Crônicas

A quem você deve seu mérito

No Brasil, o discurso da meritocracia ainda encontra solo fértil. Acredita-se, com quase cega devoção, que o topo da montanha foi conquistado a passos individuais – fruto exclusivo do talento, da disciplina e das noites mal dormidas. O discurso é sedutor, embora ignore uma pergunta que possa soar incômoda: quando você chegou lá, quem segurava a escada?

​Por trás de cada trajetória de sucesso, há uma estrutura invisível operando nos bastidores. Independentemente dos marcadores sociais ou da classe econômica, ninguém avança em absoluto isolamento. Há sempre alguém abrindo espaço, viabilizando o tempo e absorvendo os impactos diários para que outro possa brilhar. E é justamente esse ecossistema de suporte que uma parcela significativa dos “vencedores” se recusa a reconhecer.

​Vamos olhar para as estruturas corporativas, a ascensão meteórica de um homem de negócios frequentemente repousa sobre a anulação do tempo de uma mulher. Enquanto ele acumula horas extras e networking, há quem garanta a roupa passada, a refeição pronta e a casa funcional. O topo da carreira é financiado pela renúncia alheia.

​O mesmo fenômeno se repete no universo feminino. Para que uma mulher não racializada, de classe média ou alta conquiste espaço no mercado corporativo ou na academia, provavelmente precisa de outra mulher – frequentemente negra, periférica ou da própria rede familiar, como mães e avós – precisa assumir a retaguarda do cuidado. A emancipação de uma costuma ser pavimentada pela sobrecarga de outra.

​Medir a vida do outro pela própria régua é um exercício de miopia social. Dizer “se eu consegui, qualquer um consegue” desconsidera que nem todos navegam com os mesmos mapas ou sob as mesmas condições climáticas. Há quem enfrente a tempestade a bordo de um navio estruturado; outros estão sozinhos, em uma canoa rachada no meio do oceano, tentando tirar a água com as mãos antes que a estrutura afunde de vez.

​Pois deve ser fácil e delicioso bradar ao mundo que o sol nasce para todos quando o seu tempo, o seu estudo ou trabalho e a sua estabilidade foram construídos a partir do esforço e da exploração silenciosa de outros corpos – quase sempre, femininos. O mérito que ignora os bastidores não é conquista; é apenas privilégio desmemoriado.

Grazi Souza

Grazi Souza nasceu em Belford Roxo, em 1999, e vive na Zona Norte do Rio de Janeiro. Graduanda em Serviço Social pela UFRJ, é cronista e autora independente. Como escritora negra e periférica, encontra na filosofia do absurdo um ponto de partida para refletir sobre o cotidiano urbano, suas tensões e contradições. Sua escrita transita entre a contundência e a sensibilidade, transformando experiências comuns em narrativas de forte identidade autoral. Escreve desde a adolescência e, em 2026, publicou seu primeiro livro, Crônicas de uma Desencaixada.

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