuuuuuuuuuh… — ergo, assim, o véu fino que o tempo depositou em partículas. Desnudo a capa de papelão, que reaparece inteira, intacta, intensa, como se houvesse esperado décadas por aquele exato gesto meu.

    O disco começa a girar, sem agulha alguma.

    Enquanto Mariachi Vargas de Tecalitlán invade madrugadas, planilhas, quantitativos e e-mails que insistem em não terminar, descubro o LP virtual realizando o que minhas melhores canzoni italiane não conseguiram: devolve-me um tempo que nunca deixou de existir, esquecido sob camadas e camadas de urgência.

    Não é nostalgia.

    É outra coisa.

    É leveza. (Fuuuuuuuuuuuuuuh)

    Há dias em que me sento para tomar um café com personagens capazes de encontrar delicadezas onde o resto do mundo enxerga apenas rotina. Faço isso com plantas, veja só – são excelentes ouvintes, e ainda nos dão ‘bom dia’ com o perfume de flores coloridas, não só na primavera. Acredito piamente numa arqueologia dos sentimentos, não para reanimar o passado — dar-lhe novamente anima, alma —, mas para perceber que uma ou outra beleza jamais fenece. Permanece de outra forma: silenciosa, aguardando quem a escute.

    Já com o disco agarrando, de tanto tocar boleros, baladas y bachatas, um amigo interrompe meu devaneio para perguntar se conheço determinado perfil no Instagram.

    Paro tudo.

    ***

    Abro a página.

    O retrato em miniatura que acompanha o @não me diz absolutamente nada.

    Depois de alguns segundos, recordo-me de tê-lo visto uma única vez, de passagem, num evento qualquer. Não trocamos palavras, acho que sequer olhares. Restou apenas a matemática contemporânea: seguimos um ao outro. Ou, dizendo de forma mais honesta, aumentamos mutuamente nossos seguidores (intuito subliminar de qualquer evento hoje em dia).

    Contei isso ao meu amigo.

    Ele sorriu e perguntou:

    — Então não passo apenas de mais um número?

    A pergunta me atravessou como poucas.

    Dias antes, folheando as aventuras de Arsène Lupin, me pego filosofando sobre a diferença brutal entre o mundo de ontem e o de hoje. Durante muito tempo e nem faz tanto tempo assim , apresentávamos desconhecidos por palavras.

    “É gentil.”

    “Tem os olhos curiosos.”

    “Ri com o corpo inteiro.”

    “Escreve cartas.”

    “Não sabemos de quem se trata porque não se pode ler nos documentos ausentes das vestimentas, o desmaiado infeliz”

    Hoje, apresentamo-nos por fotografias. Ou, pior, por avatares, essas ficções que criamos com filtros sobre nossos próprios reflexos. Superamos, em engenhosidade, os casamentos arranjados das aristocracias clássicas, cujos noivos tomavam por esposas pinturas guardadas em relicários.

    Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras… não consigo acreditar nisso, nem tendo escolhido, como ofício primeiro, a arquitetura (idioma gráfico em que tantas perguntas se respondem com um simples “quer que eu desenhe?”). Não; sou das letras, por meritocracia já se vão quase vinte anos só desta coluna.

    Uma fotografia congela; mil palavras ou trilhões delas continuam a respirar, a sorrir.

    — a sorrir eu pretendo levar, a vida…

    Não me lembro do aroma das coisas e gestos antigos com essas notas contemporâneas de superficialidade. Vivemos a era narcísica por excelência: basta nos depararmos com uma poça d’água para que contemplemos nossos próprios reflexos e, no mesmo instante, eternizemos nossos rostos desfigurados nos feeds de vidas cada vez menos privadas. A superfície nunca soube apresentar ninguém…

    Acredito que seja isso que falta à contemporaneidade:

    Descrições.

    letrinhas.

    As pequenas apresentações escritas que, durante séculos, antecederam qualquer encontro. Cartas manuscritas. Os artesanatos feitos à mão, com assinaturas.

    Somos a geração que mais produz imagens e em altíssima resolução, diga-se de passagem …, mas desaprendemos a apresentar e a ler pessoas.

    Eu sou das pessoas. Sou dos encontros sem pressa. Sou das cartas. Das serenatas. Dos recadinhos à mão. Dos cafés. Dos vinhos.

    Me toca profundamente quando alguém escolhe uma playlist em vez de um emoji. Mais profundo ainda quando se envia um disco inteiro, e não apenas uma música. Dou por mim pesquisando vinis pelos eBays da vida, lembrando meu pai sentado na sala, ouvindo os dele.

    Há uma delicadeza quase revolucionária nisso. Em resistir a ser humano na era em que tudo é automatizado.

    Enquanto escrevo, testemunho um caso de affair improvável: a bandeira italiana mistura-se, verde no branco, branco no vermelho e vermelho no verde mexicanos. Sem conflitos, só a pura e velha simbiose. Um bolero que atravessa oceanos, barreiras culturais e temporais, atraca no Rio de Janeiro através de um aplicativo sueco e, sem pedir licença, sela um encontro entre escritores ítalo-brasileiros que perseveram na crença de que as melhores coisas ainda são feitas com o coração.

    Quem sabe a verdadeira globalização não tenha sido a uniformização do mundo, mas a possibilidade de um gesto intimamente humano atravessar continentes sem perder sua brandura.

    No fim, seguimos buscando o que desejavam os que vieram antes (de nós):

    • os tons das animadas canções mexicanas
    • o ar blasé repleto de delicadezas dos escritores franceses
    • o conciso poético de arquitetos alemães
    • a sabedoria de vida dos artistas italianos
    • a paixão traduzida pelo olhar atento dos/das cronistas brasileiros/as e todos os apaixonados que vieram antes de nós

    Ansiando por uma coisa, apenas:

    Porque as palavras continuam sendo o lugar mais generoso onde um ser humano pode apresentar um outro ao mundo.

  • REINO ANIMAL

    A primeira vez que Joana trouxe um sapo para casa foi um alvoroço. A família não sabia como agir, a menina tinha só cinco anos e uma afinidade especial com os bichos. Até quis levar o sapo para dormir com ela. A muito custo, conseguiram convencê-la de que o sapo precisava voltar para casa dele a fim de se despedir dos amigos.

