Domingo

  • Ontológico, hedonismo e deletério

    Nem tudo está perdido em matéria de palavras. Esta semana, em diferentes textos, encontrei ontológico, hedonismo e deletério. Uma delas, não confesso qual, me obrigou a ir ao dicionário. Não eram textos de filosofia profunda, apareceram como se fossem palavras corriqueiras. Não são. O dicionário está cheio delas, a maioria esquecidas e empoeiradas, talvez aguardando a ressurreição. Quando uma desaparece definitivamente leva consigo uma forma de ver o mundo.

    Admito que implico com algumas palavras. Se pudesse as baniria por lei. Uma delas é progenitora. Só serve para noticiário policial ou conversa com meliante. Neste último caso com a devida cautela: periga ele não entender.

    • Como vai sua progenitora?
    • Progenitora é a sua mãe.
    • Exatamente.

    Na mesma linha vai cônjuge. A única vantagem é não ter gênero definido, mas isso é vantagem recente em palavra antiga. Se o seu cônjuge apresentar você como ‘minha cônjuge’ peça divórcio. Trata-se de falsa erudição, nem sei por que casaram. Pode ser até que ele seja um adorador do gerúndio! Fuja igualmente de gente de vocabulário limitado ou deturpado tipo táuba, às vezes contagia e a cura é difícil.

    Implico com nubente, acho patíbulo triste e gáudio antiquada. Tenho sentimentos por cabotino e perspicaz. As palavras e eu somos realmente inseparáveis. Elas ajudam a moldar ideias: mais palavras, mais nuances de pensamento. Diversidade é tudo. Mas, se houver opção, prefiro as menos pretensiosas. Podem não acreditar, mas é complicado escrever simples.

    Outro dia quis descrever um árabe usando aquela túnica comprida comum entre eles. Escrevi caftan e o corretor de textos sublinhou a palavra em vermelho. Caftã também não deu certo. Tudo bem, vamos ver a tradução em português. É cafetã ou cafetão. Como? Não dá para dizer que o cara usava um cafetão! Optei pela palavra em inglês mesmo, escrevi kaftan. É claro que o corretor reclamou. Fazer o quê? Se não temos uma palavra adequada, roubamos de outra língua.

    E o que dizer quando, em conversa informal, um amigo diz valhacouto? A gente até para de respirar para aproveitar o momento porque uma coisa assim dificilmente se repetirá em nossa vida. Ouvir alguém utilizar palavras como amiúde, azêmola ou excelsa nos dá alguma esperança. Não a de que todas as palavras vão sobreviver – essa eu já perdi – mas a de que sempre existirão pessoas cuja conversa é um deleite.

  • Eu não devia me chamar BETHÂNIA

    Meus pais me deram esse nome porque se conheceram no show da cantora num teatro na Lagoa. Engraçado que nem gosto assim dela. Talvez por ter ouvido tanto minha mãe cantar. Após a morte de meu pai, então, era quase todo dia. Da Bethânia eu só gostava de “Olhos nos Olhos” do Chico Buarque. Ficou impregnada em mim, uma espécie de hino materno. Toda vez que ela ensaiava ficar melancólica, punha o disco com a música. A razão de eu gostar da canção era a letra, uma resposta feminina a um abandono. Para mim, a melhor versão de uma doce vingança.

    Pesquisei o nome. Bethânia vem do original hebraico que faz referência a uma pequena cidade no Monte das Oliveiras. Nada a ver comigo, meu sobrenome nem é Oliveira. Outra coisa irritante era, por causa do meu nome, me associarem a um determinado comportamento. Pela escolha sexual da cantora, alguns me viam como uma possível transgressora. Uma associação que nunca entendi bem. No meu caso, soava como uma antítese. Sou hetero convicta e tento disfarçar meu preconceito com lésbicas. Com gays também. Não devo ser uma pessoa razoável nesse aspecto, admito.

    Bethânia, a cantora, é feia demais. Eu sou linda, branca, loura e de olhos claros. E imodesta, claro. Cultivo a exteriorização do belo e deglutível, um mundo onde a fantasia não se oponha à realidade.

    Com o tempo, surgiram fortes crises de identidade e angústia. Muito do que eu sentia vinha do desgaste diário de esconder dos outros quem eu verdadeiramente era: uma burguesinha chata.

    Sem me esforçar, eu parecia o tipo da garota, cujo comportamento era considerado convencional. Devia ter sido chamada de Patrícia. Patricinha, em vez de Bethânia. Ao contrário do que pode sugerir o meu nome, sou vaidosa ao extremo, adepta de procedimentos estéticos e skincare. A maquiagem tem de ser impecável. Levo horas escolhendo roupa, mesmo para ir só na esquina. Coloquei silicone nos seios para aumentar o volume e botox a fim de suavizar minhas linhas de expressão. Posto fotos sensuais de biquíni no Instagram e não me importo de sexualizarem minha imagem. Não tenho orgulho disso, mas é mais forte do que eu.

    Não vou dizer a minha idade.

    Sou católica sem convicção e sem frequentar a igreja. Implico com padres, além de achar a missa um porre. Penso que Jesus foi um hippie revolucionário. Não sou ateia declarada por medo do desconhecido. Carrego bastante culpa dentro de mim.

    O corpo é minha doutrina filosófica. A existência humana é a matéria. Sigo dietas variadas, de low carb a zero lactose. Quando conveniente, alardeio veganismo, embora nunca abra mão de um churrasco se a carne for de primeira. Linguiça, coração de galinha e asa de frango fazem um estrago na pele. Evito. Já tentei jejum intermitente e não deu certo.

    Fiz análise durante um tempo e não consegui pôr para fora uma parte de quem eu era: uma pessoa vazia. Guardar dentro de mim aquilo que acreditava conseguir esconder me causou forte dependência a remédios. Ansiolíticos tarja preta. Minha analista deu a entender que eu tinha dupla personalidade. Preferi não levar a sério.

    Quando meu pai era vivo, costumava ouvir música erudita com ele. Se estou sozinha, gosto de escutar a Sinfonia Surpresa, de Haydn ou o Concerto para Piano em Lá Menor, de Schumann. Pouca gente sabe disso. Na minha playlist, Dylan, The Cure e Beto Guedes. Ecletismo musical é comigo.

    Quando posso, vou ao cinema. Herdei o gosto dos meus pais. Wim Wenders, Goddard, Pasolini e Bergman. Não perco os filmes do Woody Allen e do Almodóvar. Assisti umas cinco vezes ao Fitzcarraldo, do Herzog. Amo a cena em que Klaus Kinski cruza de barco o Amazonas ao som da ária “A Te, o Cara”, de Vincenzo Bellini. Minhas amigas temem tubarões assassinos, aliens e sextas-feiras treze, já meus medos têm mais a ver com o jogo de xadrez com a morte, no “Sétimo Selo”. Quando quero, sou um bocado cult.

    Vivo na Internet. Curto uma relação parassocial. Amar pessoalmente dá trabalho e causa desilusões. Evito interações profundas que me causem tédio imediato.

    Não posso ver um mendigo na rua que logo me enterneço. Empatia absoluta com a miséria alheia. Às vezes posso parecer até ingênua ou demagoga. Nem ligo.

    Sou contra as drogas. De alucinada, basta a vida. Prefiro estar consciente, embora deteste o concreto, o tangível. Fumo cigarros eletrônicos e, vez em quando, bebo gim tônica ou dry martini. Tomo creatina, malho na academia e faço bronzeamento artificial. Detesto ir à praia. Já peguei micose na areia. Piscina de clube nem pensar. Confesso que sofro com essa pressão social e midiática que impõe certos padrões estéticos. Ainda bem que sou bonita e magra.

    Tenho pavor da rejeição. De qualquer tipo.

    Sei que não combina com meu estilo de vida, mas gosto de ler. Tenho uma queda por escritores da contracultura que rejeitam os valores tradicionais. Talvez atração do que é contrário. Li Kerouac, tenho livros sobre a vida de Ginsberg e curto a poesia marginal de Leminski e alguma coisa do Bukowski. Para impressionar, levo sempre comigo um livro para ler no metrô. Nem leio, fico vendo se estão me notando. Gosto de passar essa imagem intelectual. Jovem socialite, colunável e cerebral. Repito, sou o próprio contrassenso. Adoro incongruências, a começar pelo meu nome. Bethânia. Não tem nada a ver comigo.

  • O homem que ouvia estrelas

    Pois só quem ama pode ter ouvido
    Capaz de ouvir e de entender estrelas.
    Olavo Bilac

    Havia um homem naquela cidade que buscava sempre os lugares mais altos e afastados. Depois de um dia cheio de trabalho, distrações e malcriações, ele subia morros, montanhas e prédios. Fosse onde fosse. Fosse como fosse…

    Depois de um tempo, um menino miudinho, mas vivo no olhar e nas ideias, decidiu acompanhá-lo.

    E, a partir daí, homem e menino subiam morros, montanhas e prédios toda noite.

    Espia! Ouve com atenção… Sempre dizia o homem!

    O menino, falante e curioso, também sempre perguntava o que é que as estrelas diziam!

    Com o tempo, aprendendo com o velho homem, o menino passou a ouvir e entender.

    E entendia de sonhos e memórias de outros tempos.

    E entendia de pessoas, sentimentos e sensações.

    E foi entendendo o porquê daquele homem, até então, viver só.

    A gente precisa fugir do barulho e da confusão pra poder ouvir certas coisas que não dá pra ouvir lá embaixo.

    E dizia sussurrando, quase que em uma oração.

    E dias e noites e tempos distintos levaram o homem para lugares ainda mais longínquos. E o menino o seguia e crescia.

    Até que o tempo, mandatário das coisas e das gentes, levou de forma definitiva o homem.

    O menino estava só, mas não estava.

    Dentro dele, as palavras do homem ressoavam, brilhavam, ressignificavam…

    O menino aprendeu que só precisava ficar em silêncio pra pode ouvir estrelas.

    E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo quando se tinha fome ou quando se sentia frio.

    E ouvir estrelas era a melhor coisa do mundo para um homem que voltava a ser menino…

  • O futebol de hoje

    Bola na trave, bola na rede, bola no ar. Lençol, trivela, drible de calcanhar… Bola no canto e falta marcada esperando o juiz apitar…

    Bola ao alto, jogada aérea, empurra-empurra e mudança no placar… Os olhos vidrados do menino e do moço e do senhor sentado no sofá acompanham a bola. É o ser e o estar. O sorriso da menina e da moça e da senhora com o rosto colado na tevê é para a bola. É o querer e o ficar. Os aplausos, os gritos, os vivas, os xingamentos, a euforia e o contágio: futebol. Simplesmente amar ou odiar.

    Deixando de lado os interesses escusos, as artimanhas do poder e os escândalos da política, o fato é que brasileiro e futebol se parecem com feijão e arroz, café com leite, queijo e goiabada, praia e samba. Estereótipo? Figuração? Muitos detestam o jogo bretão.

    Alegam que o esporte é o ópio do povo. Ou como também se costuma dizer, o pão e o circo! Outros, entretanto, adoram. Adoram com paixão. Adoram com desespero. Desesperadamente torcem!

    Em tempos de copa do mundo, as camisas amarelas saem dos armários: cornetas, enfeites, bandeiras e muitas outras coisas. Em tempos de copa do mundo, a letra do hino nacional é cantada com vontade e com firmeza. Verso após verso vê-se o Brasil brasileiro e toda a sua poesia. Em tempos de copa do mundo, unhas são pintadas de verde e amarelo, ruas inteiras recebem desenhos coloridos e carros desfilam com pequenas bandeiras.

