Domingo

  • REINO ANIMAL

    A primeira vez que Joana trouxe um sapo para casa foi um alvoroço. A família não sabia como agir, a menina tinha só cinco anos e uma afinidade especial com os bichos. Até quis levar o sapo para dormir com ela. A muito custo, conseguiram convencê-la de que o sapo precisava voltar para casa dele a fim de se despedir dos amigos.

    Depois do sapo, foi um pintinho da feira, que acabou virando frango e morreu de estresse. Um jabuti habitou a banheira da casa apenas uma semana, provavelmente morto por engasgo com um pedaço de couve. Até uns micos que passaram a frequentar a janela da casa, atraídos pelas bananas que Joana ofertava, ela quis domesticar. Terminou ganhando uma Yorkshire, toda branquinha, que levava escondida para a escola na mochila. Recebeu o nome de Algodão e viveu quase dez anos, falecendo de problemas respiratórios.

    Adulta, morando sozinha, desenvolveu uma fobia de convívio social. A humanidade para ela não tinha o menor sentido. A natureza e os bichos eram seu derradeiro conforto, focada no resgate, reabilitação e adoção de animais. Joana não podia ver nenhum animal abandonado, que cismava de adotar. Para amenizar a saudade da Algodão, pegou um vira-lata, misturado com poodle, com pelos na região do focinho. Deu-lhe o nome de Jânio.

    O primeiro gato adotado foi o Cazuza, um siamês magrelo, quase esquelético, mas uma simpatia. Festivo até demais para um felino. Sempre carinhoso, a não ser quando tinha acessos de tosse. Logo a seguir, veio a Alcione, gata de pelagem marrom, sem pedigree, traumatizada e arredia. Desconfiada com estranhos e de hábitos noturnos, interagia pouco, sempre escondida pelos cantos da casa. Devia ter sofrido maus tratos antes de ser resgatada por Joana. Alcione vivia às turras com Cazuza, mas não se separavam. Adoravam ficar se implicando. Alcione, mais encorpada, levava vantagem.

    Jânio não se misturava. Sua missão era vigiar a porta, atento a quem entrava e saía. Não era de latir. Um cão silencioso e observador, talvez por isso se desse tão bem com os gatos.

    A chegada de Agnaldo causou uma certa surpresa. Um periquito-australiano que aparecera do nada na janela. No início, temeroso, foi aos poucos se enturmando e virando hóspede. Atrevido, não deixava em paz os gatos e dava voos rasantes pela casa. Joana era contra gaiolas, achava que todas as aves deviam voar livres. Agnaldo tinha a sua gaiola com a lateral totalmente aberta. Na verdade, só entrava para se alimentar e matar a sede. Tinha o estranho hábito de dormir com Jânio.

    O desafio maior foi com Eurico, o hamster abandonado. Quando o achou escondido num bueiro, largado à própria sorte, Joana não pôde resistir e o levou para casa. Todos os moradores o receberam com afeto e curiosidade. Cazuza cuidou de sua higiene e Alcione, com seu instinto materno, adotou o pequeno roedor. Jânio apenas observava e Agnaldo nunca chegava perto. Talvez estivesse prevendo o que viria a seguir.

    Eurico foi crescendo e se transformou. Endiabrado, corria atrás dos gatos e do Jânio para morder. Nem o Agnaldo escapava. Sonso, toda vez que Joana chegava em casa, o danado fingia se comportar.

    Ainda assim, aquele lugar era bom de se viver. Joana e seus amigos bichos, família reunida e feliz. Ela não mostrava nenhuma surpresa, já que todos ali, diferente dos seres humanos, comportavam-se como animais. Cada um tinha a sua história de abandono, mas nos olhos de Joana encontravam um porto seguro. Ela costumava dizer que humanos perdiam tempo tentando ensinar os animais, quando deveriam sentar e aprender com eles.

    Até que Joana perdeu o controle. A coisa toda tomou ares de minizoológico: pelo apartamento agora circulavam mais oito gatos,
    iguanas, um casal de furões, uma chinchila sem rabo, dez cágados e uma cacatua com o bico quebrado.

    Ninguém mais se entendia. Um dos gatos, recém-chegado, comeu o hamster. Eurico saiu pela janela e nunca mais voltou. O casal de furões cismou com Jânio. A chinchila não parava de dar guinchos agudos de meia em meia hora. Podia marcar no relógio. Talvez estivesse sentindo dores ou por implicância mesmo. Chinchilas são assim, meio conflituosas. Joana não tinha mais sossego. A cacatua, com seu bico partido, definhava por não ter como se alimentar. Os cágados a tudo assistiam passivamente, como todo bom cágado. Com aquela confusão, Jânio passou a latir para todos que passavam pelo andar. O síndico foi chamado. Os vizinhos reclamavam do barulho e do mau cheiro.

    O siamês Cazuza, angustiado, tentou saltar da janela e ficou preso o parapeito. Alcione miava em desespero. O Corpo de Bombeiros foi acionado e Joana se juntou a eles, se apresentando como ativista dos direitos dos animais. Os moradores ensaiaram uma vaia e o síndico ameaçou denunciá-la. Acuada, Joana tentou se justificar: até Noé tivera problemas com o excesso de bichos na arca.

    Estava cansada. Chegou à conclusão de que, tanto quanto a humanidade, o reino animal ia pelo mesmo caminho. Más influências, não havia dúvida.

  • Mortos, vivos, morcegos e frutas | pausa (in)disponível

    Uma mesa impossível: um tampo que não é firme (minha cama); três cadeiras – eu, que me sento com as pernas esticadas e sobrepostas. Uma única taça de vidro (a que comprei no mercado, porque na minha casa de areia temporal em quase formato pirâmide não tinha nenhuma) com o vinho (o que dividi há duas semanas, hoje esvaziado com outros – é preciso beber do mesmo lugar, a cama).

    De maneira quase indecente, Hilda Hilst e Victor Heringer se juntam a mim nesse ménage a trois de escritores, dois mortos. Um ménage literário com os vermes, os últimos íntimos de suas carnes: memento mori. Bebemos da mesma taça; espero em vão roubar seus segredos – eles, um pouco do meu sangue latente, latindo.

    Desejo de um maracujá azedo. As papilas da minha boca incendeiam-me os circuitos internos com água e um cheiro que vem, não sei bem de onde. Um sibilo ressoa acima de tantas cabeças errantes em frente à calçada escura, sem poste de luz; mendigos na encolha do recuo da arquitetura, motoboys a postos. Tudo, em sua pequinês, grande o suficiente para tornar a cena estranha e noturna. Sem querer, o morcego pausa meu caminhar, já há três meses no automático.

    “Pausa indisponível”.

    Hilda, com um vestido ficcional, segura a minha taça como se dela fosse íntima, conhecendo-a inteira. Victor, em uma camisa de linho desalinhada, olhos verdes que guardo em minhas próprias retinas, olha como quem já viu demais das entranhas e das superfícies do (meu) mundo; toma a taça. Passa a língua sobre os lábios, sem levar o vidro a eles, e fala o que não sai da sua boca, mas da minha atrevida invencionice noturna:

    — O que você quer roubar dos segredos que levamos, hein, mocinha?

    — Propriamente os inteiros que se encerraram em vocês — respondo. Ele me entrega a taça; a borda fria, suas mãos vaporosas, quase estilhaços, não fosse eu me ancorar à realidade no último segundo. O peso da hipótese não cabe mais em perguntas.

    — E o que nos propõe, em troca? — Hilda toma-me a taça e quase a esvazia de um gole imenso.

    — Minha centelha — e não sei se o que soa é o sorvo do vinho, um arroto interno em forma de desespero ou simplesmente o silêncio que me cutuca o pensamento.

    — A centelha é quase nada — Hilst ecoa um riso que pode ser mar ou a ponta de uma faca.

    — Não queremos a centelha; queremos o incêndio que ainda não aconteceu.

    Os dois tomam a taça das minhas mãos. Por um instante que parece durar mais do que toda a minha vida, sinto os lábios dos dois se encontrarem no mesmo vidro que o meu. Bebem do meu tempo, do que ainda não escrevi, do que não vivi direito. A luz sobre a cama pisca; num reflexo, ambos se foram. Deixam, para além da superfície brilhante, um gole seco de palavras, como o vinho que ali figurava minutos antes.

    Ainda não nasceram.

    A cama já tem menos colchão vazio do que nunca; penso em mandar uma SMS para Lewis, só porque ele está deliciosamente disponível no cômodo ao lado. Deixemos o Diabo no outro quarto.

    Lá me vem o Prime Vídeo com uma dessas, passadas 22h de uma noite que exauriu o dia — ou foi o dia que, estendido, invadira a noite anterior? Sabe Sísifo, empurrando a pedra? Sou eu com as noites, dias adentro.

    Assisti a “The Drama”, uma tragédia sinistra que, não sei bem o porquê — ou sei —, sentou-se ao lado do último livro que li, “A menina que não sabia ler”. O que pode caber dentro de uma pergunta despretensiosa – ou nem tão assim – sobre o que você já fez de pior na vida? E o que acontece quando alguém que nos ama sabe o que foi isso?

    Charlie enlouqueceu. Theo morreu, de susto, medo e asma.

    O morcego, ao passar, me fez perceber as duas pistas que cruzo diariamente.

    São apenas e as mesmas duas. Para vir de casa para o trabalho é rápido: minha face desarma os portões e me lança ao passeio público. Olho para a esquerda; logo em seguida, é possível atravessar.

    A segunda pista, contígua — seria parte da primeira não fosse um salpicado de grama esturricada pelo sol da zona Norte —, é mais complexa. Os carros vêm da direita, em alto fluxo. Demanda tempo.

    A grama chinfrim é minha pausa cotidiana, e, mesmo assim, toda a travessia me demanda menos de cinco minutos.

    Aí, leio Hilst:

    Um parágrafo rotineiro desses colóquios de dois que são um pelas convenções, pela intimidade e pelo tédio ordinário da vida. Não sei por que caminhos da minha mente-floresta-tropical ele me leva a redigir estas linhas:

    “É lindo completar com vida uma outra vida. Isso é a beleza Cda gravidez; tudo síntese, tudo caos, paz, expectativas e não. Ausculto o coração incipiente.

    Nada.

    Em quantos dias se forma o coração? O que se forma primeiro, após a fecundação do óvulo? Por que a mulher se perde nesse molho feito a dois, de si?”

    Do aparelho televisivo de LED, fixo à parede em frente à cama, me dizem que o cérebro se forma somente após os 25 anos.