    Depois do sapo, foi um pintinho da feira, que acabou virando frango e morreu de estresse. Um jabuti habitou a banheira da casa apenas uma semana, provavelmente morto por engasgo com um pedaço de couve. Até uns micos que passaram a frequentar a janela da casa, atraídos pelas bananas que Joana ofertava, ela quis domesticar. Terminou ganhando uma Yorkshire, toda branquinha, que levava escondida para a escola na mochila. Recebeu o nome de Algodão e viveu quase dez anos, falecendo de problemas respiratórios.

    Adulta, morando sozinha, desenvolveu uma fobia de convívio social. A humanidade para ela não tinha o menor sentido. A natureza e os bichos eram seu derradeiro conforto, focada no resgate, reabilitação e adoção de animais. Joana não podia ver nenhum animal abandonado, que cismava de adotar. Para amenizar a saudade da Algodão, pegou um vira-lata, misturado com poodle, com pelos na região do focinho. Deu-lhe o nome de Jânio.

    O primeiro gato adotado foi o Cazuza, um siamês magrelo, quase esquelético, mas uma simpatia. Festivo até demais para um felino. Sempre carinhoso, a não ser quando tinha acessos de tosse. Logo a seguir, veio a Alcione, gata de pelagem marrom, sem pedigree, traumatizada e arredia. Desconfiada com estranhos e de hábitos noturnos, interagia pouco, sempre escondida pelos cantos da casa. Devia ter sofrido maus tratos antes de ser resgatada por Joana. Alcione vivia às turras com Cazuza, mas não se separavam. Adoravam ficar se implicando. Alcione, mais encorpada, levava vantagem.

    Jânio não se misturava. Sua missão era vigiar a porta, atento a quem entrava e saía. Não era de latir. Um cão silencioso e observador, talvez por isso se desse tão bem com os gatos.

    A chegada de Agnaldo causou uma certa surpresa. Um periquito-australiano que aparecera do nada na janela. No início, temeroso, foi aos poucos se enturmando e virando hóspede. Atrevido, não deixava em paz os gatos e dava voos rasantes pela casa. Joana era contra gaiolas, achava que todas as aves deviam voar livres. Agnaldo tinha a sua gaiola com a lateral totalmente aberta. Na verdade, só entrava para se alimentar e matar a sede. Tinha o estranho hábito de dormir com Jânio.

    O desafio maior foi com Eurico, o hamster abandonado. Quando o achou escondido num bueiro, largado à própria sorte, Joana não pôde resistir e o levou para casa. Todos os moradores o receberam com afeto e curiosidade. Cazuza cuidou de sua higiene e Alcione, com seu instinto materno, adotou o pequeno roedor. Jânio apenas observava e Agnaldo nunca chegava perto. Talvez estivesse prevendo o que viria a seguir.

    Eurico foi crescendo e se transformou. Endiabrado, corria atrás dos gatos e do Jânio para morder. Nem o Agnaldo escapava. Sonso, toda vez que Joana chegava em casa, o danado fingia se comportar.

    Ainda assim, aquele lugar era bom de se viver. Joana e seus amigos bichos, família reunida e feliz. Ela não mostrava nenhuma surpresa, já que todos ali, diferente dos seres humanos, comportavam-se como animais. Cada um tinha a sua história de abandono, mas nos olhos de Joana encontravam um porto seguro. Ela costumava dizer que humanos perdiam tempo tentando ensinar os animais, quando deveriam sentar e aprender com eles.

    Até que Joana perdeu o controle. A coisa toda tomou ares de minizoológico: pelo apartamento agora circulavam mais oito gatos,
    iguanas, um casal de furões, uma chinchila sem rabo, dez cágados e uma cacatua com o bico quebrado.

    Ninguém mais se entendia. Um dos gatos, recém-chegado, comeu o hamster. Eurico saiu pela janela e nunca mais voltou. O casal de furões cismou com Jânio. A chinchila não parava de dar guinchos agudos de meia em meia hora. Podia marcar no relógio. Talvez estivesse sentindo dores ou por implicância mesmo. Chinchilas são assim, meio conflituosas. Joana não tinha mais sossego. A cacatua, com seu bico partido, definhava por não ter como se alimentar. Os cágados a tudo assistiam passivamente, como todo bom cágado. Com aquela confusão, Jânio passou a latir para todos que passavam pelo andar. O síndico foi chamado. Os vizinhos reclamavam do barulho e do mau cheiro.

    O siamês Cazuza, angustiado, tentou saltar da janela e ficou preso o parapeito. Alcione miava em desespero. O Corpo de Bombeiros foi acionado e Joana se juntou a eles, se apresentando como ativista dos direitos dos animais. Os moradores ensaiaram uma vaia e o síndico ameaçou denunciá-la. Acuada, Joana tentou se justificar: até Noé tivera problemas com o excesso de bichos na arca.

    Estava cansada. Chegou à conclusão de que, tanto quanto a humanidade, o reino animal ia pelo mesmo caminho. Más influências, não havia dúvida.

  • Mortos, vivos, morcegos e frutas | pausa (in)disponível

    Uma mesa impossível: um tampo que não é firme (minha cama); três cadeiras – eu, que me sento com as pernas esticadas e sobrepostas. Uma única taça de vidro (a que comprei no mercado, porque na minha casa de areia temporal em quase formato pirâmide não tinha nenhuma) com o vinho (o que dividi há duas semanas, hoje esvaziado com outros – é preciso beber do mesmo lugar, a cama).

    De maneira quase indecente, Hilda Hilst e Victor Heringer se juntam a mim nesse ménage a trois de escritores, dois mortos. Um ménage literário com os vermes, os últimos íntimos de suas carnes: memento mori. Bebemos da mesma taça; espero em vão roubar seus segredos – eles, um pouco do meu sangue latente, latindo.

    Desejo de um maracujá azedo. As papilas da minha boca incendeiam-me os circuitos internos com água e um cheiro que vem, não sei bem de onde. Um sibilo ressoa acima de tantas cabeças errantes em frente à calçada escura, sem poste de luz; mendigos na encolha do recuo da arquitetura, motoboys a postos. Tudo, em sua pequinês, grande o suficiente para tornar a cena estranha e noturna. Sem querer, o morcego pausa meu caminhar, já há três meses no automático.