    Há um milagre, um movimento, uma catarse! Patriotismo de chuteiras? Há uma aclamação, um mistério, difícil análise! Complexidades e besteiras… Mas o futebol é isso! Exatamente isso: falar mais do mesmo, falar o que todos veem, falar o que todos sabem. O jogo está ruim. O zagueiro é um cabeça de bagre (expressão antiga, mas muito apropriada). O meio-campo não ata nem desata. A culpa é do técnico! O pênalti não foi marcado. A culpa é do juiz!

    Mas a seleção não está jogando bem! E o Brasil, por sua vez, também não está! O país mudou! Está mais dividido, agressivo, poluído com os seus ismos. O futebol também mudou! E como mudou! Meu Deus! O que fizeram com o futebol brasileiro? Brasileiro mesmo! Cadê esse infeliz de futebol?

    Jogo marcado daqui e marcado de lá! Marca-se tanto que, às vezes, a gente nem vê a bola! É um jogo robótico, pegado, malhado. Às vezes nem parece futebol!

    E ainda tem o tal de VAR, o chamado árbitro de vídeo! Este árbitro virtual revê cada jogada polêmica e conseguiu fazer a alegria do gol virar um suspense, uma novela, uma frustração!

    Imagina! O seu time marcou um gol e a torcida comemorou com todo o entusiasmo. Então… Para-se a partida! Alguns minutos de análise e o juiz anula o gol! Mas e o grito genuíno de gol? E a razão de ser do torcedor? A espontaneidade do momento único do gol? Não importa! Importa é que o vídeo mostrou um impedimento de 0,2 cm!

    Tempos pós-modernos!

    Que saudade do jogo bonito, do lance certeiro, do drible desconcertante!

    Que saudade da poesia no futebol!

    Que saudade do olé, do chapéu e chuveirinho!

    Saudade de acompanhar a seleção e torcer! Torcer de verdade!

    Nem as ruas são enfeitadas como antigamente!

    Depois do terrível 7×1 pra Alemanha, as coisas só pioraram!

    Jogadores saem muito cedo do Brasil e vão brilhar (ou não) em outro lugar. Ásia, Europa, África, enfim, em todo o lugar em que se paga muito bem para jogar!

    Perder faz parte eu sei! Chorar também. Jogou feio ou jogou bonito. Vitórias e derrotas nos ensinam e fazem bem. Às vezes, como dizem alguns, não era a hora. Às vezes, dizem outros, isso já era de se esperar. O problema é quando você desconfia do próprio time!

    Melhor dizendo, desconfia do futebol brasileiro como um todo!

    A performance vale mais que o gol! A dancinha vale mais que a vitória! Os cabelos e os cortes precisam estar bombando nas redes sociais, caso contrário, já viu!

    E as polêmicas então? Valem um campeonato inteiro! Dão engajamento na internet!

    Hoje tem jogador simulando cartão pra ganhar dinheiro nos sites de apostas! O cartão amarelo ou o vermelho foram combinados! Que jogo é esse?

    Até a camisa da seleção, a famosa amarelinha, não é mais a mesma, sequestrada, coitada, por uma seita de malucos, passou a significar outra coisa que não futebol! Uma pena!

    A camisa, as boas jogadas e o craque de verdade ficaram em algum lugar…

    Em que lugar ficou o nosso futebol? Eu, sinceramente, não sei!

    Vamos pra essa copa com a certeza de que não temos um bom time, mas somos brasileiros! Como se costuma dizer, brasileiro não desiste nunca! E não desistimos!

    Que Deus nos ajude (e Ele vai precisar ajudar muito)!

    Que saudade do Pelé, do Garrincha, do Didi, do Romário (como jogador) e dos Ronaldos!

    Mas fazer o que? Bora Brasil!!!!

  • Habitar o intervalo é preciso

    “(…) Depois da chegada vem sempre a partida”

    Essa lógica, que Vinícius e Toquinho traduziram em música, pode nos ajudar a compreender melhor os pesares da vida.

    A dimensão de tempo entre a chegada e a partida, em alguns casos, é algo que podemos controlar, programar; está em nossas mãos decidir quando vamos iniciar uma viagem, por exemplo, e quando pretendemos voltar. Assim, nos sentimos donos do nosso tempo, do nosso percurso.

    Para outras idas e vindas não estamos no controle, mas existe um intervalo previsível, como é o caso dos fenômenos naturais. Vemos com naturalidade o alvorecer e o entardecer, as idas e vindas das marés, o prenúncio de mudança na estação do ano. Seu fluxo é esperado e a repetição dos ciclos dá uma sensação de continuidade, traz sentido a esse movimento.

    Já no caso da vida, o tempo entre a chegada e a partida foge totalmente ao nosso controle e não é previsível. Especialmente na cultura ocidental, tendemos a ver a chegada como o polo positivo e a partida, o negativo. Recebemos com júbilo o que chega, pois é o novo, o que traz expectativa, e com angústia ou tristeza a partida, que é a despedida, a separação.

    A ideia de um novo ciclo depende da crença de cada um, mas existe uma lei maior que a natureza nos ensina e que foi captada pelo poeta.

    “(…) nada renasce antes que se acabe, e o sol que desponta tem que anoitecer”.

    Entre a chegada e a partida, resta-nos aprender a habitar o intervalo.

  • INCONVENIÊNCIAS

    Um homem para no posto de gasolina e entra na loja de conveniências para comprar cigarros. A menina que o atende chama atenção. É loura, bonita e tem um sorriso angelical. Ele olha para o crachá: Claudette. Tenta puxar assunto.

    — Não nos conhecemos de algum lugar?

    — Acho difícil.

    — Difícil, por quê?

    — Eu me lembraria de você.

    — É?

    — É.

    — Sou tão notável assim?

    — Ô…

    — Você também chama a atenção, de tão bonita.

    — Preferia que não.

    — Por timidez?

    — Por conveniência mesmo.

    — Não entendi.

    — Não estamos numa loja de conveniências, então…

    — Você tem ótimo humor, Claudette.

    — Como você sabe meu nome?

    — No crachá. Claudette com dois “t”.

    — Ah, é mesmo, tinha esquecido…

    — Claudette, bonito nome. Vem cá, que horas você sai do serviço?

    — Pra que quer saber?

    — Queria te convidar para uma cervejinha.

    — Não costumo beber com estranhos.

    — Posso me apresentar a você.

    — Estou falando de caras estranhos, esquisitos.

    — Como você é difícil, Claudette.

    — Só não gosto de enrolação.

    — Como assim?

    — Você está a fim de me comer, né?

    O hom em faz cara de espanto. Olha ao redor para se certificar de que ninguém está ouvindo. A loja está vazia. Melhor assim.

    — Se quer me comer, por que não fala logo?

    — Papo reto, Claudette?

    — Isso, não curto enrolação.

    — Ok. Quero te comer, sim.

    — E quem disse que eu quero?

    — Mas não foi você quem propôs?

    — O fato de propor não quer dizer que estou a fim.

    — E você está a fim, Claudette?

    — Sei lá, nem te conheço direito.

    — Foi você que disse que a gente tem de ser direto.

    — Sou assim. Mudo rápido de opinião.

    — O que você sugere, então?

    — Não sei, acho que tem de rolar uma conexão primeiro.

    — Ok. Podemos tentar. Vem cá, Claudette, nós não nos conhecemos de algum lugar?

  • Overkill em copacabana

    Sol, pé na areia, água de coco, um domingo ensolarado. Entre o barulho do quebra-mar e a água que cai cantando, à la carioques, do chuveiro de um quiosque na Orla, Ludmila me cutuca do alto da caixa de som: “a vida é louca, mano, a vida é louca. Me perdi pelo caminho…” É fácil perder seu controle diante do mar de Copacabana. É fácil despir-se de roupas e da mente rotineiras, deixar o corpo à mostra, como um da gema — mesmo que o bronze se mostre, no fim do dia, rosé gold.

    Tantas coisas confluem nesta cidade, a começar pelas raças de cachorros: vira-latas com pêlos quase inexistentes e spitz alemães como o meu Zeca, confortavelmente estendidos sobre as cangas de seus tutores, debaixo de toldos na areia. Um boxer de coleira se aconchega nas minhas pernas e me diz:

    — relaxa escritora, tô na área e já rendendo conteúdo.

    (Sempre tem dessas aproximações dos cães. Zeca me faz mais falta ainda.) Crianças com suas bicicletas cor de chiclete, motocicletas estacionadas ao lado do chuveiro, tênis de areia, turistas, cerveja, havaianas — originais e afins —, coca-colas e pepsis — pode ser? —, todas as cores, todas as línguas, abençoadas pelos incansáveis e rijos braços do Redentor, que paira tranquilo acima das nuvens que, por ora, encobrem o grande maciço do Corcovado.

    Domingo é conhecido por ser o dia do descanso, mas acho que Copacabana funciona em uma fissura de tempo em que é sempre domingo na extensão do seu mar. Cessam instantaneamente quaisquer atividades de esforço que não ligadas ao lazer. É pausa líquida-à-milanesa. Ausentam-se as preocupações. Copacabana oferece Iemanjá para que recarreguemos nossas energias — e os ecos da Shakira que agora tomam conta do som ambiente.

    Oh, boy, I can see your body moving (…)
    This is perfection!

    Os orixás são ondas energéticas, independente da orientação religiosa do mar de gente em suas areias.

    Viajar para Copacabana não deveria ter um motivo, qualquer que fosse. É pedido da alma, é necessidade humana. Eu, que já fui cidadã copacabanense, me encontro no limiar entre a felicidade de quem está e a tristeza nostálgica de quem parte. Estou a escrever, separada pela primeira vez da minha amiga desde que chegamos. Viemos para ver uma das bandas mais significativas da minha vida; eu, que não sou dos shows, ela, que topa até os que não curte tanto assim.

    Um show direto da Austrália. Banda repaginada que mantém, desde os anos 80, o vocalista com exatamente o mesmo timbre de voz. De Nova Friburgo para a Austrália existe o Rio de Janeiro: bebidinhas, Bukowski, Clube dos Macacos, Sol, Botafogo, pizza, hambúrguer da madruga, Jardim Botânico, trânsito no alto da floresta, Copacabana, risoto express e o antigo Metropolitan. Um passeio de amigas, uma we-moon, como descobri no caminho, e o show do Men at Work — banda originalmente de men que agora traz mulheres performáticas com a boca no trompete, dessas que literalmente roubam a cena, vestindo camisetas triviais do Brasil compradas no calçadão de Copacabana.

    Um show que me pôs com pé torcido sobre botas over knee de salto agulha. Os mesmos saltos que, acompanhados de saltos quadrados e mais baixos, cruzaram o corredor do shopping com o caminhar de um dos guitarristas da banda. Nós três trocando olhares, descrentes de que era ele mesmo, ali como um cidadão comum — e nós, fãs que não pediram fotos nem autógrafos.

    É indescritível como o show de uma banda especial vibra diferente em nosso coração. A felicidade de juntar a própria voz à multidão 35+ de pé num sábado à noite, erguer celulares em mil registros, sorrir para desconhecidos e pular é quase como caminhar molhando os pés na faixa entre o fim da areia seca e a rebentação do mar. São esses momentos em que temos certeza de que estamos vivos. Em que reconhecemos que estamos presentes. E, como consequência, criamos memórias.