    Coração, então, quando é que se firma?

    Não quis pesquisar. Há certas coisas na vida que não demandam respostas; caem mais leves como a falta de letramento dos que apenas vivem.

    — Ignorar uma pergunta também é falta de respeito.

    — Aquiete a língua, morto. Termine o vinho.

    — Acabou.

    Cusparada póstuma.

    Levantaram a cabeça, tensionados. Silêncios de toda uma vida num hífen; cospem o vinho numa gargalhada. Filhos da mãe… — Será que a mancha no lençol de elástico é um desses resquícios?

    A oração não fecha. Algumas orações subordinam; outras, dirigimos aos mortos: mãos unidas, dedos para o céu.

    A palavra não ama. O amar talvez não caiba no sucinto grafo de concordâncias humanas para ninguém.

    Ao segurar as alças da minha mochila, que já se agarram aos meus ombros para o caminho de casa, a travessia entra no segundo tempo; os lados do campo se invertem. A direita agora é à esquerda e vice-versa?

    Parece que todo mundo quer ir, agora. Mas quase ninguém quer verdadeiramente voltar, ainda que a calçada do meu destino esteja repleta de mesas com quatro esperas de cadeira em cada.

    Tomei, no provador de uma loja de varejo concorrente, o café que fiz para a obra e esqueci de beber. Experimentava uma calça jeans com margaridas. Não a comprei. O aroma do café chegou às cabines limítrofes. Ri e bebi da ousadia.

    Mãe natureza, Hilda Hilst, Kristoffer Borgli, Victor Heringer, John Harding e Bia Mies resolveram comer pipoca enquanto as unhas pintadas do vermelho “padrãozinho para quem” secam na liberdade de extravasar as unhas para as cutículas, sem limpeza.

    Vida longa às crônicas crônicas, que não têm remédio além da melancólica e estonteante poesia!

    Abro a porta da geladeira e lá está, a saliva na ponta da língua, o lustroso da forma amarelamente arredondada a se oferecer para mim, assim, sem pudor algum. E, ao invés de querê-lo mais, percebo a ruguinha escondida na curva que dá para as suas costas.

    — Será que o maracujá todo murcho se acha desajeitado? Avulso? Fora da fruteira? Old school & fashioned , propriamente falando? E será que o liso, no refletir da energia interna, percebe que não dá um bom suco, ainda?

    Eu, que não quero pensar no avançar do tempo, dei com ele, há parcos dias, nos primeiros três cabelos brancos que apareceram assim, unidos | um corte à navalha na realidade. Sinais dos trigêmeos à vista que tanto desejo? | Acabo por me encarar no espelho e repetir aquilo com que toda a minha geração de millennials se ilude:

    — Eu só tenho 27, todo mundo concorda.

    Desafio as madeixas, que resolveram brincar de esconde-esconde na nem tão mais vasta cabeleira de outrora. Outrora, nada. E quem nada é a mobelha negra num mar hilstiano. Recolho os remos.

    O morcego ronda as minhas janelas. O sibilo ressoa novamente. A ave preta e fashion, em algum canto, solta sua risada demoníaca. Thoreau entenderia – espero.

    Theo, Florence e Giles estarão seguros, brincando de pique-esconde e beijo roubado entre as páginas, antes que o próximo leitor chegue ao seu fim. O final do drama é a outra face da máscara.

    Tudo vai bem.

    O coração, (s)em idade; cérebro, louco aos 22. Numerologia lunática. Meus três fios prateados são um charme que ainda espero rever no espelho. Mesmo que tudo isso aqui não passe de um sonho interrompido. “Pausa indisponível”.

    — Encapsulei a vida?

    A taça está rasa das palavras, que se foram todas neste correr da tela; só me resta a Fanta preta, comprada nas Lojas Americanas. Pura curiosidade mórbida; blasfêmia a todos os santos.

    Estalo o lacre. Preencho a taça.

    (derrubo um pouco na varanda para algum com sede).

    Mais um líquido vermelho-sangue-escuro, agora borbulhante. Carmesim.

    Gosto de batom. As borbulhas ressoam entre os dentes, bocca chiusa. O sabor encontra o sólido da boca e marca o carmim na taça. Pela primeira vez, por fim, alguma evidência da noite.

  • Poema #19: Presente

    O presente vivido é quase o infinito…
    o presente amado a eternidade incompleta.
    Ridícula a angústia, o cansaço tolhido,
    começo de caminho, meia-volta discreta…

    Ansiedade é pequena eternidade no presente,
    pedras e esforço inútil, chamado repetitivo.
    Tormento, fingimento, ser em estar ausente.
    Velho e novo, refundidos, abertos num livro…

    Os grãos de areia podem ser incontáveis,
    mas o mar recolhe um a um, a toda hora.
    O resto são espumas, simples brincadeira…

    Do tempo incerto, mãos postas e flecha ligeira
    tangem no pensamento cenas impublicáveis,
    pois o que habita hoje, amanhã já não mora…

  • A Vida em Bullet Points

    Dizem que “a fila anda”. Talvez ande nos relacionamentos. Já na minha lista de tarefas, ela parece ter criado raízes.

    Ela nos persegue pelo celular, mandando alertas sonoros de tudo o que ainda não foi completado. Para quem prefere o caderninho, nem isso resolve: as tarefas não riscadas ficam ali, silenciosas, aguardando o momento de despertar a culpa.

    Tenho a impressão de que as listas de tarefas se reproduzem durante a madrugada. Vou dormir com oito itens e acordo com quinze.

    Cumprir uma To Do List é como correr na esteira vendo uma paisagem virtual: a trilha avança, mas quem continua parado somos nós.

    Outro dia risquei “trocar a lâmpada da cozinha” e, quando voltei à lista, ela já tinha gerado “limpar o lustre”, “organizar a área de serviço” e “pesquisar iluminação para ambientes pequenos”.

    Às vezes tento me lembrar quem colocou tudo aquilo na lista. Não encontro outra explicação senão a de que as listas ganharam vida própria e passaram a escrever novos itens quando ninguém está olhando.

    Suspeito que exista um aplicativo clandestino frequentado exclusivamente por tarefas. Lá, num ambiente chamado Todobook, elas trocam informações e combinam estratégias para nunca desaparecer completamente. Até flagrei uma luz acesa suspeita uma noite dessas no meu celular.

    Talvez eu devesse anotar “não fazer nada” no topo da lista. O problema é que, conhecendo seu gosto pela provocação, ela logo acrescentaria três subtarefas, dois lembretes e um prazo final.

    E ainda me enviaria uma notificação perguntando por que a tarefa está atrasada.

  • As tentativas de WALDINEIDE

    A primeira vez que tentou se matar, tinha dezoito anos. Entrou no mar de São Conrado e nadou até cansar e perder as forças. Foi resgatada pelo helicóptero dos bombeiros. Aos salva-vidas, envergonhada, não revelou a tentativa malfadada de suicídio. Ironicamente, ainda agradeceu por ter sido salva.

    Waldineide amaldiçoava o pai pelo nome recebido. Seu Waldir era porteiro de um prédio na Barra da Tijuca. Ele, a mulher, Neide, e a filha moravam num barraco na Rocinha. Waldineide preferia chamar de comunidade.

    Talvez nem quisesse de fato morrer, apenas momentaneamente aplacar sua dor. Sentia a pior das dores, as desconhecidas, as que vinham da alma. Nada valia a pena nesta vida. Para seu Waldir, a filha era só meio maluca.

    Na segunda tentativa, ela subiu no parapeito do terraço de um edifício. O vento frio batendo em seu rosto pareceu querer empurrá-la para trás. Olhou para baixo, medindo a altura da queda. Nesse momento, descobriu que tinha vertigem de altura. Desistiu.

    A frustração foi enorme e ela começou a se achar incapaz até para se matar. Sentia-se ridícula. Não merecia permanecer viva.

    Seguiu tentando.

    Planejou enfiar sua cabeça no fogão e se envenenar com o gás. O cheiro forte, no entanto, alertou sua mãe que a retirou à força. Seu Waldir, quando soube, disse que a filha estava precisando de uma boa surra. Dona Neide impediu, a menina era sensível e devia estar passando por algum problema sério. Na verdade, eram incontáveis problemas. O atual era não conseguir se matar com competência.

    Uma amiga que soube das tentativas dela, falou sobre a existência de um serviço pela Internet de valorização da vida, que oferecia apoio emocional a quem tentava o suicídio. Waldineide desconfiava desse tipo de ajuda virtual e não se interessou. Além do que, estava decidida. Na próxima vez não iria falhar.

    No seu íntimo, temia por novo fracasso. Foi quando optou por matar-se com roleta russa. Havia algo lúdico que a atraía: o acaso definiria o seu futuro. Pegou o revólver do pai na gaveta, retirou as balas, deixando apenas uma na agulha e rolou o tambor.

    Colocou a arma no canto da testa e apertou o gatilho. Para sua sorte, ou azar, nada. Waldineide tentou mais uma vez. Como não tivesse morrido, suspeitou que não era para ela morrer com um tiro na cabeça. O destino decidira.

    Tinha gente que morria engasgada com azeitona, gente que morria de susto, de bala perdida ou atropelada por bicicleta, por que ela não conseguia? Sentia-se um ser mais risível do que já era.

    Não tomaria veneno para ratos, queria morrer com mínima dignidade, não como uma roedora de esgoto. Ainda havia a possibilidade do tradicional expediente de cortar os pulsos, mas ela não podia ver sangue, que desmaiava.

    Waldineide começou a se desesperar. Escolheu uma forma mais randômica: andaria, de madrugada, por lugares ermos e sinistros. Algum bendito marginal da favela completaria o trabalho. Depois de alguns dias perambulando por vielas e becos, finalmente, um assaltante a abordou. Ela ansiava pelo corriqueiro “a bolsa ou a vida” para, de forma categórica, devolver: “a bolsa, idiota. Atira logo”. Entretanto, escutou o habitual “perdeu”. Segurou com as duas mãos a bolsa e encarou-o: “pode me matar!”. O meliante, pego de surpresa, olhou-a de cima a baixo. Ela concluiu que, enfim, sua hora havia chegado e aguardou, de olhos fechados, o desfecho. O assaltante puxou-a pelo braço, levou-a para trás de um tapume e começou a rasgar suas roupas. Waldineide pretendia morrer, não ser estuprada. Enfrentou-o como pôde. Depois de muita luta, já exausta, com o maldito sobre seu corpo, conseguiu pegar no chão sua bolsa com o revólver da roleta russa. Tinha só uma bala. Apertou o gatilho no pescoço do bandido e ouviu o estampido. Em choque, desvencilhou-se do corpo ensanguentado dele, arrumou-se com o que havia restado de roupa e saiu correndo em disparada. Só queria fugir dali. Desaparecer, sumir do mundo.