    “Pausa indisponível”.

    Hilda, com um vestido ficcional, segura a minha taça como se dela fosse íntima, conhecendo-a inteira. Victor, em uma camisa de linho desalinhada, olhos verdes que guardo em minhas próprias retinas, olha como quem já viu demais das entranhas e das superfícies do (meu) mundo; toma a taça. Passa a língua sobre os lábios, sem levar o vidro a eles, e fala o que não sai da sua boca, mas da minha atrevida invencionice noturna:

    — O que você quer roubar dos segredos que levamos, hein, mocinha?

    — Propriamente os inteiros que se encerraram em vocês — respondo. Ele me entrega a taça; a borda fria, suas mãos vaporosas, quase estilhaços, não fosse eu me ancorar à realidade no último segundo. O peso da hipótese não cabe mais em perguntas.

    — E o que nos propõe, em troca? — Hilda toma-me a taça e quase a esvazia de um gole imenso.

    — Minha centelha — e não sei se o que soa é o sorvo do vinho, um arroto interno em forma de desespero ou simplesmente o silêncio que me cutuca o pensamento.

    — A centelha é quase nada — Hilst ecoa um riso que pode ser mar ou a ponta de uma faca.

    — Não queremos a centelha; queremos o incêndio que ainda não aconteceu.

    Os dois tomam a taça das minhas mãos. Por um instante que parece durar mais do que toda a minha vida, sinto os lábios dos dois se encontrarem no mesmo vidro que o meu. Bebem do meu tempo, do que ainda não escrevi, do que não vivi direito. A luz sobre a cama pisca; num reflexo, ambos se foram. Deixam, para além da superfície brilhante, um gole seco de palavras, como o vinho que ali figurava minutos antes.

    Ainda não nasceram.

    A cama já tem menos colchão vazio do que nunca; penso em mandar uma SMS para Lewis, só porque ele está deliciosamente disponível no cômodo ao lado. Deixemos o Diabo no outro quarto.

    Lá me vem o Prime Vídeo com uma dessas, passadas 22h de uma noite que exauriu o dia — ou foi o dia que, estendido, invadira a noite anterior? Sabe Sísifo, empurrando a pedra? Sou eu com as noites, dias adentro.

    Assisti a “The Drama”, uma tragédia sinistra que, não sei bem o porquê — ou sei —, sentou-se ao lado do último livro que li, “A menina que não sabia ler”. O que pode caber dentro de uma pergunta despretensiosa – ou nem tão assim – sobre o que você já fez de pior na vida? E o que acontece quando alguém que nos ama sabe o que foi isso?

    Charlie enlouqueceu. Theo morreu, de susto, medo e asma.

    O morcego, ao passar, me fez perceber as duas pistas que cruzo diariamente.

    São apenas e as mesmas duas. Para vir de casa para o trabalho é rápido: minha face desarma os portões e me lança ao passeio público. Olho para a esquerda; logo em seguida, é possível atravessar.

    A segunda pista, contígua — seria parte da primeira não fosse um salpicado de grama esturricada pelo sol da zona Norte —, é mais complexa. Os carros vêm da direita, em alto fluxo. Demanda tempo.

    A grama chinfrim é minha pausa cotidiana, e, mesmo assim, toda a travessia me demanda menos de cinco minutos.

    Aí, leio Hilst:

    Um parágrafo rotineiro desses colóquios de dois que são um pelas convenções, pela intimidade e pelo tédio ordinário da vida. Não sei por que caminhos da minha mente-floresta-tropical ele me leva a redigir estas linhas:

    “É lindo completar com vida uma outra vida. Isso é a beleza Cda gravidez; tudo síntese, tudo caos, paz, expectativas e não. Ausculto o coração incipiente.

    Nada.

    Em quantos dias se forma o coração? O que se forma primeiro, após a fecundação do óvulo? Por que a mulher se perde nesse molho feito a dois, de si?”

    Do aparelho televisivo de LED, fixo à parede em frente à cama, me dizem que o cérebro se forma somente após os 25 anos.

    Coração, então, quando é que se firma?

    Não quis pesquisar. Há certas coisas na vida que não demandam respostas; caem mais leves como a falta de letramento dos que apenas vivem.

    — Ignorar uma pergunta também é falta de respeito.

    — Aquiete a língua, morto. Termine o vinho.

    — Acabou.

    Cusparada póstuma.

    Levantaram a cabeça, tensionados. Silêncios de toda uma vida num hífen; cospem o vinho numa gargalhada. Filhos da mãe… — Será que a mancha no lençol de elástico é um desses resquícios?

    A oração não fecha. Algumas orações subordinam; outras, dirigimos aos mortos: mãos unidas, dedos para o céu.

    A palavra não ama. O amar talvez não caiba no sucinto grafo de concordâncias humanas para ninguém.

    Ao segurar as alças da minha mochila, que já se agarram aos meus ombros para o caminho de casa, a travessia entra no segundo tempo; os lados do campo se invertem. A direita agora é à esquerda e vice-versa?

    Parece que todo mundo quer ir, agora. Mas quase ninguém quer verdadeiramente voltar, ainda que a calçada do meu destino esteja repleta de mesas com quatro esperas de cadeira em cada.

    Tomei, no provador de uma loja de varejo concorrente, o café que fiz para a obra e esqueci de beber. Experimentava uma calça jeans com margaridas. Não a comprei. O aroma do café chegou às cabines limítrofes. Ri e bebi da ousadia.

    Mãe natureza, Hilda Hilst, Kristoffer Borgli, Victor Heringer, John Harding e Bia Mies resolveram comer pipoca enquanto as unhas pintadas do vermelho “padrãozinho para quem” secam na liberdade de extravasar as unhas para as cutículas, sem limpeza.

    Vida longa às crônicas crônicas, que não têm remédio além da melancólica e estonteante poesia!

    Abro a porta da geladeira e lá está, a saliva na ponta da língua, o lustroso da forma amarelamente arredondada a se oferecer para mim, assim, sem pudor algum. E, ao invés de querê-lo mais, percebo a ruguinha escondida na curva que dá para as suas costas.