    Minha primeira we-moon está no fim e já se tornou uma dessas memórias eternas. Uma lua de mel entre amigas, nova tendência desse nosso mundo contemporâneo, em que não se espera um casamento para se comemorar a vida com viagens. E como nos esbaldamos! Ela, que é do rock; eu, mais do samba — fomos em ambos. Ela quer dormir; eu prefiro não. Também ficamos equilibradas aqui. Cervejas para mim, drinks para ela, café para as duas. Muita água, mercado, pizza; amigos reencontrados e apresentados. Karaokê com direito a sermos convidadas a tomar o microfone e fechar a noite. A nova amiga que também é fã do Men at Work — e a que procuramos no final do show para um abraço de felicidade. Piscina do hotel, o protetor solar que eu insisti e ela não quis tanto; marquinhas de turista, sorvete do Copacabana Palace, um mate limão do ambulante. Enquanto termino essas linhas, já pensando em uma próxima we-moon, ela encontra uma grande amiga com seu filho recém-nascido. Meu coco está no fim. A Shakira já saiu e toca, pasmem, Overkill pelos amplificadores do quiosque. Vou pedir para cortarem meu coco, comer sua carne, respirar um pouco mais desse ar tão domingo e caminhar pela areia.

    “Alone between the sheets
    Only brings exasperation
    It’s time to walk the streets
    Smell the desperation
    At least there’s pretty lights”

  • Não fale com estranhos

    Natália percebeu a ausência logo ao acordar.
    Não soube dizer exatamente o que faltava — apenas sentiu o vazio.

    O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, a luz da rua filtrando pelos galhos da árvore, desenhando sombras no teto, o ventilador rodando preguiçoso.

    Mesmo assim, algo tinha desaparecido.

    Sentou-se na cama, ainda confusa. Durante anos acordara com aquela presença discreta ao lado: um companheiro silencioso que cochichava cautelas, lembrava perigos, puxava-a pelo braço antes de decisões precipitadas.

    Agora o quarto estava vazio.
    — Estranho — murmurou.

    Levantou-se devagar, como quem testa o chão de uma casa onde algo mudou.Ao sair de casa, Natália levou a mão ao bolso para conferir a carteira.

    Parou no meio do gesto. Dessa vez não conferiu.

    Era curioso: sempre conferia duas vezes — às vezes três — como se ouvisse aquela voz, advertindo que ela poderia ter sido roubada entre a porta e o portão.

    Só ouviu o burburinho das pessoas indo em direção ao ponto de ônibus.

    Como sempre, a condução estava lotada.
    Ao seu lado alguém fez um comentário inconveniente.
    Normalmente ela ficaria em silêncio.
    Dessa vez responde.
    E nada acontece.

    O telefone vibra, com a mensagem do chefe – sem aviso prévio, ele tinha mudado seu compromisso da manhã para outro endereço.

    Respondeu de pronto com um emoji de indignação — e nem ouviu aquela voz costumeira: jamais responda ao chefe.

    Cada vez mais intrigada com a ausência de seu companheiro, Natália pediu uma informação na rua, pois não conhecia o caminho para esse novo compromisso.

    Durante anos a voz teria dito:
    não fale com estranhos.

    Mas o homem apenas ajuda.

    Algo simples como:
    — A estação fica duas quadras para lá.
    Nada ameaçador.

    No fim do dia, no caminho de volta para casa, Natália percebeu que estava diante da rua que sempre evitara.

    Durante anos aquela voz repetira a mesma coisa:
    — Não passe por aí.
    — É perigoso.
    Mas a voz continuava em silêncio.

    Então atravessa.
    E encontra apenas:

    – Uma padaria
    – crianças brincando
    – um senhor regando plantas

    Já em casa, sobe as escadas saltando de dois em dois os degraus, como fazia quando criança. O quarto estava igual: a veneziana semicerrada, o ventilador rodando preguiçoso no teto, à sua espera.

    Mas algo havia mudado. Pela veneziana entrava um raio de sol que iluminava o seu lado na cama. No teto, a sombra dos galhos dançava devagar.

    Natália sorriu.

    Algumas sombras existem.
    Outras a gente inventa.

  • Lisboa revisitada

    Em Lisboa aparentemente há mais igrejas do que fiéis porque algumas deixaram de ser usadas para fins religiosos. Não é um fenômeno português, pelo mundo há vários casos de igrejas que se transformaram em museus e casas. Foi assim com a Igreja de São Julião: transformou-se no Museu do Dinheiro.

    Cada vez que vou a Lisboa escolho visitar algum museu menos divulgado no circuito turístico. Há muitos. Alguns são boas surpresas, outros nem tanto, mas é sempre agradável explorar os cantos dessa cidade tão vibrante. O Museu do Dinheiro recomendo. Além do lindo prédio-igreja a coleção é impressionante e exposta de forma primorosa. De brinde, para quem gosta de arqueologia, no subsolo podem ser vistos restos de uma muralha do século XIII.

    O museu está em um local bem central, cheio de atrações e restaurantes. Tanto se pode almoçar no badalado Mercado da Ribeira como seguir na direção oposta e ir para a Praça do Comércio onde, entre inúmeras opções, está o Martinho da Arcada, restaurante de 1782 que diz ser o mais antigo de Portugal.

    Ainda no rol de atrações um pouco menos conhecidas, os admiradores de José Saramago podem ir à Casa dos Bicos, sede da Fundação Saramago. As cinzas do escritor foram depositadas na frente dessa casa, à sombra de uma oliveira centenária trazida de sua terra natal.

    É impossível visitar Portugal e escapar das sardinhas. Você deve ter notado as de cerâmica ornamentadas com os mais diversos motivos. As originais são da fábrica Vista Alegre e a decoração é do Estúdio Bordallo Pinheiro. Esse artista falecido em 1905 é pouco conhecido fora de Portugal e morou uns quatro anos no Brasil. Em Lisboa existe um museu dedicado a ele, coisa pequena, afastada do centro, só para fãs.

    Falamos de sardinhas, vamos falar de bacalhau. Também ele tem direito a um museu em Lisboa, mas é muito fraquinho. Melhor encontrá-lo cozido ou assado no Martinho da Arcada que fica quase ao lado.

  • Desistências e permanências

    A sala de aula, em algum momento, ficará vazia. Quando isso ocorrer, morrerá um país…

    A história do professor no Brasil é feita de desistências e permanências cotidianas.

    Desistências que fazem parte do diário, do quadro e do boletim. Permanências que fazem parte do olhar, do sentir e do fazer…

    Desisto de ser professor toda vez que as planilhas e plataformas me dão mais retrabalho e acúmulo de coisas e mais cobranças, tirando mais o meu tempo e me distanciando do trabalho real.

    Permaneço como professor pela responsabilidade com os meus alunos que ainda querem alguma coisa, por ainda acreditar no impossível e, sim, para pagar as minhas contas.

    Desisto de ser professor toda vez que a frase de Darcy Ribeiro reverbera fazendo um sentido cru e verdadeiro: a crise da educação não é crise, é um projeto… Projeto de politicagens, de pessoas que não têm o menor interesse na educação.

    Permaneço como professor quando é possível ver o brilho nos olhos de alguns estudantes, nas perguntas, nos trabalhos, nos projetos, na curiosidade tão própria de quem é jovem.

    Desisto de ser professor toda vez que metas absurdas são impostas e ignoram a realidade de cada escola. Os tecnocratas sempre se esquecem, propositadamente ou não, do chamado chão da escola, das complexidades e singularidades de cada lugar.

    Permaneço como professor como uma voz no deserto. Ensinando, corrigindo, explicando, ouvindo e fazendo o que precisa ser feito. Alguém tem que fazer.

    Desisto de ser professor quando, a cada ano, as salas ficam mais e mais superlotadas, o salário sempre defasado, as múltiplas e intermináveis tarefas e atividades sem sentido e a inclusão de fachada que só coloca mais trabalho e mais burocracia nos ombros do professor.

    Depois de tantos e tantos anos, enganos e desenganos da profissão, eu desisto pelo prazo de validade inerente ao tempo. Mas não é só a validade! Todos os problemas vão para a escola! A escola se transformou em hospital, delegacia, território inóspito, depósito de gente… A distância entre o mundo virtual e descaracterizado e o mundo real e suas desigualdades é cada vez maior. E essa distância tem afetado a escola de maneira brutal.

    Depois de tantos e tantos anos, projetos e planos, permaneço porque permanecer é resistir e lutar. Resistir contra um sistema que joga contra o tempo inteiro. Lutar porque é da natureza de quem vive.

    Luta-se por amor, por crer, por ser, simplesmente.

    Isso ainda nos faz humanos. E ser humano é fator condicionante na profissão. Quando se perde a humanidade, já não há mais nada a fazer…

    Segundo estudos mais recentes sobre educação, haverá um apagão de professores para as próximas décadas. Desvalorização da carreira, baixos salários, violência e precariedade na infraestrutura criam o cenário do caos.

    Para completar o quadro, o desinteresse pela área aumentou consideravelmente, aliado ao alto índice de afastamentos por razões de saúde mental e o envelhecimento da categoria, ou seja, o que está por vir é catastrófico.

    Isso, por si só, é já uma tragédia, mas as tragédias brasileiras se acumulam com o número assustador de analfabetos funcionais, com a violência de todos os tipos e com os espaços educacionais servindo de para-raios.

    A culpa, de acordo com os entendidos de plantão, é sempre da escola.

    Entre desistências e permanências, o professor brasileiro vai se desfazendo, esvaziando-se de si mesmo pouco a pouco até entrar no modo automático e vislumbrar a aposentadoria…

    Entre desistências e permanências, o professor brasileiro inventa e se reinventa a todo tempo, atravessa rios e pontes, usa um pedaço de madeira como quadro, encoraja meninos e meninas a pensar nos vários cantões do país…

    Até quando?

  • ISABELLE DE JOUR

    Sou feia. Tenho 1,60 e peso 82 quilos. Um pouco gorda também. Prefiro me considerar robusta. Meu maior complexo, no entanto, são os pés: calço 40. As pessoas zombam de mim e dizem que não ando de sapatos, mas de skate. A altura, resolvo com saltos altos, e os pés enormes escondo no tênis. Se pudesse tomava banho e dormia com eles. A gordura só com regime, que toda vida tento começar e nunca vou adiante. Canetas emagrecedoras estão muito caras.

    Trabalho no caixa do supermercado Mundial – aquele do menor preço total. Nunca entendi esse preço total, haverá subpreços ou preços parciais? Sou muito questionadora.

    Já disse que sou feia, não? Pois é, tenho também espinhas na rosto. Nascem à vontade, sem que eu coma chocolate ou amendoim, que adoro.

    Meus pais são da Paraíba e eu vim para o Rio de Janeiro ainda menina. Tenho cabelos longos e cacheados que disfarçam minha cabeça grande. O nariz é meio adunco e meus olhos não têm nada de especiais. Ao menos não sou míope nem vesga. Só uso óculos escuros. Detesto claridade.

    Meu sonho era ser atriz de novela. Ninguém vai querer uma atriz feia e gorda, mas sou teimosa. Não sei se por obstinação ou masoquismo, à noite faço um curso de teatro. O professor vive me elogiando, que tenho futuro e coisa e tal. Claro, isso me anima e tento melhorar a aparência. As espinhas na cara posso camuflar com creme e uma boa base e evito roupas justas. Tanto quanto navegar, sonhar é preciso.

    Minha colega de caixa no Mundial era a Isabelle. A desgraçada era bonita que nem a peste. Combinava com seu nome, Isabelle, belle. Bem capaz do Alceu Valença ter escrito Belle de Jour, pensando numa Isabelle dessas.

    Não é que tivesse inveja. Na verdade, eu morria de inveja. Aquele rosto limpo, sorriso de dentifrício, olhos claros, Isabelle era um pitéu. Nem sei como foi que ela virou caixa de supermercado, podia ser o que
    quisesse.

    Franzina como uma tripa seca, a maldita ainda tinha peito grande. A boca nem precisava de batom. Uma afronta. Ao lado dela, eu, que já era feia e gorda, conseguia ficar pior.