    Soube depois pelos jornais que o tal rapaz fora encontrado vivo. Era tudo que ela queria, que ele sobrevivesse. A morte era dela, ele não tinha nada a ver com isso.

    Waldineide havia tomado uma decisão. A melhor maneira de realmente se conhecer era fazer o contrário. Numa manhã como outra qualquer, levantou da cama, escovou os dentes e foi até a cozinha. Pegou uma faca e a afiou, pacientemente. Dessa vez não ia vacilar. Enquanto cortava em fatias o filé de frango para o almoço, pensava na vida que teria pela frente.

  • Em Bocas de MATILDE

    Quando pequena, Matilde surpreendia a todos com sua estranha mania de engolir objetos. Chupetas, partes de brinquedos de borracha, bicos de mamadeira. Na escola impressionava colegas, engolindo canetas e lapiseiras. Era um dom. Todos diziam que no futuro ela trabalharia no circo como engolidora de espadas.

    A mãe culpava o pai por ter levado a menina no circo. Agora, essa novidade, engolidora de espadas…

    Matilde não vinha de uma família circense e nunca teve transmissão de saber artístico. Engolia e pronto. Aos poucos foi aprendendo a dominar as ânsias de vômito e os engasgos. A arte de engolir exigia treinamento para controlar músculos e reflexos do corpo. Sem dúvida, uma prática arriscada, se não houvesse preparação adequada. Para piorar, era autodidata e destemida.

    Com a mania de Matilde vieram também as dores de garganta, as inflamações. Examinada, teve suspeita de ulceração no esôfago. Mas nada nem ninguém conseguia afastá-la da tentação de engolir objetos.

    Sua mãe trancou todas as gavetas da cozinha que continham facas e garfos, como se isso fosse intimidar a filha. O desafio de encontrar outros artefatos cortantes a estimulava ainda mais.

    Na verdade, Matilde não aspirava tornar-se uma engolidora de espadas num circo. Apenas uma forma de se exibir e chamar a atenção.

    Na adolescência, com os namorados, ganhou fama no sexo oral e despertou a inveja e os ciúmes das colegas.

    Coincidência ou não, acabou solteira. Nenhum namoro foi adiante, apesar da reputação favorável do seu fetiche.

    Com o tempo, Matilde conseguiu o domínio de engolir cada vez mais fundo as coisas, com a inserção progressiva de objetos lisos, tubos e bastões de metal, alongando a língua, relaxando a garganta e controlando a respiração. Nessa época, também retirou as amigdalas.

    Por mais bizarro que possa parecer, tinha dificuldade em tomar comprimidos. Preferia esmagá-los com uma colher. Outra excentricidade era o cacoete de produzir um ruído constante, emitindo sons guturais com a garganta.

    Hospitalizada repetidamente para tratamento de feridas na faringe e inchaços na língua, finalizou seus dias solitária num instituto psiquiátrico. Impressionava a todos sua curiosa habilidade em engolir sapos.

  • Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira?

    Quantos anos cabem no breve espaço das 03h17 de um amanhecer de sexta-feira? Há passos no eco, pisos empoeirados da semana passada, taciturnos. Há o Cachambi, que dorme, às três e dezessete da manhã, já dezoito. Há o streaming para quem, como eu, de tão cansada, não dorme. Há um filme pandêmico, dor humana, tristeza, perda do olfato. Num streaming — todo o meu amor aos streamings que nos fazem companhia junto a uma Hocus Pocus de 500ml, 8.5% de teor alcoólico, promoção no Carrefour. Há a camisa verde oliva com cheiro do improvável. Lençóis limpos, travesseiros e a camisa verde que não reflete a cor dos olhos, mas do destino. Nada além, a pele é o único resquício, entre tecidos, aromas e memória.

    — Toc-toc

    — Quem bate?

    — Sou eu

    — É Tarde, entra

  • Essa vai para a coleção

    Meu armário abriga uma coleção curiosa: caixas vazias, sacolas elegantes e potes de vidro sem função definida.

    Em comum, todos carregam a mesma etiqueta imaginária: “Pode ser útil um dia.”

    Tenho uma verdadeira compulsão por colecionar inutilidades que considero superimportante guardar.

    Vai que surge um presente de última hora.

    Vai que resolvo organizar a papelada.

    Vai que abro uma loja de embalagens recicladas.

    Vai que descubro um talento oculto para Personal Organizer e transformo meu armário num caso de sucesso.

    Tenho potes suficientes para iniciar uma pequena fábrica de conservas.

    O detalhe é que não faço conservas.

    Nem pretendo.

    Guardo porque vai que preciso.

    Mas, vejam bem – isso não quer dizer que sou aquele tipo de pessoa que não desapega.

    Sou perfeitamente capaz de descartar um tênis velho, uma roupa que não serve mais, um saco Zip-Loc usado uma única vez…

    Humm… ato falho.

    O Zip-Loc não.

    É só lavar e reutilizar.

    A verdade é que não guardamos caixas, potes ou sacolas.

    Guardamos futuros imaginários.

    Meu armário já não fecha direito, mas sigo firme.

    Afinal, quando chegar o grande dia em que eu precisar de uma caixa dourada, três potes decorados e seis sacolas de papel reforçado ao mesmo tempo, estarei pronta.

  • Poema #18: O menino e o pássaro

    O pequeno menino olha demoradamente o céu.
    O voo de um pássaro branco…excitado,
    leve, branco, branco e leve: um estalo.
    Alvas penas de um delírio todo seu.

    Corpo sem brilho é beijo de encontro à terra,
    um desespero brusco de última chance.
    Molhado pelo sangue o passeio se encerra…
    dentre tantos pássaros, quem quer, que cante.

    Asas se abrem e contorcem no mesmo instante.
    Tudo é ferida, escuridão, lágrimas e repete
    o menino a dor do pássaro agonizante…

    Chora compulsivamente pelo gesto estúpido
    Quando num triste movimento padece
    O pássaro branco, vermelho e mudo.

  • Se eu me perder

    O silêncio cresceu com a sombra mais densa. Então, os fones acenderam as lâmpadas incandescentes da plataforma, que pousava, num instante eterno, sobre a água. Era um simples trajeto de retorno à casa: sobre rodas que não tinha controle, observava o horizonte em que nada tinha fim, tampouco início. De repente, uma centelha flutuou acima, no compasso de seu coração. 

    Itália.

    Fevereiro.

    Março.

    Aquele abraço…

    Um simples caso de sorte genuína“, alguém disse.

    Sorte como híbrido entre sortilégio e providência; qual linguagem explica o que está diante dos olhos? O veículo estremece. Qualquer um percebe.

    O passar balança o assento; fora, o ritmo é outro. E então o tempo aniquila-se e desrelativiza anos em décadas, gerações em séculos. “Faça um pedido e levante os pés ao passar sobre trilhos de trem“, ouviu dizer.  Atenção ao trecho da rodovia que marca o passado na alma das cargas cheias de fumaça em sintonia constante às despedidas. Despir-se em idas. Voltar, outro.

    Faça um pedido“. Hoje. De novo. O mesmo pedido. Sempre.

    Predestinação como resposta a um chamado interno, lançado através das partículas desprendidas da luz de estrelas silenciadas.

    Um brilho cego. Partes que não são os pedaços de um todo, mas o próprio todo. Trechos intermináveis reconhecendo-se pelo caminhar. A boa e desejada sina, lapidada através dos sussurros internos. Nenhum sussurro passa incólume pelo universo.

    Ali, à sorte das rodas que a levavam de volta para casa, estava o que já havia chegado:

    duas pequenas marcas, dois pólos de uma só coisa, duas pintas. Marcas de nascença, tomadas de dois pinos espalhadas em corpos-

    espelho. Baco e Eros na certa apostaram alguma deliciosa ousadia, arremessando as marcas ao tabuleiro da Terra:

    Ache-o-par“, decretou Baco, erguendo mais uma taça de vinho tinto. 

    Mas o sabor era de um negroni sbagliato.

    As pintas reconheceram-se primeiro: eram dois pontos. No achar, perder-se . . Não mover-se: ninguém se move de si. 

    Escreveu-me, nesta manhã, o vidente e anti-cético Instagram:

    If I get lost, return me to Italy.”

  • SOLIDÃO

    Do nada, ela resolveu se isolar do mundo. Sumir do mapa. Escafeder-se. Largar tudo de vez. Pensou numa viagem solitária de barco pelos oceanos. Mas Yolanda nem sabia nadar. Aposentada pelo INSS, seu último emprego foi como caixa do Banco do Brasil. Lidou com o público e com a absoluta contrariedade de fazer isso. Tinha dias que parecia explodir. Controlou-se à base de comprimidos e orações.

    Não tinha mais ninguém, nem amigos nem família. Sua única filha, formada em Economia, tinha casado e se mudado para Boston, onde o marido trabalhava. Yolanda, ainda uma mulher atraente, havia se separado e não considerava, por ora, novos relacionamentos. Fechada para balanço, costumava dizer.

    A ideia era mesmo desaparecer. Alugou seu apartamento no Grajaú e mudou-se para Macuco, município de Cordeiro, na região serrana. Um pequeno sítio no meio do nada, cercado de jequitibás-rosa e muito mato. Um refúgio sonhado, longe da maçante humanidade.

    Yolanda sabia que o passar dos anos cobrava seu preço. As pessoas comentavam que envelhecer com alguém era mais divertido. Você podia compartilhar dores, aflições, limites e remédios. Na solidão da roça, não teria com quem conversar ou se aborrecer. Mas isso não a preocupava.

    Ainda não tinha vivenciado, na plenitude, a reclusão irrestrita. Uma coisa era não se ter vida social, fugir das aglomerações, da vizinhança impertinente, dos grupos de whatsapp, outra era o mergulho no abandono e no isolamento completo.

    A favor de sua ida para o sítio, havia a afinidade com a natureza. Yolanda adorava plantas. Em sua antiga casa, no Grajaú, colecionou vasos com orquídeas, samambaias e suculentas. Um problema a ser enfrentado seriam os mosquitos. Em especial, pernilongos. Na verdade, qualquer tipo de inseto. Nem precisava ser barata voadora, uma mariposa já causava pânico.