    — Será que o maracujá todo murcho se acha desajeitado? Avulso? Fora da fruteira? Old school & fashioned , propriamente falando? E será que o liso, no refletir da energia interna, percebe que não dá um bom suco, ainda?

    Eu, que não quero pensar no avançar do tempo, dei com ele, há parcos dias, nos primeiros três cabelos brancos que apareceram assim, unidos | um corte à navalha na realidade. Sinais dos trigêmeos à vista que tanto desejo? | Acabo por me encarar no espelho e repetir aquilo com que toda a minha geração de millennials se ilude:

    — Eu só tenho 27, todo mundo concorda.

    Desafio as madeixas, que resolveram brincar de esconde-esconde na nem tão mais vasta cabeleira de outrora. Outrora, nada. E quem nada é a mobelha negra num mar hilstiano. Recolho os remos.

    O morcego ronda as minhas janelas. O sibilo ressoa novamente. A ave preta e fashion, em algum canto, solta sua risada demoníaca. Thoreau entenderia – espero.

    Theo, Florence e Giles estarão seguros, brincando de pique-esconde e beijo roubado entre as páginas, antes que o próximo leitor chegue ao seu fim. O final do drama é a outra face da máscara.

    Tudo vai bem.

    O coração, (s)em idade; cérebro, louco aos 22. Numerologia lunática. Meus três fios prateados são um charme que ainda espero rever no espelho. Mesmo que tudo isso aqui não passe de um sonho interrompido. “Pausa indisponível”.

    — Encapsulei a vida?

    A taça está rasa das palavras, que se foram todas neste correr da tela; só me resta a Fanta preta, comprada nas Lojas Americanas. Pura curiosidade mórbida; blasfêmia a todos os santos.

    Estalo o lacre. Preencho a taça.

    (derrubo um pouco na varanda para algum com sede).

    Mais um líquido vermelho-sangue-escuro, agora borbulhante. Carmesim.

    Gosto de batom. As borbulhas ressoam entre os dentes, bocca chiusa. O sabor encontra o sólido da boca e marca o carmim na taça. Pela primeira vez, por fim, alguma evidência da noite.

  • Poema #19: Presente

    O presente vivido é quase o infinito…
    o presente amado a eternidade incompleta.
    Ridícula a angústia, o cansaço tolhido,
    começo de caminho, meia-volta discreta…

    Ansiedade é pequena eternidade no presente,
    pedras e esforço inútil, chamado repetitivo.
    Tormento, fingimento, ser em estar ausente.
    Velho e novo, refundidos, abertos num livro…

    Os grãos de areia podem ser incontáveis,
    mas o mar recolhe um a um, a toda hora.
    O resto são espumas, simples brincadeira…

    Do tempo incerto, mãos postas e flecha ligeira
    tangem no pensamento cenas impublicáveis,
    pois o que habita hoje, amanhã já não mora…

  • A Vida em Bullet Points

    Dizem que “a fila anda”. Talvez ande nos relacionamentos. Já na minha lista de tarefas, ela parece ter criado raízes.

    Ela nos persegue pelo celular, mandando alertas sonoros de tudo o que ainda não foi completado. Para quem prefere o caderninho, nem isso resolve: as tarefas não riscadas ficam ali, silenciosas, aguardando o momento de despertar a culpa.

    Tenho a impressão de que as listas de tarefas se reproduzem durante a madrugada. Vou dormir com oito itens e acordo com quinze.

    Cumprir uma To Do List é como correr na esteira vendo uma paisagem virtual: a trilha avança, mas quem continua parado somos nós.

    Outro dia risquei “trocar a lâmpada da cozinha” e, quando voltei à lista, ela já tinha gerado “limpar o lustre”, “organizar a área de serviço” e “pesquisar iluminação para ambientes pequenos”.

    Às vezes tento me lembrar quem colocou tudo aquilo na lista. Não encontro outra explicação senão a de que as listas ganharam vida própria e passaram a escrever novos itens quando ninguém está olhando.

    Suspeito que exista um aplicativo clandestino frequentado exclusivamente por tarefas. Lá, num ambiente chamado Todobook, elas trocam informações e combinam estratégias para nunca desaparecer completamente. Até flagrei uma luz acesa suspeita uma noite dessas no meu celular.

    Talvez eu devesse anotar “não fazer nada” no topo da lista. O problema é que, conhecendo seu gosto pela provocação, ela logo acrescentaria três subtarefas, dois lembretes e um prazo final.

    E ainda me enviaria uma notificação perguntando por que a tarefa está atrasada.

  • As tentativas de WALDINEIDE

    A primeira vez que tentou se matar, tinha dezoito anos. Entrou no mar de São Conrado e nadou até cansar e perder as forças. Foi resgatada pelo helicóptero dos bombeiros. Aos salva-vidas, envergonhada, não revelou a tentativa malfadada de suicídio. Ironicamente, ainda agradeceu por ter sido salva.

    Waldineide amaldiçoava o pai pelo nome recebido. Seu Waldir era porteiro de um prédio na Barra da Tijuca. Ele, a mulher, Neide, e a filha moravam num barraco na Rocinha. Waldineide preferia chamar de comunidade.

    Talvez nem quisesse de fato morrer, apenas momentaneamente aplacar sua dor. Sentia a pior das dores, as desconhecidas, as que vinham da alma. Nada valia a pena nesta vida. Para seu Waldir, a filha era só meio maluca.

    Na segunda tentativa, ela subiu no parapeito do terraço de um edifício. O vento frio batendo em seu rosto pareceu querer empurrá-la para trás. Olhou para baixo, medindo a altura da queda. Nesse momento, descobriu que tinha vertigem de altura. Desistiu.

    A frustração foi enorme e ela começou a se achar incapaz até para se matar. Sentia-se ridícula. Não merecia permanecer viva.

    Seguiu tentando.

    Planejou enfiar sua cabeça no fogão e se envenenar com o gás. O cheiro forte, no entanto, alertou sua mãe que a retirou à força. Seu Waldir, quando soube, disse que a filha estava precisando de uma boa surra. Dona Neide impediu, a menina era sensível e devia estar passando por algum problema sério. Na verdade, eram incontáveis problemas. O atual era não conseguir se matar com competência.