    Já havia me pegado desejando matá-la. Confesso. No fundo, Isabelle era gente boa, porreta e não tinha culpa de sua beleza. Era até simpática. Se eu tivesse metade da beleza dela, seria um nojo.

    Nosso supervisor, um estrupício, vivia rondando a Isabelle, fazia tudo que ela queria. Se eu fosse homem também faria. Como já falei, nem sei por que ela trabalhava no Mundial.

    Um dia, ela faltou ao serviço. Não era comum. Passou uma semana e nada. Acabei sabendo que ela estava doente. Podia ser algo sério, pois já havia outra funcionária em seu lugar. Feia igual a mim, mas magra e alta.

    Fui informada pelo supervisor que a doença de Isabelle era grave. Câncer no seio. Cinco meses depois, me falaram que ela tinha falecido.

    A natureza pode ser cruel, mas em alguns casos é justa.

  • Inopinadamente, flores

    — para minha mãe, Lucia.

    Terra fria e emudecida. Inopinadamente, fibras rompem o ventre silencioso, como unhas recém-nascidas. Entre o solo e a grama, um ponto vibrante.

    De um botão, eclode uma cor; formas e aromas a batizam ‘flor’. Surgem os rótulos, retalhos únicos entre tantos iguais, infinitas espécies distintas. Todas, entretanto, flores. Do inesperado, brotam. Despontam singulares. Soam vida. Encantam.

    Por um breve, quase memorável período, flores são flores pré queda:

    — murcham.

    E assim abubam solos com próximas florações. Semeiam, na compacta existência, motivos para seguirmos, talos tensos, pétalas abertas em busca constante do sol.

    Botões como ovários: dilatam-se até romperem em humanidade.

    Das entranhas de todo data-base concebido, da terra revirada do jardim do vizinho, misturam-se memórias, adubo, formas e cores. Vidas.

    Da paciência surge a atenção,
    Da atenção brota o entusiasmo
    Deste, o encantamento

    Aplausos na praia do Arpoador; reverência.

    Ecoa a obra maior da natureza divina:

    MÃES

    Feliz dia a todas as cores que moldam e perfumam todas as existências.

    Bom domingo a todas vocês!

  • Dia das Mães

    Mãe. Palavra pequena que significa tanta coisa! Abraço, afago, aconchego mesmo no cansaço, presença, cuidado…

    Mãe. A matemática de contar feijão! Um a um na palma da mão…

    Mãe. Saber a palavra certa ou não ter palavra alguma e mesmo assim, falar com os olhos.

    Mãe. Toda mãe tem seus silêncios! E os silêncios continuam a dizer coisas, só que como um sussurro…

    Há coisas que não precisam ser ditas com palavras, não é?

    Há coisas que chegam assim, num sussurro…

    Não dá pra colocar em um único texto tudo o que uma mãe representa pra cada ser vivente!

    E é muita coisa! É a dor da vida, é a dor de dente! É o medo do escuro, é o medo de gente! Mesmo diante do improvável e do impossível ela fica contente!

    Ela dá força e ela é a própria força!

    Mãe!

    Queria que essa crônica pudesse capturar por um breve momento o seu abraço, o seu sorriso e a sua proteção!

    Queria que cada palavra aqui representasse um pouco da sua sabedoria.

    Mas a crônica não é mãe, é crônica! E, como se diz, mãe é mãe!

    E não, a crônica não vai dar conta disso!

    É muita coisa pra dar conta! Só mãe mesmo!

    Por isso, mesmo sem jeito, a crônica deste dia coloca sobre a mesa uma toalha, os talheres, os copos e os pratos.

    A comida que chega quentinha, como lembrança gostosa de almoços em família, lembra de novo o cuidado, o cuidado de fazer sempre o melhor.

    E vão chegando à mesa os filhos, que já não são crianças, mas retornam ao tempo em que os sonhos tinham um contorno especial.

    Na mesa, conversas, risadas, mãos que se ajudam com este ou aquele prato ou uma bebida… O tempo para.

    Mãe… obrigado por acreditar nos nossos sonhos!

    O menino que escrevia versos já não é mais um menino, mas guarda e guardará pra sempre as contas feitas com feijão na velha mesa de madeira.

    O cronista, homem feito, agradece a oportunidade de poder estar presente em mais um dia das mães!

    E a crônica termina assim, nessa cena de almoço, tão simples, mas tão certa!

  • O outro pé da meia

    Noite fria, escura.
    Abre a portinhola. A roda gira.
    De cabeça coberta, estica os olhos para os dois lados sem virar o rosto.
    Ninguém à vista. Por um momento titubeia. Mas já está feito. Não há volta.
    Segue em passadas trôpegas seu caminho.

    ****

    Sentindo um ardor na boca do estômago, Stefano serviu-se de uma caneca grande de café, entrou no quarto e fechou a porta. Permaneceu alguns minutos diante da janela, até que o calor da bebida agasalhasse um pouco o coração encaramujado.

    Era hora de arrumar a mala. Organizar o que levar e o que deixar para trás. Partiria em busca de um elo capaz de aproximar passado, presente e futuro — distante das referências e afetos acumulados ao longo dos vinte anos de existência.

    Sentou-se diante da escrivaninha e abriu uma gaveta há muito esquecida. Foi retirando os guardados, um a um: fotografias do primeiro dia de aula, do campeonato de futebol, dos pais cantando parabéns em seu aniversário de dez anos.

    Cartões-postais da primeira viagem com os amigos. O recorte de jornal com seu nome grifado entre os aprovados no vestibular. Sorriu ao encontrar as bolas de gude, tesouro absoluto das disputas de caçapinha.

    O primeiro exemplar do Achados e Perdidos, que colecionava avidamente.

    Folheou também o álbum da Copa de dois mil e quatorze, completo graças à generosidade dos pais, que lhe compravam pacotes e mais pacotes de figurinhas.

    Foi tomado por uma ternura funda ao pensar nos dois.

    Continuando a escavação, encontrou no fundo da gaveta uma meinha azul-clara de bebê. Ficou olhando para ela, tentando entender como fora parar ali.

    Nunca a tinha visto antes. Um pé só. Aquilo parecia guardar um recado. Por instinto, colocou a meinha na mala.

    Algo lhe dizia que aquele pequeno pedaço de pano tinha relação com sua chegada ao mundo — e com o pouco que conseguira compreender da revelação feita pelos pais adotivos. Depois do acidente que lhes tirara a vida, tudo acontecera rápido demais. Restaram apenas fragmentos: Itália, Finestra, esperança.

    Decidira partir em busca dessa Finestra. As perguntas martelavam em sua cabeça exausta pela noite em claro: onde, como, por quem procurar?

    Ainda aturdido, deitou-se na tentativa inútil de descansar antes da jornada que começaria na manhã seguinte.

    ****

    Tarde ensolarada em Milão.

    Sentada na varanda do apartamento, absorta em pensamentos, Angela não percebeu a chegada do marido. Havia tomado uma decisão e precisava compartilhá-la com aquele que, havia dez anos, a acolhera sem perguntas, cuidara de suas feridas e amara até os silêncios.

    Chamou Domenico para o café recém-passado, ritual das tardes de sábado.

    Procurou abrigo em seus braços e deixou que a memória vagasse pelo tempo.

    A cabeça escondida no casaco de lã abafava os soluços e turvava a lembrança daquela noite distante em que se virou e partiu.

    No abraço do marido afogava a própria história: a miséria do corpo desnutrido, os seios secos, a penúria do abandono familiar. O remorso que nunca cicatrizou. A ausência que permanecia acesa, silenciosa, à espreita dos dias.

    Assim ficaram por algum tempo, quietos, até que as palavras finalmente transbordassem.

    Contou-lhe que decidira voltar a Milão, à Finestra da Esperança. Lá deixaria seu nome, o endereço onde agora vivia e um pé da meinha azul.

    Roda a roda da esperança: que algum dia o outro pé daquela meinha encontrasse o caminho de volta.

  • Rosane desistiu

    Meu nome é Rosane. Detesto quando me chamam de Rosana. Friso sempre o “e” no final. Não sou uma mulher exigente. E a carência está me fazendo ficar ainda menos. Sinto falta de transar, sinto falta de romance, sinto falta de um homem a quem possa admirar.

    A questão é que não me encanto com facilidade. Não será um abdômen definido, um bíceps malhado ou um rostinho perfeito que me fará ficar animada. Homens com barriga, pouco cabelo, aceito desde que
    mostrem vida inteligente. Sou daquelas que curte quem pensa e se expressa bem. Não precisa ser um gênio nem um pesquisador científico.

    Basta não me envergonhar na frente dos outros.

    Se é adepto do fisiculturismo, joga futebol americano ou ouve rap ou sertanejo, ligo o sinal de alerta, estou fora. Para mim, o tesão é o intelecto. Um entendimento mínimo de quem sabe a diferença entre meio advérbio e meia para sapato. Um simples erro de concordância já me dá um nó na garganta e calafrios. “É nóis” ou “a gente vamos” é a senha para o portal do inferno.

    Pode ser praga ou justamente por só buscar homens com certa cultura, mas todos aqueles de quem me aproximo, mostram-se uns tapados congênitos. Parece proposital, uma trama urdida para me tirar do sério.

    É só eu me interessar por alguém e lá vêm os barbarismos.

    Outro dia, no metrô, avistei um homem elegante e com ótima aparência. Usava óculos, estava em pé, lendo um livro. Puxei conversa e perguntei qual o livro que lia. Era um manual desses para ansiedade.

    Autoajuda clássico. O indício foi claro, mas ainda insisti. Perguntei para onde ele estava indo. O golpe veio avassalador: vou a um bazar “beneficiente”. Brochei. Nem com toda a boa intenção e filantropia.

    Num bar, um rapaz veio pedir se podia me fazer “compania”. Respondi que “compania” não seria possível. Companhia, sim. Ela pareceu não ter entendido. “Posso me sentar com você, “menas” se estiver esperando alguém. Ainda frisou o “menas”. Emudeci. Fiz cara de ódio. Ele desistiu a tempo, acho que finalmente havia entendido.

    A fim de evitar esse tipo de encontros tóxicos, passei a frequentar lugares mais de acordo com minhas perspectivas: museus, bibliotecas, lançamentos, vernissages. Num sábado, Centro Cultural, parada na porta aguardando uma amiga, um carinha lindo se aproximou e me disse: pode entrar que é tudo “gratuíto”. Cheguei a me arrepiar.

    É um tal de “soltar” do ônibus, “resistros” de chuveiros, vamos “tudo” na praia, “seje” em vez de seja, mulheres “estrupadas”, “mindingos” pelas ruas e “imbigos” à mostra. Uma desgraça.

    Prestes a desistir, encontrei um tipo especial. Lia Proust no original, conhecia astrologia e mapas astrais, ia a festivais de cinema e tinha um papo ótimo. Era gay. Quis cortar os pulsos.

    Quem sabe um dia, ache um companheiro que combine atração física e intelecto. Sem gostar de “mortandela”, sem “cardaço” no tênis, que não tenha “ramela” no olho, não more numa casa “germinada” nem tenha medo de chuva de “granito”.

    Talvez desista. Pode ser uma grande “perca” de tempo.

  • O que há de velho?

    Li, há muito tempo, um conto em que o protagonista se queixava de que os amigos sempre lhe faziam a mesma pergunta: o que há de novo? Não recordo o nome do conto nem do autor, a quem humildemente peço desculpas, embora estas soem falsas dado que ele deve ser falecido.

    O protagonista do tal conto, cansado da mesmice repetitiva da pergunta, decidiu vingar-se e passou a responder com notícias bombásticas. Lembro-me que uma delas dava conta de um avassalador terremoto em Lisboa. O herói dava detalhes sobre mortos e feridos, deixando o interlocutor assustado e boquiaberto. Só então revelava a data exata do evento: 1755. Não sei como terminava o texto, no mínimo pararam de pedir-lhe novidades, mas é provável que tenha perdido os amigos.