    Para se viver na solidão seria preciso aceitar a própria companhia. Yolanda achava que gostava à beça de si mesma. Não havia necessidade de estar convivendo com alguém. Sem contar o lado econômico: as principais despesas resumiam-se a alimentação e livros. Ela adorava ler e era boa cozinheira.

    Outra delícia era não haver televisão, sinal para a Internet e o celular ficar desligado. Bênçãos. Teria, enfim, seus ansiados momentos de autoconhecimento, foco e bem-vindo descanso.

    Com duas semanas no sítio, Yolanda pirou. Ouvia vozes, deu para gritar do nada e ter dificuldade para dormir com o silêncio opressivo. Também não havia supermercado perto e faltavam itens básicos, como sorvete de creme com nozes, iogurte grego e castanhas do Pará. Os malditos cachorros do sítio ao lado, volta e meia, invadiam seu quintal. Yolanda sempre teve medo de cachorro.

    Os dias se arrastavam. Quando chovia ficava tudo enlameado e se necessitasse de atendimento médico, o hospital ficava a quilômetros. Ela pensava seriamente em retornar à agitação urbana, ao progresso massacrante e à chatice das relações interpessoais. O sítio era bucólico, a natureza convidativa, a solidão plena, mas havia também um enorme vazio que ela não conseguia entender. Era como se tivesse o homem mais bonito do mundo, mas não houvesse ninguém para contar.

    Atualmente, Yolanda reside no Grajaú e divide o apartamento com uma ex-colega dos tempos do Banco do Brasil. De vez em quando, gosta de ficar isolada.

  • Amém

    Por debaixo da porta, a convocação. Primeira chamada às 19h.

    Salão lotado, ordem do dia sobre as cadeiras.

    Quando viu “3º item — sorteio das vagas”, Severo percebeu que cometera um erro grave: não tinha jantado.

    Leitura da ata.
    — Amém.
    Leitura do orçamento.
    — Amém.
    Leitura da troca do capacho.
    — Amém.

    Sorteio das vagas. Aí o inferno começa.

    — Alguém tem algo a colocar antes do sorteio?

    A senhora do 1º andar logo se manifesta: — Temos que estabelecer as prioridades. Tenho um problema crônico de coluna.

    Severo arregalou: — e o Hip-Hop?

    — O senhor do 18º: esse motivo não justifica. Eu, por exemplo, tenho dificuldade para enxergar.

    Severo ri: — Hoje está enxergando bem…

    A moradora do 2º andar se levantou, exaltada: — Nada disso! Tenho três crianças pequenas que chegam cansadas.

    Severo ia contestar.
    Suspirou fundo.

    Severo olha o relógio.

    Pensa no sanduíche.

    Sente cheiro imaginário de pizza.

    O estômago votou a favor do sorteio.

    — Amigos, sorteio é sorteio e vale para todos.

    Aos gritos pula a encrenqueira de plantão: — Você diz isso porque aluga a sua vaga, assim é fácil!

    Motim a bordo.

    Síndico e administradora se entreolharam.
    — Batem na mesa.

    — Está decidido – usaremos um software de sorteio aleatório dos apartamentos e de suas vagas.

    O grupinho do fundo, deu um pulo: — Somos totalmente contra!

    — Não é confiável.

    Recomeça a discussão.

    Severo pega o celular: — Jantar já era. Melhor pedir um delivery.

    Demora só 40’…

    Finalmente, silêncio.

    O software sorteia.

    Prenderam a respiração.

    O síndico anuncia: — Parabéns.

    Nada mudou. As vagas permaneceram exatamente as mesmas.

    Amém!

    Cadê o entregador de pizza?

  • POLICARPO

    É Policarpo, seu país não veio, não vingou…

    A bandeira que tremula na haste não conta mais as glórias do passado (se é que um dia já contou) e tampouco vislumbra as glórias do presente…

    Sua pátria, escondida entre farrapos, negociações e falsas intenções, desmorona todo dia. Todos os dias!

    No trabalhador que sua e sangra e não descansa!

    Na esquina em que se perde uma outra infância!

    Nas escolas abandonadas e no futuro dos jovens.

    Na promessa quebrada em que não há mais lembrança!

    É Policarpo… Você sonhou um país que nunca existiu!

    Aqui, o que plantam é mamata, rachadinhas, picuinhas, um arremedo de Brasil.

    Um país que maltrata professores e livros!

    Um país que não guarda a sua própria memória e vive errando a sua história.

    Um país que idolatra políticos e influenciadores e desvaloriza conteúdos e autores.

    É Policarpo… o avanço não veio. Não veio a utopia! E você não tem um cavalo que fuja a galope!

    Tudo acabou! Tudo fugiu! Tudo mudou! E seu nome não é José!

    Se você refizesse, se você reclamasse, se você mudasse, se você esquecesse… Mas você não está no poema de Drummond!

    Você acredita em um país que jamais existiu!

    Aqui, os piores são o exemplo. Os canalhas, os burocratas, os pilantras e sanguessugas ditam a moral! E, contra esse mal, parece que não há muito o que fazer! Desfazer?

    Aqui, quem tem padrinho tem sucesso e “reconhecimento”!

    Quem trabalha de verdade precisa trabalhar até a exaustão para se iludir com o crescimento!

    É Policarpo… O melhor mesmo é sonhar. No sonho, o que nos resta, é possível ver e viver um outro país. É possível criar Pasárgada!

    No sonho, é possível escrever uma nova história e, nesta história criada, pintar rostos diversos e sorrisos singulares que vão palmilhar muitos caminhos.

    Nestes caminhos, a palavra Brasil terá, enfim, o significado de futuro…

  • A nora de REBECA

    Quando completou 65 anos, Rebeca deu uma festa em casa e chamou o filho, a nora e os netos. Morando sozinha, não podia se dar ao luxo de extravagâncias na cozinha, então encomendou salgadinhos e um bolo de chocolate com nozes, que o filho amava.

    Pediu que não chegassem tarde por causa das crianças. Ela também queria dormir cedo. Depois da novela das oito, que começava nove e meia, normalmente era a hora em que o sono chegava.

    Tinha recusado o convite do filho para ir morar com ele. Sabia que o filho a convidava por convidar, já que ela e a mulher dele não se davam. Desde que a nora dissera que ela tinha necessidade de monitorar e invadir a privacidade deles. A partir daí, desistiu de tentar alguma aproximação. Não ia levar avante aquela provocação. Seu filho a escolhera como mulher e mãe de seus filhos, paciência.

    Para ela, a nora necessitava de terapia e medicação.

    Rebeca notou que passara a cair com frequência. Havia a suspeita de sarcopenia. Foi ao médico que não constatou nenhuma anomalia. Mesmo assim, fez exame de densitometria óssea. Nada. Tinha os ossos em bom estado, em conformidade com sua faixa etária.

    Rebeca continuava caindo.

    A cada nova queda, mais medo de cair. Esse medo gerava ansiedade, restringia as atividades e começava a gerar um certo isolamento social.

    Imaginou que talvez lhe tivessem feito uma macumba. Imediatamente pensou na nora. Por precaução, procurou um lar espiritual para se benzer. Uns passes cairiam bem, literalmente a quem estava caindo a toda hora. Riu-se do efeito cômico inesperado. Podia perder o equilíbrio e dar seus tombos, mas mantinha o humor.

    Mesmo com os passes e as benzeduras, continuava tropeçando e caindo. Vivia com joelhos ralados, marcas roxas pelo corpo e alguns cortes nos braços e cotovelos.

    Uma amiga sugeriu, com todo o cuidado, que ela talvez estivesse fóbica, ou seja, com medo de cair. Rebeca achou graça: “quer dizer que vivo caindo e não devo ter medo de cair?”. A amiga desistiu.

    Ao visitar o filho, quando se queixou das quedas, ele disse que era comum as pessoas perderem, com a idade, um pouco a estabilidade corporal. Rebeca fingiu não notar que a nora prendia o riso. Procurou se controlar e respondeu ao filho que estava amedrontada, afinal morava sozinha, podia cair, se machucar e não haver ninguém para a socorrer. O filho não levou a sério, e a nora recomendou que ela andasse de joelheiras. Rebeca quase perdeu a calma e o controle.

    No dia seguinte, acordou com o celular. Era a nora, reclamando que ela parasse de criar problemas para chamar atenção. Havia deixado o marido dela preocupado e até as crianças estavam assustadas. Ela ouviu, calada, quase sem acreditar. A nora insistiu para que ela procurasse o que fazer: ler para cegos, praticar ioga, ir à missa, qualquer coisa. Também seria bom que arranjasse um homem! Rebeca desligou. Pensou seriamente em contratar alguém para matar a nora. Querendo explodir de tanta raiva, ao levantar para ir ao banheiro, caiu e bateu com a cabeça na quina da mesa. A dor foi forte. Sentiu o sangue escorrer. Tentou levantar, foi ficando tonta e perdendo as forças. A imagem da nora lhe veio à cabeça. Caso não morresse, clicaria no Google por assassinos de aluguel. Com sorte, acharia um bem barato e discreto.

  • Somos Latino-Americanos

    Somos latino-americanos! De sangue quente e Sol! Brasil, Bolívia, Peru… Um céu lindo de azul!

    Somos latino-americanos! De marcas antigas coloniais, línguas americanas, línguas ancestrais. 

    Somos latino-americanos, de rostos e cores particulares, singulares, mas, ao mesmo tempo, diversos: índios, negros e brancos! E somos muitos! E Somos tantos!

    Somos todos José Arcádio Buendia, formando Macondos em vários lugares! Em sonhos e em outras realidades!

    México, Cuba, Haiti, República Dominicana…

    Somos a poesia de Neruda e a voz de Mílton Nascimento, o Bituca! Samba, salsa, tango!

    Somos latino-americanos! De sons e suingues, de mares e montanhas! Chile, Argentina, Colômbia, Venezuela…

    Somos Latino-americanos, lutamos contra os vários enganos, de veias abertas e prantos, ouro, prata e histórias! Carregamos memórias! Uruguai, Paraguai, Equador…

    E só nós sabemos o tamanho da nossa dor!

    Costa Rica, Guatemala, El Salvador…

    De sombrero e guacamole, bolo mineiro e azeite de dendê, somos tempero, esteio, estrela e poeira!

    Honduras, Nicarágua, Panamá…

    E esta terra de montanhas e lagos, florestas e mares é onde o futuro haverá!