    Uma amiga que soube das tentativas dela, falou sobre a existência de um serviço pela Internet de valorização da vida, que oferecia apoio emocional a quem tentava o suicídio. Waldineide desconfiava desse tipo de ajuda virtual e não se interessou. Além do que, estava decidida. Na próxima vez não iria falhar.

    No seu íntimo, temia por novo fracasso. Foi quando optou por matar-se com roleta russa. Havia algo lúdico que a atraía: o acaso definiria o seu futuro. Pegou o revólver do pai na gaveta, retirou as balas, deixando apenas uma na agulha e rolou o tambor.

    Colocou a arma no canto da testa e apertou o gatilho. Para sua sorte, ou azar, nada. Waldineide tentou mais uma vez. Como não tivesse morrido, suspeitou que não era para ela morrer com um tiro na cabeça. O destino decidira.

    Tinha gente que morria engasgada com azeitona, gente que morria de susto, de bala perdida ou atropelada por bicicleta, por que ela não conseguia? Sentia-se um ser mais risível do que já era.

    Não tomaria veneno para ratos, queria morrer com mínima dignidade, não como uma roedora de esgoto. Ainda havia a possibilidade do tradicional expediente de cortar os pulsos, mas ela não podia ver sangue, que desmaiava.

    Waldineide começou a se desesperar. Escolheu uma forma mais randômica: andaria, de madrugada, por lugares ermos e sinistros. Algum bendito marginal da favela completaria o trabalho. Depois de alguns dias perambulando por vielas e becos, finalmente, um assaltante a abordou. Ela ansiava pelo corriqueiro “a bolsa ou a vida” para, de forma categórica, devolver: “a bolsa, idiota. Atira logo”. Entretanto, escutou o habitual “perdeu”. Segurou com as duas mãos a bolsa e encarou-o: “pode me matar!”. O meliante, pego de surpresa, olhou-a de cima a baixo. Ela concluiu que, enfim, sua hora havia chegado e aguardou, de olhos fechados, o desfecho. O assaltante puxou-a pelo braço, levou-a para trás de um tapume e começou a rasgar suas roupas. Waldineide pretendia morrer, não ser estuprada. Enfrentou-o como pôde. Depois de muita luta, já exausta, com o maldito sobre seu corpo, conseguiu pegar no chão sua bolsa com o revólver da roleta russa. Tinha só uma bala. Apertou o gatilho no pescoço do bandido e ouviu o estampido. Em choque, desvencilhou-se do corpo ensanguentado dele, arrumou-se com o que havia restado de roupa e saiu correndo em disparada. Só queria fugir dali. Desaparecer, sumir do mundo.

    Soube depois pelos jornais que o tal rapaz fora encontrado vivo. Era tudo que ela queria, que ele sobrevivesse. A morte era dela, ele não tinha nada a ver com isso.

    Waldineide havia tomado uma decisão. A melhor maneira de realmente se conhecer era fazer o contrário. Numa manhã como outra qualquer, levantou da cama, escovou os dentes e foi até a cozinha. Pegou uma faca e a afiou, pacientemente. Dessa vez não ia vacilar. Enquanto cortava em fatias o filé de frango para o almoço, pensava na vida que teria pela frente.

  • Em Bocas de MATILDE

    Quando pequena, Matilde surpreendia a todos com sua estranha mania de engolir objetos. Chupetas, partes de brinquedos de borracha, bicos de mamadeira. Na escola impressionava colegas, engolindo canetas e lapiseiras. Era um dom. Todos diziam que no futuro ela trabalharia no circo como engolidora de espadas.

    A mãe culpava o pai por ter levado a menina no circo. Agora, essa novidade, engolidora de espadas…

    Matilde não vinha de uma família circense e nunca teve transmissão de saber artístico. Engolia e pronto. Aos poucos foi aprendendo a dominar as ânsias de vômito e os engasgos. A arte de engolir exigia treinamento para controlar músculos e reflexos do corpo. Sem dúvida, uma prática arriscada, se não houvesse preparação adequada. Para piorar, era autodidata e destemida.

    Com a mania de Matilde vieram também as dores de garganta, as inflamações. Examinada, teve suspeita de ulceração no esôfago. Mas nada nem ninguém conseguia afastá-la da tentação de engolir objetos.

    Sua mãe trancou todas as gavetas da cozinha que continham facas e garfos, como se isso fosse intimidar a filha. O desafio de encontrar outros artefatos cortantes a estimulava ainda mais.

    Na verdade, Matilde não aspirava tornar-se uma engolidora de espadas num circo. Apenas uma forma de se exibir e chamar a atenção.

    Na adolescência, com os namorados, ganhou fama no sexo oral e despertou a inveja e os ciúmes das colegas.

    Coincidência ou não, acabou solteira. Nenhum namoro foi adiante, apesar da reputação favorável do seu fetiche.

    Com o tempo, Matilde conseguiu o domínio de engolir cada vez mais fundo as coisas, com a inserção progressiva de objetos lisos, tubos e bastões de metal, alongando a língua, relaxando a garganta e controlando a respiração. Nessa época, também retirou as amigdalas.

    Por mais bizarro que possa parecer, tinha dificuldade em tomar comprimidos. Preferia esmagá-los com uma colher. Outra excentricidade era o cacoete de produzir um ruído constante, emitindo sons guturais com a garganta.

    Hospitalizada repetidamente para tratamento de feridas na faringe e inchaços na língua, finalizou seus dias solitária num instituto psiquiátrico. Impressionava a todos sua curiosa habilidade em engolir sapos.

  • Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira?

    Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira? Há passos no eco, pisos empoeirados da semana passada, taciturnos. Há o Cachambi, que dorme, às três e dezessete da manhã, já dezoito. Há o streaming para quem, como eu, de tão cansada, não dorme. Há um filme pandêmico, dor humana, tristeza, perda do olfato. Num streaming — todo o meu amor aos streamings que nos fazem companhia junto a uma Hocus Pocus de 500ml, 8.5% de teor alcoólico, promoção no Carrefour. Há a camisa verde oliva com cheiro do improvável. Lençóis limpos, travesseiros e a camisa verde que não reflete a cor dos olhos, mas do destino. Nada além, a pele é o único resquício, entre tecidos, aromas e memória.