    Se tivéssemos que modernizar essa história, acho que a pergunta que caberia hoje em dia seria o inverso: o que há de velho? Porque a todo momento a internet ressuscita conteúdos antigos como se fossem novos. Muita notícia velha é divulgada como atual. De boa e de má fé.

    Mensagens de cunho político com frequência apresentam fatos passados como novidades. Quase sempre se trata de propaganda disfarçada que intencionalmente omite datas e contextos. Ajudaria se cada matéria pudesse vir acompanhada de um certificado imutável informando a origem e a data da primeira publicação. Uma espécie de certidão de nascimento.

    Mas nem toda a desinformação é deliberada: há também uma série de bobagens que circulam por pura ingenuidade. Basta que alguém de má memória ou de outra bolha ‘descubra’ algo que julgue interessante e dê a partida para que aquilo volte a se espalhar como um rastilho de pólvora.

    É por isso que, se você sabe do que estou falando, recebe de vez em quando aquele texto sobre o ano chinês do bolso cheio de dinheiro que se repete a cada 827 anos. Um clássico.

    Assim se espalham muitas coisas falsas, quer como notícia, quer como autoria. O Arnaldo Jabor vivia reclamando disso (entre outras, insistiam em atribuir-lhe uma crônica sobre bundas que ele repudiava), mas qualquer figura pública sofre do mesmo.

    Deposito minhas esperanças numa IA cada vez mais eficiente para identificar plágios e más intenções. Por enquanto a internet continua sendo uma terra de ninguém.

    O personagem do conto pelo menos avisava que a notícia era velha – e não mentia.

  • No raso, a/mar não ensina — derruba

    Aquosa, a superfície reflexiva.

    – custa a –

    Imprópria ao banho… Mergulhar machuca [jamais acolhe]; rasga, sangra, desfaz a um e à outra sem que se fundam; era ela o acaso.

    – …entender que aquela é –

    (A/) Ela – narrativa, aqui; não fofoca – que, sem distorcer o sentido da prosa, faleciam palavras para exprimir o que sentia. Sentia – e segue sentindo – a falta de si, dela própria; demora-se na compreensão da charada. Só então veste-se de si mesma.

    – … mesmo ela, –

    Que ama o mar — mas não é a/mar para ninguém.

    Os olhos estão sempre, em qualquer tentativa, no mesmo plano; ou não. Realidade x expressionismo fajuto.

    – … só… –

    Era o acaso. É o acaso. O caso é (ela).

    – no raso.

    Não longe, às três e quarenta e seis da manhã, do escuro ouve-se um galo cantar, repetida e ritmicamente. Seria um galo ou… o toque insistente de um celular?

  • Sucesso

    Diana Duran, cantora e compositora, planejava lançar seu novo álbum com músicas inéditas. Algumas faixas em inglês. Quando Diana cantava em outro idioma, inventava erros linguísticos somente pela graça do viés poético. Adorava aliterações, repetições de sons para dar ênfase ao conceito. Para ela, certos sons se encaixavam melhor nas canções, ainda que pudessem soar algo inusuais.

    As letras simples falavam de amor e solidão. Tinha um tipo de poesia blasé com um toque nostálgico, um gênero que nem saberia direito explicar. Suas melodias, em algum momento, passavam uma certa levada de bolero pop e balada new age.

    Para seu novo trabalho, decidiu que o formato ideal seria a simplicidade de voz e violão. Convidou um velho amigo violonista. Os dois resolveram que os arranjos mereciam um beat a mais e acrescentaram batidas e sintetizadores em algumas faixas.

    Discutiram a respeito da divulgação, palavra-chave para o sucesso do lance. Devido a uma lombalgia crônica e a uma crise existencial, Diana Duran havia ficado um tempo afastada dos palcos. Isso pesava um pouco contra. A favor, uma grande quantidade de amigos. No conjunto, seu público era, na maioria, underground e imprevisível.

    A ideia inicial era divulgar o trabalho nos shows começando pela periferia. Diana desejava cantar todas as músicas novas, mas como se tratava de um disco curto, poderia acrescentar também hits de outros artistas, fazendo questão de esclarecer não se tratar de covers, e sim, de releituras.

    Diana e seu violonista ensaiavam exaustivamente. Os encontros seguiam no apartamento dela, causando desavença com vizinhos e uma longa discussão com a síndica do prédio. Ao se sentir pressionada, Diana optou por terminar os ensaios em um estúdio.

    Muito esforço e, enfim, tudo pronto.

    Agora era definir data e local para o show de lançamento. Conseguiram um bar com ambiente dark fashion, que Diana adorava. Um lugar alternativo, um pequeno palco improvisado e uma vontade imensa de acertar.

    Diana se desdobrou em mandar os convites, dar pequenas amostras do disco na internet, elaborar a lista amiga e providenciar o figurino. Comprou à prestação sua roupa, assentada em mistério, poder e sensualidade consciente. O preto como cor predominante. Escolheu uma peça com transparência, blusa top e short de couro com textura wet look para uma vibração mais gótica e punk, combinando com suas tatuagens e piercings. Tudo bem calculado nos detalhes.

    Chamou para o show alguns artistas conhecidos, que ela, na verdade, não contava que fossem. Mas, nunca se sabe…

    Um ator de teatro amador, amigo de infância, prometeu prestigiar. Como Diana tivera vários romances casuais, temeu convidar todos para o show. Podia surgir um clima ruim. Dane-se. Não poderia se dar ao luxo de dispensar ex-ficantes: tinha dado garantia ao dono do bar da presença de, no mínimo, trinta pessoas, correndo o risco de o espetáculo não acontecer. Era dura a vida da cantora nova.

    Terça- feira, 22 horas, tudo acertado.

    Diana chegou antes para a passagem de som. Notou que seu violonista aparentava um certo nervosismo. Procurou acalmá-lo e o aconselhou a não beber. Uma dose para esquentar, mas que não fosse encher a cara. Ela era a voz e ele o violão, necessitavam estar em completa sintonia…e minimamente sóbrios.

    Umas duas horas antes do horário do show, despencou um temporal. Muito azar. Só podia ser olho grande. Pegou um táxi, apanhou o violonista, a aparelhagem de som e partiram rumo à glória efêmera ou ao fiasco retumbante debaixo d’água.

    Quando Diana chegou, um grande susto. O interior do bar, apesar da chuva, lotado. Gente em pé. Seu coração bateu forte diante de tanta responsabilidade. Cumprimentou pessoas e bebeu um chope com um antigo namorado.

    Passava das 22:30. Tinha chegado o aguardado momento. Diana não queria admitir, mas sentia um vazio enorme. O violonista entrou no palco e checou o som. Não foi notado. Após alguns minutos, Diana surgiu. O pessoal continuou bebendo e conversando. Pessoas de algumas mesas a observavam. Diana encheu-se de coragem, deu sinal ao violonista e começou a cantar.

    Num canto do bar, em pé, uma figura de óculos escuros e boné parecia estar filmando no celular. Depois de algumas canções, o público continuava a conversar alto. Diana, então, se apresentou, falou de sua carreira e do disco. A próxima canção era de sua autoria e falava de um amor sofrido. Só o ator amador, amigo de infância, bateu palmas. Diana obteve mais sucesso quando cantou Ronda, do Paulo Vanzolini e Como eu Quero, do Kid Abelha. A plateia mantinha-se fria, palmas ocasionais sempre ao final de cada música. E muito barulho e risadas. O tipo de óculos escuros, no fundo do bar, continuava filmando. Quando ela anunciou a última canção, pairou no ar um certo alívio. Diana agradeceu a presença de todos e saiu. Não houve o bis.

    Na saída, falou com alguns conhecidos, recebeu elogios e se despediu. Quase virando a esquina, ouviu um chamamento: era o cara de boné e óculos escuros. Ele falou que tinha gostado das suas músicas e se apresentou como agente de várias cantoras. Deixou seu cartão e pediu que o procurasse. Ainda sugeriu que ela pensasse em incluir um tecladista e, talvez, um percussionista para o próximo show.

    A chuva tinha parado e Diana sentia-se nas nuvens. Chegando em casa, abriu uma garrafa de espumante nacional e brindou, em silêncio. Pensou em Lady Gaga e imaginou-se a estrela que nascia…

  • Arca em regime fechado

    Como se não bastassem os quarenta dias de dilúvio, ainda teve o Pandê.

    Consta que tudo começou com um morcego infiltrado — desses ressentidos — que embarcou sem autorização enquanto Noé se distraía organizando a fila dos puros e impuros. As corujas, sempre oportunistas, deram cabo do invasor. Tarde demais.

    Instalada a contaminação, veio a ordem: isolamento imediato. Cada casal no seu quadrado. Sem visitas. Sem circulação. Sem desculpas.

    E assim começou o verdadeiro dilúvio.

    No papel, a Arca comportava todos. Na prática, nem tanto. Sobrava espaço para os coelhos (desde que fingissem bom comportamento), faltava para elefantes e rinocerontes. As reclamações se acumularam na porta de Noé até serem diplomaticamente abafadas pelo casal de corvos, especialistas em crises e carniça.

    Resolvido o espaço — ou fingido que — veio o problema real: convivência.

    Cento e cinquenta dias. Vinte e quatro horas. Sempre o mesmo par.

    Dividir ração, ar, silêncio, mau humor. Decidir quem limpa, quem cede, quem respira primeiro. Um experimento ousado: juntar dois seres diferentes num cubículo e chamar isso de harmonia.

    Deu muito certo. Claro.

    Os leões, por exemplo, entraram em colapso narcísico. Sem plateia, a juba perdeu o sentido. Passaram a competir diante do próprio reflexo: quem já foi mais admirado. Pequeno demais o espaço para tanto ego.

    Os elefantes transformaram a escassez em campo de batalha. Ela, ansiosa, comia por dois e justificava pelo confinamento. Ele, inflado de si, ameaçava abandonar o barco na primeira oportunidade. Trombas voaram. Gritos ecoaram. E, curiosamente, para os vizinhos, ele seguia sendo um exemplo de parceiro dedicado. As paredes afinam tudo — menos a aparência.

    As raposas optaram pela sutileza. Ela, doce como mel envenenado, sempre “sugerindo” que fosse servida primeiro. Ele, concordando — enquanto uma voz interna gritava o óbvio. Mas educação é isso: perder espaço com elegância.

    Já as gralhas aboliram qualquer protocolo. Brigavam alto, sem filtro, revisitando cada desavença desde o início dos tempos. Minutos depois, trocavam juras eternas. Um espetáculo completo, com direito a reconciliação.

    Para quem assistia, melhor não escolher lado.

    E os bodes — ah, os bodes. Permaneceram fiéis à tradição: chifradas por qualquer motivo. Porta, feno, respiração inadequada. Constância é uma virtude.

    Noé, dizem, passou a evitar os corredores.

    Moral da história: com ou sem dilúvio, cada um vive confinado na própria Arca.

    O problema não é o casal que você escolhe. É o bicho que você insiste em achar que não é.

  • Crônica sobre uma foto: a estação rodoviária

    Organizando algumas caixas no armário, umas com papel sem importância ou importância pouca e burocrática — notas de cartão de crédito, documentos, tíquetes de estacionamento —, deparei-me com algumas fotos antigas. Fotos do tempo de eu-menino, como diria Manuel Bandeira. Mas não era Pasárgada, não. Era São Roque, cidade do interior de São Paulo.