    Somos latino-americanos e somos a mais conflitante poesia!

    A prosa e a poesia de uma América Latina inteira! De bandeiras e olhares, de músicas e linguagens, de marcantes paisagens: Andes, Amazônia, Patagônia…

    Somos latino-americanos!

  • Poema #04: Toma uma xícara de café comigo?

    Tempo, tempo.. passe logo, mas com calma!
    Para que a pressa?
    se preciso, eu, mais que vitaminas,
    do alimento para o viço que… reflete-me,
    [interna] e inteiramente?
    Que eu possa deleitar-me com o calor azul
    da caligrafia inexistente no papel que cheira a delírio

    Eis-me inteira,
    num instante errante,
    naufragada no suor de
    não pertencer.
    Cá estou.

    Inexpressiva no sorriso mais verdadeiro.

    Bate-me o peito em um não positivo.

    Eis me aqui. Intacta.

    Tempo, tempo…
    por que não fica para o café?
    Uma xícara, a água borbulha sobre o fogo…
    Fique, tempo! Me aceite.

    Tempo, tempo, tempo…
    passe logo, passe aqui, mas com alma!
    Que nossas pegadas sejam uma,
    ao sabor do que se apaga
    ao espreguiçar das ondas sobre a areia
    ao primeiro raio de sol

    Fique.
    faça de mim sua, senz’altro.
    Te espero
    Tempo, tempo…

  • MUSICALIDADES

    Nascera com o dom para a música. Precoce, Marília, com quatro anos já se aproximava do piano, como um beija-flor às flores. Uma profunda atração que deixava a todos impressionados. Com seus dois polegares tirava das teclas um som inédito. Futuras canções. A família, claro, providenciou uma professora.

    Aos seis, já arriscava o começo de algumas canções. Mas era mesmo no “cai cai, balão” que se realizava. Também esboçava, com o indicador, um “parabéns pra você” quase sem erros.

    Completava oito anos e a professora concluía que sua aluna não apresentava progressos. A bem dizer, quase uma nulidade. Não fosse a necessidade de ganhar uns trocados com as aulas, tinha comunicado à família que a pequena Marília talvez estivesse longe de ser um prodígio. Evitou dizer que havia grandes chances do contrário.

    Ainda assim, a professora admirava a sua tenacidade. A menina nunca desistia e não se cansava de ficar tentando acertar as notas e compassos. Sua mão direita era mais precisa que a esquerda. Ambas, ao mesmo tempo, é que causavam o entrave. Parecia não possuir a mínima coordenação.

    Aos doze, mudou de professora. A família achou por bem a troca, um novo professor, austríaco naturalizado, vindo de uma tradicional escola de música em Viena. O instrutor ideal para Marília se desenvolver.

    No começo, ainda mostrou melhoras, improvisando até uma pequena composição. Com o passar das aulas, no entanto, ficava clara sua inaptidão.

    O tal professor austríaco não resistiu muito tempo, decidindo abandoná-la, sem coragem de informar à família e à própria aluna que dali não sairia nenhuma pianista.

    Agora autodidata, Marília ainda impressionava por sua disciplina e força de vontade. Verdade que a família não mais disfarçava e se afastava a cada nova audição ou série de exercícios. Começavam as desconfianças.

    Os primeiros conselhos para que trocasse o piano por um outro instrumento, talvez um violão ou um acordeom, não a convenceram.

    Até que capitulou: desistiria do piano, mas nunca da música. Tinham ouvido falar muito bem da flauta doce…

    Foram, então, meses de inúteis e perdidos solos de flauta. Depois vieram as tentativas de gaita de fole, pianola, baixo elétrico, harmônica e percussão. A família acompanhava tudo, apreensiva.

    Aos dezoito, enfim, uma possível habilidade: a bateria. Porém, sua famosa dificuldade de coordenação dificultava a cadência.

    Alguns anos e ela também abriria mão da bateria, embora jamais passasse por sua cabeça abandonar a música. Esta, genuína vocação, fazia parte de sua alma, desde pequena.

    Tentaria o batuque na caixa de fósforos. Marília era boa nisso…

  • De Diva de Cinema à Madame Mim na Flórida

    Sempre admirei o glamour dos cabelos ao vento. Grace Kelly, Audrey Hepburn, Tippi Hedren… todas sabiam, como ninguém, enrolar as madeixas em um lenço de seda, solto o bastante para deixar escapar charme e liberdade. As cenas de Ladrão de Casaca, Charade e The Birds me provocavam sonhos de princesa: eu, num conversível, óculos escuros, lenço estampado e vestido decotado, enquanto uma brisa perfumada acariciava meu rosto.

    Eis que a vida me presenteia com a chance de transformar fantasia em realidade. A bordo de um Mustang vermelho conversível — ícone de mais de 3.800 produções hollywoodianas — eu faria meu début pelas estradas da Flórida. Escolhi vestidos leves, lenços estampados e até ensaiei, diante do espelho, o gesto charmoso de ajeitar o tecido no pescoço.

    O carro, recém-saído da locadora, veio chegando com toda pompa de um astro de cinema. Fiz uma reverência — não de adoração, mas de necessidade: para entrar, precisei quase me agachar, já que os bancos pareciam instalados no nível do asfalto.

    Uma vez emparedada no cockpit, pernas quase horizontais, respirei fundo. Não importava o aperto: logo sentiria o frescor dos cabelos ao vento.

    Capota baixada, lá fomos nós, rumo a Key West. O que eu não previa: temperatura de 38 °C, sol a pino, céu de brigadeiro. O meu lenço à la Grace Kelly se transformou, em segundos, num abafador de panela de pressão. O calor vinha de cima para baixo e de
    baixo para cima — o carro parecia uma chaleira sobre rodas. Eu, a iguaria em preparo.

    E os cabelos esvoaçantes? Ah, o cinema me enganou! Em vez de ondular delicadamente nas pontas, escapavam pela testa e pelos lados, grudando no batom e no suor. O lenço não parava no lugar; parecia ter vida própria. Resultado: uma cortina desgrenhada de fios colados ao rosto e uma maquiagem que derretia como sorvete no asfalto.

    Olhei no espelho retrovisor, esperando uma diva. Não vi Grace Kelly. Nem Audrey Hepburn. Nem Tippi Hedren. Vi, sim, Madame Mim versão churrasquinho: desgrenhada, vermelha como pimentão e com o glamour de um pastel de feira recém-frito.

    Me recuso, porém, a assistir A Espada Era a Lei!

  • “digitando… ”

    |

    Um traço vertical. Pisca, pensativo, opressivo; poético.

    Acho que assim, quase girando o travessão introdutório, na busca pela correspondência de (um) outro, nos injetamos, como tentativa científica, numa releitura d’um passado literário:

    Trocamos cartas, quase como que acendendo um cigarro à mesa de um café de iluminação lúgubre, jazz no fundo, um barman meio ranzinza a enxugar louças e vidros, solitário.

    Uísque.

    Na única mesa redonda ocupada, um casal.
    Casal de poetas conhecendo-se.
    Flertando com a rima que enxerga o narrativo; o tom, e não a beleza do outro.
    Há ausência do encontro.
    Há frequência do oposto.

    Um traço vertical.

    |


    De repente, a linha imperativa deita-se

    _

    Desmancha-se em circunferências pululantes. Três.

    Reticências

    Duas pessoas podem, paradoxalmente, preencher xícaras fumegantes à distância. Dedilhar acordes. Entoar palavras baixinho costurando o tempo e qualquer afastamento.

    Encontramo-nos

    justos, apertados, acariciados e no não-existir-e-esperar de uma tela iluminada ao alcance das mãos

    Dedos que abraçam uma caneta esferográfica: reflito.

    Na mão que me rotula destra ou canhota, dedos avançam na comunicação do meu corpo estrutura emocional e sensorial que não mais espera e esperneia para além tudo instantaneamente.

    Na margem branca entre uma caneta e outra

    no pulsar ritmado de um cursor em linha rígida, ditam e de gélido recado – cheia
    de nuvens – do outro lado da interface, espera

    “digitando… ”

    hesitação
    o quase
    o inteiro no “pronto.., foi ”

    Digitando a paga -se an tes da palavra,

    Ganhou forma na perda de seu sentido

    A carta incendeia ainda no ventre da máquina.

  • Quando duas palavras resolvem morar juntas

    “Sentipensante” — A primeira vez que li, acho que num texto relacionado à física quântica (o que só piorou a situação), achei que era um erro de digitação. Fiquei curiosa tentando decifrar o significado dessa estranha palavra, para mim meio parecida com CatDog (lembram do seriado?) ou de uma aberração ainda maior: o Feijoaçaí. Só de pensar, me embrulha o estômago.

    Corajosa que sou, fui em frente na leitura e descobri que “sentipensante” é uma palavra híbrida, dessas que misturam o frio da cabeça com o calor do peito, sem pedir licença para nenhuma das duas. Lindo isso, não? Fiquei íntima dela e agora, quando alguém questiona uma decisão minha que briga com a razão ou com a emoção, eu logo retruco: sou Sentipensante e coloco um ponto final.

    Logo imaginei que “Sentipensante” poderia ter vários amigos híbridos — quem sabe até formassem um grupinho nas redes sociais, daqueles discretos, mas cheios de opinião.

    Fui atrás e descobri a Escrevivência, boa para um papo longo de botequim. Lá nos sentamos, e ela me lembrou de que não existe escrita sem vivência — queijo com goiabada: um não existe sem o outro. O que estava eu fazendo, então, que não entrava a fundo na minha vida vivida para colocar no papel?

    Comecei, então, a rebobinar a meu passado, à procura daquele negativo nunca revelado que ficara na minha câmara escura, sem nunca participar do set da minha escrita.

    Mas aí a Experipensante, que observava o papo de outra mesa, se meteu: alto lá! Não se pensa antes para depois viver, pensa-se vivendo. Então corre lá viver isso tudo que brotou aqui. E eu, sem pedir licença — e talvez um pouco empolgada demais — inaugurei uma outra palavra: Expersentipensante. Até sorri da minha ousadia. Só faltava colocá-la em prática.

    Resumo da ópera: a língua inventa palavras porque a vida não cabe mais no dicionário. Aí surgem palavras híbridas que, como na vida, decidem morar juntas — mesmo que o dicionário torça o nariz.

  • A vida como deveria ser

    A gente pensa na vida como algo a ser resolvido depois porque tem urgências urgentíssimas sempre por fazer!