    — Toc-toc

    — Quem bate?

    — Sou eu

    — É Tarde, entra

  • Essa vai para a coleção

    Meu armário abriga uma coleção curiosa: caixas vazias, sacolas elegantes e potes de vidro sem função definida.

    Em comum, todos carregam a mesma etiqueta imaginária: “Pode ser útil um dia.”

    Tenho uma verdadeira compulsão por colecionar inutilidades que considero superimportante guardar.

    Vai que surge um presente de última hora.

    Vai que resolvo organizar a papelada.

    Vai que abro uma loja de embalagens recicladas.

    Vai que descubro um talento oculto para Personal Organizer e transformo meu armário num caso de sucesso.

    Tenho potes suficientes para iniciar uma pequena fábrica de conservas.

    O detalhe é que não faço conservas.

    Nem pretendo.

    Guardo porque vai que preciso.

    Mas, vejam bem – isso não quer dizer que sou aquele tipo de pessoa que não desapega.

    Sou perfeitamente capaz de descartar um tênis velho, uma roupa que não serve mais, um saco Zip-Loc usado uma única vez…

    Humm… ato falho.

    O Zip-Loc não.

    É só lavar e reutilizar.

    A verdade é que não guardamos caixas, potes ou sacolas.

    Guardamos futuros imaginários.

    Meu armário já não fecha direito, mas sigo firme.

    Afinal, quando chegar o grande dia em que eu precisar de uma caixa dourada, três potes decorados e seis sacolas de papel reforçado ao mesmo tempo, estarei pronta.

  • Poema #18: O menino e o pássaro

    O pequeno menino olha demoradamente o céu.
    O voo de um pássaro branco…excitado,
    leve, branco, branco e leve: um estalo.
    Alvas penas de um delírio todo seu.

    Corpo sem brilho é beijo de encontro à terra,
    um desespero brusco de última chance.
    Molhado pelo sangue o passeio se encerra…
    dentre tantos pássaros, quem quer, que cante.

    Asas se abrem e contorcem no mesmo instante.
    Tudo é ferida, escuridão, lágrimas e repete
    o menino a dor do pássaro agonizante…

    Chora compulsivamente pelo gesto estúpido
    Quando num triste movimento padece
    O pássaro branco, vermelho e mudo.

  • Se eu me perder

    O silêncio cresceu com a sombra mais densa. Então, os fones acenderam as lâmpadas incandescentes da plataforma, que pousava, num instante eterno, sobre a água. Era um simples trajeto de retorno à casa: sobre rodas que não tinha controle, observava o horizonte em que nada tinha fim, tampouco início. De repente, uma centelha flutuou acima, no compasso de seu coração. 

    Itália.

    Fevereiro.

    Março.

    Aquele abraço…

    Um simples caso de sorte genuína“, alguém disse.

    Sorte como híbrido entre sortilégio e providência; qual linguagem explica o que está diante dos olhos? O veículo estremece. Qualquer um percebe.

    O passar balança o assento; fora, o ritmo é outro. E então o tempo aniquila-se e desrelativiza anos em décadas, gerações em séculos. “Faça um pedido e levante os pés ao passar sobre trilhos de trem“, ouviu dizer.  Atenção ao trecho da rodovia que marca o passado na alma das cargas cheias de fumaça em sintonia constante às despedidas. Despir-se em idas. Voltar, outro.

    Faça um pedido“. Hoje. De novo. O mesmo pedido. Sempre.

    Predestinação como resposta a um chamado interno, lançado através das partículas desprendidas da luz de estrelas silenciadas.

    Um brilho cego. Partes que não são os pedaços de um todo, mas o próprio todo. Trechos intermináveis reconhecendo-se pelo caminhar. A boa e desejada sina, lapidada através dos sussurros internos. Nenhum sussurro passa incólume pelo universo.

    Ali, à sorte das rodas que a levavam de volta para casa, estava o que já havia chegado:

    duas pequenas marcas, dois pólos de uma só coisa, duas pintas. Marcas de nascença, tomadas de dois pinos espalhadas em corpos-

    espelho. Baco e Eros na certa apostaram alguma deliciosa ousadia, arremessando as marcas ao tabuleiro da Terra:

    Ache-o-par“, decretou Baco, erguendo mais uma taça de vinho tinto. 

    Mas o sabor era de um negroni sbagliato.

    As pintas reconheceram-se primeiro: eram dois pontos. No achar, perder-se . . Não mover-se: ninguém se move de si. 

    Escreveu-me, nesta manhã, o vidente e anti-cético Instagram:

    If I get lost, return me to Italy.”

  • SOLIDÃO

    Do nada, ela resolveu se isolar do mundo. Sumir do mapa. Escafeder-se. Largar tudo de vez. Pensou numa viagem solitária de barco pelos oceanos. Mas Yolanda nem sabia nadar. Aposentada pelo INSS, seu último emprego foi como caixa do Banco do Brasil. Lidou com o público e com a absoluta contrariedade de fazer isso. Tinha dias que parecia explodir. Controlou-se à base de comprimidos e orações.

    Não tinha mais ninguém, nem amigos nem família. Sua única filha, formada em Economia, tinha casado e se mudado para Boston, onde o marido trabalhava. Yolanda, ainda uma mulher atraente, havia se separado e não considerava, por ora, novos relacionamentos. Fechada para balanço, costumava dizer.

    A ideia era mesmo desaparecer. Alugou seu apartamento no Grajaú e mudou-se para Macuco, município de Cordeiro, na região serrana. Um pequeno sítio no meio do nada, cercado de jequitibás-rosa e muito mato. Um refúgio sonhado, longe da maçante humanidade.

    Yolanda sabia que o passar dos anos cobrava seu preço. As pessoas comentavam que envelhecer com alguém era mais divertido. Você podia compartilhar dores, aflições, limites e remédios. Na solidão da roça, não teria com quem conversar ou se aborrecer. Mas isso não a preocupava.