    É… O cronista que agora tece esta crônica morou um bom tempo em São Paulo. Precisamente no interior: Cachoeira Paulista, Guaratinguetá, Cruzeiro, Lorena, Itapeva, Sorocaba, São Roque. Uma cidadezinha de pouco mais de 60.000 habitantes. Tempo de eu-menino. Mas mãe-d’água não me chamava. Chamavam-me os amigos, a poeira, as brincadeiras e o sol.

    Uma das fotos era da antiga estação ferroviária. Paredes amarelas e telhados vermelhos. Quantas corridas foram feitas sobre os trilhos… Parece que sinto agora o calor do trem! Quantas pedras jogadas de um lado para o outro. Algumas, as pequenas e pontudas, jogadas uns nos outros. E as conversas? O campeonato de futebol (e a briga era grande, porque cada um torcia para um time diferente e achava que o seu era o melhor), a menina de olhos verdes. Eu não lembro o seu nome, mas lembro dos olhos: olhos verdes! As incontáveis histórias da escola.

    É… Uma foto faz lembrar tanta coisa! O tempo parado, como se fosse nosso. Como se pudéssemos pegá-lo com as mãos, agarrá-lo à força. O tempo tem vozes! As vozes, todas elas, guardadas num pedaço de papel. E chego a escutar algumas: “Olha a pedra!”, “Aposto que eu ganho de você!”, “Até perto da cachoeira!”.

    Não sei o que fazem ou por onde andam alguns desses intrépidos personagens das minhas lembranças. Não sei. Sei que sinto saudade.

    Não vou embora para Pasárgada, entretanto. Quando relembro um tempo, relembro a mim, e a viagem que faço é inesquecível!

    Tempos de eu-menino…

  • Fluxo e pulso das horas

    “A gente jamais esquece o primeiro relógio.”¹

    “ […]

    As últimas datas, descobertas, invenções,
    sociedades, autores antigos e novos,
    Meu jantar, roupas, amigos, olhares, cumprimentos, dívidas,
    A indiferença real ou fantasiosa de um homem
    ou mulher que eu amo,
    A doença de alguém de minha gente ou de mim
    mesmo, ou ato doentio, ou perda ou falta de
    dinheiro, depressões ou exaltações,
    Batalhas, os horrores da guerra fratricida, a febre
    de notícias duvidosas, os terríveis eventos;
    Essas imagens vêm a mim dia e noite, e partem
    de mim outra vez,
    Mas não são o meu verdadeiro Ser

    […]”²

    Diz se lembrar da pulseira plástica preta que não saía do punho direito. Custou a acostumar com o braço corriqueiro — o esquerdo, socialmente aceito como adequado. À época, ambidestra, ficara encantada com o presente de Natal que uma tia trouxera dos Estados Unidos. À prova d’água. Mostrador digital. Luz azul que possibilitava ver as horas no escuro. Alguns botões, que aprendeu a manusear rapidamente. O apetrecho não saía por nada do seu braço direito. Não se recorda por quanto tempo o tomou por fiel escudeiro — mas sim do quanto o usara. Quando deu por si, já crescera e atingira a adolescência. Pareceu-lhe, então, infantil e um tanto unissex demais. Sonhava com um relógio um pouco mais feminino. Ganhou de aniversário um cássio: pulseira prata com detalhes dourados; mostrador de vidro com fundo branco, números metálicos de ouro e ponteiros que brilhavam no escuro. A caixa prata, internamente acolchoada por um tecido imaculadamente acetinado lhe vem instantaneamente à memória. Tornou-se mulher, por fim.

    Lembra-se de todos os seus relógios de pulso. Assumira desde muito miúda a importância em usá-los. Descolado. Adulto. Detentora do mundo: da altura do pulso, controlava as horas. Era a senhora do tempo.

    [— fato curioso é que nenhum de seus progenitores tinha o costume de portar tais acessórios. Sua memória primeira é de um único relógio de parede creme que encimava a entrada da cozinha de sua casa].

    Nunca gostou de dormir. O escorrer das horas perdia velocidade durante as madrugadas. O pai não dormia cedo; parecia elegante não deixá-lo acordado sozinho. Punha-se a ler, escrever, inventar moda. Ter um relógio de pulso atrelava seu ritmo cardíaco ao ritmo do mundo, no mesmo compasso que o seu. Continha todo o mundo no testemunhar dos batimentos e do passar dos segundos, sob a forma de ponteiros ou de números metamorfósicos a partir de sete tracinhos deitados e em pé.

    E então vieram os amores.

    Cartinhas em envelopes, flores, chocolates, bilhetinhos; recados através de amigos, atravessando salas, corredores, intervalos.

    Ligações de orelhão — obstáculos no meio das calçadas — com cartões comprados em bancas de jornal — outros trambolhos no mesmo plano das ruas. A duração das chamadas era breve. Estar ao telefone era coisa planejada. Precisava-se do cartão. Ou saber ligar a cobrar. O conjunto se números que identificavam um telefone fixo de alguém especial, sabia-se de cor. Para os demais, agendas telefônicas, em papel, depois eletrônicas, com botões e visores iluminados. Internet?

    Tentou fazer um paralelo entre seus amados e os devidos relógios de pulso.

    Seu primeiro namorado usava um modelo preto, não se lembra qual o tipo de mostrador. O relógio não foi primordial, e sim a ligação pelo orelhão poucos dias depois do primeiro beijo no cinema. Ligação via orelhão, se desculpando sem pressa por não ter ligado antes e o convite para sua festa de aniversário, no dia seguinte.

    Naquele tempo, festas de aniversário se davam nas salas das casas: bolo e docinhos granulados, salgadinhos e presentes embrulhados com laçarotes e cartõezinhos.

    Lembra-se de ter contado o tempo antes de bater à porta — não a dele, mas a da vizinha, sua amiga, onde se escondeu por alguns minutos, tremendo da cabeça aos pés. Os ponteiros de seu cássio não refletiam seus batimentos cardíacos: o primeiro descompasso que presenciou nas veias.

    O relacionamento durou o tempo em contagem regressiva iniciada pelo primeiro pedaço de bolo, entregue a ela e a mãe dele. A quase sogra a fuzilou com o fundo do coração. Ela debutou seus quinze anos um mês e meio depois; ele foi seu príncipe por essa noite, apenas. Não usou relógio.

    Depois, o primeiro amor, de fato. Relógio de pulseira metálica no punho esquerdo, como tem que ser. Ligações via celular e telefone fixo, SMS, cartinhas, livros de poesia. Ambos entrelaçavam seus braços automatizados pelos palcos de rua da vida.

    Guarda, em uma caixa, tantas recordações: o spray desodorante dele, que já nem se encontra no mercado — o cheiro que ainda lhe vem às narinas; papéis de bala, chiclete, passagens de ônibus, recibos de pedágio. A aliança de compromisso. O primeiro relógio dele, sem bateria e sem pulseira.

    Ele se foi desse mundo. Seu pulsar, também.

    Ela guarda o esqueleto do que um dia testemunhou o passar de seu tempo em uníssono na Terra.

    Depois dele, passou a usar o cássio no pulso esquerdo.

    Depois dele, um outro — homem de horários móveis. Surgiu de um hiato da infância, primeiro em uma rede social incipiente, depois ao seu lado em um assento de ônibus intermunicipal.

    Passaram a se ver em cronômetros engraçados: falavam-se diariamente; depois semanalmente.

    Mensalmente, após certo tempo. Ele tornou-se caixeiro viajante, numa época em que isso já era demodê.

    Não deixou cartas — um único e-mail, que ela decorou por completo. Ali, agora percebe, decorou o coração com as promessas do e-mail e abriu uma fenda na própria vida: abriu mão das cartas para entrar na era digital; abandonou o cássio de ponteiros e comprou um relógio cujo mostrador apagava-se para poupar bateria.

    Poupou o que, para ela, era importante.

    Dali para frente, foi ladeira abaixo com o tempo e as caligrafias.

    Casou-se com um tipo que portava relógios, mas não pelas horas. Era apenas status. O tempo, ali, não pulsava. Divorciou-se.

    Chegou a reconfigurar seus batimentos com os ponteiros do caixeiro, que deixara de ser viajante e assumira um relógio de pulso, herança de família. O tempo mostrou-se insustentável.

    Hoje, entre redes sociais, agendas repletas de tudo e nada, trabalho que se sobrepõe à vida social real, usa um smartwatch, como deve ser, no punho esquerdo. Pode escolher mostradores com ponteiros, números digitais, fusos horários — e o cacete a quatro.

    Criou um bloqueio com ponteiros. Leva segundos para responder, para si mesma e para quem lhe pergunta as horas, o tempo real daquelas agitadas três espadinhas inquietas. Do mesmo modo que se perde entre direita e esquerda se não move discretamente a mão com que escreve, pois perdeu a habilidade de escrever com ambas.

    Também mandou para as cucuias seus amores.

    Ainda assim, sonha com alguém que faça o tempo desacelerar. Como se ponteiros voltassem a fazer sentido. Como se direita e esquerda deixassem de ser um bicho de sete cabeças, mesmo que com sete pauzinhos dançantes formadores de todas as horas. O relógio — agora inteligente — não se vincula mais aos batimentos , embora literalmente os meça. Ela tira o relógio à prova d’água para entrar no mar.

    Continua senhora do próprio tempo. Nunca mais escreveu ou recebeu cartas.

    Passou a conter as multidões nos pulsos. Os batimentos que o relógio mede

    Tum tum
    Tum
    | dois
    Tum | três
    […]

    As mensagens que chegam
    [“Você tem novas notificações de mensagens”]

    , os ponteiros e os metamorfósicos números malabaristas de sete traços passaram a segundo plano; as cartinhas passaram a um plano outro, qualquer.

    Ainda assim, jamais esqueceu seus primeiros relógios.

    Na lembrança – ou no objeto, em si – tudo parece mais nosso:

    Mais palpável.
    Mais pulso.
    Mais real…

    Menos ‘digi-`
    Menos nomes descompassados pela metad.
    Menos fulano-de ‘-tal’.


    Notas de rodapé
    ¹ A outra História, romance da escritora franco-britânica Tatiana de Rosnay, publicado originalmente em francês sob o título Boomerang.
    ² Canção de mim mesmo, (Song of Myself), considerado marco da poesia moderna, escrito por Walt Whitman, publicado pela primeira vez em 1855 como parte da coletânea Leaves of Grass.

  • Match fatal

    Nunca tinha entrado em sites de relacionamento, mas naquela noite decidiu experimentar. O universo digital estava ali, ao alcance de um clique — por que não se aventurar?

    Ouviu dizer que era uma forma infalível de conhecer mulheres disponíveis. Bastava preencher alguns parâmetros, fazer a triagem virtual e pronto: nada de encontros no escuro, indicados por amigos bem-intencionados que terminam em desastre. Pior ainda: depois a pessoa já sabe seu nome, seu telefone e é conhecida de conhecidos… difícil se livrar.

    Escolhido o site, passou ao checklist da mulher ideal:

    • Idade: 25 a 35 — jovem, claro.
    • Magra, bonita, cuida do corpo — o visual é essencial.
    • Exercícios pelo menos 3x por semana: musculação, pilates, bike, corrida — alguém que acompanhe seu ritmo.
    • Superior completo, pós desejável — pelo menos um mínimo de cultura.
    • Português perfeito, inglês ou outra língua — viajar sem virar tradutor.
    • Profissão com cargo gerencial ou acima — mulher independente, bem-sucedida.
    • Hobbies: leitura, viagens, culinária, dança, cinema, teatro, música — parceira para todas as horas.
    • Procurando relacionamento sério, mas sem compromisso — casar, nem pensar.

    Confiante, clicou em “salvar”. A sorte estava lançada.