    E esquece, com isso, a flor, o amor, o amar, o mar e as rimas todas que estão no ar.

    A gente pensa que tem tempo, mas tempo, na verdade, não há!

    E esquece aquele encontro, o jogo com os amigos, simplesmente ficar de papo para o ar!

    A gente deixa o cinza e o concreto e o sinal fechado interromperem a fluidez das relações, a espontaneidade das coisas e, quando vê, não há mais nada o que fazer.

    A urgência mesmo é a própria vida nas suas explosões e contradições.

    A urgência simples das coisas é viver a vida a cada dia…

    A urgência urgentíssima é sentir, olhar, perceber, respirar, encontrar, fazer acontecer na conversa na varanda entre samambaias.

    Nas risadas entre um jogo e outro de futebol. Nos olhares cúmplices de irmãos trocados na cozinha e nas palavras que deveriam ser ditas e foram ditas… A vida no seu cotidiano!

    Que tal escrever aquele poema que estava esperando sair do papel?

    Que tal subir uma montanha e gastar os pés e o calçado?

    Que tal parar tudo e escutar o som da própria vida?

    A vida como deveria ser…

  • BELINDA diante do espelho

    Belinda talvez fosse uma sonhadora. Incurável.

    Não era bonita. Sonhava com o conceito de formosura, camuflado em todas as coisas. Quando ouvia Milton Nascimento na introdução de O que será? (À flor da pele), conseguia enxergar toda a beleza.

    Ouvia dos amigos que o lado físico não era tão importante. Havia o exótico, o magnetismo, a beleza interior. Belinda fingia concordar, mas passava horas no espelho, buscando encobrir vestígios de imperfeição no seu corpo. A verdade era que sempre dera total atenção à aparência.

    Preocupada com o visual, fixava-se nos detalhes, assimetrias ou características que fugiam aos padrões de beleza. Implicava com estrias, sardas, celulite e qualquer mancha na pele. Seu maior problema era o que os outros achariam dela.

    Tinha os dentes um pouco afastados, mas não se dava conta que eram um charme. Os ombros, um pouco largos, tentava disfarçar com vestidos. Achava os lábios grossos, sem perceber serem ótimos para beijar. A longa cabeleira ruiva recebia exagerada hidratação com óleos vegetais e queratina. Toda noite, antes de se deitar, o ritual de limpeza facial, sem que conseguisse evitar o constante aparecimento de espinhas. Sua preocupação com a imagem acabou por se tornar uma obsessão.

    Era complicado, mas teria de superar seu complexo de feiura. Está certo que seu nariz meio adunco não cooperava. Mas ninguém era perfeito. Seus um metro e cinquenta e dois de altura podiam ser resolvidos com saltos plataforma. Baixinha, mas com classe e equilíbrio.

    A fim de se sentir mais confiante, fez uma tatuagem com os dizeres “Eu não sou a minha imagem” na parte inferior direita do abdômen, por cima da cicatriz da operação de apendicite.

    Não costumava sair de casa. Adorava ver filmes, mas nunca ia ao cinema. Preferia a televisão. Revia diversas vezes a versão clássica de Zefirelli do amor trágico de Romeu e Julieta. Sua cena predileta era quando Julieta tirava a própria vida ao ver o amante morto. Belinda era dramática.

    Essencial era evitar a negação psicológica. Até admitia a existência de gordura localizada na cintura, mas considerava um suplício abrir mão da batata frita, do pudim de leite e dos bombons. Juntaria dinheiro para comprar umas canetas emagrecedoras. O importante era ela se sentir feliz com o seu corpo. Belinda seguia tentando.

    Numa noite, enquanto retocava a maquiagem, a grande epifania. Resolveu apagar a luz e olhar-se no escuro. Pela primeira vez viu, no breu, o seu verdadeiro rosto. Ou aquilo que gostaria de ter visto. Acendeu a luz e, com calma, retirou toda a maquiagem e reconheceu seu melhor ângulo na coragem de se mostrar como era, sem artifícios ou truques. Chegou mais para perto do espelho: Belinda, cabelos vermelhos, sardas, meio dentuça, bocão, acima do peso, celulite, espinhas pela cara e imperfeita como toda gente.

    Sempre que ouvia a ária de La Bohème, quando Mimi (Lucia) canta a sua paixão pelo primeiro sol da primavera, as lágrimas rolavam pela face, tomada de espinhas. No fundo, era uma feia romântica. Incorrigível.

  • Colóquio – simples e grandioso demais – de um café da manhã domingueiro

    — Eu queria tomar um café com alguém que parecia um livro interessante, mas dormi antes de chegar ao primeiro capítulo — disse Clara, mexendo o café fumegante, como que procurando um tête-à-tête com a leitura da borra, submersa, no fundo da xícara.

    Joaquim não ergueu os olhos do caderno.

    — Isso soa como frase de alguém cansada.

    — É exatamente isso.

    — Não. Parece uma frase de alguém que está tentando transformar cansaço em teoria.

    Ela riu.

    — Ainda me surpreendo com esse seu super poder de ler minha mente, gêmeo insuportável.

    — Eu conheço o começo da crônica antes de você.

    Ela levou a xícara aos lábios e fez uma pausa. Do lado de fora, mesmo sendo domingo, a cidade seguia seu costume de correr para algum lugar urgente: pneus arrastavam-se pelo asfalto da avenida. Portões metálicos recolhiam-se como quem se espreguiça. Portas batiam, entre o abrir e o fechar. Cachorros latiam. Alguém discutia ao telefone nalguma varanda vizinha. Aos fundos, os Dois Irmãos permaneciam imóveis, como fazem as montanhas e os irmãos que já disseram tudo um ao outro. Entre os de pedra e os de carne – estes, gêmeos -, a primeira manhã de inverno seguia seu curso quando Clara quebrou o ruído branco à mesa.

    — Outro dia li que existem milhões de brasileiros solteiros.

    — 81 milhões, segundo o Instagram. E, claro, você resolveu investigar.

    — Resolvi pensar.

    — O que é ainda pior.

    Ela ignorou a interrupção.

    — E me ocorreu que talvez boa parte dessas pessoas – nós, inclusive – não esteja solteira por falta de amor.

    — Mas?

    — Deduzi que estamos todos exaustos.

    Ele finalmente levantou os olhos.

    — Ah.

    — Ah?

    — Agora chegamos à crônica.

    Ela apoiou os cotovelos na mesa.

    — Trabalhamos demais. Sonhamos demais. Pagamos boletos demais. Focamos em construir carreiras pensando nas aposentadorias de um mundo com regime CLT em extinção… Estamos sempre falando de projetos, empresas, casas, versões melhores de nós mesmos… E, quando encontramos alguém interessante…

    — Dormimos.

    — Exatamente.

    — Isso é quase ofensivamente contemporâneo.

    Ela sorriu.

    — Você está dizendo que o desencontro de hoje em dia não é geográfico?

    — Não, Joca… se fosse isso, a internet já teria resolvido.

    — Tampouco cronológico?

    — Ah-ãh — Clara complementa a fala com o dedo indicador em riste, de um lado para o outro.

    — Então..?

    Ela apontou para a própria xícara.

    — Energético.

    Ele riu.

    — Essa palavra vai irritar metade dos seus leitores.

    — E a outra metade vai se sentir representada. E brindar com o café. – E erguendo a xícara para o irmão, disse:

    — Tim-tim!

    Ficaram em silêncio por alguns segundos.

    — Então o café não aconteceu.

    Ela o encarou.

    — Como você sabe?

    — Porque, quando acontece, você não escreve sobre ele.

    Ela tentou conter o sorriso.

    — Talvez.

    — Parecia interessante?

    — Parecia um livro interessante.

    — E?

    — Dormi antes do primeiro capítulo.

    — Isso realmente não é lá muito você.

    — É, pois é.

    Ela largou a lapiseira sobre a mesa.

    — E o pior: nem foi desinteresse. Foi apenas exaustão. A semana foi intensa, quase não consegui dormir. Imagine a pessoa aqui — apontou para si mesma — trocando um café por um travesseiro, sem qualquer heroísmo…

    — Escandaloso.

    — Eu achei.

    Ele voltou a rabiscar.

    — Então essa crônica é sobre homens?

    — Curiosamente, não.

    — Claro que não.

    — Como assim, claro que não?

    — Porque você nunca escreve sobre homens quando diz que está escrevendo sobre homens.

    Ela cruzou os braços.

    — E sobre o que estou escrevendo?

    — Ainda não sei.

    — Plantas.

    Ele assentiu, como se já soubesse.

    — Faz sentido.

    — Ah, é?

    — Você comprou um girassol, uma gelosia e uma ficus na semana passada…

    — E?

    — E já transformou todas em personagens.

    Ela fingiu indignação.

    — Das três, apenas a de folhas grossas e tronco mais vigoroso parece sobreviver ao meu ritmo.

    — A Magda.

    — A própria.

    O silêncio voltou a ocupar a mesa.

    — Então essa é a metáfora? — perguntou ele.

    — Quem sabe…

    Ela observou a espuma que resistia na borda da xícara.

    — As plantas que exigem presença constante sofrem comigo. Água na hora certa. Sol na hora certa. Atenção na hora certa.

    — E os homens?

    — Talvez padeçam pelo mesmo motivo. Mas homens não são plantas. Convenhamos.

    Ele terminou de escrever alguma coisa numa folha do caderno e a arrancou. Empurrou o papel para o outro lado da mesa.

    “Não julgamos os livros pela capa; às vezes só
    chegamos cansados demais ao primeiro capítulo.”

    Clara sorriu. Lá fora, a cidade continuava correndo. Ali dentro, entre duas xícaras de café e um punhado de folhas rabiscadas, surgia uma descoberta simples e grandiosa demais, partilhada entre duas mentes da mesma safra, para um domingo comum:

    Bem provável que o amor contemporâneo não esteja morrendo. Provável — muito provável — que estejamos, todos, apenas frustrados demais com tamanha falta de agenda.

  • Fantasias

    — O que foi dessa vez, Noêmia?

    — Sei lá. Não está funcionando.

    — Você sabe o trabalho que me deu arrumar essa fantasia de bombeiro, né?

    — Calculo.

    — E não era isso que você queria? Um bombeiro para apagar seu fogo com uma mangueira enorme?

    — Então…

    — Então, o quê?

    — Mangueira enorme, uma piada…

    — Sem ironias, Noêmia.

    — A questão foi que você não ficou bem de bombeiro, meu amor.