    Ainda não tinha vivenciado, na plenitude, a reclusão irrestrita. Uma coisa era não se ter vida social, fugir das aglomerações, da vizinhança impertinente, dos grupos de whatsapp, outra era o mergulho no abandono e no isolamento completo.

    A favor de sua ida para o sítio, havia a afinidade com a natureza. Yolanda adorava plantas. Em sua antiga casa, no Grajaú, colecionou vasos com orquídeas, samambaias e suculentas. Um problema a ser enfrentado seriam os mosquitos. Em especial, pernilongos. Na verdade, qualquer tipo de inseto. Nem precisava ser barata voadora, uma mariposa já causava pânico.

    Para se viver na solidão seria preciso aceitar a própria companhia. Yolanda achava que gostava à beça de si mesma. Não havia necessidade de estar convivendo com alguém. Sem contar o lado econômico: as principais despesas resumiam-se a alimentação e livros. Ela adorava ler e era boa cozinheira.

    Outra delícia era não haver televisão, sinal para a Internet e o celular ficar desligado. Bênçãos. Teria, enfim, seus ansiados momentos de autoconhecimento, foco e bem-vindo descanso.

    Com duas semanas no sítio, Yolanda pirou. Ouvia vozes, deu para gritar do nada e ter dificuldade para dormir com o silêncio opressivo. Também não havia supermercado perto e faltavam itens básicos, como sorvete de creme com nozes, iogurte grego e castanhas do Pará. Os malditos cachorros do sítio ao lado, volta e meia, invadiam seu quintal. Yolanda sempre teve medo de cachorro.

    Os dias se arrastavam. Quando chovia ficava tudo enlameado e se necessitasse de atendimento médico, o hospital ficava a quilômetros. Ela pensava seriamente em retornar à agitação urbana, ao progresso massacrante e à chatice das relações interpessoais. O sítio era bucólico, a natureza convidativa, a solidão plena, mas havia também um enorme vazio que ela não conseguia entender. Era como se tivesse o homem mais bonito do mundo, mas não houvesse ninguém para contar.

    Atualmente, Yolanda reside no Grajaú e divide o apartamento com uma ex-colega dos tempos do Banco do Brasil. De vez em quando, gosta de ficar isolada.

  • Amém

    Por debaixo da porta, a convocação. Primeira chamada às 19h.

    Salão lotado, ordem do dia sobre as cadeiras.

    Quando viu “3º item — sorteio das vagas”, Severo percebeu que cometera um erro grave: não tinha jantado.

    Leitura da ata.
    — Amém.
    Leitura do orçamento.
    — Amém.
    Leitura da troca do capacho.
    — Amém.

    Sorteio das vagas. Aí o inferno começa.

    — Alguém tem algo a colocar antes do sorteio?

    A senhora do 1º andar logo se manifesta: — Temos que estabelecer as prioridades. Tenho um problema crônico de coluna.

    Severo arregalou: — e o Hip-Hop?

    — O senhor do 18º: esse motivo não justifica. Eu, por exemplo, tenho dificuldade para enxergar.

    Severo ri: — Hoje está enxergando bem…

    A moradora do 2º andar se levantou, exaltada: — Nada disso! Tenho três crianças pequenas que chegam cansadas.

    Severo ia contestar.
    Suspirou fundo.

    Severo olha o relógio.

    Pensa no sanduíche.

    Sente cheiro imaginário de pizza.

    O estômago votou a favor do sorteio.

    — Amigos, sorteio é sorteio e vale para todos.

    Aos gritos pula a encrenqueira de plantão: — Você diz isso porque aluga a sua vaga, assim é fácil!

    Motim a bordo.

    Síndico e administradora se entreolharam.
    — Batem na mesa.

    — Está decidido – usaremos um software de sorteio aleatório dos apartamentos e de suas vagas.

    O grupinho do fundo, deu um pulo: — Somos totalmente contra!

    — Não é confiável.

    Recomeça a discussão.

    Severo pega o celular: — Jantar já era. Melhor pedir um delivery.

    Demora só 40’…

    Finalmente, silêncio.

    O software sorteia.

    Prenderam a respiração.

    O síndico anuncia: — Parabéns.

    Nada mudou. As vagas permaneceram exatamente as mesmas.

    Amém!

    Cadê o entregador de pizza?

  • POLICARPO

    É Policarpo, seu país não veio, não vingou…

    A bandeira que tremula na haste não conta mais as glórias do passado (se é que um dia já contou) e tampouco vislumbra as glórias do presente…

    Sua pátria, escondida entre farrapos, negociações e falsas intenções, desmorona todo dia. Todos os dias!

    No trabalhador que sua e sangra e não descansa!

    Na esquina em que se perde uma outra infância!

    Nas escolas abandonadas e no futuro dos jovens.

    Na promessa quebrada em que não há mais lembrança!

    É Policarpo… Você sonhou um país que nunca existiu!

    Aqui, o que plantam é mamata, rachadinhas, picuinhas, um arremedo de Brasil.

    Um país que maltrata professores e livros!

    Um país que não guarda a sua própria memória e vive errando a sua história.

    Um país que idolatra políticos e influenciadores e desvaloriza conteúdos e autores.

    É Policarpo… o avanço não veio. Não veio a utopia! E você não tem um cavalo que fuja a galope!

    Tudo acabou! Tudo fugiu! Tudo mudou! E seu nome não é José!

    Se você refizesse, se você reclamasse, se você mudasse, se você esquecesse… Mas você não está no poema de Drummond!

    Você acredita em um país que jamais existiu!

    Aqui, os piores são o exemplo. Os canalhas, os burocratas, os pilantras e sanguessugas ditam a moral! E, contra esse mal, parece que não há muito o que fazer! Desfazer?

    Aqui, quem tem padrinho tem sucesso e “reconhecimento”!

    Quem trabalha de verdade precisa trabalhar até a exaustão para se iludir com o crescimento!

    É Policarpo… O melhor mesmo é sonhar. No sonho, o que nos resta, é possível ver e viver um outro país. É possível criar Pasárgada!

    No sonho, é possível escrever uma nova história e, nesta história criada, pintar rostos diversos e sorrisos singulares que vão palmilhar muitos caminhos.