    Likes e mensagens começaram a aparecer rápido, acompanhados de fotos promissoras. Empolgado, abriu a primeira. Choque: preenchia quatro dos sete requisitos, mas escrevia com erros de português, curtia funk e vivia da renda de aposentadoria do pai falecido. Nada contra — mas não era o perfil. Descartada.

    A segunda parecia perfeita no papel, mas pela foto não fazia exercício há anos, estava bem acima do peso e queria apenas uma transa. Fora. A terceira, impecável no checklist. Só que buscava um homem de até 40, malhado, baladeiro. E ainda fumava. Nem pensar.

    Assim seguiu, descartando uma a uma. Até que parou para refletir: será que o problema era o algoritmo ou o próprio perfil que ele montara? Releu os requisitos com atenção.

    Tudo parecia essencial… ou será que não?

    Depois de muito pensar, aceitou flexibilizar um ponto: a idade. Alterou de 25–35 para 40–50 anos. E esperou.

    Logo surgiram várias opções. Uma delas, segundo o site, com 100% de afinidade. Ansioso, clicou para abrir.

    E qual não foi sua surpresa: cara a cara com a ex.

  • Poema #17: Quem é poeta quem é vigia

    Soldado canta triste
    Sentinela!
    Quem é poeta?

    Vento que presta
    Barco a vela

    Quem é poeta?

    Pescador lança triste o anzol
    Poeta!
    Quem é vigia?

    Vento que espia
    Amor que esfria

    Quem é vigia?

    Moça olha triste o céu
    Espera.
    Quem é poeta?
    Quem é vigia?

    Vento que presta
    Vento que espia
    Barco a vela
    Só poesia.

  • O talento dos outros

    Tenho imensa gratidão pelas pessoas que fazem aquilo que não sei ou não gosto de fazer. Cozinhar, ainda que a contragosto, é possível, mas fazer meus próprios sapatos está fora de questão.

    A lista das profissões que me atraem é infinitamente menor do que a lista das outras; e entre as que me agradam para várias falta-me a devida competência. Não levo jeito para uma porção de coisas a despeito de apreciá-las muitíssimo.

    Ballet é a perfeita tradução desse desencontro entre desejo e capacidade: sou desajeitada por completo e morreria de fome se tivesse que ganhar a vida dançando. Ao menos possuo a humildade de reconhecer que, embora me fizesse feliz, dançar não é uma atividade ao alcance das minhas aptidões. Ponto para mim: com frequência vejo gente desperdiçando seu verdadeiro talento ao insistir em ser aquilo que não é. Às vezes a natureza nos faz cair nessa armadilha de suspirar pelo que não nos convém.

    Detestaria ser médica, advogada ou costureira, mas preciso imensamente desses profissionais e de tantos outros. Gratidão profunda.

    Por outro lado, números e lógica não me assustam. Ao contrário: estudei matemática que considero uma das mais gloriosas manifestações do espírito humano, senão a maior. Poderia igualmente ter sido diretora de teatro ou roteirista de cinema, mas a necessidade de sustento falou mais alto; quando se escolhe a profissão é aconselhável ter um olho no talento e outro na sobrevivência.

    Não gostaria de ser engenheira, no entanto seria boa arqueóloga, adoro ruínas históricas. Pois é.

    Já que hoje não é o dia internacional da modéstia, vou marcar outro ponto positivo para mim: apesar de ter consciência de que, mesmo naquilo em que posso contribuir para a humanidade, estou longe da genialidade, admiro genuinamente os mestres. Faço a minha parte, equilibrando-me entre o ideal e o possível e sou feliz assim.

  • COMPULSÃO

    Elisa sempre quis ser advogada. Formou-se bacharel em Direito e exerceu a atividade jurídica durante quatro anos numa firma de advocacia, especializada em Direito Familiar. Após a graduação, passou em concurso público para ocupar o cargo de Juíza Substituta. Começou a atuar ao lado de um Juiz Titular, para adquirir experiência. Depois de cinco anos, foi promovida a Juíza de Direito.

    No seu fazer cotidiano, lidava com divórcios amargos, disputa por guarda de filhos e acusações de violência doméstica. Era obrigada a conviver com decisões sobre pensões alimentícias, investigações de paternidade e partilha de bens. Aos poucos foi se sentindo exaurida e descrente no ser humano.

    Nunca se soube se por estresse natural do ofício, por concentração excessiva no trabalho ou mesmo por sua natureza, desenvolveu um transtorno mental crônico: o desejo irresistível e irracional de furtar coisas. Em geral, objetos desnecessários e de preferência com baixo valor comercial. Estava cada vez mais complicado controlar seus impulsos. Eram estojos de anzóis, sem que ela tivesse a mínima intenção de sair para pescar; bolas de tênis sem nunca ter segurado uma raquete; mamadeiras e brinquedos de criança, sem que pudesse engravidar ou pensasse em adoção. Enfim, uma obsessão descabida. Ainda mais para uma Juíza de Direito de uma Vara de Família. E isso a estava deixando, com razão, preocupada.

    Durante as audiências, via os rostos dos réus e dos advogados com seus olhares acusadores, como se soubessem de sua mania de furtos ocasionais. Vieram a seguir os constantes pesadelos, sendo flagrada, julgada e sentenciada como uma ladra contumaz. Sua foto nos jornais e na tevê. Escândalo.

    Aquilo precisava ter um fim. Sabia que seu problema tinha cura com medicamentos e psicoterapia, mas a vergonha era maior. Como imaginar uma Senhora Juíza de Direito reles gatuna. Teria de se livrar daquele infortúnio sozinha e do seu jeito. Na marra.

    Os esforços foram inúteis. Numa loja de souvenirs pegou um daqueles modelos da estátua do Cristo Redentor para turistas e colocou na bolsa. Surpreendida pela funcionária da loja, disse que havia se esquecido de ir ao caixa pagar.

    Na semana seguinte, saía de um restaurante sem pagar a conta. O garçom a conhecia e não ousou ir atrás. Na certa, a Juíza tinha se esquecido e voltaria. Elisa não retornou.

    Os atos compulsivos cada vez mais frequentes. Era forçada a admitir que a cada pequeno roubo sentia um grande alívio emocional.

    A Excelentíssima Juíza sofria e não enxergava uma saída.

    Durante uma sessão, deu a guarda de uma menina de oito anos a um pai suspeito de ser abusivo, somente por que a mãe usava a menina para efetuar pequenos roubos. Como uma autopunição. Os colegas começaram a notar que Elisa aparentava oscilações de humor e parecia distante. Eram evidentes seu cansaço e falta de motivação.

    Elisa decidiu procurar um clínico geral e ouviu dele que talvez estivesse padecendo de síndrome do esgotamento profissional. Burn out. De resto, a saúde ia bem. Receitou-lhe comprimidos para reduzir a compulsão e que tirasse uma licença para descansar.

    Elisa resolveu viajar. Sair do país, esquecer seu trabalho, as responsabilidades, dar uma escapada desse mundo. Não iria mais se policiar. Chega de cobranças, basta de comportamentos repressores. Soltar a franga.

    Decidida, Elisa entrou num shopping para comprar uma mala nova para a viagem. Depois de procurar, pegou uma Sansonite vermelha, último lançamento, uma belezura. Com toda a classe de Juíza, saiu sem pagar com calma e elegância, como se aquela mala de rodinha naturalmente já lhe pertencesse. Segundo o Artigo 331 do Código Penal Brasileiro, daria ordem de prisão a quem a acusasse de qualquer delito típico caso de desacato à autoridade. A Excelentíssima Juíza Elisa tinha pensado bem e decidido: perderia de vez o juízo.

  • Duas sessões: um respiro, apesar de # e @

    Quanto mais Inteligência Artificial, maior a cobrança por performance, por entrega, por prazos que já deixaram de ser humanos. O mundo segue tendo seus ciclos — noite e dia, dias que viram semanas, semanas que viram meses — e, num piscar de olhos, os anos passam. A urgência urge.

    Respirar é um ato de vida: ar que entra, ar que sai — e, nesse intervalo mínimo, quase imperceptível, algo em nós se reorganiza. Quem já parou para meditar sabe: criamos espaço.

    Sem esgotar nenhuma reserva biológica, sem aumentar a pegada de carbono — apenas respirando c-o-n-s-c-i-e-n-t-e-m-e-n-t-e… Pensar que passamos a vida tentando criar espaços no mundo — eu, literalmente, como arquiteta e urbanista — enquanto esquecemos que o primeiro espaço possível é, simples e essencialmente, o que cabe entre uma respiração e outra.

    Presença.

    Meio óbvio, né.

    Infelizmente, não.

    Não se trata da presença velada que registramos aos quatro cantos cibernéticos, marcando arrobas e hashtags sem fim. Presença mesmo. Analogissíssima.

    A nossa conosco | A nossa com o outro |
    Com os outros.

    Nada de conversinhas solitárias mediadas por telas brilhantes.

    Tive o privilégio de perceber isso ontem, sábado. Do fundo de uma sala lotada, com visão panorâmica do público e dos comandos de som e iluminação – ainda fui a responsável pelo soar das campainhas.

    Reestreamos nossa curta temporada de “Sem verba, com drama”, na Usina Cultural Energisa, em Nova Friburgo. Segunda temporada, com uma única sessão prevista.

    Prevista.

    A gente sempre acha que teatro não vai lotar. A minha cidade – celeiro de artistas, reconhecido mundo afora – ainda tropeça numa carência básica brasileira: falta formação de plateia. Daí, pelo receio de não lotarmos um teatro de apenas 100 lugares, o elenco começou a pedir confirmações de amigos, amores (que, compulsoriamente tornaram-se parte da equipe) e parentes. Eu fiz o mesmo. Se cada um garantisse alguns poucos espectadores, alcançaríamos uma base mínima. Quando redigimos a lista final, para deixar na bilheteria, percebi, entre o êxtase e o desespero, que já não havia mais lugares disponíveis.

    — Buuuum! Conflito interno!

    (A vida imita a arte ou é a arte que imita a vida? Essa fala é do roteiro e explica todo o nosso dilema).

    Na entrada, Felipe, o guardião das chaves da Usina Cultural, me informa novamente que, desde o dia anterior, pessoas perguntam pelos ingressos…

    Como receber o público orgânico sem espaço?

    Liguei para a diretora da Usina e pedi, quase sem jeito, mas introduzindo que era uma questão maravilhosamente boa e… talvez nem tanto assim…., a necessária possibilidade de abertura de uma sessão extra, logo em seguida.

    — Problema bom de resolver — ela me respondeu — Me dê uns minutos.

    Avisei o elenco:

    — Provável que tenhamos duas sessões! — abri a cortina da coxia/ camarim e soltei a bomba, assim, sem prepará-los.

    (Ser positiva, firme e aumentar as borboletas no estômago dos atores é o grilhão dos diretores de teatro). Os atores, notoriamente, foram à loucura. Frenesi e dor de barriga: combinação perigosa para uma estreia.

    Deem seu jeito com o emocional, complementei. Viver de arte no Brasil é isso: sem verba, com drama — e sem o luxo de perder oportunidades.

    Deu certo.

    Entre um baby liss e uma passada de rímel, uma outra de texto, pára tudo para novas chamadas com o breaking news para as redes sociais:

    “Nem liberamos os ingressos ainda… e já lotamos! Notícia fresquinha: temos mais uma sessão!”

    Holofotes, microfones, impostação de vozes, movimentação mantendo o equilíbrio do palco.

    Risadas… muitas.
    Crianças no colo, um mar de gente esperando.
    Gente se encontrando.

    Recepcionar o público, desejar bom espetáculo, subir ao palco e dar boas vindas com uma claquete em punho, dar uns informes e já arrancar umas gargalhadinhas humildes me fez perceber que todo mundo ali estava… presente.