    — Sério isso? Já tentamos piloto de avião, você implicou com o meu quepe; vim de médico e você reclamou da falta de um estetoscópio; inventou um salva-vidas e faltou a boia. Agora a mangueira é o problema. Assim não dá.

    — Tive uma ideia.

    — O que será dessa vez, Noêmia?

    — Super-heróis. Sempre tive atração por super-heróis.

    — Pronto! Só falta agora me vestir de Batman.

    — Não, você está mais para Robin.

    — Que tal, He Man?

    — Inviável, você não tem a “Força”. Tinha pensado no Homem-Aranha.

    — Não acredito!

    — Você até se parece um pouco com o ator que faz o Peter Parker.

    — Nem sei quem é.

    — Começamos a conversar e você já mostra um desânimo danado. É broxante, sabia?

    — Você levou em conta, Noêmia, que aquela fantasia de Homem-Aranha deve dar um calor danado? Está fazendo quase 38 graus.

    — Ligamos o ar.

    — Não vai dar certo.

    — Você não disse que faria tudo para me satisfazer?

    — Mas não me desidratar.

    — Então, o Hulk.

    — O da televisão?

    — Não, o verde.

    — Onde vou arranjar tinta para o corpo? E também vai sujar a nossa cama toda.

    — Pensei também no Homem de Ferro, mas acho que não vai combinar com você…

    — Por quê?

    — Deixa pra lá. Apaga a luz. Vamos dormir.

    — Ei, Noêmia, sabe o que pensei? Posso me fantasiar de Wolverine. O que você acha da ideia?

    — Você está mais para Professor Xavier, querido.

    — Depois não vá reclamar que não quero participar das suas maluquices.

    — Wolverine é demais, meu amor. Deita e dorme.

    — O que foi agora, Noêmia?

    — Pensei na Mulher-Maravilha.

    — Fantasias homossexuais a esta altura?

    — Por quê, não posso?

    — Não vou passar por esse ridículo.

    — Bobagem, você ficaria uma graça de maiô com cinto e uma peruca.

    — Sem chance…

    — E aí, Noêmia, gostou?

    — Foi bom. Mas rápido demais.

    — Mas você não pediu o The Flash?

    — Não era ao pé da letra. A rapidez era só para tirar a minha roupa.

    — Sabe de uma coisa, melhor deixarmos pra lá esse negócio de sexo com super-heróis.

    — Logo agora que eu tinha pensado no Thor?

    — Desisto…

  • O Rei, o poeta, a mulher e o mar

    Conto publicado no livro O rei, o poeta, a mulher e o mar

    Um reino é algo muito sério. É algo místico, um poema, embora inacabado – posto que um reino situa-se no lugar dos sonhos, em terras longínquas da memória – mas vivo e pulsante. Tudo já se desfez, tudo se desfaz e tudo ainda está por se desfazer. Uma canção do tempo sem tempo.

    O rei, homem culto, sabedor dos livros, das histórias de paz e das histórias de guerra, era angustiado ser. Conhecia das nuvens o mistério, dos gritos do mar os apelos, da musicalidade do tempo o motivo. Conhecia os palmos, os metros, os quilômetros, enfim, a extensão real e a extensão imaginária do seu reino. De cor e de olhos e de boca e de memória sabia os rios, as matas, as aves, os bichos todos. Sabia os rostos e os nomes dos soldados vivos e mortos do seu exército.

    Quando abria as mãos, as linhas que se desenhavam nas palmas pareciam os limites, as fronteiras postas, justas, expostas. Aquelas que se alargariam com o tempo e com as batalhas e com o sangue de muitos.

    O rei fitava, do alto da torre mais alta e mais larga, tudo o que conquistara e tudo o que deixara: mocidade, amores, filhos…Vislumbrava uma riqueza sem tamanho e sem medida. Entretanto, o que há pouco tempo era motivo de orgulho e sagacidade, transformara-se em silêncio e tristeza. Silêncio primeiro.

    Tristeza depois.

    Os barcos iam e vinham do leste a oeste, de uma ponta a outra, com o frio e com o calor… Inúmeras bandeiras: vermelhas, amarelas, azuis e brancas…

    Velas e mastros inúteis. Marujos e mais marujos imprestáveis! Muralhas, pedras, visgos estéreis. Exército desassombrado de espadas sujas e pó. Heróis e nada.

    Léguas e léguas e terras e terras sem fim. Havia um fim. O homem que sabia e tinha tudo e que era senhor das coisas e de outros homens e de outros sonhos não via mais sentido em nada.

    De súbito, deixou o trono, no canto largou também as vestes reais, depositou a coroa sobre a mesa e de si para si pensou que o viço do mar o vislumbrava, que o barulho das ondas o chamava, que o cheiro do amor o excitava…

    Do grito do mar os apelos. Os apelos. Os apelos!

    Abriu as grandes portas de madeira e os soldados, mudos e espantados, não ousaram perguntar o motivo da nudez real. O rei, por sua vez, olhou um a um, de cima a baixo. Homens servis e sem vontade própria. Apenas temor e obediência. Basta!

    Avançou para o pátio e a guarda, também atônita e silenciosa, acompanhava os seus movimentos cada vez mais rápidos, cada vez mais decididos. Após atravessar toda a extensão do pátio central chegou ao portão primeiro, àquele chamado de principal. Do mesmo modo, os que guardavam mais uma entrada nada disseram, nada fizeram…

    A rua, as ruas. Pequenas. As casas, as pessoas, os bichos, as plantas, todos olhavam para o rei. Este, com passos largos e firmes, seguia em direção ao cais. Os apelos do mar!

    Mas eis que um velho e louco poeta o interrompe. Estava nu! Um rei nu! Não podia estar nu! Ninguém ousara dizer, contudo, ele dissera. Estava nu e pronto! Imagine um rei nu! Prestava-se a um papel ridículo!

    Os olhos reais, graves e sérios, emudeceram o poeta. Não! Não estava nu! Estava livre… Completa e absurdamente livre! O reino era uma coisa inventada, um poema, um conto quem sabe! O rei, uma peça, um senão, um coitado! O que diria o poeta com as suas mais belas e fortes palavras? Hein? Escreveria sobre o ouro do sol e das paredes do palácio, das tempestades e do mito real destroçando um monstro marinho. Heróis e nada! Os apelos do mar… Nem mesmo as palavras o prenderiam… O poeta, estupefato, tentou tocar-lhe o ombro, no entanto, a decisão estava tomada: era o mar. E prosseguiu acelerado rumo ao cais. Maravilhado pela vontade real, o poeta resolveu acompanhá-lo, mudo, mas feliz em ver um homem tão firme em seus propósitos.

    Agora dois homens buscavam o mar.

    A medida em que caminhavam, deixavam mais pessoas boquiabertas. Vilas ficavam para trás. E outros bichos e outras gentes contavam a respeito do rei nu e do velho e louco poeta que atravessavam o reino em busca do mar. Dois homens que andavam firmes e ligeiros. Dois homens apenas…

    Uma mulher.

    E isso tem significativa importância para uma história – qualquer que seja – a presença de uma mulher. Não era tão bela, não era tão baixa, não era tão triste. Uma mulher que carregava um enorme saco, o rosto cansado, cabelos longos e claros e os olhos que denunciavam lágrimas de outrora. O poeta a viu. O rei a viu. A mulher os viu. Postos os olhares e as almas, a mulher largou o que tinha e os seguiu sem dizer palavra. Sentiu-os como a brisa, sentiu-os como o mar… O rei estava livre, o poeta estava absorto e a mulher… Bem, a mulher levava consigo os pensamentos, o coração e os sentidos de uma mulher…

    O mar já próximo estava daqueles três seres. O cheiro e o sabor das águas tomavam cada qual de um jeito: a excitação real, a translucidez do poeta e os sentimentos da mulher. Força, palavra e coração. Vento, barco e desejo.

    O último obstáculo: a montanha do sul. Elevada formação rochosa. Pedra. Pedra-pedra. Pedra-só. Pedra inteira e decididamente pedra. Três criaturas que voavam pelo caminho, deixando poeira e mais gentes e bichos perplexos. A história do rei e do velho poeta agora contava, também, com uma mulher de olhos cansados. Decerto desamara a infeliz. Desamara a vida. Desamarrara, no entanto, o que havia feito, pensado, sentido. Estava pronta para o que ainda não fizera, pensara ou sentira.

    O vento forte daquelas terras castigava todos os três. De mesma forma. Mesma medida. Pele seca, carne pouca, mãos pesadas, ouvidos raros, porém, olhos acesos e pisadas precisas… Toda pedra tem sua função de pedra. Toda pedra tem sua porção de mal: machuca, rala, corta, sangra, corta, rala, machuca, sangra, corta. Mas passa.

    O mar… O mar já se via! O mar já se via! Ah! O cheiro do mar e o gosto do mar e o sabor das ondas… As águas e os olhos. Assim como um poema breve, como um poema apenas. E os três caminhantes respiravam já o mar, sentiam o que se tem para sentir quando se busca o mar: amor água sal vento vela palavra muda descoberta.

    Não demorou nada e as mãos reais tocaram as águas e as lágrimas da mulher e as palavras do poeta se misturavam àquela cena. Um barco queria. Um barco só. E os homens que estavam no cais não disseram coisa alguma, apenas consentiam com o baixar de cabeças. Tomou-lhes o barco branco, cujo nome, AURORA, fazia gosto, desde o primeiro olhar, ao coração da mulher.

    Sobreveio a chuva.

    As amarras foram retiradas e os ventos desenhavam as ondas e o amor impulsionava a embarcação. Uma nau e sua pequena tripulação. Todos os que assistiam tão insensata cena, horrorizados estavam com o tempo e com a chuva e com os fortes ventos. Ninguém vai ao mar assim! Ninguém vai ao mar assim! O que se quer é a morte. O que se quer é o fim…

    Mas.

    O rei, o poeta e a mulher não responderam. Não olharam para trás. O barco, a nau, os sonhos, o que quer que sejam, estavam soltos estavam no mar. Eles eram o mar agora.

    Nenhum ser daquele reino jamais voltara a vê-los. Entretanto, no dia da partida não anunciada, os que se lembravam do rei, do poeta e da mulher, guardaram nos olhos, na cabeça e nos sentidos vários o último contorno da embarcação na linha do horizonte…

  • A Copa das geladeiras

    Existem fenômenos que a ciência ainda não conseguiu explicar.

    As pirâmides do Egito.