    Nestes caminhos, a palavra Brasil terá, enfim, o significado de futuro…

  • A nora de REBECA

    Quando completou 65 anos, Rebeca deu uma festa em casa e chamou o filho, a nora e os netos. Morando sozinha, não podia se dar ao luxo de extravagâncias na cozinha, então encomendou salgadinhos e um bolo de chocolate com nozes, que o filho amava.

    Pediu que não chegassem tarde por causa das crianças. Ela também queria dormir cedo. Depois da novela das oito, que começava nove e meia, normalmente era a hora em que o sono chegava.

    Tinha recusado o convite do filho para ir morar com ele. Sabia que o filho a convidava por convidar, já que ela e a mulher dele não se davam. Desde que a nora dissera que ela tinha necessidade de monitorar e invadir a privacidade deles. A partir daí, desistiu de tentar alguma aproximação. Não ia levar avante aquela provocação. Seu filho a escolhera como mulher e mãe de seus filhos, paciência.

    Para ela, a nora necessitava de terapia e medicação.

    Rebeca notou que passara a cair com frequência. Havia a suspeita de sarcopenia. Foi ao médico que não constatou nenhuma anomalia. Mesmo assim, fez exame de densitometria óssea. Nada. Tinha os ossos em bom estado, em conformidade com sua faixa etária.

    Rebeca continuava caindo.

    A cada nova queda, mais medo de cair. Esse medo gerava ansiedade, restringia as atividades e começava a gerar um certo isolamento social.

    Imaginou que talvez lhe tivessem feito uma macumba. Imediatamente pensou na nora. Por precaução, procurou um lar espiritual para se benzer. Uns passes cairiam bem, literalmente a quem estava caindo a toda hora. Riu-se do efeito cômico inesperado. Podia perder o equilíbrio e dar seus tombos, mas mantinha o humor.

    Mesmo com os passes e as benzeduras, continuava tropeçando e caindo. Vivia com joelhos ralados, marcas roxas pelo corpo e alguns cortes nos braços e cotovelos.

    Uma amiga sugeriu, com todo o cuidado, que ela talvez estivesse fóbica, ou seja, com medo de cair. Rebeca achou graça: “quer dizer que vivo caindo e não devo ter medo de cair?”. A amiga desistiu.

    Ao visitar o filho, quando se queixou das quedas, ele disse que era comum as pessoas perderem, com a idade, um pouco a estabilidade corporal. Rebeca fingiu não notar que a nora prendia o riso. Procurou se controlar e respondeu ao filho que estava amedrontada, afinal morava sozinha, podia cair, se machucar e não haver ninguém para a socorrer. O filho não levou a sério, e a nora recomendou que ela andasse de joelheiras. Rebeca quase perdeu a calma e o controle.

    No dia seguinte, acordou com o celular. Era a nora, reclamando que ela parasse de criar problemas para chamar atenção. Havia deixado o marido dela preocupado e até as crianças estavam assustadas. Ela ouviu, calada, quase sem acreditar. A nora insistiu para que ela procurasse o que fazer: ler para cegos, praticar ioga, ir à missa, qualquer coisa. Também seria bom que arranjasse um homem! Rebeca desligou. Pensou seriamente em contratar alguém para matar a nora. Querendo explodir de tanta raiva, ao levantar para ir ao banheiro, caiu e bateu com a cabeça na quina da mesa. A dor foi forte. Sentiu o sangue escorrer. Tentou levantar, foi ficando tonta e perdendo as forças. A imagem da nora lhe veio à cabeça. Caso não morresse, clicaria no Google por assassinos de aluguel. Com sorte, acharia um bem barato e discreto.

  • Somos Latino-Americanos

    Somos latino-americanos! De sangue quente e Sol! Brasil, Bolívia, Peru… Um céu lindo de azul!

    Somos latino-americanos! De marcas antigas coloniais, línguas americanas, línguas ancestrais. 

    Somos latino-americanos, de rostos e cores particulares, singulares, mas, ao mesmo tempo, diversos: índios, negros e brancos! E somos muitos! E Somos tantos!

    Somos todos José Arcádio Buendia, formando Macondos em vários lugares! Em sonhos e em outras realidades!

    México, Cuba, Haiti, República Dominicana…

    Somos a poesia de Neruda e a voz de Mílton Nascimento, o Bituca! Samba, salsa, tango!

    Somos latino-americanos! De sons e suingues, de mares e montanhas! Chile, Argentina, Colômbia, Venezuela…

    Somos Latino-americanos, lutamos contra os vários enganos, de veias abertas e prantos, ouro, prata e histórias! Carregamos memórias! Uruguai, Paraguai, Equador…

    E só nós sabemos o tamanho da nossa dor!

    Costa Rica, Guatemala, El Salvador…

    De sombrero e guacamole, bolo mineiro e azeite de dendê, somos tempero, esteio, estrela e poeira!

    Honduras, Nicarágua, Panamá…

    E esta terra de montanhas e lagos, florestas e mares é onde o futuro haverá!

    Somos latino-americanos e somos a mais conflitante poesia!

    A prosa e a poesia de uma América Latina inteira! De bandeiras e olhares, de músicas e linguagens, de marcantes paisagens: Andes, Amazônia, Patagônia…

    Somos latino-americanos!

  • Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?

    Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!
    Para que a pressa?
    se preciso, eu, mais que vitaminas,
    do alimento para o viço que… reflete-me,
    [interna] e inteiramente?
    Que eu possa deleitar-me com o calor azul
    da caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio

    Eis-me inteira,
    num instante errante,
    naufragada no suor de
    não pertencer.
    Cá estou.

    Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro.

    Bate-me o peito em um não positivo.

    Eis me aqui. Intacta.

    Tempo, tempo…
    por que não fica para o café?
    Uma xícara, a água borbulha sobre o fogo…
    Fique, tempo! Me aceite.

    Tempo, tempo, tempo…
    passe logo, passe aqui, mas com alma!
    Que nossas pegadas sejam uma,
    ao sabor do que se apaga
    ao espreguiçar das ondas sobre a areia
    ao primeiro raio de sol

    Fique.
    faça de mim sua, senz’altro.
    Te espero
    Tempo, tempo…

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