    Sem o celular roubando completamente a atenção, e apesar deles, porque não são outro que próteses em nós, a produção (concentrada momentaneamente na minha pessoa, também — ser multifunção é também premissa de quem faz teatro) liberou o uso dos aparelhos, em modo silencioso e sem flash, desde que usassem os QR codes espalhados por todos os assentos para marcar a rede social do espetáculo.

    Silêncio e gargalhadas. Olhares atentos. Todos respirávamos juntos.

    Durante cinquenta minutos, três atores seguraram duas plateias inteiras. Poderiam estar em qualquer outro lugar — num evento de cerveja, que acontecia ali pertinho, num bar, em casa. Mas escolheram estar ali. Se arrumaram
    para estar ali.
    Assistindo.
    Vivendo.

    Uma criança de dois anos e meio chorou na cena final, enquanto os atores esgoelavam-se aos prantos e berros, exagerada e cômicamente, por serem despejados.

    Talvez o teatro ainda seja uma das formas mais bonitas de ir contra a corrente de um mundo que anda apressado demais para perceber que O₂ não é pauta.

    É vida.

    Infelizmente, e só de vez em quando, a gente lembra.

    Na fila de entrada. Na saída. No riso compartilhado com desconhecidos. No olhar que encontra outro olhar – talvez pela primeira vez em uma semana inteira observando telas.

    Pequenos gestos, desses que quase passam despercebidos, ainda nos provam que as -pessoas seguem sendo pessoas, não meros
    ecos silenciosos da tecnologia.

    Ainda respiramos
    Ainda nos emocionamos.
    Ainda nos deixamos sentir, refletir e sorrir.

    “Só a arte salva”, dizem.
    Talvez nem tanto; apenas o suficiente.
    De quando em quando, é o teatro que nos
    mantém na humanidade.

    Termino com uma frase que li e se entranhou pelas minhas veias, nos primórdios de 2007, na parede do SATED-RJ, quando, fui tirar meu registro de atriz.

    “Tratai bem os atores, pois eles são a crônica e o breve resumo dos tempos”.

    Shakespeare. Sempre atual.

    A arte é esse emaranhado bonito que insiste em nos lembrar de quem somos.

    Respiremos.

    E viva o teatro!

  • Vigília

    O relógio marcava três da manhã. Maria Augusta se revira na cama pela enésima vez. Maldita insônia. Olha agora o teto do quarto e procura entender por que não dormia. Luzes apagadas, silêncio, tinha acordado cedo, sentia-se cansada, mas o infeliz do sono não vinha.

    Havia contado ovelhas que pulavam uma cerca invisível. Desistiu quando elas começaram a querer dançar uma rumba em vez de saltar. Devia estar ficando louca ou as ovelhas mancomunadas com sua insônia.

    Trabalhara o dia todo no escritório, lidando com prazos impossíveis e um chefe boçal. O jantar leve, filé de frango e salada. Dez da noite desligou a tevê e silenciou o celular. Antes de deitar, um chá de camomila para garantir. Maria Augusta era contra remédios tarja preta. Temia a dependência. Já era dependente de tanta coisa….

    No meio da cama, de olhos abertos acostumados à escuridão da noite, revivia erros do passado: aquela briga com a amiga anos atrás, o projeto que dera errado. As sombras nas paredes ganhavam vida e transformavam-se em monstros de arrependimentos.

    Cogitou mudar seu nome de Maria Augusta para Maria Sônia. Insônia. Sorriu do seu senso de humor fora de hora. Mais apropriado seria chorar…

    Levantou-se para ir ao banheiro, pés frios no piso gelado. Fez xixi, e nem estava com tanta vontade. Foi até a sala, olhou pela janela. Teve a sensação de que a cidade inteira dormia. Uma quietude perturbadora. Respirou fundo, focando no ar que entrava e saía dos pulmões. Podia ser imaginação, mas pareceu ouvir um ronco ritmado vindo de algum apartamento vizinho. Morreu de inveja.

    Saiu da janela, foi até a cozinha e preparou um copo de leite morno. Dizem que acalma e faz dormir melhor. Para ela o efeito foi contrário: sentiu-se como se estivesse pronta para uma maratona.

    De volta à cama, deitou-se. Ligou o abajur e pensou em pegar um livro. Que não fosse um romance. Vai que se animava com a leitura e passava o resto da noite lendo. Melhor um de contos. Escolheu um antigo do Dalton Trevisan. No segundo conto, pareceu pressentir o sono querendo chegar. Ligeiro, desligou o abajur. Alguns minutos e, ao longe, começou a ouvir um som estranho, alguma coisa que se assemelhava a um ritmo repetitivo. Batuques. Um desventurado acabara de colocar um funk àquela hora. Acendeu a luz e olhou no relógio: quatro e meia da manhã. Não quis acreditar. Pensou em reclamar, ligar para a portaria. Mas desistiu. Apagou a luz, deitou-se novamente e colou o travesseiro nos ouvidos, mas o som parecia se infiltrar e crescer. Aquilo não podia estar acontecendo. Devia ser um complô organizado para impedi-la de dormir. O pior – se ainda pudesse haver um pior – em sua mente raivosa, agora Maria Augusta via ovelhas que dançavam ao ritmo do batidão.

  • O corpo de palavras

    O corpo de palavras é o poema e o conto e a crônica e o romance.

    O corpo de palavras. A palavra serpenteia, ondeia, se insinua e, nua, causa alvoroço no poeta, no romancista, enfim…

    A palavra e o corpo. O corpo de palavras por si só basta. E afasta.

    E afasta as coisas e o mundo e a realidade. Pensa ser real. Quer se aproximar do real. Mas não é. É corpo.

    Corpo de palavras que se fazem e se desfazem e se querem e se afastam.

    E afasta.

    E por si só bastam. Basta a palavra.

    O corpo de palavras é o ruído e a canção antiga e o bolso furado e o vento e a tempestade e o mar. As ondas e o mar e a palavra. As palavras. O corpo de palavras. O corpo apenas: só, mudo, nu, translúcido…

    E os dedos que se manifestam no momento da escrita seguram forte a pena e colorem, descrevem, enriquecem, dão forma a um mundo.

    Eu sou um corpo de palavras.

    Eu sou um mar de palavras. Eu sou um céu de palavras.

    E escrevo em mim e navego em mim e voo em mim. Uma escrita inteira, uma viagem entre os vagalhões e um risco no ar.

    O corpo de palavras basta e afasta e arrasta tudo e todos.

    E engole a si mesmo para, em seguida, fazer novo mundo, fazer novas as coisas, fazer novo corpo.

    E sou eu que me refaço no instante da escrita.

    Continuamente…

  • Alienação facial

    Ontem sonhei com o E.T., aquela figurinha de cara achatada do filme de Spielberg, lançado no Brasil em 1982. Um alienígena do bem, de rosto triangular, boca rasgada e grandes olhos azuis. No meu sonho, ele tinha voltado ao seu planeta para relatar como andava sua missão: transformar todos os habitantes do planeta visitado em criaturas à sua imagem e semelhança.

    Assustada, procurei me distrair um pouco com a televisão para conseguir pegar no sono novamente. Mas o que vi me fez esfregar os olhos — certamente ainda não tinha despertado o suficiente, pois lá estavam as carinhas triangulares circulando alegremente, dando as notícias da madrugada.

    Corri para lavar o rosto com água fria e mudar de canal, porque, por alguma brincadeira macabra da memória, a tela parecia refletir meu sonho — aquelas moças do noticiário não podiam ter se transformado em alienígenas.

    Tentei então assistir à reprise de um capítulo recente de novela. Boa opção: ali, certamente, as atrizes estariam caracterizadas de acordo com seus papéis e o pesadelo estaria desfeito.

    Senti a cabeça rodar.

    O que apareceu foram minhas conhecidas de longa data, exibindo os mesmos rostos triangulares, sobrancelhas altas e arqueadas, bocas rasgadas, olhos esticados.

    Aquilo me perturbou a ponto de decidir me afastar completamente daquela visão grotesca. Sem dúvida, minha retina estava reproduzindo na tela da TV os efeitos do pesadelo com o E.T.

    Para cortar de vez aquela ilusão de ótica, fui dar uma olhada nas últimas notícias, e lá estava uma seção inteira dedicada à aparição da megastar Madonna no show de Sabrina Carpenter, no Coachella.

    Coloquei e tirei os óculos várias vezes, pensando que talvez meu grau de miopia tivesse aumentado. Nada feito. A imagem do alienígena continuava a me atormentar.

    Assim como aquelas figuras da televisão, tanto a estrela pop de 67 anos quanto sua companheira de palco, que acaba de completar 26, pareciam moldadas na mesma forma: maçãs do rosto salientes, boca rasgada, olhos arregalados, pele de tamborim — marmorizadas a tal ponto que pareciam ter quase a mesma idade.

    Não restavam mais dúvidas: a missão do E.T. estava sendo cumprida.

    E ele havia começado pela transformação das mulheres daquele primeiro batalhão chamado antigamente de líderes de opinião e agora de influencers.

    Essa onda logo atingiria as mulheres comuns — se é que muitas já não tinham sido abduzidas pelo visual padrão da nova era. E eu?

    Quis correr para o espelho.

    Num susto, abri os olhos.

    Ufa.

    Eu nunca tinha saído da cama.

    Então era tudo apenas o pesadelo… do pesadelo.

  • Venerandas folhas amarelas que não são do outono

    E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos.

    Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase oleosas, alguma poeira, nada além. Era só àquela hora da madrugada, dentro do sebo que herdara da bondosa vizinha solitária — a que fazia bolos, a chamava de neta e a ensinara a usar o forno do seu fogão.

    lia.

    Seu nome e a ação que mais repetia nos fins de semana, enquanto seus iguais, de mesma geração, saíam para trocar papos, beijos e telefones. Preferia o silêncio e a rinite que se seguia às lágrimas após terminar outra capa gasta pelo manuseio de tantos dedos. O silêncio era violado apenas pelo som das páginas sendo viradas e pelo zunido da lâmpada âmbar que incandescia o ambiente.

    lia e escrevia; palavras rabiscadas em post-its, em folhas de rascunho, jamais nos livros.

    — “Já amanheceu”, percebe.

    A escuridão não ousou atravessar o translúcido vitral para além da janela.

    Ouve acordes clássicos, mas não há toca-discos, nem som, tampouco Spotify (costuma desligar-se do mundo ao dormir entre autores tão distintos). A tinta da caneta esferográfica continua:

    Não molhei as plantas
    nem levantei da cama
    ambos, os três, ausentes

    como se o dia não me chamasse pelo nome
    ou eu já não atendesse-entendesse

    Abri os olhos
    permaneci
    presa na inquietude dos pensamentos,
    único ruído possível
    no mar quieto
    das palavras que dormem sem vento

    Lá fora, talvez escureça
    talvez eu que me apague

    antes que a luz aconteça

    Talvez se ouçam pneus,
    pessoas que passam correndo,
    respiros curtos,
    solas riscando o tempo
    indo, vindo, indo, vindo
    como se soubessem
    onde termina um [qualquer] momento

    Já amanheceu,
    dizem sem dizer as horas sem voz
    Eu escureci antes,
    por dentro de mim,
    antes de nós

    Não defini o que comer
    se almoço, se jantar
    um desjejum suspenso
    no gesto de não escolher
    o que sustenta continuar

    Escureceu
    repentinamente
    como um corte no dia
    ou uma fenda da mente

    Isso — um trovão?
    ou o mundo desabando em vão?

    Já escureceu
    E, mesmo assim,
    insiste
    quase teimosia
    um novo dia
    dentro e fora de mim

    lia.

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