    A matéria escura.

    O motivo pelo qual abrimos a geladeira durante os jogos da Copa do Mundo.

    O melhor é que todo mundo faz isso. Se você está assistindo a Copa do Mundo com um grupo em sua casa, veja bem se não é assim mesmo.

    O jogo está empatado, faltam três minutos para acabar, o atacante avança pela direita, o estádio inteiro prende a respiração… e quem está no meio do sofá empurra os outros e se levanta para verificar se, por acaso, surgiu um pedaço novo de queijo desde a última inspeção realizada há exatos quatro minutos.

    Outro, torcedor fanático, rói as unhas.

    A amiga, que não entende nada de futebol, caminha pela sala torcendo as mãos.

    Independentemente do método escolhido para lidar com a tensão, mais cedo ou mais tarde todos acabam diante da geladeira.

    Lógico que são pessoas íntimas, mas, em circunstâncias normais, nenhum deles mantém uma relação tão próxima com a minha Samsung Duplex.

    Quanto mais decisivo o jogo, mais frequentes as visitas.

    E tem inserções específicas por perfil:

    – O fiscal de refrigerante, que conta quantas latinhas ainda sobraram;

    – o explorador de potes, que abre recipientes à procura de algo que não sabe nem dizer o que;

    – o supersticioso, que procura por um raminho de quatro folhas na gaveta de hortaliças;

    – e o peregrino da luz branca, que apenas contempla o interior da geladeira em silêncio, como quem procura respostas existenciais entre a margarina e o pote de azeitonas.

    Na final da Copa, a porta da geladeira passa mais tempo aberta do que fechada.

    Talvez a Copa não revele apenas como torcemos.

    Revele como esperamos.

    Porque diante da ansiedade, da incerteza e dos noventa minutos que parecem eternos, fazemos o que os seres humanos sempre fizeram: procuramos conforto.

    Alguns encontram na fé. Outros na estatística.

    Nós, brasileiros, procuramos na geladeira.

    E, quase sempre, encontramos apenas a mesma garrafa de água que já estava lá no primeiro tempo.

    Mas voltamos.

    Porque a esperança, assim como a Copa, é uma coisa que se alimenta sozinha.

  • Voos mais altos que nós mesmos

    O piso são nuvens; entre o céu e a terra, tal qual um dito rodapé, eis o cinturão cintilante que traz a cor das bagagens, no compartimento acima da cabeça e no nível do pé: laranja e amarela. Sigo fotografando estrelas sobre o oceano, a 12km de altitude, alaranjando a escuridão que me faz perceber Avior brilhando perto da ponta da asa metálica que me atravessa a madrugada e tantos tempos.

    Após turbulências tantas em terra, céu de brigadeiro, enfim.

    Enquanto isso, sem porto, me aproximo do lugar que meu pai me guarda. Trago a alma leve; no clarear do dia, Romeu e Julieta, versão Los Hermanos, chega-me ao coração pelos ouvidos.

    Tudo se ajeita depois das tempestades. A vida é a urgência das coisas extraordinariamente simples do dia-a-dia.

  • VÂNIA está nua

    Vânia sempre sonhou morar em Santa Teresa. Tinha um monte de amigos por lá. Frequentava os bares da moda, andava de bonde e se admirava com a quantidade de centros culturais e casarões históricos, subindo e descendo pelas ladeiras de paralelepípedos e trilhos.

    Todos tinham cara de artistas ou se vestiam como artistas. O bairro respirava boemia e contracultura e isso a fascinava. Pontos de artesanato e ateliês em cada esquina.

    Conseguiu alugar um apartamento no Largo dos Guimarães, lugar icônico do bairro. Vânia teve sorte. Uma amiga voltou para sua cidade natal e passou o aluguel para ela. Não era amplo, mas charmoso e bem decorado. Na cozinha, mal cabia a geladeira. Secar a roupa era uma complicação, o sol da tarde não ajudava. O cafofo era descolado, embora úmido no inverno. O maior atrativo era a vista. Da sua janela via um casarão antigo e, mais ao lado, o ponto de parada do bondinho. Bem perto, lojas de artesanato e um mercadinho de secos e molhados.

    Vânia se sentia no paraíso.

    Na janela do casarão que dava para seu quarto, Vânia começou a notar a presença de um rapaz de cabelos longos, barba e óculos escuros, que ficava olhando fixamente para dentro do apartamento dela. A antiga moradora não havia colocado cortinas, para a claridade entrar e ela acordar cedo. Dizia ser saudável despertar com a luz do sol. Vânia reparou que o tal rapaz não era feio. Quando ela o encarava, ele olhava para o céu. E assim ficava por um bom tempo. Esquisito.

    Ela se sentia invadida, vigiada. Total desconforto com aquele homem da janela do casarão. Não podia nem andar de calcinha e sutiã. Quando saía do banho, tinha que passar enrolada com a tolha no corpo. Todo o tempo, ele lá, firme, como uma sentinela em seu posto de observação.

    Resolveu enfrentá-lo, foi até a janela e mostrou o dedo do meio. Ele pareceu não se intimidar. Permaneceu olhando o céu, com o semblante mais deslavado do mundo. Até aparentava sorrir. Além de voyeur, um debochado.

    De um amigo a quem contou o que acontecia, ouviu a dica direta: “Fica logo pelada, amiga, que ele vai terminar cansando. Tipos assim gostam do suspense, da surpresa, têm o prazer de observar as pessoas na intimidade, mas não curtem a nudez escancarada”.

    Vânia simpatizou com a ideia, ainda mais que, sem querer admitir abertamente, estava começando a se interessar pelo vizinho estranho. Quem sabe, ele se animava e fazia contato, em vez de ficar só espiando com cara de pateta.

    No início, ela ficou inibida de passar nua pela janela. Como tivesse um corpo bonito e desejo de ser notada por isso, não demorou a, não só se despir, como também ensaiar poses eróticas. Passava a mão pelos seios, virava de costas e se abaixava, jogava os cabelos para trás e repetia caras e bocas. Colocou até música e experimentou um strip-tease amador.

    E o bonitão de óculos escuros lá, impassível. Olhando tudo para depois esquecer do mundo, enebriado com o céu. Coisa mais sem sentido. O que será que esse idiota vê lá em cima? Eu aqui, nuazinha em pelo e ele com essa pose de filósofo grego. Que se foda…

    Vânia resolveu esquecer o voyeur da janela e tratou de seguir a vida. Já se acostumara com a presença dele por ali, uma costumeira
    rotina.

    Em uma festa com amigos, ela soube que aquele seu vizinho era deficiente visual. Bastante conhecido no lugar, figura querida, sempre de bom humor e falante com as pessoas. Tinha a mania de repetir que era cego, mas conseguia ver as estrelas.

  • Comédia romântica

    Quando dois olhos se olham de uma maneira inesperada e se encontram e se sabem tão íntimos e tão inteiros, sente-se o fogo que arde sem se ver. Quando dois seres se veem próximos o bastante para dizer e celebrar o momento, vive-se o não contentar-se de contente. Quando duas bocas esperam, ansiosas, o suave toque ou o roçar de leve, percebe-se a dor que desatina sem doer.

    Quando duas almas dançam a canção imaginária dos amantes e ninguém os vê, e ninguém os interrompe porque há um tempo só deles, entende-se o solitário andar por entre as gentes.

    Quando duas histórias se entrelaçam e se fazem uma. Risos, brincadeiras, beijos e abraços, contemplação. O céu não é céu. As estrelas não são estrelas. Tudo é invenção. E inventam-se horas e coisas. Inventa-se a sensação. Quando duas mãos se aproximam e se querem. Quando dois sonhos se cruzam. Não importa o real.

    Importa a imaginação.

    Quando tudo isso acontece, a gente chama ou acha ou pensa ou diz que é amor. E vemos e vivemos intensamente o mundo inteiro. Os filmes, as músicas, os poemas, os comerciais, os bilhetes e o cartaz. As flores e a cena congelada do beijo entre a mocinha e o rapaz, Tudo é nada e nada é tudo ou tanto faz. Há muitos riscos, há muitos medos, mas queremos mais.

    E quando, enfim, acaba o quase infinito sentimento, o coração está ao chão, despedaçado. Mas não há motivos para o eterno sofrimento. Novos capítulos são escritos e novos personagens se inserem à trama. Suor, olhos arregalados e calafrio. Calor, contentamento e desafio. O amor?

    Mais uma crônica, mais um poema e mais uma canção…

  • Fragilidades Humanas

    Todos nós temos um talento especial para dar nomes elegantes aos nossos defeitos.

    A preguiça vira “cansaço acumulado”. A teimosia atende por “firmeza de convicções”. O excesso de compras costuma ser tratado como “aproveitar uma oportunidade imperdível”. E ninguém jamais admitiu ter sido fofoqueiro; no máximo, estava “bem-informado”.

    Talvez essa seja uma das fragilidades humanas mais universais: a habilidade de encontrar explicações generosas para comportamentos que, vistos de fora, pareceriam apenas escorregões bem comuns.

    Foi pensando nisso que me deparei com um documento capaz de elevar essa arte a outro patamar. Em um site especializado encontrei o testamento de um Monsenhor, datado de 1863. Depois das fórmulas de praxe — estar em perfeito juízo, temer a morte em hora incerta, professar a fé católica e desejar nela viver e morrer — surge a seguinte declaração:

    “Declaro que, por fragilidade humana, tenho sete filhos (7) já reconhecidos e legitimados por carta imperial.”

    Sete.

    Não um deslize momentâneo. Não um episódio isolado. Sete filhos devidamente reconhecidos, legitimados e registrados para a posteridade.

    O mais curioso não é sequer a existência da numerosa descendência, mas a explicação escolhida. Enquanto alguns de nós classificamos como fragilidade humana devorar a última coxinha da festa ou comprar um sapato desnecessário em liquidação, o Monsenhor trabalhou em outra escala.

    E o melhor vem depois: ele passa a relacionar os herdeiros um por um, como quem apresenta com legítimo orgulho os resultados de sua fragilidade.

    Confesso que achei difícil não admirar a sinceridade do homem. Afinal, se era para assumir a fraqueza, assumiu com método, persistência e excelente produtividade.

    Talvez por isso eu tenha lembrado de um trecho bíblico que parece combinar perfeitamente com a situação: “Se devo orgulhar-me, que seja nas coisas que mostram a minha fraqueza.”

    Nesse quesito, convenhamos, o Monsenhor tinha material de sobra.

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